 Leon Tolstoi - Guerra e Paz

Leon Tolstoi

Guerra e Paz


Livro I

     
     2a edio
     
     Publicaes Europa-Amrica
     Publicaes Europa- Amrica,
     
     Traduo de Isabel da Nbrega
     e Joo Gaspar Simes
     
     Editor: Francisco Lyon de Castro
     Edio n. 006112129


Livro Primeiro


Primeira Parte
     

Nota. - Grafamos em itlico o que no texto russo est em francs. Era costume da alta sociedade da poca usar habitualmente a lngua francesa nas conversaes mundanas.
     
     
     Captulo I
     
     - Pois bem, meu prncipe. Gnova e Luca mais no so do que apangios, domnios, da famlia Bonaparte. No, previno-o de que, se me diz que no teremos guerra, se se permitir ainda atenuar todas as infmias, todas as atrocidades desse - Anticristo (palavra de honra, para mim,  o que ele ), desconheo-o, deixo de consider-lo meu amigo, meu fiel servidor, como costumo dizer. Vamos, vejamos, como est, como est? Bem veio que lhe meto medo. Sente-se e conte-me novidades.
     Foi com estas palavras que em Julho de 1805 a conhecida dama de honor, ntima da imperatriz Maria Fiodorovna. Ana Pavlovna Scherer, acolheu o prncipe Vassili, pessoa importante e de alta estirpe, o primeiro dos convidados a chegar  sua recepo daquela noite. Havia algum tempo j que Ana Pavlovna tossicava, estava com gripe, como ela dizia - gripe era ento um novo vocbulo, que poucas pessoas ainda empregavam. Nessa mesma manh tinha ela mandado entregar, por um lacaio de libr encarnada, a toda a gente, indistintamente, um bilhetinho redigido nestes termos:
     
     Se no tem nada melhor a fazer. Senhor Conde - ou ento: meu prncipe -, e se a perspectiva de passar a noite em casa de uma pobre doente no o assusta muito, sentir-me-ei encantada de o ver em minha casa entre as 7 e as 10 horas. 
     Annette Scherer.
     
     - Meu Deus, que violncia! - retorquiu o prncipe no seu uniforme de gala, o peito coberto de condecoraes, na face achatada um ar florescente, sem ligar a mnima importncia a semelhante acolhimento.
     Exprimia-se nesse francs precioso, que falavam e em que at pensavam os nossos avs, e a que adicionavam esse sotaque protector, essas entoaes suaves to naturais a quem envelheceu na sociedade e com prestgio na corte. Aproximou-se de Ana Pavlovna, beijou-lhe a mo, exibindo a calva perfumada e reluzente, e sentou-se, tranquilamente, num div.
     - Antes de mais nada, diga-me, como tem passado, querida amiga? Tranquilize este seu amigo - prosseguiu ele no mesmo tom e numa voz em que, sob a cortesia e a afabilidade, transpareciam a indiferena e at mesmo urna certa mofa.
     - Como  que uma pessoa h-de passar bem de sade.., quando, moralmente, no pode deixar de sofrer? Quem  que no nosso tempo h-de estar sereno, desde que seja pessoa de corao? - redarguiu Ana Pavlovna.- Vai ficar toda a noite, no  verdade?
     - E a festa na Embaixada de Inglaterra?  hoje quarta-feira. No posso deixar de aparecer - disse o prncipe.- Minha filha ficou de passar por aqui para me levar.
     - Julguei que a festa tinha sido adiada. Confesso-lhe que todas estas festas e todos estes jogos de artifcio comeam a tornar-se inspidos.
     - Se tivessem sabido que era esse o seu desejo, teriam adiado a festa - tornou o prncipe, o qual, como um relgio certo, tinha por hbito dizer, em determinadas circunstncias, frases que ele prprio no esperava que fossem acreditadas.
     - No me atormente. Afinal, que decidiram em relao ao telegrama de Novosiltzov? O senhor costuma saber tudo.
     - Que lhe hei-de eu dizer? - volveu o prncipe num tom frio e enfastiado.- Que decidiram? Decidiram que Bonaparte chegou a ponto de no poder recuar e eu acho que est aqui, est a acontecer-nos o mesmo.
     O prncipe Vassili falava sempre com indolncia, como um actor que recita um papel h muito decorado. Ana Pavlovna, pelo contrrio, apesar dos seus quarenta anos, toda ela era vivacidade e expanso.
     Ser entusiasta era a sua funo social, e at mesmo quando no era essa a sua disposio natural procurava s-lo, para que as pessoas suas conhecidas se no sentissem desapontadas. O sorriso constrangido que lhe andava sempre no rosto, conquanto no dissesse muito bem com os seus traos j fatigados, denunciava, como acontece nas crianas mimadas, a existncia de um pecadilho, pecadilho de que ela no queria, nem podia, nem mesmo julgava til corrigir-se.
     No decurso da conversa sobre poltica. Ana Pavlovna exaltou-se.
     - Ah! No me fale da ustria! Talvez eu seja uma parva, mas estou convencida de que a ustria no quis nem quer a guerra. Est a atraioar-nos.   Rssia sozinha que compete salvar a Europa. O nosso benfeitor conhece a alta misso a que est destinado e cumpri-la-.  a nica coisa em que tenho confiana. O nosso sublime imperador tem um grande papel a desempenhar no mundo, e  to virtuoso e to nobre que Deus no o abandonar e h-de cumprir a sua misso: esmagar a hidra da Revoluo, ainda mais terrvel desde que encarnou nesse assassino e nesse salteador.  a ns, e s a ns, a quem compete resgatar o sangue do justo... E pergunto-lhe eu agora: com quem poderemos ns contar? A Inglaterra, com o seu esprito comercial, no compreende nem pode compreender toda a grandeza da alma do imperador Alexandre. Recusou-se a evacuar Malta. O que ela quer  ver, procurar na nossa conduta ideias reservadas. Que  que eles disseram a Novosiltzov?... Nada. No compreenderam, no podem compreender o desinteresse do nosso imperador, que nada quer para ele e tudo faz para bem da humanidade. E que prometeram eles? Nada. E at aquilo que prometeram acabar por no vir a realizar-se. A Prssia j declarou que Bonaparte era invencvel e que a Europa inteira nada podia contra ele... E eu por mim, no acredito numa s palavra do que dizem Hardenberg ou Haugwitz. Essa famosa neutralidade prussiana no passa de uma armadilha. S em Deus confio e no alto destino do nosso augusto imperador. Ele salvar a Europa!...
     De sbito calou-se, sorrindo ela mesma, antes de mais ningum, da veemncia das suas prprias palavras.
     - Estou persuadido - disse o prncipe com um sorriso- de que se a tivessem mandado a si, minha querida amiga, em lugar, do nosso muito querido Wintzengerode, a esta hora tnhamos tomado de assalto a adeso do rei da Prssia. Quer dar-me uma xcara de ch?
     - Com certeza. A propsito - acrescentou ela num tom sereno -, tenho hoje duas pessoas muito interessantes: o visconde de Mortemart; est aparentado com os Montmorency pelos Rohans, um dos mais ilustres nomes da Frana.  um dos nossos bons emigrados, autntico! E tambm o abade Morio. Conhece este esprito profundo? Foi recebido pelo imperador. Conhece-o?
     - Terei um grande prazer! Diga-me uma coisa - acrescentou, negligentemente, e como se s naquele momento se tivesse lembrado disso, quando, realmente, esse era o objectivo principal da sua visita. -  verdade que a imperatriz-me se interessa pela nomeao do baro de Funke para o lugar de primeiro-secretrio em Viena? Esse baro, ao que parece,  uma triste personagem.
     O prncipe Vassili pretendia ver nomeado para esse posto um filho seu, e o baro era a pessoa indicada para tal cargo pelas pessoas que procuravam ganhar a influncia da imperatriz Maria Fiodorovna.
     - O Senhor Baro de Funke foi recomendado  imperatriz pela irm - foi tudo quanto ela disse em resposta, secamente, e com um ar triste.
     Quando Ana Pavlovna pronunciou o nome da imperatriz pintou-se-lhe no rosto, subitamente, a dedicao e o respeito mais profundos e sinceros, ao mesmo tempo que lhe desceu sobre a mscara aquele ar de tristeza que nunca a abandonava sempre que, no decurso de uma conversa, se falava na sua augusta protectora. E acrescentou que Sua Majestade se tinha dignado testemunhar ao baro de Funke muita estima, enquanto o olhar novamente se lhe velava de tristeza.
     O prncipe, como que indiferente, mantinha-se calado.
     Ana Pavlovna, com a sua finura especial de dama da corte e o seu tacto feminino, ao mesmo tempo- que dirigia um remoque ao prncipe por ter ousado exprimir-se to livremente a respeito da conduta de uma pessoa recomendada  imperatriz, procurava de certo modo consol-lo.
     - Mas, a propsito da sua famlia - disse-lhe ela -, no sei se sabe que a sua filha, desde que frequenta a sociedade, faz as delcias de toda a gente. Dizem que  linda como os deuses.
     O prncipe curvou-se em sinal de estima e gratido. - Costumo dizer muitas vezes de mim para comigo - continuou Ana Pavlovna, depois de um momento de silncio, aproximando-se do prncipe com um sorriso gracioso, como se quisesse significar que estavam terminadas as conversas sobre assuntos polticos e mundanos e que as confidncias ntimas iam principiar -, muitas vezes digo a mim mesma que a felicidade neste mundo  coisa muito desigualmente repartida. Porque seria que o destino lhe deu a si, meu amigo, dois filhos to belos,  parte o Anatole, o seu benjamim, que no me agrada por a alm - tinha lanado esta observao num tom que no admitia rplica, franzindo as sobrancelhas... -, to encantadores? Sim, quando o senhor, na verdade,  a pessoa que menos importncia liga aos filhos; no os merece.
     E teve um sorriso vitorioso.
     - Que quer? Lavater diria que eu no tenho a bossa da paternidade - respondeu o prncipe.
     - Deixemo-nos de brincadeiras. Quero falar-lhe a srio. Sabe? Estou descontente com o seu, filho mais novo. Aqui entre ns - e um ar de tristeza lhe perpassou pelo rosto -, falaram dele perante Sua Majestade, e lamentam-no, a si...
     O prncipe no respondeu, mas ela, lanando-lhe um olhar significativo, aguardava, sem dizer palavra, que ele dissesse qualquer coisa. O prncipe Vassili franziu as sobrancelhas.
     - Que quer que eu faa? - acabou por dizer.- Bem sabe que fiz tudo o que um pai pode fazer pela educao dos seus filhos, e o que  certo  que ambos no passam de dois imbecis. O Hiplito, pelo menos,  um imbecil sossegado, enquanto o Anatole  um imbecil turbulento.  a nica diferena entre os dois - acrescentou com um sorriso mais constrangido e acentuado que de costume, enquanto as rugas que se lhe formavam em tomo da boca denunciavam mais claramente do que nunca a amargura e a irritao que inopinadamente o invadiam.
     - Para que  que as pessoas como o senhor ho-de ter filhos? Se no fosse pai, nada teria a censurar-lhe - disse Ana Pavlovna, erguendo os olhos cismadores.
     - Sou o seu fiel escravo, e s a si o posso confiar. Os meus filhos so os impecilhos da minha existncia. So a minha cruz, compreendo-o perfeitamente. Que quer?...
     Calou-se, mostrando com um gesto que se submetia ao cruel destino. Ana Pavlovna assumiu uma atitude cismadora. 
     - Nunca se lembrou, meu caro prncipe, de casar o seu filho prdigo, o Anatole? Dizem que as solteironas tm a mania do casalhento. No creio que eu j esteja em idade de ter fraquezas semelhantes, mas o que  certo  que conheo uma criaturinha que  muito infeliz com o pai, uma nossa parente, uma princesa Bolkonskaia.
     O prncipe Vassili no respondeu, embora, com o seu golpe de vista e a sua finura de homem de sociedade, desse a entender, num simples movimento de cabea, que no esqueceria o facto.
     - Pois a verdade  que o Anatole me custa por ano  volta de quarenta mil rublos - disse ele, sem que, evidentemente, lhe fosse possvel refrear o curso dos pensamentos. Esteve alguns instantes calado. - Que ser feito dele, dentro de uns cinco anos, se as coisas continuarem da mesma maneira? Aqui tem a vantagem de se ser pai.  rica, essa sua princesa?
     - O pai  riqussimo e avaro. Vive no campo. Deve ter ouvido falar nele.  um tal prncipe Bolkonski, que se reformou ainda em vida do falecido imperador e a quem chamavam o rei da Prssia.  um homem bastante inteligente, mas com as suas manias. No  nada cmodo. A pobre pequena  infeliz como tudo. Tem um irmo que casou h pouco com Lisa Meinen, um ajudante-de-campo de Kutuzov. Deve aparecer hoje por a.
     - Oua, querida Annette - disse o prncipe, pegando, subitamente, na mo da sua interlocutora e puxando-a a si. - Arranje-me isso e eu serei o seu muito fiel escravo para sempre: o seu escrafo, como o meu estaroste costuma escrever nos seus relatrios: com um f. Se  de excelente famlia e rica, no  preciso mais nada.
     E com os seus gestos fceis, familiares e graciosos que tanto o distinguiam, o prncipe inclinou-se, apertou a mo da dama de honor, beijou-a, e de novo se enterrou na sua macia poltrona, desviando a vista.
     - Espere - disse Ana Pavlovna, pensativa. - Ainda hoje mesmo falarei  Lisa, a mulher do jovem Bolkonski. E talvez as coisas se arranjem. Na sua famlia comearei a aprender para solteirona.
     

     
     
     
     Captulo II
     
     O salo de Ana Pavlovna foi-se enchendo a pouco e pouco. Toda a aristocracia de Petersburgo tinha aparecido, gente de idades e caracteres muito diversos, mas toda do mesmo mundo. Chegou tambm a filha de Vassili, a bela Helena, que vinha buscar o pai para a festa da Embaixada de Inglaterra. Exibia o seu monograma imperial e trazia um vestido de noite. E tambm apareceu a jovem e pequenina princesa Bolkonskaia, conhecida por a mulher mais sedutora de Petersburgo, que casara no ltimo Inverno e ainda no aparecera na sociedade por causa do seu estado de gravidez, mas que costumava frequentar as reunies ntimas. Por fim tambm surgiu o prncipe Hiplito, o filho do prncipe Vassili, na companhia de Mortemart, a quem apresentou, e em seguida o abade Morio e muitos outros.
     - Ainda a no viram, no a conhecem? No conhecem minha tia? - dizia Ana Pavlovna para os seus convidados, e com a maior gravidade ia-os conduzindo um por um,  medida que chegavam, - at junto de uma minscula senhora de idade, enfeitada de grandes fitas, que estava na sala contgua. Depois, pronunciando o nome de cada um deles, passeava, lentamente, os olhos entre os seus convidados e minha tia, e da a pouco desaparecia.
     Todos eram obrigados a cumprir aquele ritual, saudando esta tia desconhecida e intil, que a ningum interessava. Ana Pavlovna, muito sria e solene, assistia  cerimnia dos cumprimentos, dando a sua aprovao, sem abrir a boca. Minha tia falava a toda a gente, invariavelmente, nos mesmos termos, do estado da sade de cada um, do estado da sua prpria sade e do estado da sade de Sua Majestade, o qual, graas a Deus, passava agora melhor. E todos, sem mostrar, por decoro, que se davam pressa, se iam despedindo da idosa senhora com a sensao de alvio que se tem depois de se cumprir uma enfadonha obrigao e, claro est, para a no tornarem a ver em toda a roda da noite.
     A jovem princesa Bolkonskaia tinha trazido consigo o seu bordado num pequenino saco de veludo lavrado a ouro. O seu bonito lbiozinho superior, ligeiramente sombreado por uma breve penugem, era um pouco curto, mas nem por isso parecia menos gracioso entreaberto nem era menos delicioso no momo que fazia ao apoiar-se no lbio inferior. Como em geral acontece com todas as pessoas realmente sedutoras, estas suas pequeninas imperfeies, o lbio curto de mais e a boca entreaberta, tinham nela um atractivo especial, uma beleza prpria. Era uma alegria para todos a presena desta futura me to bonita, cheia de sade e de vida, suportando perfeitamente os incmodos do seu estado. Os velhos e os jovens entediados e cheios de enfado imaginavam-se como ela s por terem passado alguns momentos na sua intimidade. Todos os que conversavam alguns instantes com a princesinha podiam ver como o seu luminoso sorriso cintilava aps cada uma das suas palavras e como os seus dentes sempre  mostra eram de uma brancura esplendorosa, quanto bastava para que todos se sentissem naquele momento de uma particular afabilidade. E era assim a iluso que ela criava em toda a gente.
     A princesinha, no seu andar ondulante, caminhando em passinhos rpidos, deu a volta  sala, o saco de trabalho na mo, e depois de imprimir um jeito gracioso  toilette veio sentar-se num div, junto do samovar de prata, como se tudo que ela fizesse fosse uma espcie de divertimento no s para ela prpria, mas tambm para aqueles que a cercavam.
     - Trouxe comigo o meu trabalho! - exclamou ela, abrindo o saquinho bordado a ouro e como se se dirigisse, a toda a gente ao mesmo tempo.
     - Cuidado. Annette, no me faa uma partida - prosseguiu ela, desta vez para a dona da casa. - Mandou-me dizer que era apenas uma pequena reunio; olhe como eu venho vestida.
     Dizendo o que estendeu os braos para melhor deixar ver o seu elegante vestido cinzento, guarnecido de rendas, com uma larga fita a servir de cinto, um pouco abaixo do seio.
     - Esteja descansada. Lisa, ser sempre a mais bela - replicou Ana Pavlovna.
     - Sabe, o meu marido vai abandonar-me - prosseguiu ela no mesmo tom, dirigindo-se a um general.- Vai procurar a morte. Diga-me: para que serve esta maldita guerra? - disse ao prncipe Vassili, e, sem esperar qualquer resposta, voltou-se para a filha deste, a bela Helena.
     - Que pessoa deliciosa, aquela princesinha! - murmurou o prncipe Vassili, em voz baixa, para Ana Pav1ovna.
     Pouco depois da princesinha, entrou na sala um jovem corpulento e macio, de cabelo rapado, lunetas, calas claras,  moda da poca, um alto jabot e fraque pardacento. Este moo era filho natural de uma clebre personagem do tempo de Catarina, o conde Besukov, naquela altura moribundo em Moscovo. Ainda no tinha qualquer ocupao, acabava de chegar do estrangeiro, onde fora educado, e era a primeira vez que aparecia na sociedade. Ana Pav1ovna acolheu-o com a saudao que costumava usar para com as pessoas de mais baixa classe. No entanto, apesar deste seu acolhimento de inferior qualidade, ao v-1o entrar deixou transparecer no rosto medo e inquietao, como quando nos vemos perante qualquer coisa de desmedido e fora do seu lugar. Pedro era, realmente, um pouco maior que as outras pessoas, mas o receio que se pintara no rosto de Ana Pavlovna podia ser antes motivado por esse olhar ao mesmo tempo tmido e penetrante, observador e franco, que o distinguia de todos os demais convidados.
     -  muito amvel da sua parte. Senhor Pedro, ter vindo visitar uma pobre doente - disse-lhe Ana Pavlovna, trocando um olhar de pnico com a tia, a quem o ia conduzindo.
     Pedro resmungou uma frase incompreensvel enquanto com os olhos continuava  procura de qualquer coisa. Teve um sorriso jovial ao cumprimentar a princesinha, como se ela fosse um conhecimento ntimo, e aproximou-se da tia. O medo de Ana Pavlovna no era destitudo de fundamento, pois a verdade  que Pedro afastou-se dessa senhora sem esperar que a tia conclusse as suas consideraes acerca da sade de Sua Majestade. Ana Pavlovna, horrorizada, deteve-o.
     - No conhece o abade Morio?  uma pessoa muito interessante... - disse-lhe ela.
     - Sim, ouvi falar do seu plano de paz perptua, que  aliciante. Mas ser possvel?...
     - Acha que sim?... - observou Ana Pavlovna, para dizer alguma coisa, pronta a voltar ao cumprimento dos seus deveres de dona de casa.
     Pedro, porm, cometeu uma segunda indelicadeza: primeiro afastara-se da sua interlocutora antes de ela ter acabado de falar; agora retinha esta, dirigindo-lhe a palavra, quando ela precisava de o deixar. De cabea baixa e afastando as suas grandes pernas, ps-se a demonstrar a Ana Pavlovna a razo por que considerava quimrico o plano do abade Morio.
     - Falaremos disso mais tarde - disse Ana Pavlovna, sorrindo. 
     E, libertando-se daquele jovem sem hbitos de sociedade, regressou s suas ocupaes de dona de casa, continuando a ouvir e a observar, pronta sempre a intervir onde a conversa esmorecesse. Tal qual como um contramestre de uma fbrica de fiao que, depois de instalar cada um dos seus operrios diante do seu tear, se pe a andar de um lado para o outro, observando se os fusos param ou se esto a produzir qualquer rudo anormal, rangente ou spero de mais, e incansavelmente os retm ou lhes imprime o andamento necessrio, assim Ana Pav1ovna ia e vinha pelo salo, se aproximava dos grupos que se calavam ou falavam de mais, e com uma palavra pronunciada a tempo obrigava a mquina a comportar-se nos justos limites das convenincias mundanas. Mas todos estes mltiplos cuidados no a impediam de deixar perceber aos outros o receio especial que lhe causava o comportamento de Pedro. Ia-o seguindo atentamente com os olhos quando ele se aproximava para escutar o que se dizia ao p de Mortemart e depois dirigia-se para o outro grupo onde pontificava o abade. Para Pedro, que tinha sido educado no estrangeiro, esta soire em casa de Ana Pavlovna era a primeira reunio mundana a que assistia na Rssia. No ignorava que nestas salas estava reunida a fina flor da gente instruda de Petersburgo e por isso abria muito os olhos, como uma criana diante de uma loja de brinquedos. S receava perder qualquer sbia observao que lhe fosse dado ouvir.
     Ao ver reunidas ali todas aquelas personagens de aspecto distinto e cheias de certezas, estava sempre  espera de qualquer coisa particularmente espiritual. Por fim, aproximou-se de Morio. A conversa tinha-lhe parecido interessante. Deteve-se, aguardando o momento de expor o seu ponto de vista, como costuma fazer a gente nova.
     

     
     
     
     Captulo III
     
     A soire de Ana Pavlovna atingia o auge. Os fusos esparsos pela sala roncavam sem atritos e constantemente. Se se abstrasse de minha tia, junto da qual no estava seno uma senhora idosa, de rosto esqulido e como que consumido pelas lgrimas, algo deslocada no meio daquela brilhante sociedade, todos os demais convidados se haviam repartido em trs grupos. Um deles, formado especialmente de homens, tinha por centro o abade; no outro, uma roda de gente nova, pontificava a princesa Bolkonskaia, toda rosada e de formas um tudo-nada amplas de mais, atendendo  sua juventude; o terceiro era dirigido por Mortemart e Ana Pavlovna.
     O visconde era um jovem amvel, de traos finos e maneiras suaves, que a si mesmo, visivelmente, se considerava uma figura sensacional, embora, por mera boa educao, se oferecesse, modestamente,  curiosidade da sociedade em que se encontrava. Ana Pav1ovna, visivelmente tambm, dele tirava partido para regalo dos seus convidados. A semelhana do chefe de mesa, que gosta de apresentar, como coisa superlativamente delicada, uma posta de carne em que ningum ousaria tocar numa cozinha srdida, assim, na sua reunio. Ana Pavlovna ia servindo aos seus convidados, primeiro o visconde, e em seguida o abade, como se se tratasse de iguarias superlativamente requintadas. No grupo de Mortemart tinha vindo  baila, imediatamente, o assassnio do duque de Enghien. O visconde era de opinio de que o duque fora vtima da sua magnanimidade e que havia razes particulares para o ressentimento de Bonaparte.
     - Ah!, vejamos. Conte-nos isso, visconde - exclamou Ana Pavlovna, apercebendo-se com jbilo de que esta simples frase: Conte-nos isso, visconde, tinha um sabor a Lus XV.
     O visconde inclinou-se em sinal de obedincia e sorriu com toda a cortesia. Ana Pavlovna fez que o grupo o rodeasse e convidou toda a gente a ouvir a sua histria.
     - O visconde conheceu monsenhor pessoalmente - segredou ela ao ouvido de um dos convidados. - O visconde  um narrador perfeito - garantia a outro.- V-se logo nele o homem de sociedade - dizia a um terceiro. E o jovem foi apresentado  sociedade sob o seu ngulo mais distinto e favorvel, como um rosbife, num prato bem quente, todo guarnecido de salsa.
     O visconde preparou-se para dar princpio  sua narrativa e sorriu com finura.
     - Venha c, querida Helena - disse Ana Pavlovna  bela princesa, que estava a distncia, no centro do outro grupo.
     A princesa Helena sorriu: levantou-se, conservando nos lbios esse sorriso imutvel de mulher impecavelmente bela com que entrara no salo. No ligeiro roagar do seu vestido de baile todo branco, guarnecido de hera e musgo, no esplendor das suas brancas espduas, no brilho da sua cabeleira e no cintilar dos seus brilhantes, avanou por entre uma ala de cavalheiros, e, empertigada, sem fitar ningum em especial, embora sorrindo a todos, como se assim fosse dando a cada um o direito de admirar a beleza da sua cintura, dos seus ombros cheios, do seu decote muito pronunciado, conforme a moda da poca, levando aps si, na sua esteira, todo o esplendor da reunio, aproximou-se de Ana Pavlovna. Helena era to bela que no traa a mais pequena sombra de coquetterie; pelo contrrio, parecia ter vergonha da sua incontestvel, da sua por de mais poderosa e por de mais triunfante beleza. Dir-se-ia ser seu desejo, sem o conseguir, amortecer-lhe o prprio esplendor.
     - Que bela mulher! - eis a frase que vinha aos lbios de toda a gente quando ela passava. Como ao peso de uma estranha impresso, o visconde curvou-se um pouco e baixou os olhos no Momento em que ela se instalava diante dele e o iluminava, a ele tambm, com o seu imutvel sorriso.
     - Minha senhora, diante de um tal auditrio, receio no ser capaz - disse ele, inclinando-se e sorrindo.
     A princesa apoiou num guridon um dos seus braos nus, bem modelados, sem pensar que seria til responder. Esperava, sorridente. Enquanto durou a histria manteve-se com o busto erecto, contemplando, uma vez por outra, o seu lindo brao, cuja foi-ma perfeita se esmagava contra a mesa, ou o prprio colo, mais encantador ainda, sobre o qual ajeitava a gargantilha de diamantes; vrias vezes procurou acertar as pregas do vestido, e, quando a narrativa produzia algum efeito, trocava um olhar com Ana Pavlovna, copiando, imediatamente, a expresso da dama de honor, para depois imobilizar, de novo, a mscara no seu resplandecente sorriso. Como Helena, a princesinha tinha tambm abandonado a sua mesa de ch.
     - Espere, vou buscar o meu bordado - disse ela. - Ento, em que est a pensar? - acrescentou, dirigindo-se ao prncipe Hiplito. - Traga-me o meu saquinho.
     A princesa, que sorria, e dirigia a palavra a todos, produziu um certo burburinho ao sentar-se, alegremente, enquanto ajeitava as pregas do vestido.
     - Agora, sim! - exclamou, e, pedindo que se principiasse, ps-se ela prpria a trabalhar.
     O prncipe Hiplito, que veio trazer-lhe o saquinho, acompanhou-a na sua mudana de lugar, e, aproximando dela um fauteil, sentou-se a seu lado.
     O encantador Hiplito impressionava pela sua extraordinria parecena com a irm, tanto mais que, apesar dessa semelhana, era muitssimo feio. Os seus traos pareciam-se, de facto, com os da irm, mas nesta tudo resplandecia iluminado pelo seu eterno sorriso, jovem, satisfeito, pleno de vida, e 1)ela rara perfeio da sua beleza clssica; no irmo, pelo contrrio, o rosto era como que entenebrecido pela falta de inteligncia e por uma constante expresso a um tempo suficiente e azeda. Quanto  figura, era de corpo magro e enfesado. Tinha os olhos, o nariz, a boca continuamente contrados numa careta indefinida e desagradvel; os braos e as pernas tomavam-lhe sempre posies pouco naturais.
     - No se trata de uma histria de fantasmas? - murmurou ele, ao sentar-se ao lado da princesa, enquanto assestava o lorgnon, como se no pudesse dispensar esse acessrio para abordar uma conversa.
     - No, meu caro! - exclamou o narrador, surpreendido, encolhendo os ombros.
     -  que detesto as histrias de fantasmas - tornou ele, num tom de que se depreendia que ele falava e s depois de falar compreendia o que queria dizer.
     Tamanha era a segurana que punha nas suas palavras que ningum poderia dizer se essas palavras eram muito sensatas ou muito estpidas. Vestia um fraque verde-carregado, uns cales cor-de-rosa-plidos, meias de seda e escarpins.
     O visconde contava com muito agrado a histria, ento muito divulgada, segundo a qual o duque de Enghien tinha ido secretamente a Paris encontrar-se com Mademoiselle Georges e a se lhe deparara Bonaparte, que, por essa altura, tambm era ntimo da famosa actriz. Na presena do duque. Napoleo tinha tido, de sbito, um pequeno desmaio, coisa que lhe acontecia frequentes vezes, e ficara  merc do duque, circunstncia de que este no quisera tirar partido. Bonaparte, mais tarde, vingara-se desta magnanimidade do duque mandando matar o adversrio.
     A histria era muito bonita e cheia de interesse, sobretudo naquele ponto em que os dois rivais se reconheciam de repente, e as senhoras pareceram muito emocionadas com isso.
     - Encantador - exclamou Ana Pavlovna, lanando um olhar interrogativo  princesinha.
     - Encantador - murmurou a princesinha, espetando a agulha no bordado, como para mostrar que o interesse e o encanto da histria a impediam de trabalhar.
     O visconde mostrou apreciar esta homenagem muda, e, sorrindo, grato, prosseguiu na sua narrativa; mas nesse momento Ana Pavlovna, que ainda no tinha deixado de observar o jovem que tanto a assustava, ao ver que ele punha calor demasiado na sua conversa com o abade, falando muito alto, deu-se pressa em comparecer no local ameaado. Efectivamente. Pedro tinha-se embrenhado com o abade numa conversa sobre o equilbrio poltico, e este, visivelmente interessado pelo ingnuo entusiasmo do jovem, pusera-se a desenvolver perante ele as suas teorias favoritas. Ambos ouviam e respondiam com grande vivacidade e muito espontaneamente, e isso no agradava a Ana Pavlovna.
     - A soluo  o equilbrio europeu e o direito dos povos - dizia o abade. -  de toda a convenincia para um Estado poderoso como a Rssia, reputado brbaro, colocar-se generosamente  frente de uma liga que tenha por objectivo o equilbrio da Europa, e  assim que a Rssia salvar o mundo!
     - E como  que se obter esse equilbrio? - principiou Pedro.
     Mas neste momento Ana Pavlovna aproximou-se, e, fitando este com severidade, perguntou ao italiano como  que ele achava o clima do pas.
     O rosto do abade mudou repentinamente, tomando aquela expresso mortificada e doce que era a sua expresso habitual quando falava com senhoras.
     - To encantado ando com a gentileza de esprito e a distino da gente da sociedade, sobretudo do elemento feminino, em cujo meio tive a felicidade de ser recebido, que ainda no tive tempo de pensar no clima - respondeu ele.
     Sem abandonar o abade nem Pedro. Ana Pavlovna, para melhor os observar, arrastou-os consigo para o grupo em que estava.
     

     
     
     
     Captulo IV
     
     Nessa altura um novo convidado penetrou no salo. Era o jovem prncipe Andr Bolkonski, o marido da princesinha, um belo moo, de pequena estatura e traos acentuados e secos. Tudo nele, desde o olhar lasso e enfadado ao andar tranquilo e circunspecto, oferecia o mais violento contraste com a sua mulherzinha, a inquietao em pessoa. Conhecia to bem por dentro e por fora a gente da sociedade, que tanto o enfadava, que bastava v-la e ouvir-lhe o rudo das vozes para a sentir insuportvel. E entre todas as pessoas que mais o exasperavam contava-se, precisamente, a sua linda mulherzinha. Com um ricto que lhe alterou os traos regulares, afastou-se dela assim que a viu. Depois, beijando a mo de Ana Pavlovna e piscando os olhos, perpassou a vista pela assistncia.
     - Alistou-se para ir para a guerra, meu prncipe? - disse Ana Pavlovna.
     - O general Kutuzov - volveu Bolkonski, acentuando a ltima slaba zov, como os Franceses - teve a condescendncia de me chamar para ajudante-de-campo...
     - E Lisa, sua mulher?
     - Ir para o campo.
     - E no tem escrpulos de nos privar da presena da sua encantadora mulher?
     - Andr - exclamou esta ltima, dirigindo-se ao marido com a mesma coquetterie com que se dirigia aos estranhos -, que histria  essa de Mademoiselle Georges e Bonaparte que o visconde acaba de nos contar?
     O prncipe Andr franziu as sobrancelhas e desviou a cara. Pedro, que desde o momento em que Andr entrara no salo no mais tinha deixado de o seguir com o seu olhar alegre e amistoso, aproximou-se dele e pegou-lhe no brao. O prncipe Andr, sem se voltar, teve uma visagem de descontentamento para com aquele que lhe pegava no brao, mas, ao deparar-se-lhe o rosto sorridente de Pedro, um sorriso inesperado, amvel e bom se lhe pintou tambm na figura.
     - Que vejo?! Tambm tu na alta-roda?! - exclamou. 
     - Tinha a certeza de que o havia de encontrar aqui - retorquiu Pedro.- Queria pedir-lhe que me desse de cear - acrescentou em voz baixa, para no perturbar o visconde, que continuava a sua histria -  possvel?
     - No,  impossvel - respondeu Andr, rindo e fazendo compreender a Pedro, pela maneira como lhe apertou a mo, que isso era coisa que nem se perguntava.
     Quis dizer mais, mas nessa altura o prncipe Vassili e a filha levantaram-se, e os jovens abriram alas para os deixar passar. 
     - Desculpe, meu caro visconde - disse em francs o prncipe Vassili, segurando-o amistosamente pela manga, para que ele se no levantasse. - Esta estopada da festa em casa do embaixador priva-me do prazer de o ouvir e obriga-me a interromp-lo. Lamento muito ter de abandonar a sua maravilhosa recepo - disse ele, dirigindo-se a Ana Pavlovna.
     Sua filha, a princesa Helena, soerguendo ligeiramente a cauda do vestido, passou entre uma ala de cadeiras e o sorriso ainda lhe iluminou mais o belo rosto. Pedro contemplou esta beldade, ao v-la passar diante de si, com olhos onde havia admirao e quase receio.
     -  muito bela - disse o prncipe Andr.
     -  - repetiu Pedro.
     Ao passar, o prncipe Vassili pegou no brao de Pedro, e voltando-se para Ana Pavlovna:
     - Domestique-me este urso - disse. - H um ms que o tenho em minha casa e  a primeira vez que o vejo na sociedade. No h nada melhor para os rapazes que o convvio das mulheres inteligentes.
     Ana Pavlovna teve um sorriso e prometeu tomar conta de Pedro, o qual, como ela muito bem sabia, era aparentado com o prncipe Vassili pelo lado paterno. A senhora idosa que estava a fazer companhia a minha tia levantou-se, apressadamente, e correu para falar com o prncipe Vassili, que j estava no vestbulo. Perdera por completo o falso ar de interesse mundano que aparentara at ento. O seu bondoso rosto macerado pelas lgrimas s reflectia receio e inquietao.
     - Que me diz, prncipe, do meu Bris?! - exclamou ela, correndo atrs dele. Pronunciava o nome Bris acentuando particularmente o o. - J no posso estar mais tempo em Petersburgo. Diga-me, que hei-de eu comunicar ao meu desventurado filho?
     Conquanto o prncipe Vassili estivesse a ouvi-la com desprazer e quase que impolidamente, dando a perceber, mesmo, uma certa impacincia, a senhora que o perseguia sorria-lhe com uma amabilidade enternecedora e, para o no deixar afastar-se dela, pegava-lhe, inclusivamente, num brao.
     - No lhe custava nada dizer uma palavrinha ao imperador, estou convencida de que ele seria logo transferido para a Guarda - prosseguiu ela.
     - Esteja certa de que farei tudo o que puder, princesa - respondeu o prncipe Vassili -, mas no me  fcil dirigir-me assim ao imperador. Achava melhor que pedisse antes a Rumiantsov por intermdio do prncipe Galitne. Era bem melhor.
     A senhora idosa era a princesa Drubetzkaia, um dos mais ilustres nomes da aristocracia russa, mas, pobre, h muito que no frequentava a sociedade e tinha perdido as suas antigas relaes. Viera quela reunio para tentar obter a transferncia do seu filho nico para a Guarda. No se apresentara na recepo de Ana Pavlovna seno para falar ao prncipe Vassili e no fora por outra razo que escutara a histria do visconde. Mas as palavras do prncipe Vassili tinham-na desolado; no belo rosto pintou-se-lhe, por instantes, uma espcie de irritao, mas no por muito tempo. Logo se ps a sorrir, e apertando muito o brao do prncipe:
     - Oua, prncipe  disse -, nunca lhe pedi coisa alguma, nunca mais lhe tornarei a pedir seja o que for, nunca lhe falei na amizade de meu pai por si. Mas agora peo-lhe em nome de Deus que faa isso por meu filho e ficar-lhe-ei reconhecida at ao fim da vida - acrescentou, precipitadamente.- No se zangue e prometa-me interessar-se. J pedi a Galitzine, e ele no me quis atender. Seja bom menino como antigamente - e procurava sorrir, embora as lgrimas lhe boiassem nos olhos.
     - Pai, vamos chegar tarde! - exclamou a princesa Helena, que esperava  porta, inclinando a bela cabea sobre o ombro de esttua antiga.
     A influncia de que se desfruta na sociedade  um capital que convm salvaguardar para que se no dissipe. O prncipe Vassili sabia-o muitssimo bem, e, por isso, persuadido de que, se se pusesse a interceder por toda a gente, nada mais poderia pedir para si prprio, raramente lanava mo do crdito de que dispunha. No caso da princesa Drubetzkaia, no entanto, sobretudo depois do seu ltimo apelo, viera-lhe ao esprito uma espcie de remorso. Tinha ela evocado qualquer coisa de muito verdadeiro. Os primeiros passos na carreira devia-os ele, efectivamente, ao pai da princesa. Alm disso, pela forma como ela agia, verificava estar em presena de uma dessas mulheres, ou, antes, de uma dessas mes, que, quando se lhes mete qualquer coisa na cabea, s desistem desde que conseguem o que desejam, ou ento, no caso de uma negativa, so muito capazes de teimar, dia aps dia e a toda a hora, chegando inclusivamente a recorrer a cenas pblicas. Foi esta ltima considerao que o demoveu.
     - Querida Ana Mikailovna - disse ele, no seu tom familiar habitual e ao mesmo tempo desprendido -, -me quase impossvel fazer o que me pede; mas, para lhe demonstrar quanto a estimo e como respeito a memria do seu falecido pai, prometo-lhe que farei tudo quanto estiver na minha mo. Dou-lhe a minha palavra de que o seu filho ser transferido para a Guarda. Est contente?
     - Meu querido amigo, meu benfeitor! No esperava outra coisa de si; eu bem sabia que era bom.
     O prncipe fez meno de partir.
     - Espere, mais duas palavras. Uma vez na Guarda... -hesitou.- Como est em boas relaes com Mikail Ilarionovitch Kutuzov, peo-lhe que lhe fale de Bris para ajudante-de-campo; ficarei assim mais tranquila e nada mais lhe pedirei...
     O prncipe Vassili teve um sorriso.
     - Nada lhe prometo. Mal imagina os pedidos que chovem sobre Kutuzov desde que foi nomeado general-chefe. Ele prprio me disse que todas as senhoras de Moscovo tinham armado um complot para lhe oferecer os filhos como ajudantes-de-campo.
     - Ah!, prometa-me. No o deixarei partir, meu querido amigo, meu benfeitor...
     - Pai - voltou a bela Helena, no mesmo tom -, vamos chegar tarde.
     - Bem, at  vista, adeus. Est a ver? 
     - Ento fala amanh ao imperador?
     - Sem falta, mas no que diz respeito a Krituzov no prometo nada.
     - Ah!, prometa, prometa. Basile - exclamou Ana Mikailovna, perseguindo-o com um sorriso de mulher coquette, outrora natural nela, certamente, mas que ento estava longe de se harmonizar com a sua mscara decrpita.
     Evidentemente que tinha esquecido a idade e, pela fora do hbito, pusera em campo todos os seus expedientes femininos. No entanto, mal o prncipe Vassili saiu, logo ela retomou o aspecto frio e constrangido que aparentava anteriormente. Voltou ao grupo em que o visconde continuava a contar as suas histrias e fingiu que escutava, aguardando a oportunidade de se eclipsar, pois o assunto que a levara ali estava resolvido.
     

     
     
     
     Captulo V
     
     - Mas que me diz dessa ltima comdia da sagrao de Milo? - observou Ana Pavlovna.- E a nova comdia dos povos de Gnova e Luca, que iam apresentar as suas homenagens ao senhor Bonaparte sentado no trono e recebendo as homenagens das naes! Adorveis! No, mas  de endoidecer! Dir-se-ia que o mundo inteiro perdeu a cabea!
     O prncipe Andr ps-se a sorrir olhando nos olhos Ana Pavlovna.
     -  Deus quem ma d, ai de quem lhe tocar - disse ele. Foram estas as palavras que Bonaparte proferiu na coroao. Dizem que estava muito belo quando pronunciou estas palavras - acrescentou, e repetiu a frase em italiano - Dio me lha data e guai a chi la tocca.
     - Espero, enfim - prosseguiu Ana Pavlovna - que esta seja a gota que far transbordar o vaso. Os soberanos j no podem mais com este homem, que a todos ameaa.
     - Os soberanos? No falo da Rssia - observou o visconde com o seu ar corts e desencantado, - Os soberanos, minha senhora! Que fizeram eles por Lus XVI, pela rainha, por Madame Elisabeth? Nada - continuou com animao. - E pode crer, esto a receber o castigo pela traio  causa dos Bourbons. Os soberanos? Mandam embaixadores cumprimentar o usurpador.
     E, suspirando, retirou-se com uma expresso desdenhosa. O prncipe Hiplito, depois de ter estado a fitar longamente o visconde com o seu lorgnon, ao ouvir estas palavras, desviou-se subitamente, voltando-se para a princesinha, e, pedindo-lhe urna das suas agulhas, ps-se a indicar-lhe, desenhando-as em cima da mesa, as armas dos Conds! E explicava-lhas com uma tal seriedade que dir-se-ia que ela lhe pedira um tal servio.
     - Basto de goles, denteado de goles de blau,  a casa de Cond - murmurou ele.
     A princesa ouvia-o, sorrindo.
     - Se Bonaparte ficar ainda um ano no trono da Frana - prosseguiu o visconde com ar de quem no ouve o que os outros dizem e est apenas a seguir o fio das suas ideias a respeito de um assunto que conhece melhor do que ningum -, no sei onde iremos parar. Com tantas intrigas, tantas violncias, tantos exlios, tantos suplcios, no tarda que a sociedade francesa, a alta sociedade, claro est, se veja completamente aniquilada e para sempre, e ento...
     Teve um movimento de ombros ao afastar os braos. Pedro quis dar a sua opinio, pois a conversa interessava-o, mas Ana Pavlovna que o vigiava de perto, interrompeu-o.
     - O imperador Alexandre - disse ela com aquele tom srio com que se referia sempre  famlia imperial- declarou que deixaria os prprios franceses escolherem a sua forma de governo. E estou convencida de que no h dvida de que toda a nao, uma vez liberta do jugo do usurpador, se lanar nos braos do seu soberano legtimo - acrescentou ela, para se mostrar amvel para com um emigrado e um realista.
     - Duvido - observou o prncipe Andr.- O Senhor Visconde tem toda a razo ao pensar que as coisas j foram longe de mais. Creio que ser muito difcil voltar ao passado.
     - Pelo que eu tenho ouvido dizer - interveio Pedro, corando -, quase toda a nobreza est j do lado de Bonaparte.
     - Isso  o que dizem os bonapartistas - observou o visconde sem olhar para Pedro. -  muito difcil, actualmente, conhecer a opinio pblica em Frana.
     - Bonaparte disse-o - objectou o prncipe Andr, sorrindo. Via-se muito bem que o visconde lhe no agradava e que, sem olhar para ele, era ele que visava como seu adversrio.
     - Mostrei-lhes o caminho da glria - acrescentou ele, depois de uma ligeira pose, citando as prprias palavras de Napoleo: eles no o quiseram; abri-lhes as minhas antecmaras, entraram por ali dentro aos montes.., no sei at que ponto teve o direito de o dizer.
     - Nenhum - replicou o visconde.- Depois do assassinato do duque, at os seus mais fiis partidrios deixaram de ver nele um heri. Se essa peste chegou a ser um heri para certa gente - acrescentou, dirigindo-se a Ana Pavlovna -, depois do assassinato do duque h mais um mrtir no Cu, um heri de menos na Terra.
     Mal tiveram tempo. Ana Pavlovna e os outros, de aprovar estas palavras com um sorriso, e j Pedro se tinha lanado, uma vez mais, no meio da conversa. Ana Pavlovna, conquanto pressentisse que ele ia dizer coisas fora de propsito, no foi capaz de o deter.
     - A execuo do duque de Enghien - disse o Senhor Pedro- foi uma necessidade pblica; e para mim o facto de Napoleo no ter receio de assumir a responsabilidade de um tal acto s atesta precisamente a sua grandeza de alma.
     - Oh! Meu Deus! - murmurou Ana Pavlovna, aterrorizada.
     - Como. Senhor Pedro, acha que o assassinato  grandeza de alma? - disse a princesinha, sorrindo e debruando-se sobre o seu bordado,
     - Ah! Oh! - exclamaram vrias pessoas.
     - Capital! - disse em ingls o prncipe Hiplito, dando palmadas na coxa.
     O visconde contentou-se em encolher os ombros. Pedro olhou triunfantemente os seus interlocutores atravs das suas lunetas.
     - Eu falo assim - prosseguiu ele, pondo de lado todos os rodeios de linguagem- porque os Bourbons fugiram da Revoluo abandonando o povo  anarquia; s Napoleo soube compreender a Revoluo e domin-la. E a est porque, em nome do bem-estar de todos, ele no podia deter-se perante a vida de um homem.
     - No quereria sentar-se aqui a esta mesa? - interrogou Ana Pavlovna. Mas Pedro, sem lhe responder, continuou:
     - Sim - disse ele, cada vez mais animado - Napoleo  grande porque soube elevar-se acima da Revoluo, porque sufocou os abusos a que ela tinha levado, aproveitando o que nela havia de bom, isto , a igualdade dos cidados e a liberdade do pensamento e da imprensa. E no foi por outro motivo que subiu ao Poder.
     - Realmente - interrompeu o visconde -, se, tornando conta do Poder, ele o no tem aproveitado para cometer um crime, e confiasse o trono ao seu rei legtimo, era justo chamar-lhe um grande homem.
     - Napoleo nunca podia ter agido dessa maneira. O povo confiara-lhe o Poder exactamente para que ele o livrasse dos Bourbons, e por isso mesmo  que o povo viu nele o estofo de um grande homem. A Revoluo foi uma grande coisa - continuou o Senhor Pedro, demonstrando, com esta audaciosa e provocante afirmao, no s a sua muita juventude, mas tambm o seu desejo de dizer tudo de uma vez.
     - A Revoluo e o regicdio, grandes coisas?... Depois disso... Mas no seria melhor sentar-se aqui a esta mesa? - repetia Ana Pavlovna.
     - O Contrato Social - disse o visconde com um sorriso condescendente.
     - Eu no falo do regicdio, falo de ideias.
     - Sim, sim, as ideias de pilhagem, de assassnio, de regicdio - interrompeu ainda uma voz irnica.
     - Claro Que se praticaram excessos, mas no era isso que tinha importncia; o que importava eram os direitos do homem, a abolio dos privilgios, a igualdade dos cidados. E estas ideias manteve-as Napoleo integralmente,
     - A liberdade e a igualdade - exclamou, desdenhosamente, o visconde, que parecia querer, finalmente, mostrar a srio quele mancebo a tolice dos seus argumentos -, tudo isso so frases sonoras de h muito sem sentido. Quem  que no gosta da liberdade e da igualdade? J o Salvador pregava a liberdade e a igualdade. Foram os homens mais felizes depois da Revoluo? Pelo contrrio, ns  que queramos a liberdade, e Napoleo foi quem acabou com ela.
     O Prncipe Andr, sorrindo, ora fitava Pedro, ora o visconde, ora a dona da casa. No primeiro momento, quando Pedro pronunciou as primeiras palavras. Ana Pavlovna ficou como fulminada, no obstante todos os seus hbitos de sociedade. Mas, ao verificar que, apesar dos sacrlegos argumentos de Pedro, o visconde no perdia as estribeiras, quando se convenceu de que no era possvel sufocar tais palavras, ganhou nimo e, unindo as suas foras s do visconde, caiu sobre o orador.
     - Mas, meu caro Senhor Pedro  exclamou -, como  que o senhor explica que esse grande homem mandasse executar o duque, um simples cidado afinal, sem julgamento prvio e sem que ele fosse culpado?
     - E eu - acrescentou o visconde- atrever-me-ei a perguntar como  que o senhor explica o 18 de Brumrio. No acha que foi um logro?  um logro que no parece prprio da maneira de proceder de um grande homem.
     - E os deportados de frica chacinados  ordem dele?  horrvel! - exclamou a princesinha, fazendo um gesto de pnico.
     -  um plebeu, diga o senhor o que disser - corroborou o prncipe Hiplito.
     O Senhor Pedro no sabia a quem prestar ateno; fitava-os a todos, sorrindo. O seu sorriso no era como o das demais pessoas,  mistura com qualquer coisa de srio. Ele, pelo contrrio, quando se lembrava de sorrir, perdia, de repente, toda a seriedade, e a mscara, sempre um pouco enfadonha, transfigurava-se-lhe: ficava com o seu qu de infantil, de pobre diabo, um pouco estpido at, com o ar de quem quer pedir perdo.
     O visconde, que o via pela primeira vez, compreendeu imediatamente que aquele jacobino no era to terrvel nos actos como nas palavras. Todos se calaram.
     - Como querem que Pedro responda a toda a gente ao mesmo tempo? - interrogou o prncipe Andr. - Alm disso, nos actos de um homem de Estado  preciso saber distinguir os que ele pratica como simples particular dos que ele pratica como chefe do exrcito ou como imperador. Parece-me da mais elementar justia.
     - Claro, claro - interveio Pedro, satisfeito com a ajuda que recebia.
     -  impossvel no o reconhecer - continuou o prncipe Andr. - Napoleo, o homem,  grande na ponte de Arcole, no hospital de Jafa, quando aperta a mo aos pestferos, mas.., mas h outros actos seus difceis de justificar.
     O prncipe Andr, que manifestamente pretendera atenuar o embarao que tinham provocado as palavras de Pedro, ergueu-se para se retirar, e fez sinal  mulher.
     De sbito, o prncipe Hiplito, levantando-se, pediu a todos, com um gesto, que se conservassem sentados e principiou a dizer:
     - Contaram-me hoje uma anedota moscovita encantadora; tm de a ouvir. Queira perdoar-me, visconde, tenho de a contar em russo. De outra maneira, perde o sal.
     E o prncipe Hiplito ps-se a falar russo como o falam os franceses chegados  Rssia h menos de um ano. Todos prestaram ateno, to viva e instantemente o prncipe reclamara que lhe fizessem esse favor.
     - Em Moscovo h uma senhora. E  muito avara. E precisava de arranjar dois lacaios para a sua carruagem. E de grande estatura. Era assim que ela gostava. E tinha uma criada de quarto tambm de grande estatura. E ento disse...
     Neste ponto, o prncipe Hiplito teve um momento de reflexo, mostrando certa dificuldade em combinar as frases.
     - E ento disse.., sim, disse: Menina (para a criada de quarto) enfia a libr e vem da comigo fazer visitas.
     Nesta altura o prncipe Hiplito deu uma gargalhada, rindo antes de mais ningum, o que criou um pouco de embarao ao narrador. Entretanto, vrias pessoas, entre as quais a senhora idosa e Ana Pavlovna, sorriram.
     - L foram. De repente levantou-se um grande vendaval. A rapariga ficou sem o chapu e a cabeleira desprendeu-se-lhe... Aqui no pde aguentar-se mais e um grande acesso de riso o tomou, ao mesmo tempo que dizia:
     - E toda a gente soube...
     E assim terminou a anedota, ainda que ningum pudesse compreender porque a tinha ele contado e a que propsito lhe parecera indispensvel narr-la em russo. Ana Pavlovna e os demais convivas apreciaram a cortesia mundana do prncipe Hiplito, que assim tinha posto ponto final ao penoso e pouco corts despropsito do Senhor Pedro. A conversa dispersou-se em seguida por midos e insignificantes dizeres a propsito de bailes em perspectiva ou j passados, em aluses a espectculos ou ento em referncias a circunstncias ou a locais onde as pessoas poderiam vir a encontrar-se.
     

     
     
     
     Captulo VI
     
     Depois de felicitarem Ana Pavlovna pela sua encantadora reunio, os convidados principiaram a retirar-se.
     Pedro era um desajeitado. Gordo, estatura acima de mediana, largo de ombros, com enormes mos vermelhuscas, se no sabia estar numa sala, como se costuma dizer, muito menos sabia sair dela, quer dizer, muito menos sabia pronunciar, antes de partir, as palavras atenciosas da praxe. Alm disso, era distrado. Quando se levantou, em vez de pegar no chapu que lhe pertencia, pegou num tricrnio empenachado de general e assim esteve, com ele na mo, sacudindo o penacho, at que o proprietrio veio pedir-lhe que lho restitusse.  certo que estas suas distraces e o seu desconhecimento de usos e costumes da sociedade eram largamente compensados por um ar ingnuo, simples e modesto. Ana Pavlovna virou-se para onde ele estava, e cheia de indulgncia crist perdoou-lhe a intempestiva sada, dizendo-lhe, enquanto meneava a cabea:
     - Espero tornar a v-lo, mas tambm desejo que mude de ideias, meu caro Senhor Pedro.
     Pedro nada teve para responder a estas palavras, contentando-se em inclinar-se e em mostrar mais uma vez o seu sorriso, um sorriso em que se lia: As minhas ideias so as minhas ideias, mas, no entanto, reparem como eu sou bom rapaz, Ora era isso exactamente o que Ana Pavlovna e todos os demais estavam a dizer com os seus botes.
     O prncipe Andr saiu para o vestbulo, e ao mesmo tempo que voltava as costas ao lacaio que lhe vestia o sobretudo ouvia, distraidamente, a frvola tagarelice da mulher com o prncipe Hiplito, que tambm se preparava para abalar. O prncipe Hiplito, ao lado da linda princesinha grvida, fixava-a obstinadamente com o lorgnon.
     - V-se embora. Annette, est a apanhar frio - disse ela, despedindo-se de Ana Pavlovna. - Est decidido - acrescentou em voz baixa.
     Ana Pavlovna j tivera tempo de dizer duas palavras a Lisa sobre o projecto de casamento entre Anatole e a cunhada da princesinha.
     - Conto consigo, querida amiga - respondeu Ana Pavlovna igualmente em voz baixa -, escreva-lhe e diga-me depois como encarar o pai o caso. At  vista - e saiu do vestbulo.
     O prncipe Hiplito aproximou-se da princesinha e, debruando-se muito para ela, murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Dois lacaios, o da princesa e o do prncipe, aguardando que os amos acabassem de falar, ali estavam, um com um xale, o outro com um sobretudo, e ouviam-nos falar francs, lngua que desconheciam, mas dando-se ares de quem compreende e o no quer dar a perceber.
     A princesa, como de costume, sorria enquanto falava e escutava sorrindo,
     - Estou radiante por no ter ido  Embaixada - dizia o prncipe Hiplito. - Que estopada... Encantadora noite, no  verdade? Um encanto.
     - Dizem que o baile vai ser uma beleza - retorquiu a princesa, desenhando-se-lhe um trejeito no lbio sombreado pela ligeira penugem. - Vo l aparecer todas as nossas beldades mundanas.
     - Nem todas, visto que a princesa l no estar; nem todas - disse o prncipe Hiplito com jovialidade, e, pegando no xale, que tirou das mos do lacaio, a quem deu mesmo um encontro, lanou-o sobre os ombros da princesa.
     Por falta de jeito ou de propsito, quem o poderia dizer?, quedou-se muito tempo sem baixar as mos, embora o xale j estivesse no seu lugar. Dir-se-ia enlaar a jovem princesa.
     Evitando-o graciosamente, e sem deixar de sorrir, a princesa voltou-se e olhou para o marido. O prncipe Andr, de olhos fechados, parecia fatigado e sonolento.
     - Est pronta? - perguntou ele  mulher, envolvendo-a num olhar.
     O prncipe Hiplito enfiou apressadamente o sobretudo, que lhe descia at aos taces,  ltima moda, e, tropeando nas pregas do casaco, deu-se pressa em seguir a princesa, escadaria abaixo, que subia para a carruagem, auxiliada pelo lacaio.
     - Princesa, at  vista! - gritou ele, tropeando nas palavras como tinha tropeado nas dobras do sobretudo.
     A princesa, soerguendo o vestido, entrou na obscuridade da carruagem; o marido afivelava o sabre; o prncipe Hiplito, com o pretexto de ser til, incomodava toda a gente.
     - Com licena - disse em russo o prncipe Andr, num tom seco e pouco amvel, dirigindo-se a Hiplito, que lhe vedava a passagem.
     - Pedro, espero-te em casa - articulou a mesma voz com um ar afvel e carinhoso.
     O postilho ps a equipagem em andamento, que arrancou com fragor. O prncipe Hiplito ficara na escadaria, rindo ainda, aos saces, enquanto esperava pelo visconde, a quem prometera reconduzir a casa.
     - Pois bem, meu caro, a sua princesinha  um encanto, um encanto - dizia o visconde, ao sentar-se ao lado de Hiplito.- Mas o que se chama um encanto. - E atirando um beijo com a ponta dos dedos: - E francesa at  medula.
     Hiplito riu estrepitosamente.
     - Sabe que  terrvel com o seu arzinho inocente - prosseguiu o visconde. - Lamento o pobre marido, esse oficialzito, que se d ares de prncipe reinante.
     Hiplito continuava a rir a bom rir, e, mesmo rindo, foi dizendo:
     - E dizia o senhor que as damas russas no chegavam aos calcanhares das francesas.  preciso  saber tratar com elas. 
     Pedro, que chegara primeiro, como ntimo da casa que era, entrou no gabinete do prncipe Andr, e mal se sentou no div tirou da estante o primeiro livro que lhe veio  mo - calhou ser os Comentrios, de Csar -, pondo-se a ler, ao acaso, apoiado sobre os cotovelos.
     - Fizeste-la bonita em casa de Mademoiselle Scherer!  certo e sabido que a pobre senhora vai cair doente - disse o prncipe Andr, ao entrar no gabinete, enquanto esfregava as mos brancas.
     Pedro voltou-se com todo o peso do seu corpo, e de tal maneira que o div rangeu debaixo dele. O seu rosto animado fixou-se no do seu companheiro e com um sorriso aberto fez-lhe um gesto amistoso.
     - Realmente, o abade  uma pessoa muito interessante, mas no compreende as coisas como elas so... Na minha opinio, a paz perptua  possvel, mas, como direi?..., no por meio do equilbrio poltico...
     Andr, visivelmente, no apreciava estas discusses abstractas.
     - Ah, no, meu caro, no podemos dizer em toda a parte o que pensamos. Ora conta-me l, j te resolveste, finalmente, a fazer qualquer coisa? Que queres tu ser, cavaleiro da Guarda ou diplomata? - perguntou o prncipe Andr, depois de alguns instantes de silncio.
     Pedro voltou a sentar-se no div, encolhendo as pernas debaixo de si.
     - Veja l, no sei, realmente. Nem uma nem outra dessas situaes se me d com o feitio.
     - No entanto, precisas de tomar uma resoluo. Teu pai est  espera que te decidas.
     Pedro fora enviado para o estrangeiro, aos dez anos, na companhia de um padre, seu preceptor. E por l ficara at aos vinte. Quando voltou para Moscovo, o pai despediu o padre e disse ao jovem: Agora vai at Petersburgo, observa e escolhe. Estou de acordo desde j com o que tu decidires. Aqui tens uma carta para o prncipe Vassili e dinheiro. Vai-me dando notcias, e conta comigo. Havia j trs meses que Pedro procurava decidir-se por uma carreira e no chegava a concluso alguma. Era a tal escolha que o prncipe Andr aludia. Pedro passou a mo pela testa.
     - Estou convencido de que o homem  mao - murmurou, pensando no abade que encontrara na recepo.
     - Basta de frioleiras - voltou Andr, interrompendo-o.- Falemos de coisas srias. Ests decidido pela Guarda montada?... - No, mas vou dizer-lhe urna coisa que me veio a cabea.
     Estamos actualmente em guerra com Napoleo. Se se tratasse, de uma guerra de libertao, ento, sim, compreendia, seria mesmo o primeiro a alistar-me. Mas ajudar a 1nglaterra e a ustria contra o maior homem que h no mundo.., no est certo.
     O prncipe Andr contentou-se, em encolher os ombros perante as infantis consideraes de Pedro. O seu ar queria dizer que nada tinha a replicar a uma tal patetice; e, com efeito, seria difcil responder de outra maneira a uma tal ingenuidade.
     - Se as pessoas fossem para a guerra s por convico, no haveria guerra - disse ele.
     - E era isso que convinha - respondeu Pedro.
     O Prncipe Andr sorriu.
     -  muito possvel, mas a est uma coisa que nunca acontecer.
     - E ento por que diabo  que o Andr vai para a guerra? perguntou Pedro,
     - Porqu? No sei.  assim. Alm disso, eu vou... - Calou-se.- Eu vou porque esta vida que levo aqui, esta vida no me- convm.
     

     
     
     
     Captulo VII
     
     Na sala contgua ouviu-se o ruge-ruge de um vestido. Andr teve um sobressalto, como se recuperasse os sentidos, e a sua mscara tomou a expresso com que se exibira nos sales de Ana Pavlovna. Pedro tirou os ps de cima do div. A princesa entrou. Tinha outro vestido, um vestido ntimo, mas nem por isso menos fresco e elegante. O prncipe Andr levantou-se e ofereceu-lhe, cortesmente, uma cadeira,
     - Uma coisa eu nunca deixo de perguntar a mim mesma - disse ela, como sempre, em francs, sentando-se com prontido - porque  que a Annette se no teria casado? Que tolos vocs foram, senhores, no casando com ela! Desculpem, mas vocs no percebem nado de saias. Muito gosta de discutir. Senhor Pedro...
     - Precisamente, no fao outra coisa seno discutir com o seu marido. No compreendo porque  que ele quer ir para a guerra - disse Pedro, dirigindo-se  princesa sem o mais pequeno acanhamento, coisa, alis, perfeitamente natural, tratando-se de um rapaz e de uma senhora jovem.
     A princesa estremeceu. Evidentemente que as palavras de Pedro a tinham atingido no ponto sensvel.
     -  o que eu lhe estou sempre a dizer! - redarguiu ela. No compreendo, decididamente no compreendo como  que os homens no podem passar sem a guerra! E que ns, mulheres, no possamos fazer nada, no tenhamos voz nesse captulo! Ora, oua, faa de conta que  um juiz. Passo a vida a dizer-lhe a mesma coisa. O Andr  ajudante-de-campo do tio, tem aqui uma brilhante situao. Toda a gente o conhece, toda a gente o aprecia. No outro dia, em casa dos Apraxine, ouvi uma senhora perguntar: Este  que  o famoso prncipe Andr? Palavra! - Ele ps-se a rir. -  assim que o recebem em toda a parte. Tinha toda a facilidade em vir a ser ajudante-de-campo do imperador. Sabe que o imperador lhe dirigiu graciosamente a palavra? A Annette e eu estamos convencidas de que era to fcil! Que acha?
     Pedro olhou para o prncipe Andr, e, vendo que a conversa no agradava ao amigo, nada respondeu.
     - Quando parte? - interrogou ele.
     - Ah! No me fale dessa partida, no me fale. No quero ouvir falar nisso! - exclamou a princesa nesse mesmo tom de coquetterie satisfeita de si que ela mostrara quando, no salo de Ana Pavlovna, conversava com Hiplito, mas que naquele ambiente de intimidade familiar em que Pedro era recebido no caa nada bem. - Actualmente, quando me lembro de que temos de interromper todas as nossas queridas relaes... E, alm disso, no sei, sabes. Andr? - Teve para o marido um ligeiro piscar de olhos. - Tenho medo, tenho medo! - acrescentou muito baixo, estremecendo.
     O marido olhou para ela com o ar surpreendido que teria se estivesse mais algum presente que no fosse Pedro e ele prprio. Andr. Depois, com uma fria polidez, disse:
     - Que receias. Lisa? No compreendo...
     - Ora aqui est o egosmo dos homens! No h um que se salve: so todos, todos egostas, para satisfazerem os seus caprichos! S Deus sabe porque  que ele me vai deixar enclausurada no campo.
     - Com meu pai e minha irm, no te esqueas - articulou, tranquilamente, o prncipe Andr.
     - Nem por isso estarei menos s, sem as minhas amigas... E ainda ele quer que eu no tenha medo.
     Tinha adoptado um tom de amuo e fazia um trejeito que lhe dava um ar j no alegre, mas quase animal, um ar de um pequenino esquilo. Calou-se, pensando no ser conveniente falar diante de Pedro do seu estado, no fundo a causa de tudo.
     - Continuo a no compreender de que  que tens medo - disse, lentamente, o prncipe Andr, sem deixar de a fitar.
     A princesa corou e fez um gesto impetuoso.
     - No. Andr, eu acho  que mudou tanto, tanto...
     - O teu mdico aconselhou-te a que te deitasses cedo - disse o prncipe Andr. - Era melhor que te retirasses.
     A princesa nada disse, mas, de sbito, o seu lbio, sombreado por uma penugem ligeira, ps-se a tremer; Andr levantou-se, encolhendo os ombros, e comeou a andar de um lado para o outro.
     Pedro, com um ar espantado e ingnuo, olhava por detrs das lunetas ora um ora outro, e agitava-se, como se ele tambm quisesse levantar-se, mas continuava indeciso.
     - Quero l saber que esteja aqui o Senhor Pedro - disse, abruptamente, a princesinha, e pelo seu delicado rosto perpassou, de sbito, um ricto como de quem vai chorar.- H muito tempo que eu te queria dizer. Andr. Porque  que mudaste tanto para comigo? Que te fiz eu? Vais para a guerra e no tens pena de mim. Porqu?
     - Lisa! - foi tudo quanto disse Andr.
     Mas nesta palavra havia ao mesmo tempo uma splica e uma ameaa, e sobretudo qualquer coisa em que se lia que ela havia de arrepender-se de ter proferido aquelas palavras. Precipitadamente, ela continuou:
     - Tratas-me como uma doente ou como uma criana. Eu bem vejo. Achas que eras assim h seis meses?
     - Lisa, peo-te que te cales - disse Andr numa voz cortante.
     Pedro, cada vez mais perturbado com aquela troca de palavras, levantou-se e aproximou-se da princesa. Dir-se-ia no poder suportar a vista das lgrimas e ele prprio estava quase a chorar.
     - Sossegue, princesa.  o que lhe parece; porque eu prprio tive a mesma impresso.., porque...  que... Ah!, desculpe-me, sinto que estou aqui a mais... Ah!, sossegue... Adeus...
     O prncipe Andr segurou-o por um brao.
     - Um momento. Pedro. A princesa  to boa que no querer privar-me do prazer de passar a noite contigo.
     - V, v, no pensas seno nele! - exclamou a princesa, sem poder reter as lgrimas, onde havia revolta.
     - Lisa - disse o prncipe secamente, erguendo o tom da voz a uma altura tal que significava ter perdido por completo a pacincia.
     Subitamente, o arzinho de esquilo furioso que se pintara no rosto da princesa converteu-se num medo impressionante, digno de piedade. Lanou, furtivamente, com os seus belos olhos um rpido olhar ao marido e teve essa expresso tmida e submissa de um co batido que foge com a cauda entre as pernas.
     - Meu Deus, meu Deus! - murmurou, pegando na cauda do vestido, e, aproximando-se do marido, beijou-o na testa.
     - Boa noite. Lisa - disse o prncipe Andr erguendo-se e beijando-lhe a mo com cortesia, como se fosse uma estranha.
     

     
     
     
     Captulo VIII
     
     Os dois amigos ficaram silenciosos. Nem um nem outro ousavam falar. Pedro tinha os olhos pousados no prncipe Andr, que passava a fina mo pela testa.
     - Vamos cear - disse ele, suspirando. Levantou-se e dirigiu-se para a porta.
     Entraram na sala de jantar, elegantssima, recm-arranjada e ricamente posta. Tudo, desde os guardanapos s pratas,  baixela e aos cristais, tinha esse aspecto novo caracterstico das casas dos recm-casados. No meio do repasto o prncipe Andr apertou a cabea entre as mos, e, como algum muito preocupado que finalmente resolve abrir-se, principiou a dizer, com um nervosismo que Pedro lhe no conhecia.
     - No, te cases nunca, nunca, meu amigo;  o conselho que te dou. No te cases antes de estares convencido de que fizeste tudo de que eras capaz, antes de teres deixado de amar a mulher que escolheste, antes de a teres visto bem; sem isso, enganar-te-s cruelmente e sem remisso. Casa-te quando fores velho e j no prestares para coisa alguma... Se o no fizeres, perder-se- tudo quanto houver em ti de bom e de grande. Tudo ir por gua abaixo. Sim, sim, sim! No me olhes com essa cara de espanto. Se ests convencido de que sers capaz de fazer alguma coisa no futuro, verificars que tudo acabou para ti, que tudo te est vedado, salvo o salo onde virs a encontrar-te ao nvel de qualquer lacaio ou de qualquer imbecil... E aqui tens!
     Teve um gesto enrgico.
     Pedro tirou as lunetas, ficando com outra cara, ainda mais bondosa, e fitou o amigo com espanto.
     - A minha mulher - continuou o prncipe Andr-  uma excelente senhora.  uma dessas raras pessoas que no fazem perigar a nossa honra. Mas. Deus meu, o que daria eu para me no ter casado! s tu a primeira e a nica pessoa a quem o digo, porque sou teu amigo.
     Enquanto falava, o prncipe Andr cada vez se parecia menos com esse Bolkonski enterrado numa cadeira em casa de Ana Pavlovna deixando passar por entre dentes, de olhos piscos, frases francesas. Todos os msculos da sua seca mscara estavam agitados por movimentos nervosos; os seus olhos, em que o fogo da vida, at ento, parecia extinto, brilhavam agora com um fulgor luminoso e claro. Dir-se-ia que quanto menos vida nele havia habitualmente mais enrgico parecia nestes instantes de uma excitao quase anormal.
     - Tu no compreendes porque eu falo assim. No entanto ests diante da histria de toda uma existncia. Tu dizes Bonaparte e a sua carreira - continuou ele, embora Pedro nada tivesse dito acerca de Bonaparte. - Dizes: Bonaparte. Mas Bonaparte, quando trabalhava, quando caminhava, passo a passo, para o seu fim era livre, no tinha mais nada em vista seno esse objectivo, e atingiu-o. Porm, se tu te ligares a uma mulher, como um forado com uma braga aos ps, perders toda a liberdade. E tudo quanto em ti possa haver de esperana e de energia tornar-se- um peso morto, que te oprimir de desgosto. Os sales, a m-lngua, os bailes, a vaidade, as futilidades, eis da por diante o crculo vicioso de que  impossvel uma pessoa evadir-se. Vou partir para a guerra, para a maior das guerras, e no sei nada, e no presto para nada. Sou muito amvel e muito custico e as pessoas ouvem-me quando eu falo em casa de Ana Pavlovna. E a tens essa estpida sociedade mundana sem a qual no podem passar nem a minha mulher nem essas mulheres... Se tu ao menos pudesses fazer uma ideia do que so todas as mulheres distintas e todas as mulheres em geral. Meu pai tem razo. O egosmo, a vaidade, a tolice, a nulidade em tudo, a tens a mulher quando se mostra tal qual . Quando a gente a v na sociedade, julga que vale alguma coisa, e no vale nada, nada, nada!  o que te digo: no te cases, meu caro, no te cases - concluiu.
     - Que vontade de rir que isto me d - disse Pedro. - Pois  o Andr, o Andr, precisamente, que se considera a si prprio um incapaz, que considera falhada a sua vida? O Andr que tem o futuro diante de si, todo um futuro? O Andr...
     De que no ser capaz?, pensou, mas o tom da sua voz denunciava claramente a alta estima em que ele tinha o amigo e o que esperava dele para mais tarde.
     Como pode ele falar assim!, dizia Pedro de si para consigo. 
     E efectivamente Pedro via no prncipe Andr como que um modelo de todas as perfeies, precisamente porque ele era dotado no mais alto grau das qualidades que ele prprio no tinha, essas qualidades que mais do que quaisquer outras exigem fora de vontade. Sempre lhe causara admirao a serenidade que o prncipe Andr sabia manter nas relaes com as pessoas mais diversas e a sua memria extraordinria, as suas vastas leituras - tinha lido tudo, sabia tudo, compreendia tudo - e sobretudo a sua capacidade de trabalho e de assimilao. E, se  verdade que frequentes vezes o impressionava, a ele. Pedro, a pouca tendncia que o prncipe Andr manifestava pela reflexo e pela filosofia, coisas para que Pedro sentia mais inclinao, estava longe de pensar que isso constitusse um defeito; pensava at que representava uma fora.
     Nas melhores relaes, nas mais amistosas e mais simples relaes, a adulao ou os louvores so coisas indispensveis, tal qual como o azeite  indispensvel nas rodas dos carros.
     - Sou um homem liquidado - murmurou o prncipe Andr. Para que havemos ns de perder tempo a falar de mim? Falemos antes de ti - acrescentou depois de um curto silncio e sor- rindo, como se regressasse, finalmente, a um assunto mais consolador.
     Nessa altura um sorriso apareceu nos lbios de Pedro. 
     - E para que havemos ns de falar de mim? - disse abandonando-se a uma despreocupada alegria.- Que sou eu, no fim de contas? Sou um bastardo! - E, subitamente, corou at s orelhas. Via-se bem que fizera um grande esforo para pronunciar estas palavras.- Sem nome, sem fortuna... E, de resto, para falar francamente... - Quereria ter dito tanto melhor, mas no concluiu a frase. - Enquanto espero, sou livre, estou satisfeito com a minha sorte. Mas o certo  que no sei o que hei-de fazer. Seriamente, queria pedir-lhe que me aconselhasse.
     O prncipe Andr olhou-o com bondade, mas, apesar disso, no seu olhar amvel e amistoso sentia-se-lhe a superioridade.
     - Gosto de ti, sobretudo porque s tu, entre toda a gente das nossas relaes, o nico ser vivo. Dizes que ests satisfeito. Escolhe o que quiseres,  indiferente. Em toda a parte sers feliz. S te peo uma coisa: deixa de conviver com esses Kuraguine, deixa a vida que levas. Isso no te convm: toda essa devassido, esse convvio com hssares, tudo que...
     - Que quer, meu caro? - disse Pedro encolhendo os ombros. - As mulheres, meu caro, as mulheres!
     - No compreendo - retorquiu Andr. - As verdadeiras senhoras, sim, essas so outra coisa, mas as mulheres de Kuraguine, as mulheres e o vinho, confesso-te que no compreendo!
     Pedro vivia em casa do prncipe Vassili Kuraguine e acompanhava nas suas orgias o filho deste. Anatole, esse mesmo Anatole que queriam casar, para o corrigir, com a irm do prncipe Andr.
     - Quer saber? - disse Pedro, como se acabasse de ter uma feliz ideia. - Seriamente, h muito tempo que penso nisto. Com a vida que levo, nem posso decidir-me por coisa alguma, nem reflectir seja sobre o que for. S dores de cabea e o nosso dinheiro perdido. O Anatole convidou-me para esta noite, mas no vou.
     - Ds-me a tua palavra de honra?
     - Palavra de honra!
     

     
     
     
     Captulo IX
     
     Eram quase duas horas da madrugada quando Pedro saiu de casa do amigo. Era uma noite de Junho, uma noite tpica de Petersburgo, sem obscuridade. Meteu-se numa carruagem de aluguer, decidido a voltar para casa. Mas  medida que se aproximava, ia sentindo que lhe no era possvel dormir numa noite daquelas, que mais parecia um crepsculo ou uma aurora. A vista perdia-se ao longe pelas ruas desertas. No caminho. Pedro lembrou-se de que em casa de Anatole Kuraguine deviam estar reunidos os convivas habituais, os jogadores, que depois do jogo se entregavam, normalmente, ao prazer da bebida, um dos seus divertimentos favoritos.
     Se eu fosse a casa de Kuraguine?, disse ele para consigo mesmo.
     De sbito, porm, lembrou-se de que tinha dado a palavra de honra a Andr. Mas, de repente tambm, coisa natural nas pessoas que  de uso considerar-se sem carcter, sentiu um to intenso desejo de voltar uma vez ainda a gozar aquela louca vida, que ele to bem conhecia, que se decidiu. E ento veio-lhe  mente que o compromisso tomado no valia nada, visto que antes de o ter assumido para com o prncipe Andr tinha prometido ao Anatole que iria a casa dele; e depois, em concluso, dizia de si para consigo: Todas estas palavras de honra so coisas convencionais, sem qualquer fundamento srio, sobretudo quando uma pessoa pensa que amanh pode estar morta ou em circunstncias tais que as palavras de honra e desonra no tenham o mais pequeno significado. Pedro costumava fazer muitas vezes raciocnios deste gosto, que tornavam nulos todos os seus projectos e todas as suas resolues. E dirigiu-se para casa de Kuraguine.
     Quando chegou  escadaria da vasta mole formada pelas casernas da Guarda montada, onde Anatole vivia, subiu os degraus iluminados e deparou-se-lhe a porta aberta. No havia ningum no vestbulo; por um lado e pelo outro s se viam garrafas vazias, sobretudos, galochas; cheirava a vinho. Ouviam-se rudos de vozes e gritos distantes.
     O jogo e a ceia tinham acabado, mas os convivas ainda se no haviam dispersado. Pedro despiu o sobretudo e entrou na primeira dependncia, em que se viam ainda os restos do festim e onde um lacaio, julgando-se s, bebia, s escondidas, os restos de vinho dos copos. Da sala contgua saa um alarido: risos, gritos de pessoas conhecidas e grunhidos de ursos. Oito rapazes comprimiam-se, muito excitados, junto da janela aberta. Trs outros entretinham-se com um ursinho novo, que um deles puxava por uma corrente para atemorizar os companheiros.
     - Eu aposto por Stevens cem rublos! - gritou uma voz.
     - Que ideia essa de apostar por ele! - exclamou um terceiro.- Kuraguine, s tu o rbitro.
     - Est bem, ento deixem o Michka (Nome familiar do urso na Rssia. (N, dos T.); vamos l fazer a aposta.
     - De um s trago, ou ento perde! - gritou uma quarta voz.
     - Iakov, traz uma garrafa. Iakov! - clamou o dono da casa, um rapago magnfico, que estava no meio de todos os outros, envergando apenas uma ligeira blusa toda aberta no peito - Um momento, meus amigos! Eh! At que enfim. Petrucha, meu caro! - exclamou dirigindo-se a Pedro.
     Uma outra voz, a de um homem de pequena estatura, de olhos azuis-claros, que contrastava pelos seus modos cordatos no meio de todas aquelas vozes avinhadas, gritou da janela:
     - Vamos, serve de rbitro na aposta! - Era Dolokov, um oficial do regimento Seminovski, famoso jogador e no menos famoso espadachim, que compartilhava dos aposentos de Anatole.
     Pedro sorria, lanando um olhar alegre a toda a companhia.
     - No h maneira de ningum se entender. De que se trata?
     - Esperem, ele no est bbado. Venha de l uma garrafa - disse Anatole, e, pegando num copo de cima da mesa, deu dois passos para Pedro.
     - Antes de mais nada, bebe,
     Pedro ps-se a beber copo sobre copo, olhando de soslaio para toda aquela gente embriagada que se tinha juntado ao p da janela e escutava o que se dizia. Anatole deitava-lhe vinho no copo e contava que Dolokov apostara com o ingls Stevens, oficial de marinha ali presente, que ele. Dolokov, seria capaz de beber uma garrafa de rum sentado na janela do segundo andar com as pernas dependuradas para a parte de fora.
     - Ento, despeja-me l essa garrafa! - exclamou Anatole, apresentando a Pedro o ltimo copo.- Enquanto o no beberes, no te largo.
     - No, j basta - tornou Pedro recusando, ao mesmo tempo que se aproximava da janela.
     Dolokov segurava o ingls por uma mo e explicava claramente, com preciso, as condies da aposta, dirigindo-se de preferncia a Anatole e a Pedro.
     Dolokov era de estatura me, frisado, com olhos azuis-claros. Tinha aproximadamente vinte e cinco anos. No usava bigode, como os outros oficiais de infantaria daquela poca, e tinha a boca, o trao mais caracterstico da sua figura, completamente descoberta. Era uma boca com um desenho extraordinariamente fino. O lbio superior descia sobre o forte lbio inferior formando dois ngulos agudos, em cujos cantos se via sempre esboado uma espcie de duplo sorriso, um sorriso de cada lado. No seu conjunto, sobretudo com os seus olhos decididos, impudentes e inteligentes, dava uma impresso que obrigava as pessoas a fit-lo. Dolokov no era rico nem tinha qualquer parente. E, conquanto Anatole gastasse dezenas de milhares de rublos. Dolokov compartilhava das suas instalaes e sabia arranjar as coisas de tal maneira que o prprio Anatole e todos os seus conhecidos o estimavam mais que ao prprio dono da casa. Sabia todos os jogos e ganhava quase sempre. Por mais que bebesse, tinha sempre a cabea no seu lugar. Kuraguine e Dolokov eram naquela poca, tanto um como o outro, verdadeiras celebridades no mundo das cabeas loucas e dos bomios de Petersburgo.
     Trouxeram a garrafa de rum. Dois lacaios, azafamados e visivelmente estupefactos, desnorteados no meio dos gritos e das ordens que lhes davam, procuravam demolir o caixilho que impedia que uma pessoa se sentasse sobre o parapeito exterior da janela.
     Anatole aproximou-se com ares vitoriosos. Tinha necessidade de quebrar fosse o que fosse. Afastou os lacaios e ps-se a puxar pelo caixilho, o qual no cedeu. Quebrou um vidro.
     - Experimenta tu, valento - exclamou dirigindo-se a Pedro. Pedro agarrou-se  couceira, puxou e arrancou com fragor o enquadramento de castanho.
     - Tudo fora, seno depois so capazes de dizer que eu me agarrei a alguma coisa - intimou Dolokov.
     - O ingls perdeu a cabea... Eh! No  verdade? - inquiriu Anatole.
     - Com certeza - disse Pedro olhando para Dolokov, que, com a garrafa na mo, se aproximava da janela, atravs da qual se via o cu claro e a aurora, que se confundia com o crepsculo.
     Dolokov, sempre com a garrafa na mo, saltou para cima da janela.
     - Ouam! - gritou de p sobre o parapeito, voltado para a assistncia. Todos se calaram.
     - Aposto - falava em francs para que o ingls o compreendesse, embora este no fosse um portento nessa lngua -, aposto cinquenta imperiais; quer apostar cem? - acrescentou, para o ingls.
     - No, cinquenta - retorquiu este.
     - Bom, aposto cinquenta imperiais em como sou capaz de beber a garrafa de rum at  ltima gota, de um s trago, sentado na janela, neste stio - debruou-se e apontou para o parapeito inclinado no sentido da rua- e sem me segurar a coisa alguma... Est, apostado?
     - Perfeitamente - volveu o ingls.
     Anatole voltou-se para este, e, segurando-o por um boto da farda, olhou-o de cima, pois o outro era de pequena estatura, e ps-se a repetir-lhe em ingls as condies da aposta.
     - Ateno! - gritou Dolokov, batendo com a garrafa na janela, para que o ouvissem- Um momento. Kuraguine. Ouam. Se houver algum capaz de fazer o mesmo, dou-lhe cem imperiais. Esto a compreender?
     O ingls disse sim com a cabea, sem com isso querer dizer que tinha inteno de aceitar a nova aposta. Anatole no o largava, e, embora ele tivesse dado a entender que compreendera, traduzia-lhe para ingls as palavras de Dolokov. Um rapazola escanzinado, um hssar da Guarda, que toda a noite estivera a perder ao jogo, trepou  janela, debruou-se e olhou l para baixo.
     - Ui! Ui! Ui! exclamou, apontando as pedras da calada.
     - Fora da! - gritou Dolokov, obrigando a descer da janela o oficial, que, embaraado nas esporas, tropeou.
     Depois de ter colocado a garrafa no parapeito da janela, para assim a ter  mo. Dolokov, com prudncia e serenidade iou-se para o rebordo do janelo. Depois de ter passado as pernas por cima, do alizar e de haver avanado, com o auxlio das mos, at ao extremo do parapeito, escolheu o lugar, sentou-se, deixou pender as pernas, deslocou-se para a direita e para a esquerda e pegou na garrafa. Anatole trouxe duas velas e pousou-as sobre o parapeito, embora j fizesse dia claro. O dorso de Dolokov, de camisa branca, a cabea anelada, recebia luz dos dois lados. Toda a gente se tinha juntado em volta da janela. O ingls estava na primeira fila. Pedro sorria sem dizer nada. Um dos presentes, mais velho do que os outros, furioso e apavorado, arremeteu, de sbito, para a janela e quis agarrar Dolokov pela camisa.
     - Meus senhores, isto  uma loucura; o rapaz vai matar-se! - exclamou esta criatura, mais razovel que as restantes. Anatole deteve-o.
     - No lhe toques; se o assustas, ele mata-se. Hem!... E nesse caso?... Hem!
     Dolokov voltou-se, comps-se e colocou-se em posio com o auxlio das mos.
     - Se mais algum mete o bedelho na minha vida - disse, deixando cair as palavras dos lbios finos e cerrados -, obrigo-o a descer imediatamente por aqui. Est combinado?...
     Ao dizer Est combinado?, voltou-se ainda, soltou as mos, pegou na garrafa e levou-a  boca, atirando a cabea para trs e erguendo no ar a mo livre para estabelecer o equilbrio. Um lacaio que se tinha posto a apanhar os pedaos de vidro da janela deteve-se, sempre debruado para o cho, sem perder de vista a janela e as costas de Dolokov. Anatole conservava-se direito, de olhos arregalados. O ingls, mordendo os lbios, desviava os olhos. Aquele que tentara intervir tinha-se afastado para um canto e estiraara-se num div com a cara para a parede. Pedro tapou a cara e um ligeiro sorriso parecia errar-lhe na mscara, onde se estampavam agora susto e terror. Todos se calavam. Pedro tirou a mo dos olhos. Dolokov mantinha-se na mesma posio, mas com a cabea de tal modo cada para trs que os cabelos anelados, pela retaguarda, afloravam-lhe o colarinho, e a mo com que segurava a garrafa cada vez se erguia mais, animada por um certo tremor, e como se fizesse esforo. A garrafa, que se esvaziava a olhos vistos, elevava-se ao mesmo tempo no ar, obrigando a cabea a descair para trs. Que tempo que isto leva!, murmurou Pedro consigo mesmo. Afigurava-se-lhe haver decorrido mais de meia hora. Subitamente Dolokov teve um movimento de espinha para a retaguarda e a mo foi-lhe sacudida por um tremor nervoso, quanto bastou para fazer avanar o corpo sentado no parapeito resvaladio. Todo ele se deslocou, e as mos e a cabea, com o esforo, estremeceram-lhe ainda mais. Uma das mos ergueu-se para se agarrar ao alizar da janela, mas logo descaiu. Pedro voltou a fechar os olhos e prometeu no tornar a abri-los. Subitamente percebeu que tinha havido um movimento na assistncia. Abriu os olhos: Dolokov estava de p sobre o parapeito, o rosto plido e alegre.
     - Vazia!
     Atirou com a garrafa ao ingls, que a agarrou no ar. Deu um pulo da janela. Todo ele cheirava a rum.
     - Muito bem! Que valento! Bela aposta, cos diabos! - dizia-se por todos os lados.
     O ingls tinha puxado da bolsa e contava o dinheiro. Dolokov franzia as sobrancelhas sem dizer palavra. Pedro precipitou-se para a janela.
     - Meus senhores. Quem  que quer apostar comigo? Estou pronto a fazer o mesmo! - gritou ele, de chofre.- De resto, dispenso as apostas. Venha de l uma garrafa. Exactamente!... Uma garrafa.
     - Isso mesmo! Isso mesmo! - exclamou Dolokov, rindo.
     - Que mosca  que te mordeu? Ests maluco? Quem  que vai consentir nisso? At a subir uma escada tens vertigens - dizia-se por aqui e por ali.
     - Vo ver como eu a bebo. Deixem-me ver uma garrafa! gritava Pedro, batendo no tampo duma mesa, com uma teimosia de bbado. E trepou para cima da janela.
     Agarraram-no por um brao; mas ele era to forte que sacudia de si os que tentavam aproximar-se dele.
     -  intil, no desiste - disse Anatole.- Esperem a, que eu ensino-o. Ouve l, eu aposto contigo, mas fica para amanh. Agora vamos todos para casa da...
     - Est bem - exclamou Pedro. - Vamos embora!... Mas o Michka tambm vai connosco. - Apoderou- se do urso, e agarrando nele com ambas as mos para o obrigar a levantar-se, ps-se a rodopiar com o bicho pelo meio da sala.
     

     
     
     
     Captulo X
     
     O prncipe Vassili cumpriu a promessa que tinha feito  princesa Drubetskaia na reunio em casa de Ana Pavlovna relativamente a seu nico filho. Bris. Falaram nele ao imperador, e a ttulo excepcional foi promovido a alferes do regimento Seminovski. Mas no foi nomeado ajudante-de-campo, nem adido ao quartel-general de Kutuzov, apesar dos pedidos e das intrigas de Ana Mikailovna. Pouco tempo depois da reunio em casa da dama de honor. Ana Mikailovna voltou para Moscovo e foi instalar-se em casa dos Rostov, seus ricos parentes, onde sempre se hospedava. Era ali que tinha sido educado desde criana e onde ainda vivia o seu Bris adorado, s agora admitido no exrcito e que acabava de ser promovido a alferes da Guarda. O regimento tinha sado de Petersburgo a 10 de Agosto, e o rapaz, que ficara em Moscovo por causa do equipamento, devia ir ao encontro dele em Radzivilov.
     Em casa dos Rostov celebrava-se o aniversrio das duas Natalias, a me e a filha mais nova. Desde manh que era um chegar e partir de carruagens sem fim com visitas para o palcio da condessa Rostov, na Povarskaia, palcio que toda a gente conhecia em Moscovo.
     A condessa, acompanhada pela filha mais velha, uma linda mulher, estava no salo, rodeada das suas visitas, que no cessavam de chegar.
     Era a condessa Rostov urna senhora de rosto magro, tipo oriental, dos seus quarenta e cinco anos, visivelmente esgotada por doze partos sucessivos. A lentido do seu passo e a morosidade da sua fala, consequncias do quebranto das suas foras, davam-lhe um ar de dignidade que inspirava respeito. A princesa Ana Mikailovna Drubetskaia tambm se encontrava presente, ntima da casa que era, ajudando-a a receber as visitas e a manter a conversao. A gente nova estava nas dependncias das traseiras, desinteressada das visitas. O conde l se encarregava, de as acolher e de as conduzir, convidando toda a gente para jantar.
     - Estou-lhe muito reconhecido, muito, meu caro ou minha cara - dizia a toda a, gente, sem excepo, minha cara ou meu caro, sem pr nisso qualquer distino, quer as pessoas fossem de uma classe inferior ou superior -, estou-lhe muito reconhecido em meu nome e em nome das festejadas. No deixe de vir jantar connosco: ficaria melindrado, meu caro. Peo-lhe, cordialmente, em nome da famlia, minha cara.
     Estas mesmas palavras, com uma expresso sempre igual no rosto cheio e sorridente, bem escanhoado, e um aperto de mo enrgico, sempre o mesmo, e breves e frequentes flexes, repetia-as ele a todos, sem excepo e sem alterar uma vrgula. Depois de acompanhar aquele que partia, ei-lo que voltava para junto daquele ou daquela que ficava no salo. Puxava de uma cadeira, e com os modos de um homem  vontade em sociedade, estendia as pernas desprendidamente, e, de mos assentes nos joelhos, meneava a cabea com um ar entendido, fazendo conjecturas sobre o estado do tempo, dando conselhos higinicos, ora em russo, ora em francs, num francs bastante mau, mas pronunciado com segurana, e depois, como uma pessoa que se sente fatigada mas quer cumprir a sua obrigao at ao fim, acompanhava as pessoas, assentando as farripas brancas sobre a calva e tornando a repetir o eterno convite. Uma que outra vez, no regresso do vestbulo, atravessava o jardim de Inverno e a sala de espera, dirigindo-se a uma grande dependncia pavimentada de mrmore, onde se preparava uma mesa de oitenta talheres: lanava urna olhadela aos criados, afadigados a acarretar pratas e porcelanas, a arranjar a mesa e a estender as toalhas adamascadas, e mandava chamar Dimitri Vassilievich, um jovem fidalgo, uma espcie de seu facttum, a quem dizia: - Ateno. Mitenka,  preciso que tudo esteja em ordem. ptimo! ptimo! - Depois acrescentava, inspeccionando, satisfeito, a imensa mesa elstica. - O mais importante  uma mesa bem posta. Bom, bom... - E voltava, contente, ao salo.
     - Maria Lvovna Karaguine e sua filha! - anunciou em voz de baixo o imenso escudeiro s ordens da condessa penetrando no salo. A condessa, pensativa, tomou uma pitada de rap da sua caixa dourada com o retrato do marido,
     - Ah! Que maada estas visitas! - exclamou ela. -  a ltima que eu recebo. Que pessoa to amaneirada! Manda entrar - ordenou para o lacaio numa voz spera que queria dizer: Bom, acabemos com isto!
     Uma senhora, alta, de grande corpulncia, ar altivo, acompanhada de sua filha, uma menina de ndias bochechas, toda sorridente, entrou na sala no meio de um ruge-ruge de vestidos.
     - Querida condessa, h tanto tempo.., tem estado de cama, pobre criana.., no baile dos Rasumovski.., e a condessa Apraksine.., fiquei to contente!... - exclamavam vozes femininas muito animadas, interrompendo-se umas s outras mutuamente e confundindo-se com o sussurrar dos tecidos e o arrastar das cadeiras. Entabulou-se uma conversa to pouco importante que permitia, assim que havia uma pausa, que as pessoas se levantassem e dissessem, rio meio do burburinho da partida: Estou encantada; a sade da me.., e a condessa Apraksine, e, em seguida, no meio de um novo ruge-ruge, passassem para o vestbulo, pusessem os seus agasalhos e partissem. A conversa travou-se sobre a grande novidade do dia, a doena do velho e riqussimo conde Bezukov, um dos mais belos homens do tempo de Catarina, e o comportamento do filho ilegtimo do mesmo. Pedro, que se tinha portado pessimamente ria recepo em casa de Ana Pavlovna.
     - Muito lamento o pobre conde - disse a visita que acabava de chegar -; esta to mal e, ainda por cima, com o desgosto daquele filho, acaba por morrer!
     - Que aconteceu? - inquiriu a condessa, fingindo ignorar o assunto a que aludia a interlocutora, embora j tivesse ouvido contar a histria pelo menos umas quinze vezes,
     - So aquilo as educaes modernas! Aquele tempo no estrangeiro fez com que o rapaz se tornasse insubmisso, e agora, em Petersburgo, segundo dizem, tais horrores fez que tiveram de recorrer  policia.
     - Que me diz! - murmurou a condessa.
     - So as ms companhias - interveio a princesa Ana Mikailovna. - O filho do prncipe. Vassili, ele e um tal Dolokov fizeram trinta por urna linha. Dois deles sofreram-lhe as consequncias: Dolokov foi obrigado a descer de posto e o filho do conde Bezukov, esse, mandaram-no para Moscovo. Quanto a Anatole Kuraguine, valeu-lhe o pai, que conseguiu abafar o escndalo. Mas tambm foi afastado de Petersburgo.
     - Que fizeram eles, afinal? - perguntou a condessa.
     - So uns autnticos bandidos. Principalmente esse Dolokov - disse a visita. -  o filho de Maria Ivanovna Dolokov, uma senhora da maior respeitabilidade. Pois no sabem? Imaginem que arranjaram um urso e levaram-no com eles de carruagem para casa de urnas actrizes. A polcia foi atrs deles, e eles no estiveram com meias medidas: apanham um guarda, amarram-no, costas com costas, com o urso, e atiram com os dois para o Moika (Canal do rio Neva que divide o centro da cidade do bairro de Kazari. (N, dos T.). O urso ps-se a nadar com o polcia s costas.
     - S queria ver a cara do polcia, minha amiga! - exclamou o conde, rindo a bom rir.
     - Parece impossvel! Que horror! Como  que o conde pode achar graa a uma coisa destas?
     Mas as prprias senhoras no podiam suster o riso.
     - Foi difcil salv-lo, quele desgraado - continuou a visita. - E dizer que,  o filho do conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov quem e dedica a divertimentos to intelectuais! E h quem o ache bem educado e espiritual. Ora aqui tm o resultado dessas educaes no estrangeiro! Tenho a certeza de que ningum aqui o vai receber, apesar de toda a sua fortuna. Quiseram-mo apresentar. Mas eu disse redondamente que no: tenho filhas.
     - Porque diz que, esse homem  assim to rico? - perguntou a condessa, debruando-se para ela, de maneira a que as raparigas a no ouvissem, e estas logo fingiram nada entender. - Dizem que s tem filhos naturais. Com certeza.., o Pedro tambm  filho natural.
     A visita teve um gesto evasivo.
     - Dizem que tem um caterva de ilegtimos.
     A princesa Ana Mikailovna interveio, desejosa,  claro, de mostrar que tinha relaes e que conhecia em pormenor todas as intrigas mundanas.
     - A verdade  esta - disse ela, com um ar entendido e quase em voz baixa. - A reputao do conde Cirilo Vladimirovitch toda a gente a conhece... Nem sequer sabe o nome dos filhos que tem, mas este Pedro era o seu preferido.
     - Que belo homem esse velho - murmurou a condessa - ainda o ano passado! Nunca vi um homem mais belo!
     - Agora est muito mudado - observou Ana Mikailovna.-
     O que eu queria dizer  que o prncipe Vassili, parente dele pelo lado materno,  que devia ser o seu herdeiro directo, mas ele gosta muito do Pedro; mandou-o educar e at escreveu a recomend-lo ao imperador... Por isso ningum sabe para quem ir a sua imensa fortuna, se para o Pedro se para o prncipe Vassili. Quarenta mil almas e milhes, milhes! Sei isto de fonte limpa, pois foi o prprio prncipe Vassili quem mo contou. De resto. Cirilo Vladimirovitch tambm  meu primo afastado pelo lado materno. E  padrinho do Bris - insinuou ela, como se no ligasse a mais pequena importncia ao facto.
     - O prncipe Vassili est desde ontem em Moscovo. Dizem que anda em inspeco - murmurou a visita.
     - Sim, mas, aqui entre ns - disse a condessa -, isso  um pretexto. O que ele veio fazer foi visitar o conde Cirilo Vladimirovitch logo que o soube muito mal.
     - Seja como for, minha amiga,  uma rica histria - disse, de chofre, o conde, e, ao verificar que a interlocutora o no ouvia, voltou-se para as raparigas- Estou a ver a cara do polcia!
     E, mimando os gestos desesperados do pobre diabo, ps-se de novo a rir, com grandes gargalhadas sonoras e profundas, que lhe faziam estremecer todo o rechonchudo corpo, um corpo de quem come bem e bebe melhor.
     - Ento, est combinado, janta connosco - disse ele.
     

     
     
     
     Captulo XI
     
     Houve um momento de silncio. A condessa olhava para a sua visita com um sorriso amvel, sem esconder, alis, que lhe no seria desagradvel v-la erguer-se para se ir embora. A filha j se preparava para se despedir, depois de lanar um olhar interrogativo  me, quando, de sbito, se ouviram na sala contgua passos precipitados de homens e senhoras, ao mesmo tempo que urna cadeira era arrastada e caa, impelida por algum que passava. Ento entrou na sala uma menina dos seus treze anos, que trazia fosse o que fosse na saia de musselina, e que parava no meio do salo. Era evidente que fora por engano e sem premeditao que viera at ali. Simultaneamente,  porta, apareceram um estudante, de gola cor de framboesa, um oficial da Guarda, uma rapariguinha dos seus quinze anos e um rapazinho, gordo e rubicundo, com um casaquito curto,
     O conde precipitou-se para a pequenita e impediu-lhe a entrada abrindo os braos.
     - Ah!, a vem ela! - gritou ele, rindo - A herona da festa. Minha querida fadazinha!
     - Minha querida, h horas para tudo - disse a condessa, fingindo-se severa- Estragas a pequena Elie - acrescentou dirigindo-se ao marido,
     - Bom dia, minha querida, felicito-a - disse a senhora Karaguine. - Que criana encantadora! - prosseguiu ela para a me.
     Era uma rapariguinha de olhos negros, a boca muito grande, no bonita, mas cheia de vida, com os ombros infantis descobertos, palpitando no corpete, graas  rapidez com que caminhara, os caracis negros repuxados para trs, os braos pequeninos nus, as perninhas a sair de uma calas de rendas, e nos ps sapatos abertos. Estava naquela idade graciosa em que uma rapariga j no  criana e em que a criana ainda no  rapariga. Depois de ter conseguido escapar-se dos braos do pai, correu para a me e, sem prestar a mais pequena ateno s suas severas reprimendas, escondeu a cara buliosa nas rendas da mantilha materna e ps-se a rir. Enquanto ria ia falando, com palavras sincopadas, para a boneca que levava metida na saia.
     - Vs?... Mimi... Vs?
     E Natacha mais no pde dizer - tudo a fazia rir. - Deixou-se pender contra a me e rompeu a rir com tanta vontade e to alto que ningum, inclusivamente a visita de maneiras afectadas, pde resistir ao riso. Todos riram tambm.
     - Vai-te embora, vai-te embora com esse horror! - exclamou a me, repelindo-a com uma clera fingida.-  a minha filha mais nova - disse ela  visita.
     Natacha deixou ver a cara por momentos, no meio do fichu de rendas da me, olhou aquela de alto a baixo, rindo at s lgrimas, e voltou a esconder-se.
     A visita, obrigada a admirar esta cena de famlia, pensou ser necessrio dizer qualquer coisa.
     - Dize-me c, minha linda - perguntou a Natacha -, que parentesco tens tu com esta Mimi?  tua filha, naturalmente. Este tom de condescendncia para se pr ao seu nvel de criana no agradou a Natacha, que nada disse e fitou a senhora com um ar srio.
     Entretanto, todo o grupo jovial: Bris, o oficial, filho da princesa Ana Mikailovna, o estudante Nicolau, filho mais velho do conde. Snia, sua sobrinhita de quinze anos, e o pequeno Petrucha, seu filho mais novo, procurava manter, adentro dos limites das convenincias, a animao e a alegria que fulguravam nos seus rostos. Via-se perfeitamente que l para trs, nos aposentos das traseiras, donde eles tinham surgido to repentinamente, se falava de coisas bem mais agradveis que intrigas mundanas, ou o estado do tempo, ou a condessa Apraksine. Entreolhavam-se todos, rompendo a rir.
     Os dois rapazolas, o estudante e o oficial, amigos de infncia, eram da mesma idade, ambos bonitos moos, mas sem se parecerem um com o outro. Bris era um rapago louro, de traos finos e regulares, de uma beleza serena; Nicolau, um rapazinho frisado, com uma expresso aberta. No seu lbio superior apontava j um ligeiro buo e o todo da sua mscara exprimia impetuosidade e entusiasmo. Nicolau ficou todo corado assim que entrou no salo. Via-se que procurava dizer qualquer coisa, mas no conseguia. Bris, pelo contrrio, mostrou-se logo  vontade e comeou a contar, tranquilamente e com um ar satisfeito, que tinha conhecido a Mimi muito nova, com o nariz ainda intacto, que nos ltimos cinco anos, se bem se lembrava, a pobre tinha envelhecido terrivelmente, e que tinha agora a cabea rachada de alto a baixo. Ao mesmo tempo que falava ia olhando para Natacha. Esta voltara a cara e olhava para o irmozito, que ria perdidamente, com os olhos cheios de lgrimas; de sbito, sem poder mais, despediu correndo. Bris ficou muito srio.
     - Naturalmente tambm se quer ir embora. Mam? Precisa do carro? - disse ele para, a me, sorrindo.
     - Pois sim, manda atrelar - respondeu a me sorrindo igualmente.
     Bris, sem nada dizer, dirigiu-se para a porta e seguiu atrs de Natacha. O rapazinho gordo correu aps eles, pouco contente por ter sido perturbado nos seus entretenimentos.
     

     
     
     
     Captulo XII
     
     A excepo da filha primognita da condessa, a qual, quatro anos mais velha que a segunda, j podia dar-se ares de pessoa crescida, e das filhas da senhora que viera de visita, juventude era coisa que no havia no salo, se exclussemos, alm delas. Nicolau e a sobrinha Snia. Esta era uma morenita magra, uma miniaturazinha, com uns olhos doces, sombreados por longas pestanas, e uma farta trana negra que lhe dava duas voltas  cabea, a tez olivcea acentuava-se-lhe mais ainda nos braos e no colo nus, magros, mas graciosos. A ligeireza dos seus passos, a languidez e a flexibilidade dos seus braos, os seus modos um pouco ardilosos e reservados davam-lhe ares de um lindo felino ainda no domesticado, mas prometendo vir a ser um bichano encantador. Evidentemente que ela sabia ser conveniente tomar parte, com o seu sorriso, na conversa geral, mas, sem dar por isso, por debaixo das longas pestanas, os olhos fugiam-lhe para o seu primo, que ia partir para a, tropa. No seu olhar havia uma adorao to apaixonada que ningum se iludiria com aquele sorriso. Toda a gente via que se o bichano ali estava to sossegado era apenas para, mal sasse do salo, logo pr-se a correr e a saltar com o primo, tal como Bris e Natacha.
     - Sim, minha cara - dizia o velho conde para a visita, apontando Nicolau. - Como o seu amigo Bris saiu, oficial, ele, por amizade para com o primo, no lhe quer ficar atrs. E l vai deixar a Universidade e a mim, seu velho pai; vai alistar-se, minha cara. E j lhe tnhamos arranjado um lugar no servio dos arquivos. Ao que leva a amizade!
     - E dizem que a guerra j foi declarada - observou a visita.
     - H muito tempo que isso se diz - volveu o conde- Sim, diz-se e volta a dizer-se, e tudo fica na mesma. Minha cara, o que  que a amizade no faz? - repetia ele. - Vai para os hssares. A visita, como no sabia que dizer, meneava a cabea.
     - Mas no, no se trata de amizade - interrompeu Nicolau, entusiasmando- se, como quem repele uma calnia que lhe fosse odiosa.- No se trata de amizade, mas apenas de que tenho a vocao de soldado.
     Envolveu num olhar a prima e a filha da visita; ambas lhe dirigiram um sorriso de aprovao.
     - Temos hoje a jantar o coronel Schubert, do regimento de hssares de Pavologradski. Est aqui de licena, e  ele quem o leva consigo. Que havemos ns de fazer? - disse o conde, encolhendo os ombros e falando, em tom prazenteiro, de um assunto que visivelmente lhe causava um grande desgosto.
     - J lhe disse, pai - replicou o filho -, que se me no quer deixar ir eu no partirei. Mas tenho a certeza de que no sirvo para mais nada seno para soldado; no nasci, para ser nem diplomata nem funcionrio; no sei esconder os meus sentimentos - acrescentou sem deixar de fitar as raparigas com a bonita desenvoltura prpria da sua idade.
     A gatinha, que o comia com os olhos, parecia pronta a brincar e a mostrar a sua natureza felina.
     - Bem, bem! - disse o velho conde- Est sempre pronto a exaltar-se. Bonaparte deu volta  cabea de toda esta gente. L porque ele passou de simples tenente a imperador... Seja o que Deus quiser - rematou, sem reparar no sorriso escarninho da visita.
     As pessoas crescidas puseram-se a falar de Bonaparte. Jlia, o filha da princesa Karaguine, voltou-se para o jovem Rostov: - Que pena que no tenha estado na quinta-feira passada em casa dos Arkarov. No calcula a falta que me fez! - disse-lhe ela, sorrindo com afabilidade.
     O rapaz, lisonjeado, veio sentar-se junto dela. E sorrindo com a coquetterie prpria da sua idade, entabulou uma conversa ntima, sem reparar que as suas amabilidades eram como um gldio de cime a trespassar o corao de Snia, a qual, disfarando a sua confuso, fingia estar alegre. No meio da sua conversa com Jlia, deteve os olhos em Snia. Esta lanou-lhe um olhar cheio de amargura, retendo a custo as lgrimas, embora ainda lhe flutuasse um sorriso nos lbios, e levantando-se saiu. Toda a animao de Nicolau se desvaneceu. Aproveitou a primeira oportunidade para interromper o seu dilogo, e, inquieto, l foi  procura de Snia.
     - Oh, como toda esta juventude traz o corao na boca! - exclamou Ana Mikailovna apontando para Nicolau, que sala da sala.- Primos, maus vizinhos! - acrescentou.
     -  verdade! - disse a condessa, assim que desapareceu o raio de sol que a mocidade trouxera consigo ao salo. E, respondendo a uma pergunta que ningum lhe tinha feito, mas que a preocupava:- Que contrariedades, que contrariedades as nossas para agora podermos gozar de uma certa alegria! E o certo  que ainda hoje sentimos muito mais terror que prazer. Estamos sempre com medo, sempre com medo! E  precisamente nesta idade que as raparigas e os rapazes correm maior perigo.
     - Tudo depende da educao que se recebe - disse a visita. - Sim, tem razo - continuou a condessa. - At agora tenho sido sempre a amiga ntima dos meus filhos e eles tm sempre confiado em mim. - E, ao falar assim, caa no erro de muitos pais, persuadidos de que os filhos no tm segredos para eles. - Sei que serei sempre a primeira confidente dos meus filhos, e que Nikolenka, com a seu feitio ardente, se um dia fizer uma asneira - os rapazes esto sempre sujeitos a isso -, nunca se comportar como esses senhores de Petersburgo.
     - Sim, so muito bons pequenos - afirmou o conde, qu6 resolvia sempre os problemas embaraosos dizendo que tudo estava bem. - Imagine! Quis assentar praa nos hssares! Que lhe havemos de fazer, minha cara!
     - Que linda rapariga  a sua filha mais nova! - disse a visita. - Que azougada!
     - ,  - replicou o conde. - Parece-se comigo! E que linda voz! No  por ser minha filha! A verdade diga-se. Vai ser urna verdadeira cantora, uma Salomoni. Anda a tomar lies com um italiano.
     - No ser cedo de mais? No  bom para a voz, segundo ouo dizer, aprender canto nesta idade.
     - Cedo de mais? - volveu o conde. - Ento as nossas mes no se casaram dos doze para os treze anos?
     - E j est enamorada do Bris! Veja isto! - disse a condessa, sorrindo, disfaradamente, e lanando um olhar  me do rapaz. Depois, como que respondendo a um pensamento que no deixava de a preocupar, continuou: - Imagine que eu a educava com severidade, que a proibia... S Deus sabe o que ela seria capaz de fazer s escondidas. (A condessa queria dizer que se beijariam.) Mas, assim, conheo-lhe todos os pensamentos.  ela prpria quem me vem contar todas as noites.  possvel que eu a estrague: mas estou convencida de que  esta a melhor maneira. J a mais velha a eduquei com mais severidade.
     - Pois , a mim educaram-me de maneira muito diferente - disse, sorrindo, a filha mais velha, a linda condessa Vera.
     O sorriso no tornava Vera mais bonita, como em geral acontece, pelo contrrio, dava-lhe uma expresso pouco natural e desagradvel at. Vera, a filha mais velha dos Rostov, era bonita, no era tola, tinha sido muito bem instruda, tinha uma educao excelente e urna bela voz; o que ela acabava de dizer era muito justo e a propsito, mas, coisa estranha, toda a gente, a principiar pela visita e pela prpria condessa, a fitou como que surpreendida que ela tivesse falado daquela maneira, e todos sentiram um certo embarao.
     - Em geral somos sempre mais rigorosos com os filhos mais velhos; pensamos sempre fazer deles pessoas excepcionais - disse a Visita.
     - Para que havemos de esconder os nossos erros, minha cara! A minha querida condessa quis ser exemplar com a educao de Vera - observou o conde. - Mas que se perdeu com isso?
     O resultado no foi nada mau- acrescentou, piscando o olho amistosamente a Vera.
     As visitas ergueram-se, finalmente, para se despedirem, prometendo vir jantar.
     - Isto  que so maneiras! Parecia que nunca mais se iam embora! - exclamou a condessa, ao ver, finalmente, as visitas pelas costas.
     

     
     
     
     Captulo XIII
     
     Quando Natacha saiu do salo a correr no foi muito longe; ficou no jardim de Inverno. E ali permaneceu ouvindo o que se dizia no salo e aguardando que Bris chegasse. Principiava a impacientar-se, e j batia com os ps no cho, quase a chorar por o no ver aparecer, quando se principiaram a ouvir os passos do rapaz, uns passos nem muito lentos nem muito precipitados, compassadamente. Natacha correu a esconder-se atrs dos vasos das plantas.
     Bris ficou parado no meio da dependncia, olhou em tomo de si, sacudiu a manga do uniforme e aproximou-se de um espelho para mirar a sua linda figura. Muito quieta. Natacha espreitava l do seu esconderijo, curiosa de ver o que ele faria. Bris esteve alguns momentos diante do espelho, sorriu e dirigiu-se para a porta. Natacha quis cham-lo, mas de si para consigo disse: Ele que me procure. Mal Bris sara, entrou Snia, por outra porta, muito corada, e soltando palavras colricas por entre um fio de lgrimas. Natacha conseguiu reprimir o seu primeiro movimento, que a impelia a correr para ela, e ficou no seu esconderijo como se estivesse debaixo do chapu que torna as pessoas invisveis, observando o que se passava. Tirava disso um prazer muito especial. Snia balbuciava fosse o que fosse de indistinto, sem desviar os olhos da porta do salo. A porta abriu-se e apareceu Nicolau.
     - Snia, que tens tu? Ser possvel?! - exclamou ele, correndo para ela.
     - No  nada, no  nada, deixa-me. 
     As lgrimas correram-lhe em fio.
     - Sim, bem sei o que foi.
     - Se sabes,  o que importa. Vai ter com ela.
     - Snia! Ouve-me. S uma palavra. Como  possvel que estejamos os dois a atormentar-nos por causa de uma patetice? volveu Nicolau, pegando-lhe nas mos.
     Snia deixou-as ficar e enxugou as lgrimas. Natacha, sem um movimento, e retendo a respirao, olhava-os do seu canto com os olhos brilhantes. Que se ir passar?, pensava ela.
     - Quero l saber das outras. Snia. S tu s tudo para mim disse Nicolau. - Hei-de provar-to.
     - Por amor de Deus, no me digas essas coisas,
     - No volto mais, perdoa-me. Snia!
     Puxou-a para si e beijou-a.
     Sim, senhor, assim mesmo!, exclamou para si mesma, e, quando Snia e Nicolau partiram, seguiu-os - e chamou Bris.
     - Bris, venha c - disse-lhe ela, com um arzinho de significativa astcia, - Preciso de lhe dizer uma coisa. Venha da, venha da - prosseguiu ela, conduzindo-o para o jardim de Inverno, para o stio onde estivera escondida atrs dos vasos das plantas.
     Bris seguiu-a sorridente.
     - De que se trata? - perguntou ele.
     Natacha perturbou-se, olhou em tomo de si, e vendo a boneca que ficara em cima de um dos vasos pegou nela.
     - D um beijo  minha boneca - ordenou.
     Bris fitou-lhe o rosto animado com um enternecedor interesse, mas nada disse.
     - No quer? Ento venha da - Desapareceu no meio da verdura, atirando fora a boneca. - Chegue-se mais, chegue-se mais - murmurou.
     Passou o brao pelo canho da manga do oficial e no seu rosto purpurizado havia um ar ao mesmo tempo srio e medroso.
     - E a mim, quer-me beijar a mim? - balbuciou numa voz quase imperceptvel, olhando-o de vis, com um sorriso nos lbios e as lgrimas quase a saltarem-lhe dos olhos, to grande era a emoo.
     Bris corou.
     - Que estranha que a menina ! - exclamou ele, debruando-se para ela, mas sem se decidir, e como que  espera. Subitamente. Natacha saltou para cima de uma cadeira, ficando mais alta do que ele, envolveu-lhe o pescoo nos seus pequeninos braos nus e, inclinando a cabea para trs, beijou-o em plenos lbios.
     Em seguida esgueirou-se por entre os vasos do lado oposto e deteve-se, de cabea baixa.
     - Natacha - disse Bris. - Bem sabe que gosto de si, mas Gosta de mim? - perguntou ela, interrompendo -o.
     Sim, gosto de si, mas, por amor de Deus, no voltemos a fazer o que fizemos agora... Daqui a quatro anos... Ento virei pedir a sua mo.
     Natacha ficou a pensar.
     - Treze, catorze, quinze, dezasseis... - disse, contando pelos seus pequeninos dedos.- Est bem. Fica assim combinado?
     E no seu rosto cheio de animao resplandeceu uma tranquila alegria.
     - Combinado! - repetiu Bris.
     - Para sempre? - voltou a pequena.- At  morte?
     E, dando-lhe o brao, dirigiu-se com ele, toda ela felicidade, para a sala contgua.
     

     
     
     
     Captulo XIV
     
     A condessa estava to cansada de atender as visitas que disse que no receberia mais ningum, e o guarda-porto recebeu ordem de convidar para jantar todas as pessoas que viessem apresentar felicitaes. Estava morta por se ver a ss com a sua amiga de infncia, a princesa Ana Mikailovna, que mal tinha visto desde que ela voltara de Petersburgo. Ana Mikailovna, com o seu bonito rosto como que intumescido de chorar, veio colocar-se muito junto da cadeira da condessa.
     - Vou ser absolutamente sincera contigo - disse-lhe ela. Acabaram-se-nos as velhas amigas de outrora. E por isso que eu aprecio tanto a tua amizade.
     Ana Mikailovna, ao ver aproximar-se Vera, calou-se. A condessa apertou a mo da amiga.
     - Vera - disse ela para a filha primognita, que evidentemente no era a preferida -, vocs no percebem nada? Ento ainda no compreendeste que ests aqui a mais? Vai ter com as tuas irms, ou ento...
     A formosa Vera teve um sorriso um pouco desdenhoso, sem dar a perceber, de maneira alguma, que se sentia ofendida.
     - Se me tivesse dito mais cedo, me, j me teria ido embora - disse ela, afastando-se.
     Mas, ao passar pela sala do div, viu que as duas janelas estavam simetricamente ocupadas pelos dois pares. Parou a olhar e teve um sorriso de desdm. Snia estava sentada muito juntinha de Nicolau, que copiava uns versos para ela, os primeiros que tinha escrito na sua vida. Bris e Natacha estavam na outra janela, e calaram-se quando a viram entrar. Snia e Natacha olharam-na com um ar feliz, e ao mesmo tempo como se tivessem sido surpreendidas em flagrante.
     Estas garotas, que ento viviam a sua primeira histria de amor, eram ao mesmo tempo divertidas e comovedoras para quem as contemplasse. Mas a verdade  que no foi grande a satisfao de Vera quando deu com elas.
     - Quantas vezes j lhes pedi que se no apoderassem do que  meu? As meninas tambm tm um quarto,
     Tirou o tinteiro das mos de Nicolau.
     - Espere, espere - exclamou ele, molhando a caneta. - No h dvida de que no sabem fazer nada com jeito - prosseguiu ela.- Foi uma vergonha aquela vossa entrada no salo.
     Apesar da justeza da observao, ou at, precisamente, por isso mesmo, ningum abriu a boca, e os quatro limitaram-se a olhar uns para os outros. Vera continuou, com o tinteiro na mo:
     - Sempre gostava de saber que segredinhos  que a Natacha e o Bris tm para dizer um ao outro.., nessa idade, e vocs tambm. Que patetice!
     - E tu que tens com isso. Vera? - disse Natacha, com a voz mais pachorrenta deste mundo, para dizer alguma coisa.
     Era evidente estar, como nunca, nesse dia disposta a ser boa e afectuosa para toda a gente.
     - Tudo isto  uma patetice - continuou Vera- Sinto vergonha por vocs. Que segredos so esses?
     - Toda a gente tem segredos. Ns tambm no nos metemos ria tua vida e na do Berg - disse Natacha, que principiava a exaltar-se.
     - Acho muito bem que se no metam na minha vida nem na dele, tanto mais que nada tm a dizer de ns. Deixa estar que hei-de contar  me como tu te portas com o Bris.
     - Natlia Ilinitchna porta-se muito bem comigo - disse Bris. - Nada tenho a censurar-lhe.
     - Deixe-a l. Bris, est a ser diplomata...
     A palavra diplomata estava ento em moda entre as crianas, com o significado particularssimo que elas lhe davam.
     - Que maada! - exclamou Natacha, com a voz trmula de irritao. - Porque  que ela se est sempre a meter comigo?... Tu no percebes nada - acrescentou, dirigindo-se a Vera- no admira: nunca gostaste de ningum. No tens corao, no passas de uma Madame de Genlis (era uma alcunha, com todo o ar de muito ofensiva, inventada por Nicolau)... Aquilo de que mais gostas  de ms-criaes para com os outros. Deixa-nos em paz e vai l fazer-te coquette com o Berg.
     - Mas eu nunca andei a correr atrs de um rapaz diante de gente de fora...
     - Era isso que tu querias, no  verdade?, dizer-nos coisas desagradveis - disse Nicolau. - Conseguiste que todos ficssemos zangados. Vamos embora para a nursery.
     E todos eles, como um bando de pssaros assustados, bateram as asas e despediram.
     - A mim  que vocs disseram coisas desagradveis; eu, por mim, no disse coisas desagradveis a ningum - replicou Vera. - Madame de Genlis! Madame de Genklis! (Autor muito Iwo e traduzido na Rssia de ento. (N, dos T.) - gritaram j detrs da porta as suas vozes alegres.
     A linda Vera, que acabara por irritar toda  gente, ps-se a sorrir, e, completamente indiferente ao que lhe tinham dito, aproximou-se de um espelho e comps a charpe e o penteado. Ao ver a sua imagem no espelho, voltou.  serenidade e  frieza habituais.
     No salo falava-se ainda.
     - Ah, minha querida - dizia a condessa -, tambm na minha vida riem tudo  cor-de-rosa. No vs que pelo caminho que levamos, a nossa fortuna no dura muito? E  tudo por causa do clube e da bondade dele. Julgas que descansamos quando vamos para o campo? L temos os espectculos, as caadas, e s Deus sabe que mais. Mas para que hei-de eu estar a falar de mim? E tu, como  que conseguiste tudo quanto querias? O que eu admiro, as vezes. Annette.  como tu podes, na tua idade, ir sozinha, por essas estradas, a Moscovo, a Petersburgo, procurar os ministros, a gente importante, e como tu sabes falar a todos! O que eu te, admiro! Conta, conta, como  que conseguiste? No percebo nada.
     - Ali, minha filha - replicou a princesa Ana Mikailovna. Deus queira que nunca venhas a saber o que  ficar viva, desamparada, com um filho nos braos a quem se quer doidamente. A idade pouco importa para a gente aprender - prosseguiu com altivez- Aprendi  minha custa. Quando tenho de me dirigir a qualquer grado, mando-lhe uma, palavrinha: A princesa fulana deseja avistar-se com Sicrano ou Beltrano, E meto-me num carro de praa e apresento-me uma, duas, trs, quatro vezes, as precisas para conseguir o que pretendo. Pouco me importa o que eles possam pensar de mim.
     - Conta-me l, a quem te dirigiste para pedir pelo Bris? perguntou a condessa. - A o tens j oficial da Guarda, enquanto o meu Nicolau ainda no passou de junker. No tenho ningum a quem o recomendar. A quem te dirigiste?
     - Ao prncipe Vassili. Foi muito amvel. Ps-se logo  minha disposio. Falou ao imperador - disse a princesa Ana com um ar vitorioso, esquecendo por completo as humilhaes a que tivera de sujeitar-se para alcanar os seus fins.
     - Que, tal est o prncipe Vassili? Envelheceu? - inquiriu a condessa. - Nunca mais o vi desde o tempo das nossas teatradas em casa dos Rumiantsov. Naturalmente j no se lembra de mim. Fazia-me a corte - acrescentou, sorrindo.
     - Est a mesma pessoa - replicou Ana Mikailovna - amvel, atencioso. As grandezas no lhe fizeram perder a cabea. Lamento poder to pouco, querida princesa, disse-me ele, mas d-me as suas ordens.  o que te digo,  uma excelente pessoa e um bom parente. Tu bem sabes. Natlia, o que o meu filho representa para mim. Nem eu sei o que seria capaz de fazer pela sua felicidade. Mas estou em circunstncias to penosas - continuou ela, num tom acabrunhado, e baixando a voz -, to penosas, que me vejo actualmente numa situao terrvel. Aquele infeliz processo em que eu me meti leva-me tudo quanto tenho, e no h maneira de andar para diante. Imagina que estou, como se diz, sem vintm, e no sei como hei-de arranjar dinheiro para pagar o equipamento do Bris. - Puxou do leno e ps-se a chorar. - Preciso de quinhentos rublos, e tudo quanto tenho de meu, neste momento,  uma nota de vinte rublos. Aqui tens a minha situao... A minha nica esperana, agora,  o conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov. Se ele no vier em auxlio do afilhado - como sabes,  padrinho do Bris - e no fizer alguma coisa por ele, tudo quanto eu consegui at agora no serve para nada: no poderei pagar o equipamento do rapaz.
     A condessa, de lgrimas nos olhes, ficou calada e pensativa.
     - Muitas vezes digo de mim para comigo, e talvez no seja bonito: ali est o conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov, um homem que vive sozinho - e, tem urna fortuna imensa... Para que  que aquele homem vive? A vida para ele  um fardo, enquanto que o Bris, coitado, agora  que principia a viver.
     - Naturalmente no deixa de se lembrar dele no testamento - disse a condessa.
     - Quem sabe l, querida amiga! Estes ricaos, estes nababos, so to egostas! Em todo o caso estou disposto a ir visit-lo com o Bris e dizer-lhe francamente o que se passa. Pensem de mim o que quiserem, tanto se me d. Nada tem importncia para urna me quando est em risco o destino de filho. - Levantou-se para sair. - So duas horas, o vosso jantar  s quatro. Tenho tempo.
     E como mulher activa, da capital, que era, para quem () tempo  dinheiro. Ana Mikailovna mandou chamar o filho e saiu com ele.
     - Adeus, minha querida - disse para a condessa, que a acompanhou at  porta, - Deseja-me sorte - segredou-lhe, a ocultas do filho.
     - Vai visitar o conde Cirilo Vladimirovitch, minha cara?- inquiriu o conde, da sala de jantar, e aparecendo na antecmara- Se ele estiver melhor, convide o Pedro em, meu nome. Ele j c esteve em casa, j danou com as pequenas. Convide-o em meu nome, sem falta, minha cara. Vamos a ver como se porta hoje o Taraska. Est farto de me dizer que o conde Orlov nunca deu um jantar como o que ele me est a preparar,
     

     
     
     
     Captulo XV
     
     - Meu querido Bris - disse a princesa Ana Mikailovna para o filho quando a carruagem da condessa Rostov, que os tinha conduzido, chegou  rua atapetada de palha e penetrou no grande ptio do conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov.- Meu querido Bris - repetiu, enquanto retirava a mo da velha romeira de peles e a pousava no brao do filho, num gesto ao mesmo tempo tmido e enternecido- s amvel, mostra-te atencioso. O conde Cirilo Vladimirovitch sempre  teu padrinho e  dele que depende o nosso futuro. Lembra-te disso, meu querido, s amvel, como tu sabes, quando queres...
     - Se eu tivesse a certeza de que de tudo isto sairia alguma coisa alm da humilhao que nos espera... - replicou o filho com frieza.- Mas, visto que lhe prometi, cumprirei a minha palavra;  por si que o fao.
     O criado, embora tivesse visto a quem pertencia a carruagem parada diante da escada, quis ver quem entrava, mas me e filho, sem se fazerem anunciar, penetraram, directamente, no vestbulo guarnecido de espelhos, entre duas fileiras de esttuas perfiladas nos seus nichos. O criado, observando com um olhar significativo a velha romeira de peles, perguntou quem procuravam - as princesas ou o conde? -, e, ao verificar ser o conde, disse que, como Sua Excelncia estava pior. Sua Excelncia no recebia ningum.
     - Vamos-nos embora - disse o filho em francs.
     - Meu amigo! - implorou a me, tocando-lhe de novo no brao, como se quisesse tranquiliz-lo e dar-lhe coragem.
     Bris no disse nada, e sem despir o casaco olhou para a me com um ar inquiridor.
     - Ouve - disse Ana Mikailovna para o criado, num tom insinuante -, eu bem sei que o conde Cirilo Vladimirovitch est muito mal.., e  precisamente por isso que eu aqui estou... Somos parentes... No quero incomodar ningum, meu amigo... Apenas desejava falar com o prncipe Vassili Serguievitch; sei que ele est aqui. Vai anunciar-nos, fazes favor.
     O criado, com toda a solenidade, voltou costas e puxou o cordo da campainha que tocava no andar superior.
     - A princesa Drubetskaia para o prncipe Vassili Serguievitch - gritou ele a um escudeiro, de calo, escarpins e sobrecasaca, que acorrera e se debruava da balaustrada da escadaria.
     A princesa ajeitou as pregas do vestido de seda tingida, mirou-se no grande espelho de Veneza que pendia (Ia parede e ps-se a subir a escada, altivamente, ao longo da passadeira, com os seus sapatos cambados.
     - Meu caro, prometeu-me - voltou ela para o filho, pegando-lhe no brao para encoraj-lo. O filho, de olhos baixos, seguia-a sem dizer palavra.
     Penetraram num salo que conduzia aos aposentos reservados para o prncipe Vassili.
     No momento em, que me e filho, tendo chegado ao centro da sala, se dispunham a perguntar a um velho criado que viera ao seu encontro qual o caminho a seguir, o batente de bronze de uma das portas girou e o prncipe Vassili, de samarra de veludo, s com uma condecorao, como era prprio da intimidade, apareceu, acompanhando um sujeito moreno, de muito bom aspecto. Era o famoso Dr. Lorrain, de Petersburgo.
     -  ento positivo?
     - Meu prncipe, errare humanum est, mas... - volveu o mdico, gaguejando e pronunciando o latim  francesa.
     - Est bem, est bem...
     Ao ver Ana Mikailovna e o filho, o prncipe Vassili despediu-se do mdico e avanou em direco a eles, calado, mas com uma expresso interrogadora. O filho deu-se conta de que, repentinamente, os olhos da me exprimiam uma profunda aflio, e um ligeiro sorriso lhe aflorou aos lbios.
     -  verdade, em que penosas circunstncias nos havamos de tornar a ver, prncipe... E como vai o nosso querido doente? inquiriu ela, sem parecer notar o olhar frio e ultrajante que ele lhe lanara.
     O prncipe Vassili olhou para ela e depois para Bris, como quem interroga, sem saber o que h-de fazer. Bris inclinou-se polidamente. O prncipe Vassili, sem corresponder ao seu cumprimento, voltou-se para Ana Mikailovna e respondeu-lhe com um aceno de cabea e um momo de lbios nada optimista para o doente.
     - Ser possvel?! - exclamou Ana Mikailovna. - Oh,  terrvel! - No pode uma pessoa pensar numa coisa dessas...  o meu filho - acrescentou, apontando Bris. - Quis vir agradecer-lhe pessoalmente.
     Bris inclinou-se outra vez com toda a correco. - Acredite, prncipe, um corao de me nunca mais esquecer o que fez por ns.
     - Sinto-me feliz por lhe poder ter sido prestvel, minha cara Ana Mikailovna - volveu-lhe o prncipe Vassili, compondo o jabot e pondo no seu gesto e na sua voz, em Moscovo, e na presena da sua protegida, no menos importncia que em Petersburgo, na soire de Ana Scherer,
     - Faa por ser um bom oficial e por se mostrar digno - - acrescentou, dirigindo-se a Bris. - - Tenho muito prazer - Est de licena? - interrogou, num tom totalmente indiferente.
     - Aguardo ordens. Excelncia, para me apresentar no meu novo regimento - replicou Bris, sem mostrar quer ressentimento perante os modos abruptos do prncipe, quer desejos de prosseguir na conversa, irias respondendo com uma to respeitosa compostura que o prncipe olhou para ele atentamente.
     - Est em casa de sua me?
     - Vivo em casa da condessa Rostov - tornou Bris, sem se esquecer de acrescentar: - Excelncia.
     - Ilia Rostov, que casou com Natlia Chinchina - elucidou Ana Mikailovna.
     - Bem sei, bem sei - disse o prncipe Vassili, com a sua voz inexpressiva. - Nunca pude compreender como a Natlia se decidiu a casar com esse burgesso! Uma pessoa estpida e ridcula. E ainda por cima jogador, pelo que dizem.
     - Mas uma excelente pessoa, meu prncipe - acrescentou Ana Mikailovna, com um certo sorriso, como se ela fosse tambm de opinio que o conde Rostov era digno de um tal juzo, mas entendesse que as pessoas deviam mostrar indulgncia para com um pobre velho. - Que dizem os mdicos? - perguntou, depois de um breve silncio, e afivelando, de novo, uma expresso de grande pesar no rosto cavado pelas lgrimas.
     - H pouca esperana - volveu o prncipe.
     - E eu que tanto queria uma vez ainda agradecer a meu tio todas as atenes que ele tem tido para comigo e para com meu filho.  o seu afilhado - acrescentou, como se esta informao devesse causar uma grande alegria ao prncipe Vassili.
     Este franziu as sobrancelhas, sem dizer nada. Ana Mikailovna percebeu que ele receava ver nela uma rival na disputa da herana do conde Bezukov, e procurou logo tranquiliz-lo.
     -  apenas por muita estima e dedicao por meu tio  disse deixando cair, negligentemente, e com convico, esta ltima palavra,- Conheo-lhe muito bem o carcter nobre e franco; mas ele no tem junto de si seno as princesas... To novas... Inclinou-se-lhe ao ouvido e acrescentou em voz baixa: - Ele j se preparou para a jornada, prncipe? Estas ltimas horas so to preciosas! No h momento mais grave,  indispensvel prepar-lo, visto estar to mal. Ns, mulheres, prncipe - sorriu carinhosamente -, ns sabemos melhor do que ningum falar destas coisas.  indispensvel que eu o veja. Por mais penoso que isso seja para mim.., mas estou habituada ao sofrimento.
     O prncipe compreendia, e mais do que nunca, que, como na soire de Ana Scherer, no lhe ia ser fcil desembaraar-se de Ana Mikailovna.
     . No acha que esta entrevista lhe seria muito penosa, querida Ana Mikailovna? - volveu ele.-  melhor esperarmos para amanh. Os mdicos previram uma crise.
     - Mas no se deve esperar em tais momentos, prncipe. Lembre-se que se trata da salvao da sua alma... Ah!, so terrveis, os deveres de um cristo...
     Uma porta dos aposentos interiores abriu-se e uma das sobrinhas do conde entrou, uma rapariga de aspecto triste e frio, com o tronco completamente desproporcionado em relao s pernas.
     O prncipe Vassili voltou-se para ela.
     - Ento, como est ele?
     - Sempre na mesma. No admira, com este barulho.., disse a princesa, olhando para Ana Mikailovna, como se ela fosse uma desconhecida.
     - Ah!, querida, no a conhecia! - exclamou Ana Mikailovna, com um sorriso feliz e avanando, ligeira, para a sobrinha do conde. - Acabo de chegar e estou s suas ordens para a ajudar e tratar de meu tio. Calculo o que deve ter sofrido - acrescentou com um ar compadecido.
     A princesa no disse nada, nem sequer sorriu, e voltou, logo a, desaparecer. Ana Mikailovna descalou as luvas e instalou-se numa cadeira, em posio conquistada, fazendo sinal ao prncipe Vassili para sentar-se o lado dela.
     - Bris! - disse para o filho, sorrindo-lhe.- Eu vou ver o conde, meu tio: tu, entretanto, meu amigo, procura o Pedro, e no te esqueas de lhe transmitir o convite dos Rostov. Querem-no l para jantar. Naturalmente no vai, penso eu - acrescentou, para o prncipe,
     - Porque no? - observou este, que no parecia l muito bem disposto.- Ficar-lhe-ei muito grato se me desembaraar deste jovem, - Est aqui instalado. O conde ainda no pediu uma nica vez para o ver.
     Encolheu os ombros. Um escudeiro acompanhou Bris, fazendo-o descer a escada e conduzindo-o depois por outra aos aposentos de Pedro Kirilovitch,
     

     
     
     
     Captulo XVI
     
     Pedro, que no conseguira decidir-se por uma carreira em Petersburgo, havia sido, de facto, recambiado para Moscovo por causa do seu mau comportamento. A histria que se contava em casa dos Rostov era exacta. Pedro tinha tornado parte na cena da amarrao do polcia ao lombo do urso. Regressara havia apenas breves dias e, como era seu costume, instalara-se em casa do pai. Embora calculasse que a histria j seria conhecida em Moscovo e que as senhoras da roda do pai, sempre mal dispostas para com ele, j teriam aproveitado a ocasio para indispor o conde consigo, nem por isso deixara de se apresentar nos aposentos do pai assim que chegara. Ao entrar no salo, quartel-general das princesas, cumprimentou as senhoras que estavam a bordar enquanto uma delas lia um livro em voz alta. Eram trs. A mais velha era uma rapariga severa e de aspecto cuidado, de tronco muito alto, a mesma que aparecera a Ana Mikailovna; essa era a leitora; as duas mais novas, frescas e bonitas, to parecidas que apenas se distinguiam pelo sinalzinho que uma delas tinha sobre o lbio e que a tornava ainda mais bonita, bordavam ao bastidor. Pedro foi recebido como um morto que ressuscita ou como um pestfero. A mais velha interrompeu a leitura e, sem dizer nada, fitou-o de olhos espavoridos; a segunda, a que no tinha sinal, reproduziu exactamente a expresso da irm; a mais nova, de feitio jovial e trocista, mergulhou a cabea no trabalho para esconder o riso que lhe iria provocar a divertida cena com que j contava. Levantou o bastidor e inclinou-se para o bordado, como se estivesse absorta no seu trabalho, mal podendo suster o riso.
     - Bom dia, prima - disse Pedro. - J no me conhece?
     - Conheo-o de mais, conheo-o de mais, sim, de mais. - Como est o conde? Posso v-lo? - continuou, embaraado, como sempre, mas sem se perturbar.
     - O conde est mal fsica e moralmente, e, pelo que sei, o Pedro tem feito o possvel para lhe agravar os seus padecimentos morais.
     - Posso v-lo? - repetiu Pedro.
     - Hum... Se o quer matar, sim; se o quer matar, ento, faa favor. Olga, vai ver se o caldo do tio est pronto; estamos quase na hora - acrescentou ela, mostrando com isso a Pedro que no faziam outra coisa seno aliviar os sofrimentos do pai, enquanto ele s servia, evidentemente, para o desassossegar.
     Olga saiu. Pedro olhou as duas irms e disse, pedindo licena para se retirar:
     - Ento vou-me embora. Quando eu puder v-lo, espero que me mandem chamar.
     Saiu e o riso meio abafado da mais nova ressoou-lhe nas costas.
     No dia seguinte, o prncipe Vassili chegava e instalava-se em casa do conde. Mandou chamar Pedro e disse-lhe:
     - Meu caro, se se vai comportar aqui como em Petersburgo, acabar mal,  tudo quanto tenho a dizer-lhe. O conde est muitssimo doente: deve evitar v-lo por completo.
     A partir desse momento nunca mais ningum pensou em Pedro, que passava os dias nos seus aposentos, no andar de cima.
     Quando Bris entrou no quarto. Pedro passeava de um lado para o outro, detendo-se, de vez em quando, num dos ngulos da sala, gesticulando ameaadoramente diante da parede, como se desafiasse qualquer inimigo invisvel, e lanando olhares severos por cima das lunetas. Depois, retomava a sua caminhada, pronunciava palavras incompreensveis, encolhia os ombros, agitava os braos.
     - A Inglaterra est liquidada - articulava ele, franzindo as sobrancelhas, e apontando fosse o que fosse com o dedo.- O Senhor Pitt, como traidor da nao e do direito dos povos, est condenado a...
     No pde concluir a sentena que condenava Pitt. Julgava-se Napoleo e na companhia do seu heri atravessava j o perigoso Pas de Calais, a caminho da conquista de Londres, quando viu entrar um jovem e garboso oficial. Calou-se. Tinha deixado de ver Bris ia este nos seus catorze anos, e no se lembrava realmente dele. Apesar disso, travou-lhe do brao, com os seus modos atenciosos e espontneos, sorrindo-lhe amistosamente,
     - Lembra-se de mim? - perguntou Bris, serenamente, e com um sorriso gracioso. - Vim com minha me visitar o conde, mas, segundo parece, ele no est bem de sade.
     - Sim, digamos, est doente. Esto sempre a incomod-lo replicou Pedro, procurando lembrar-se donde conhecia aquele mancebo.
     Bris via perfeitamente que Pedro o no reconhecia, mas no se achava na obrigao de lhe dizer quem era. E fitou-o sem o menor embarao.
     - O conde Rostov pede-lhe que v hoje jantar a casa dele - disse, aps uma pausa assaz longa e algo embaraosa para Pedro.
     - Ah, o conde Rostov! - exclamou Pedro muito contente.- Ento  o Ilia, o filho do conde. E eu que o no tinha reconhecido no primeiro momento. Lembra-se quando amos passear ao Monte dos Pardais (Passeio clebre em Moscovo. (N, dos T.) com Madame Jacquot... J l vai h muito.
     - Est enganado - disse Bris, sem pressa, e com um sorriso protector e um pouco trocista. - Sou Bris, o filho da princesa Ana Mikailovna Drubetskaia. Ilia  o Rostov pai. O filho chama-se Nicolau. E no conheo qualquer Madame Jacquot.
     Pedro abanou a cabea e gesticulou, como se quisesse enxotar moscas ou abelhas importunas.
     - Ah!, que estou eu a dizer? Confundo tudo. H tantos parentes em Moscovo! J sei, o Bris.., perfeitamente. At que enfim que estamos de acordo. Ora, diga-me, que pensa da expedio de Bolonha? No acha que os Ingleses ficaro em maus lenis se Napoleo conseguir atravessar o canal? Na minha opinio, a expedio  coisa vivel. Desde que Villeneuve no faa alguma asneira.
     Bris no sabia absolutamente nada acerca da expedio de Bolonha; no lia os jornais, e era a primeira vez que ouvia falar em Villeneuve.
     - Ns, aqui, em Moscovo, preocupamo-nos mais com jantares e mexericos do que com poltica - disse ele no seu tom sereno e escarninho. - Nada sei a esse respeito, nem tenho opinio sobre o assunto. Moscovo  uma cidade que presta sobretudo ateno aos escndalos. Neste momento no se fala noutra coisa seno de si e do conde.
     Pedro sorria, e o seu sorriso bom parecia traduzir o receio de que o interlocutor se descasse com qualquer palavra de que pudesse vir a arrepender-se. Mas Bris falava distintamente, com nitidez e secura, fitando-o nos olhos.
     - Moscovo no tem mais que fazer seno coscuvilhar - continuou. - Toda a gente est morta por saber a quem  que o conde vai deixar a sua imensa fortuna, embora muito bem possa acontecer que ele c fique para nos enterrar a todos, e fao votos para que assim seja,
     - Sim, tudo isto faz tristeza - murmurou Pedro.- Muita tristeza.
     
     Ainda no deixara de temer que o oficial, estouvadamente, abordasse qualquer conversa embaraosa para ele.
     
     - Como deve calcular - continuou Bris, corando ligeiramente, mas sem alterar o seu tom e o seu semblante reservados -, como deve calcular, o que toda a gente espera de um ricao  vir a receber dele qualquer coisa.
     Ora a est, disse Pedro com os seus botes.
     - E era precisamente isso que eu lhe queria dizer, para evitar equvocos: que est muito enganado se nos considera, a minha me e a mim, na categoria dessa gente. Ns somos bastante pobres, mas posso garantir-lhe, pelo menos no que me diz respeito, que  precisamente porque seu pai  rico que eu me no considero seu parente, e que tanto eu como minha me nunca lhe pediremos seja o que for, nem nada aceitaremos dele.
     Levou seu tempo antes que Pedro compreendesse, mas assim que o conseguiu deu um pulo do div, pegou em Bris por debaixo do brao, com a sua vivacidade de gestos e a sua habitual maneira desajeitada, e, corando ainda mais que o seu interlocutor, ps-se a dizer-lhe, num misto de pudor e embarao:
     - Que est a dizer? Ser possvel que... Quem  que seria capaz de pensar... Eu sei perfeitamente...
     Mas Bris mais uma vez lhe cortou a palavra.
     - Estou satisfeito por ter-lhe dito tudo isto. Naturalmente no lhe foi muito agradvel de ouvir, desculpe-me - acrescentou, para tranquilizar Pedro, quando quem devia esperar ser tranquilizado era ele prprio.- Mas espero que o no tenha ofendido. Tenho por princpio usar de franqueza... Que resposta quer que eu d? Sempre vai ao jantar dos Rostov?
     Bris, depois de assim se ter desembaraado de um penoso dever e de ter transferido para outrem a falsa situao em que se encontrava, tomou-se muito amvel, como era seu costume.
     - Oua c - disse Pedro, tranquilizado- Voc  uma pessoa extraordinria. O que acaba de me dizer  bonito, muito bonito. Claro que me no conhece. H tantos anos que nos no vemos.., desde crianas... Talvez suponha que eu... Sim, compreendo-o perfeitamente. No teria feito uma coisa dessas, no teria tido coragem, mas acho muito bem. Gostei muito de o conhecer.  curioso - acrescentou, aps uma breve pausa e sorrindo- o que foi capaz de pensar de mim! - Ps-se a rir.- Mas que importncia tem isso? Havemos de ter ocasio de nos conhecermos melhor, no  verdade? - Apertou-lhe a mo.- Fique sabendo que eu ainda no pus os ps no quarto do conde. No me mandou sequer chamar... Tenho pena dele... Mas que hei-de eu fazer?
     - Acha que Napoleo ser capaz de levar a cabo a travessia? - perguntou Bris, com um sorriso.
     Pedro disse de si para consigo que Bris queria mudar de conversa, e, fazendo-lhe a vontade, ps-se a descrever-lhe, pormenorizadamente, as vantagens e as dificuldades da tentativa de Bolonha.
     Um criado veio procurar Bris, mandado pela princesa, a qual ia partir. Pedro prometeu aparecer no jantar, e, para mais estreitar os seus laos com Bris, apertou-lhe energicamente a mo. Fitando-o amistosamente atravs dos cristais das suas lunetas... Depois de Bris sair continuou por muito tempo a passear no quarto, j no a rachar, de alto a baixo, inimigos invisveis, mas sorrindo  lembrana daquele rapaz amvel, ao mesmo tempo inteligente e resoluto.
     Como  vulgar com a gente muito moa, e especialmente se vive isolada. Pedro sentia por aquele rapaz um enternecimento sem razo de ser, prometendo de si para consigo fazer dele um verdadeiro amigo.
     O prncipe Vassili acompanhava a princesa. Esta levava o leno nos olhos e tinha o rosto coberto de lgrimas.
     -  horrvel,  horrvel! - exclamava ela.- Mas hei-de cumprir o meu dever custe o que custar. Hei-de vir tomar conta dele. No o podem deixar neste estado. Cada minuto que passa  tempo perdido. No sei porque esto  espera as princesas. Que Deus me inspire a maneira de o preparar...
     - Adeus, meu prncipe, que Deus o ajude!...
     - Adeus, minha amiga - replicou o prncipe Vassili, ao deix-la.
     - Oh, que situao terrvel - disse a me para o filho, ao subirem para a carruagem.- Quase j no conhece ningum. - No chego a compreender, me, quais so as relaes dele com o Pedro - observou o filho.
     - O testamento nos h-de dizer, meu amigo. E o nosso destino depende disso...
     - Mas, o que  que a leva a pensar que ele nos deixa alguma coisa?
     - Ah, meu filho! Ele  to rico e ns somos to pobres!
     - Isso no  uma razo, me...
     - Ai, meu Deus, meu Deus, o estado em que ele est! - suspirava ela.
     

     
     
     
     Captulo XVII
     
     Depois que Ana Mikailovna e o filho saram para se dirigir a casa do conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov, a condessa Rostov ficou por muito tempo sozinha, de leno nos olhos. Por fim, tocou a campainha.
     - Que andas tu a fazer? - disse ela, irritada, para a criada, que tinha tardado alguns minutos a aparecer. - No queres fazer as tuas obrigaes? Nesse caso, posso arranjar-te outra casa.
     A condessa to perturbada ficara com as aflies e a humilhante pobreza da amiga que estava de mau humor, e quando se irritava falava sempre assim  pobre rapariga.
     - Peo desculpa, minha senhora.
     - Vai dizer ao senhor conde que venha c.
     O conde, no seu passo claudicante, veio ao encontro da mulher, com o ar habitual de quem  surpreendido a fazer qualquer coisa mal feita.
     - Oh, condessinha! Aquilo  que  um saut de galinholas au Madre que ns l temos, minha querida! J o provei. Fiz muito bem em dar mil rublos ao Taraska. Vale-os bem!
     Sentou-se ao lado da condessa, apoiando os cotovelos nos joelhos, os cabelos brancos em desordem.
     - Que deseja, condessa?
     - Olhe l, querido... Que ndoa  essa? - disse ela, apontando-lhe o colete.- Naturalmente, foi o saut - acrescentou, sorrindo.-  que preciso de dinheiro.
     Tinha assumido uma expresso tristonha.
     - Ah, condessinha!...
     O conde deu-se pressa em ir buscar a carteira.
     - Preciso de muito dinheiro, conde; de quinhentos rublos.
     E, puxando do seu lencinho de cambraia, ps-se a esfregar o colete do marido.
     -  j,  j. Eh l! Quem  que est a? - gritou, no tom de um homem que sabe que basta chamar para logo acorrerem ao seu apelo. - Manda c o Mitenka.
     Mitenka, o jovem de boa famlia a educar em casa do conde, e, que estava  testa de todos os seus negcios, entrou na sala calmamente.
     - Ouve c - disse o conde para o jovem, que se aproximou em atitude respeitosa. - Traz-me... - Ficou um momento a pensar. - Sim, setecentos rublos. Mas, toma cuidado, no me tragas dessas notas rasgadas e sujas, como da outra vez. Quero notas novas, so para a condessa.
     - Sim. Mitenka, que sejam limpas - apoiou a condessa, com um profundo suspiro.
     - Quando precisa desse dinheiro. Excelncia? - perguntou Mitenka.-  bom que Sua Excelncia saiba que... Mas no se aflija - acrescentou, notando que a respirao do conde se tornava opressa, sinal de que principiava a encolerizar-se.- Tinha-me esquecido, precisamente... Quer j essa importncia?
     - Quero, quero, tr-la.  para a dares  condessa.
     - Isto  que  um tesouro, este Mitenka - prosseguiu ele, sorrindo, assim que o rapaz saiu.- No me venham dizer que  impossvel. Isso  que eu no posso tolerar. Tudo  possvel.
     - Ah, o dinheiro, conde, o dinheiro, as aflies que o dinheiro causa neste mundo! - exclamou a condessa. - E eu preciso muito deste dinheiro.
     - Pois, sim, condessinha, toda a gente sabe que  uma perdulria - disse o conde; e, depois de beijar a mo da mulher, retirou-se para o seu gabinete.
     Quando Ana Mikailovna voltou de casa de Bezukov, j a condessa tinha em seu poder o dinheiro, todo em notas novas, em cima de uma mesa, debaixo do leno de assoar, e Ana Mikailovna viu perfeitamente que a amiga estava preocupada.
     - Ento, minha amiga? - inquiriu a condessa.
     - Ah!, que situao horrvel a dele! Est irreconhecvel. E to mal, to mal! Estive junto dele apenas uns momentos, e no lhe pude dizer uma nica palavra...
     - Annette, por amor de Deus, no digas que no! - exclamou, de sbito, a condessa corando muito, o que era estranho naquele rosto magro e grave, nada novo j, e tirou o dinheiro que tinha debaixo do leno.
     Ana Mikailovna compreendeu imediatamente de que se tratava e debruou-se para beijar a amiga no momento propcio.
     - Aqui tens, da minha parte, para o uniforme do Bris.
     Ana Mikailovna abraou-se ento a ela a chorar. A condessa tambm chorou. Ambas choravam, porque ambas estavam de acordo e tambm porque eram pessoas de bom corao e excelentes amigas de infncia e se viam obrigadas a preocupar-se com essa coisa desprezvel que  o dinheiro e ainda tambm porque j no eram novas... Mas as suas lgrimas no eram amargas...
     

     
     
     
     Captulo XVIII
     
     A condessa Rostov estava sentada no salo, no meio de suas filhas, j entre um grande nmero de convidados. O conde tinha levado consigo os homens para mostrar-lhes, no gabinete, a sua coleco de cachimbos turcos. De vez em quando vinha c fora perguntar se ela ainda no tinha chegado. Estava-se  espera de Maria Dmitrievna Akrosimova, conhecida na sociedade por o terrvel drago, uma senhora a quem no distinguiam nem a fortuna nem os ttulos, mas a inteireza e a franca simplicidade de maneiras. Maria Dmitrievna era conhecida da famlia imperial, e toda Moscovo e toda Petersburgo a conheciam igualmente, e as duas cidades, posto a admirassem, nas costas dela zombavam do seu ar rude, contando anedotas a seu respeito. Toda a gente, sem excepo, a estimava e a temia um pouco.
     No gabinete, cheio de fumo, a conversa tinha por assunto guerra, que um manifesto acabava de anunciar, e o servio de recrutamento. Ainda ningum tinha lido esse manifesto, mas toda a gente sabia da sua existncia. O conde estava sentado numa otomana, entre dois fumadores, que conversavam. Quanto a ele, no fumava nem falava. Voltando a cabea ora para um lado ou para o outro, olhava para os interlocutores com viva satisfao e ouvia o que diziam aquelas duas criaturas que ele pusera em contacto.
     Um deles era civil, de rosto magro, escanhoado, bilioso e cheio de rugas. Pendia j para a velhice, conquanto vestisse como um rapaz  moda. Sentava-se  turca na otomana, como se estivesse em sua prpria casa, e, com a boquilha de mbar ao canto da boca, lanava rolos de fumo, de tempos a tempos, piscando os olhos. Era um velho celibatrio. Chinchine de nome, primo da condessa, um m-lngua, como se dizia nos sales moscovitas. Conversando, parecia conceder uma alta distino ao seu interlocutor. Este era um oficial da Guarda, rosado e fresco, bem apertado, bem penteado e irrepreensvel na sua farda. De cachimbo na bonita boca, soltava ligeiros rolos de fumo, por entre os lbios rosados, que subiam no ar em pequenos crculos. Era o tenente Berg, do regimento Seminovski, actual camarada de Bris, aquele a quem Natacha chamara, para irritar a irm, o noivo da Vera. O conde tinha-se sentado entre os dois e ouvia-os atentamente. A ocupao de que ele mais gostava,  parte o boston, que adorava, era precisamente o papel de auditor, sobretudo quando conseguira defrontar dois tagarelas.
     - He, como  isso, meu mui venervel Afonso Karlitch - dizia Chinchine, trocista, misturando as expresses o mais tipicamente russas com as frases francesas mais rebuscadas. - Conta tirar rendimentos do Estado, quer tirar lucros do seu esquadro?
     - No. Piotre Nikolaitch, apenas queria mostrar-lhe que a cavalaria oferece muito menos vantagens que a infantaria. Considere a minha posio. Piotre Nikolaitch...
     Berg falava sempre com preciso, num tom calmo e corts. Tudo quanto dizia lhe tocava a ele prprio de perto.  era capaz de estar calado horas sem se enfadar com isso nem causar aos outros o mnimo enfado. Mas desde que a conversa o tocasse pessoalmente, logo ele intervinha com exuberncia e visvel prazer.
     - Considere a minha posio. Piotre Nikolaitch. Se eu estivesse na cavalaria no teria mais de duzentos rublos de trs em trs meses, mesmo no posto de tenente, e actualmente tenho duzentos e trinta... - Um alegre e afectuoso sorriso acompanhava as suas palavras, e olhava para Chinchine e para o conde como se fosse a prpria evidncia os seus prprios xitos, dele. Berg, serem como que a preocupao suprema de toda a humanidade.
     - Alm disso. Piotre Nikolaitch, passando para a Guarda - continuou ele -, estou mais em evidncia e as vagas so em muito maior nmero na infantaria. E, depois, pode calcular como eu me arranjo com os duzentos e trinta rublos. Pois fique sabendo que fao economias e ainda mando dinheiro a meu pai - disse, entre duas fumaas.
     - A  que est a habilidade- O Alemo malha o milho em cima do cabo de um machado, como diz o provrbio. (Provrbio russo intraduzvel que se refere , avareza. (N, dos T) - disse Chinchine, piscando o olho ao conde e mudando a posio do cachimbo.
     O conde soltou urna gargalhada. Alguns dos convidados, verificando que Chinchine era a alma da conversa, aproximaram-se para ouvir. Berg, que no dava nem pela zombaria nem pela frieza que acolhiam as suas consideraes, continuava a historiar que, graas  sua passagem pela Guarda, j ganhara um nmero sobre os seus camaradas de promoo; que, em tempo de guerra, um comandante de esquadro pode morrer e que ele, na sua qualidade de mais antigo, muito facilmente poderia vir a substitui-lo; que no seu regimento toda a gente o adorava, e que o pai estava muito contente com ele. Berg deliciava-se claramente com todas estas revelaes e parecia no passar-lhe sequer pela cabea que os demais pudessem ter tambm os seus interesses. A verdade, porm,  que tudo quanto ele dizia tinha um ar to decente e to gracioso, era tamanha a candura do seu egosmo juvenil que os seus interlocutores se sentiam desarmados.
     - Bom, bom, meu filho, garanto-lhe que tanto na infantaria como na cavalaria, seja onde for, o seu futuro est garantido, isso prometo-lhe eu - disse Chinchine, batendo-lhe nas costas e erguendo-se da otomana,
     Berg sorriu com um ar feliz. O conde, e com ele os seus hspedes, penetraram no salo.
     Estava-se naquele momento que antecede os jantares de cerimnia em que os convidados,  espera da hora dos zakusski, no se embrenham em grandes conversas, sentindo-se obrigados a agitar-se e a no estarem calados, para assim darem a impresso de no terem pressa de ir para a mesa. Os donos da casa lanavam, de vez em quando, o seu olhar para a porta, e entreolhavam-se depois. Por sua vez, os convidados procuravam discernir nesses olhares quem se aguardava e o que ainda se aguardava: seria alguma importante pessoa de famlia retardatria ou alguma iguaria que ainda no estivesse pronta?
     Pedro chegara um pouco antes de comear o jantar e, desajeitado, foi sentar-se, no meio do salo, na primeira cadeira que se lhe deparou, embaraando o caminho a toda a gente. A condessa quis obrig-lo a falar, mas ele lanou um olhar ingnuo em tomo de si por detrs das lentes, como se procurasse algum, e no respondeu s suas investidas seno por monosslabos. Era incomodativo e s ele no compreendia que o estava a ser. A maior parte dos convidados, que tinha sabido da sua histria com o urso, observava, curiosamente, aquele rapago, corpulento e pacfico, perguntando cada um a si mesmo como  que um simplrio daqueles, gordo e modesto, podia ter sido o autor da proeza em que um polcia se vira envolvido.
     - S agora chegou? - inquiriu a condessa.
     - Sim, minha senhora - respondeu ele, distraidamente.
     - No viu ainda meu marido?
     - No, minha senhora. - Ps- se a rir sem saber porqu.
     - Ouvi dizer que esteve h pouco tempo em Paris?  interessante, no ?
     - Muito interessante.
     A condessa trocou um olhar com Ana Mikailovna, que percebeu aquela pedir-lhe que tomasse conta do rapaz. Sentando-se junto dele, ps-se a falar-lhe do pai. Mas ele, como acontecera com a condessa, apenas lhe respondia por monosslabos. Os convidados estavam muito ocupados. Ouviam-se fragmentos de frases: Os Razumovski..., Foi encantador...,  muita bondade da sua parte..., A condessa Apraksine. A condessa levantou-se e entrou no grande salo.
     - Maria Dmitrievna? - ouviu-se perguntar.
     - ,  ela mesma - respondeu uma grossa voz de mulher, e nesse mesmo momento Maria Dmitrievna entrava na sala.
     Todas as raparigas, e at as senhoras,  excepo das mais idosas, se levantaram. Maria Dmitrievna deteve-se no limiar da porta. Grande e macia, a cabea erguida, onde os caracis brancos mostravam bem rondar ela a casa dos cinquenta, envolveu num olhar toda a assembleia, e, como se quisesse arrega-las, arranjou, sem pressa, as largas mangas do seu vestido. Maria Dmitrievna exprimia-se sempre em russo.
     - As minhas felicitaes  festejada e aos seus filhos - disse na sua voz alta e grave, que dominava todos os demais rudos. E tu, velho pecador - acrescentou, dirigindo-se ao conde, que lhe beijava a mo. - Hem! Aborreces-te em Moscovo? No se pode arranjar aqui uma boa caada? Nada a fazer, meu velho, enquanto estes pintainhos no crescerem... - E apontava para as filhas do conde. - Quer queiras quer no, tens de lhes arranjar casamento.
     - Ento, meti cossaco! (Chamava sempre a Natacha meu cossaco.) - Acariciou com a mo Natacha, que se aproximou, para lha beijar com um ar desembaraado e alegre.- Bem sei que s uma peste, mas eu gosto de ti.
     Retirou de uma enorme saca uns brincos de mbar, em forma de pra, e, dando-os a Natacha, radiante com o seu aniversrio e rubra de satisfao, voltou-lhe instantaneamente as costas para dirigir-se a Pedro.
     - Eh, eh!, meu caro amigo!, vem c - disse ela numa voz que procurava tornar suave e delicada.- Vem c, meu caro...
     E arregaou ainda mais as mangas do vestido num ar terrvel. Pedro aproximou-se, olhando-a com candura atravs das lentes das suas lunetas.
     - Aproxima-te, aproxima-te, meu caro! Mesmo a teu pai s eu era capaz de lhe dizer- a verdade, quando ele estava disposto a ouvi-la, e Deus queira que tu, tu tambm a entendas,
     Calou-se. Todos se calaram igualmente; aguardavam o que ia acontecer, sentindo que aquilo no passava de prembulo.
     - Um lindo menino, no h dvida! Um lindo menino!... O pai no seu leito de agonia, e ele a fazer loucuras, a obrigar um polcia a andar a cavalo num urso.  uma vergonha, meu filho, uma vergonha! Farias bem melhor se fosses para a guerra.
     Voltou-lhe as costas e deu a mo ao conde, que mal podia suster o riso.
     - Bom, suponho que so horas de irmos para a mesa - concluiu Maria Dmitrievna.
     O conde e Maria Dmitrievna abriram a marcha atrs deles seguia a condessa, acompanhada do coronel de hssares, pessoa de acarinhar, porque era na sua companhia que Nicolau regressava ao seu regimento. Ana Mikailovna ia pelo brao de Chinchine. Berg ofereceu o dele a Vera. Jlia Karaguine, toda sorridente, acompanhava Nicolau. Os outros pares vinham depois, estendendo-se pelo salo alm, e atrs de todos, um pouco  parte, as crianas, os preceptores e as governantas. Os lacaios deram-se pressa, houve um rumor de cadeiras e uma orquestra principiou a tocar no momento em que os convivas se sentavam.
     As notas da orquestra particular do conde misturavam-se ao tilintar das facas e dos garfos, ao rudo das conversas, s idas e vindas discretas dos criados.  cabeceira da mesa sentava-se a condessa, dando a direita a Maria Dmitrievna, e a esquerda a Ana Mikailovna e s demais senhoras. Na outra cabeceira estava o conde, que tinha  sua esquerda o coronel de hssares e  direita Chinchine e outros convidados masculinos. De um dos lados da grande mesa ficava a mocidade j crescida: Ver, ao lado de Berg. Pedro, com Bris; do outro lado, as crianas, os preceptores, as governantas. O conde via a mulher, com a sua touca alta, de fitas azuis, atravs dos cristais das garrafas e das taas cheias de fruta, e ia enchendo os copos dos vizinhos, sem esquecer o seu prprio. A condessa, igualmente oculta por detrs dos ananases, sem descuidar dos seus deveres de dona de casa, trocava a sua piscadela de olhos com o marido, cujas calvcie e, face rubicunda lhe pareciam particularmente vermelhas em contraste com o cabelo branco. No lado das senhoras havia uma vozearia bem ritmada; nos dos homens, as vozes iam-se tornando cada vez mais ruidosas, principalmente a do coronel de hssares, que, cada vez mais corado, tanto comia e to bem que o conde o exibia como exemplo aos demais convidados. Berg, com um enternecido sorriso, falava a Vera do amor, esse sentimento no deste mundo, mas do cu. Bris ia dizendo ao seu novo amigo Pedro o nome dos convivas, enquanto trocava olhares com Natacha, sentada diante dele. Pedro falava pouco, examinando todas estas caras novas, e comia abundantemente. Desde as duas qualidades de sopa, de que ele preferiu a de tartaruga, e dos kulebiaks (Espcie de tartaruga cozida. (N, dos T), at s galinholas, de todos os pratos e de todos os vinhos que o chefe de mesa, com a garrafa envolta num guardanapo, parecia extrair misteriosamente do ombro do seu vizinho de mesa, murmurando: Madeira seco, Hngaro ou Vinho do Reno, de tudo se serviu. Pedro pegava no primeiro dos copos que lhe vinham  mo, de entre os quatro ornados com o monograma do conde, em fila diante de cada talher, e despejava-o, gulosamente, aumentando, de momento a momento, de afectuosidade para com os seus vizinhos de mesa. Diante dele. Natacha olhava para Bris como as garotas de treze anos costumam olhar para os rapazes que acabam de as beijar e de quem elas se julgam apaixonadas. Por vezes at o prprio Pedro recebia dela um olhar desse gnero, e esse olhar de rapariga risonha e animada dava-lhe a ele vontade de rir sem que soubesse porqu.
     Nicolau estava longe de Snia, junto de Jlia Karaguine, e com ela se entretinha a conversar com o mesmo sorriso constrangido. Snia sorria para todos, mas a verdade era estar visivelmente consumida de cime: ora empalidecia, ora corava, fazendo o possvel para conseguir perceber o que Nicolau e Jlia estavam dizendo. A preceptora lanava em tomo de si olhares inquietos, pronta a cair a fundo sobre o primeiro que se lembrasse de se meter com as crianas. O preceptor alemo procurava gravar na memria toda a espcie de pratos, de sobremesas e de vinhos que iam sendo servidos para depois poder falar em tudo isso pormenorizadamente na carta que enviaria para a Alemanha. Sentia-se mortificado quando o chefe de mesa, com a, garrafa envolta no guardanapo, passava por ele sem o servir. Franzia as sobrancelhas, fingindo no querer vinho, mas a verdade  que se sentia ofendido por ningum compreender que o vinho lhe era necessrio, no para o desalterar ou para lhe satisfazer a gula, mas apenas pelo desejo bem mais srio de se instruir.
     

     
     
     
     Captulo XIX
     
     No sector dos homens a conversa ia-se animando cada vez mais. O coronel contava que o manifesto da declarao de guerra j era conhecido em Petersburgo e que um exemplar, que ele prprio vira, fora expedido pelo correio ao comandante-chefe.
     - E por que diabo  que ns havemos de declarar guerra a Bonaparte? - disse Chinchine.- Ele j abateu as fumaas  ustria. Receio que tenha chegado agora a nossa vez.
     O coronel era um alemo slido, de grande estatura, aspecto sanguneo, sem dvida bom militar e bom patriota. As palavras de Chinchine magoaram-no.
     - Porqu, meu caro senhor? - tornou ele, com o seu sotaque estrangeiro - Porqu? A est o que o imperador sabe muitssimo bem. No seu manifesto, l diz que no pode continuar indiferente aos perigos que ameaam a Rssia e que a segurana do imprio, a sua dignidade e a santidade das alianas...
     Acentuou particularmente esta ltima palavra, como se nela estivesse a chave do problema.
     E com a sua impecvel memria de personalidade oficial repetiu as palavras do princpio do manifesto: E o desejo do imperador, o seu nico e invarivel objectivo - que  o restabelecimento da paz na Europa assente em bases slidas -, decidiram-no a dar ordens a uma parte do exrcito para atravessar a fronteira e a realizar esta nova aliana para dar cumprimento aos seus objectivos.
     - E aqui tem porqu, meu caro senhor! - concluiu ele, levando o copo  boca cheio de compuno, enquanto com os olhos pedia a aprovao do conde.
     - Conhece o provrbio: Erema. Erema, melhor era que ficasses em casa a fiar a l? (Provrbio russo, que quer dizer que o melhor  no nos metermos na vida alheia, (N, dos T.) - disse Chinchine, franzindo as sobrancelhas e sorrindo. - Isso calha mesmo bem. Suvorov j foi apanhado e batido em toda a linha. E onde esto os nossos Suvorovs hoje em dia? D-me licena que lhe pergunte.- Chinchine estava sempre a transitar do russo para o francs.
     - Temos de nos bater at  ltima gota de sangue - disse o coronel, deixando cair a mo em cima da mesa - e morrer pelo nosso imperador. E assim deve ser. Mas nada de raciocnios, raciocinar o menos possvel. - Engrossou a voz, especialmente ao pronunciar a palavra menos, e voltando-se de novo para o conde.-  assim que ns, velhos hssares, encaramos as coisas em ltima instncia. E o senhor, que pensa o senhor disto, jovem hssar? - prosseguiu, dirigindo-se a Nicolau, que, ao perceber que se falava da guerra, esquecera a interlocutora, todo ouvidos.
     - Penso exactamente da mesma maneira - replicou Nicolau, que se entusiasmou e se ps a mexer no prato e a deslocar os copos de forma to brusca e incoerente que dir-se-ia correr naquele momento um grande perigo... Estou convencido de que os Russos s tm duas solues: vencer ou morrer - continuou com o sentimento, em que todos os outros comungavam, de que aquilo mesmo, que j fora dito, ele o estava a exprimir por palavras demasiado enfticas e pomposas, e isso lhe causava uma espcie de embarao.
     -  muito bonito o que acaba de dizer - observou Jlia, que estava sentada a seu lado.
     Snia ps-se a tremer e corou at s orelhas. At mesmo a nuca e os ombros se lhe ruborizaram ao ouvir Nicolau falar assim. Pedro prestara ateno s consideraes do coronel, e aprovava-as com a cabea.
     - Ora a est uma coisa acertada - observou.
     -  verdade, um autntico hssar, meu rapaz - exclamou ainda o coronel, batendo de novo na mesa.
     - Que barulho  esse que vocs para a esto a fazer? - perguntou, do outro lado da mesa, a voz grave de Maria Dmitrievna. - Que ests tu a bater na mesa? - disse ela ao hssar. Contra quem  que ests to exaltado? At parece que tens diante de ti os Franceses.
     - O que eu estou a dizer  o que  - retrucou o coronel, sorrindo.
     -  verdade, um autntico hssar, meu rapaz! - exclamou ainda - Tenho um filho que vai para a guerra. Maria Dmitrievna; sim, vai para a guerra.
     - E eu, que tenho quatro filhos no exrcito, no estou a chorar por isso. Deus  grande. Podemos morrer tranquilamente na nossa cama e nada nos acontecer no campo de batalha - disse Maria Dmitrievna, elevando a sua grossa voz, que chegava, sem esforo, de extremo a extremo da mesa.
     - E  verdade.
     E a conversa l continuou, a das senhoras a um lado, a dos homens a outro.
     - Aposto que no s capaz de perguntar - disse a Natacha o irmozito. - Aposto!
     - Vais ver - respondeu Natacha.
     O rosto animou-se-lhe, repentinamente de uma audcia rebelde e resoluta. Levantou-se, fez um sinal com os olhos a Pedro, que estava diante dela, convidando-o a escutar, e dirigiu-se  me:
     - Me! - lanou ela,  toa, na sua clara voz infantil.
     - Que aconteceu? - perguntou a condessa assustada. Mas, ao ver no rosto da filha que se tratava de uma brincadeira, ameaou-a severamente com a mo, enquanto lhe mostrava uma expresso descontente.
     As conversas interromperam-se.
     - Me! Que doce vamos ter? - interrogou a vozita de Natacha, irreflectidamente e num tom ainda mais decidido.
     A condessa quis franzir as sobrancelhas, mas debalde. Maria Dmitrievna ameaou-a com o seu dedo grosso.
     - Eh, cossaco! - gritou-lhe.
     A maior parte dos convidados observava os pais de Natacha para ver como eles iam encarar aquela aventura. 
     - Espera - disse a condessa.
     - Me! Que doce vamos ter? - voltou Natacha, atrevidamente e no tom de uma criana caprichosa, certa de antemo de que a sua audcia no teria consequncias.
     Snia e o gordo Pedro riam perdidamente.
     - Como vs, perguntei - dizia ela, baixo, ao irmozito e a Pedro, a quem voltou a lanar uma olhadela.
     - H gelado, mas tu no comes - disse Maria Dmitrievna.
     Natacha viu que nada tinha a recear e, de resto, a prpria Maria Dmitrievna no lhe metia medo algum.
     - Maria Dmitrievna! Gelado de qu? No gosto de gelados, de nata.
     -  de cenoura.
     - No  verdade. De qu? Maria Dmitrievna, de qu? - quase gritou. - Quero saber que gelado !
     Maria Dmitrievna e a condessa romperam a rir e,  imitao deles, todos os demais. Riam-se no da resposta de Maria Dmitrievna, mas da audaciosa obstinao e da presena de esprito daquela garota que sabia defront-la e ousava faz-lo.
     Natacha apenas se submeteu quando lhe disseram que, o gelado era de anans. Antes do gelado foi servido o champanhe. A msica ressoou de novo, o conde trocou um beijo com a sua condessinha e os convidados ergueram-se para felicit-la. Os copos tocaram-se, ao longo da mesa, com o do conde, com o das crianas e entre si. Os criados de novo principiaram a agitar-se, ouviu-se o rumor das cadeiras e na mesma ordem de entrada, apenas com as faces mais vermelhas, os convidados voltaram a dar entrada no salo e no gabinete do conde.
     

     
     
     
     Captulo XX
     
     Prepararam-se as mesas de jogo, organizaram-se os parceiros para o boston e toda a gente se espalhou pelos dois sales, a sala do div e a biblioteca.
     O conde, com as suas cartas em leque, a custo se mantinha, resistindo  tentao de dormir, como de costume, depois do jantar, e sorria a toda a gente. A mocidade, arrastada pela condessa, reunia-se em volta do cravo e da harpa. Jlia foi a primeira, instada por todos, a tocar umas variaes na harpa, e ela e as demais raparigas pediram a Natacha e a Nicolau, de quem todos gabavam o talento musical, que cantassem qualquer coisa. Natacha, a quem tratavam como uma pessoa crescida, sentia-se, claro est, muito orgulhosa com isso, mas, ao mesmo tempo, tomava-a uma grande timidez.
     - Que havemos ns de cantar? - perguntou.
     - A Fonte - replicou Nicolau.
     - Ento, depressa, andem. Bris, vem c. Onde est a Snia?
     Natacha olhou  sua roda, e, ao ver que a amiga no estava presente, correu a busc-la.
     Tendo-a procurado no seu prprio quarto e no a encontrando a. Natacha foi ver se ela estaria no quarto das crianas e tambm ali a no encontrou. Pensou ento que devia estar no corredor, sentada na arca. A arca do corredor era o local onde se derramavam as dores de toda a jovem gerao feminina da casa Rostov. E, efectivamente. Snia l estava, com o seu vestidinho cor-de-rosa vaporoso, que amarrotava entre os dedos, estendida na arca, o rosto escondido no sujo edredo listado da ama, e a cara nas mos, chorando, sacudida por grandes soluos que lhe faziam estremecer os ombrozinhos decotados. Natacha, que durante todo o dia tinha andado com uma expresso festiva, mudou, repentinamente, de parecer: os olhos tornaram-se-lhe fixos, um frmito lhe percorreu o colo, os cantos da boca descaram-lhe.
     - Snia! Que tens tu?... Ah! Ah!, que te aconteceu?...
     E Natacha, fazendo um momo com a sua grande boca, que logo a tomou feia, ps-se a soluar, sem razo, apenas por ver que Snia chorava. Snia queria levantar a cabea, queria responder-lhe, mas no pde e ainda escondeu mais profundamente o rosto. Envolvendo a amiga nos seus braos, sentada sobre o edredo azul. Natacha chorava, continuava a chorar. Por fim, tendo Snia serenado um pouco, ergueu-se, ps-se a enxugar as lgrimas e abriu-se em confidncias.
     - O Nicolau vai partir dentro de oito dias.., foi chamado por um papel.., ele  que me disse... E mesmo assim eu no choraria... - Mostrou um bilhete que tinha apertado na mo e em que estavam escritos versos de Nicolau. - No choraria; mas tu no podes imaginar, ningum pode imaginar.., o bom corao que ele tem.
     E de novo se ps a chorar pensando no bom corao de Nicolau.
     - Tu, tu s feliz - No tenho cimes... Gosto muito de ti, e Bris tambm - continuou ela, ganhando coragem pouco a pouco. - Que gentil que ele .., e para vocs no h obstculos. Mas o Nicolau  meu primo...  preciso que o prprio metropolita.., e mesmo assim no pode ser. E depois, se disserem alguma coisa  me... - Snia considerava a condessa sua me e como tal a tratava-.., ela vai dizer que eu prejudico a carreira do Nicolau, que no tenho corao, que sou uma ingrata, e, no entanto, to certo como Deus estar nos Cus... - Persignou-se. Eu gosto tanto dele, dele e de todos vocs tambm... S a Vera... E porqu? Que lhe fiz eu? Estou-vos to reconhecida que daria de bom grado tudo, e a verdade  que no tenho nada para dar.
     Snia no pde dizer mais, e de novo escondeu a cabea nas mos e no edredo. Natacha ps-se a consol-la, mas via-se, pela sua atitude, que ela compreendia a gravidade do sofrimento da sua amiga.
     - Snia! - exclamou ela, de repente, como se adivinhasse a verdadeira razo do sofrimento da prima -  verdade? A Vera falou contigo depois do jantar?  verdade?
     - Estes versos foi o Nicolau quem os escreveu; eu copiei outros. Ela encontrou-os em cima da, minha mesa e disse que havia de os mostrar  me, e disse tambm que eu era uma ingrata, que a me nunca o deixaria casar comigo e que ele havia de casar com a Jlia. No viste como ele esteve ao lado dela todo e dia... Natacha? Porque  que h-de ser assim?
     E de novo chorou mais amargamente do que nunca. Natacha obrigou-a a levantar-se, abraou-se a ela, e sorrindo por entre as lgrimas procurou consol-la,
     - No acredites. Snia, minha, querida, no acredites no que ela diz. Lembras-te do que ns dizamos, o Nicolau e ns as duas, na sala do div? Lembras-te, depois do jantar? Como sabes, combinmos como tudo se havia de passar. J me no lembro dos pormenores, mas deves lembrar-te como tudo se arranjava, como tudo era fcil. O irmo do tio Chinchine, por exemplo, casou com a prima em primeiro grau, e ns somos apenas segundos primos. E o Bris dizia que era muito fcil. Tu bem sabes que eu lhe contei tudo. E ele  to inteligente e to gentil! Deixa-te disso. Snia, no chores mais, minha queridinha, minha Sniazinha. - E ps-se a abra-la muito risonha - A Vera  m, no queiras saber dela. Tudo se h-de arranjar, e ela no vai dizer nada  me. O Nicolau te h-de dizer que no pensa na Jlia.
     E beijou-a na testa. Snia parecia outra, a gatinha que ela era reanimou-se, os olhos faiscararn-lhe, dir-se-ia pronta a dar ao rabo, a saltar sobre as suas patinhas elsticas, a correr atrs do novelo de l, coisas prprias da sua natureza.
     - Achas que sim? Realmente! Juras? - disse ela, recompondo com vivacidade o vestido e os cabelos.
     - Podes estar certa! - respondeu Natacha, ao mesmo tempo que lhe ajeitava na, trana uma mecha de cabelos rebeldes. Ambas desataram a rir.
     - E agora vamos cantar A Fonte. 
     - Vamos.
     - Viste aquele rapaz gordo, o Pedro, que estava sentado diante de mim? Que patusco que ele ! - disse Natacha, de sbito, detendo-se. - O que eu me diverti!
     E Natacha despediu, numa carreira, corredor alm.
     A Snia, depois de sacudir as penas do edredo que lhe tinham ficado agarradas ao vestido e de esconder no colo magricela os versos do jovem Nicolau, reanimou-se-lhe a expresso, e l foi correndo tambm ligeira e jovial, atrs de Natacha, na direco da sala do div. A pedido dos seus convidados, a gente nova cantou o quarteto de A Fonte, que foi recebido com muito entusiasmo. Depois Nicolau entoou uma romana que aprendera havia pouco:
     
     Por uma linda noite,  luz do luar, 
     Que ventura poder dizer-te a ti somente
     Que ainda h algum c neste mundo
     Que no pensa nem sonha seno contigo!
     Que os seus dedos to bonitos,
     Errantes por sobre as cordas da harpa de oiro,
     Em apaixonadas ondas de harmonia
     Te chame, te chame ainda!
     Ainda um dia, mais dois dias, e o Paraso abrir-se-... 
     Mas, ai de ns, a tua amiga, j l no a encontrars...
     
     Ainda as ltimas palavras da cano no tinham findado, j a juventude se preparava para o baile e a orquestra lanava as primeiras notas no meio do rudo de ps e de tossezinhas. Pedro estava no salo, onde Chinchine se lanara numa discusso poltica com aquele rapaz chegado havia pouco do estrangeiro, discusso essa que enfadava imenso o prprio Pedro, e em que tomavam parte muitos outros convidados. Quando a msica principiou. Natacha entrou na sala e, dirigindo-se imediatamente a Pedro, disse-lhe, rindo e corando ao mesmo tempo:
     - A me disse-me que o convidasse para danar.
     - Tenho medo de fazer confuso com os passos - murmurou Pedro -, mas se quiser ter a bondade de ser minha professora...
     E, inclinando-se profundamente, deu a larga mo  esbelta rapariguinha.
     Enquanto os pares se organizavam e os msicos afinavam os seus instrumentos. Pedro conservou-se sentado ao lado da sua pequena dama. Natacha sentia-se inteiramente feliz: ia danar com uma pessoa importante, que voltava de o estrangeiro. E ela l estava, exibindo-se diante de toda a gente, pronta a conversar, como se fosse uma pessoa crescida, e exactamente como ele. Tinha um leque que lhe havia emprestado urna amiga. E tornando a pose mais conforme ao cdigo mundano - e s Deus sabe onde e quando ela tinha aprendido tudo aquilo -, abanava-se e sorria, com um ar rebelde, enquanto conversava com o companheiro.
     - Que rapariga! Olhe para ela - disse a velha condessa, atravessando o grande salo e apontando para Natacha.
     Natacha corou e ps-se a rir.
     - Porqu, me? Porque  que se est a rir? Que tem isso de extraordinrio?
     No meio da terceira escocesa, ouviu-se um rumor de cadeiras no salo onde o conde e Maria Dmitrievna estavam a jogar, e a maior parte dos convidados importantes e das pessoas de idade, para estenderem as pernas, meteram na algibeira carteiras e bolsinhas de dinheiro e vieram postar-se  porta do grande salo. A frente estavam Maria Dmitrievna e o conde, ambos muito bem dispostos. O conde, mimando uma cortesia joco-sria,  imitao do que  de uso nos bailes, ofereceu a mo, recurvando o brao, , sua dama. Depois, soergueu o busto e o rosto iluminou-se-lhe com um sorriso agarotado e amvel, e, assim que findaram as ltimas marcas da escocesa, bateu as palmas e gritou para a orquestra, dirigindo-se ao primeiro violino:
     - Semione! Sabes tocar o Danilo Cooper?
     Era a dana favorita do conde, que ele danara na juventude. Danilo Cooper era especialmente uma marca da inglesa.
     - Olhem para o pai! - gritou Natacha no meio da sala.
     Tinha-se esquecido por completo de que estava num baile como uma pessoa crescida. Dobrou-se em duas, a cabecinha coberta de caracis junto aos joelhos, e rompeu a rir to cristalinamente que toda a casa ficou cheia do seu riso alegre.
     E com efeito toda a gente olhava, divertida, aquele velho jovial que ao lado da sua venervel dama, a quem ele dava pelo ombro, arqueava os braos para marear o compasso, descaa os ombros, encurvava as pernas, sapateava ligeiramente, e, com um sorriso cada vez mais franco no seu rosto cheio, mais no fazia que preparar os espectadores para o que ia passar-se. Assim que ressoaram os compassos alegres e excitantes do Danilo Cooper, muito parecidos com os do ultra-jovial trepak russo, todas as portas da sala se encheram de criados risonhos - os homens a um lado, as mulheres a outro- que acorriam para ver danar o amo.
     - Ah! O nosso paizinho! Que guia que ele ! - exclamou a ama, em voz alta, a uma das portas.
     O conde danava muito bem e sabia o que estava a fazer, mas a sua dama, essa, no percebia nada e recusava-se a danar correctamente. A sua corpulenta figura ali estava toda direita, os grandes braos bamboleando, j sem bolsinha, que confiara  condessa. Apenas o seu belo e severo rosto tomava parte na dana. Todo o movimento que animava a redonda silhueta do conde se lhe concentrava a ela na fisionomia, cada vez mais risonha, e no narizinho arrebitado. Se o conde, cada vez mais excitado, era a surpresa de todos, graas  ligeireza e  agilidade nas piruetas e nos rodopios a que se atreviam as suas pernas j pouco firmes. Maria Dmitrievna, por menos que a isso se desse, merc dos movimentos dos ombros ou dos braos no curso das suas reviravoltas ou no sapateado, no produzia menos efeito sobre os assistentes, que muito apreciavam naquela mulher o contraste entre a sua desenvoltura e a sua habitual severidade. A dana cada vez estava mais animada. Os pares frente a frente no conseguiam chamar para eles as atenes ou nem sequer com isso se importavam. Toda a gente seguia com o olhar o conde e Maria Dmitrievna. Natacha puxava pela manga a toda a gente, embora ningum tirasse os olhos dos dois danarinos, pedindo que olhassem para o pai. Nos intervalos, o conde, enquanto tomava flego, acenava aos msicos e pedia-lhes que acelerassem o ritmo. Quando mais rpido era o compasso, mais depressa girava o conde em tomo do par, ora nos bicos dos ps ora nos calcanhares, e por fim, no momento em que ia reconduzi-lo, esboou um ltimo passo: levantou a perna cheia  retaguarda, inclinou, com um ar radiante, a cabea perlada de suor, descrevendo, por fim, com a mo direita um largo crculo no meio de uma tempestade de aplausos e de gargalhadas, especialmente de Natacha. Os dois danarinos detiveram-se, anelantes, enxugando o suor com seus lenos de cambraia.
     - Ora aqui tens como se danava no nosso tempo, minha querida! - exclamou o conde.
     - Bravo! Danilo Cooper! - replicou Maria Dmitrievna, respirando estrepitosamente e arregaando as mangas do vestido.
     

     
     
     
     Captulo XXI
     
     Quando em casa dos Rostov se danava a sexta inglesa ao som de uma orquestra, que j desafinava, tal a fadiga dos msicos, e os criados e cozinheiros, igualmente extenuados, se azafamavam nos preparativos da ceia, era o conde Bezukov acometido do seu sexto ataque. Os mdicos tinham declarado no haver esperanas de salvao. Confessaram o doente, j em coma, ministraram-lhe a comunho, fizeram os preparativos para a extrema-uno e a casa assumiu o aspecto habitual em tais circunstncias, com idas e vindas em todos os sentidos. C fora, ao porto, juntavam-se, escondendo-se  chegada das carruagens, os agentes das casas funerrias, na esperana de bom negcio. O governador militar da praa de Moscovo, que a cada momento enviava os seus ajudantes-de-campo a saber novas do estado de sade do doente, veio pessoalmente, nessa noite, despedir-se daquela famosa personagem do tempo de Catarina: o conde Bezukov.
     A sumptuosa sala de visitas estava cheia. Toda a gente se levantou respeitosamente quando o governador militar, que se demorara quase meia hora  cabeceira do doente, saiu do quarto e atravessou a dependncia, muito apressado, retribuindo, negligentemente, os cumprimentos, sempre seguido pelos olhos dos mdicos, dos sacerdotes e da parentela do conde. O prncipe Vassili, que naqueles ltimos dias tinha empalidecido e afilara, acompanhava o governador militar, segredando-lhe, por vezes, qualquer coisa.
     Quando voltou de o acompanhar, foi sentar-se sozinho no salo, de pernas cruzadas, cotovelos sobre os joelhos e cabea nas mos. Alguns instantes depois levantou-se, e a passo rpido, contrariamente aos seus hbitos, olhando em tomo de si como que assustado, seguiu ao longo do grande corredor que conduzia s dependncias da retaguarda, direito aos aposentos da mais velha das princesas.
     As pessoas que se encontravam numa sala quase s escuras falavam entre si, de longe em longe, em voz muito baixa, calavam-se a cada momento, e dirigiam olhares interrogativos e de quem espera qualquer coisa para a porta que conduzia ao quarto do moribundo, a qual rangia ligeiramente sempre que algum entrava ou saa.
     - Todo o homem tem os seus dias contados, e ningum pode fugir da - dizia um eclesistico velhinho  senhora que parecia no ter a tal respeito qualquer ideia precisa.
     - No ser j tarde de mais para a extrema-uno? - observou, acrescentando a estas palavras um ttulo eclesistico, a senhora que parecia no ter a tal respeito qualquer ideia precisa.
     -  um grande sacramento, minha senhora - replicou o sacerdote, passando a mo pela cabea calva, onde s havia j algumas, poucas, farripas de cabelos grisalhos cuidadosamente penteadas.
     - Quem ?  o prprio governador militar? - perguntava-se a outro canto da sala. - Que novo que ele !...
     - Quem h-de dizer que tem perto de setenta anos! Mas parece que o conde j no conhece as pessoas. Dizem que lhe vo dar a extrema-uno.
     - Uma pessoa conheci eu a quem ministraram sete vezes a extrema-uno,
     A segunda das jovens princesas, que acabava de sair do quarto do doente, os olhos cheios de lgrimas, foi sentar-se ao lado do Dr. Lorrain, que se colocara numa posio que lhe ficava bem, debaixo do retrato de Catarina, encostado a uma mesa.
     - Muito bonito - dizia ele, referindo-se ao tempo -, muito bonito, princesa, e depois, em Moscovo,  como se estivssemos no campo.
     - No  verdade? - respondeu a princesa, suspirando. Acha ento que se lhe pode dar de beber?
     Pareceu reflectir.
     - Tomou o remdio?
     - Tomou.
     O mdico consultou o seu livro de notas.
     - Tome um copo de gua fervida e deite-lhe dentro uma pitada - e com os dedos finos fingiu o gesto - de cremortartari.
     - No se conhece nenhum caso - dizia um mdico alemo a um ajudante-de-campo - em que se fique vivo depois do terceiro ataque.
     - Mas que boa sade ele tinha! - disse o oficial. - E quem ser o herdeiro de todas estas riquezas? - acrescentou, em voz muito baixa.
     - No ho-de faltar pretendentes - retorquiu o alemo sorrindo.
     Todos os olhares voltaram a fixar-se na porta. A porta rangeu, e a jovem princesa, que tinha preparado o remdio prescrito por Lorrain, foi lev-lo ao doente. O mdico alemo aproximou-se do mdico francs.
     - Acha que ele se vai aguentar at amanh de manh? - perguntou em francs, com um pronunciado sotaque.
     Lorrain, de lbios apertados, fez com o dedo polegar um gesto negativo diante do nariz.
     - Esta noite, o mais tardar - murmurou ele, em voz baixa, sorrindo com prudncia, orgulhoso de to claramente ter diagnosticado o estado do doente. E afastou-se.
     Enquanto isto se passava, o prncipe Vassili abria a porta do quarto da princesa.
     Era quase noite l dentro; apenas as duas lamparinas em frente dos cones o iluminavam. Cheirava bem a incenso e a flores. O mobilirio do quarto era todo em miniatura: pequeninos armrios, pequeninas estantes e pequeninas mesas. Um biombo ocultava as cobertas brancas de uma cama alta de penas. Um cozinho ps-se a ladrar.
     - Ah,  o senhor, meu primo?
     A princesa levantou-se, alisando os cabelos, que usava sempre, e at naquele momento, excessivamente repuxados, como se formassem uma pea nica com o casco da cabea e andassem envernizados.
     - Que foi? Que aconteceu? - perguntou ela. - Assustou-me. - No aconteceu nada. Sempre a mesma coisa. Vim apenas procurar-te para falarmos de negcios. Katicha - disse o prncipe, sentando-se, com um ar lasso, na cadeira que ela acabava de deixar devoluta.- Que quente que aqui est! Anda c, senta-te. Temos de conversar.
     - Julguei que tinha acontecido alguma coisa - disse a princesa, e, com o seu ar fechado e severo, sentou-se diante do prncipe, disposta a ouvi-lo. - Quis ver se dormia um bocado, meu primo, mas no foi possvel.
     - Ento, minha querida? - disse o prncipe, pegando-lhe na mo e puxando-a para si, como era seu costume.
     Era evidente que estas breves palavras significavam coisas que eles dois compreendiam perfeitamente sem as dizer.
     A princesa, do alto do seu busto seco e estreito, alto de mais para as suas curtas pernas, olhava fixamente o prncipe sem qualquer aparente emoo, os olhos cinzentos  flor da pele. Sacudiu a cabea e lanou um olhar, acompanhado de um suspiro, s imagens sagradas. O seu gesto tanto podia exprimir mgoa e esprito de sacrifcio como fadiga e a necessidade de descanso.
     O prncipe Vassili interpretou-o como um sinal de cansao.
     - E supes tu - disse ele - que eu tambm no estou cansado? Estou esfalfado como um cavalo de posta. Apesar disso,  absolutamente necessrio que eu tenha uma conversa contigo. Katicha, uma conversa muito importante.
     O prncipe Vassili calou-se, e as suas duas faces, sucessivamente, foram tomadas de um movimento nervoso que lhe dava um aspecto desagradvel, aspecto esse que ele nunca tinha quando conversava em sociedade. Tambm os olhos no eram os seus olhos habituais: havia neles ora uma expresso escarninha e cnica, ora uma expresso aterrorizada.
     A princesa segurava com os braos secos e magros o cozito que tinha nos joelhos, enquanto fixava o prncipe atentamente. Via-se que ela estava disposta a no ser a primeira a falar, ainda que tivesse de ficar calada at ao dia seguinte.
     - Como v, cara princesa e minha prima. Katerina Semionovna - prosseguiu ele, no sem uma evidente luta interior, pensando no que ia dizer. - Em momentos como este  preciso pensar em tudo.  preciso pensar no futuro, em si. Quero-vos a todas como se vocs fossem minhas filhas, bem sabes.
     A princesa continuava a fit-lo, impassvel e impenetrvel.
     - Numa palavra, eu tambm tenho de pensar ria minha famlia - continuou, repelindo, de mau humor, a mesinha e sem olhar para ela.- Como sabes. Katicha, vocs as trs, as irms Mamontov, e minha mulher so as nicas herdeiras directas do conde. Bem sei, bem sei que te  penoso pensar nestas coisas e falar nelas. A mim tambm me custa. Mas, minha amiga, estou quase com sessenta anos e tenho de estar preparado para tudo. Sabes que mandei chamar o Pedro, e que o prprio conde, apontando para o retrato dele, quis que lho trouxessem?
     O prncipe Vassili interrogava-a com os olhos, mas no conseguia perceber se ela estava a pensar no que ele acabava de dizer-lhe ou se apenas olhava para ele.
     - H s uma coisa que eu estou sempre a pedir a Deus, meu primo - replicou ela -  que Deus o proteja e que faa com que a sua bela alma deixe em paz este...
     - Pois claro - prosseguiu o prncipe com impacincia, afagando a calvcie e puxando a si, colericamente, a mesinha que comeara por repelir. - Mas o que  certo.., o que  certo, o facto  que, como tu sabes, o conde, no Inverno passado, redigiu um testamento pelo qual, em prejuzo dos seus herdeiros directos e de todos ns, lega toda a sua fortuna ao Pedro.
     - Sim, ele j fez vrios testamentos - disse serenamente a princesa - Mas o Pedro no pode herdar:  um filho ilegtimo. 
     - Minha querida - disse bruscamente o prncipe Vassili, puxando para si a mesinha e falando com animao e volubilidade.- E se houvesse uma petio ao imperador para a legitimao do Pedro?  evidente que em face dos servios prestados, o apelo do conde seria atendido...
     A princesa teve um sorriso em que se deixava perceber que sabia muito mais sobre o assunto que o seu interlocutor.
     - Digo-te mais - continuou Vassili, pegando-lhe na mo - O apelo est feito, embora no tenha sido enviado, e o imperador teve conhecimento do facto. S resta saber se esse apelo foi ou no anulado. Se o no foi, assim que tudo tenha acabado - e soltou um suspiro, para deixar perceber o que queria dizer com aquelas palavras- logo que os papis do conde sejam conhecidos, tanto o testamento como a carta sero transmitidos ao imperador, e o seu apelo ser sem dvida alguma satisfeito. Pedro, na sua qualidade de filho legtimo, ser o nico herdeiro.
     - E a nossa parte? - disse a princesa, num tom irnico, como se tudo pudesse acontecer menos isso.
     - Mas, minha pobre Katicha,  claro como a luz do dia. Nessa altura ser ele o nico herdeiro legtimo de toda a fortuna e vocs nada recebero.  preciso que tu procures saber, minha querida, se o testamento e o apelo existem ou se foram destrudos. E se por qualquer motivo foram esquecidos,  preciso que saibas onde esto e descobri-los, pois...
     - Ah! Isso agora  novidade! - interrompeu a princesa com um sorriso sardnico e sem que a sua expresso se alterasse.- Eu sou mulher; na sua opinio, todas as mulheres so estpidas; mas o que eu muito bem sei  que um filho ilegtimo no pode herdar... Um bastardo - acrescentou, pensando com esta palavra demonstrar definitivamente ao prncipe que ele no tinha razo.
     - No h maneira de compreenderes. Katicha! Mas tu s inteligente. Como  que tu no compreendes que se o conde pediu ao imperador que o autorizasse a reconhecer o filho como legtimo. Pedro, nesse caso, deixa de ser o Pedro e passa a ser o conde Bezukov, e pelo testamento  ele quem tem direito a tudo? Se o testamento e a carta no foram destrudos, nada mais te restar alm, da consolao de teres sido virtuosa e tudo o que da se entende.  certo e sabido,
     - Sei perfeitamente que ele fez um testamento, mas tambm sei que esse testamento no tem valor. Pelo que vejo, julga-me pateta, meu primo - disse a princesa com esse ar que tomam as mulheres quando supem ter dito qualquer coisa de espirituoso ou de ofensivo.
     - Minha querida princesa Katerina Semionovna - exclamou com impacincia o prncipe Vassili -, eu no vim procurar-te para um duelo de palavras, mas na inteno com que se visita uma parente, uma boa, excelente, uma verdadeira parente, a fim de lhe falar dos seus interesses. Repito-te pela dcima vez que se a carta ao imperador e o testamento a favor de Pedro se encontram entre os papis do conde, nem tu nem as tuas irms, minha querida filha, herdaro seja o que for. Se me no acreditas, acredita ao menos nas pessoas competentes. Acabo de falar com Dmitri Onufreitch - o advogado da famlia - e ele disse-me a mesma coisa.
     Houve, claramente, um mudana rpida na maneira de pensar da princesa. Se a expresso dos olhos se lhe no alterou, os seus finos lbios empalideceram e quando comeou a falar a voz Passou-lhe por transies que nem ela prpria esperava.
     - Pois muito bem - disse. - Nunca pretendi nada, e nada, pretendo,
     Enxotou o co do regao e ajeitou as pregas do vestido.
     -  assim que as pessoas reconhecem,  assim que testemunham a sua gratido queles que tudo sacrificaram por elas! - exclamou. - Muito bem! Excelente! No preciso de nada, prncipe!
     - Sim, mas tu no s a nica. E as tuas irms? - volveu ele.
     A princesa no o ouvia.
     - Sim h muito tempo que eu sei isso, mas tinha-me esquecido que nesta casa, no podia esperar outra coisa seno baixeza, duplicidade, inveja, intriga, ingratido, a mais negra ingratido.
     - Sabes ou no sabes onde est o testamento? - perguntou o prncipe Vassili com o tremor das faces ainda mais acentuado.
     - Sim, tenho sido uma parva, tenho tido confiana nas pessoas, gostei delas e sacrifiquei-me por elas. Mas s triunfam os cobardes e os maus. Bem sei donde vm estas intrigas.
     A princesa fez um movimento para se erguer, mas o prncipe reteve-a. Ela dava a impresso de uma pessoa que perdeu subitamente todas as iluses sobre os outros seres. Lanou um olhar mau ao interlocutor.
     - Ainda, estamos a tempo, minha amiga. Lembra-te. Katicha, de que tudo isto foi feito de improviso, num momento de clera, ou ento doente, e que depois tudo esqueceu. O nosso dever, minha querida,  reparar esta falta, suavizar-lhe os ltimos momentos, no permitindo que ele leve a cabo esta injustia, de o no deixar morrer com a ideia de que tomou algum infeliz...
     - Algum que tudo sacrificou por ele - voltou a princesa, impaciente por se levantar: mas o prncipe deteve-a. E isso  que ele nunca soube apreciar. No, meu primo - acrescentou, suspirando - isto leva-me, a pensar que neste triste mundo ningum pode esperar recompensa, que neste triste mundo no h honra nem equidade. Neste mundo s a maldade e a mentira triunfam.
     - Bom, vejamos, sossega. Eu conheo o teu excelente corao.
     - No, eu tenho mau corao.
     - Eu conheo o teu corao - repetiu ele -, aprecio a tua amizade e gostaria que tu tivesses a mesma opinio a meu respeito. Sossega, e sejamos razoveis enquanto  tempo: talvez vinte e quatro horas, uma hora talvez. Conta-me tudo quanto sabes do testamento e principalmente diz-me se sabes onde ele est: tu deves saber. Pegaremos nele imediatamente e leva-lo-emos ao conde. Ele com certeza se esqueceu dele, e querer destru-lo. Tu sabes que o meu nico desejo  cumprir religiosamente a sua vontade; no  para outra coisa que estou aqui. Eu no estou aqui seno para vos auxiliar, a vs e a ele.
     - Agora j sei tudo. J sei donde partem as intrigas. Veio-o claramente - disse a princesa.
     - No  disso que se trata, minha querida.
     - A alma de tudo isto  a sua protegida, a sua querida princesa Drubetskaia. Ana Mikailovna, que eu nem para criada de quarto quereria, essa horrvel, essa ignbil mulher.
     - No percamos tempo.
     - Oh, no me diga nada! No Inverno passado introduziu-se aqui em casa e contou tantas coisas horrveis ao conde, tantas vilanias a nosso respeito, e principalmente sobre a Sofia - no as posso repetir -, que ele ficou doente e durante quinze dias no nos quis ver. Foi nessa altura, tenho a certeza, que o tio redigiu esse sujo, esse infame papel. Mas eu supunha que no tinha importncia.
     - Ora a est. Porque  que me no falaste logo nisso? - Est na pasta de couro que tem debaixo da almofada. Agora compreendo - disse ela, sem responder  pergunta do prncipe. - E se eu tenho qualquer pecado na conscincia, um grande pecado,  o dio que essa miservel me inspira - gritou, e tomou-se quase irreconhecvel, - Que aparea outra vez por a! Ajustarei contas com ela.  uma questo de tempo.
     

     
     
     
     Captulo XXII
     
     Enquanto decorriam todas estas conversas na sala de visitas e nos aposentos da princesa, uma carruagem com Pedro, enviada para o trazer, e Ana Mikailovna, que entendera por bem acompanh-lo, penetrava rio ptio da residncia do conde Bezukov. No momento em que o carro deslizava maciamente por cima da palha estendida debaixo das janelas. Ana Mikailovna, que procurava consolar o companheiro, verificou que ele adormecer,-, encolhido no seu canto e acordou-o. Pedro, tendo voltado a si, apeou-se atrs de Ana Mikailovna, e s ento se lembrou da entrevista que ia ter com o pai moribundo. Tinha notado que a, carruagem parara no junto da escadaria nobre, mas em frente da escada das traseiras. No momento em que punha os ps no cho, dois homens com aspecto de comerciantes acolheram-se apressadamente  sombra da parede.
     Enquanto se deteve. Pedro pde ver na sombra, de cada lado da entrada, outros homens do mesmo gnero. Mas nem Ana Mikailovna, o trintanrio, ou o cocheiro, que no podiam ter deixado de dar por eles, lhes prestaram a mais pequena ateno, Naturalmente, tem de ser assim, decidiu de si para consigo, e l foi na peugada da sua condutora. Ana Mikailovna, em passinhos rpidos, subia a estreita escada de pedra, fracamente iluminada, chamando Pedro, que ficava para trs: embora este no compreendesse porque lhe era absolutamente indispensvel apresentar-se junto do conde, e muito menos ainda porque tinha de subir pela escada de servio, a segurana e a pressa de Ana Mikailovna persuadiram-no da urgncia do que ia fazer.
     A certa altura ia sendo derrubado por um grupo de homens, carregados com uns baldes, cujas grossas botas ressoavam no cho. Mas eles encostaram-se  parede para dar passagem aos visitantes sem mostrar qualquer surpresa.
     -  este o caminho para os aposentos das princesas? - perguntou Ana Mikailovna a um deles.
     -  - replicou um dos lacaios, numa grossa voz atrevida, como se naquela altura tudo fosse permitido - a porta  esquerda, minha senhora.
     Talvez que o conde no me tenha mandado chamar, pensou Pedro na altura do patamar. Era bem melhor eu ir para o meu quarto.
     Ana Mikailovna deteve-se, para que Pedro a pudesse alcanar. 
     - Ah!, meu amigo! - exclamou ela, pegando-lhe num brao, como tinha feito ao filho nessa mesma manh, - Pode crer que sofro tanto como o Pedro, mas precisa de ser homem.
     - Realmente, era melhor eu no ir - disse Pedro, olhando para ela atravs das lentes das lunetas, com um ar afectuoso. 
     - Ah!, meu amigo, esquea-se das injustias que lhe fizeram, lembre-se que seu pai.., est talvez na agonia. - Soltou um suspiro.- Gostei logo de si como se fosse meu filho. Confie em mim. Pedro. No me esquecerei dos seus interesses.
     Pedro no compreendia nada; o mais claro para ele era pensar que as coisas deviam ser assim, e seguiu docilmente Ana Mikailovna, que j abria a porta.
     A porta dava para o vestbulo dos aposentos das traseiras. O velho criado das princesas estava sentado a um canto a fazer meia. Pedro nunca entrara naquela parte da casa, ignorava mesmo a existncia de tais dependncias. Ana Mikailovna perguntou pela sade das princesas a uma rapariga que trazia uma garrafa em cima de uma bandeja, e que se tinha juntado a elos, chamando-lhe minha cara e minha boa rapariga, e em seguida conduziu Pedro ao longo de um corredor lajeado. A primeira porta  esquerda que abria para esse corredor levava aos aposentos das princesas.
     De to apressada que ia - em circunstncias daquelas tudo se fazia apressadamente- a criada de quarto que levava a bandeja com a garrafa no fechou a porta, e tanto Pedro como Ana Mikailovna, ao passarem, olharam involuntariamente para o quarto onde a princesa mais velha e o prncipe Vassili conversavam muito animadamente. Ao v-los, este teve um movimento de impacincia e recuou; a princesa deu um pulo e fechou a porta com um gesto violento.
     Esta atitude condizia to pouco com a habitual serenidade da princesa, e o pnico que se pintou no rosto do prncipe Vassili era to imprevisto na sua grave compostura, que Pedro parou, lanando, atravs das lentes das suas lunetas, um olhar inquiridor  sua condutora. Ana Mikailovna, sem trair qualquer surpresa, contentou-se em sorrir vagamente, suspirando, como se tudo aquilo para ela fosse coisa natural.
     - Mostre-se homem, meu amigo, eu zelarei pelos seus interesses - disse ela, ao mesmo tempo que apressava o passo ao longo do corredor.
     Pedro no percebia do que se tratava e muito menos compreendia o que queria dizer: zelar pelos seus interesses, mas de si para consigo pensava que assim mesmo devia ser. O corredor conduziu-os a uma dependncia mal iluminada que dava para a sala de visitas do conde. Era um dos compartimentos frios e luxuosos que Pedro conhecia muitssimo bem, mas onde nunca entrava seno pela escada nobre. No centro desta sala via-se uma banheira vazia e havia gua entornada no tapete. A cruzaram com um criado e um sacristo com um turbulo, que caminhavam em bicos de ps, os quais nem neles sequer repararam. Depois penetraram na sala de visitas, que Pedro conhecia muito bem, com as suas duas janelas  italiana e a sua porta para o jardim de Inverno, onde havia um grande busto de Catarina e, um retrato em corpo inteiro da mesma soberana. Eram as mesmas pessoas, por assim dizer nas mesmas atitudes, que ainda ali estavam conversando em voz baixa. Todos se calaram e fitaram Ana Mikailovna, que entrava, com o seu rosto plido e como sulcado de lgrimas, e aquele grande e corpulento rapaz, que, de cabea baixa, a seguia com toda a docilidade.
     Podia ler-se nos traos de Ana Mikailovna que ela tinha a certeza de que se aproximava o momento decisivo. Com a segurana de uma petersburguesa a tudo habituada, entrou na sala, bem agarrada a Pedro, com um ar ainda mais ousado que o dessa manh. Tinha a certeza de que se trouxesse consigo a pessoa a quem o moribundo queria ver, logo, seria recebida. Lanou um rpido olhar s pessoas ali presentes, e, ao ver o confessor do conde, aproximou-se dele em passinhos midos, sem propriamente se inclinar, mas tornando-se como que mais pequena, e dois eclesisticos presentes lanaram-lhe a bno.
     - Graas a Deus que chegmos a tempo - disse ela aos sacerdotes - todos ns, que somos da famlia, estvamos com tanto medo! Este rapaz  filho do conde - acrescentou em voz baixa. - Que instantes medonhos!
     Ao dizer estas palavras, aproximou-se do mdico.
     - Caro doutor - principiou - este rapaz  o filho do conde.. Ainda h esperanas?
     O mdico, sem dizer palavra, ergueu os olhos e encolheu os ombros, num ar de dvida. Ana Mikailovna copiou exactamente a sua mmica, teve um suspiro quase que fechando os olhos e voltou-se para o lado onde estava Pedro. Parecia testemunhar-lhe, urna ateno particularmente respeitosa e uma ternura contristada.
     - Tende confiana na divina misericrdia! - exclamou ela indicando-lhe um div onde pudesse esperar, enquanto ela se dirigia, sem fazer barulho, para a porta cm que estavam fitos todos os olhares. Depois de a abrir silenciosamente, desapareceu.
     Pedro, disposto a obedecer em tudo ao seu guia, encaminhou-se para o div indicado. Assim que Ana Mikailovna desapareceu, afigurou-se-lhe que todos os olhares se dirigiam para ele com algo mais que curiosidade e simpatia. Viu que toda aquela gente cochichava entre si, apontando-o com os olhos, numa espcie de medo servil. Tiveram para com ele atenes que anteriormente nunca haviam tido. A senhora, para ele desconhecida, que conversava com o sacerdote levantou-se e ofereceu-lhe o seu lugar. O ajudante-de-campo baixou-se para lhe apanhar a luva que tinha cado. Quando ele passou, os mdicos calaram-se respeitosamente e abriram alas para o deixar passar. Pedro tinha pensado, primeiro, em sentar-se em qualquer parte, para no incomodar a senhora, pensara em apanhar a luva e evitar os mdicos, que alis lhe no impediam a passagem; mas, de sbito, compreendeu que naquela noite se tornara uma personagem com a obrigao de cumprir uma espcie de rito terrvel, aguardado por toda a gente, e por conseguinte devia aceitar as solicitudes de todos. Recebeu em silncio a luva que lhe estendia o oficial, sentou-se no lugar da senhora desconhecida, apoiando as grandes mos nos joelhos, simetricamente colocadas numa posio ingnua de esttua egpcia, e de si para consigo decidiu que tudo aquilo se devia justamente passar assim e que naquela noite, para no perder a cabea e no fazer disparates, no deveria agir como era sua vontade, mas confiando-se em absoluto a vontade daqueles que o guiavam.
     Ainda se no tinham passado dois minutos, j o prncipe Vassili, com o seu cafet decorado com trs estrelas, o ar majestoso, a cabea erguida, entrava na sala. Dir-se-ia ter emagrecido desde essa manh; os seus olhos pareceram crescer quando viu Pedro e percorreu a sala com o olhar. Aproximou-se dele, apertou-lhe a mo, coisa que at a nunca fizera, e sacudiu-lha energicamente, como se quisesse experimentar-lhe a resistncia.
     - Coragem, coragem, meu amigo. Ele disse que o queria ver. Est certo.
     E quis afastar-se.
     Mas Pedro julgou necessrio perguntar-lhe:
     - Como est...?
     Hesitou, sem saber como seria conveniente referir-se ao conde, o moribundo; teve vergonha de dizer: meu pai.
     - Ainda h meia hora teve um ataque. Coragem, meu amigo.
     Pedro estava num tal estado de semiconscincia que a palavra ataque lhe deu a ideia imediata de que algum o tinha atacado. Olhou perplexo para o prncipe Vassili, e s depois lhe ocorreu que aquela palavra podia significar uma doena. O prncipe Vassili, ao passar, disse umas palavras a Lorrain e encaminhou-se para a porta em bicos de ps. No se pode dizer que fosse muito destro em caminhar dessa maneira; todo o seu corpo oscilava desajeitadamente. Atrs dele passou a mais velha das princesas, depois os padres e os sacristes; seguiram-se alguns criados do conde. Atrs da porta ouviu-se um burburinho e Ana Mikailovna, sempre muito plida, mas decidida no cumprimento do seu dever, apareceu, correndo, e tocando tio brao de Pedro murmurou:
     - A bondade divina e inesgotvel. Vai comear a cerimnia da extrema-uno. Venha.
     Pedro penetrou no quarto, enterrando os ps no tapete fofo, e verificou que o ajudante-de-campo, a senhora desconhecida e alguns criados tambm o seguiam, como se j no fosse preciso pedir licena para se entrar naquele aposento.
     

     
     
     
     Captulo XXIII
     
     Pedro conhecia muito bem aquela grande dependncia cortada por uni, arco e algumas colunas e forrada de tapetes persas. A, parte que ficava por detrs das colunas, de um lado tinha uma grande cama de mogno com cortinados de seda, e do outro um oratrio com as suas imagens, o qual, todo iluminado, era como uma igreja preparada, para os ofcios da noite. Debaixo do enquadramento dos cones iluminados estava uma grande cadeira de doente, com o espaldar coberto de almofadas brancas como neve, ainda no amarrotadas, e que acabavam de ser mudadas. Nessa cadeira perfilava-se a majestosa figura, do pai, o conde Bezukov, muito sua conhecida, coberto at  cintura por uma manta verde-clara e os cabelos brancos, em que havia qualquer coisa de leonino, a coroar-lhe a testa ampla e as caractersticas linhas daquele rosto amarelento sulcado de pequenas rugas. Estava estendido mesmo por debaixo das imagens, com as grossas mos espessas emergindo da coberta, e sobre ela pousadas. Na mo direita, espalmada, entre o polegar e o indicador, erguia-se urna vela que um velho criado amparava debruado sobre a cabeceira. Em tomo, os padres, de p, revestidos com os seus magnficos paramentos, muito brilhantes, os longos cabelos soltos, e de velas acesas, oficiavam com uma, lentido solene. Um pouco mais atrs viam-se as duas princesas mais novas, de leno nos olhos, e, diante delas. Katicha, a mais velha, com uma expresso m e resoluta, os olhos fixos nos cones, o que queria dizer que no poderia responder por si caso viesse a olhar para outro lado. Junto  porta. Ana Mikailovna, com o seu ar de resignada tristeza e implorao, bem como a senhora desconhecida.
     O prncipe Vassili, do outro lado desta mesma porta, mais perto da cadeira, por detrs de um cadeiro de talha guarnecido de veludo, cujo espaldar voltara para si, apoiando nele a sua mo esquerda, em que segurava uma vela, enquanto com a direita se benzia e erguia os olhos ao cu, de cada vez que tocava na testa. Na sua mscara havia uma devoo tranquila e submisso  vontade divina, Se Tu no compreendes estes sentimentos, tanto pior para Ti, parecia dizer a sua expresso.
     Atrs dele encontravam-se o ajudante-de-campo, os mdicos e o pessoal masculino: como na igreja, havia separao de sexos. Toda a gente estava calada, persignando-se. Apenas se ouviam as oraes litrgicas, um canto baixo, profundo e contnuo, e nos momentos de silncio movimento de ps e suspiros. Ana Mikailovna, com aquele ar significativo com que mostrava saber o que estava fazendo, atravessou o quarto para entregar uma vela a Pedro. Este acendeu-a, e, entretido com as observaes que fazia sobre os assistentes, ps-se a persignar-se com a mesma mo com que segurava o crio.
     A jovem, princesa Sofia, a da pele rosada, ar trocista e um sinalzinho, olhava para ele. Depois sorriu, escondeu o rosto no leno, e assim esteve muito tempo; da a pouco, voltando a olhar para ele, ps-se a rir. Evidentemente que ela se no sentia capaz de o olhar sem rir, mas como, ao mesmo tempo, no podia deixar de o olhar, para no ter essa tentao foi postar-se, sem rudo, atrs de uma coluna. A meio da cerimnia, as vozes dos sacerdotes calaram-se, repentinamente, e os padres puseram-se a dizer qualquer coisa ao ouvido uns dos outros; o velho criado que segurava a vela do conde ergueu-se e voltou-se para o lado das senhoras. Ana Mikailovna avanou e, debruando-se para o doente, tomou entre as suas mos brancas e finas a mo livre pousada sobre a coberta verde, e, virada de lado, ps-se a tomar-lhe o pulso com um ar recolhido. Deram de beber ao doente; foi uma agitao em volta dele; depois cada um retomou o seu lugar e a cerimnia prosseguiu. Durante esta pausa. Pedro notou que o prncipe Vassili tinha sado de trs do cadeiro e com o ar de quem sabe muito bem o que anda a fazer, e lhe  completamente indiferente a presena dos outros, em vez de se aproximar do moribundo, passara ao lado dele, encaminhando-se para onde estava a mais velha das princesas, juntamente com quem se dirigira para o fundo do quarto, em que estava o leito alto com cortinados de seda.
     Tanto um como outro, depois, tinham desaparecido por uma porta no extremo do aposento, e s no fim da cerimnia haviam reaparecido, um por cada vez, retomando os seus lugares. Pedro no prestou mais ateno a este pormenor que a qualquer outro, persuadido como estava de que tudo quanto se passasse naquela noite diante dos seus olhos assim tinha de ser e nunca de outra maneira.
     Os cantos litrgicos cessaram e ouviu-se ento a voz de um dos sacerdotes felicitando o doente por haver recebido o sacramento. O moribundo continuava estendido sem dar sinais de vida e sem fazer o mais pequeno movimento. Toda a gente se aproximou dele. Ressoaram passos, e ouviu-se o ciciar das vozes, entre as quais se distinguia a de Ana Mikailovna.
     Pedro ouviu-a dizer:
     -  indispensvel lev-lo outra vez para a cama. Aqui  impossvel.
     O moribundo estava de tal modo rodeado pelos mdicos, pelas princesas, pelos criados, que Pedro j lhe no via a cabea vermelho-amarelada com a coroa de cabelos brancos que no perdera de vista durante toda a cerimnia, apesar da presena de toda aquela gente. Pelo movimento prudente das pessoas que o cercavam percebeu que o estavam a soerguer para o transportar.
     - Firma-te no meu brao, vais deix-lo cair - dizia a voz abafada de um dos criados.- Mais baixo... Outro aqui... - murmuravam as vozes.
     O resfolgar das respiraes opressas e o andar arrastado pareciam mostrar que o peso que transportavam era superior s foras dos que o conduziam.
     Toda aquela gente, de que fazia parte Ana Mikailovna, passou diante do jovem, que durante alguns segundos, atravs das nucas e das costas, pde ver os grossos e fortes peitorais nus e os ombros vigorosos do moribundo soerguidos pelas pessoas que lhe pegavam pelas axilas, e a cabea branca, crespa, leonina. A cabea, com a sua fronte extraordinariamente espaosa e a face musculada, a bela boca sensual, o olhar frio, ainda majestoso, no estavam desfigurados pela morte. Era a mesma pessoa que ele tinha conhecido trs meses antes, quando o conde o mandara para Petersburgo. Mas esta cabea balouava, inerte, a cada passada dos que transportavam o moribundo e o seu olhar frio, insensvel, no sabia onde fixar-se.
     Durante alguns minutos houve agitao em volta da cama, depois as pessoas que tinham transportado o conde afastaram-se. Ana Mikailovna tocou no brao de Pedro e disse-lhe: - Venha da. - Pedro, sempre junto dela, aproximou-se da cama em que tinham estendido o doente, numa postura solene, de acordo com o sacramento que acabava de receber. Uma pilha de almofadas soerguia-lhe o busto. As mos estavam dispostas simetricarnente sobre a coberta de seda verde, com as palmas para baixo. Quando Pedro se aproximou, o conde olhou-o fixamente, mas com um olhar de que ningum seria capaz de discernir o significado e a inteno. Ou esse olhar no queria dizer absolutamente nada alm de significar que enquanto os nossos olhos esto abertos para algures tm de olhar, ou ento muito queriam dizer. Pedro ficou imvel sem saber o que fazer, interrogando com o olhar a sua cicerone. Esta teve um rpido movimento de olhos, indicando-lhe a mo do moribundo, e com a boca mimou um beijo.
     Pedro, inclinando a cabea com precauo, para no se embaraar na coberta, seguiu o conselho dela e aplicou os lbios sobre a mo carnuda e de grandes ossos. Nem a mo nem nenhum dos msculos do rosto do conde deram sinal de vida. Pedro continuou a olhar Ana Mikailovna interrogativamente, para lhe perguntar o que tinha a fazer. Esta indicou-lhe com a vista a cadeira ao lado da cama. Pedro a se instalou, com toda a docilidade, continuando a perguntar-lhe, por acenos, se estava a proceder bem. Ana Mikailovna disse-lhe sim com um aceno de cabea. Pedro retomou a sua pose ingnua da esttua egpcia, visivelmente incomodado por ver a sua desastrada pessoa ocupar to largo espao, e recorrendo a todos os estratagemas de esprito para parecer o mais pequeno possvel. Olhou para o conde. Este tinha os olhos pousados no lugar onde se encontrava a figura de Pedro antes de se sentar. Ana Mikailovna, pela sua atitude, traduzia a importncia tocante que atribua a estes derradeiros momentos de despedida entre pai e filho. Isto prolongou-se por dois ou trs minutos, que a Pedro se lhe afiguraram horas. Subitamente, um estremecimento perpassou pelas rugas da mscara do conde. O estremecimento acentuou-se, a boca, de contomos regulares, deformou-se. S ento Pedro compreendeu quo perto da morte estava seu pai. A boca toda contorcida soltou um estertor rouco e indistinto. Ana Mikailovna fixara o moribundo atentamente, na esperana de adivinhar o que ele queria, e mostrava-lhe ora Pedro, ora a poo, ora lhe mencionava em voz baixa o nome do prncipe Vassili, ora lhe indicava a coberta.
     O olhar e a fisionomia do moribundo traduziam impacincia. Fazia esforos para fixar o criado constantemente  cabeceira da cama,
     - Quer que o virem para o outro lado - murmurou este, que se levantou para voltar para o lado da parede o pesado corpo doente.
     Pedro ergueu-se para ajudar o criado.
     Enquanto o mudavam de posio, um dos braos do conde ficou inerte para trs, fazendo ele baldados esforos para o trazer ao seu lugar. O conde ou viu o olhar aflito que Pedro teve para o brao sem vida, ou outro qualquer pensamento perpassou nesse instante pela cabea do moribundo: olhou para o seu prprio brao, que, j lhe no obedecia, depois para a expresso aflitiva de Pedro, em seguida de novo para o brao e pelo seu rosto passou um dbil e doloroso sorriso, que, destoava na sua mscara, parecendo, por isso mesmo, escarnecer da sua prpria impotncia. Ao deparar-se-lhe este sorriso. Pedro sentiu uma sbita crispao no peito, um formigueiro nas narinas e as lgrimas vieram turvar-lhe a vista. Tinham colocado o moribundo voltado para a parede. Ouviu-se que suspirava.
     - Adormeceu - disse Ana Mikailovna, ao ver uma das princesas que vinha substitu-la.- Vamo-nos.
     Pedro saiu.
     

     
     
     
     Captulo XXIV
     
     Na sala de visitas no estava j mais ningum seno o prncipe Vassili e a mais velha das princesas, conversando animadamente debaixo do retrato de Catarina. Assim que viram chegar Pedro e a sua companheira, calaram-se. A princesa dissimulou qualquer coisa, pelo menos foi isso que Pedro pareceu distinguir, e murmurou:
     - No posso ver esta mulher.
     - Katicha mandou servir o ch na salinha - disse o prncipe a Ana Mikailovna. - V, minha pobre Ana Mikailovna, tome qualquer coisa, caso contrrio no aguentar.
     Nada disse a Pedro, limitando-se a apertar-lhe o brao com emoo. Pedro e Ana Mikailovna dirigiram-se para a salinha.
     - No h nada melhor para levantar as foras que uma xcara deste excelente ch russo depois de uma noite em claro! - exclamou Lorrain com uma vivacidade refreada, enquanto bebia, em pequenos goles, por uma chvena da China, sem asa, de p, na salinha redonda, diante de uma mesa onde estavam alguns pratos frios e um servio de ch. Em volta da mesa tinham-se juntado, para recuperar foras, todos quantos haviam passado a noite em casa do conde Bezukov. Pedro lembrava-se muitssimo bem daquela salinha circular com os seus espelhos e os seus guridons. Aquando dos bailes que havia l em casa, ele, que no sabia danar, gostava de vir sentar-se naquela pequenina saleta, donde ficava a ver as senhoras de vestido de noite e os ombros nus cobertos de prolas e diamantes, as quais, ao atravessar aquela dependncia, se miravam vivamente nos espelhos iluminados em que as imagens se multiplicavam indefinidamente. Naquele momento a saleta estava apenas iluminada por duas velas, e na obscuridade, em cima de um guridon, havia, pousados desordenadamente, pratos e chvenas de ch, enquanto pessoas da mais variada natureza, em trajes comuns, falando entre si em voz baixa, se sentavam, exprimindo, em todos os seus movimentos e em todas as suas palavras, a ideia de que no esqueciam um s momento o que estava a passar-se naquela noite e o que devia passar-se ainda no quarto de dormir. Pedro nada comeu, embora muito lhe apetecesse faz-lo. Ia interrogar com os olhos a sua condutora, mas viu que ela tornava a entrar, na ponta dos ps, na sala de visitas, em que ficara o prncipe Vassili e a mais velha das princesas.
     Pedro pensou mais uma vez que assim tinha de ser, e, depois de hesitar alguns instantes, seguiu atrs dela. Ana Mikailovna estava de p junto da princesa e ambas falavam ao mesmo tempo, em voz baixa, com animao.
     - Perdo, minha senhora, eu julgo saber o que se deve fazer e o que se no deve fazer - dizia a princesa, certamente na mesma agitao em que se encontrava no momento em que tinha fechado violentamente a porta do quarto,
     - Mas, minha querida princesa - volveu Ana Mikailovna, num tom modesto e insinuante, vedando  princesa o caminho para o quarto de dormir -, no seria penoso para o seu pobre tio, num momento destes, em que tanto necessita de repouso? Falar-lhe numa hora destas das coisas deste miservel mundo, quando a sua alma est j preparada...
     O prncipe Vassili estava sentado numa cadeira, as pernas cruzadas uma em cima da outra, numa das suas posies habituais. No seu rosto havia movimentos convulsivos, e as faces moles pareciam, na parte inferior, mais largas do que de costume; e fingia estar pouco atento  conversa das duas senhoras.
     - Ento, minha boa Ana Mikailovna, deixe proceder Katicha. Bem sabe quanto o conde a estima.
     - No sei o que h aqui dentro - disse a princesa, dirigindo-se ao prncipe Vassili, e apontando para a pasta de couro que tinha na mo. - O que eu sei  que o verdadeiro testamento est no escritrio dele e que s se encontra aqui papelada esquecida...
     Quis passar, contornando Ana Mikailovna, mas esta fez um movimento rpido e de novo se lhe atravessou no caminho.
     - Bem sei, minha boa, minha querida princesa - disse, apoderando-se da pasta, e segurando-a com tanta forca que se via no estar disposta a larg-la de mo to depressa- Minha querida princesa, peo-lhe, suplico-lhe, poupe o doente. Imploro-lhe...
     A princesa no deu resposta. Apenas se ouvia o rudo da luta que se travava para a conquista da pasta. Era evidente que se ela falasse no seria para dizer coisas amveis a Ana Mikailovna. Mas esta resistia energicamente, embora a sua voz conservasse um tom suave e carinhoso.
     - Pedro, venha c, meu amigo. Suponho que no ser a mais rio conselho de famlia. No  isto verdade, prncipe?
     - Porque  que no diz alguma coisa, primo? - gritou, subitamente, a princesa, e to alto que em toda a sala se lhe ouviu a voz. - Fica calado quando uma pessoa estranha se atreve a intervir nos nossos assuntos e fazer uma cena no limiar do quarto de um moribundo? Intriguista! - exclamou ela com dio, puxando pela pasta, com todas as suas foras.
     Para no ser obrigada a abandonar a presa, e sob a violncia do puxo. Ana Mikailovna viu-se forada a dar alguns passos avante, e pegou-lhe no brao.
     - Oh! - exclamou Vassili com espanto e num tom de censura -  ridculo - prosseguiu ele, erguendo-se- Vejamos, largue, faa favor.
     A jovem princesa abriu as mos.
     - Largue - repetiu-lhe. - Eu encarrego-me de tudo. Vou j falar com ele. Sim, eu... Deixe isso comigo.
     - Mas, meu prncipe - disse Ana Mikailovna -, depois de um sacramento to solene, deixe-o descansar um momento. Pedro, v, d a sua opinio - prosseguiu ela, dirigindo-se ao jovem, o qual, tendo-se aproximado, observava, espantado, a figura da princesa conturbada pela clera e os movimentos nervosos do rosto do prncipe.
     - Lembre-se de que ser responsvel por tudo o que vier a acontecer - disse o prncipe Vassili com severidade. - O senhor no sabe o que faz.
     - Mulher infame! - gritou a princesa, lanando-se sobre ela, repentinamente, e arrancando-lhe a pasta das mos.
     O prncipe Vassili, baixando a cabea, deixou cair os braos para mostrar que nada podia fazer.
     Neste momento, a porta, aquela porta horrvel em que os olhos de Pedro se haviam fixado durante tanto tempo e que antes se tinha aberto to suavemente, escancarou-se, de sbito, com fragor e veio bater de encontro  parede, enquanto a segunda das princesas se lanava na sala torcendo as mos.
     - Que esto aqui a fazer? - disse ela, num desespero - Ele vai-se embora e todos me deixam s.
     A princesa mais idosa deixou cair a pasta. Ana Mikailovna baixou-se, lpida, e, pegando no corpo de delito, desapareceu no quarto de dormir. A princesa e o prncipe Vassili, recuperando a serenidade, foram-lhe no encalo. Da a pouco, a mais velha das princesas voltou a aparecer na sala de visitas, o rosto plido e seco, mordendo o lbio inferior. Ao ver Pedro, veio-lhe um ataque de clera, que deixou expandir livremente,
     - Agora pode estar satisfeito! -exclamou,- Ai tem o que esperava.
     E rompendo a soluar, escondeu o rosto no leno, desaparecendo da sala. O prncipe Vassili foi quem veio depois. Aproximou-se cambaleando do div em que Pedro estava sentado e deixou-se cair com a cara entre as mos. Pedro viu que ele estava plido e que o queixo lhe tremia convulsivamente, como se tivesse febre.
     - Ah, meu amigo! - exclamou, pegando no brao de Pedro, e a sua voz exprimia uma sinceridade e uma doura que este nunca lhe tinha notado - Os pecados que ns cometemos, tanto equvoco, e tudo isso para qu? Estou quase com sessenta anos, meu amigo... E eu... A morte  o fim de tudo. Ah, que coisa terrvel  a morte!... - E principiou a soluar.
     Ana Mikailovna foi a ltima a sair do quarto. Aproximou-se de ^Pedro em passos lentos e sem fazer rudo.
     - Pedro! - exclamou ela.
     Pedro interrogou-a com os olhos. A princesa beijou o rapaz na testa, cobrindo-o de lgrimas. Esteve calada alguns momentos. - - Acabou...
     Pedro olhou para ela atravs das suas lunetas.
     - Vamos, eu acompanho-o. Procure chorar. No h nada como as lgrimas para aliviar.
     Levou-o para uma sala escura e Pedro sentiu-se contente por ningum poder ver-lhe a expresso. Ana Mikailovna afastou-se, e quando voltou a entrar na sala encontrou-o, de cabea encostada ao brao, dormindo profundamente.
     No dia seguinte disse-lhe:
     - Sim, meu caro,  uma grande perda para todos ns. No falo de si. Mas Deus o ajudar,  novo e ei-lo  frente de uma imensa fortuna, assim o espero. O testamento ainda no foi aberto. Conheo-o muito bem para saber que isso no lhe dar volta  cabea, mas impe-lhe deveres, e  preciso ser homem. 
     Pedro ficou calado.
     - Talvez mais tarde lhe conte, meu caro, que se eu ali no estivesse, s Deus sabe o que poderia ter acontecido. Ainda antes de ontem meu tio me prometia no se esquecer de Bris. Mas no teve tempo. Espero, meu caro, que saiba cumprir os desejos de seu pai.
     Pedro no percebia nada, contentando-se em olhar para Ana Mikailovna sem dizer palavra e corando com um ar embaraado. Esta, depois da sua conversa com Pedro, voltou para casa dos Rostov e deitou-se. No dia seguinte pela manh contou aos Rostov e aos seus demais conhecimentos os pormenores da morte do conde Bezukov. Segundo dizia, o conde tinha morrido como ela prpria desejaria morrer, e que o seu passamento fora no s emocionante, mas at mesmo edificante; a ltima entrevista entre pai e filho, ento, tinha sido de tal modo comovente que ela no podia lembrar-se dessa cena sem ch5rar, e lhe era impossvel dizer qual dos dois se portara melhor naqueles terrveis momentos: se o pai, que nos ltimos instantes se tinha referido a todos os acontecimentos importantes, recordando-se de toda a gente e dizendo coisas to comovedoras ao filho; se Pedro, que metia d, de tal modo estava comovido, no obstante ter feito tudo para esconder a sua dor, para que o moribundo se no impressionasse.  penoso, mas faz bem; eleva a alma ver homens como o velho conde e o seu digno filho. Ana Mikailovna aludiu tambm  atitude da princesa e do prncipe Vassili num tom de censura, mas pedindo muito segredo e falando ao ouvido das pessoas.
     

     
     
     
     Captulo XXV
     
     Em Lissia Gori, domnio do prncipe Nicolau Andreivitch Bolkonski, aguardava-se, de dia para dia, a chegada do jovem prncipe Andr e de sua mulher. Mas esta expectativa no alterava a ordem admirvel que pautava a existncia, no solar do velho prncipe. O general-chefe prncipe Nicolau Andreivitch, aquele a quem a gente da sociedade tinha apelidado do rei da Prssia, desde que, no reinado de Paulo I, se recolhera s suas terras, nunca mais deixara a sua Lissia Gor, onde vivia com sua filha Maria e a dama de companhia desta. Mademoiselle Bourienne. E quando viera o novo reinado, embora lhe tivesse sido permitido regressar  capital, ali continuara a viver, sem nunca mais de l sair, dizendo que se algum precisasse dele era natural que se dispusesse a percorrer as cento e cinquenta verstas que separavam Moscovo do seu domnio, pois, quanto a ele, a verdade  que no precisava de nada nem de ningum. Era sua opinio no haver seno duas fontes do vcio humano: a ociosidade e a superstio, e seno duas virtudes: a actividade e a inteligncia. Ele prprio se encarregava pessoalmente da educao da filha, e para desenvolver nela estas virtudes cardinais, a partir dos vinte anos dava-lhe lies de lgebra e de geometria, no permitindo que ela estivesse desocupada o mais breve instante da sua vida. Quanto a ele, passava todo o seu tempo, quer a escrever as suas memrias, quer a resolver problemas de alta matemtica, quer a tornear caixas de rap num tomo mecnico, quer a trabalhar de jardineiro e a vigiar as construes que andava sempre a fazer no seu domnio. Partindo do princpio de que a ordem  a primeira condio de toda a actividade, na sua vida a ordem era levada ao extremo. As pessoas sentavam-se  mesa segundo ritmos inalterveis e sempre iguais, e no somente sempre  mesma hora, mas, at mesmo, no mesmo minuto. Para com as pessoas que o cercavam, quer fosse a filha, quer os criados, era rgida e invariavelmente exigente.
     Esta a razo por que, no sendo propriamente violento, inspirava um terror e um respeito em que lhe no levavam a palma os homens mais brutais. Embora ele se encontrasse na inactividade e nenhuma influncia tivesse j nos negcios pblicos, no havia governador de provncia onde dispusesse de propriedades que se no sentisse na obrigao de se apresentar em sua casa, sujeitando-se,  semelhana do arquitecto, do jardineiro ou da prpria princesa Maria a aguardar o momento em que o prncipe comparecia na sua vasta sala de visitas. E o certo  que todos naquela sala sentiam o mesmo receio e o mesmo respeito quando se abriam as altas portas macias do gabinete e surgia a pequena figura do prncipe, com a sua cabeleira empoada, as suas mozinhas secas e as suas sobrancelhas brancas, proeminentes, as quais, por vezes, quando ele as franzia, lhe velavam o fulgor do olhar brilhante, inteligente e sempre jovem.
     No dia da chegada do casal, pela manh, segundo o costume, a princesa Maria.  hora habitual, entrou na sala de visitas para apresentar os seus cumprimentos matinais, benzendo-se, medrosa, enquanto orava, em voz baixa. Todos os dias entrava naquela sala e nem uma s vez deixava de rezar, pedindo a Deus que fizesse correr bem a entrevista que ia ter com o pai.
     O velho criado de cabeleira branca que estava na sala levantou-se sen) fazer rudo e disse em voz baixa:
     - Faa o favor de entrar.
     Atrs da porta ouvia-se o montono rolar do tomo. A princesa empurrou timidamente o batente e a porta abriu-se sem esforo, deixando-a parada no limiar. O prncipe, que trabalhava ao tomo, depois de ter voltado a cabea para trs prosseguiu na sua tarefa.
     O enorme gabinete transbordava de objectos que, evidentemente, estavam a todo o momento a ser precisos. A grande mesa coberta de livros e plantas, as altas estantes da biblioteca, com as chaves nas respectivas fechaduras, a secretria alta para se escrever de p, sobre a qual estava aberto um caderno, o tomo, com as ferramentas espalhadas e as aparas de madeira pelo cho, tudo denunciava uma actividade constante, variada e metdica. Os movimentos das curtas pernas do prncipe, que calava botas trtaxas pregueadas de prata, e a presso enrgica das suas mos magras e nervosas proclamavam a fora tenaz e bem mantida de uma velhice vigorosa.
     Depois de ter feito girar ainda algumas vezes a roda do tomo, levantou o p do pedal, limpou a goiva, guardando-a depois numa bolsa de couro pendente daquele e aproximando-se da mesa, chamou a princesa. Nunca abenoava os filhos, e estendendo  filha a cara eriada de plos e ainda por barbear disse-lhe severamente, embora com um olhar meigo e cuidadoso:
     - Como vai isso?... Bom, ento senta-te!
     Pegou num caderno de exerccios de geometria, escrito com a sua prpria caligrafia, e puxou a cadeira com o p.
     - Para amanh! - exclamou, procurando rapidamente a pgina e marcando corri a unha robusta os perodos que era preciso estudar.
     A princesa debruou-se para o caderno.
     - Espera.., uma carta para ti - disse de repente o velho, tirando de um saco suspenso da mesa um sobrescrito com letra feminina e pousando-o em cima do tampo da mesa.
     Assim que a princesa viu a carta, toda ela se ruborizou. Pegou-lhe, pressurosa, fazendo urna grande vnia.
     -  da tua Helosa? (Aluso a Jlia da Nova Helosa. (N, dos T.) - perguntou o prncipe, mostrando, num frio sorriso, os dentes amarelados, mas ainda slidos. - ,  da Jlia - replicou a princesa, com um olhar tmido e um sorriso receoso.
     - Ainda vou deixar passar mais duas cartas, mas a terceira hei-de l-la - disse o pai severamente.- Tenho c os meus receios de que vocs escrevam muita tolice. A terceira leio-a.
     - Pode ler esta, meu pai - respondeu a rapariga, corando ainda mais e apresentando-lhe a carta.
     - A terceira, eu disse a terceira - interrompeu o prncipe, repelindo a carta; e apoiando o cotovelo  mesa, puxou para si o caderno de geometria.
     - Como v, menina - principiou o velho, debruando-se muito para a filha por cima do caderno e apoiando-se corri uma das mos nas costas da cadeira onde se sentava a princesa, que se sentiu envolta numa onda de cheiro a tabaco e desse aroma especial das pessoas idosas, muito do seu conhecimento. - Como v, menina, estes tringulo so iguais: olhe, o ngulo A-B-C...
     A jovem princesa fitava, assustada, os olhos brilhantes do pai muito perto da sua cara. As mas do rosto cobriram-se-lhe de manchas vermelhas. Via-se perfeitamente que no compreendia e que estava cheia de medo: isso era o bastante para no poder apreender as longas explicaes do pai, por mais claras que fossem. Ou por culpa do professor ou da aluna, o certo  que todos os dias acontecia o mesmo. Os olhos da jovem turvavam-se, no via, no ouvia mais nada, para ela nada mais existia alm daquele rosto seco e severo muito perto do seu, daquele hlito e daquele aroma, e o seu nico desejo seria fugir o mais depressa possvel do gabinete para, sozinha, resolver com tranquilidade o problema que o pai lhe propunha. O velho exaltava-se, afastava e aproximava com estrpido a cadeira em que estava sentado, procurando no se deixar encolerizar, mas no raramente acabava a ferro e fogo, no meio de injrias e at, por vezes, atirando fora o caderno.
     A princesa enganou-se na resposta que deu.
     - Que estpida que tu me saste! - gritou-lhe o pai, empurrando o caderno e voltando-se bruscamente. De chofre, ergueu-se, deu alguns passos de um lado para o outro, pousou a mo na cabea da filha e tomou a sentar-se. Aproximando a cadeira, continuou a explicar.
     - Assim no fazemos nada, princesa, assim no fazemos nada - disse quando a filha fechava o caderno, depois da lio, disposta a partir- Mas a verdade  que as matemticas so uma coisa importante, menina. E o que eu no quero  que tu fiques como todas as nossas estpidas senhoras. Com tempo e pacincia hs-de acabar por gostar da matemtica. - Bateu-lhe na cara- Hei-de tirar-te da cabea toda a estupidez que l tens dentro.
     Ela quis abalar mas ele deteve-a com um gesto, e tirou de cima da secretria um livro novo com as folhas ainda por abrir.
     - Aqui tens um livro que te manda a tua Helosa, um tal A Chave do Mistrio.  um livro religioso. Eu no gosto de interferir nas crenas religiosas de ningum... Passei a vista pelo livro. Toma l. E agora vai-te, vai-te embora.
     Bateu-lhe no ombro e foi ele prprio quem fechou a porta depois de ela sair.
     A princesa Maria voltou para o seu quarto, com aquele seu ar triste e receoso que raramente a abandonava e que ainda mais feios tornava os seus traos doentios e pouco regulares; sentou-se  sua mesa de trabalho, coberta de retratos, miniaturas, cadernos e livros. O sentimento da ordem que a ela lhe faltava tinha-o o pai em excesso. Pousou o caderno de geometria e abriu a carta com impacincia. Era da sua mais ntima amiga de infncia: precisamente essa tal Jlia Karaguine, que estivera na festa em casa dos Rostov.
     Jlia escrevia, em francs:
     
     Querida e excelente amiga:
     Que coisa terrvel e pavorosa  a ausncia! Por mais que eu me diga a mim prpria que a metade da minha existncia e da minha felicidade est contigo, que, apesar da distncia que nos separa, os nossos coraes esto unidos por laos indissolveis, o meu corao revolta-se contra o destino e -me impossvel, no obstante os prazeres e as distraces que me cercam, vencer uma certa tristeza oculta que sinto no fundo do corao, desde que nos separmos. Porque no estamos ns juntas como no Vero passado no teu gabinete, sentadas no teu canap, o canap das confidncias? Porque  que eu no posso, como h trs meses, colher novas foras morais no teu olhar, to meigo, to calmo e to penetrante, olhar de que eu tanto gostava e que julgo ainda ver diante de mim enquanto te vou escrevendo!
     
     Ao chegar a este ponto da carta, a princesa Maria soltou um suspiro e lanou um olhar para o espelho que estava  sua direita. O cristal devolveu-lhe uma desajeitada e enfezada figura. Os seus olhos, sempre tristes, fixavam o espelho com uma expresso particularmente desencantada. Tudo para me lisonjear, pensou, e afastou os olhos do espelho, prosseguindo na leitura da carta. Realmente. Jlia no lisonjeava a amiga: esta tinha, com efeito, uns olhos grandes, to profundos e to luminosos que dir-se-ia irradiarem, de vez em quando, quentes raios de luz, olhos to belos que a cada momento, apesar da fealdade dos traos do seu rosto, lhe emprestavam mais atractivos que se ela fosse, de facto, bonita. A princesa nunca seria, porm, capaz de descobrir esta bela expresso do seu olhar, essa expresso que lhe vinha aos olhos quando ela menos sonhava. Acontecia consigo o que tantas vezes se d com outras pessoas: sempre que olhava para o espelho, vinha-lhe  cara um ar afectado e pouco natural que a tornava feia.
     Continuou a ler:
     
     Em Moscovo no se fala noutra coisa seno em guerra. Um dos meus dois irmos j seguiu para o estrangeiro, o outro est na Guarda, que vai partir para a fronteira. O nosso querido imperador saiu de Petersburgo e segundo consta est disposto a expor a sua preciosa existncia aos perigos da guerra. Deus queira que o monstro corso que acabou com a tranquilidade na Europa venha a ser esmagado pelo anjo que o Todo- Poderoso, na Sua infinita misericrdia, nos deu por soberano. Sem falar nos meus irmos, esta guerra privou-me de um dos conhecidos mais queridos do meu corao. Refiro-me ao jovem Nicolau Rostov, que no seu entusiasmo no pde resignar-se a manter-se inactivo e abandonou a Universidade para se alistar no exrcito. Pois bem, querida Maria, devo confessar-te que, apesar de muito novo, a sua partida para a guerra foi para mim motivo de grande desgosto. Este rapaz, de quem te falei no Vero passado, tem tanta nobreza e tanta juventude que  difcil encontrar-se algum como ele, no tempo em que vivemos, entre os nossos velhos de vinte anos.  sobretudo to franco e to bom de corao! E to puro e to potico que as minhas relaes com ele, embora fossem passageiras, as considero das mais doces alegrias do meu corao, que tanto j tem sofrido. Hei-de contar-te um dia as nossas despedidas e o que dissemos no momento em que nos separmos. Por agora tudo isto ainda est muito fresco. Que feliz s, querida amiga, visto no conheceres alegrias to grandes e dores to pungentes! s feliz, porque estas so geralmente mais fortes do que aquelas. Bem sei que o conde Nicolau  muito novo para poder vir a ser para mim mais que um amigo, mas esta afectuosa amizade, estas nossas reaces, to poticas e to puras, o meu corao estava a pedi-las. No falemos, porm, mais nisso. A grande nova do momento, assunto de toda Moscovo,  a morte do conde Bezitkov e a histria da sua herana. Imagina que as trs princesas no vieram, a receber quase nada, o prncipe Vassili nada recebeu, e quem tudo herdou foi Monsieur Pierre, que, ainda, por cima, foi reconhecido filho legtimo, herdando, portanto, tambm o ttulo de conde Rezukov, e  hoje possuidor da maior fortuna de toda a Rssia. Dizem que o prncipe Vassili desempenhou um, feio papel em, toda, esta histria da herana do conde e que regressou a Petersburgo de orelha murcha.
     Devo confessar-te que muito pouco percebo destas histrias de legados e de testamentos; o que te sei dizer  que desde que o rapa;, por todos ns conhecido por Monsieur Pierre se tomou conde de Bezukov e passou a dispor de uma das maiores fortunas da Rssia muito me divirto a observar a mudana no tom, e nas maneiras das mes com vrias filhas para casar e at no tom e nas maneiras das prprias meninas em relao a este indivduo, o qual, aqui para ns, sempre me pareceu um z-ningum. Como, de h dois anos a esta parte, toda esta gente se entretm a arranjar-me noivos que na maior parte dos casos eu nem sequer conheo, a crnica nupcial de Moscovo neste momento faz de mim condessa Bezukov. Mas deves compreender que nada fao Para vir a gozar dessa honra. A propsito de casamentos.- queres saber? H dias, a tia de toda a gente. Ana Mikailotna, contou-me, pedindo-me o maior segredo, que se preparava aqui um casamento para ti. Trata-se, nem mais nem menos, do filho do prncipe Vassili, o Anatole, rapaz que o pai gostaria de arrumar, casando-o com uma menina rica e distinta. Foi em ti que recaiu a escolha dos pais. No sei como encarars tu a histria, mas sinto-me na obrigao de te avisar. Dizem que  bonito rapaz e muito m pessoa;  tudo quanto pude apurar a seu respeitou.
     Mas basta de tagarelices. Estou no fim da minha segunda folha de papel, e minha - me mandou-me chamar para irmos jantar a casa dos Apraksine. L o livro mstico que junto te envio, e que neste momento esta aqui a fazer furor. Embora neste livro haja coisas difceis de compreender para o fraco entendimento humano,  um livro admirvel, cuja leitura serena eleva a alma. Adeus. Os meus respeitos ao senhor teu pai e cumprimentos a Mademoiselle Bourienite. Um abrao amigo,
     Jlia.
     
     P. S. - Manda-me notcias de teu irmo e da sua encantadora mulher.
     
     A princesa reflectiu, sorriu pensativamente, e, iluminada pelos seus brilhantes olhos, toda a sua expresso se lhe transformou naquele instante. Levantou-se de chofre, aproximou-se da mesa no seu passo moroso. Pegou numa folha de papel e a mo deslizou-lhe, rpida. Eis a resposta  carta de Jlia:
     
     Querida e excelente amiga:
     A tua carta de 13 deu-me muita alegria. Ainda gostas ento de mim, minha potica Jlia? Quer dizer que a ausncia de que tanto mal dizes no teve sobre ti a sua habitual influncia. Queixas-te da ausncia! Que diria eu, se tivesse coragem para me lamentar, eu, que me vejo privada de todos aqueles que me so queridos! Se no fosse a religio, nosso consolo, que triste seria a nossa vida. Porque julgas ver em mim olhar severo quando me falas do teu afecto pelo rapaz? Neste captulo s para mim sou dura. Compreendo muito bem esses sentimentos nas outras pessoas e, se me no  permitido aprov-los, por nunca ter passado por eles, a verdade  que os no condeno. Parece-me apenas que o amor cristo, o amor do prximo, o amor pelos nossos inimigos  mais meritrio, mais suave e mais belo que os sentimentos inspirados pelos lindos olhos de um jovem a uma rapariga potica e amorvel como tu.
     A notcia da morte do conde Bezukov j aqui tinha chegado antes da tua carta, e meu pai sentiu-a muito. Segundo ele, era o ltimo representante do grande sculo, e agora s falto chegar a sua vez, embora esteja disposto - diz - a fazer quanto puder para que esse momento chegue o mais tarde possvel. Que Deus nos proteja contra tamanha desgraa! No sou da tua opinio a respeito do Pedro, pessoa que eu conheci em criana. Pareceu-me sempre ter um bom corao, e esta  a qualidade que eu mais prezo nas pessoas. Quanto  herana e ao papel que nela desempenhou o prncipe Vassili acho isso muito triste para os dois. Ah, querida amiga, as palavras do nosso Divino Salvador -  mais fcil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos Cus - estas palavras so tremendamente verdadeiras; lastimo o primo Vassili e ainda lamento mais o Pedro. To novo e ia esmagado ao peso de tamanha fortuna, que grandes no iro ser para ele as tentaes deste Se me perguntassem o que eu desejo mais nesta vida, diria que quereria ser mais pobre que o mais pobre dos indigentes. Muito e muito obrigada, querida amiga, pelo livro que me mandaste e que tanto xito tem tido a. No entanto, visto dizeres-me que no meio de muitas coisas boas outras h que o fraco entendimento humano no pode atingir, parece-me intil perdermos tempo com uma leitura ininteligvel, que por isso mesmo se tornar infrutfera. Nunca pude compreender a paixo que tm certas pessoas em perturbar o esprito consagrando-se a leitura de livros msticos que apenas servem para levantar dvidas nas suas almas, exaltando a imaginao e dando-lhes um temperamento exagerado, em tudo contrario  simplicidade crist.  bom lermos os Apstolos e o Evangelho. No procuremos compreender o que neles h de misterioso, pois, como ousaramos ns, miserveis pecadores que somos, iniciar-nos nos terrveis segredos da Providncia enquanto estivermos ligados a este despojo carnal que levanta entre ns e o Eterno um impenetrvel vu? Limitemo-nos, pois, a estudar os princpios sublimes que o nosso Divino Salvador nos confiou para nosso governo na Terra; procuremos conformar-nos com eles e segui-los; persuadamo-nos de que quanto mais asas dermos ao nosso fraco esprito humano mais isso agrada a Deus, que rejeita toda a sabedoria que dEle no vem; e que quanto menos procurarmos aprofundar aquilo que Ele houve por bem esconder do nosso entendimento, tanto mais depressa Ele no-lo revelar graas ao Seu divino esprito.
     Meu pai no me falou em qualquer pretendente; disse-me apenas que tinha recebido uma carta e que aguardava a visita do prncipe Vassili. Quanto ao projecto de casamento em que falas, dir-te-ei, querida e excelente amiga, que o casamento, na minha opinio,  uma instituio divina a que ns nos devemos suspeitar. Por mais penso que isso seja para mim, se Deus Todo-Poderoso algum dia vier a impor-me os deveres de esposa e de me, fica certa de que procurarei cumpri-los to fielmente quanto puder, sem me preocupar com o exame dos meus sentimentos em relao quele que Ele me destinar para marido.
     Recebi uma carta de meu irmo anunciando-me a sua chegada a Lissia Gori na companhia da mulher. Ser breve a minha alegria, pois que ele seque daqui a tomar parte nesta guerra infeliz, para que ns somos arrastados s Deus sabe como e porqu. No  s a, turbilho dos negcios e centro do mundo, que se no fala seno em guerra, mas at aqui, no meio dos trabalhos agrcolas e da paz da natureza, que  assim que o homem das cidades era geral v o campo, se fazem sentir os boatos de guerra. Meu pai s fala em, marchas e contramarchas, coisas de que nada compreendo: e aqueles de ontem, no decurso do meu passeio habitual pelas ruas da aldeia, assisti a uma cena dilacerante... Passava um comboio de- recrutas, alistados nestas terras, que seguiam para os quartis... Era de ver o estado das mes, das mulheres e dos filhos daqueles que partiam, e de ouvir os soluos de uns e outros! Dir-se- que a humanidade esqueceu as leis do seu Divino Salvador, que no fez outra coisa seno pregar o amor e o perdo das ofensas, para no pensar seno na arte de nos matarmos uns aos outros.
     Adeus, querida e boa amiga, que o nosso Divino Salvador e a Sua Santa Me vos tenham na Sua santa e poderosa guarda.
     Maria.
     
     - Ali, estava a expedir o seu correio, princesa; eu j expedi o meu. Escrevi  minha pobre me - disse, sorrindo. Mademoiselle Bourienne, com a sua voz cheia e agradvel, em que qualquer coisa arranhava. Na atmosfera triste e sombria em que a princesa vivia a presena de Mademoiselle Bourienne era uma nota de alegre frivolidade e de auto-satisfao.
     - Princesa, preciso de a prevenir - acrescentou ela, baixando a voz.- O prncipe teve uma altercao.- E o seu defeito de pronncia acentuou-se especialmente ao pronunciar a palavra altercao. Dir-se-ia que se estava a ouvir a si mesma.- Uma altercao com Michel Ivanoff. Est muito mal disposto, muito zangado. Seja prudente, sim?
     - Ah!, querida amiga - replicou a princesa -, j lhe pedi que nunca me falasse no estado de esprito de meu pai. No me atrevo a julg-lo e no gosto que os outros o faam.
     A princesa olhou para o relgio, e, ao ver que j passavam cinco minutos da hora fixada para o seu cravo, precipitou-se no salo, diligentssima. Entre o meio-dia e as duas horas, de acordo com o horrio estabelecido, o prncipe dormia a sesta e ela devia estudar cravo.
     

     
     
     
     Captulo XXVI
     
     O velho criado cabeceava, sentado na sala de espera, ouvindo o ressonar do prncipe no seu imenso gabinete de trabalho. Do outro extremo da casa, atravs das portas fechadas, chegavam at ali, pela vigsima vez, os compassos difceis da sonata de Dusseck.
     Nesse momento parava diante da escadaria principal uma carruagem e um pequeno carro. Da carruagem apeou-se o prncipe Andr, que ajudou a sua mulherzinha a descer, deixando-a subir a escada diante de si. O velho Tikon, com a sua cabeleira postia, espreitou pela porta da sala de espera e disse, em voz baixa, que o prncipe estava a descansar, dando-se pressa em fechar a porta. Tkon sabia muitssimo bem que nada, absolutamente nada, nem mesmo a chegada do filho ou qualquer outro acontecimento imprevisto, deveria perturbar a rotina do seu amo. O prncipe Andr, claro est, sabia isso to bem como o prprio Tikon. Consultou o relgio, para verificar se os hbitos do pai no tinham sido alterados desde que o no via, e, persuadido de que tudo estava na mesma, disse para a mulher:
     - Dentro de vinte minutos estar de p. Vamos ver a princesa Maria.
     A princesinha engordara um pouco, mas os seus olhos e o seu lbio sorridente, que um ligeiro buo sombreava, continuavam a ter o ar alegre e gentil sempre que falava.
     - Mas  um palcio - disse para o marido, olhando em roda, no mesmo tom em que se felicita o organizador de um baile.- Vamos, depressa, depressa!
     Falando, ia sorrindo para toda a gente, para Tikon, para o marido, para o criado que a conduzia.
     -  a Maria que est a estudar? No faamos barulho, quero surpreend-la.
     O prncipe Andr seguiu-a com o seu ar corts e triste. 
     - Ests mais velho. Tikon - disse ele, de passagem, ao velho, que lhe beijava a mo.
     Antes de terem chegado  dependncia onde se ouvia o cravo, viram sair de uma porta lateral uma bonita francesinha loura. Mademoiselle Bourienne parecia louca de contentamento.
     - Ah!, que alegria para a princesa! - disse ela. - Enfim, preciso de a prevenir.
     - No, no, por favor...  Mademoiselle Bourienne, j a conheo pela amizade que a minha cunhada lhe tem - disse a mulher de Andr, beijando-a - Ela no nos espera!
     Aproximaram-se da porta da saleta, donde continuavam a sair sempre os mesmos compassos indefinidamente repetidos. Andr parou, franzindo as sobrancelhas, como se sentisse uma penosa impresso.
     A princesa sua mulher entrou, o motivo da sonata foi interrompido no meio; ouviu-se um grito, os passos pesados de Maria e beijos ressoaram. Quando Andr entrou, por sua vez, viu as duas cunhadas, que pouco se tinham conhecido na altura do casamento, abraadas uma  outra, beijando-se mutuamente, sem escolher onde. Mademoiselle Bourienne ali estava, com a mo no corao, sorrindo cheia de beatitude, e to pronta a rir como a chorar. Andr encolheu os ombros e franziu as sobrancelhas, como costumam fazer os amadores de msica quando um instrumento desafina. Por fim, as duas mulheres separaram-se, e, em seguida, para recuperarem o tempo perdido, recomearam a estreitar-se nos braos uma da outra, a beijarem-se mutuamente, rompendo em soluos, com grande surpresa do prncipe, e abraando-se de novo. Mademoiselle Bourienne ps-se tambm a soluar. O prncipe Andr deu sinal de uma certa impacincia; mas elas achavam to natural chorar assim que lhes no era possvel imaginarem o seu mtuo encontro de outra maneira.
     - Ah!, minha querida!... Ah!. Maria!... - disseram, de repente, transitando das lgrimas para o riso. - Sonhei esta noite... - No nos esperava... Ah! Maria, emagreceu... E a minha amiga recuperou...
     - Conheci logo a senhora princesa - interveio Mademoiselle Bourienne.
     - E eu que no desconfiava de nada!... - exclamou a princesa Maria. - Ah!. Andr, no o via.
     Andr apertou a irm contra si e disse-lhe que ela ainda no deixara de ser a mesma choramingas. Maria olhou para o irmo, e no meio das suas lgrimas deteve nele o quente e suave olhar cheio de enternecimento dos seus grandes olhos luminosos, lindssimos naquele momento.
     A princesa Lisa falava sem descanso. O seu lbiozinho superior no fazia outra coisa seno agitar-se continuamente, de cima para baixo, sobre o lbio inferior, e um perptuo sorriso lhe iluminava os dentes e os olhos. Historiava um incidente que lhe tinha acontecido na muda de Spass, o qual poderia ter sido perigoso para ela no estado em que estava, e imediatamente se ps a dizer que deixara todos os seus vestidos em Petersburgo e que no iria ter nada que vestir, que Andr tinha mudado muito, que Kitti Odintsova casara com um velho, e que ela arranjara para Maria um noivo a srio, mas que disso haviam de conversar mais tarde. A princesa Marm, calada, no deixara de fitar o irmo, e os seus lindos olhos estavam plenos de afectuosidade e tristeza. Via-se bera que os seus pensamentos tomavam um caminho muito diverso dos da sua cunhada. Enquanto esta falava da ltima festa a que assistira em Petersburgo, a princesa Maria voltou-se para o irmo.
     - Est ento resolvido a ir para a guerra. Andr? - interrogou ela, no meio de um suspiro. Lisa estremeceu tambm.
     - Sim, e amanh mesmo - replicou ele.
     - Abandonou-me aqui, e s Deus sabe porqu, quando ele podia ser promovido...
     A princesa Maria no a deixou acabar e, seguindo o curso dos seus pensamentos, disse para a cunhada, indicando afectuosamente com os olhos o volume do seu ventre.
     -  realmente verdade? - perguntou.
     Lisa mudou de expresso. Teve um suspiro.
     - Sim,  verdade - volveu ela.- Ah,  assustador...
     Os lbios contraram-se-lhe. Aproximou a cara do rosto da cunhada e subitamente principiou a chorar.
     - Precisa de descansar - disse o prncipe Andr franzindo as sobrancelhas. - No  verdade. Lisa? Leva-a contigo, que eu vou ver o pai. Como vai ele? Sempre na mesma?
     - Sim, est sempre na mesma; no sei como tu o vais achar - respondeu Maria com jovialidade.
     - Sempre as mesmas horas e os passeios pelas avenidas? E o tomo? - perguntou Andr, com um sorriso imperceptvel que queria dizer que, apesar de todo o seu amor e o seu respeito filiais, conhecia as fraquezas do pai.
     - Sim, sempre as mesmas horas, e o tomo e, ainda por cima, as matemticas e as minhas lies de geometria - replicou jovialmente a princesa Maria, como se estas lies de geometria fossem uma das maiores alegrias da sua vida.
     Passados que foram os vinte minutos necessrios para o descanso do velho. Tikon veio buscar o prncipe para o conduzir junto do pai. O velho dispensara-se de cumprir o seu programa em honra do filho: mandara-o entrar para os seus aposentos enquanto se vestia para o jantar. Conservava os velhos costumes: o cafet e o p. E quando Andr apareceu, j no com o aspecto e as maneiras entediadas que costumava aparentar nos sales, mas com o ar animado que mostrava em suas conversas com o Pedro, o velho estava no seu gabinete de toilette, enterrado numa poltrona de marroquim, de penteador, confiando a cabea aos cuidados de Tikon.
     - Eh, o guerreiro! Ento queres-te bater com o Bonaparte? - exclamou, abanando a cabea empoada tanto quanto lho consentia Tikon, que estava a entranar-lhe o rabicho.
     - Trata de te portares  altura, ou ento no tarda muito que tambm ns estejamos a fazer parte do nmero dos seus sbditos. Como vai isso? - acrescentou, oferecendo-lhe a face,
     O velho estava de ptima disposio, depois do sono que costumava fazer antes de jantar. Tinha por hbito dizer que a sesta depois de jantar era prata e antes de jantar ouro. Por debaixo das suas espessas sobrancelhas ia lanando ao filho olhadelas matreiras. O prncipe Andr aproximou-se e beijou o pai no stio designado. No respondeu ao tema favorito da conversa paterna, aos seus gracejos sobre os militares do tempo e especialmente sobre Bonaparte.
     - Sim, viemos v-lo, meu pai; minha mulher, que est no seu estado interessante, e eu - disse, observando, com o seu vivo olhar, nem por isso menos respeitoso, todos os movimentos da fisionomia paterna.- Como tem passado de sade?
     - S esto doentes, meu rapaz, os imbecis e os estroinas, e tu conheces-me. Estou sempre ocupado, da manh  noite, e sou pessoa sbria; por conseguinte, tenho sade.
     - Louvado seja Deus! - exclamou o filho, sorrindo. - Deus no  para aqui chamado. Ento conta-me c - prosseguiu, voltando  sua cisma familiar - como  que os Alemes vos ensinaram a combater o Bonaparte segundo a vossa nova cincia, a chamada estratgia?
     O prncipe Andr sorriu.
     - Deixe-me tomar flego, meu pai - dizendo o que, no deixava de mostrar, pela sua expresso, que as manias do pai o no impediam de o adorar e de o venerar. - Nem sei ainda onde  que nos vai instalar.
     - Tolice, tolice - exclamou o ancio, sacudindo o rabicho, para ver se estava a seu gosto, e dando o brao ao filho. - Os aposentos da tua mulher esto preparados. A Maria se encarregar de a conduzir at l, e ela lhos mostrar, e ho-de ter .muito que dizer. Isso  l com elas. Estou muito contente que ela tenha vindo. Senta-te, senta-te e conta-me. O exrcito de Mikelson, sim, bem sei, e o de Tolstoi tambm... Operaes simultneas.., e o exrcito do Sul, o que vai fazer? A Prssia, a neutralidade, sim, bem sei. E a ustria?
     Enquanto falava, tinha-se levantado da poltrona e andava de um lado para o outro, seguido por Tikon, que lhe ia apresentando as diversas peas de vesturio.
     - E a Sucia? Como  que vamos atravessar a Pomernia?
     O prncipe Andr, perante a insistncia do pai, primeiro contrariado, depois numa animao crescente, e deixando de falar russo, para falar francs, como era seu costume, principiou a expor o plano da futura campanha. Aludiu  forma como um exrcito de oitenta mil homens deveria ameaar a Prssia, para obrig-la a abandonar a neutralidade e arrast-la para a guerra, a maneira como uma parte deste exrcito viria juntar-se ao sueco, em Stralsund, como duzentos e vinte mil austracos, reunidos a cem mil russos, deviam agir em Itlia e sobre o Reno, como cinquenta mil russos e o mesmo nmero de ingleses viriam a desembarcar em Npoles e como no seu total um exrcito de quinhentos mil homens deveria atacar os Franceses em diversas frentes. O prncipe no mostrava o mais pequeno interesse por esta exposio e nem parecia mesmo ouvi-la, continuando a vestir-se enquanto andava de um lado para o outro. Por trs vezes interrompeu o filho de maneira assaz inesperada. A primeira foi para gritar: - O branco!, o branco!
     Com isto queria dizer que Tikon no estava a dar-lhe o colete que ele queria. A segunda, deteve-se, para perguntar:
     - E  para breve o parto? - Depois abanou a cabea reprovadoramente.-  mau! Continua, continua.
     A terceira vez foi quando o prncipe Andr chegava ao cabo da sua exposio. Ps-se ento a cantarolar, numa voz de velho em falsete: Malbroug vai para a guerra. Sabe Deus quando voltar.
     O filho contentou-se em sorrir.
     - No posso dizer que estou de acordo com este plano - disse ele - Limito-me a expor-lho tal como ele . Napoleo tambm j tem o seu, que  to bom como este.
     - Bom, no me disseste nada de novo. - E, pensativamente, o velho prncipe repetiu, resmungando entre dentes: - Sabe Deus quando voltar. E agora para a mesa.
     

     
     
     
     Captulo XXVII
     
     A hora precisa, o prncipe, empoado e barbeado, deu entrada na sala de jantar, onde o aguardavam a nora, a princesa Maria. Mademoiselle Bourienne e o arquitecto, que, por estranha fantasia, se sentava com o prncipe  mesa, embora esse homem, insignificante pessoa, que era, no ponto de vista social, no contasse com tanta deferncia. O prncipe, que era muito respeitador da etiqueta e das diferenas de classe e s muito raramente sentava  sua mesa os mais importantes funcionrios da provncia, quando menos se esperava, quisera mostrar, na pessoa do arquitecto. Mikail Ivanovitch, o qual tinha por hbito assoar-se, disfaradamente, a um grande tabaqueiro, que os homens para ele eram todos iguais. Vrias vezes explicara  filha que Mikail Ivanovitch em nada era inferior a qualquer deles.  mesa era muito vulgar o prncipe dirigir a palavra ao pouco falador Mikail Ivanovitch.
     Na sala de jantar, imensa como todas as dependncias da casa, as pessoas de famlia e os criados aguardavam a chegada do prncipe, de p, atrs de cada cadeira; o chefe, de guardanapo no brao, vigiava a mesa, piscando o olho aos lacaios, enquanto ia e vinha, no seu passo tranquilo, entre o grande relgio e a porta por onde o prncipe devia entrar.
     Andr contemplava um grande quadro de moldura dourada, novo para ele, com a rvore genealgica dos prncipes Bolkonski, simtrico com outro quadro, do mesmo tamanho, que representava muito mal - obra, claro est, de qualquer pintor criado no solar- um prncipe soberano, com a coroa, provavelmente um descendente de Rurik e antepassado da famlia dos Bolkonski.
     O prncipe Andr observava esta rvore genealgica, abanando a cabea. A certa altura principiou a rir, como quando se olha para uma caricatura.
     - Ora aqui est ele! - exclamou para a princesa Maria, que se aproximara.
     Maria encarou com o irmo sem esconder estar surpreendida. No percebia porque ele estava a rir. Tudo quanto o pai fazia era para ela motivo de venerao, e no admitia crticas.
     - Cada um l tem o seu calcanhar-de-aquiles - prosseguiu Andr - Um homem to inteligente e prestar-se a uma coisa to ridcula!
     A princesa no podia admitir a audcia destas observaes, e preparava-se para responder quando se ouviram os passos, que todos esperavam, vindos do gabinete de trabalho do prncipe. O velho militar entrou na sala de jantar com o seu passo rpido e vivo, como se quisesse opor-se, com aqueles seus modos animados,  ordem severa que reinava na casa. Na mesma altura o grande relgio deu duas horas, e outro, retinindo fracamente, respondeu-lhe, l de dentro, do salo. O prncipe deteve-se. Por sobre as suas espessas sobrancelhas proeminentes as suas pupilas severas, vivas e brilhantes, observaram todas as pessoas presentes, fixando-se na mulher do prncipe Andr. Esta sentiu nesse momento a impresso que costumam sentir os cortesos no acto da chegada do soberano, um sentimento misto de temor e de respeito, que o prncipe inspirava a todos quantos dele se aproximavam. Depois passou a mo pelos cabelos da jovem princesa e deu-lhe umas pancadinhas na nuca um pouco atabalhoadamente.
     - Estou muito contente, estou muito contente de a ver - disse, olhando-a fixamente uma vez mais, e, de chofre, voltou-se para sentar-se  mesa. - Tomem os seus lugares, tomem os seus lugares! Mikail Ivanovitch, sente-se.
     O velho prncipe indicou  nora um lugar a seu lado. Um criado ajudou-a a sentar.
     - Sim, senhor, sim, senhor! - exclamou, ao ver as amplas formas da princesa. - Chama-se a isto no perder tempo! Hem, que marota!
     E rompeu num riso seco, frio e desagradvel, o riso que tinha sempre, um riso s da boca, no dos olhos.
     -  preciso andar, andar o mais possvel, o mais possvel acrescentou.
     A princesinha no ouvia ou no queria ouvir o que ele dizia. Estava calada e parecia preocupada. S quando o prncipe lhe perguntou pelo pai, principiou a falar e a sorrir. 1nterrogou-a acerca das pessoas que ambos conheciam. Ento ela sentiu-se  vontade e ps-se a tagarelar, transmitindo-lhe os cumprimentos de alguns conhecidos, contando-lhe casos de m-lngua da cidade.
     - A condessa Apraksine, coitada, perdeu o marido e est farta de chorar - dizia ela, cada vez mais animada.
     A medida que se entusiasmava, o prncipe ia-a olhando cada vez mais severamente, e, de sbito, como se a tivesse estudado o suficiente e acabasse por fazer dela um ideia exacta, desviou para outro lado a sua ateno, dizendo a Mikail Ivanovitch:
     - Pois  verdade. Mikail Ivanovitch, as coisas no vo correr bem para o nosso Bonaparte. Como me contou o prncipe Andr - falava sempre de Andr na terceira pessoa -, esto a juntar-se foras contra ele. E ns que sempre o considermos uma, nulidade.
     Mikail Ivanovitch, que desconhecia por completo o momento em que ambos tinham falado de Bonaparte, mas que percebia que se estavam a servir dele para abordar a conversa do costume, lanou um olhar surpreso ao moo prncipe, sem saber o que ia passar-se.
     - Sim,  um grande estratego - disse o prncipe ao filho, apontando-lhe o arquitecto.
     
     E a conversa de novo incidiu sobre a guerra, sobre Bonaparte, os generais e os estadistas do tempo. O facto  que o velho prncipe estava realmente convencido no s de que todos os grandes homens do momento eram crianolas, ignorando, inclusivamente, o b--b da guerra e da poltica, mas tambm, que Bonaparte no passava de um insignificante francs, que triunfara apenas por no haver para se lhe opor um. Potemkine ou um Suvorov. Estava mesmo convencido de que no haveria na Europa dificuldades polticas nem realmente haveria guerra. Estava-se apenas a representar uma comdia de fantoches, em que os homens da poca fingiam desempenhar um papel muito srio.
     O prncipe Andr acolhia com grandes gargalhadas estas trocas, e,  claro, divertia-se a excitar o pai e a ouvi-lo.
     - Tudo o que  de outros tempos lhe parece excelente - disse ele -, mas no  verdade que o prprio Suvorov caiu na armadilha que lhe preparou Moreau e no foi capaz de se ver livre dela?
     - Quem te disse isso? Quem te disse isso? - interrogou o prncipe. - Suvorov! - E afastou de diante de si o prato, que Tikon pressurosamente levantou. - Suvorov!... Pensa um pouco, prncipe Andr. Eram dois homens: Frederico e Suvorov... Moreau!... Mas este Moreau teria ficado prisioneiro se Suvorov tivesse as mos livres, e as suas mos estavam ligadas pelo Hofskriegswurstsehnappsrath. Nem o Diabo teria sido capaz de se ver livre dele. Ora, ainda os hs-de ver, esses Hofskriegsivurstschnappsrath! Se Suvorov no pde levar a melhor, como  que Mikail Kutuzov o conseguir? Sim, meu amigo  prosseguiu -, com os generais que temos nada podemos contra Bonaparte. O que ns precisvamos era de franceses - ladro para roubar outro ladro. L mandaram o alemo Pahiem a Nova Iorque,  Amrica, para apanhar o francs Moreau para o exrcito russo. Lindo servio!... Eram, porventura, alemes os Potemkines, os Suvorovs ou os Orlovs? No, meu rapaz, ou vocs, l para os vossos lados, perderam a cabea, ou ento sou eu quem est a ficar maluco. Deus vos acuda, mas c estamos para ver. E dizem eles que Bonaparte  um grande general! Hum! Hum!...
     - No tenho a pretenso de pensar que todas as medidas tomadas sejam de primeira ordem - replicou o prncipe Andr -, mas no posso compreender que o pai tenha uma tal, opinio acerca, de Bonaparte. Pode rir-se , vontade. O que no lia duvida  que Bonaparte  um grande general!
     - Mikail Ivanovitch! - exclamou o velho prncipe, dirigindo-se ao arquitecto, o qual, todo absorvido a comer o assado, teria preferido que o esquecessem - Eu disse-lhe que Bonaparte era um grande estratego? Aqui est um da, mesma opinio.
     - Mas com certeza. Excelncia - replicou o arquitecto. E o prncipe riu de novo com o seu frio riso.
     - Bonaparte nasceu num sino. Tem soldados. E principiou por se atirar aos Alemes. Desde que o mundo  mundo que toda a gente venceu os Alemes. E eles nunca venceram ningum, a no ser quando se batem uns contra os outros. Foi combatendo contra eles que Napoleo se tomou glorioso.
     E o prncipe ps-se a expor todos os erros que, segundo ele, tinham sido cometidos por Bonaparte em todas as suas campanhas, e at, inclusivamente, nos negcios pblicos O filho no o contrariava, mas era claro que, apesar de toda, aquela argumentao, ele, tal como o velho pai, nunca mudaria de opinio. Andr ouvia, procurando dominar-se, para no fazer qualquer objeco, surpreendido, no entanto, que aquele velho, h tantos anos para ali isolado no meio das suas terras, fosse capaz de julgar e de conhecer, em todos os seus pormenores e com tanta finura, a situao militar e poltica da Europa dos ltimos anos.
     - Julgas que um velho como eu nada percebe dos problemas actuais? - concluiu ele, - Que queres tu ento que eu faa? De noite no durmo. Vamos l a saber onde  que esse teu grande general j demonstrou que o era de facto?
     - Isso levaria tempo - replicou o filho.
     - Que tenhas muita sade mais o teu Bonaparte. Mademoiselle Sourienne, aqui tem mais um admirador do grosseiro do seu imperador! - exclamou ele num francs excelente.
     - Sabe que eu no sou bonapartista, meu prncipe.
     - Sabe Deus quando voltar... - cantarolou o prncipe, na sua voz de falsete, e, foi a rir, num riso igualmente em falsete, que se levantou da mesa.
     A princesinha estivera calada durante toda a discusso e at ao fim do jantar, olhando, alarmada, primeiro a princesa Maria e depois o sogro. Quando se levantaram da mesa, travou do brao da cunhada e levou-a consigo para a sala contgua.
     - Como o seu pai  um homem inteligente! - observou ela. -  por isso, talvez, que me mete medo.
     - Oh,  to bom! - - replicou a cunhada.
     

     
     
     
     Captulo XXVIII
     
     O prncipe Andr devia partir no dia seguinte  tarde. O velho prncipe, sem alterar os seus hbitos, retirou-se depois do jantar. A princesinha estava nos aposentos da cunhada. Andr vestiu uma farda de viagem, sem dragonas, e ps-se a fazer as malas, com o auxilio do criado de quarto, no aposento que lhe fora reservado. Aps haver examinado ele prprio a carruagem em que ia partir e a instalao das bagagens, deu ordem para atrelarem. No quarto apenas conservava os objectos que levaria consigo: um pequeno cofre, um estojo de toilette de viagem, de prata, duas pistolas turcas e um sabre, presente do pai, que este lhe trouxera de Otchakov. Todos estes objectos estavam em perfeito estado: tudo como novo e limpo, cada coisa no seu estojo de pano cautelosamente afivelado.
     No momento em que um homem parte para uma viagem, ou se prepara para mudar de vida so muitos os pensamentos que o assaltam, desde que seja pessoa capaz de reflexo. Todo o passado lhe ocorre e faz projectos sobre o futuro. Andr parecia preocupado e comovido. Com as mos atrs das costas, ia e vinha, em passo rpido, de um extremo ao outro do quarto, o olhar fixo e abanando a cabea. Quer sentisse medo de partir para a guerra, quer sofresse por ter de deixar a mulher, e talvez as duas coisas o preocupassem, era natural que no quisesse que o vissem naquele estado, pois, ao ouvir passos no vestbulo, mudou rapidamente de atitude, deteve-se diante da mesa, como para afivelar a cobertura da mala, e de novo no seu rosto transpareceu a expresso sria e impenetrvel de sempre. Eram os pesados passos da princesa Maria.
     - Disseram-me que tinhas mandado atrelar - articulou ela, arquejante (via-se que viera a correr). - E eu que tanto queria conversar contigo a ss. S Deus sabe quanto tempo vamos estar separados! No ests zangado por eu ter vindo? , que mudaste tanto. Andriucha - acrescentou, como para justificar a sua pergunta.
     A princesa Maria sorriu ao trat-lo por Andrucha. Via-se que achava estranho aquele belo homem de aspecto severo ser o mesmo Andriucha, esse garoto magricela e travesso seu companheiro de infncia.
     - E a Lisa onde est? - perguntou ele, que apenas lhe respondera com um sorriso.
     - Estava to cansada que adormeceu no meu quarto num div. Ah! Andr! Que tesouro que  a sua mulher! - exclamou sentando-se num canap, diante do irmo. -  uma verdadeira criana, to gentil, to alegre! Gosto tanto dela.
     O prncipe Andr irada disse, mas a irm viu a expresso irnica e um pouco desdenhosa que lhe invadiu o rosto. 
     - Temos de ser indulgentes para com as suas pequenas loucuras. Quem as no tm? Andr, no te esqueas de que foi criada e educada na sociedade. E a verdade  que a sua situao est longe de ser cor-de-rosa. Ternos de nos colocar na posio dos outros. Tudo compreender  tudo perdoar. Pensa na sorte que a espera, coitadinha. Depois da vida que tem feito, ficar para aqui, no campo, separada do marido, e sozinha, sobretudo no estado em que est.  penoso!
     Andr sorria, olhando para a irm, como costumamos sorrir ao ouvir algum em que julgamos ler como num livro aberto.
     - Mas tu tambm vives no campo e no achas que a vida aqui seja assim uma coisa to terrvel! - observou ele.
     - Comigo  outra coisa. Para que havemos de falar de mim? No quero outra vida, e no posso desejar vida diferente, porque no conheo seno esta. Mas pensa. Andr, o que representa para uma senhora de sociedade enterrar-se numa aldeia, nos melhores anos da sua vida, e s, pois o pai est sempre ocupado, e eu.., tu bem sabes como eu sou pobre de recursos aos olhos de uma mulher habituada  melhor sociedade. S Mademoiselle Bourienne...
     - No posso com a vossa Bourienne - replicou Andr.
     - No digas isso!  uma rapariga gentil e boa, e ainda por cima to infeliz! J no tem ningum no mundo, absolutamente ningum. Para dizer a verdade, no s j me no  precisa, como at me incomoda. Tu bem sabes que fui sempre um pouco selvagem, e agora ainda mais. Aprecio estar s... O meu pai gosta muito dela. Tanto ela como o Mikail Ivanovitch so as duas pessoas para quem ele tem sido sempre amvel e bom.  para eles um verdadeiro benfeitor. Como diz Sterne, ns gostamos das pessoas menos pelo bem que elas nos fizeram que pelo bem que lhe fizemos a elas. O meu pai tomou conta desta, rapariga, rf sem casa. Tem muito bom corao. E o meu pai adora a maneira como ela l.  ela quem lhe faz a leitura em voz alta, todas as tardes. L muito bem.
     - Confessa. Maria, tu deves passar o teu mau bocado, penso eu, por causa do feitio do pai - disse, de sbito. Andr.
     Maria principiou por mostrar-se surpreendida e depois sentiu-se assustada com a pergunta.
     - Eu? Eu? Passar um mau bocado - tartamudeou.
     - Ele foi sempre irascvel, mas agora ainda se tomou mais difcil, creio eu - e exprimia-se to  vontade sobre o carcter do pai que s podia ter um fim: irrit-la ou experiment-la.
     - Tu s muito bom. Andr, mas tens um certo orgulho - observou a princesa, seguindo antes o curso dos seus pensamentos que propriamente o fio da conversa - e isso  um grande pecado. Achas que se pode permitir a um filho julgar o seu pai? E, mesmo que se admita uma coisa dessas, achas que um homem como o meu pai possa inspirar outros sentimentos que no sejam de venerao? Sinto-me to satisfeita e feliz ao p dele! S queria uma coisa: que todos vocs fossem to felizes como eu.
     O prncipe Andr abanou a cabea come, quem no est muito convencido.
     - A nica coisa que me  penosa, vou dizer-te a verdade. Andr,  a opinio de meu pai em assuntos religiosos. No compreendo que um homem to inteligente, no veja o que  claro como a luz do dia e se desoriente at ao ponto a que chegou. S isto me faz infeliz. Mas nos ltimos tempos verifiquei que est um pouco melhor. Ultimamente as suas troas so menos acerbas e at consentiu em receber um, frade e esteve muito tempo a conversar com ele.
     - Pois bem, minha querida, receio que tu e o teu frade estejam a perder o vosso latim - observou Andr em tom trocista, mas amvel.
     - Ah!, meu amigo. No fao outra coisa seno pedir a Deus, e espero que Ele me oua. Andr - acrescentou ela, timidamente, depois de uma breve pausa -, tenho de te fazer um grande pedido.
     - De que  que se trata, minha amiga?
     - Promete-me, antes de mais nada, que me no recusars o que te vou pedir. No  nada que te custe a fazer e nem  coisa indigna de ti. Promete-me. Andriucha - suplicou ela, metendo a mo na bolsinha de trabalho e apalpando fosse o que fosse sem tirar a mo, como se tivesse entre os dedos precisamente o objecto em questo, objecto que ela no podia mostrar seno depois de ter obtido a promessa que pedira.
     Olhava para o irmo timidamente e com olhos suplicantes.
     - Ainda mesmo que isso me custasse muito?... - replicou o prncipe Andr, que parecia desconfiar do que se tratava.
     - Podes pensar o que quiseres. Sim, eu bem sei, tu s como o meu pai. Podes pensar o que quiseres, mas faz isso por mim. Peo-te. O pai do meu pai, o nosso av, trouxe-a consigo em todas as campanhas... - E continuava sem tirar da bolsinha o objecto que tinha entre os dedos.- Ento, prometes?
     - Claro! De que se trata?
     - Andr, que esta imagem te proteja. Promete-me que no a deixars mais. Prometes?
     - Se ela no pesar muito e me no derrancar o pescoo... J que isso te d prazer... - disse ele, e, verificando, ao mesmo tempo, que a sua atitude causava uma penosa impresso na irm, mudou de tom. - Com muito prazer, podes crer, com muito prazer, minha amiga - acrescentou.
     - Mesmo contra tua vontade. Ele salvar-te-, conceder-te- a Sua graa e chamar-te- para Si, pois  verdade e consolao - murmurou, numa voz trmula, erguendo nas duas mos, diante do irmo, num gesto solene, uma antiga imagem oval do Salvador, com o rosto negro, numa moldura de prata suspensa de uma cadeia de filigrana do mesmo metal.
     A princesa Maria benzeu-se, beijou a imagem e entregou-a ao irmo.
     - Aceita-a. Andr, aceita-a por mim...
     Os seus grandes olhos esplendiam de bondade e de doura. Iluminavam-lhe o rosto magro e doentio, embelezando-o. O irmo quis pegar na imagem, mas ela deteve-o. Andr compreendeu, benzeu-se tambm e beijou-a. Havia nele uma expresso ao mesmo tempo enternecida - estava comovido - e trocista.
     - Obrigada, meu amigo.
     Beijou-o na testa e voltou a sentar-se no div. Ficaram calados.
     - Sim. Andr, j te disse, s bom e generoso como sempre foste. No julgues Lisa com tanta severidade. Ela  gentil e boa e est neste momento numa bem triste situao.
     - Creio nada te ter dito. Macha, que possa ser interpretado como uma censura a minha mulher ou mostrar-te que esteja descontente com ela. Porque  que me ests sempre a dizer a mesma coisa?
     A princesa Maria corou, calando-se, como se se sentisse culpada.
     - Por mim, no te disse nada, mas outras pessoas, sem dvida, j te falaram no caso. E isso -me penoso.
     Manchas vermelhas cobriram a testa e as faces de Maria. Quis dizer qualquer coisa, mas no pde articular palavra. O irmo adivinhara. A princesinha, depois do jantar, chorara e dissera que receava um parto difcil, que estava cheia de medo e lamentara-se da sua sorte, do sogro, do marido. Depois de chorar, adormecera. O prncipe Andr teve pena da irm.
     - Podes ter a certeza. Macha, no a censurei, nunca a censurei por qualquer coisa e nunca censurei a minha mulher em coisa alguma. E eu prprio nada tenho a censurar-me no meu comportamento para com ela. E sempre assim ser, seja qual for a situao em que venha a encontrar-me. Mas queres saber a verdade.., queres saber se eu sou feliz, se ela  feliz? Pois bem, no, no sou, no somos. Porqu? No sei...
     Ao dizer estas palavras, levantou-se, aproximou-se da irm e, inclinando-se para ela, beijou-a na testa. Os seus belos olhos incendiaram-se, e neles brilhou um invulgar lampejo de lucidez e bondade. No era na irm que o seu olhar se fixava, mas nas trevas, para alm da porta aberta por detrs dela.
     - Vamos ter com ela.  preciso dizer-lhe adeus. Ou, antes, vai tu sozinha, acorda-a, eu j l vou ter. Petruchka! - gritou ele, chamando o criado de quarto. - Anda c, leva ests coisas. Pe isto ao p do assento, aquilo  direita.
     A princesa Maria levantou-se e encaminhou-se para a porta. A deteve-se.
     - Andr, se fosses crente, ter-te-ias dirigido a Deus a pedir-lhe que te desse o amor que tu no sentes, e a tua orao seria ouvida.
     - Sim,  possvel - volveu Andr. - Vai. Macha, vou j ter convosco.
     Quando se dirigia aos aposentos da irm, na galeria, que estabelecia a comunicao entre os dois corpos da casa, o prncipe encontrou Mademoiselle Bourienne, que lhe sorriu graciosamente. Era a terceira vez naquele dia que ele encontrava no seu caminho, e nos lugares mais solitrios, o seu sorriso simples e entusiasta.
     - Ah! Julgava-o nos seus aposentos! - exclamou ela, corando um pouco e baixando os olhos.
     O prncipe lanou-lhe um olhar severo; tomara repentinamente uma expresso irritada. No lhe respondeu, e, sem a fixar nos olhos, dirigiu-lhe um olhar to desdenhoso que a francesa ficou toda corada, retirando-se sem dizer mais nada. Quando o prncipe entrou nos aposentos da irm, sua mulher j estava acordada e atravs da porta aberta ouvia-se a sua vozita alegre, que desfiava com volubilidade o rosrio das palavras. Dir-se-ia que procurava recuperar o tempo perdido depois de uma longa absteno.
     - No, mas imagine a velha condessa Zuboff, com postios no cabelo e a boca cheia de dentes postios, como se quisesse desafiar os anos... Ah!, ah!, ah!. Maria!
     Era a quinta vez que Andr ouvia a mulher diante de estranhos pronunciar esta mesma frase sobre a condessa Zuboff, acompanhada do mesmo riso. Entrou sem fazer rudo. A mulher, redondinha e rosada, o trabalhinho na mo, estava sentada numa poltrona e falava ininterruptamente, contando coisas de Petersburgo e repetindo, inclusivamente, verdadeiras frases feitas. Andr aproximou-se dela, acariciou-lhe os cabelos e perguntou-lhe se se sentia refeita da viagem. Ela respondeu-lhe e continuou a tagarelar.
     Uma carruagem tirada por seis cavalos estava diante da escada. L fora era noite, uma noite sombria de Outono. O cocheiro nem sequer podia ver os varais do carro. Na escada agitavam-se pessoas com lanternas na mo. A imensa casa tinha todas as suas grandes janelas iluminadas. No vestbulo juntavam-se, acotovelando-se, os criados servos, que todos queriam dizer adeus ao jovem prncipe. Na grande sala estava reunida toda a gente da casa: Mikail Ivanovitch. Mademoiselle Bourienne, a princesa Maria e a jovem esposa de Andr. Este ltimo tinha sido chamado ao gabinete do pai, que queria despedir-se dele a ss. Todos os estavam aguardando.
     Quando Andr - penetrou no gabinete do pai, o velho prncipe, de culos e roupo branco, traio com que no recebia ningum, a no ser o filho, estava sentado a sua mesa e escrevia. Voltou-se.
     - Vais-te embora? - interrogou ele, continuando a escrever. - Vim dizer-lhe adeus.
     - D c um beijo, aqui. - Indicava-lhe o local. - Obrigado, obrigado.
     - Porque  que me est a agradecer?
     - Porque tu no s homem para fazer amanh o que podes fazer hoje... No te agarras s saias das mulheres. A tropa antes de tudo. Obrigado! Obrigado! - Continuava a escrever e a pena ia-lhe salpicando o papel. - Se tens seja o que for para me dizeres, fala. Posso fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
     - Queria falar-lhe de minha mulher... Estou bastante apoquentado por ter de a deixar entregue a si,
     - Que ests tu para a a dizer? Vamos, de que precisas?
     - Quando chegar a hora do parto, peo-lhe que mande vir de Moscovo um mdico-parteiro... Para que ele esteja presente nesse momento.
     O velho prncipe pousou a pena, e, como se no compreendesse, fitou no filho um olhar severo.
     - Bem sei que nada se pode fazer quando a natureza no obra por si mesma - disse Andr, visivelmente perturbado. - Reconheo que num milho de casos deste gnero s um, talvez, no corre bem, mas ela tem l essa mania, e eu tambm. Temos de acreditar que a embruxaram. Teve sonhos e tem medo.
     - Hum! Hum!... - tartamudeou o velho, continuando a escrever. - Est bem, farei o que me pedes.
     Firmou, com uma larga assinatura, a carta que escrevera e depois voltou-se bruscamente para o filho. Ps-se a rir.
     - Espetaste-te, hem?!
     - Que diz, meu pai?
     - A tua mulher - respondeu ele, conciso e sem subterfgios.
     - No compreendo - replicou o filho.
     - E nada a fazer, meu velho. So todas a mesma coisa: no nos podemos descasar. No tenhas receio; no direi nada a ningum; mas tu sabes com o que podes contar.
     Agarrou o filho com a mo ossuda e delgada, abanou-o, olhando-o, fixamente, com as suas pupilas vivas, como se o quisesse atravessar de lado a lado. Depois, de novo soltou uma gargalhada fria.
     O filho teve um suspiro, e com isso confessava que o pai tinha adivinhado, o velho continuou a dobrar e a lacrar a carta, manejando o lacre, o sinete e o papel com a sua agilidade habitual.
     - Nada a fazer!  uma bela mulher! Farei tudo o que for preciso, est descansado - disse ele, continuando a sua tarefa.
     Andr calou-se. Estava ao mesmo tempo contente e descontente de que o pai o tivesse compreendido. O velho ergueu-se e entregou a carta ao filho.
     - Ouve - disse-lhe ele. - No te preocupes com a tua mulher. O que se puder fazer, far-se-. E agora ouve. Aqui tens uma carta para Mikail Ilarionovitch. Peo-lhe aqui que te mande para onde for necessrio e no te conserve muito tempo no estado-maior:  um lugar detestvel. Diz-lhe que me lembro sempre dele e da nossa velha amizade. Depois manda-me dizer como  que ele te recebeu. Agora anda c.
     Falava com tanta volubilidade que no acabava, sequer, a maior parte das palavras, mas o filho estava muito habituado a, ouvi-lo. Conduziu-o at junto de uma papeleira, abriu-a, puxou uma gaveta e tirou de l um caderno verde coberto pelos caracteres da sua caligrafia alongada, cerrada e gil.
     - Naturalmente, eu morrerei antes de ti. Quero que saibas que esto aqui os meus apontamentos.  necessrio transmiti-los ao imperador depois da minha morte. Aqui est um papel de crdito e uma carta:  um prmio para aquele que escrever a histria das campanhas de Suvorov. Manda isto para a Academia. Aqui est o meu dirio. L-o depois de eu me ir embora, tens que aprender.
     Andr no disse ao pai que ainda teria certamente muitos anos para viver. Compreendia que o momento no era para dizer coisas dessas.
     - Tudo farei, meu pai - disse ele.
     - E agora adeus! - Deu-lhe a mo a beijar, e apertou-o nos braos.- Lembra-te de uma coisa, prncipe Andr: se fores morto, eu, velho, como sou, sentirei uma grande dor... - Calou-se bruscamente e continuou em seguida numa voz firme e sonora: - Mas se eu vier a saber que tu no te portas como filho, que s, de Nicolau Bolkonski, isso para mim ser.., uma vergonha! - rematou.
     - A est uma coisa que meu pai podia ter evitado dizer-me - observou o filho sorrindo.
     O velho ficou calado.
     - H ainda outra coisa que lhe queria pedir - prosseguiu Andr. - Se eu for morto e se me nascer um filho, no o afaste de sua casa, e, como ontem lhe disse, deixe-o crescer a seu lado. Peo-lhe, pai.
     - No ser necessrio entreg-lo a tua mulher? - disse o velho, soltando uma gargalhada.
     Estavam calados em frente um do outro. O pai olhava o filho bem nos olhos e o queixo tremia-lhe, num movimento nervoso.
     - A despedida acabou.., vai! - disse repentinamente  Vai - repetiu, numa voz forte e colrica, abrindo a porta.
     - Que foi? O que aconteceu? - perguntaram as duas princesas, ao verem Andr e a furtiva silhueta do velho, de roupo branco, sem cabeleira, de culos, com fulguraes de voz irritada. Andr limitou-se a suspirar, sem responder.
     - Bom - disse ele, dirigindo-se  mulher.
     Ps nesta simples palavra um acento trocista, que parecia dizer: Chegou agora o momento de tu fazeres as tuas choraminguices.
     - J. Andr?! - exclamou a princesinha empalidecendo e olhando-o com terror.
     Andr tomou-a nos braos. A princesa soltou um grito e caiu-lhe desmaiada no ombro.
     O prncipe Andr, com todo o cuidado, afastou-a, examinou o estado da mulher e f-la assentar, docemente, numa poltrona.
     - Adeus. Maria - disse para a irm em voz baixa; beijou-a, pegando-lhe nas mos, e afastou-se em passos rpidos.
     A jovem princesa continuava estendida na poltrona; Mademoiselle Bourienne aspergia-lhe a cara. A princesa Maria, enquanto amparava a cunhada, com os seus lindos olhos rasos de lgrimas no deixava de olhar a porta por onde o prncipe Andr desapareceu, traando sobre ele o sinal da cruz. Do gabinete vinham, como se fossem tiros de pistola, as exploses furiosas, e muito repetidas, do velho, que se assoava estrepitosamente. Mal Andr saiu, abriu-se a porta do gabinete e apareceu uma figura severa de roupo branco.
     - Foi-se embora? Bom, est bem! - disse o velho, lanando um olhar irritado  princesinha, ainda estendida, desmaiada. Depois abanou a cabea, furioso, e bateu com a porta.






SEGUNDA PARTE
     

     
     
     
     Captulo I
     
     Em Outubro de 18O5 os exrcitos russos ocupavam um certo nmero de cidades e de aldeias do arquiducado da ustria, onde estavam chegando constantemente regimentos frescos, vindos da Rssia, grande encargo para a populao, indo concentrar-se ao p da fortaleza de Braunau. Braunau era o quartel-general do comandante-chefe. Kutuzov. A 11 de Outubro de 1805, um dos regimentos de infantaria acabado de chegar estacionava a cerca de meia milha da cidade, aguardando a visita do comandante-chefe. Embora as localidades e a paisagem nada tivessem de russo - eram pomares, muros de pedra, telhados, montanhas ao longe -, e no obstante o carcter estrangeiro da populao, que olhava os soldados cheia de curiosidade, o regimento tinha exactamente o aspecto de qualquer outro regimento russo que se estivesse preparando para uma revista fosse onde fosse em plena Rssia.
     Na vspera  noite, na ltima etapa, o regimento recebera a comunicao de que o general-chefe viria inspeccion-lo. Embora as prprias palavras da ordem do dia tivessem parecido pouco claras ao comandante do regimento e delas se no pudesse inferir que as tropas deveriam envergar fardamento de campanha, foi resolvido, em conselho dos comandantes de batalho, apresentar o regimento de grande uniforme, partindo do princpio de que mais vale tudo do que nada. E foi assim que os soldados, depois de uma marcha de trinta verstas, passaram a noite em claro, arranjando-se e polindo-se, enquanto os oficiais comandantes de companhia contavam os do estado-maior e homens e os repartiam. Pela manh o regimento deixara de ser uma massa desordenada e em tropel, como na vspera, durante a ltima etapa, para se transformar numa massa compacta de dois mil homens em que todos sabiam o lugar que lhes competia e o que tinham a fazer e em que cada boto, cada correia, estava onde devia estar, luzindo de asseio. Nem s no exterior reinava a ordem; se o general comandante se lembrasse de espreitar por debaixo das fardas, poderia verificar que cada soldado vestia camisa lavada, e em cada uma das mochilas havia os objectos da ordem - savo e sovela, como diziam os soldados. Apenas um pormenor causava uma certa preocupao. Era o calado. Mais de metade do regimento tinha as botas rotas. A culpa, no entanto, no era do comandante, pois, apesar das constantes reclamaes, a intendncia austraca nada fornecera do que se pedira e o regimento j caminhara mil verstas.
     O general comandante era um militar j idoso, de pele sangunea, sobrancelhas e suas grisalhas, de slida estatura, largo de peito e de ombros. Envergava um uniforme novo, todo flamante, bem vincado, com grandes dragonas douradas, que em vez de lhe esmagarem os ombros macios lhos soerguiam. Dava a impresso de algum contentssimo de desempenhar um dos actos mais solenes da sua vida. Passeava de c para l diante dos cordes de tropa, um pouco trpego no andar e as costas algo vergadas. Via-se bem que admirava o seu regimento, que estava orgulhoso dele e que lhe dera a prpria alma. Apesar disso, o seu andar hesitante parecia querer dizer que alm dos interesses militares o preocupavam ideias puramente mundanas, e, que no era estranho o belo sexo.
     - Bom. Mikafia Mitritch - disse ele para um dos comandantes de batalho. Este oficial deu um passo em frente sorrindo; via-se bem que ambos estavam de muito boa disposio. - No tivemos mos a medir esta noite. Sim, senhor, de qualquer maneira o regimento no  dos piores.., hem!
     O comandante de batalho percebeu o gracejo e ps-se a rir. 
     - At no campo de manobras do czar faria figura.
     - Hem?! - exclamou o comandante.
     Nesta altura, na estrada que vinha da cidade, onde haviam colocado sentinelas, apareceram dois cavaleiros: um ajudante-de-campo seguido de um cossaco.
     Era o estado-maior que o enviava para esclarecer o general sobre o ponto pouco claro da ordem do dia, a saber, que o general-chefe desejava encontrar o regimento exactamente no mesmo estado em que ele se apresentava durante as marchas, de capote, as armas nas gualdrapas, sem preparativos de qualquer espcie. Kutuzov recebera na vspera um membro do Conselho Superior de Guerra, chegado de Viena, que vinha propor-lhe e pedir-lhe que operasse o mais depressa possvel a sua juno com os exrcitos do arquiduque Fernando e de Mack, e Kutuzov, que considerava esta juno desvantajosa, entre outros argumentos favorveis ao seu ponto de vista tinha a inteno de mostrar ao general austraco o estado lamentvel do exrcito que chegava da Rssia. Era por isso que ele desejava passar revista ao regimento, e, deste modo, quanto mais deplorvel o estado dos homens maior a sua satisfao. Conquanto o ajudante-de-campo no fosse conhecedor de todos estes pormenores, transmitiu ao comandante do regimento o desejo expresso do general-chefe no sentido de encontrar os homens de capote e gualdrapas e acrescentou que, no caso contrrio, seria grande o seu descontentamento. Ao ouvir estas palavras, o comandante baixou a cabea, encolheu os ombros, e deixou cair os braos, num gesto de lassido.
     - Fizemo-la bonita! - exclamou. - Era o que eu lhe dizia. Mikalia Mitritch. Estamos em campanha, quer dizer de capotes s costas. Ah, meu Deus!. - acrescentou, avanando com um ar decidido. - Senhores comandantes de companhia! - gritou, na sua voz de comando. - Sargentos!... Sua Excelncia demora-se? - prosseguiu, dirigindo-se ao ajudante-de-campo com um acento de respeitosa deferncia para com a, pessoa a quem aludia.
     - Dentro de uma hora, segundo creio.
     - Teremos tempo de mudar de fardas? 
     - No sei, meu general...
     O comandante do regimento, avanando ele prprio pelo meio das fileiras, tratou de mandar envergar os capotes. Os comandantes de companhia comearam a correr, os sargentos mexiam-se. Os capotes no estavam em muito bom estado. Instantaneamente, as fileiras, at ento silenciosas e em ordem, principiaram a ondular, a debandar; ouviu-se um burburinho de vozes. Por toda a parte havia soldados que iam e vinham, atarefados, movimentos de ombros que sacudiam as mochilas, sacos que se punham  cabea, capotes que se extraam dos sacos ou braos que se levantavam para enfiar as mangas.
     Meia hora depois tudo voltara ao estado primitivo, e de tal maneira que as fileiras negras estavam cinzentas. O comandante, no seu trpego andar, apresentou-se diante do regimento e, a distncia, percorreu-o com os olhos.
     - Que vem a ser isto ainda? Que significa isto? - gritou ele, detendo-se. - Comandante da 3 companhia!...
     - Ao general o comandante da 3 companhia! Ao general o comandante da 3 companhia! - ouviu-se repetir nas fileiras, e um ajudante-de-campo deslocou-se para procurar o oficial, que tardava em aparecer.
     Quando as vozes prestveis gritando que o general perguntava pela 3 chegaram, a pouco e pouco, ao seu destino, o oficial procurado saiu das fileiras, e, embora fosse j de certa idade e pouco habituado a correr, tomou a marcha acelerada, desajeitadamente, na ponta dos ps, em direco ao general.
     Os traos do capito exprimiam o desassossego do estudante a quem o professor pergunta uma lio que ele no estudou. O nariz vermelhusco, natural consequncia de certa intemperana, cobrira-se-lhe de manchas e a boca tremia-lhe. O comandante do regimento olhava-o dos ps  cabea enquanto ele, meio sufocado, se aproximava, encurtando o passo, pouco a pouco.
     - No tarda que mande os seus homens vestir sarafanas! Que quer isto dizer? - gritou o comandante, com o queixo saliente, apontando para as fileiras da 3 companhia, onde se via um soldado com um capote que no era da cor da ordem, o qual se salientava no meio de todos os outros. - E voc, onde  que voc estava? Estamos  espera do general-chefe e voc abandona o seu posto? Hem?... Eu vou-lhe ensinar a vestir os seus soldados para se apresentarem  revista!... Hem!...
     O comandante da companhia, sem tirar os olhos do general, apertava cada vez mais os dois dedos contra a pala do qupi, como se s aquele gesto o pudesse salvar.
     - Ento, o que tem a dizer? Quem  que na sua companhia anda mascarado de hngaro? - prosseguiu o comandante do regimento, em tom ao mesmo tempo severo e gracioso.
     - Excelncia...
     - O qu. Excelncia? Excelncia! Excelncia! Que quer isso dizer? Excelncia. Ningum sabe o que isso vem a ser. 
     - Excelncia,  o Dolokov, que foi degradado... - volveu o oficial, em voz muito baixa.
     - E ento, foi degradado em marechal ou em soldado? Se  soldado deve vestir-se como toda a gente, de acordo com o regulamento.
     - Excelncia! Foi Vossa Excelncia quem o autorizou para a marcha...
     - Autorizei-o? Autorizei-o? Ora a est, so todos assim, vocs, os rapazes! - exclamou o comandante do regimento, serenando um pouco. - Eu autorizei-o? Dizem-vos uma coisa, e vocs, imediatamente... - Calou-se. - Dizem-vos uma coisa e vocs... - E ento? - concluiu, de novo furioso. - Queira mandar vestir os seus homens convenientemente.
     E o comandante do regimento, depois de lanar um olhar ao ajudante-de-campo, prosseguiu na sua inspeco, caminhando sempre vacilante. Via-se bem que at o prprio furor lhe era agradvel e que, percorrendo as fileiras, procurava ainda qualquer outro pretexto para se encolerizar. Tendo passado uma descompostura a um oficial por causa de uma gorjeira mal polida e a outro por virtude de um mau alinhamento, avanou para a 3 companhia.
     - Isto  que  posio? Onde tens o teu p? Onde tens o teu p? - gritou, em voz furibunda, ainda o separavam cinco homens de Dolokov, vestido com um capote azulado.
     Dolokov rectificou imediatamente a posio da sua perna, na fileira, e fixou o general com os seus olhos brilhantes e escarninhos.
     - Porque  que tu ests com um capote azul? Tira isso... Sargento! Dispam-no!... Cana... - No teve tempo de acabar.
     - General! Eu devo executar as ordens que me do, mas no suportar... - disse precipitadamente Dolokov.
     - No se fala na forma!... No se fala, no se fala!... 
     - No sou obrigado a tolerar injrias - concluiu Dolokov, em voz alta e inteligvel.
     Os olhos do general e os do soldado encontraram-se. O general no respondeu, contentando-se em repuxar, colrico, a bandoleira muito esticada.
     - Mude de capote, se faz favor - disse ele, afastando-se.
     

     
     
     
     Captulo II
     
     - A vem! - gritou nesta altura a sentinela.
     O comandante do regimento, corando, correu para o seu cavalo; trmulo, pousou o p no estribo, montou, desembainhou a espada, e, com ar radioso e decidido, abrindo a boca de lado, preparou-se para dar as vozes de comando. O regimento sacudiu-se, como um pssaro que espaneja as asas, e ficou imvel.
     - Sentido!...- gritou, numa voz vibrante, onde havia para ele, general, satisfao, para o regimento severidade e para o comandante que chegava deferncia.
     Uma caleche vienense, alta e azul, tirada por seis cavalos, vinha avanando, com um ligeiro rudo de ferragens, num trote rpido, ao longo da larga estrada desempedrada, que dois renques de rvores ladeavam. Atrs da caleche galopavam os oficiais s ordens e uma escolta croata. Sentado ao lado de Kutuzov vinha um general austraco, de uniforme branco, que contrastava no meio dos uniformes negros dos oficiais russos. A caleche parou em frente das fileiras do regimento. Kutuzov e o companheiro conversavam em voz baixa, e aquele teve um vago sorriso no momento em que, no seu andar pesado, punha os ps no estribo do carro, dando a impresso de no perceber estarem ali dois mil homens que, de respirao suspensa, fitavam nele os olhos, nele e no comandante do regimento,
     Uma voz de comando ressoou, o regimento ondulou de novo e apresentou armas. No meio de um silncio de morte, ouvia-se a voz dbil do general-chefe. O regimento soltou um urro: Sade para Sua Ex.., celncia.., lncia.., lncia.,. E de novo tudo ficou silencioso. Kutuzov, de princpio, deixou-se estar parado enquanto o regimento desfilava; depois, ao lado do general de farda branca, a p e seguido da comitiva, percorreu de um lado para o outro as fileiras dos soldados.
     Pela maneira como o general comandante do regimento saudava com a sua espada o general-chefe, comendo-o com os olhos, sempre hirto e correcto, e pela forma como ele, inclinando-se para diante, seguia o general na sua marcha atravs das fileiras de soldados, s com dificuldade dominando o andar claudicante, e ainda pelo modo como se aproximava, a galope,  mnima palavra ou ao mnimo gesto do seu superior, era evidente estar cumprindo as suas obrigaes de subordinado com mais satisfao ainda do que cumpria as suas obrigaes de comandante. O regimento, graas  severidade e ao zelo do seu general comandante, apresentava-se em muito melhor estado do que os demais regimentos chegados na mesma altura a Braunau. Ao todo havia apenas, entre doentes e retardatrios, duzentos e dezassete homens. E tudo estava em perfeito estado, salvo as botas dos soldados.
     Kutuzov percorreu as fileiras, detendo-se, de tempos a tempos, para dirigir algumas palavras amveis aos oficiais seus conhecidos da guerra da Turquia, e, por vezes, dirigia-se tambm aos soldados. Ao inspeccionar as botas, encolheu os ombros por mais de uma vez, apontando-as ao general austraco, como a dizer que, se a ningum podia censurar, nem por isso devia deixar de verificar o mau estado em que se encontrava o calado do regimento. O comandante a todo o momento se precipitava para a frente, com receio de perder qualquer palavra do que se dizia a respeito do seu regimento. Na retaguarda de Kutuzov, a uma distncia que permitia ouvir todas as palavras pronunciadas em voz baixa, seguia a comitiva, composta de vinte pessoas, que, falavam umas com as outras e por vezes at se riam. O militar que seguia na primeira fila atrs do general-chefe era um garboso ajudante-de-campo: nem mais nem menos que o prncipe Bolkonski. A seu lado marchava Nesvitski, oficial superior de alta estatura e muito gordo, de belo rosto sorridente e bom, com os olhos sempre hmidos. Nesvitski no podia deixar de se rir dos modos de um oficial de hssares morenao que marchava ao seu lado. Este, impassvel, de ar imperturbvel, fitava, muito srio, as costas do comandante do regimento, copiando cada um dos seus movimentos. De cada vez que este vacilava em cima das pernas ou dobrava a espinha, ele imitava-lhe tal qual o gesto e a curvatura. Nesvitski ria e acotovelava os outros, chamando-lhes a ateno para a pantomima.
     Kutuzov passava lenta e pesadamente por diante daqueles milhares de olhos como que desorbitados no esforo de o no perderem de vista. Ao chegar por alturas da 3.a companhia, o general-chefe parou bruscamente. A comitiva, que no contava com aquela paragem, no pde evitar de colidir com ele.
     - Eh. Timokine! - exclamou ele, reconhecendo o comandante do nariz vermelhusco que fora repreendido por causa do capote azul.
     Teria parecido impossvel que algum pudesse tomar uma posio mais hirta que aquela que Timokine assumira quando das observaes que lhe fizera o comandante do regimento, mas a verdade , que no momento em que o general-chefe o interpelou tal era a sua rigidez na posio de sentido que, se a cena se prolongasse, lhe teria sido impossvel conservar essa atitude. Por isso mesmo. Kutuzov, compreendendo a sua posio, e porque lhe no queria seno bem, seguiu adiante com um sorriso imperceptvel na sua face inchada e desfigurada pela cicatriz de uma velha ferida.
     - Mais um camarada de Ismail (Episdio militar russo, muito clebre, de 1790. (N, dos T.) - disse ele - Um valente militar! Ests contente com ele? - perguntou ao comandante do regimento.
     O comandante do regimento, sem saber que a sua imagem se estava a reflectir no espelho do oficial de hssares que seguia atrs dele, deu um passo em frente, estremeceu e disse:
     - Contentssimo. Alta Excelncia!
     - Todos ns temos as nossas fraquezas - observou Kutuzov, sorrindo, e afastando-se. - Aquele tinha a sua predileco por Baco.
     O comandante do regimento teve receio de ser censurado por isso e no respondeu. O oficial de hssares neste momento reparou na cara do capito do nariz vermelhusco e na rigidez com que ele apresentava o ventre na posio de sentido e imitou-o com tal flagrncia que Nesvitski no pde conter o riso. Kutuzov voltou-se. Era evidente que o oficial de hssares tinha uma mobilidade de expresso extraordinria. No mesmo instante em que Kutuzov voltava a cabea, mimava ele uma mscara apropriada  circunstncia e assumia imediatamente o ar mais srio, mais respeitoso e mais inocente deste mundo.
     A 3 companhia era a ltima e Kutuzov ficara pensativo, como que a procurar lembrar-se fosse do que fosse. O prncipe Andr, saindo da comitiva do general, aproximou-se dele e disse-lhe em francs, em voz baixa:
     - Permito-me dizer-lhe que me pediu lhe lembrasse o degradado Dolokov, deste regimento.
     - Onde que est o Dolokov? - perguntou Kutuzov. Dolokov, que tinha enverga4do um capote cinzento de soldado, no esperou que o chamassem. A silhueta bem desenhada de um soldado louro e de olhos azuis saiu das fileiras. Aproximou-se do general-chefe e apresentou armas.
     - Alguma queixa? - perguntou Kutuzov, franzindo um pouco as sobrancelhas.
     -  o Dolokov - esclareceu o prncipe Andr.
     - Ah! - exclamou Kutuzov. - Espero que a lio te sirva de emenda. Cumpre o teu dever de soldado. O imperador  clemente. E eu no te esquecerei, se o mereceres.
     Os brilhantes olhos azuis fixaram-se no general-chefe com a mesma arrogncia com que se tinham pousado no comandante do regimento, como se Dolokov quisesse desse modo rasgar o vu de convenes que tanto distanciava um general-chefe de um simples soldado.
     - O nico favor que peo. Mui Alta Excelncia - disse ele, na sua voz lenta, sonora e firme -  que me seja permitido apagar a minha falta e mostrar a minha dedicao ao imperador e  Rssia.
     Kutuzov fez meia volta. Houve nos seus olhos um sorriso no gnero daquele que por eles perpassara depois da sua entrevista com o capito Timokine. Franziu as sobrancelhas, como se com isso quisesse significar que tudo quanto Dolokov lhe tinha dito, que tudo quanto ele prprio lhe poderia ter respondido era coisa desde h muito, muito tempo, conhecida, que tudo isso o enfadava grandemente e que no era nada disso que seria preciso dizer. Voltou costas e encaminhou-se para a caleche.
     O regimento formou por companhias e dirigiu-se para os acantonamentos, no distantes de Braunau, onde devia reabastecer-se de botas e de fardamentos e descansar depois de to duras jornadas.
     - No tem razo de queixa de mim. Prokor Ignatich? - interrogou o comandante do regimento no momento em que se avizinhou da 3 companhia, que partia para o seu destino, e ao aproximar-se do capito Timokine, que ia na vanguarda. Depois de uma revista to bem sucedida, a cara do general transbordava de mal reprimida alegria. -  servio do czar... No pode ser de outra maneira... s vezes, durante as inspeces, uma pessoa est um bocadinho excitada... Eu sou o primeiro a pedir desculpa, conhece-me bem... Os meus agradecimentos! - E estendeu a mo ao capito.
     - Desculpe-me, meu general, se eu ouso replicou o capito, com o seu nariz muito vermelho, sorrindo, e mostrando deste modo que lhe faltavam dois dentes da frente, partidos, com uma coronhada, em Ismail.
     - E a propsito, comunique ao Dolokov que eu me no esquecerei dele se tiver juzo. E diga-me, se faz favor, que  que ele faz, como  que ele se comporta? E...
     -  muito pontual no servio. Excelncia.., mas quanto ao carcter... - redarguiu Timokine.
     - Qu? Que h quanto ao carcter? - inquiriu o general.
     - H dias. Excelncia... s vezes  bem educado, bom rapaz, sensvel. Outras vezes  uma verdadeira fera. Dizem que matou um judeu na Polnia, como sabe...
     - Sim, sim,  verdade; mas ainda assim  preciso que a gente seja tolerante para um rapaz que caiu em desgraa. Tem muito boas relaes... E tambm  preciso...
     - Eu compreendo. Excelncia - disse Timokine, com um sorriso em que se lia que compreendera o desejo do superior.
     - Sim, sim.
     O comandante do regimento foi em busca de Dolokov, pelo meio das fileiras, e estacou o cavalo.
     - No primeiro recontro podes ganhar os teus gales - disse-lhe. Dolokov fitou-o sem dizer palavra e sem alterar o seu ar sorridente e trocista.
     - Bom, agora est tudo em ordem. Um copo de aguardente a cada homem - acrescentou, de maneira a que todos o ouvissem. - A todos obrigado! Louvado seja Deus! - E, ultrapassando a companhia, aproximou-se de outra.
     - Sim, apesar de tudo,  boa pessoa;  um tipo com quem a gente se entende - disse Timokine a um oficial subalterno que marchava a seu lado.
     - Numa palavra, um rei de copas! - comentou este rindo. Era a alcunha do comandante do regimento entre os seus homens.
     A boa disposio dos oficiais depois da revista propagou-se aos soldados. As companhias marchavam alegremente. Havia ditos nas fileiras.
     - Diziam que Kutuzov era cego de um olho...
     - E ... No tem um olho.
     - No  verdade.., rapazes, v melhor do que tu. Viu tudo, at as botas e meias...
     - Ah, rapazes, quando ele me olhou para as pernas - eu disse c comigo...
     - E o outro, o austraco, que vinha com ele? Parecia que lhe tinham despejado em cima uma lata de cal. Estava todo enfarinhado. Aposto que eles do lustro na farda, como ns damos s espingardas.
     - Eh. Fedechu!... Ouviste-o dizer quando principiava a batalha? Estavas to perto dele. Dizem que o Bonaparte em pessoa esta em Brunov.
     - Bonaparte? Que tolice!  s isso que tu sabes? Desconheces que os Prussanos j se revoltaram? Os Austracos esto a tratar-lhes da sade. Quando eles acabarem, ento  que principia a guerra com o Bonaparte. E aquele a dizer que o Bonaparte est em Brunov!  um imbecil, claro est! Abre-me melhor essas orelhas!
     - Ah, esses malditos furriis! A 5, como tu ests a ver, j l est na aldeia. A esta hora j eles esto a fazer o kacha, e ns ainda to longe.
     - No tens um biscoito?
     - E ontem deste-me tabaco? Est bem, rapaz. Bom, bom. Deus seja contigo!
     - Se ao menos fizessem alto... Assim, ainda vamos andar mais umas cinco verstas de barriga vazia.
     - Hem! Era bem melhor que os Alemes nos oferecessem carruagens. Vai ou no vai? Colossal!
     - Isto por aqui, rapazes,  tudo gente de p descalo. Ao menos l para cima eram polacos, sbditos da coroa russa, enquanto agora, rapazes, so tudo alemes.
     - Os cantores  frente! - gritou o capito.
     E na vanguarda do batalho reuniram-se, vindos de diversos lados, uns vinte homens. O tambor-mor voltou a cabea para os cantores, e, com um aceno, entoou a lenta cano dos soldados, que comea assim: No  a aurora, o Sol que est a nascer..., e termina: , , rapazes,  a glria que nos espera com o tio Kamenski... Esta cano tinha sido composta na Turquia e actualmente cantavam-na na ustria, apenas com esta pequena variante: onde estava tio Kamenski estava agora tio Kutuzov.
     Depois de ter entoado o ltimo verso, com um ar marcial e fazendo um amplo gesto com a mo, o gesto de quem atira qualquer coisa para longe, o tambor, um belo soldado dos seus quarenta anos, grande e seco, envolveu num olhar severo os seus cantores, franzindo as sobrancelhas. Depois, bem certo de que todos os olhos estavam fitos nele, deu a impresso de erguer, com as duas mos,  altura da cabea qualquer objecto precioso e invisvel, conservou-o a alguns segundos e, de repente, foi como se o tivesse atirado para longe:
     
     Ai, minha casa, minha casa, 
     Minha casa nova em folha.
     
     Vinte vozes entoaram o refro e o tocador de ferrinhos, apesar do peso do equipamento, saltou para a frente do batalho e, de costas, sempre a, andar, agitando os ombros, parecia ameaar quem quer que fosse com o seu instrumento. Os soldados marcavam o compasso com os braos, cantando, e a sua marcha acompanhava o ritmo da cano. L para trs ouviu-se um rolar de rodas, um chiar de molas, um trote de cavalos. Era Kutuzov e a sua comitiva que regressavam  cidade. O general-chefe fizera um sinal indicando que os soldados podiam continuar a marchar livremente, e na sua cara, assim como na dos membros da sua comitiva, lia-se contentamento, o contentamento que lhes causava ouvir aquelas canes, ver o soldado que danava e o aspecto jovial dos seus camaradas. Na segunda fileira, no flanco direito, por onde a caleche ultrapassou o regimento em marcha, chamava a ateno, sem dar por isso, o soldado de olhos azuis. Dolokov, que, marcial e gracioso como poucos, marchava ao ritmo da cano, olhando para toda a gente que passava com o ar de quem tem pena de que no fossem todos com ele, de que no fizessem todos parte da sua companhia. Um oficial de hssares da comitiva de Kutuzov, aquele mesmo que parodiara o comandante do regimento, deixou passar a caleche e aproximou-se de Dolokov.
     Durante algum tempo, em Petersburgo, este oficial. Jerkov, fizera parte do grupo de bomios de que o Dolokov fora o chefe. J o tinha encontrado no estrangeiro naquela situao de soldado, mas achara melhor no o conhecer. Agora, depois da conversa de Kutuzov com o ex-oficial, veio para ele com a satisfao de quem encontra um velho amigo.
     - Meu querido amigo, como vais tu? - lanou, no meio do alarido das vozes, procurando acertar o passo da sua montada com o dos soldados.
     - Eu? - redarguiu Dolokov friamente. -  como ests vendo. A galharda cano parecia sublinhar a alegre despreocupao das palavras de Jerkov e a deliberada frieza de Dolokov.
     - Bom, e ento, que tal te ds com os teus chefes? - perguntou Jerkov.
     - Muito bem.  boa gente. E tu, conseguiste meter-te no estado-maior?
     - Estou em misso. Sou adido.
     Calaram-se.
     
     L vai o falco, l vai.
     Da minha manga direita partiu.
     
     dizia a cano, acordando uma involuntria sensao de coragem e bravura. A conversa dos dois teria sido muito diferente, com certeza, se no decorresse ao som daquela cano.
     - Sempre  verdade que os Austracos foram derrotados? - perguntou Dolokov.
     - Quem diabo o sabe?  o que dizem.
     - Tanto melhor - replicou Dolokov, seco e breve, ao ritmo da cadncia.
     - Aparece uma destas noites. Jogamos uma partida de fara - disse Jerkov.
     - Ests ento cheio de dinheiro?
     - Aparece.
     - No posso. Fiz uma promessa. No bebo nem jogo enquanto me no reintegrarem no meu posto.
     - Bom, ento no primeiro recontro... 
     -  o que vais ver,
     Calaram-se ambos outra vez.
     - Se precisares de alguma coisa aparece no estado-maior; estou s tuas ordens... - volveu Jerkov.
     Dolokov ps-se a rir.
     -  melhor no te preocupares comigo. Aquilo de que precisar no o pedirei a ningum; eu prprio me encarregarei de o obter.
     - Bom, sim, eu apenas...
     - Bom, e eu tambm...
     - At  vista.
     - Adeus.
     
     E bem longe e bem livre 
     Na nossa terra natal.
     
     Jerkov cravou as esporas no seu cavalo; este, excitado, deu duas ou trs voltas no mesmo lugar, sem saber como havia de partir. Depois, sacudiu a cabea e largou a trote, contornando o batalho, para se aproximar da caleche, seguindo ao ritmo do canto.
     

     
     
     
     Captulo III
     
     De regresso da inspeco. Kutuzov, acompanhado do general austraco, penetrou no seu gabinete, e, chamando um ajudante-de-campo, ordenou-lhe que lhe trouxessem certos papis relativos ao estado das tropas em campanha e a correspondncia emanada do arquiduque Fernando, que comandava a vanguarda.
     O prncipe Andr Bolkonski entrou dai a pouco, com os papis pedidos, no gabinete do general-chefe. Diante de um mapa estendido sobre a mesa sentavam-se Kutuzov e o general austraco membro do Conselho Superior de Guerra.
     - Ah!... - exclamou Kutuzov, olhando para Bolkonski, como se lhe quisesse dizer que esperasse, continuando, porm, em francs a conversa principiada,
     - S tenho uma coisa a dizer, general - Kutuzov punha na sua linguagem expresses e entoaes distintas, destacando ntida e lentamente cada palavra, e via-se bem que tinha prazer em ouvir-se a si prprio. - S tenho uma coisa a dizer. Se isso no dependesse seno da minha vontade, de h muito que teriam sido satisfeitos os desejos de Sua Majestade o Imperador Francisco. De h muito que eu teria operado j a minha fuso completa com o arquiduque. E, acredite na minha palavra de honra, entregar o alto comando do exrcito a um general mais competente e mais hbil do que eu, coisa que no falta na ustria, e ver-me livre de uma responsabilidade to pesada, eis o que seria um grande alvio para mim. Mas as circunstncias so mais fortes do que ns, general.
     Kutuzov sorriu com o ar de quem quer dizer: Voc est no seu pleno direito de no acreditar em mim, e o certo  que isso me no d o mal, pequeno cuidado, mas o que voc no tem  motivo para pretender tal coisa. E a  que est a questo.
     O general austraco no tinha cara de muito satisfeito, mas via-se obrigado a responder a Kutuzov no mesmo tom.
     - Pelo contrrio - volveu ele, numa voz irritada e desabrida, em perfeita contradio com as palavras lisonjeiras que pronunciava - Pelo contrrio, a participao de Vossa Excelncia na obra comum  altamente apreciada por Sua Majestade, mas ns somos de opinio de que os adiamentos actuais privam os gloriosos exrcitos russos e o seu general-chefe dos louros que eles esto habituados a conquistar nos campos de batalha - Era evidente que esta ltima frase j a trazia ele preparada.
     Kutuzov inclinou-se, sem deixar de sorrir.
     Nesse caso, fundamentando-me, especialmente, na ltima carta com que me honrou Sua Alteza o Arquiduque Fernando, tenho razo para crer que as tropas austracas sob o comando de um colaborador to hbil como o general Mack, obtiveram urna vitria decisiva e j no tm necessidade da nossa ajuda.
     O general franziu as sobrancelhas. Embora ainda no houvesse notcias seguras de uma derrota austraca, j havia muitas indicaes que confirmavam os boatos desfavorveis postos a correr; por isso a suposio de Kutuzov de que os Austracos estavam vitoriosos tinha mais um ar de mofa que outra coisa. Kutuzov continuava a sorrir disfaradamente, sempre com o mesmo ar de quem diz que havia razes para crer que assim fosse. Efectivamente, a ltima carta que recebera do exrcito de Mack falava em vitria e numa situao estratgica a todos os ttulos excelente.
     - Deixe ver essa carta - disse Kutuzov para o prncipe Andr. - Queira fazer o favor de ouvir.
     E Kutuzov, com o seu sorriso trocista aos cantos dos lbios, leu em alemo ao general austraco o passo seguinte da carta do arquiduque Fernando:
     
     Todas as nossas foras, cerca de setenta mil homens, esto j concentradas, de sorte que ns podemos atacar e esmagar o inimigo no caso de ele vir a atravessar o Lech. Visto que UIm est em nosso poder, temos a vantagem de conservar as duas margens do Danbio, e deste modo, em qualquer altura, desde que o inimigo no atravesse o Lech, somos ns quem pode atravessar o Danbio, lanando-nos sobre as linhas de comunicao, e voltar a atravessar o Danbio mais abaixo; se o inimigo se lembrasse de lanar todas as suas foras contra os nossos fiis aliados, ns no o deixaramos realizar essa operao. Deste modo, aguardaremos, corajosamente, o momento em que o exrcito imperial russo esteja inteiramente preparado para encontrar, em seguida, muito facilmente, as possibilidades de dar ao inimigo o destino que ele merece.
     
     Kutuzov, concluda que foi a leitura de toda esta fraseologia, soltou um suspiro de alvio e fitou com amabilidade e ateno o membro do Conselho Superior de Guerra.
     - Mas Vossa Excelncia sabe muito bem que uma das regras da prudncia  prever sempre o pior - observou o general austraco, que estava morto por acabar com aquela brincadeira e chegar aos factos.
     No pde impedir-se de lanar um olhar ao ajudante-de-campo.
     - Perdoe-me, general - interrompeu Kutuzov, voltando-se igualmente para o prncipe Andr.- Oua, meu amigo, v pedir ao Kozlovski todos os relatrios dos nossos espies. Aqui tem duas cartas do conde de Nostitz, aqui tem a carta do arquiduque Fernando e mais isto - acrescentou, entregando-lhe diversos papis. - Com tudo isto faa-me um memorando, uma nota, bem clara, em francs, mencionando tudo o que sabemos acerca das operaes do exrcito austraco. Depois, entregue tudo a Sua Excelncia.
     O prncipe Andr inclinou-se de modo a fazer compreender que tudo compreendera desde as primeiras palavras: no s o que fora dito, como tambm o que Kutuzov teria desejado dizer-lhe. Pegou nos papis e, depois de uma continncia circular, dirigiu-se para a sala de visitas, pisando silenciosamente o tapete.
     Embora ainda se no tivesse passado muito tempo depois que Andr deixara a Rssia, j tinha mudado bastante. Os seus traos fisionmicos, os seus gestos, o seu andar, no conservavam j quase nada daquele ar afectado de outrora, do seu falso ar de fadiga e de indolncia. Dava a impresso de um homem que no tem tempo de pensar na opinio que os outros possam ter a seu respeito, ocupado que est a fazer seja o que for que ele considera muito interessante. Parecia mais satisfeito consigo prprio e com os outros que dele se aproximavam. No seu sorriso e no seu olhar havia mais alegria e seduo.
     Kutuzov, que ele fora encontrar j na Polnia, acolhera-o muito amavelmente, prometera-lhe no o esquecer, distinguira-o entre todos os demais ajudantes-de-campo, trouxera-o consigo a Viena e confiara-lhe misses muito srias. De Viena escrevera ao seu velho camarada, o pai do prncipe Andr.
     O teu filho promete Vir a ser um oficial fora do vulgar, pelos servios prestados e pela firmeza da sua pontualidade no servio. Considero-me feliz por ter ao meu dispor um tal subordinado.
     No estado-maior de Kutuzov, entre os seus camaradas e em geral no exrcito, o prncipe Andr, tal como acontecia na sociedade de Petersburgo, gozava de duas reputaes absolutamente opostas. Uns - a minoria - consideravam-no um ser diferente de todos os demais, esperavam dele grandes coisas, ouviam-no, admiravam-no e imitavam-no: e com estes ele era simples e amvel. Os outros - a maioria - no gostavam dele, consideravam-no um indivduo inchado de orgulho, com um carcter frio e desagradvel. Mas de tal modo Andr se comportava para com eles que estes o estimavam e at mesmo o temiam.
     Ao penetrar na sala de visitas, depois de ter deixado o gabinete de Kutuzov, o prncipe Andr, com os papis na mo, aproximou-se do seu camarada, o ajudante-de-campo de servio. Kozlovski, que estava a ler um livro ao p da janela.
     - Ento, prncipe? - perguntou Kozlovski.
     - Ordem para redigir uma nota explicando a razo pela qual no avanamos.
     - E porqu?
     Andr fez-lhe sinal de que tambm no sabia. 
     - No h notcias de Mack?- perguntou Kozlovski.
     - No.
     - Se fosse verdade ele ter sido derrotado j haveria notcias.
     - Provavelmente - redarguiu Andr, dirigindo-se para a porta de servio.
     Nessa altura entrava, num repente, batendo com a porta, um general austraco de grande estatura, de capote, um leno preto amarrado  cabea, e pendente do pescoo o colar de Maria Teresa: acabava, evidentemente, de chegar. O prncipe Andr deteve-se.
     - O general-chefe. Kutuzov? - disse rapidamente o recm-chegado com um duro sotaque alemo, olhando em roda, e dirigindo-se, sem se deter, para a porta do gabinete.
     - O general-chefe est ocupado - replicou Kozlovski, interceptando os passos do general desconhecido e vedando-lhe o caminho. - Quem devo anunciar?
     O general desconhecido mediu com um olhar de desdm Kozlovski, que era de pequena estatura, como que surpreendido de o no terem reconhecido.
     - O general-chefe est ocupado - repetiu tranquilamente Kozlovski.
     O general franziu as sobrancelhas e os lbios tremeram-lhe de clera. Puxou de uma agenda, traou apressadamente algumas palavras a lpis, rasgou a folha, entregou-a, aproximou-se da janela a passos rpidos, deixou-se cair numa cadeira e ficou-se a olhar os circunstantes, como que a dizer: Com que direito  que me olham assim? Em seguida ergueu a cabea, estendeu o pescoo, como se fosse falar, e depois, como se fosse cantarolar qualquer coisa, negligente, emitiu um som estranho, que logo saiu estrangulado. A porta do gabinete abriu-se e no limiar apareceu Kutuzov. O general da cabea amarrada, com o ar de quem procura evitar um perigo, aproximou-se de Kutuzov em largos passos rpidos das suas magras pernas, fazendo uma vnia ao general russo.
     - Eis na sua frente o infeliz Mack - articulou, numa voz alterada.
     Kutuzov, de p  porta do seu gabinete, conservou durante instantes uma expresso absolutamente impassvel. Depois, um vinco, como uma vaga, lhe perpassou pela mscara e as rugas da testa desapareceram -lhe; inclinou-se com deferncia, fechou os olhos, deixou passar Mack adiante, sem dizer palavra, e em seguida puxou a porta.
     O boato j ento espalhado da derrota dos Austracos e da rendio do exrcito inteiro em UIm era exacto. Meia hora depois eram enviados ajudantes-de-campo em todas as direces anunciando que dentro em pouco tambm o exrcito russo, at a inactivo, se iria defrontar com o inimigo.
     O prncipe Andr era um dos raros oficiais do estado-maior a quem interessava, antes de mais nada, a marcha geral das operaes militares. Ao ver Mack e tendo conhecido por mido os pormenores da sua derrota compreendeu que metade da campanha estava perdida, que os exrcitos russos se encontravam numa situao bastante crtica e anteviu com nitidez o destino reservado s tropas e o papel que a ele prprio competiria. Sem querer, experimentou uma alegria violenta ao pensar que a presunosa ustria estava humilhada e que dentro de uma semana talvez lhe fosse dado tomar parte num recontro entre Russos e Franceses, o primeiro desde Suvorov para c. Mas receava o gnio de Bonaparte, capaz de vencer a bravura dos exrcitos russos, e ao mesmo tempo no podia admitir que o seu heri fosse posto em xeque.
     Emocionado e transtornado pelos seus pensamentos. Andr retirou-se para os seus aposentos na inteno de escrever ao pai a sua carta quotidiana. No corredor encontrou-se com o seu camarada Nesvitski e o jocoso Jerkov; como sempre, estavam ambos muito alegres:
     - Porque  que ests to macambzio? - perguntou Nesvitski, ao ver o rosto plido e os olhos brilhantes do prncipe Andr.
     - No h grande motivo para estarmos contentes - redarguiu Bolkonski.
     Na mesma altura em que os trs camaradas se encontravam, cruzavam-se com eles, vindos do outro lado do corredor, o general austraco Strauch, adido ao estado-maior de Kutuzov para efeitos de abastecimento das tropas russas, e um membro do Conselho Superior de Guerra, que chegara na vspera. O largo corredor tinha espao suficiente para que os generais passassem livremente, apesar da presena dos trs oficiais, mas Jerkov, acotovelando Nesvitski, segredou-lhe, num frouxo de riso:
     - Eles a esto!... Eles a esto!... Em linha, deixem-nos passar! Faam favor de os deixar passar!
     Era evidente que os generais queriam passar sem chamar a ateno para honras suprfluas. O burlesco Jerkov assumiu de sbito um ar de estpida alegria que afectava no poder dominar.
     - Excelncia - disse ele em alemo, dando um passo em frente e dirigindo-se ao general austraco .- Tenho a honra de o felicitar.
     Numa vnia e desastradamente, como as crianas quando aprendem a danar, fez deslizar um p, depois o outro.
     O general membro do Conselho Superior de Guerra mediu-o de alto a baixo com um olhar severo; mas ao reparar na gravidade daquele sorriso parvo no pde recusar-lhe um momento de ateno. Semicerrou w olhos, atento.
     - Tenho a honra de o felicitar. Chegou o general Mack, em muito bom estado, apenas com uma feridazinha aqui - acrescentou, abrindo-se em sorrisos e apontando para a sua prpria testa.
     O general franziu as sobrancelhas, voltou costas e continuou o seu caminho.
     - Meu Deus, que ingenuidade! (Em alemo no texto russo. (N, dos T.) - exclamou, furioso, depois de ter dado alguns passos.
     Nesvitski, rindo, passou o brao por detrs do prncipe Andr, mas este, empalidecendo ainda mais, sacudiu-o, tomando um ar descontente, e voltou-se para o lado de Jerkov. O nervosismo em que o puseram a presena de Mack e as notcias sobre a situao, alm da lembrana do que aguardava o exrcito russo, fizeram-no explodir perante o gracejo despropositado de Jerkov:
     - Meu caro senhor - exclamou numa voz incisiva, com um ligeiro tremor no queixo -, se lhe d prazer fingir de palhao, no serei eu quem o impea disso, mas devo adverti-lo de que se torna a ter a audcia de fazer de histrio na minha presena eu lhe ensinarei como deve comportar-se.
     Nesvitski e Jerkov ficaram to surpreendidos com estas palavras que fitaram Bolkonski sem dizer palavra, os olhos muito abertos.
     - Porqu? Limitei-me a apresentar-lhe as minhas felicitaes - balbuciou Jerkov.
     - Eu no estou a brincar consigo, peo-lhe que se cale! - gritou-lhe Bolkonski, e, tomando o brao de Nesvitski, seguiu em frente, deixando Jerkov no meio do corredor, sem saber que responder.
     - Ento, que  isso? - disse Nesvitski para o sossegar.
     - Qu?! - exclamou o prncipe Andr, detendo-se, tomado ainda de exaltao. -  preciso que compreendas que ns ou somos oficiais ao servio do nosso czar e da ptria, que nos regozijamos com os xitos gerais e deploramos os fracassos, ou ento no passamos de simples lacaios, indiferentes  vida dos nossos amos. Quarenta mil homens massacrados e o exrcito dos nossos aliados dizimado, e acha que  caso para rir - acrescentou, como se esta frase em francs viesse fortalecer o seu raciocnio. Est certo num rapaz insignificante como esse indivduo que elegeu para seu amigo, mas no em si, no em si. S os garotos  que se divertem desta maneira- continuou em russo, pronunciando a palavra garotos com um sotaque francs, pois receou que Jerkov o pudesse ouvir.
     Ficou um momento silencioso, como que  espera de ouvir o que o oficial replicaria. Mas este fez meia volta e saiu do corredor.
     

     
     
     
     Captulo IV
     
     O regimento dos hssares de Pavlogrado estava acantonado a umas duas milhas de Braunau. O esquadro de que era junker Nicolau Rostov ocupava a aldeia alem de Saltzeneck. Na mais confortvel casa da povoao fora alojado o comandante do esquadro, o capito Denissov, a quem toda a gente conhecia, na diviso de cavalaria, por Vaska Denissov. O junker Rostov, desde que se juntara ao regimento, na Polnia, estava aboletado com o comandante do esquadro.
     A 11 de Outubro, no mesmo dia em que a notcia do desastre de Mack pusera o quartel-general em sobressalto, a vida de campanha do esquadro prosseguia to tranquilamente como at essa data. Denissov, que perdera a noite, ainda no regressara a casa, quando Rostov, de manhzinha, voltou a cavalo da distribuio da forragem. No seu uniforme de junker. Rostov aproximou-se dos degraus da porta, impelindo o cavalo, depois passou a perna por cima da garupa, num gesto rpido e juvenil, ficou um momento com o p no estribo, como se o deixasse com saudades, e por fim saltou para o cho, chamando a ordenana.
     - Eh! Bondarenko, amigo do meu corao! - exclamou ele para um hssar que se tinha precipitado para o cavalo. - Passeia-o, meu velho! - continuou, com essa ternura fraterna e jovial que os rapazes, quando se sentem felizes, testemunham a toda a gente.
     - As suas ordens. Excelncia - respondeu o pequeno russo, sacudindo alegremente a cabeleira.
     - Toma ateno, d-lhe um bom passeio.
     Outro hssar se tinha igualmente precipitado, mas Bondarenko j tomara conta do brido. Era evidente que o junker costumava dar boas gorjetas e que valia a pena servi-lo. Rostov passou a mo pela cernelha do cavalo, acariciando-o depois pela garupa e ficou alguns instantes parado nos degraus da entrada. Esplndido! Isto  que vai dar um cavalo!, disse de si para consigo, sorrindo, com o sabre suspenso da mo. Depois galgou rapidamente os degraus, fazendo tilintar as esporas. O alemo em casa de quem estava aboletado, de colete de flanela e bon de algodo, empunhando uma forquilha para apanhar estrume, olhava para a cena plantado na soleira da porta do estbulo. Assim que viu Rostov, o rosto iluminou-se-lhe. Sorriu alegremente e piscou-lhe o olho: - Bom dia! Bom dia! (Em alemo no texto russo. (N, dos T.) - repetiu, com visvel satisfao por ter oportunidade de saudar o rapaz.
     - J a trabalhar! (Em alemo no texto russo. (N, dos T.) - exclamou Rostov com o mesmo ar amistoso e jovial que lhe andava sempre na cara. - Vivam os Austracos! Vivam os Austracos! Viva o imperador Alexandre! - acrescentou, dirigindo ao proprietrio as prprias palavras que este muita vez tinha repetido.
     - E viva toda a gente! (Em alemo no texto russo. (N, dos T.).
     Rostov, imitando o alemo, agitou no ar a barretina e gritou, rindo:
     - E viva toda a gente! (Em alemo no texto russo. (N, dos T.) - Embora o alemo, que andava a limpar a estrebaria, no tivesse qualquer motivo para estar alegre, o que, alis, se dava tambm com Rostov, que fora com o seu peloto buscar forragens, os dois homens olharam um para o outro cheios de entusiasmo e de fraternal afecto, trocaram sinais amistosos com a cabea e separaram-se, aquele para regressar  cavalaria, este para entrar na casa onde habitava na companhia de Denissov.
- Que  do teu amo? - perguntou Rostov a Lavruchka, o velhaco impedido de Denissov, muito popular no regimento. 
- Desde ontem  noite que ningum lhe pe a vista em cima. Est claro que jogou e perdeu - replicou Lavruchka. - Quando ganha, j sei, volta para casa cedo, para se gabar, mas quando no aparece logo pela manh, isso s quer dizer que est sem cheta. Aparece a furioso. Devo servir o caf?
     - Est bem, traz, traz.
     Dez minutos mais tarde. Lavruchka trazia o caf. 
     - L vem ele - disse o impedido.- Isto vai ser bonito! 
     Rostov olhou para a janela e viu Denissov, que regressava a casa. Denissov era um homenzinho vermelhusco de cara, com uns olhos muito negros e brilhantes, de bigodes e cabelos desgrenhados. Trazia o dlman desabotoado e as pregas das largas calas flutuavam-lhe nas pernas; a barretina, toda amarrotada, caa-lhe para a nuca. Macambzio, de cabea baixa, aproximou-se da escada.
     - Lavruchka! - gritou, colrico, escamoteando o r. - Anda c, tira-me isto, idiota!
     - Bom, l vou, sim senhor - disse a voz de Lavruchka.
     - Ena, j ests levantado! - exclamou Denissov, ao entrar em casa.
     - H quanto tempo! - tomou-lhe Rostov. - J fui  forragem e j vi a Frulein Matilde.
     - Caramba! Pois eu, meu rapaz, ontem fiquei limpo! - exclamou Denissov, que no pronunciava os rr. - Que azar! Que azar! Comeou logo que te foste embora. Eh! ch!
     Denissov, de sobrancelhas franzidas, com uma espcie de sorriso que lhe descobria os dentes curtos e slidos, ps-se a desgrenhar os cabelos com as duas mos, metendo os dedos curtos pela espessa floresta das guedelhas pretas.
     - Foi o Diabo que me levou a casa daquele Rato! (era a alcunha de um dos camaradas de regimento) - disse ele, passando as duas mos pela testa e pelas faces. - Imagina tu que no tive uma nica carta, uma nica.
     Denissov pegou no cachimbo aceso, que o criado lhe entregara, apertou-o na mo, e f-lo crepitar; depois bateu com ele no sobrado, continuando a gritar.
     - Vasa simples ganha, paroli perdido: vasa simples ganha, paroli perdido! (Expresso usada no jogo do fara. (N, dos T.)
     O tabaco a arder do cachimbo tinha ido todo para o cho; quebrou o cachimbo e atirou-o fora. Depois ficou calado, fitando Rostov alegremente, com os olhos pretos cintilantes.
     - Ainda se ao menos tivesse havido mulheres... Mas no, alm do copo, no havia mais nada que fazer. Ah! Se a gente em breve se pudesse bater! E a valer! Eh! Quem est a? - Voltara-se para a porta, ao ouvir uns passos pesados, que se detiveram, um ressoar de botas e de esporas e uma tosse respeitosa. 
     -  o sargento! - disse Lavruchka.
     Denissov ainda mostrou um ar mais descontente.
     - Que estopada! - exclamou, atirando com uma bolsa em que havia algumas moedas de ouro. - Conta, meu velho, conta. Rostov, conta o dinheiro que l est e esconde-me a a bolsa debaixo da almofada.- Em seguida saiu da sala ao encontro do sargento.
     Rostov pegou no dinheiro e maquinalmente comeou a separar as moedas novas das moedas velhas, em montinhos, pondo-se a cont-las.
     - Ah! Telianine! Bom dia! Ontem  noite fiquei limpo! - dizia Denissov na sala contgua.
     - Onde, onde? Em casa do Bikov ou do Rato?... Calculava isso - respondeu outra voz, esta aflautada, e em seguida entrou o tenente Telianine, um oficial de pequena estatura, do mesmo esquadro.
     Rostov atirou para debaixo da almofada a bolsa de Denissov e apertou a mo hmida que lhe estendiam. Telianine fora expulso da Guarda, antes da campanha, por um motivo qualquer. Era um oficial bem comportado, mas ningum gostava dele; Rostov em especial, que no podia vencer nem dissimular a insensata averso que aquele homem lhe inspirava.
     - Ento, moo cavaleiro, est contente com o meu Gratchik? - perguntou ele. (Gratchik era um cavalo de sela, para passeio, que Telianine vendera a Rostov.)
     O tenente nunca olhava a direito para o interlocutor; os olhos giravam continuamente de um lado para o outro,
     - Vi-o passar h bocado...
     - Oh,  ptimo,  um bom cavalo - retorquiu Rostov, embora o animal que ele comprara por setecentos rublos nem metade valesse. - Mas est a coxear da mo direita...  acrescentou.
     - Tem o casco fendido. No tem importncia. Hei-de-lhe ensinar como se pe um cravo.
     - Obrigado - tornou Rostov.
     - Fica combinado. No  segredo. Mas ainda h-de vir a agradecer-me o cavalo que lhe vendi.
     - Ento o melhor  mandar buscar o cavalo - disse Rostov, morto por se ver livre do oficial, e saiu da sala para dar ordens nesse sentido.
     No vestbulo. Denissov, de cachimbo na boca, acocorado  turca no limiar da porta, ouvia o relatrio do sargento. Ao ver Rostov, franziu as sobrancelhas, mostrando-lhe, por cima do ombro, com o dedo polegar. Telianine, que ficara sentado no quarto atrs dele, e abanou a cabea em sinal de averso.
     - Ali est um tipo que eu no tolero! - exclamou sem se importar com a presena do sargento.
     Rostov teve um gesto de ombros que queria dizer: Tambm eu no, mas que havemos de fazer? e, depois de dar as suas ordens, voltou para o p de Telianine.
     Telianine continuava sentado na atitude indolente que mostrara momentos antes, esfregando as pequenas mos brancas. Sempre h cada cara neste mundo!, dizia de si para consigo Rostov, ao voltar ao quarto.
     - Ento mandou buscar o cavalo? - inquiriu Telianine, levantando-se e lanando um olhar distrado  sua roda.
     - Mandei.
     - Ora vamos l ver isso. Vim apenas para pedir ao Denissov as ordens de ontem. Tem-nas consigo. Denissov?
     - No, ainda no. Eh! Onde  que vai?
     - Vou ensinar a este rapaz como se ferra um cavalo - disse Telianine.
     Desceram a escada e dirigiram-se  cavalaria. O tenente ensinou a Rostov como convm pregar os cravos numa ferradura e voltou para casa.
     Quando Rostov regressou, em cima da mesa havia urna garrafa de aguardente e uma salsicha. Denissov estava sentado e a pena rangia sobre o papel. Olhou para Rostov com uma expresso sombria.
     - Estou a escrever-lhe - disse.
     Ps o cotovelo na mesa, apoiou-se, com a caneta na mo, e, evidentemente contentssimo por ter oportunidade de dizer de uma s vez tudo o que tinha inteno de escrever, pormenorizou a Rostov o contedo da carta entre mos.
     - Como vs, meu velho - comentou -, enquanto no gostamos de algum  como se estivssemos a dormir. No somos mais que p... Mas assim que um homem comea a amar,  como se fosse Deus, sente-se puro,  como nos primeiros dias da Criao... Que temos ainda? Manda-o para o diabo que o carregue! No tenho tempo - gritou para Lavruchka, que se aproximava, sem se perturbar.
     - Que quer que eu faa? Foi o senhor quem o mandou. O sargento vem pelo seu dinheiro.
     Denissov franziu as sobrancelhas, quis levantar a voz, mas calou-se.
     - Ora esta! Que estopada! - disse como para consigo mesmo. - Que dinheiro h ainda na bolsa? - perguntou a Rostov. 
     - Sete moedas novas e trs velhas.
     - Isto  que  uma espiga! Que ests tu a a fazer, idiota? Vai chamar o sargento - gritou Denissov para Lavruchka.
     - Se tu quiseres. Denissov, eu empresto-te dinheiro. Eu tenho dinheiro - disse Rostov corando.
     - No gosto de pedir dinheiro emprestado aos amigos, no, no gosto - balbuciou Denissov.
     - Se no aceitares o meu dinheiro, como camarada que s, fico contrariado. Realmente tenho dinheiro  repetiu Rostov. Denissov aproximou-se da cama, para tirar a bolsa de baixo da almofada.
     - Onde  que puseste a bolsa. Rostov?
     - A sob a almofada.
     - No est c nada.
     Denissov atirou para o cho as duas almofadas. A bolsa no estava.
     -  extraordinrio!
     - Espera. Naturalmente no procuraste bem! - interveio Rostov, pegando nas almofadas, uma por uma e sacudindo-as. 
     Levantou igualmente a colcha e sacudiu-a. A bolsa, nada. 
     - Ter-me-ia eu esquecido? Qual qu? At disse de mim para comigo que tu a punhas debaixo da cabea, como se fosse um tesouro. Foi a que eu pus a bolsa. Onde est ela? - acrescentou, dirigindo-se a Lavruchka.
     - Eu no pus os ps no quarto. Onde a ps  que ela deve estar.
     - Mas no esta!
     -  sempre assim, deixa as coisas em qualquer parte e depois esquece-se delas. Veja nas algibeiras.
     - No, se eu no tivesse pensado que era como fosse um tesouro - repetiu Rostov - Lembro-me perfeitamente de que a arrumei.
     Lavruchka desfez a cama, espreitou por debaixo barras, sob a mesa, revolveu a casa inteira e acabou por parado no meio do quarto. Denissov seguia, sem dizer palavra, todos os movimentos de Lavruchka, e quando o viu, parado no meio do quarto, os braos abertos, declarando que, a bolsa no estava em parte alguma, olhou para Rostov.
     - Rostov, deixa-te de brincadeiras
     Rostov sentiu pousado nele o olhar de Denissov, ergueu os olhos e voltou logo a baix-los. Todo o sangue das veias, que lhe estava parado na garganta, lhe subiu  cara. No podia respirar.
     - Aqui no estiveram seno o tenente e os senhores. Tem de estar em qualquer parte - disse Lavruchka.
     - Pois ento, filho de uma velha, mexe-te, procura - subitamente Denissov, corando muito e lanando-se sobre o pedido com um gesto ameaador. - A bolsa j ou, ento, o chicote! Vai tudo corrido a chicote!
     Rostov, olhando Denissov bem de frente, abotoou o dlman, afivelou o sabre e ps a barretina.
     -  o que eu te digo,  preciso que a bolsa aparea - gritava Denissov, sacudindo a ordenana pelos ombros e encostando-a  parede.
     - Basta. Denissov: eu sei quem a levou - disse Rostov, que avanou para a porta, sem erguer os olhos.
     Denissov soltou Lavruchka, reflectiu um momento e compreendendo, certamente, a quem Rostov aludia, agarrou-o por um brao.
     - Que imbecilidade! - gritou com tamanha violncia que as veias do pescoo e da testa se lhe intumesceram. -  o que eu te digo: ests doido, no te consentirei uma coisa dessas! A bolsa tem de estar aqui! Ainda que eu tenha de arrancar a pele a este miservel, a bolsa h-de aparecer.
     - Eu sei quem a levou - repetia Rostov, em voz trmula, encaminhando-se para a porta.
     - E eu repito-te que no te atrevas a fazer uma coisa dessas! - gritou Denissov, lanando-se sobre o junker, para o no deixar partir.
     Mas Rostov soube evit-lo, olhando-o fixamente e bem de frente com tamanho rancor que dir-se-ia ser Denissov o seu maior inimigo.
     - Ests a perceber o que dizes? - articulou, com a voz trmula. - Alm de mim mais ningum havia neste quarto. Por isso, se no foi o outro...
     No pode concluir, e desapareceu.
     - Diabos te levem a ti e a todos os outros! ouviu Rostov, quando se afastava.
     Rostov dirigiu-se a casa de Telianine.
     - O meu amo no est, foi ao estado-maior - disse-lhe a ordenana. - Aconteceu alguma coisa? - acrescentou, ao ver os traos descompostos do junker.
     - Nada.
     - Por pouco que o apanhava aqui - continuou o impedido.
     O estado-maior ficava a trs verstas de Saltzeneck. Rostov, sem voltar a casa, montou a cavalo e para l se dirigiu. Na aldeia onde estava instalado o estado-maior havia um albergue frequentado pelos oficiais.
     Foi para a que Rostov se encaminhou. A porta estava o cavalo de Telianine.
     Na segunda sala do albergue encontrou o tenente abancado diante de um prato de salsichas e de uma garrafa de vinho.
     - Ah!, ento por aqui, meu rapaz? - disse ele, sorrindo e erguendo as sobrancelhas.
     -  verdade - volveu Rostov, como se dizer coisa to simples lhe custasse muito, e sentou-se a uma mesa vizinha. Ambos ficaram calados. Estavam presentes dois alemes e um oficial russo. Ningum falava, e apenas se ouvia o tinir das facas de encontro aos pratos e o rudo das maxilas do tenente, que mastigava. Quando Telianine acabou de almoar, puxou de uma bolsa. Com os dedos delicadamente soerguidos fez deslizar a argola, pegou numa moeda de ouro e, franzindo as sobrancelhas, pagou ao criado.
     - Depressa, se fazes favor - recomendou.
     A moeda era nova. Rostov levantou-se e aproximou-se de Telianine.
     - Deixe-me ver essa bolsa - disse em voz muito baixa, quase ininteligvel.
     Com o olhar esquivo e o ar sempre preocupado. Telianine deu-lhe a bolsa.
     -  bonita, no ?... ... ... - disse, empalidecendo repentinamente. - Pode v-la, meu rapaz.
     Rostov pegou na bolsa, examinou-a, fez o mesmo ao dinheiro que ela continha, e depois fitou Telianine. O tenente, como de costume, deixou errar os olhos, sem o fixar, e de repente pareceu divertir-se.
     - Se chegarmos a Viena, tenho a impresso de que deixamos l tudo, mas por agora no h onde gastar o nosso dinheiro seno nestes antros. D c a bolsa, meu rapaz, vou andando.
     Rostov no disse palavra.
     - Que  que vai fazer? Vem almoar? No se come nada mal aqui - prosseguiu Telianine. - Deixe ver.
     Estendeu a mo para a bolsa. Rostov deixou que ele a tomasse. Telianine pegou-lhe e enfiou-a na algibeira dos cales de montar, enquanto erguia as sobrancelhas, despreocupadamente, e abria a boca como para dizer. Pois claro, meto a minha bolsa na algibeira, no h nada mais simples, e ningum tem nada com isso.
     - Ento, meu rapaz? - disse, com um suspiro, e por debaixo das sobrancelhas erguidas lanou um olhar a Rostov.
     Fascas elctricas correram e saltaram entre os olhos de ambos, duas, trs vezes, num relmpago.
     - Venha da - disse Rostov, pegando-lhe num brao. E conduziu-o quase a fora para o p da janela,
     - Esse dinheiro  do Denissov. O senhor fez-lhe mo baixa - murmurou-lhe ao ouvido.
     - O qu?... O qu... Atreve-se?... O qu?... - disse Telianine.
     
     Sara nestas palavras qualquer coisa de desesperado, como a pedir perdo. Ao ouvir esta voz. Rostov sentiu que lhe tiravam como que um grande peso de cima dos ombros. Uma grande alegria o tomou, ao mesmo tempo que sentia piedade pelo infeliz que estava diante dele. Mas era preciso ir at ao fim.
     - S Deus sabe o que esta gente vai pensar - balbuciou Telianine, pegando na barretina e dirigindo-se para uma salinha que estava vazia. - Temos de nos explicar.
     - Eu sei o que digo e posso prov-lo - afirmou Rostov.
     - Eu...
     Todos os msculos do rosto assustado e plido de Telianine estremeceram. O seu olhar continuava fugidio, mas fito no cho, e no ousava levantar os olhos para Rostov; abafou uma espcie de soluo.
     - Conde!... No perca um homem... Aqui tem este miservel dinheiro, tome conta dele... - Atirou-o para cima da mesa. - Tenho um pai, que  velho, tenho um me!...
     Rostov pegou no dinheiro, evitando o olhar de Telianine, e, sem dizer palavra, abalou. Mas ao chegar ao limiar da porta, deteve-se e voltou atrs.
     - Meu Deus! - exclamou com as lgrimas nos olhos. - Como  que pde?
     - Conde - disse Telianine, aproximando-se do junker.
     - No me toque - tornou Rostov, recuando. - Se est precisado de dinheiro, tome o que a est.
     Atirou-lhe com a bolsa e saiu a correr da estalagem.
     

     
     
     
     Captulo V
     
     Na noite do mesmo dia, em casa de Denissov, travava-se urna animada conversa entre os oficiais do esquadro.
     - E eu, na minha opinio, acho que o Rostov deve apresentar as suas desculpas ao comandante do regimento - dizia para o prprio Rostov, vermelho como uma papoula, e emocionadssimo, um capito, muito alto, de cabelos grisalhos, grandes bigodes e um rosto duro, sulcado de rugas.
     O capito Kirsten j por duas vezes fora degradado em soldado raso, por questes de honra, e das duas vezes recuperara o seu antigo posto.
     - No consinto a ningum que me chame mentiroso! - exclamou Rostov. - Ele disse-me que eu estava a mentir, e eu retorqui-lhe que quem mentia era ele. E  assim que as coisas ficaro. Est no seu direito, se, quiser, pr-me de servio todos os dias e mandar-me deter at. Eu  que lhe no apresentarei desculpas, visto que se ele, como comandante do regimento, entende que lhe no fica bem dar-me satisfaes...
     - Calma, calma, meu rapaz; oua l - interrompeu o capito, na sua voz de baixo, cofiando tranquilamente os longos bigodes. - Disse ao comandante do regimento, na presena de outros oficiais, que um oficial tinha roubado...
     - No tenho culpa que a conversa se tivesse passado diante de outros oficiais. Talvez que eu, realmente, no devesse ter falado diante deles; falta-me o jeito diplomtico. Se escolhesse os hssares,  porque estava convencido de que aqui ningum se preocupava com essas finezas; e vai ele e diz que eu estava a mentir... Ento  ele quem me deve apresentar desculpas...
     - Tudo isso est certo, ningum diz que o senhor  um poltro. No  disso que se trata. Pergunte ao Denissov se isso  conveniente, se um junker deve pedir satisfaes ao comandante do seu regimento.
     Denissov, mordiscando o bigode, ouvia a conversa de sobrecenho carregado, sem querer, ao que parecia, intervir na discusso. Quando o capito formulou a sua pergunta, ele meneou a cabea negativamente.
     - O senhor falou nessa vilania ao comandante diante dos oficiais - prosseguiu o capito. - Bogdanitch (era o nome do comandante do regimento) mandou-o calar.
     - No me mandou calar, mas disse-me que eu no falava verdade.
     - Sim, mas o senhor respondeu-lhe umas tolices, e  preciso pedir-lhe desculpa.
     - De maneira alguma! - exclamou Rostov.
     - No esperava isto de si - disse o capito num tom ao mesmo tempo srio e severo. - O senhor no quer apresentar desculpas; mas, meu amigo, no h dvida de que  culpado, no s perante ele, mas perante o regimento inteiro, perante todos ns. Oua: se ao menos o senhor tivesse pensado dois minutos e se se tivesse aconselhado, mas no, foi logo s do cabo, e diante dos oficiais. Que  que o comandante tinha a fazer? Entregar um oficial  justia e enlamear todo o regimento? Desonrar o regimento inteiro por causa de um miservel? Era isto que se devia ter feito, na sua opinio? Mas ns no pensamos assim: Bogdanitch teve razo: disse-lhe que o senhor no falava verdade.  desagradvel, mas que quer, meu velho, foi o senhor quem assim o quis. E agora, que se pretendem abafar as coisas, o senhor, por amor-prprio, no quer apresentar desculpas e deseja pr tudo em pratos limpos. Est furioso por o terem posto de servio permanente, mas que  que lhe custava apresentar desculpas a um oficial velho e honesto? Seja qual for, de resto, a atitude de Bogdanitch neste caso, o certo  que  um velho coronel digno e valente; e o senhor sente-se ofendido, e, quanto a manchar o regimento, isso no o incomoda? - A voz do capito tremia, comovida. - O senhor no vai ficar aqui muito tempo. Se hoje est neste regimento, amanh j estar em qualquer outra parte, como ajudante-de-campo. Pouco lhe importa que venha a dizer-se: Entre os oficiais do Pavlogrado h ladres! Mas a ns, a ns, isso no nos  indiferente. No  verdade. Denissov? Isso a ns no nos  indiferente.
     Denissov calava-se e no se mexia, fitando Rostov, de tempos a tempos, com os seus olhos pretos muito vivos.
     - O senhor preza acima de tudo o seu amor-prprio e no quer apresentar desculpas - continuou o capito -, mas aos velhos, queles que tm envelhecido no regimento, e se Deus quiser nele ho-de morrer, a esses, a honra do regimento importa muito, e Bogdanitch sabe-o bem. Queremos-lhe muito! No est certo! Que o senhor esteja ou no ofendido, eu, por mim, gosto de dizer a verdade. No est certo!
     O capito levantou-se e voltou costas a Rostov.
     - Ele tem razo, diabos me levem! - exclamou Denissov, erguendo-se de um salto.- Vamos. Rostov, vamos!
     Rostov, corando e empalidecendo ao mesmo tempo, fitava ora um oficial ora outro.
     - No, meus senhores, no... No devem pensar... Eu compreendo muito bem, fazem mal em pensar que eu seria capaz... Eu.., por mim.., sou pela honra, do regimento... Mas falar nisso para qu?... Hei-de-o mostrar com aces, e para mim a honra da bandeira... Bem, pouco importa,  verdade, sou culpado!... Tinha as lgrimas nos olhos. - Sou culpado, inteiramente culpado!... Que  que querem mais?
     - Bom, est bem, conde - disse, voltando-se, o capito, e bateu-lhe no ombro com a sua grande manpula.
     - Eu tinha-te dito - acrescentou Denissov- que ele era um bom camarada.
     - Assim est bem, conde - repetiu o capito, que o tratava pelo ttulo como se isso fosse uma recompensa do seu gesto. - V apresentar as suas desculpas. Excelncia. Est bem!
     - Meus senhores, estou pronto a tudo, nunca mais ningum ouvir falar deste caso - protestou Rostov, numa voz comovida. - Mas desculpas no, cos diabos, desculpas no. Que querem que eu faa? Que pea desculpa, como um garoto, que implore perdo?
     Denissov ps-se a rir.
     - Tanto pior para si. O Bogdanitch  rancoroso. H-de-lhe fazer pagar cara a sua obstinao - disse Kirsten.
     - Com mil diabos, no, no  obstinao! No lhes posso dizer o que sinto.., no posso.
     - Bom, faa o que entender! - exclamou o capito-adjunto. - E esse miservel, onde  que ele se meteu? - perguntou a Denissov.
     - Deu parte de doente; amanh a ordem de servio h-de d-lo como doente - respondeu este.
     - A doena; no h outra desculpa - disse o capito-adjunto.
     - Doente ou no, que me no caia nas mos, dou cabo dele! - gritou Denissov, feroz.
     Jerkov entrou na sala.
     - O que h? - perguntaram os oficiais imediatamente.
     - Ordem de marcha, meus senhores. Mack rendeu-se com todo o seu exrcito.
     - No pode ser!
     - Vi-o com os meus prprios olhos.
     - Qu? Tu viste o Mack vivo? Em carne e osso?
     - Para a guerra!, para a guerra! Vamos beber pela boa nova. E tu, que ests aqui a fazer?
     - Mandaram-me regressar ao meu regimento precisamente por causa desse diabo do Mack. O general austraco queixou-se de mim; felicitei-o pelo seu regresso... Que  isso. Rostov? Que tens tu? Parece que acabas de sair de um banho quente.
     - Temos estado metidos num tal sarilho estes ltimos dois dias!
     Um ajudante-de-campo do regimento entrou nesse momento e confirmou a notcia trazida por Jerkov. Havia ordem para se porem em marcha no dia seguinte de manh.
     - Para a guerra, meus senhores!
     - Graas a Deus; estvamos a criar bolor.
     

     
     
     
     Captulo VI
     
     Kutuzov tinha retirado para Viena, fazendo saltar as pontes do Inn em Braunau e a do Traun em Lintz. No dia 23 de Outubro, o exrcito russo atravessava o Enns. As bagagens, a artilharia e as colunas de tropas atravessaram-no em pleno dia, formando colunas dos dois lados da ponte.
     O tempo estava suave, uma atmosfera de Outono, mas chuvosa. A longa perspectiva que se descobria das eminncias ocupadas pelas batarias que defendiam a ponte ora se estendia por detrs das cortinas de musselina formada pela chuva oblqua, ora se alargava, e na luz brilhante do Sol podiam distinguir-se os objectos a distncia como cobertos por uma camada de verniz. L em baixo via-se a cidadezinha, com as suas casas brancas de tectos vermelhos, a sua catedral e a sua ponte, em cujos flancos corria, em fileiras apressadas, a onda dos exrcitos russos. Na curva que o Danbio ali formava viam-se barcos, uma ilha e um castelo com um parque cercado pelas guas da confluncia do Enns e do Danbio. Depois via-se a margem esquerda do rio, escarpada e coberta de pinheirais, misteriosos horizontes de cumeadas verdejantes e de desfiladeiros azulados; um pouco mais adiante, as torres de um convento emergindo de um pinheiral selvagem, to cerrado que parecia uma floresta virgem; na distncia, e defronte, na outra margem do Enns, numa eminncia, entreviam-se as patrulhas inimigas.
     A frente da bataria, l no alto, estava o comando da retaguarda: um general, com um oficial s ordens, que examinava o terreno pelo culo. Um pouco mais para trs, sentado sobre a carreta de uma pea de artilharia, via-se Nesvitski, enviado  retaguarda pelo general-chefe. O cossaco que o acompanhava apresentava-lhe um saco de provises e um frasco, e Nesvitski regalava os oficiais com pastis e kummel autntico. Estes formavam roda em tomo dele, muito alegres, uns de joelhos, outros escarranchados,  turca, na erva molhada.
     - No era qualquer imbecil o prncipe austraco que mandou ali construir um castelo. Que stio magnfico! Eh! Ento? Os senhores no comem? - dizia Nesvitski.
     - Obrigado, prncipe - respondeu um dos oficiais, que parecia encantado de se ver assim a conversar com um membro to importante do estado-maior. - Soberbo local, realmente! Passmos diante do parque e vimos l dentro dois veados; que magnfica residncia!
     - Olhe, prncipe - disse outro oficial, desejoso de comer mais um pastel, mas sem coragem de o pedir e, por isso mesmo, fingindo examinar a paisagem. - Olhe, a nossa infantaria acabou agora mesmo de l chegar. L diante, ao p daquele prado, por detrs da aldeia, trs soldados esto a puxar qualquer coisa. Vo fazer uma rica limpeza no palcio - acrescentou com evidente aprovao.
     - Sem dvida - disse Nesvitski - No, c por mim, o que eu gostava - acrescentou, metendo um pastel pela boca abaixo - era de ir at ali.
     Apontava para o convento torreado que se descobria no alto da colina. Sorriu; os olhos fizeram-se-lhe pequenos e brilhantes. 
     - No h dvida, devia ser uma beleza, meus senhores!
     Os oficiais puseram-se a rir.
     - Meter um susto s freirinhas. Parece que so italianas, e novas, segundo dizem. Palavra de honra, dava cinco anos de vida para ir at l.
     - Tanto mais que elas devem estar aborrecidssimas - disse, rindo, um oficial mais atrevido do que os outros.
     Entretanto, o oficial s ordens, de servio, apontava fosse o que fosse ao general. Este ps-se a observar pelo culo.
     - Sim, senhor, l esto eles, l esto eles! - exclamou, encolerizado, afastando o culo e encolhendo os ombros. - L esto eles e vo-nos cair em cima na altura da travessia do rio. Que estaro eles para ali a fazer?
     Do outro lado do rio via-se o inimigo a olho nu e uma das suas batarias, por cima da qual se elevava um fumozinho leitoso. O fumo foi acompanhado, momentos depois, de uma detonao longnqua e viram-se as tropas russas estugar o passo na passagem do rio.
     Nesvitski, para se fazer valer, levantou-se e, sorrindo, aproximou-se do general.
     - No quer Vossa Excelncia comer tambm um bocadinho? - disse-lhe ele.
     - A coisa vai mal - declarou o general, sem lhe responder. - Os nossos esto atrasados.
     - Quer que v l. Excelncia? - inquiriu Nesvitski.
     - V, sim, faa favor - tornou o general, repetindo-lhe as ordens dadas j em pormenor -, e diga aos hssares que sejam os ltimos a atravessar e que queimem a ponte, como eu ordenei, e que voltem a inspeccionar as matrias inflamveis que l esto.
     - Muito bem - respondeu Nesvitski.
     Chamou o cossaco que lhe segurava o cavalo, disse-lhe que guardasse as provises e o cantil, e, ligeiro, instalou a sua pesada corpulncia em cima do cavalo.
     - Palavra de honra, que vou fazer uma visita s freiras - disse para os oficiais, que olhavam para ele sorrindo, e ps-se a descer a colina ao longo de um caminho que serpenteava.
     - Oua, capito, veja at onde isso vai - gritou o general, dirigindo-se ao comandante dos artilheiros. - Vamos, para entreter o tempo,
     - Serventes, a postos! - comandou o oficial.
     Momentos depois os artilheiros acorriam alegremente, saindo dos seus bivaques, e punham-se a carregar as peas.
     - Primeira pea! - exclamou o comandante.
     A primeira pea deu um salto  retaguarda. Ouviu-se o estampido de um trovo metlico e o projctil passou, assobiando, por cima da cabea dos russos, no sop da colina; muito longe do lugar onde estava o inimigo uma nuvem de fumo veio assinalar o stio onde o projctil tinha cado.
     Soldados e oficiais rejubilaram ao ouvir a detonao. Todos se levantaram e puseram-se a observar, l no fundo, os movimentos das tropas russas, to visveis como se estivessem na palma de uma mo, e mais adiante o movimento do inimigo, que se aproximava. Nessa altura, o sol rompeu as nuvens e aquele belo tiro de canho isolado fundiu-se com o seu fulgor radioso, criando uma sensao de bravura jovial.
     

     
     
     
     Captulo VII
     
     Por cima da ponte j tinham passado dois projcteis inimigos e o tumulto ali era grande. No meio da ponte estava Nesvitski. Tinha-se apeado e ei-lo ali, com a sua corpulenta pessoa, cerrado contra o parapeito. Voltava-se para o cossaco, que, com os dois cavalos pela arreata, ficara alguns metros mais atrs. De cada vez que tentava avanar, os soldados e as viaturas obrigavam-no a retroceder, e comprimiam-no de novo de encontro s guardas da ponte. Nada mais podia fazer do que rir.
     - Eh, tu, l de diante - dizia o cossaco para um soldado que conduzia uma grande viatura, forando a marcha por cima dos prprios ps dos soldados, contra os quais avanavam rodas e cavalos. - Eh, tu, no podes esperar? O general quer passar,
     O soldado do comboio, sem prestar ateno  palavra general que lhe atiravam, gritava para os soldados que lhe impediam a marcha: Eh, camaradas, pela esquerda, esperem um bocado! Mas os camaradas, ombro com ombro, embaraando-se nas baionetas, avanavam pela ponte fora em massa compacta. Debruando-se sobre o parapeito, o prncipe Nesvitski via as pequenas vagas rpidas e rumorosas do Enns, que, misturando-se e quebrando-se de encontro aos peges da ponte, se perseguiam umas s outras. Em cima da ponte tambm se espraiavam ondas vivas e montonas de soldados; barretinas, com grandes cordes, envoltas em suas capas, mochilas, baionetas, lanas e, debaixo das barretinas, figuras poderosamente musculadas, de faces cavadas, um ar de fadiga e despreocupao, pernas Que se moviam na lama viscosa colada s pranchas da ponte. De onde em onde, por entre as vagas iguais dos soldados, emergia, tal a espuma branca nas guas do Erms, um oficial com o seu casaco e uma mscara que ressaltava no meio das dos soldados; de quando em quando, como se fosse um feixe de palha levado pelas guas, flutuava, por cima das vagas da infantaria, um hssar a p, uma ordenana ou um civil; e outras vezes, como uma prancha flutuante, via-se sobrenadar, cercado por todos os lados, um furgo de regimento ou uma viatura de oficial cobertos de couro, carregadssimos.
     - Parece que se rompeu um dique - disse o cossaco, detendo-se desesperado. - Ainda faltam muitos?
     - Metade e outros tantos! - exclamou, piscando o olho, um soldado folgazo que naquele momento passava, de capote esfarrapado; atrs dele surgiu um soldado j velho.
     - Se ele (ele era o inimigo) se lembrasse agora de nos dar um calor em cima da ponte - murmurou para um camarada, taciturno - no tnhamos tempo de nos coar.
     E seguiu adiante. Atrs dele vinha outro a guiar uma carroa.
     - Onde  que diabo meteram a chave? - gritava uma ordenana, que acompanhava a viatura, espiolhando-lhe as traseiras. Tanto o homem como a carroa afastaram-se. Depois apareceu um grupo de soldados muito alegres e que se via bem estarem embriagados.
     -  o que te digo, meu velho, quando ele lhe atirou com a coronha da espingarda... - dizia, rindo, um dos militares, que tinha o cabeo do capote levantado e fazia grandes gestos.
     - Ah, sim, que rico presunto - respondeu outro soldado, escancarando a boca.
     E foram andando, de modo que Nesvitski no conseguiu perceber quem  que tinha sido agredido nem o que  que queria dizer aquele presunto.
     - Porque  que se puseram agora a correr? L porque ele lhes mandou um balzio, j pensam que esto todos perdidos - disse um sargento, furioso.
     - Quando ela passou por mim, a granada - exclamou um soldado muito novo que, a rir, abria uma boca enorme -, julguei ir desta para melhor. Caramba, sempre tive um destes medinhos! - acrescentou, como que orgulhoso de ter tido medo.
     E tambm este foi andando para diante. Depois chegou uma viatura que se no parecia com qualquer das que tinham passado. Era uma carroa alem tirada por dois cavalos, carregada, ao que parecia, com o recheio de uma casa inteira. Atrs da carroa, guiada por um alemo, vinha amarrada uma bela vaca malhada, de grandes tetas. Sobre um colcho de penas ia deitada uma mulher que dava de mamar a uma criana, uma velha c uma rapariga sadia e rubicunda. Via-se perfeitamente que aqueles emigrantes tinham sido autorizados a circular merc de uma licena especial. Os olhos de todos os soldados seguiam as duas mulheres e, enquanto o comboio ia passando, a passo, todas as observaes as tinham por objecto. Em todas as mscaras se notava a expresso agarotada que a presena daquelas mulheres sugeria.
     - Ento, minha salsicha, mudamos de casa?
     Est  venda a tiazinha? - interrogou outro soldado, acentuando a ltima slaba (Matucka (tiazinha). (N, dos T.) e dirigindo-se ao alemo, que caminhava, de cabea baixa, com grandes passadas e um ar ao mesmo tempo furioso e assustado.
     - Olha para o vestido dela! Ah! Com mil diabos!
     - Hem! Agradava-te estares aboletado l em casa. Fedotov?
     - Tenho visto muita mulher, meu filho!
     - Onde  que vais? - perguntou um oficial de infantaria, que comia uma ma, e que tambm estava de olhos arregalados, todo sorridente, para a mocetona.
     O alemo, cerrando os olhos, fazia meno de no perceber.
     - Queres? - disse o oficial, oferecendo uma ma  rapariga.
     A moa sorriu e pegou na ma. Tanto Nesvitski, como os demais em cima da ponte, no perderam de vista as mulheres enquanto elas no passaram. Atrs delas continuaram a passar os mesmos soldados, dizendo sempre as mesmas coisas, e finalmente houve uma paragem geral. Como costuma acontecer frequentemente  sada das pontes, os cavalos embaraaram-se nas viaturas do regimento e toda aquela massa de tropa ficou detida.
     - Que diabo de paragem  esta? No h ordem? - gritavam os soldados. - V l onde pes os ps! Cos demnios, no sei porque  que esperam! O bom e o bonito seria se ele deitasse fogo  ponte. Olha, l fica esmagado aquele oficial... - E de todos os lados choviam comentrios deste gnero: cada um olhava para o vizinho e ia fazendo presso no sentido da sada da ponte.
     Estando a olhar para as guas do Erms, que corriam por debaixo da ponte. Nesvitski sentiu, de repente, um rudo novo para ele, fosse o que fosse que se aproximava muito depressa.., qualquer coisa muito grande veio cair com estrondo nas guas.
     - Hem! Boa pontaria! - exclamou, carrancudo, um soldado, ali a dois passos, que se voltara ao ouvir o estampido.
     - D-nos coragem para andarmos mais depressa - disse outro soldado com inquietao.
     A multido voltou a mover-se. Nesvitski compreendeu que aquilo fora bala de canho.
     - Eh! Cossaco! O cavalo - gritou. - Vamos, rapazes, afastem-se! Mexam-se! Deixem passar!
     Foi com dificuldade que conseguiu chegar at ao p da montada. Sem nunca deixar de gritar  multido, conseguiu avanar. Os soldados cerravam fileiras para lhe dar lugar, mas acabavam por se comprimir contra ele de tal modo que lhe imobilizavam as pernas, sem querer, eles prprios vtimas da compresso dos outros.
     - Nesvitski! Nesvitski! Eh, malandro! - exclamou, nessa altura, atrs dele uma voz rouca.
     Nesvitski voltou-se e viu, a uns quinze passos de distncia, separado dele pela massa viva da infantaria em marcha, uma criatura muito vermelha, muito negra, a barretina atirada para a nuca, com um dlman garbosamente aos ombros: era Vaska Denissov.
     - Diz-lhes que nos deixem passar, a esses demnios, a esses filhos do Diabo! - gritava Denissov, visivelmente num dos seus acessos de fria. Os olhos negros e brilhantes como carvo rolavam-lhe nas rbitas inflamadas. Brandia o sabre, que no tirara da bainha, na pequena mo nua, to vermelha como a cara.
     - Ah! Vaska! - volveu-lhe, alegremente. Nesvistski. - Que fazes aqui?
     -  impossvel fazer avanar o esquadro - gritava Vaska Denissov, mostrando os dentes brancos e esporeando o belo murzelo, um beduno de puro sangue, que, ao picar-se nas baionetas, eriava as orelhas, resfolgado, espargindo de espuma tudo  sua volta, escarvava com as patas as tbuas da ponte, pronto a saltar por cima do parapeito se o cavaleiro que o montava consentisse.
     - O qu? Como carneiros, sim, como autnticos carneiros! Ao largo!... Deixem passar!... Faam alto, viaturas! Com mil diabos! Esperem, que eu lhes digo, vai  espadeirada... - E, com efeito, arrancando o sabre da bainha, ps-se a agit-lo no ar.
     Os soldados, aterrorizados, encolheram-se uns contra os outros, e Denissov pde aproximar-se de Nesvitski.
     - Qu, que dizes tu? Ainda hoje no bebeste nada? - exclamou Nesvitski para Denissov, assim que o viu perto dele.
     - Que queres, eles nem para isso nos do tempo! - replicou Vaska Denissov - Todo o dia temos andado com o regimento em bolandas, de um lado para o outro. Se  preciso que a gente se bata, vamos a isso. Mas, assim, que  que isto quer dizer?
     - Que elegante ests hoje! - observou Nesvitski, olhando para o seu dlman novo e para a gualdrapa do seu cavalo. Denissov sorriu-se, tirou o leno da algibeira, todo perfumado, e levou-o ao nariz de Nesvitski.
     - Claro que no pode ser de outra maneira, vamos para o campo de batalha! Barbeei-me, lavei os dentes e perfumei-me. 
     A imponente estatura de Nesvitski, acompanhada do seu cossaco, assim como o ar decidido de Denissov, que espadeirava para a direita e para a esquerda, em altos gritos, deram tal resultado que os dois conseguiram esgueirar-se para o outro lado da ponte, detendo os pees. Nesvitski,  sada, foi encontrar o coronel a quem devia entregar a mensagem, e, depois de cumprida a sua misso, voltou para trs.
     Denissov, que tinha conseguido abrir caminho, deteve-se  entrada da ponte. Segurando, negligentemente, o seu cavalo, que escoicinhava e resfolgava, via passar diante dele o seu esquadro. Sobre as pranchas da ponte ressoavam ferraduras; eram alguns cavalos que vinham a trote. O esquadro, com os oficiais  frente, alinhado a quatro, surgiu na ponte e comeou a sair do outro lado.
     Os homens da infantaria, obrigados a parar em cima da lama espezinhada da ponte, olhavam para os hssares, asseados e elegantes, que diante deles iam desfilando galhardamente, com essa hostilidade especial, misto de inveja e de troa, que em geral se observa entre os vrios corpos de um exrcito.
     - Isto  que  uma tropa catita! Parece mesmo que vai a caminho da parada de Podnovinskoie!
     - Para que serve esta gente? S para vista! - exclamou outro soldado.
     - Eh!, infantaria! Isso no  poeira? - zombou um hssar, cujo cavalo, caracolando, salpicara de lama um dos pees.
     - Gostava de te ver depois de duas boas marchas de mochila s costas. Deviam ficar bonitos os teus alamares! - ripostou o soldado de infantaria, limpando a lama da cara com a manga. - A empoleirado pareces mais um pssaro do que gente!
     - E tu. Zikine, devias ficar bem a cavalo. Tens boa figura - dizia, trocista, um cabo a um pobre soldado de infantaria, muito magro, ajoujado ao peso da mochila.
     - Monta num pau e j ters cavalo - zombou um hssar.
     

     
     
     
     Captulo VIII
     
     O resto da infantaria dava-se pressa em atravessar a ponte, comprimida  entrada, como num funil. Por fim, tendo passado todas as viaturas, houve menos precipitao, e o ltimo batalho penetrou na ponte. Apenas os hssares de Denissov permaneciam na outra, extremidade, frente ao inimigo. Este, que se via perfeitamente ao longe da colina oposta, ainda no era visvel do nvel da ponte, pois, na ravina por onde corriam as guas do rio o horizonte era limitado pelas cumeadas vizinhas a uma meia versta de distncia. Ali defronte ficava um baldio, onde evolucionavam, por aqui e por ali, patrulhas de cossacos. De sbito, nos cabeos em frente da estrada surgiram soldados de tnica azul e artilharia. Eram os Franceses. A patrulha de cossacos, a trote, retirou-se do sop das colinas. Oficiais e soldados do esquadro de Denissov, procurando falar sobre outra coisa e olhar para outro lado, no deixavam de pensar no que ali estava, naqueles cabeos, e a todo o momento olhavam as manchas que se iam formando no horizonte, e que sabiam perfeitamente serem soldados inimigos. O tempo, para a tarde, clareara, o Sol dardejava os seus raios sobre as guas do rio e as montanhas sombrias que o cercavam. Tudo estava sereno; dos montes vizinhos chegavam, de quando em quando, toques de clarins e vozes do inimigo. Entre o esquadro e os Franceses nada mais havia alm de algumas pequenas patrulhas. Um espao vazio de cerca de trezentas sagenas (Medida russa, equivalente a 2,1336 metros. (N, dos T.) os separava. O inimigo tinha cessado fogo, e isso mesmo ainda tornava mais agudo o sentimento da grave ameaa que representava aquela inacessvel e insondvel faixa de terreno entre os dois adversrios.
     Um passo para alm daquela linha que lembra a que separa os vivos dos mortos e eis-nos no mundo desconhecido do sofrimento e da morte. E l adiante que  que est? L adiante, para alm deste campo e desta rvore e daquele telhado iluminado pelos raios do Sol? Ningum sabe e ningum o deseja saber. Toda a gente tem medo de transpor aquela linha e ao mesmo tempo h como que uma tentao de o fazer; e o certo  que todos sabem que mais tarde ou mais cedo haver que transp-la e que conhecer o que l existe, do outro lado da linha, exactamente como  inevitvel virmos a saber o que fica do outro lado da morte. E no entanto todos ns nos sentimos fortes, saudveis, cheios de vida. Eis o que sente, sem dar por isso, todo o soldado diante do inimigo, e esta sensao, naquele instante, d um brilho particular, um sentimento de rude alegria ao mais pequeno incidente.
     Sobre o outeiro ocupado pelo inimigo surgiu o fumo de um tiro de pea e a bala passou, assobiando, por cima da cabea dos soldados do esquadro de hssares. Os oficiais, que estavam em grupo, retomaram os seus lugares. Os homens procuraram fazer alinhar as suas montadas. O silncio reinou. Todos olhavam o inimigo, ao longe, aguardando uma ordem. Passaram uma segunda e uma terceira balas. Era evidente que faziam pontaria sobre os hssares: mas os projcteis, com um assobio montono, passavam-lhes sobre as cabeas e iam cair, algures, l para trs deles. Os hssares no se voltavam, mas de cada vez que se ouvia o sibilar da, bala, todo o esquadro, como a uma voz de comando, todas aquelas feies, to variadas ria sua uniformidade, retinham a respirao enquanto o projctil passava, e viam-se os homens fincar-se nos estribos e depois encurvar-se. Os soldados, sem mexer a cabea, entreolhavam-se de vis, examinando, curiosos, a impresso que sentiam os camaradas. Todos os rostos, desde o de Denissov at ao do clarim, denunciavam, por qualquer coisa, de nervoso nos lbios e no queixo, um desejo de luta, certo enervamento, certa emoo. O sargento franzia as sobrancelhas fitando os soldados, como se os ameaasse de os castigar. O junker Mironov curvava-se sempre que o projctil passava. Rostov, no flanco esquerdo, no seu Gratchik, um belo cavalo, apesar do seu casco fendido, tinha o aspecto feliz de um colegial chamado, a prestar provas de exame diante de uma grande assembleia e confiante no seu triunfo. Olhava para todos com os seus olhos claros e luminosos, como se quisesse mostrar a toda a gente a sua perfeita serenidade sob a metralha. Mas o certo  que, sem que desse por isso, tambm ele, como os demais, mostrava, na expresso, que qualquer coisa de novo e de grave se estava a passar.
     - Quem  que est a fazer sinais l em baixo? Junker Mironov! No est certo! Olhem para mim! - gritou Denissov, que, no podendo sossegar, evolucionava, no seu cavalo,  frente do esquadro.
     O rosto de nariz esborrachado e os cabelos negros de Vaska Denissov, a sua minscula pessoa j bastante trabalhada pela vida, as suas mos nodosas, de dedos curtos e peludos, empunhando o sabre nu, eram os mesmos de sempre, sobretudo quando  noite j tinha despejado duas ou trs garrafas. Apenas parecia um pouco mais corado que de costume. Erguendo a cabea hirsuta, como as aves quando bebem, e esporeando impiedosamente, com as pernas curtas, o seu bom beduno, ei-lo que se pe a galopar, o corpo atirado para trs, ao longo do outro flanco do esquadro, e, numa voz rouca, grita que preparem as pistolas. Aproximou-se de Kirsten. O capito, sobre a sua gua vasta e majestosa, veio, a passo, ao encontro de Denissov. De grande bigodeira, estava srio, como sempre; s os olhos lhe brilhavam mais que habitualmente.
     - Ento! - exclamou - Parece-me que isto no d nada. Vais ver, acabamos por bater em retirada.
     - No sei que diabo  que eles esto a fazer!  resmungou Denissov. - Ah! Rostov! - gritou para o junker, ao ver o ar jovial. - Ah! At que enfim, no tiveste que esperar muito!
     E sorria, como para o encorajar, vendo-se que estava contente por v-lo. Rostov sentia-se feliz. Nessa altura na ponte o coronel. Denissov dirigiu-se para ele a galope.
     - Excelncia, deixe-me atacar! Dou cabo deles.
     -  de atacar que se trata, realmente - volveu o coronel numa voz enfadada, franzindo as sobrancelhas, como quem sacode uma mosca importuna. - Que diabo esto vocs aqui a fazer? Bem v que os flancos j retiraram. Leve o esquadro.
     O esquadro voltou a atravessar a ponte e saiu da zona de fogo sem perder um nico homem. Atrs dele seguiu, igualmente o segundo esquadro, exposto tambm ao fogo do inimigo, e os ltimos cossacos evacuaram a margem.
     Depois de terem passado a ponte, os dois esquadres de Pavlogrado bateram em retirada, um atrs do outro, para as cumeadas. O comandante do regimento. Karl Bogdanitch Schubert, aproximou-se do esquadro de Denissov e seguiu a passo no longe de Rostov, sem lhe prestar a mais pequena ateno, embora fosse a primeira vez que o via desde o caso de Telianine. Rostov, consciente do seu papel, na dependncia do homem perante o qual agora se sentia culpado, no perdia de vista a estatura atltica, a nuca loura e o pescoo vermelho do comandante do regimento. Ora se convencia de que Bogdanitch se fingia indiferente e que no pensava seno em experimentar a sua bravura de junker, e ento empertigava-se e lanava em tomo de si um olhar jovial; ora supunha que Bogdanitch fazia de propsito, conservando-se junto dele, para assim lhe mostrar o quanto era corajoso; ora ainda pensava que o seu inimigo enviava deliberadamente o esquadro a um ataque duro para o castigar a ele. Rostov, e de si para consigo ia dizendo que depois da refrega iria ter com ele e generosamente lhe estenderia a mo, a ele, ferido, em sinal de reconciliao.
     Jerkov, cuja alta estatura e largos ombros eram bem conhecidos dos hssares de Pavlogrado, regimento que ele abandonara havia pouco, aproximou-se do coronel. Depois de ter sido expulso do estado-maior, tinha deixado o regimento dizendo que no era to parvo que fosse condenar-se a trabalhos forados nas fileiras quando podia ganhar muito mais sem fazer coisa alguma nas ordenanas, e tivera artes de conseguir ser nomeado oficial de ordenana do prncipe Bagration. Era portador de urna ordem para o seu velho coronel da parte do comandante da retaguarda.
     - Coronel! - exclamou, com um ar srio e sombrio, dirigindo-se ao inimigo de Rostov e trocando um olhar com os camaradas. - H ordem para voltar para trs e lanar fogo  ponte.
     - Ordem? E quem a deu? - perguntou o coronel, num tom grosseiro.
     - No sei, meu coronel, no sei quem deu a ordem - replicou Jerkov, muito srio. - O prncipe s me disse: Monta e vai dizer ao coronel que os hssares devem retirar o mais depressa possvel e queimar a ponte.
     Depois de Jerkov chegou um oficial de ordenana com a mesma ordem. Atrs deste oficial aproximou-se igualmente o corpulento Nesvitski, montado num cavalo de cossaco, que s muito a custo fazia galopar.
     - Que  isto, coronel?! - exclamou assim que chegou. Eu disse-lhe que queimasse a ponte, e agora diz que no sabe quem deu esta ordem? Est tudo doido, ningum percebe nada.
     O coronel, sem pressa, deu ordem ao regimento para fazer alto, e dirigindo-se a Nesvitski:
     - Falou-me em matrias inflamveis  disse - Mas, quanto a deitar fogo  ponte, nada me comunicou.
     - Que me diz, camarada? - exclamou Nesvitski, que tinha refreado o seu cavalo, tirando a barretina e passando a gordurosa mo pelos cabelos ensopados de suor. - Que me diz? No lhe comuniquei que queimasse a ponte depois de derramar as matrias inflamveis?
     - Eu no sou seu camarada, senhor oficial do estado-maior, e o senhor no me disse que deitasse fogo  ponte! Sei muito bem o que estou a fazer e tenho por hbito cumprir rigorosamente as ordens que me do. O senhor disse que se queimaria a ponte, mas no quem o faria. Ora eu no poderia sab-lo por obra do Esprito Santo,
     - Ah!  sempre a mesma coisa - volveu Nesvitski com um gesto de indiferena. - Que fazes tu aqui? - interrogou, dirigindo-se a Jerkov.
     - O mesmo que tu. Ests encharcado! Deixa, que eu toro-te a roupa.
     - O senhor disse, senhor oficial do estado-maior... - continuou o coronel, num tom ofendido.
     - Coronel - interrompeu o oficial de ordenana -,  preciso agir, de outra maneira o inimigo acaba por colocar a sua artilharia ao alcance da ponte.
     O coronel olhou sem dizer palavra o oficial de ordenana, o corpulento oficial do estado-maior Jerkov, e franziu as sobrancelhas.
     - Deitarei fogo  ponte - volveu ele, num tom solene, como se com isso quisesse dizer que, apesar de todas as maadas que lhe davam, cumpriria o seu dever.
     Esporeando os flancos do seu cavalo com as suas grandes pernas musculosas, como se o pobre animal fosse o culpado de tudo, o coronel avanou e deu ordens ao segundo esquadro, aquele, precisamente, a que pertencia Rostov, e estava sob as ordens de Denissov, para voltar  ponte.
     Sim,  isto mesmo, pensou Rostov, quer-me experimentar! Sentiu um aperto no corao e o sangue subiu-lhe  cara. Vai ver se eu sou poltro, pensou.
     De novo, a mscara jovial dos homens do esquadro retomou a expresso preocupada que tinha quando sob o fogo das peas de artilharia. Rostov, sem baixar os olhos, olhava para o seu inimigo, o comandante do regimento, tentando descobrir-lhe nos traos a confirmao das suas suspeitas. Mas o coronel nem, uma s vez olhou para ele. Como sempre, no campo de batalha era severo e solene. Uma ordem de comando se ouviu.
     - Depressa! Depressa! - exclamaram algumas vozes em volta dele.
     Embainhando os sabres, com grande barulho de esporas, e a toda a pressa, os hssares apeavam-se, sem que eles prprios soubessem o que tinham a fazer. Persignaram-se. Rostov j no se preocupava com o coronel. No tinha tempo. Nele havia medo, um medo cheio de ansiedade, receoso de ficar para trs dos seus hssares. Tremia-lhe a mo quando entregou o cavalo ao soldado encarregado de tomar conta dele e sentia bater violentamente o corao dentro do peito. Denissov, o corpo atirado para trs, passou, gritando, junto dele. Rostov no via nada alm dos hssares a correrem apressados  sua volta, embaraando-se nas esporas no meio do retinir de sabres.
     - Uma maca! - gritou uma voz  sua retaguarda.
     Rostov no percebeu o que  que aquilo queria dizer pedir uma maca; corria, e no pensava seno em chegar primeiro do que outro qualquer. Mas, j perto da ponte, como no via onde punha os ps, enterrou-se num lamaal mole e espezinhado e, desequilibrando-se, caiu com as mos para a frente. Os outros continuaram, ultrapassando -o.
     - Dos dois lados, capito - dizia a voz do comandante do regimento, que, depois de ter tomado uma certa dianteira, se conservava, a cavalo, a pequena distncia da ponte, com um ar alegre e triunfante.
     Rostov, limpando as mos cheias de lama ao calo de montar, lanou os olhos ao seu inimigo e quis avanar ainda mais; entendia que quanto mais adiante fosse melhor seria. Mas Bogdanitch, sem olhar para ele, sem o reconhecer sequer, gritou-lhe furioso:
     - Quem  aquele que vai a correr pelo meio da ponte? A direita! Junker, para trs!... - Depois, dirigindo-se a Denissov, que para exibio da sua coragem avanava, a cavalo, pelo tabuleiro da ponte:
     - Para que  que se h-de expor, capito? Desmonte.
     - Tem sempre qualquer coisa a dizer - replicou Vaska Denissov, voltando-se no selim.
     
     Entretanto. Nesvitski. Jerkov e o oficial da comitiva tinham-se reunido, ao abrigo do tiro do inimigo, e observavam ora este pequeno grupo de homens de barretina amarela, de jaquetas verde-escuras, com alamares e cales azuis de montar, que se agitava perto da ponte, ora, do outro lado, ao longe, as tnicas azuis, que se aproximavam, e grupos  mistura com cavalos, que se via logo serem batarias.
     Conseguiremos ou no deitar fogo  ponte? Quem o conseguir primeiro? Sero eles capazes de chegar a tempo, ou sero os Franceses que conseguiro aproximar-se tanto que os possam alvejar, dizimando-os a todos? Eis as perguntas que a si prprios formulavam involuntariamente, na maior angstia, todos aqueles homens do exrcito imobilizado perto do rio, contemplando,  clara luz do Sol, que ia descendo no horizonte, tanto os hssares em cima da ponte como, na outra margem, as baionetas e as peas de artilharia dos tnicas azuis em marcha.
     - Caramba! Os hssares vo apanhar uma coa! - dizia Nesvitski. - J no esto longe do alcance da metralha.
     - Foi um erro mandar tanta gente - observou o oficial do estado-maior.
     - Efectivamente - comentou Nesvitski -, ali apenas teriam sido precisos dois valentes.
     - Ah! Excelncia! - interveio Jerkov, sem perder de vista os hssares, e sempre com aquele seu ar ingnuo, que levava os outros a perguntar-se a si prprios se ele estava a falar ou no a srio. - Ah! Excelncia! Que  que est a dizer? Mandar l dois homens, e depois, quem  que nos havia de condecorar com a Ordem de Vladimiro? Enquanto que assim, se eles forem dizimados, poderemos citar todo o esquadro na ordem do dia, propondo-o para a condecorao, e apanh-la ns tambm. O nosso Bogdanitch sabe muito bem o que faz.
     - Olhem! - exclamou o oficial do estado-maior. - L comea a metralha.
     Apontou para as peas de artilharia francesas, que acabavam de ser desatreladas e que apressadamente principiavam a ser distribudas.
     Do lado francs, nos grupos onde estavam as peas, apareceu um fumozinho, a seguir outro e quase simultaneamente um terceiro, e quando o estampido do primeiro tiro chegou onde estavam os oficiais russos viu-se um quarto fumo. Houve duas detonaes, uma atrs da outra, e por fim uma terceira.
     - Oh! Oh! - gemeu Nesvitski, como se sentisse urna dor pungente, agarrando no brao do oficial de ordenana. - Olhe, olhe, l caiu um!
     - Dois, creio eu!
     - Se eu fosse o czar, nunca faria guerra - disse Nesvitski, voltando os olhos.
     Os canhes franceses foram apressadamente carregados de novo. A infantaria de tnica azul avanou para a ponte em passo acelerado. Ainda se viam ncleos de fumo; em diversos pontos crepitava a metralha e rebentava sobre a ponte. Mas desta vez Nesvitski no pde distinguir o que se passava. Subiu da ponte uma fumarada espessa. Os hssares tinham conseguido lanar-lhe fogo, e as batarias francesas j no disparavam para impedir a operao, mas simplesmente por estarem em linha de fogo e aquele ser um alvo sobre o qual podiam lanar metralha.
     Antes que os hssares pudessem voltar para junto dos cavalos, ainda os Franceses fizeram trs descargas. Duas delas tinham sido mal dirigidas, e haviam-se perdido; a terceira cara no meio de um grupo de hssares e abatera trs.
     Rostov, sempre absorvido pela ideia de Bogdatnitch, parara no meio da ponte, sem saber que fazer. Sempre se tinha representado a guerra como um acutilar algum, mas a verdade  que no via ningum a quem espadeirar; de resto, quanto a cooperar no incndio da ponte, tambm o no podia fazer, pois no se havia munido, como os outros, de ties de palha. Continuava de p na ponte, indeciso, quando, de repente, sentiu crepitar sobre o pavimento como que uma saraivada de nozes, e viu um hssar perto dele cair gemendo sobre o parapeito. Rostov correu para ele, com os outros. Algum gritou de novo: <Uma maca! Quatro homens agarraram-no e ergueram-no.
     - Oh! Oh!... Deixem-me, por Deus! - gritava o ferido; mas nem por isso eles o largaram, e estenderam-no na maca.
     Nicolau Rostov afastou-se, e, como se procurasse qualquer coisa, ps-se a olhar ao longe as guas do Danbio, o cu, o Sol, que cintilava. Que lindo lhe parecia o cu! Que azul estava, e que sereno e profundo! Como o fulgor do Sol em declnio era vivo e solene! Como cintilavam, amistosas, as guas do longnquo Danbio! E as montanhas azuladas mais para alm, o mosteiro, as misteriosas ravinas, os pinheirais envoltos at ao alto pelo nevoeiro!... L adiante era a serenidade, a felicidade... Se eu l estivesse nada teria a desejar, no, nada teria a desejar, dizia Rostov de si para consigo. No meu corao e neste sol h tanta felicidade, enquanto que neste lugar.., s h gemidos, dor, terror, e esta confuso, esta pressa... E l esto a gritar outra ordem e todos comeam a recuar, correndo, e eu tambm corro com eles, e ela a est, a morte em cima de mim, em volta de mini... Um segundo, e nunca mais verei este sol, estas guas, estes desfiladeiros...
     Neste momento o Sol escondeu-se por detrs das nuvens; Rostov viu passar diante dele outras macas. O horror que lhe inspiravam a morte e aquelas macas, o seu amor pelo Sol e pela vida, tudo se confundia numa s impresso de desordem e de angstia,
     Oh!, meu Deus! Tu, que ests l no alto, no Cu, salva-me, perdoa-me e protege-me!, murmurou.
     Os hssares corriam para os seus cavalos, as vozes eram mais fortes e mais calmas, as macas tinham desaparecido.
     - Eh, camarada, cheiraste a plvora? - gritou-lhe ao ouvido a voz de Vaska Denissov.
     Tudo acabou; mas eu sou um poltro, sim, sou um poltro, disse para si mesmo Rostov, e, soltando um profundo suspiro, pegou no brido do seu Gratchik, que arrastava uma pata, tomando-o das mos de quem o tinha ficado a guardar, e saltou para a sela.
     - Que era aquilo? Era metralha? - perguntou a Denissov.
     - E que metralha! - exclamou este. - Eles sabem afinar as peas pela ltima moda. Mas aquilo no  o meu gnero! Um ataque da cavalaria  outra coisa  ali cara a cara! Mas isto, cos diabos,  atirar ao alvo, nada mais!
     E Denissov l se foi reunir a um grupo parado a pequena distncia de Rostov, onde estavam o coronel. Nesvitski. Jerkov e o oficial de ordenana,
     No entanto, parece-me que ningum deu por nada, pensou Rostov. E, realmente, ningum tinha dado por nada, pela simples razo de que todos sabiam muitssimo bem qual a impresso que sente um junker no dia do seu baptismo de fogo.
     - Agora j tm que dizer a nosso respeito - disse Jerkov. - Vo-me promover num abrir e fechar de olhos.
     - Peo que comuniquem ao prncipe que fiz saltar a ponte disse o coronel com um ar jovial e triunfante.
     - E se ele perguntar pelas perdas?
     - Uma bagatela! - replicou ele, na sua voz de baixo - Dois hssares feridos e outro morto no seu posto... - No pde esconder um sorriso de satisfao e frisou muito as ltimas palavras no seu posto.
     

     
     
     
     Captulo IX
     
     Perseguido por um exrcito francs de cem mil homens, comandados por Bonaparte, acolhido hostilmente pelas populaes, que tinham perdido a confiana nos seus aliados, causticado pela falta de abastecimentos e obrigado a agir completamente  margem das previstas condies da guerra, o exrcito russo, os trinta e cinco mil homens de Kutuzov, retirava apressadamente para jusante do Danbio, no se detendo seno naqueles pontos onde o inimigo o atacava e no procedendo seno a operaes de retaguarda na medida em que se tornavam necessrias para poder continuar a retirar sem perda de material e de bagagens. Houve os recontros de Lambach, de Amsteten e de Melk, mas, no obstante a bravura e a resistncia das tropas russas, alis reconhecidas pelo prprio inimigo, estas escaramuas de nada mais serviram que no fosse para acelerar a retirada.
     As tropas austracas salvas da capitulao de Ulm, e que se tinham juntado s de Kutuzov em Braunau, separaram-se agora do exrcito russo e Kutuzov via-se reduzido s suas fracas foras, j esgotadas. No se podia pensar sequer em defender Viena.
     Em vez de uma guerra ofensiva, maduramente reflectida segundo as regras dessa nova cincia que se chamava a estratgia, cujo plano lhe tinha sido comunicado durante a sua estada em Viena pelo Conselho Superior de Guerra, o nico e quase inacessvel objectivo que se oferecia agora a Kutuzov consistia, para no perder o seu exrcito,  imitao do que fizera Mack em Ulm, em reunir-se s tropas que chegavam da Rssia.
     A 28 de Outubro. Kutuzov atravessa com o seu exrcito para a margem esquerda do Danbio e pela primeira vez faz alto, depois de ter deixado o rio entre ele e as principais foras francesas. A 30 ataca a diviso de Mortier, que se encontrava na margem esquerda, e esmaga-a. Nesta operao tomaram-se pela primeira vez trofus de guerra: umas bandeiras e peas de artilharia. Dois generais inimigos foram feitos prisioneiros. Pela primeira vez desde que tinham batido em retirada, havia quinze dias, as tropas russas faziam alto e depois do combate no s tinham conservado o campo de batalha, mas, inclusivamente, haviam perseguido os Franceses. Embora as tropas estivessem cobertas de andrajos, extenuadas, reduzidas de um tero, em virtude dos retardatrios, dos feridos, dos mortos e dos doentes; embora os doentes e os feridos da outra margem do Danbio tivessem sido abandonados com uma nota de Kutuzov confiando-os  humanidade do inimigo; embora os grandes hospitais e as casas de Krems, transformados em lazaretos, j no pudessem abrigar todos os feridos e doentes; apesar de tudo isto, a paragem em Krems e a vitria sobre Mortier tinham levantado muito o moral dos soldados. No exrcito em peso e no quartel-general corriam os boatos mais animadores, ainda que mal fundamentados, sobre a imaginria aproximao de colunas chegadas da Rssia, de uma vitria dos Austracos e de um recuo de Napoleo, aterrorizado.
     O prncipe Andr, durante o combate, permanecera ao lado do general austraco Schmidt, que tinha sido morto nessa operao. O cavalo que o prncipe montava fora ferido e ele prprio recebera uma escoriao num brao produzida por uma bala.
     Graas a uma merc especial do general-chefe, fora encarregado de transmitir a nova desta vitria  corte austraca, que j se no encontrava em Viena, ameaada pelos Franceses, mas em Brnn. Na prpria noite da batalha, emocionado, mas no fatigado, a despeito da sua compleio assaz delicada - suportava melhor as fadigas fsicas que muitos homens de forte constituio -, chegava a Krems, a cavalo, com um relatrio de Dokturov, dirigido a Kutuzov. Andr fora imediatamente expedido para Brnn, como correio. A sua escolha, alm da distino que implicava, equivalia a uma importante promoo.
     Estava uma noite escura e cheia de estrelas; a estrada desenhava-se a negro na neve que cara na vspera, o dia do combate. Ora rememorando as impresses que a batalha lhe deixara, ora pensando com alegria no efeito que iriam produzir as novas da vitria, e lembrando-se do acolhimento que lhe tinham feito o general-chefe e os seus camaradas, deixava-se levar pela britchka de viagem na sensao de um homem que, depois de muito esperar, v, finalmente, raiar a aurora de uma felicidade muito desejada. Mal fechava os olhos, logo lhe crepitavam nos ouvidos a fuzilaria e as descargas da artilharia,  mistura com o fragor do rodar das viaturas e a sensao da vitria. Outras vezes pensava que os Russos tinham sido derrotados e que ele prprio fora morto em combate; mas logo acordava, num sobressalto, contente por poder verificar que nada disso era verdade, e que, pelo contrrio, tinham sido os Franceses quem debandara. De novo se recordava de todos os pormenores da vitria, da sua calma e da sua bravura durante o combate, e, tranquilizado, adormecia... A noite sombria e estrelada sucedia agora uma manh clara e alegre. A neve fundia aos primeiros raios de sol, os cavalos galopavam, rpidos, e  direita e  esquerda, indefinidamente, desfilavam constantemente novos campos, florestas, povoados.
     Numa das estaes de posta cruzou-se com um comboio de feridos russos. O oficial que o dirigia, deitado numa carroa da vanguarda, cobria de grosseiras injrias um soldado. Compridos carros alemes l iam aos solavancos pela estrada esburacada. Cada um deles levava entre seis e sete feridos, sujos e plidos, todos envoltos em ligaduras. Alguns deles falavam, e pareceu-lhe que se exprimiam em russo, outros comiam po, os mais atingidos olhavam, sem nada dizer, com uma curiosidade tranquila e infantil prpria de doentes, para o correio que ia passando por eles a galope.
     O prncipe mandou parar a britchka e perguntou a um dos soldados em que recontro  que ele tinha sido ferido. Anteontem, no Danbio, respondeu o soldado. Sacando da bolsa, o prncipe deu-lhe trs ducados de ouro.
     -  para todos - disse ele ao oficial que se aproximou. - Tratem de se curar, rapazes, ainda h muito que fazer.
     - Que novidades h? - interrogou o oficial, desejoso de conversar, dirigindo-se ao ajudante-de-campo.
     - Boas! Vamos embora! - gritou para o postilho, e prosseguiu no seu caminho.
     J era escuro quando chegou a Brnn e se viu cercado de altas construes, com lojas e janelas vivamente iluminadas, olhando todos aqueles revrberos, aquelas belas carruagens, que rolavam, estrepitosas, pelos pavimentos, aquela atmosfera animada de grande cidade, que to atraente era para o militar depois da vida em campanha. Apesar da sua rpida viagem e de no ter dormido, ao chegar ao palcio ainda se sentia mais excitado do que na vspera. Nos seus olhos havia um brilho de febre e os pensamentos atravessavam-lhe o crebro com uma rapidez e urna nitidez extraordinrias. Os mais pequenos pormenores do combate se lhe pintavam, vivos, no esprito, no j confusos, mas muito ntidos, no relatrio conciso que ele pensava fazer ao imperador Francisco. Entretanto iam-se representando as perguntas ocasionais que lhe seriam feitas e pensando nas respostas que lhes daria. Supunha que iria ser imediatamente apresentado ao imperador. Mas  entrada nobre do palcio um funcionrio correu ao seu encontro, e, ao ver que se tratava de um correio, conduziu-o para outra porta.
     - No corredor  direita. A encontrar Sua Alta Nobreza o ajudante-de-campo de servio - disse-lhe o funcionrio. - Ele o conduzir at junto do ministro da Guerra.
     O ajudante-de-campo de servio veio ao encontro do prncipe Andr; pediu-lhe que esperasse e foi avisar o ministro da Guerra. Cinco minutos depois voltou a aparecer, e, fazendo uma vnia cheia de deferncia e deixando-o passar adiante, levou-o, ao longo de um corredor, at ao gabinete de trabalho do ministro. O ajudante-de-campo, com a sua requintada cortesia, parecia querer impedir qualquer familiaridade, da parte do oficial russo. A jovial disposio do prncipe Andr foi diminuindo  medida que se aproximava do gabinete do ministro da Guerra. Sentia-se melindrado, e, sem que ele prprio se desse conta disso, esta irritao breve se tomou em profundo desdm, desdm, alis, que nada justificava. O seu esprito inventivo sugeriu-lhe imediatamente algumas reflexes que lhe davam o direito de tratar com um certo desprezo tanto o ajudante-de-campo como o prprio ministro.
     No h dvida, a eles no lhes custa nada obterem vitrias sem lhes cheirar a plvora!, dizia com os seus botes. Piscava o olho com uma expresso trocista e foi propositadamente que penetrou negligente no gabinete do ministro. As suas impresses desfavorveis ainda mais se acentuaram quando se lhe deparou aquela personagem, sentada a uma grande mesa, que permaneceu pelo menos dois minutos sem prestar qualquer ateno ao visitante. O ministro inclinava a cabea calva, com as suas tmporas grisalhas, no meio de dois brandes de cera, enquanto lia, anotando-os a lpis, uns papis que tinha diante de si. Acabava a leitura desses papis, sem nunca ter levantado a cabea, quando a porta se abriu e uns passos se aproximaram.
     - Tome e transmita - disse ele para o ajudante-de-campo, dando-lhe os papis, sem prestar ainda a mais pequena ateno ao correio.
     O prncipe Andr depreendeu que ou o ministro da Guerra prestava menos ateno ao que se passava com o exrcito de Kutuzov do que a qualquer outro assunto que o solicitava, ou ento que era isso mesmo que ele pretendia fazer compreender ao correio russo. Mas isso -me completamente indiferente, murmurou para si mesmo o prncipe Andr. O ministro da Guerra juntou os papis que ficaram em cima da mesa, acertou-os bem, depois levantou os olhos. Tinha uma expresso enrgica e inteligente. Mas, precisamente no momento em que se voltou para o prncipe, este ar de homem inteligente e decidido transformou-se, evidentemente consequncia de um hbito muito consciente. Apenas conservou o sorriso simplrio, hipcrita, que no vale a, pena ocultar, o sorriso do homem que se v obrigado a receber, uns aps outros, muitos peticionrios.
     - Da parte do marechal Kutuzov? - perguntou ele. - So boas notcias, no  verdade? Teve um combate com Mortier? Uma vitria? J era tempo!
     Pegou no ofcio que lhe era pessoalmente dirigido- e ps-se a l-lo, dando sinais de mortificao.
     - Oh, meu Deus! Meu Deus. Schmidt! - exclamou em alemo. - Que desgraa! Que desgraa!
     Tendo lido o ofcio, pousou-o em cima da mesa e olhou para o prncipe Andr, com uma expresso evidentemente muito preocupada.
     - Oh, que desgraa! A operao, diz o senhor,  decisiva? No entanto. Mortier no foi feito prisioneiro. - Ficou um momento pensativo- Felicito-o por me ter trazido boas notcias, ainda que a morte de Schmidt nos faa pagar cara a vitria. Sua Majestade vai querer v-lo, naturalmente, mas hoje no. Muito obrigado. Pode retirar-se. Esteja amanh  sada, depois da parada. De resto, eu o mandarei prevenir.
     O sorriso simplrio, que desaparecera durante a conversa, tomou de novo ao rosto do ministro.
     - At  vista, muito agradecido! O imperador h-de naturalmente querer v-lo - repetiu, numa reverncia.
     Quando deixou o palcio, o prncipe Andr deu-se conta de que todo o interesse e toda a satisfao que a vitria lhe tinha comunicado estavam agora a desvanecer-se, prejudicados pela indiferena de um ministro da Guerra e de um ajudante-de-campo assaz corts. Todo o seu tesouro de bons sentimentos desaparecera num abrir e fechar de olhos: a batalha, para ele, j no era mais que uma recordao longnqua de outrora.
     

     
     
     
     Captulo X
     
     O prncipe Andr tinha-se hospedado em Brnn em casa de um dos seus amigos, o diplomata russo Bilibine.
     - Meu querido prncipe, riem imagina o prazer que me d disse Bilibine, vindo ao encontro do seu hspede.
     - Franz, leva a bagagem do prncipe para o seu quarto de dormir! - prosseguiu, dirigindo-se ao criado que acompanhava Bolkonski - Que me diz? Um mensageiro da vitria? ptimo! Mas eu estou doente, como v.
     O prncipe Andr, depois de se ter lavado e preparado, penetrou no luxuoso gabinete do diplomata e disps-se a fazer as honras a uma refeio expressamente preparada para ele. Bilibine sentou-se, calado, junto do fogo.
     Depois daquela viagem, e sobretudo desde que se encontrava em campanha, privado de todo o conforto de asseio e elegncia, c, prncipe Andr sentia agora, no meio daquele luxo a que estava habituado desde pequeno, uma agradvel impresso de alvio. Alm disso, experimentava uma grande satisfao, depois da recepo dos austracos, em conversar, no em russo, visto que ambos falavam francs, mas com um russo que, como ele supunha, compartilhava da averso geral dos seus compatriotas, naquele momento particularmente viva, por todos os austracos.
     Bilibine era um homem dos seus trinta e cinco anos, celibatrio, e que pertencia  mesma sociedade que o prncipe Andr. Tinham-se conhecido em Petersburgo, mas as suas relaes haviam-se estreitado aquando da ltima estada do prncipe Andr em Viena, na comitiva de Kutuzov. Andr era um moo a quem esperava um brilhante futuro na carreira das armas, mas Bilibine ainda estava destinado a ir mais longe na da diplomacia. Era ainda novo, mas no como diplomata, uma vez que ingressara na carreira com dezasseis anos de idade e que tinha estado em Paris e em Copenhaga e que em Viena, agora, desempenhava um posto importante.
     O chanceler e o embaixador russo em Viena conheciam-no e estimavam-no. No fazia parte do nmero desses diplomatas, bastante vulgares, que julgam necessrio no se ter seno qualidades negativas, absterem-se de certas coisas e falarem bem francs para serem excelentes funcionrios. Ele era desses que gostam de trabalhar e sabem trabalhar, e, no obstante a indolncia de que era dotado, acontecia passar noites inteiras sentado  mesa de trabalho. Fosse qual fosse a tarefa que tivesse a executar, fazia-a sempre bem. O que o interessava no era o porqu das coisas, mas o como. Pouco lhe importava a questo diplomtica a tratar: mas redigir habilmente com finura e elegncia uma circular, um memorando ou um relatrio, isso dava-lhe um grande prazer.- Alm da percia na redaco, apreciava-se nele igualmente o savoir-faire quando era necessrio apresentar-se e falar nas altas esferas.
     Bilibine gostava tanto da conversa como do trabalho, desde que ela fosse espirituosa e distinta. Quando em sociedade, estava sempre  espreita do momento de dizer fosse o que fosse digno de ser notado e s com essa condio consentia embrenhar-se numa conversa. A sua conversao era toda salpicada de frases originais e espirituosas, e de interesse geral. Preparava as suas frases no silncio do gabinete, expressamente para que elas pudessem vir a ser espalhadas, para que as mais significativas pessoas da sociedade pudessem lembrar-se delas facilmente e repeti-las de salo em salo. E, efectivamente, os ditos de esprito de Bilibine espalhavam-se nos sales de Viena, e por vezes tinham influncia nos assuntos considerados srios.
     Era magro de cara, plido e fatigado. Tinha o rosto sempre coberto de grossas rugas regulares e como que bem lavadas, como costuma acontecer s extremidades do corpo depois do banho. O movimento destas rugas constitua o seu principal jogo fisionmico. Ora a fronte se lhe cavava em largas pregas e as sobrancelhas se lhe franziam, ora, pelo contrrio, se lhe abaixavam e nas faces se lhe formavam grossas rugas. Nos seus pequenos olhos, profundamente enterrados nas rbitas, havia sempre um olhar alegre e franco.
     - Ento, conte-nos agora as suas proezas - disse ele. Boikonski, muito modestamente, sem nunca referir o seu prprio nome, contou o que se tinha passado e a recepo que tivera da parte do ministro da Guerra.
     - Fui recebido com bem pouco entusiasmo, eu e as minhas notcias - concluiu.
     Bilibine ps-se a rir e as pregas do rosto desvaneceram-se-lhe.
     - No entanto, meu caro - voltou ele, contemplando as unhas a distncia e piscando o olho esquerdo - apesar da alta estima que eu professo pelo exrcito ortodoxo russo, confesso que a vossa vitria no  das mais famosas.
     Continuou assim a falar francs, no pronunciando em russo seno as frases a que queria atribuir inteno irnica.
     - Como assim? Vocs precipitaram-se com toda a massa das vossas tropas sobre o desgraado do Mortier e da sua nica diviso, e o tal Mortier foge-vos das mos? Onde  que est ento a vitria?
     - Em todo o caso, falando a srio - replicou o prncipe Andr - o certo  que podemos dizer, sem nos vangloriarmos, que sempre foi um poucochinho melhor do que em UIm...
     - E porque  que ento no souberam trazer-nos ao menos um marechal, pelo menos um marechal?
     - Porque nem tudo acontece como  nosso desejo, e regularmente, como na parada de um quartel. Ns pensvamos, como lhe dissemos, estar na retaguarda dos Franceses s sete horas da manh, e s cinco da tarde ainda l no tnhamos chegado.
     - E porque  que vocs no conseguiram estar l s sete horas da manh? Era a essa hora que deviam ter chegado - disse, sorrindo. Bilibine - Era preciso ter chegado s sete horas da manh.
     - E porque  que vocs no sugeriram a Bonaparte, pelas vias diplomticas, que teria sido melhor v-lo deixar Gnova? - disse o prncipe Andr no mesmo tom.
     - Sim, bem sei - interrompeu Bilibine- Bem sei, est a pensar que no h nada mais fcil que aprisionar marechais sem sair do canto do fogo.  verdade, mas, ainda assim, por que diabo  que vocs no aprisionaram um? No se mostre surpreendido de ver que o ministro da Guerra, assim como o seu augusto soberano, o imperador e rei Francisco, no ficam extraordinariamente contentes com a vossa vitria, e que eu prprio, um pobre secretrio da Embaixada da Rssia, no me sinto na necessidade, em sinal de satisfao, de presentear o meu criado Franz com um thaler para que ele v passear corria sua Liebchen at ao Prater.., embora seja verdade que aqui no h nenhum Prater...
     Fitou nos olhos o prncipe Andr e de sbito toda a pele da testa se lhe desenrugou.
     - Agora, meu caro, cabe-me a vez de lhe pr um porqu - disse Bolkonski. - Confesso-lhe que no percebo...  possvel que haja aqui qualquer subtileza diplomtica muito acima do meu fraco entendimento, mas uma coisa h que eu no compreendo: Mack perde todo o seu exrcito, o arquiduque Fernando e o arquiduque Carlos no do sinais de vida e cometem erros sobre erros; enfim, apenas Kutuzov consegue obter uma verdadeira vitria, quebrar o charme dos Franceses e o ministro da Guerra no se interessa sequer por conhecer pormenores.
     - Ora a est precisamente o problema, meu caro. Est a ver, meu caro: hurra pelo czar, pela Rssia, pela f! Tudo isso  muito bonito, mas a ns que nos importam, quero dizer,  corte da ustria, que nos importam a ns as vossas vitrias? Tragam-nos uma boa vitria dos arquiduques Carlos ou Fernando, vale tanto um como o outro, como muito bem sabe, ainda que no seja seno uma vitria contra uma companhia de bombeiros de Bonaparte, e, ento, isso seria outra coisa, e c estaramos ns para a proclamar a salvas de canho. Enquanto que o presente caso parece de propsito para nos irritar. O arquiduque Carlos nada faz, o arquiduque Fernando cobre-se de oprbrio. Abandona-se Viena, no se defende mais Viena;  como se nos dissesse: Deus est connosco, mas vocs, vocs vo l passear com a vossa capital. Vocs tinham um general, chamado Schmidt, de quem todos ns gostvamos. Vocs mandam-no para a linha de fogo, e depois vm-nos cantar vitria! Tem de concordar que no h nada mais exasperante que estas notcias que voc nos traz.  como se fosse de propsito, como se fosse de propsito. E, alm disso, mesmo que vocs tivessem obtido realmente uma brilhante vitria, mesmo que o arquiduque Carlos tivesse obtido uma vitria, em que  que isso iria alterar a marcha geral dos acontecimentos? Agora  tarde, agora que Viena j foi ocupada pelas tropas francesas.
     - Ocupada, como? Pois Viena est ocupada?
     - No s ocupada, mas Bonaparte est em Shoenbrnn e o conde, o nosso querido conde Wrbna, est pronto a receber as suas ordens.
     Bolkonski, depois das impresses de viagem, do acolhimento que recebera, sobretudo depois do jantar que acabava de digerir, to fatigado estava que se dava conta de que j no compreendia muito bem o sentido das coisas que lhe diziam.
     - Esta manh mesmo esteve aqui o conde Lichtenfeld - prosseguiu Bilibine -, que me mostrou uma carta onde se descrevia em pormenor a parada dos Franceses em Viena. O prncipe Murat e toda a sua pompa... Como v, a vossa vitria no  grande motivo de alegria. O prncipe no podia ser recebido como um salvador.
     - A falar verdade, para mim isso -me indiferente, absolutamente indiferente - disse o prncipe Andr, que acabava de compreender que o combate de Krems tinha realmente pouca importncia ao p de acontecimentos magnos como a tornada da capital austraca.- Que me diz? Ento Viena foi tomada! E a ponte, e a famosa testa de ponte e o prncipe Auersperg? Entre ns tinha corrido o boato de que o prncipe Auersperg era o defensor da cidade.
     - O prncipe Auersperg est do lado de c do rio, do nosso lado, e defende-nos a ns. Na minha opinio, acho que ele nos defende muito mal, mas defende-nos. Viena, porm, fica na outra, margem. No, a ponte ainda no foi tomada, e espero que o no seja, visto estar minada e haver ordem para a fazer ir pelos ares. Se assim no fosse, h muito tempo que ns estaramos nas montanhas da Bomia, e o vosso exrcito j teria passado um mau quarto de hora, apanhado entre dois fogos.
     - Mas, em todo o caso, isso no quer dizer que a campanha tenha acabado - observou o prncipe Andr,
     - Na minha opinio j acabou. E  o que pensam os grados destas paragens, embora no tenham coragem de o dizer. Acontecer o que eu dizia no princpio da guerra, que no ser o vosso fracasso de Drenstein e, de maneira geral, a plvora, que resolvero a questo, mas aqueles que a inventaram... - acrescentou Bilibine, repetindo um dos seus ditos espirituosos; aps o que desfranziu a pele da testa e fez uma pausa. - O problema est em saber o que se vai decidir na entrevista de Berlim entre o imperador Alexandre e o rei da Prssia. Se a Prssia entrar na aliana, leva-se a ustria  parede, e haver guerra. Se o no fizer, tudo consistir em as partes se entenderem para formular os primeiros artigos de um novo Campo Frmio.
     - Mas que gnio extraordinrio! - exclamou, subitamente, o prncipe Andr, cerrando o seu pequeno punho e batendo com ele em cima da mesa. - E que sorte tem esse homem!
     - Buonaparte? - perguntou Bilibine, franzindo a testa e sugerindo assim que ia chegar um dito de esprito - Buonaparte? - repetiu, acentuando especialmente o u. - Em todo o caso, visto que ele agora, de Schoenbrn, dita leis  ustria, concedamos-lhe a queda do u. Decididamente, fao uma inovao e chamo-lhe Bonaparte simplesmente,
     - Zombaria  parte - interrompeu o prncipe Andr. - Acha que a campanha est terminada?
     - Eis a minha opinio: a ustria  o per da farsa, e a verdade  que no est habituada a isso. E ela acabar por se vingar. Encontra-se nesta situao, antes de mais nada, porque as suas provncias esto devastadas - dizem que o exrcito ortodoxo  terrvel no saque -, o exrcito est vencido, a capital foi tomada e tudo isto pelos lindos olhos de Sua Majestade da Sardenha. Por isso mesmo, entre ns, meu caro, cheira-me que nos esto a enganar, cheira-me a um entendimento com a Frana e a projectos de paz, uma paz secreta feita separadamente.
     - Isso no pode ser! - exclamou o prncipe Andr. - Seria indigno.
     - Quem viver ver - replicou Bilibine, desfranzindo de novo a testa, para indicar que tinha acabado a conversa.
     Quando o prncipe Andr se recolheu ao quarto que lhe tinham preparado e se estendeu entre os lenis brancos, numa cama de penas, e pousou a cabea em almofadas tpidas e perfumadas, teve a impresso de que a batalha cuja vitria viera anunciar estava longe, muito longe. A aliana prussiana, a traio da ustria, o recente triunfo de Bonaparte, a revista militar a que o imperador iria assistir e a recepo que o esperava para o dia seguinte tudo isso lhe ocupava o esprito.
     Fechava os olhos, mas, nesse mesmo instante, enchiam-se-lhe os ouvidos do rudo da fuzilaria, das descargas dos canhes, do rodar das viaturas, e eis que de novo desciam das montanhas os mosqueteiros cai Unha de atiradores; os Franceses disparavam, o corao batia-lhe e dirigia-se para as primeiras linhas com Schmidt, enquanto as balas assobiavam alegres em tomo dele, e ele, prncipe Andr, sentia como que uma sensao da vida multiplicada, coisa que no tornara a sentir desde a infncia. Acordou...
     Ah, tudo isto j vai longe!..., murmurou, sorrindo para si mesmo, com um sorriso feliz e infantil, e voltou, a adormecer, mergulhando num sono despreocupado e profundo.
     

     
     
     
     Captulo XI
     
     No dia seguinte acordou tarde. Ao recordar as impresses passadas, a primeira coisa de que se lembrou foi que seria nesse dia apresentado ao imperador Francisco: depois pensou no ministro da Guerra, no ajudante-de-campo austraco, todo oficioso, em Bilibine e na conversa que com ele tivera na vspera. Tendo envergado o seu uniforme de gala, que h muito no vestia, a fim de se apresentar no palcio, com a sua tez fresca e remoada, com um belo aspecto moo, o brao em barideirola, penetrou no gabinete de Bilibine. Ali estavam quatro personalidade, do corpo diplomtico. Bolkonski j conhecia o prncipe Hiplito Kuragune, secretrio da Embaixada; Bilibine apresentou-o aos restantes.
     Estes cavalheiros, pessoas da sociedade, jovens, ricos e alegres companheiros, tanto em Viena como em Brnn formavam uma roda  parte a que Bilibine, como que o seu chefe, chamava os nossos... Esta roda, quase exclusivamente composta de diplomatas, no se interessava pelos assuntos militares e polticos, e s uma coisa a preocupava: a vida da alta sociedade, algumas relaes femininas e problemas de carreira. Acolheu no seu seio o prncipe Andr com vivo prazer e como se fosse um dos seus, honra que concedia a muito poucas pessoas. Por cortesia, e para entabular conversa, dirigiram-lhe algumas perguntas sobre o exrcito e a batalha que se tinha travado e de novo a conversa se dispersou em ditos sem continuidade, gracejos e mexericos.
     - Mas o cmulo - disse um deles, que estava a contar a histria, de um camarada que fora posto em xeque -, o cmulo  que o chanceler lhe disse cara a cara que a sua nomeao para Londres era uma promoo, e que ele como tal a considerava. Imaginem a cara dele ao ouvir estas palavras...
     - Mas o que  mais grave, meus senhores.  que eu vou atraioar o Kuraguine - aqui est este D. Juan, este homem terrvel, que aproveita a infelicidade dos outros!
     O prncipe Hiplito estava afundado numa poltrona, com as pernas apoiadas nos braos da cadeira. Ps-se a rir. 
     - Fale-me disso - disse ele.
     - Oh! D. Juan! Oh! Serpente! - exclamaram vrias vozes. - Talvez no saiba. Bolkonski - disse Bilibine, dirigindo-se ao prncipe Andr -, que todas as atrocidades cometidas pelo exrcito francs, e ia a dizer pelo russo, nada so comparadas com as devastaes que este homem tem feito entre as mulheres,
     - A mulher  a companheira do homem - declarou Hiplito, contemplando as suas prprias pernas por detrs dos vidros do lorgnon.
     Bilibine e os nossos romperam a rir, olhando curiosamente para Hiplito. O prncipe Andr compreendeu que este Hiplito, de que quase sentira cimes por causa da sua atitude para com a mulher, coisa que, ele intimamente reconhecia, era o bobo daquela sociedade.
     - Ah!, tenho de lhe apresentar uma amostra de Kuraguine - disse muito baixo Bilibine a Bolkonski. -  impagvel quando fala de poltica.  preciso ver os ares importantes que toma.
     Sentou-se ao p de Hiplito e chamando  testa as pregas das coisas srias ps-se a conversar com ele sobre poltica. Andr e os outros formaram crculo em volta deles.
     - O Gabinete de Berlim no pode exprimir um sentimento de aliana - principiou Hiplito Kuraguine, fitando o auditrio com um olhar de entendido - sem exprimir.., como na sua ltima nota.., compreende.., compreende.., e depois Sua Majestade o Imperador no anula o princpio da nossa aliana... Espere, ainda no acabei - disse para o prncipe Andr, pegando-lhe num brao. - Acho que a interveno ser mais forte que a no interveno. - Calou-se um momento. - E no podero invocar por fim no terem recebido o nosso ofcio de 28 de Outubro. Aqui tm como tudo acabar.
     Soltou o brao de Bolkonski para indicar que tinha concludo. 
     - Demstenes, reconheo-te pelo calhau que escondeste na tua boca de ouro - exclamou Bilibine, cujo topete estremecia com as gargalhadas.
     Todos se puseram a rir. Hiplito ainda mais do que os outros. No podia mais, sufocava, mas no conseguia reter o estrpito desordenado de um riso que lhe distendia todos os traos do rosto, ordiriariamente inexpressivo.
     - Vou fazer-lhes uma proposta, meus senhores - disse Bilibine - Bolkonski  meu hspede, e temo-lo aqui, em Brnn, e  meu desejo que lhe faamos as honras, tanto quanto nos seja possvel, de todas as distraces que se podem encontrar aqui. Se estivssemos em Viena, a coisa era fcil. Mas aqui, neste horrvel buraco morvio,  mais difcil e peo-vos a todos que me ajudem.  preciso fazer as honras de Brnn. Vocs encarreguem-se do teatro; eu trato do problema mundano. Tu. Hiplito, claro est, encarregas-te das mulheres.
     - Temos de lhe mostrar a Amlia;  uma prola! - interrompeu um dos nossos, beijando a ponta dos dedos.
     - Numa palavra, este sanguinrio militar - disse Bilibine -, temos de o tornar homem de sentimentos mais humanitrios. - Mal tive tempo de gozar o prazer da vossa companhia, meus senhores, e j sou obrigado a deix-los - disse Bolkonski, consultando o relgio.
     - E aonde vai?
     - Ver o imperador.
     - Oh! Oh!
     - Bom, at  vista. Bolkonski! At  vista, prncipe! Venha ento jantar cedo! - exclamaram vrias vozes - Contamos consigo.
     - No deixe de fazer o elogio da intendncia para o servio dos abastecimentos e de transportes na sua entrevista com o imperador - disse Bilibine ao reconduzir Bolkonski.
     - Gostaria muito, mas sinto-me incapaz - respondeu este, sorrindo.
     - Enfim, faa o que puder e fale muito. Ele adora as audincias e no gosta de falar, nem sabe, como vai ter ocasio de verificar.
     

     
     
     
     Captulo XII
     
     Na parada, o imperador Francisco contentou-se em conceder um olhar ao prncipe Andr, que se encontrava no local indicado no meio dos oficiais austracos, e em dirigir-lhe um aceno com a sua grande cabea. Mas, depois desta cerimnia, o ajudante-de-campo que o recebera na vspera aproximou-se do prncipe, cortesmente, para lhe comunicar que o imperador desejava conceder-lhe uma audincia. O monarca recebeu-o de p no meio do seu gabinete. Antes mesmo de se proferirem as primeiras palavras, o prncipe Andr notou o embarao do imperador, que corava e no sabia que dizer.
     - Diga-me c, quando  que principiou a batalha? - inquiriu com precipitao.
     O prncipe Andr respondeu-lhe. Outras perguntas vieram atrs desta, e to banais como ela: Est Kutuzov de sade? J chegou h muito tempo a Krems?, etc. Dir-se-ia que o imperador no tinha outro objectivo seno formular um nmero determinado de perguntas. Quanto s respostas, era evidente que elas no lhe interessavam.
     - A que horas principiou a batalha? - perguntou.
     - No passo precisar a Vossa Majestade a que horas comearam as hostilidades na frente militar, mas em Drenstein, onde eu me encontrava, as tropas atacaram as dez da noite - replicou Bolkonski com animao, supondo que naquela altura lhe seria dado fazer a descrio verdica, j preparada na sua mente, de tudo quanto sabia e vira.
     Mas o imperador sorriu e interrompeu-o: 
     - Quantas milhas?
     - Desde onde e at que ponto Majestade?
     - De Drenstein a Krems.
     - Trs milhas e meia. Majestade.
     - Os Franceses abandonaram a margem esquerda?
     - Segundo o que sabemos pelos nossos informadores, os ltimos atravessaram o rio de noite em jangadas.
     - Em Krems h forragens com abundncia?
     - No as forneceram em tais quantidades...
     O imperador cortou-lhe a palavra:
     - A que horas foi morto o general Schmidt?
     - s sete, segundo parece.
     - s sete horas! Muito triste! Muito triste!
     Acrescentou que lhe agradecia e fez uma vnia. O prncipe Andr saiu e viu-se imediatamente cercado pelos cortesos. De todos os lados lhe lanavam olhares amveis: s ouvia gentilezas em tomo de si. O ajudante-de-campo da vspera censurou-o por se no ter hospedado no palcio e ofereceu-lhe a sua casa. O ministro da Guerra aproximou-se para o felicitar pela cruz de Maria Teresa, de 3 classe, que o imperador lhe conferira. O camarista da imperatriz convidou-o a apresentar-se nos aposentos de Sua Majestade. A arquiduquesa tambm o quis ver. No sabia a quem prestar ateno e durante alguns minutos procurou concentrar-se. O embaixador da Rssia tomou-o pelo brao, arrastou-o para o vo de uma janela e ps-se a fazer-lhe perguntas.
     A despeito das previses de Bilibine, a notcia que ele trazia fora recebida com alegria. Deu-se ordem para se realizar um Te Deum em aco de graas. Kutuzov foi agraciado com a gr-cruz de Maria Teresa e todo o exrcito recebeu condecoraes e louvores. Bolkonski teve convites de toda a parte e durante toda a manh viu-se obrigado a fazer visitas aos principais dignitrios austracos. Depois de terminadas estas visitas, as cinco horas da tarde, ruminando j a carta que tinha de escrever a seu pai, a propsito da batalha e da jornada a Brnn, regressou a casa de Bilibine. Diante da escadaria estava parada uma britchka, meio carregada de bagagens, e Franz, o criado de Bilibine, apareceu  porta sobraando uma grande mala.
     Antes de voltar para casa de Bilibine, o prncipe Andr fora a uma livraria abastecer-se de livros para se distrair durante a campanha e ali se tinha demorado bastante.
     - Que se passa? - perguntou.
     - Ah! Excelncia! - disse Franz, instalando, com dificuldade, a mala em cima da britchka. - Mudamos de casa. O bandido est j em cima de ns (Em alemo no texto russo. (N, dos T.).
     - Que aconteceu? O que ? - interrogou o prncipe Andr. Bilibine veio ao seu encontro. O seu rosto, sempre to calmo, estava emocionado.
     - No, no, confessemos que  encantadora - disse ele - esta histria da ponte de Thabor. (Era uma ponte de Viena). Atravessaram-na sem disparar um tiro.
     O prncipe Andr, no percebia nada.
     - Mas donde vem que no sabe uma coisa que todos os cocheiros da cidade j conhecem?
     - Venho de casa da arquiduquesa. Nada me disseram. F no viu que toda a gente est a fazer as malas?
     - No... De que se trata? - perguntou o prncipe Andr com impacincia.
     - De que se trata? Trata-se de que os Franceses atravessaram a ponte que Auersperg defendia. No a fizeram ir pelos ares, de modo que Murat j a vem a galope pela estrada de Brnn e que ainda hoje ou amanh estar aqui.
     - Qu? Aqui? E porque  que no fizeram saltar a ponte, se estava minada?
     -  isso que eu lhe pergunto.  o que ningum sabe, nem mesmo Bonaparte.
     Bolkonski encolheu os ombros.
     - Ento, se a ponte foi atravessada, isso quer dizer que o exrcito est perdido. Vai ter a retirada cortada - disse ele.
     -  precisamente isso - replicou Bilibine - Oua. Os Franceses entram em Viena, como eu lhe disse. Est certo. No dia seguinte, quer dizer, ontem, os senhores marechais Murat. Lannes e Belliard montam a cavalo e dirigem-se para a ponte. Note que so todos trs gasces. Meus senhores, diz um deles, os senhores sabem que a ponte de Thabor est minada e contraminada e que  precedida de uma terrvel testa de ponte, com quinze mil homens que receberam ordens de a fazer saltar e de nos impedir de a atravessar. Mas ao nosso imperador Napoleo seria muito agradvel que ns a tomssemos. Vamos ns os trs e tomemos a ponte. Vamos, responderam os outros. E l vo os trs, e tomam a ponte, atravessam-na, e agora, com todo o seu exrcito deste lado do Danbio, dirigem-se sobre ns, sobre vocs e sobre as vossas comunicaes.
     - Basta de gracejos - disse o prncipe Andr, num tom grave e triste. A notcia, para ele, era ao mesmo tempo penosa e agradvel.
     Desde que soubera que o exrcito russo se encontrava numa situao perigosa, viera-lhe ao esprito ser ele a pessoa destinada a salv-lo da situao em que se encontrava, que aquilo seria o seu Toulon, que o arrancaria  obscuridade de simples oficial para lhe abrir o caminho da glria. Ouvindo Bilibine, via-se j de volta do exrcito, no conselho de guerra, onde exporia a nica sugesto que salvaria as tropas e seria encarregado de pr em prtica o seu plano.
     - Basta de gracejos - repetiu,
     - No estou a gracejar - continuou Bilibine - Nada h de mais verdadeiro e mais triste. Aqueles cavalheiros chegam sozinhos  ponte e acenam com lenos brancos. Afirmam que existe um armistcio e que eles, os marechais, vm parlamentar com o prncipe Auersperg. O oficial de servio f-los penetrar na testa de ponte. Eles contam-lhe uma enfiada de bazfias: dizem-lhe que a guerra acabou, que o imperador Francisco marcou uma entrevista com Bonaparte, que eles precisam de se encontrar com o prncipe Auersperg, numa palavra, todas as bazfias deste e do outro mundo. O oficial manda procurar Auersperg. Aqueles senhores abraam os oficiais, dizem faccias. Cavalgam as peas de artilharia e entretanto um batalho francs penetra por debaixo da ponte, sem ser visto, lana  gua os sacos com as matrias incendirias e avana para a testa de ponte. Por fim, chega o prprio tenente- general, o nosso prncipe Auersperg von Mautern. Caro amigo! Flor do exrcito austraco, heri das guerras turcas! A nossa inimizade acabou, podemos apertar as nossas mos... O imperador Napoleo est morto por conhecer o prncipe Auersperg. Numa palavra, aqueles cavalheiros, para alguma coisa so gasces, to bonitas palavras dizem a Auersperg, to lisonjeado ele se sente com esta sbita intimidade com os marechais franceses, est to deslumbrado com a presena do manto e das plumas de avestruz de Murat, que s v o fogo dele e se esquece do que devia fazer contra o inimigo. (Apesar do interesse da sua histria. Bilibine no se esqueceu de fazer uma pausa depois de pronunciar a frase, para dar tempo a ser bem apreciada). O batalho francs entra em passo acelerado na testa de ponte, encrava os canhes e a ponte  tomada. Mas, ainda falta o melhor da histria - prosseguiu ele, deixando  graa que encontrava na sua prpria narrativa o cuidado de serenar a sua prpria emoo -, o que ainda  mais curioso  que o sargento de guarda ao canho que devia dar o sinal da inflamao da mina, ao ver chegar os Franceses, quis disparar, mas Lannes segurou-lhe no brao. O sargento, que naturalmente era mais inteligente do que o general, aproximou-se de Auersperg e disse-lhe: Prncipe, esto a ludibri-lo, aqui esto os Franceses! Murat, vendo que perderia a partida se deixasse prosseguir o sargento, dirige-se a Auersperg com uma surpresa fingida, como verdadeiro gasco que : No estou a reconhecer a disciplina austraca to apregoada, observa; consente que um subalterno lhe fale nestes termos?.  genial. O prncipe Auersperg sente-se ofendido e manda prender o sargento. No, mas confessem que  encantadora esta histria da ponte de Thabor. No  estupidez nem cobardia.
     -  talvez traio - disse o prncipe Andr, vendo diante dos seus olhos os capotes cinzentos, os feridos, o fumo da plvora, o crepitar da fuzilaria e a glria que o aguardava.
     - Tambm no. Isso pe a Coroa em maus lenis - prosseguiu Bilibine - No  traio, nem cobardia, nem estupidez;  como em Ulm... - Fez meno de reflectir, procurando o que havia de dizer - ...  estilo Mack. Estamos macks - disse, por fim, contente com a palavra que descobrira, uma palavra novinha em folha, uma dessas palavras que deveriam ser repetidas.
     As rugas que at ali se lhe tinham acumulado na testa desapareceram subitamente, o que traduzia a sua satisfao, e, com um ligeiro sorriso, ps-se a olhar para as unhas.
     - Aonde vai? - lanou ele, de repente, ao prncipe Andr, que se levantara para retirar-se.
     - Vou-me embora.
     - Para onde?
     - Para o exrcito.
     - Mas tinha dito que ainda ficaria dois ou trs dias!
     - Disse, mas agora resolvi partir imediatamente.
     E o prncipe Andr, depois de ter dado ordens para se preparar a partida, retirou-se para os seus aposentos.
     - Quer saber, meu caro - disse Bilibine entrando nos aposentos do prncipe. - Pensei melhor. Porque  que se vai embora? E para prova de que o seu raciocnio era indiscutvel, todas as rugas do rosto se lhe desvaneceram.
     O prncipe Andr interrogou com os olhos o interlocutor, sem responder.
     - Porque  que se vai embora? Sei que entende que o dever lhe impe que se apresse a juntar-se s tropas, agora que o exrcito russo est em perigo. E eu compreendo isso, meu caro,  herosmo.
     - De maneira nenhuma - replicou o prncipe Andr. 
     - Mas o senhor  um filsofo. Seja ento um verdadeiro filsofo integralmente: encare as coisas de outro ponto de vista e chegar  concluso de que o seu dever, pelo contrrio,  proteger-se contra o perigo. Deixe isso para aqueles que no tm prstimo para coisa alguma... No lhe deram ordens para regressar e no o despediram ainda daqui. Por isso pode ficar e ir connosco para onde nos levar a nossa pouca sorte. Parece que vamos para Olmtz.  uma linda cidade. E faremos os dois a viagem juntos, tranquilamente, na minha caleche.
     - Deixe-se de brincadeiras. Bilibine - disse Bolkonski.
     - Falo-lhe com toda a sinceridade, e como se falasse a um amigo. Raciocinemos. Porque  que vai partir quando pode perfeitamente ficar aqui? De duas, uma (as rugas formaram-se-lhe em volta da fronte esquerda): ou a paz ser assinada antes que tenha tempo de chegar ao seu destino, ou ento ir assistir ao desastre e  vergonha de todas as foras de Kutuzov.
     E Bilibine desfranziu a testa, persuadido de que o seu dilema era irrefutvel.
     - No posso raciocinar dessa maneira - replicou, friamente, o prncipe Andr, e para si mesmo murmurou: Eu parto exactamente para salvar o exrcito.
     - Meu caro, o senhor  um heri - concluiu Bilibine.
     

     
     
     
     Captulo XIII
     
     Nessa mesma noite, depois de se ter despedido., ministro da Guerra. Bolkonski partiu para, se juntar ao exrcito, sem saber sequer onde poderia encontr-lo e correndo o risco , inclusivamente, de ser feito prisioneiro pelos Franceses em plena estrada. 
     Em Brnn toda a corte preparava as suas malas, e as bagagens pesadas j tinham sido expedidas para Olmtz. Perto de Etzelsdorf, o prncipe Andr encontrou-se na estrada por onde retirava a toda a pressa, e na maior desordem, o exrcito russo. A estrada estava to atravancada com as viaturas que a carruagem no podia avanar. Depois de ter pedido um cavalo ao comandante dos cossacos, o prncipe Andr, esfomeado e a cair de fadiga, ultrapassou as viaturas e partiu  procura do general-chefe e da sua carruagem. Ao longo do caminho chegavam-lhe aos ouvidos os boatos mais sinistros e o certo  que a desordem daquele exrcito em fuga confirmava esses boatos.
     A esse exrcito russo, transportado dos confins do universo pelo ouro da Inglaterra, vamo-lo sujeitar ao mesmo destino (o destino do exrcito de Ulm). Lembrava-se destas palavras da proclamao de Bonaparte s tropas no princpio da campanha e estas palavras despertavam nele um sentimento de admirao por esse heri de gnio,  mistura com o orgulho ferido e o desejo de glria, E se me no resta seno morrer?, pensava ele. E ento! Se assim for preciso, saberei morrer to bem como os outros!
     O prncipe Andr contemplava com tristeza essas filas interminveis de destacamentos, de carroas, de parques de artilharia ( ainda de galeras, e viaturas de todos os modelos possveis que se confundiam, se ultrapassavam umas s outras, em trs, quatro filas, obstruindo a estrada enlameada. De todos os lados, atrs, - adiante, to longe quanto o permitia a transmisso do som, s se ouvia o estrondo de rodas, carroas, galeras, patas de cavalo, estalidos de chicote, gritos, injrias dos soldados, das ordenanas e dos oficiais. Nas bermas da estrada viam-se a todo o instante quer cavalos rebentados ou meio mortos, quer viaturas despedaadas, ao p das quais, esperando no se sabia qu, soldados isolados se sentavam, quer tropas em debandada, que se dirigiam em grupo para os povoados vizinhos e de l traziam galinhas, carneiros, forragens ou sacos a abarrotar. Nas subidas e nas descidas a multido tornava-se mais densa e ouvia-se um clamor constante. Soldados com lama at aos joelhos procuravam agarrar-se aos canhes e s viaturas enquanto os chicotes estalavam, as patas dos cavalos escorregavam, os freios se partiam e as vociferaes pareciam rebentar os peitos. Os oficiais que vigiavam a marcha iam e vinham pelo meio das viaturas. As suas vozes de comando perdiam-se no meio do alarido geral e via-se, pela expresso dos seus rostos, que se sentiam impotentes para impedir a desordem.
     Eis aqui o querido exrcito ortodoxo!, dizia Bolkonski de si para consigo, lembrando-se das palavras de Bilibine.
     Na esperana de perguntar a um desses homens onde se encontrava o general-chefe, aproximou-se de uma viatura. Precisamente do seu lado oposto avanava uma estranha carruagem, tirada por um nico cavalo, evidentemente arranjada pelos soldados com o que lhes viera s mos, e que era um misto de telega, de cabriol e de caleche. Conduzia-a um soldado, e uma mulher toda embrulhada em xales ia sentada debaixo do tejadilho de couro. O prncipe Andr aproximou-se e dispunha-se j a dirigir-se ao soldado quando reparou nos gritos desesperados que essa mulher soltava. O oficial que dirigia o comboio chicoteava o soldado que conduzia a caleche porque ele queria ultrapassar os demais, e o chicote tinha atingido a cobertura da carruagem. A mulher soltava gritos agudssimos. Ao ver o prncipe Andr, deitou a cabea fora da cobertura, agitando os braos magros libertos dos xales, e gritou:
     - Senhor ajudante-de-campo, senhor ajudante-de-campo... Por piedade... Proteja-me... Que vai ser de ns?... Sou a mulher do mdico do 7 de caadores... No nos deixam passar: ficmos para trs, perdemo-nos dos nossos...
     - Volta para trs ou esborracho-te como uma carocha! - gritava ao soldado o oficial iracundo. - Volta para trs com a tua caranguejola.
     - Senhor ajudante-de-campo, proteja-me! Que quer isto dizer? - gritava a mulher do mdico.
     - Deixem passar este carro. No vem que leva uma mulher? - disse o prncipe Andr, avanando para o oficial. Este olhou para ele e sem responder voltou-se para o soldado:
     - Eu vou ensinar-te como elas cantam... Para trs! - Deixe-o passar, j lhe disse - repetiu o prncipe, de dentes cerrados.
     - E tu, quem s tu? - lanou, de repente, o oficial, voltando-se para o prncipe num ataque de fria. - Quem s tu? Tu. (E era com uma entoao particularmente ofensiva que ele pronunciava esta palavra.) s o comandante, talvez? Aqui o comandante sou eu, e no tu. Para trs, tu - repetia -, ou esborracho-te como uma carocha.
     A expresso tinha-lhe agradado, sem dvida.
     -  espevitado, o ajudantezinho-de-campo! - exclamou uma voz atrs dele.
     O prncipe Andr viu perfeitamente que o oficial estava num desses paroxismos de clera em que as pessoas j no sabem o que dizem. Percebeu que a sua interveno em defesa da mulher da carripana estava a dois passos de o lanar naquilo que ele mais receava no mundo: o ridculo. Mas o seu instinto venceu-o. Assim que o oficial acabou de falar, aproximou-se dele com uma expresso transtornada pela ira, puxando do chicote.
     - Queira deixar passar! - gritou, escandindo as palavras.
     O oficial esboou um gesto e deu-se pressa em afastar-se.
     -  tudo por causa deles, destes tipos do estado-maior - resmungou ele. - Faa o que quiser.
     O prncipe Andr, apressadamente, sem erguer os olhos, afastou-se da mulher do mdico, que lhe chamava seu salvador, e, lembrando-se com desgosto dos mnimos pormenores desta cena confrangedora, galopou at  povoao onde, como lhe tinham dito, se encontrava o general-chefe.
     Assim que chegou, apeou-se e dirigiu-se  primeira casa que viu, na inteno de descansar um instante, de comer qualquer coisa e de pr um pouco de ordem nos penosos pensamentos que o assaltavam.  uma leva de bandidos, no  um exrcito, dizia ele de si para consigo, aproximando-se de uma janela. Nessa altura uma voz conhecida chamou-o pelo nome.
     Voltou-se. A uma janelinha assomava a bonita mscara de Nesvitski, que estava a comer, na companhia de outro ajudante-de-campo. Apressou-se, a perguntar a Bolkonski se ele no sabia nada de novo. Naquelas mscaras muito suas conhecidas lia o prncipe Andr preocupao e inquietude. Era sobretudo a expresso habitualmente risonha de Nesvitski que mais o impressionava.
     - Onde est o general - chefe? - perguntou Bolkonski. - Aqui mesmo, naquela casa - respondeu o ajudante-de-campo, com um gesto.
     - Ento  verdade que vo assinar a paz e a capitulao? - perguntou Nesvitski.
     -  isso que eu lhes pergunto. Nada sei seno que me vi e desejei para vos encontrar.
     - E o que se passa aqui, camarada,  horroroso! Tenho de pedir desculpa, camarada. Fizemos troa de Mack, mas o certo  que a nossa situao  bem pior - disse Nesvitski. - Senta-te e como qualquer coisa.
     - A esta hora, prncipe, j no encontrar nem uma carroa nem nada, e o seu Piotre (Aluso a Bagration, cujo nome completo era Piotre Ivanovitch Bagration. (N, dos T.) s Deus sabe onde est - disse o outro oficial.
     - Ento onde  que est o quartel-general?
     - Vamos dormir em Znairri.
     - C por mim, tratei de carregar tudo de que preciso em cima de dois cavalos - disse Nesvitski - e arranjaram-me umas ptimas albardas. Estou preparado para atravessar os montes da Bomia. As coisas esto feias, meu filho. Mas que tens tu? Pareces plido. Porque , que ests a tremer? - perguntou Nesvitski, ao ver que o prncipe Andr estremecia, como se tivesse tocado numa garrafa de Leyde.
     - No tenho nada - replicou.
     Recordara-se naquele momento do recente encontro com a mulher do mdico e do oficial do comboio.
     - Que faz aqui o general - chefe? - inquiriu.
     - No percebo nada - disse Nesvitski.
     - Tudo o que eu posso compreender  que isto  uma vergonha, e vergonha a dobrar! - exclamou Q prncipe Andr e dirigiu-se para a habitao onde estava o general-chefe.
     Ao passar viu a carruagem de Kutuzov, os cavalos de sela da comitiva, extenuados, e os cossacos que conversavam em voz baixa. Depois penetrou no vestbulo. Tal qual como lhe tinham dito, o prprio Kutuzov l estava na companhia do prncipe Bagration e de Weirother. Weirother era o general austraco que tinha substitudo Schmidt. No vestbulo, o pequeno Kozlovski estava de ccoras diante de um escriba. Este escrevia precipitadamente sobre uma cuba voltada de fundo para o ar, com as mangas do uniforme arregaadas. Kozlovski tinha um aspecto desfeito. Via-se perfeitamente que tambm ele no pregara olho em toda a noite. Olhou para o prncipe Andr sem lhe fazer sequer um aceno de cabea.
     - Na segunda linha... Est escrito? - continuou ele, ditando - os regimentos de granadeiros de Kiev, de Podolski...
      - No consigo acompanh-lo. Vossa Alta Nobreza - interrompeu o escriba, sem grande respeito, colrico, erguendo os olhos para o oficial.
     Atravs da porta ouviu-se nesta altura a voz animada e descontente de Kutuzov, interrompida por outra voz desconhecida. Pelo tom destas vozes, pela pouca ateno que Kutuzov lhes prestara, pelo desrespeito deste escriba que caa de cansao, por este mesmo escriba e Kozlovski estarem sentados no cho, junto de uma cuba, to perto do general-chefe, pelo facto de os cossacos que guardavam os cavalos rirem alto mesmo junto da janela, por tudo isto, o prncipe Andr concluiu que se deviam ter passado coisas sumamente lamentveis,
     Interrogou Kozlovski com impacincia.
     - J vou, prncipe - replicou Kozlovski. - A disposio das tropas de Bagration...
     - Que h a respeito da capitulao?
     - No h capitulao. Esto tomadas as disposies para a batalha.
     O prncipe Andr avanou at  porta donde vinham as vozes. Mas no momento em que ia abri-la, estabeleceu-se o silncio l dentro, a porta abriu-se, e Kutuzov, com o seu nariz aquilino no rosto inchado, apareceu no limiar. O prncipe Andr ficou mesmo diante dele; mas a expresso do olho intacto do general-chefe indicava claramente que os pensamentos e as preocupaes o absorviam to completamente que o no deixavam ver fosse o que fosse. Olhou de frente o seu ajudante-de-campo sem o reconhecer.
     - Ento, est pronto? - perguntou a Kozlovski.
     -  j. Excelncia.
     Bagration, um homenzinho de rosto duro e imvel, de tipo oriental, seco, de meia-idade, surgiu por detrs do general-chefe.
     - Tenho a honra de me apresentar - repetiu o prncipe Andr, em voz alta, exibindo um sobrescrito.
     - Ah!,  de Viena? Bom. Mais tarde.
     Kutuzov saiu para a escada exterior na companhia de Bagration.
     - Bom, prncipe, adeus - disse-lhe ele - Que Cristo seja contigo. Abenoo-te para que tenhas grandes xitos.
     Os traos de Kutuzov enterneceram-se; de sbito as lgrimas vieram-lhe aos olhos. Puxou Bagration com a mo esquerda, e com a direita, onde tinha um anel, num gesto evidentemente familiar, traou sobre ele o sinal da cruz, apresentando-lhe, ao mesmo tempo, a face inchada. Mas Bagration beijou-o no pescoo.
     - Que Cristo seja contigo! - repetiu Kutuzov, dirigindo-se para, a sua caleche. - Sobe comigo - disse a Bolkonski.
     - Excelncia, eu queria ser til aqui. Consinta que eu fique no destacamento do prncipe Bagration.
     - Sobe - repetiu Kutuzov; e, ao ver que Bolkonski hesitava: - Tenho grande necessidade de bons oficiais, grande necessidade.
     Sentaram-se os dois na caleche, e durante alguns instantes rolaram em silncio.
     - H ainda muito, muito que fazer - disse ele, como se, com a sua perspiccia de velho, compreendesse tudo quanto naquele instante se estava a passar na alma de Bolkonsk. - Se ele amanh conseguir salvar a metade do seu destacamento, darei graas a Deus - acrescentou como se falasse a si mesmo.
     O prncipe Andr olhou para Kutuzov e involuntariamente reparou, ali to perto dele, nas escaras muitssimo bem lavadas da cicatriz que o general-chefe tinha na testa, no stio onde uma bala, em Ismail, lhe atravessara a cabea e o olho. Ah, sim, este tem o direito de falar com tanta calma da perda de tantos homens!, murmurou Bolkonski para si mesmo.
     -  precisamente por isso que eu lhe pedi que me deixasse fazer parte daquele destacamento - disse o prncipe Andr. Kutuzov no respondeu. Parecia ter esquecido o que lhe diziam, e para ali estava cismador. Cinco minutos depois, suavemente embalado pelas molas da caleche. Kutuzov voltou-se para, o prncipe Andr. Na sua expresso j no havia a mais pequena sombra de sofrimento. Perguntou, com fina ironia, pormenores sobre a entrevista com o imperador, inquiriu dos comentrios que se faziam na corte a respeito do caso de Krems e interrogou o prncipe acerca de certas senhoras que ambos conheciam.
     

     
     
     
     Captulo XIV
     
     Kutuzov tinha recebido no dia 1 de Novembro, do seu ser- vio de informaes, a indicao de que o exrcito que ele comandava se encontrava numa situao quase irremedivel. O relatrio dizia que os Franceses, com foras imensas, depois de terem atravessado a ponte de Viena, marchavam sobre as linhas de comunicao de Kutuzov com as tropas procedentes da Rssia. Se Kutuzov decidisse continuar em Krems, os cento e cinquenta mil homens de Napoleo cortar-lhe-iam todas as suas comunicaes, cercar-lhe-iam o exrcito inteiro de quarenta mil homens, absolutamente extenuados, e ele ver-se-ia na situao em que Mack se encontrara em Ulm. Se resolvesse abandonar a linha de comunicao com a Rssia, ver-se-a obrigado a meter-se pelas regies desconhecidas das montanhas da Bomia, sem estradas, lutando contra um inimigo superior em nmero e a abandonar toda a esperana de vir a operar a sua juno com Boekshevden. Se, enfim, decidisse bater em retirada pela estrada de Krems a Olmtz, a fim de se reunir aos exrcitos que vinham da Rssia, corria o risco de ser ultrapassado pelos Franceses, que j tinham atravessado a ponte de Viena, e assim ser obrigado a aceitar a batalha durante a marcha, com todas as viaturas e as bagagens, tendo diante de si um inimigo trs vezes mais nume, roso e que o atacaria por dois lados.
     Kutuzov escolheu esta ltima alternativa.
     Os Franceses, segundo o relatrio do informador, depois de terem atravessado a ponte de Viena, dirigiam-se, em marchas foradas, para Znaim, que ficava na linha de retirada de Kutuzov, mais de cem verstas para alm do ponto onde ele estava. Atingir Znaim, antes dos Franceses era proporcionar ao seu exrcito uma grande oportunidade de salvao; consentir que os Franceses o ultrapassassem em Znaim era, com certeza, expor todo o exrcito a urna derrota comparvel  de Ulm, ou ento a destruio total. A verdade, porm,  que preceder os Franceses com todo o seu exrcito seria impossvel. A estrada que o inimigo seguia de Viena para Znaim era mais curta e melhor do que a que os Russos seguiam, a que ia de Krems a Znaim.
     Na mesma noite em que Kutuzov recebeu esta informao mandou a guarda avanada de Bagration, ou seja quatro mil homens, pela montanha,  direita, passar da estrada que ia de Krems a Znaim para a que ia de Viena a Znaim. Bagration devia executar esta marcha sem se deter, passar em frente de Viena, voltando costas a Znaim, e, no caso de passar  frente dos Franceses, demor-los o tempo que lhe fosse possvel. Quanto a Kutuzov, esse dirigir-se-ia a Znaim com todos os abastecimentos.
     Depois de ter percorrido quarenta e cinco verstas, com soldados esfomeados e descalos, sem caminhos, atravs das serras, por uma noite de tempestade, e abandonando a tera parte dos seus efectivos. Bagration chegou a Hollabrnn, na estrada de Viena,- Znaim, algumas horas antes dos Franceses, que de Viena se dirigiam quela cidade.
     Kutuzov ainda precisava, pelo menos, de vinte e quatro horas de marcha, com as bagagens, para chegar a Znaim; e por isso, para ,alvar o exrcito. Bagration, com quatro mil soldados extenuados e cheios de fome, devia deter durante vinte e quatro horas todo o exrcito inimigo, que se encontrava em Hollabrnn, o que era, evidentemente, impossvel. A fortuna, porm, sempre caprichosa, tomou possvel o impossvel. O bom xito do ardil que havia dado aos Franceses, sem um tiro, a ponte de Viena levou Murat a tentar um ardil semelhante junto de Kutuzov. Ao encontrar, na, estrada de Znaim, o fraco destacamento de Bagration. Murat convenceu-se de que estava na presena de todo o exrcito de Kutuzov. Para mais completamente o desbaratar, resolveu aguardar que chegassem de Viena os seus soldados retardatrios, e nessa inteno props aos Russos um armistcio de trs dias, com a condio de tanto de um lado como do outro no haver qualquer deslocao de tropas e se conservarem as respectivas posies.
     Murat afirmou haver j propostas de paz e que, para evitar um intil derramamento de sangue, melhor seria um armistcio. O general austraco conde de Nostitz, que se encontrava na vanguarda, acreditou tias propostas do parlamentrio de Murat e recuou, deixando sem cobertura o destacamento de Bagration. Outro parlamentrio levou s linhas russas a notcia das propostas de paz, oferecendo s tropas um armistcio de trs dias. Bagration replicou no poder responder quer negativa, quer afirmativamente, e enviou o seu ajudante-de-campo a Kutuzov com um relatrio sobre as propostas apresentadas.
     Um armistcio para Kutuzov era a nica maneira de ganhar tempo e de permitir ao destacamento de Bagration algum descanso enquanto as bagagens, cujo movimento os Franceses desconheciam, faziam, pelo menos, mais uma etapa a caminho de Znaim. Aquela proposta dava aos Russos um meio nico e inesperado de salvarem o seu exrcito. Assim que recebeu essa notcia. Kutuzov enviou imediatamente ao campo inimigo o nico oficial do estado-maior que tinha  sua disposio, o general Wintzegerode. Este devia no s aceitar a proposta de armistcio, mas oferecer mesmo propostas de capitulao, enquanto Kutuzov enviava  retaguarda os seus ajudantes-de-campo com instrues no sentido de se apressar o mais possvel a evacuao das viaturas pela estrada de Krems- Znaim. S o destacamento de Bagration, sempre esfomeado e derreado, devia continuar imvel diante de um inimigo oito vezes superior, escondendo o movimento das bagagens e do exrcito inteiro.
     Kutuzov no se enganou no que dizia respeito  proposta de capitulao, que no obrigava a coisa alguma e dava tempo de pr a salvo grande parte das bagagens, tanto mais que no tardaria que o erro de Murat fosse descoberto. Bonaparte, ento em Schoenbrnn, a vinte e cinco verstas de Hollabrnn, assim que recebeu o relatrio de Murat e o projecto de armistcio e de capitulao, percebeu logo tratar-se de um ardil e endereou-lhe a carta seguinte:
     
     Ao Prncipe Murat
     SchoenbriInn, 25 de Brumrio, ano de 1805, s oito horas da manh.
     
     No tenho palavras com que lhe possa exprimir o meu descontentamento. Apenas est sob o seu comando a minha guarda avanada, e no tem o direito de propor trguas sem ordem minha. Rompa imediatamente o armistcio e avance contra o inimigo. Far-lhe-ei saber que o general que assinou esta capitulao no tinha poderes para isso, que s o imperador da Rssia tem esse direito.
     Sempre, contudo, que o imperador da Rssia ratificar a dita conveno, eu prprio a ratificarei; mas trata-se apenas de um ardil. Marchai, aniquilai o exrcito russo.., sua posio permite-lhe tomar todas as bagagens e toda artilharia russas.
     O ajudante-de-campo do imperador da Rssia  um... Os oficiais nada so sem poderes; este no tinha nenhuns... Os Austracos deixaram-se burlar na passagem da ponte de Viena; o senhor. Murat, deixa-se ludibriar por um ajudante-de-campo do imperador.
     
     Napoleo.
     
     Esta tremenda carta foi enviada a Murat por um ajudante-de-campo de Bonaparte expedido a toda a brida. O prprio Bonaparte, sem confiana nos seus generais, fez-se transportar, com toda a sua guarda, para o local das operaes, a fim de no deixar fugir a vtima esperada. Quanto aos quatro mil homens do destacamento de Bagration, esses armavam alegremente as suas tendas de campanha, secavam-se, aqueciam-se, e, pela primeira vez havia trs dias, preparavam o seu kacha sem que ningum entre eles pudesse saber ou sequer suspeitar o que os aguardava.
     

     
     
     
     Captulo XV
     
     As quatro horas da tarde, o prncipe Andr, que reiterara com insistncia o seu pedido junto de Kutuzov, dirigiu-se a Grunt e apresentou-se a Bagration. O ajudante-de-campo de Bonaparte ainda ia ao encontro de Murat e a batalha ainda no principiara. No destacamento de Bagration nada se sabia do que se passava: falava-se da paz, sem que, de resto, pessoa alguma acreditasse nisso. Falava-se tambm de uma batalha prxima sem que igualmente ningum acreditasse que ela estava para to breve. Bagraton, que conhecia Bolkonski e o sabia ajudante-de-campo selecto e de toda a confiana, recebeu-o com uma distino particular e atenes de comandante, dizendo-lhe que muito provavelmente, nesse dia ou no dia seguinte, seria necessrio baterem-se e que lhe dava inteira liberdade para ele escolher: podia ficar a seu lado durante a batalha ou na retaguarda, dirigindo a retirada, o que tambm era muitssimo importante.
     - De resto, hoje  provvel que no se passe coisa alguma - acrescentou Bagration, como para sossegar o prncipe Andr. 
     Se s um desses petimetres do estado-maior para aqui destacado na esperana de uma condecorao, at  retaguarda a conseguirs, mas se quiseres acompanhar-me, anda da... Se fores um bom oficial, poders prestar bons servios, dizia Bagration de si para consigo. O prncipe Andr, sem nada responder, pediu licena para percorrer a posio e dar-se conta da disposio das tropas, a fim de saber, caso viesse a ter uma misso a cumprir, aonde dirigir-se. Um oficial de servio, um belo homem, irrepreensivelmente vestido, com um anel de diamantes no dedo indicador, que falava mal francs, embora com visvel prazer, ofereceu-se para acompanhar o prncipe Andr,
     Por toda a parte havia oficiais completamente encharcados, de caras franzinas, como  procura fosse do que fosse, e soldados que traziam da aldeia portas, bancos, tabiques.
     - No podemos acabar com esta gentinha, prncipe - disse o oficial apontando os soldados. - Os comandantes dispersam-nos. Olhe - acrescentou, indicando a barraca de um cantineiro -,  ali que essa gente se rene e passa os seus dias. Ainda esta manh tive de correr com eles, e, como v, a barraca est outra vez cheia. Venha da, prncipe, vamos pregar-lhes um susto.  um momento,
     - Pois, sim, vamos, e j agora aproveito para comer um bocado de po com queijo - disse o prncipe Andr, que ainda no tivera tempo de comer fosse o que fosse.
     - Porque  que me no disse, prncipe? Ter-lhe-ia oferecido qualquer coisa.
     Desmontaram e dirigiram-se para a barraca do cantineiro. Sentados s mesas havia alguns oficiais, muito corados e de aspecto cansado, que comiam e bebiam.
     - Mas que quer isto dizer, meus senhores? - exclamou o oficial do estado-maior num tom repreensivo, de quem j devia ter repetido vrias vezes a mesma coisa. - No se podem ausentar assim. O prncipe deu ordens para ningum aqui estar. Vamos, capito, realmente - disse ele a um insignificante oficial de artilharia, magro e sujo, sem botas (tinha-as dado ao cantineiro, para que este as pusesse a secar, e estava em palmilhas), que se levantara, ao ver entrar os dois oficiais superiores, e sorria com certo embarao.
     - No tem vergonha, capito Tuchine? - prosseguiu o oficial.- O senhor, como artilheiro, devia dar o exemplo, e afinal est para a descalo. Seria bonito se agora tocassem a reunir, com o senhor ai em palmilhas. - O oficial teve um sorriso. - Queiram recolher s suas unidades, meus senhores, todos, todos - acrescentou, em voz de comando.
     O prncipe Andr no pde deixar de sorrir ao ver o capito Tuchine, que, saltando a p-coxinho, ia interrogando com seus olhos, bons e inteligentes, ora o prncipe ora o oficial do estado-maior.
     - Os soldados costumam dizer que correm melhor descalos - disse Tuchine, embaraado, na esperana de disfarar aquela penosa situao com um dito chistoso.
     Percebendo, porem, que o seu tom brincalho no agradava, ainda se sentiu mais embaraado.
     - Volte para a sua unidade - disse o oficial do estado-maior, procurando manter um ar srio.
     Andr olhou ainda urna vez para a figura do artilheiro. Havia nela qualquer coisa de especial, um aspecto nada militar, cmico at, mas que no deixava, de ser simptico.
     O oficial e o prncipe Andr montaram de novo a cavalo e prosseguiram o seu caminho.
      sada da povoao, sempre no meio de soldados e oficiais de vrios corpos, que se iam dispersando, viram,  esquerda, em construo, entrincheiramentos de greda avermelhada, ainda fresca. Alguns batalhes de soldados, em mangas de camisa, apesar do vento frio, agitavam-se l dentro como se fossem formigas brancas. Do fundo do fosso aberto braos invisveis iam atirando continuamente pazadas de terra vermelha. Ambos se aproximaram das obras, examinaram-nas e seguiram um pouco mais adiante. Na retaguarda do entrincheiramento depararam-se-lhes algumas dezenas de soldados que iam e vinham a caminho das trincheiras. Tiveram de tapar o nariz e esporear os cavalos para evitarem aquela atmosfera pestilencial.
     -  este o atractivo dos acampamentos. Senhor Prncipe - articulou o oficial do estado-maior.
     Chegavam  eminncia que se erguia do outro lado. Dali j se podiam descobrir os Franceses. O prncipe Andr parou e ps-se a observar,
     - Aqui esto instaladas as nossas batarias - explicou o oficial do estado-maior, apontando para o cabeo -,  quela que pertence o nosso pndego sem botas. Dali pode ver-se tudo. Venha da, prncipe.
     - Muito obrigado, mas agora vou muito bem sozinho - disse o prncipe Andr, que desejava ver-se livre do companheiro -, no se preocupe, faa favor.
     O oficial afastou-se e o prncipe Andr seguiu o seu caminho. 
     Quanto mais avanava, quanto mais se aproximava do inimigo, mais o aspecto das tropas se lhe apresentava em ordem, e mais alegres se lhe afiguravam os homens. No comboio das bagagens, em Znam, que o prncipe visitara nessa manh, a dez verstas dos Franceses,  que a desordem era grande e a disposio menos alegre. Em Grunt tambm se sentia uma certa flutuao e um vago medo. Mas quanto mais o prncipe Andr se aproximava das linhas francesas mais as foras russas lhe davam a impresso de confiana. Os soldados, formados em fileiras, envergavam, capotes, sargentos e capites procediam  contagem dos seus homens, pousando o dedo no peito dos que rompiam o alinhamento no momento em que levantavam a mo. Alguns, espalhados nas imediaes, arrastavam pedaos de madeira ou ramos de rvores e construam abrigos, rindo e conversando alegremente. Em volta das fogueiras, despidos uns, vestidos outros, procuravam secar as camisas e as ceroulas, limpavam as botas ou os capotes, agrupados em tomo das marmitas e dos caldeires de kacha. Numa rias companhias, a refeio estava pronta e os soldados fitavam, gulosos, as marmitas a fumegar, aguardando o momento em que o sargento daria a sopa a provar, numa tigela de madeira, ao oficial, sentado numa viga diante da sua barraca.
     Noutra companhia - com melhor aspecto, pois nem todas tinham vodka -, os soldados haviam-se reunido em volta de um sargento de cara bexigosa e grandes ombros, que ia tombando uma vasilha e enchendo as marmitas que lhe apresentavam, em volta. Os soldados, com um ar reverente, levavam-nas  boca, despejavam-nas na goela, limpavam os beios s mangas do capote e afastavam-se, de cara satisfeita. Todos se mostravam tranquilos, como se realmente no estivessem em frente do inimigo, na vspera de uma batalha em que pelo menos metade do destacamento ficaria no campo, mas, pelo contrrio, na sua ptria, descansando num pacfico acampamento. Depois de ter atravessado pelo meio de um regimento de caadores e de passar pelas fileiras dos granadeiros de Kiev, soldados de aspecto marcial, todos entretidos, igualmente, em pacficas tarefas, o prncipe Andr, no longe de uma alta barraca, diferente das outras, pois era a do comandante do regimento, cruzou um peloto de granadeiros onde havia um homem estendido despojado de toda a sua roupa. Seguravam-no duas praas, e duas outras, brandindo varas flexveis, batiam a compasso nos ombros nus do soldado. A vtima soltava gritos que nada tinham de humano. Um corpulento major andava de um lado para outro, diante das tropas, e continuamente, sem prestar a mais pequena ateno aos gritos do supliciado, ia dizendo:
     -  uma vergonha para um soldado roubar; um soldado deve ser humilde, nobre e valente, e quando rouba os seus camaradas, deixa de ser digno,  um miservel. Mais, mais!
     E l continuavam as vergastadas e os gritos desesperados, em que no havia nada de fingido.
     - Mais, mais! - repetia o maior.
     Um moo oficial, com um ar embaraado e lastimoso, afastou-se do soldado supliciado e interrogou com os olhos, o ajudante-de-campo, que ia passando.
     O prncipe Andr, ao atingir as posies avanadas, seguiu ao longo das fileiras. A linha russa e a do inimigo, tanto no flanco esquerdo como no direito, afastavam-se muito uma da outra, mas no centro, no ponto em que os parlamentrios tinham passado nessa mesma manh, as linhas estavam to prximas que os soldados se viam cara a cara e podiam, inclusivamente, conversar. Alm dos soldados que constituam as linhas, nesse, ponto, de um lado e outro, viam-se curiosos, que, rindo, miravam esses inimigos estrangeiros que nunca tinham visto.
     Desde madrugada, apesar da proibio de se aproximarem das linhas, que os comandantes procuravam debalde afastar os curiosos. Os soldados das linhas, dando-se ares de exibidores de curiosidades de feira, j nem sequer olhavam para os Franceses, e trocavam entre si ditos sobre os basbaques, aguardando impacientes a hora de render. O prncipe parou para ver os Franceses.
     - Olha, olha - dizia um soldado para o camarada, mostrando-lhe um mosqueteiro russo, que, na companhia de um oficial, se aproximava das linhas e contava qualquer coisa, com volubilidade e calor, a um granadeiro francs. - Olha, olha para ele, olha para a lngua dele! Nem os Franceses so capazes de o apanhar. Que dizes tu a isto. Siderov?
     - Cala-te, escuta. Nada mau! - replicou Siderov, que tinha fama de falar francs na ponta da lngua.
     O soldado que os franceses apontavam rindo era Dolokov. O prncipe Andr reconheceu-o e prestou ateno  conversa. Dolokov, com o seu capito, vinha do flanco esquerdo, onde estava o seu regimento.
     - Vamos, continue, continue - dizia o capito, que se debruava, procurando no perder uma nica palavra da conversa, alis incompreensvel para ele. - Vamos, continue, faa favor. Que diz ele?
     Dolokov no parecia preocupado em responder ao capito. Estava numa calorosa discusso com o granadeiro francs. Falavam, claro est, da campanha. O francs queria provar, misturando austracos e russos, que estes se tinham rendido e haviam fugido de Ulm; Dolokov, pelo contrrio, afirmava que os Russos no se tinham rendido e haviam derrotado os Franceses.
     - Recebemos ordens para correr com vocs, e havemos de os correr - protestava Dolokov.
     -  melhor que vocs no se deixem apanhar todos, cossacos e tudo - replicava o granadeiro.
     Os mirones de um lado e do outro puseram-se a rir.
     - So vocs que ho-de danar na corda bamba, como j danaram com o Suvorov! - exclamava Dolokov.
     - Que est ele a dizer? - perguntou um francs.
     -  histria antiga - comentou outro, que calculava que eles estivessem a falar das guerras passadas. - O imperador lhe tratar da sade, ao vosso Suvara, como j fez aos outros...
     Dolokov, mas o francs interrompeu-o.
     - No  Bonaparte.  o imperador! Maldito nome...- gritou, colrico.
     - Diabos o levem ao teu imperador!
     E Dolokov ps-se a proferir, em russo, grosseiras injrias, e, pondo a espingarda s costas, afastou-se.
     - Vamos embora. Ivan Lukitch - disse para o capito.
     - Isto  que  falar francs - diziam os soldados.- Vamos, agora tu. Siderov!
     Siderov piscou o olho e, dirigindo-se aos franceses, ps-se a sibilar muito depressa palavras incompreensveis: 
     - Kari-ma-la-ta-sa-fi-mu-ter-kess-ka - algaraviava ele, fingindo, pelo seu tom de voz, estar a dizer coisas sensatas.
     - Ah! Ah! Ah! Hi! Hi! Hi! - Os soldados romperam a rir, num riso to franco e to contagioso que at os franceses, do outro lado das linhas, riam tambm. Dir-se-ia que depois disto nada mais havia a fazer que descarregar as espingardas, fazer saltar as munies e cada um voltar o mais depressa possvel para casa.
     Mas a verdade  que as espingardas continuaram carregadas, as seteiras das casas e os entrincheiramentos conservaram o seu aspecto ameaador e as peas de artilharia, desatreladas das carretas, continuaram apontadas umas contra as outras.
     

     
     
     
     Captulo XVI
     
     Depois de ter percorrido as linhas do flanco direito at ao flanco esquerdo, o prncipe Andr subiu at  bataria donde, no dizer do oficial, se abrangia toda a rea do campo. Uma vez ali, desmontou e parou ao p da ltima das quatro peas desengatadas da sua carreta. No primeiro plano, um artilheiro fazia sentinela. Apresentou armas ao oficial, e, em seguida, a um aceno deste, continuou a sua ronda montona e fastidiosa. Atrs dos canhes estavam as carretas das peas e ainda por detrs as muar2s e o bivaque dos artilheiros.  esquerda, no muito longe da pea que ficava na extremidade, via-se uma barraca, recentemente levantada, onde se ouvia uma animada conversa de oficiais.
     Realmente, da bataria descobriam-se quase todas as posies russas e uma grande parte das do inimigo. Directamente do outro lado, na linha do horizonte de um cabeo, via-se a povoao de Schngraben;  esquerda e  direita podiam distinguir-se, em trs stios distintos, por entre o fumo dos acampamentos, a massa das tropas francesas, cuja maior parte, evidentemente, ocupava a prpria povoao e o declive por trs do cabeo. A esquerda da povoao, no meio da fumarada, divisava-se qualquer coisa que parecia uma bataria, sem que a olho nu se pudesse ter a certeza disso. O flanco direito russo estava disposto sobre uma colina, assaz escarpada, que dominava a posio francesa. Era a que se instalava a infantaria moscovita. Na extremidade dessa mesma colina ficavam os drages. No centro, onde se encontrava, tambm, a bataria de Tuchine, o ponto donde o prncipe Andr examinava as posies, um declive suave e em linha recta conduzia  torrente que separava as tropas de Schngraben.  esquerda, as tropas russas apoiavam-se numa floresta onde se via, subindo no ar, o fumo das fogueiras da infantaria, que cortava lenha. A linha francesa era mais extensa do que a russa e era evidente que os Franceses podiam com toda a facilidade cercar o exrcito pelos dois lados. Por detrs da posio russa existia um barranco abrupto e profundo, por onde seria difcil retirar artilharia e a cavalaria. O prncipe Andr, o cotovelo apoiado uma das peas, e o livro de apontamentos na mo, esboou, para seu governo, o plano da disposio das tropas. Em dois pontos tomou algumas notas a lpis, na inteno de comunic-las a Bagration. Propunha, em primeiro lugar, concentrar no centro toda a artilharia e depois retirar a cavalaria para a retaguarda, para o outro lado do barranco. O prncipe, sempre ao p do general-chefe, acompanhando os movimentos de tropas e a execuo das disposies gerais, e interessado pelos pormenores do desenvolvimento das batalhas no ponto de vista histrico, via j, no caso que tinha diante, a marcha futura das operaes, pelo menos em seus traos gerais, o encarava j, de certo modo, importantes hipteses neste gnero: Se o inimigo atacar pelo flanco direito, os granadeiros de Kiev e os caadores de Podolski devem manter-se at que cheguem os reforos do centro. Neste caso, os drages podero atac-los de flanco e destro-los. Na hiptese de o inimigo atacar pelo centro, ns colocaremos neste cabeo a bataria central e a coberto dela retiramos o flanco esquerdo, recuando, por degraus, at ao barranco.
     Durante todo o tempo em que se conservara na bataria, junto  pea, no deixara de ouvir o tagarelar dos oficiais na barraca, mas, como tantas vezes acontece, no tinha compreendido uma s palavra de tudo quanto eles diziam. De repente, ouviu uma voz cuja tonalidade era to sincera que se ps involuntariamente a escutar:
     - No, meu rapaz - dizia essa voz agradvel, que o prncipe Andr parecia conhecer -, garanto-lhe que se fosse possvel uma pessoa saber o que acontece depois da morte, ningum teria medo de morrer.  o que lhe digo, meu amigo.
     Outra voz, mais jovem, interrompeu a primeira:
     - Com medo ou sem medo, ningum escapa  morte.
     - Isso no impede que se tenha medo! Eh! Vocs a, os sabiches - interrompeu uma terceira voz, mais mscula, - Sim, vocs, os artilheiros, so uns sabiches a apropriarem-se de tudo que podem: comidas e bebidas.
     E o detentor desta voz grossa, evidentemente oficial de infantaria, soltou uma gargalhada.
     - Isso no impede que se tenha medo  prosseguiu a primeira voz. - Temos medo do desconhecido,  o que . Por mais que a gente diga que a alma vai para o Cu.., a verdade todos ns sabemos que Cu  coisa que no existe na atmosfera.
     A voz mscula voltou a interromper o artilheiro.
     - Venha de l um bocadinho da vossa aguardente. Tuchine.
     Ah!  o capito que estava em palmilhas na do cantineiro, disse o prncipe Andr para si mesmo, reconhecer, satisfeito, a simptica voz do artilheiro filsofo.
     - Aguardente, se quiserem - disse Tuchine isto de conceber a vida futura...
     No concluiu a sua frase. Nesse momento um assobio rasgou o ar, mais prximo, cada vez mais prximo,. Sempre mais prximo, mais rpido, cada vez mais rpido e mais e um projctil, num gemido prolongado e como que de to interrompido, veio enterrar-se no cho, com uma fora colossal, fazendo saltar estilhaos em toda a roda, a pequena distncia da barraca dos oficiais. Dir-se-ia que a terra soltara um gemido ao receber aquela pancada colossal.
     Nesse instante saltou da barraca, com todo outros oficiais, o insignificante Tuchine, que vinha de cachimbo na boca: a sua cara, boa e inteligente, parecia um pouco plida. Atrs dele vinha o homem da voz grossa, um vigoroso oficial de infantaria, que se ps a correr, em direco  sua companhia, enquanto abotoava o capote.
     

     
     
     
     Captulo XVII
     
     O prncipe Andr, que tinha voltado a montar, deteve-se na bataria para observar, pelo fumo da pea, donde vinha o projctil. Percorreu com os olhos um largo espao. Apenas lhe foi dado perceber que as massas francesas, at ento imveis, principiavam a mover-se, e que  esquerda, realmente, havia uma bataria. Urna nuvenzinha de fumo pairava ainda nesse stio. Dois franceses a cavalo, provavelmente dois ajudantes-de-campo, galopavam pela encosta. No sop da colina, naturalmente para reforar as linhas, avanava uma pequena coluna inimiga, que se distinguia nitidamente. Ainda o fumo da primeira detonao se no havia dissipado j um novo trao de fumo aparecia seguido de uma segunda detonao. Era a batalha que principiava. O prncipe Andr sacudiu as rdeas do seu cavalo e voltou a galope para Grunt, a juntar-se a Bagration. Atrs dele o tiroteio ia redobrando de violncia. Era evidente que as foras russas principiavam a ripostar. L em baixo, no local onde os parlamentrios se tinham encontrado, via-se perfeitamente a fuzilaria.
     Lamarrois, portador da terrvel carta de Bonaparte, acabava de chegar ao p de Murat. Este, vexado, desejoso de dissipar o seu erro, dera ordens para que as suas tropas atacassem imediatamente ao centro, na inteno de cercar os dois flancos e de esmagar o destacamento insignificante, diante dele, antes da chegada do imperador.
     Comeou! A est! dizia de si para consigo o prncipe Andr, sentindo o sangue afluir-lhe ao corao, mas onde desencantarei eu o meu Toulon?
     Ao passar diante dessas mesmas companhias que um quarto de hora antes comiam a sua kacha e bebiam a sua vodka, por toda a parte se lhe depararam soldados que,  pressa, formavam em linha de batalha e verificavam as espingardas, e em todos os rostos havia aquela mesma excitao que ele prprio sentia dentro de si mesmo. Comeou! A est!  terrvel e  divertido!, lia-se em todas as mscaras, quer de soldados quer de oficiais.
     Antes de chegar s trincheiras que andavam a abrir viu,  frouxa luz de uma sombria tarde de Outono, um grupo de cavaleiros que cavalgava ao seu encontro. O que vinha  frente envergava um burka e um barrete guarnecido de astrac e montava um cavalo branco. Era o prncipe Bagration. Andr estacou, a espera. Bagration refreou o cavalo e, reconhecendo-o, fez-lhe um aceno de cabea. Enquanto o prncipe Andr lhe relatava o que tinha visto. Bagration, continuava a olhar em frente.
     A expresso Comeo. A est! tambm se via estampada no duro rosto trigueiro ,.e Bagration, de olhos baos, semicerrados, como que mal despertos. O prncipe Andr contemplava, com uma curiosidade inquieta, esta mscara imvel, e teria gostado de saber se ele pensava e sentia e em que pensava e sentia aquele homem naquele instante. E haver mesmo alguma coisa ali, por detrs desta mscara imvel?, perguntava a si mesmo enquanto o fitava. O prncipe Bagration aquiescia, meneando afirmativamente a cabea, s palavras de Bolkonski, e dizia: Est bem, com um ar que significava ter previsto tudo o que estava a acontecer e tudo o que lhe comunicavam. O prncipe Andr, sufocado pelo rpido galope que fizera, falava com precipitao. Bagration, com o seu sotaque oriental, particularmente lento, dir-se-ia querer sugerir que no havia necessidade de pressas. No entanto, meteu a trote na direco da bataria de Tuchine. O prncipe Andr formou junto dos oficiais da escolta, que era constituda por um oficial s ordens, ajudante-de-campo pessoal de Bagration. Jerkov, oficial do estado-maior, destacado ao seu servio, que montava um belo cavalo ingls, e um funcionrio civil, o auditor, que tinha pedido para acompanhar a batalha de perto, por simples curiosidade. O auditor, um homem gordo, de cara cheia, olhava em tomo de si com um ingnuo sorriso de alegria, estremecendo em cima da sela, e o seu aspecto era estranho, debaixo do capote de camelo, em cima do selim de soldado raso, no meio de todos aqueles hssares, daqueles cossacos e daqueles ajudantes-de-campo.
     - Este cavalheiro queria ver uma batalha - disse Jerkov para Bolkonski, apontando-lhe o auditor  e j est cheio de dores de barriga.
     - Vamos, ento, basta!  exclamou o auditor, com um sor riso aberto, ao mesmo tempo ingnuo e malicioso, como se sentisse muito lisonjeado com os gracejos de Jerkov e propositadadamente fingisse parecer ainda mais estpido do que era na realidade.
     -  engraado, meu prncipe - dizia o oficial do estado-maior s ordens, que se lembrava perfeitamente que em francs o ttulo de prncipe tem uma determinada colocao, embora nunca fosse capaz de o empregar no seu lugar prprio.
     Entretanto tinham chegado  bataria de Tuchine e diante deles acabava de cair um projctil.
     - Que foi aquilo que caiu? - perguntou o auditor, sorrindo ingenuamente.
     - Um pastel francs - tomou-lhe Jerkov.
     - Ah!  ento com isso que eles matam as pessoas? - retorquiu o auditor. - Que coisa horrvel!
     E, dizendo isto, parecia rir de satisfao. Mal ele tinha acabado, ouviu-se de novo um medonho assobio, de sbito interrompido por uma queda em cima fosse do que fosse de fofo. E, de repente, um cossaco que seguia um pouco  direita e na retaguarda do auditor caa por terra com o seu cavalo. Jerkov e o oficial do estado-maior debruaram-se das suas selas e afastaram os seus cavalos. O auditor parou diante do cossaco e ps-se a observ-lo com grande curiosidade. O cossaco estava morto e o cavalo ainda estrebuchava.
     Bagration voltou a cabea, piscando os olhos, e, ao ver a causa da confuso que se tinha estabelecido, retomou o seu ar indiferente, como se dissesse: Valer a pena a gente preocupar-se com semelhantes frioleiras? Puxou as rdeas do cavalo e, com a ligeireza de um bom cavaleiro, inclinou-se um pouco e libertou a espada, presa na burka. Era uma espada antiga, diferente das que ento se usavam. O prncipe Andr lembrou-se de uma anedota em que se contava que Suvorov, na Itlia, dera de presente a Bagration a sua prpria espada, e esta lembrana naquele momento foi-lhe de bom augrio. Aproximavam-se, precisamente, da bataria em que Bolkonski estivera quando observara o campo de batalha.
     - Que companhia  esta? - perguntou Bagration ao servente de bataria de sentinela s caixas de munies. Perguntava: Que companhia  esta?, quando, na realidade, o que ele dizia era: H medo por aqui? E o servente de bataria percebeu-o.
     - Do capito Tuchine. Excelncia - disse, num, - voz forte e alegre, pondo-se em sentido, o servente de bataria, um ruivo, de cara cheia de sardas.
     - Bom, bom - murmurou Bagration, num tom de quem reflecte, e passou diante das carretas, aproximando-se da pea do extremo.
     No momento preciso em que se aproximava desta ouviu-se uma detonao, que o ensurdeceu, a ele e aos da sua escolta, e no meio da fumarada que de repente envolveu a pea viram-se artilheiros que, com grande esforo, se davam pressa de a voltar a pr no seu lugar. O soldado n 1, um rapago de largos ombros, que empunhava o taco, deu um salto para o lado da roda. O n 2, de mo trmula, carregou a pea. Um homenzinho atarracado, o oficial Tuchine, tropeando em direco  carreta, seguiu para diante, sem reparar no general, e ps-se a olhar, protegendo a vista com a mo.
     - Dois pontos ainda mais alto e damos no vinte! - gritou, na sua voz aflautada, a que procurava imprimir um acento grave, que no condizia com a sua pessoa.- A segunda! - guinchou ele. - Fogo. Medviedev!
     Bagration chamou o oficial, e Tuchine, num movimento tmido e desajeitado, no como  costume perfilar-se um oficial para uma continncia militar, mas antes como um sacerdote que lana a sua bno, levou dois dedos  pala da barretina e aproximou-se do general. Embora as peas de Tuchine tivessem por misso varrer o desfiladeiro, este estava a bombardear a aldeia de Schngraben, que se via do outro lado, e onde se agitavam grandes massas de tropas francesas.
     Ningum tinha dito a Tuchine contra que objectivo  que devia dirigir o tiro das suas peas, mas, depois de ter consultado o seu sargento Zakartchenko, a quem muito considerava, resolvera que seria acertado incendiar a povoao,
     - Muito bem! - exclamou Bagration, ao ouvir o relato do oficial, e ps-se a examinar o campo de batalha que se lhe apresentava  vista, como se estivesse a combinar um plano qualquer.
     Era pela direita que os Franceses se aproximavam. Ao fundo da eminncia onde estava o regimento de Kiev, nos alcantis sobranceiros ao rio, ouvia-se um tiroteio ininterrupto, que confrangia o corao, e, muito mais para a direita, para alm do regimento de drages, o oficial s ordens mostrava ao prncipe uma coluna francesa que envolvia o flanco russo. A esquerda limitava o horizonte a floresta prxima. O prncipe Bagration deu ordens para que dois batalhes do centro fossem reforar a ala direita. O oficial s ordens permitiu-se observar-lhe que, em virtude da deslocao destes dois batalhes, as peas ficavam sem cobertura. Bagration voltou-se para o oficial e fitou-o com os seus olhos nublados, sem dizer palavra. Ao prncipe Andr afigurou-se-lhe que a observao era justa e que efectivamente nada havia a responder. Mas no mesmo instante surgiu a galope um ajudante-de-campo do comandante do regimento que se encontrava no declive do ribeiro com a informao de que massas imensas de franceses se lanavam sobre ele, que o regimento estava disperso e que recuava para se juntar aos granadeiros de Kiev. Bagration acenou com a cabea, a dar o seu consentimento e a sua aprovao. A passo, dirigiu-se para a direita e enviou o ajudante-de-campo com ordem de ataque ao regimento de drages. O ajudante-de-campo destacado voltou, da a meia hora, a anunciar que o comandante de drages j tinha recuado para o outro lado da escarpa, pois fora recebido por um tiroteio violento e estava a perder homens inutilmente, de modo que assim concentrara os seus soldados na floresta, donde eles faziam fogo.
     - Bom! - exclamou Bagration.
     No momento em que se afastava da bataria, ouviu-se igualmente  esquerda fuzilaria na floresta. Como o flanco esquerdo ficava bastante longe para que ele pudesse deslocar-se at l a tempo, mandou Jerkov dizer ao general que o comandava, aquele mesmo que tinha apresentado o regimento a Kutuzov em Braunau, que recuasse o mais depressa possvel para a retaguarda da escarpa, visto o flanco direito no poder conter por muito tempo o inimigo. E, quanto ao batalho que cobria a bataria de Tuchine, esse foi esquecido. O prncipe Andr prestou uma grande ateno s conversas de Bagration com os oficiais comandantes e s ordens que ele dava, e com grande espanto seu verificou que ele no dava ordem alguma: tudo quanto fazia era apenas dar a entender que o que se passava por fora das circunstncias, em consequncia do acaso ou merc da interveno dos diferentes comandantes acontecia, se no graas s ordens que ele dava, pelo menos de acordo com os seus planos. Merc do tacto de que Bagration dava provas. Andr notava que, no obstante os acontecimentos estarem confiados ao acaso e de qualquer maneira no dependerem da vontade dos chefes, bastava a presena deste para o resultado ser extraordinrio. Os comandantes que dele se aproximavam com uma expresso transtornada afastavam-se confiantes; soldados e oficiais saudavam-no alegremente, readquiriam na sua presena um aspecto animado e diante dele era visvel que se sentiam orgulhosos do seu herosmo.
     

     
     
     
     Captulo XVIII
     
     O prncipe Bagration, depois de atingir a extremidade norte do flanco russo, principiou a descer naquele ponto onde rompera um fogo rolante e onde nada se via no meio da fumarada. Quanto mais ele e a sua escolta avanavam pela escarpa abaixo, menos podiam ver, mas mais vivamente sentiam aproximar-se do verdadeiro campo de batalha. Encontraram os primeiros feridos. Um deles, a cabea ensanguentada e sem barretina, era levado por dois homens que o amparavam por debaixo dos braos. Golfava sangue e sentia-se-lhe o estertor. A bala, evidentemente, havia-lhe atingido a boca ou a garganta. Outro que encontraram caminhava galhardamente sozinho, sem espingarda, ululando, com toda a fora dos pulmes, fustigado pela dor que lhe causava uma ferida recente e agitava um brao donde manava um veio de sangue, como se fosse um frasco a escorrer, que se lhe ia espalhando pelo capote. No seu rosto havia mais espanto que sofrimento. Acabara naquele instante de ser ferido. Depois de atravessarem a estrada, desceram uma ladeira abrupta e viram alguns homens prostrados no caminho. Cruzou-se com eles um bando de soldados, entre os quais alguns sem estarem feri- dos. Outros subiam a ladeira e, no obstante a presena do general, falavam em alta voz, com grandes gestos. L diante, no meio da fumarada, lobrigavam-se j fileiras de capotes cinzentos, e um oficial, ao ver Bagration, correu, interpelando a turbamulta dos soldados que debandavam para os obrigar a voltar para trs. Bagration seguiu em frente, ria direco das fileiras donde, aqui e ali, partiam descargas que abafavam as conversas e os gritos dos comandantes. Toda a atmosfera era de fumo. As caras dos soldados estavam excitadas e negras de plvora. Alguns deles carregavam as espingardas com as respectivas varetas, outros deitavam plvora nas caoletas, sacavam os cartuchos, outros, ainda, disparavam. Mas sobre quem  que disparavam? Eis o que se no podia ver por causa do fumo que o vento no dissipava. Muito frequentemente ouvia-se como que um zumbido de abelhas, uma espcie de assobio agradvel. Que vem a ser isto?, perguntava o prncipe Andr aos seus botes,  medida que se aproximava. No  um ataque, visto que eles continuam imveis; tambm no pode ser uma formao em quadrado; no  esta a atitude.
     Um velhito magro, de aspecto doentio, o comandante do regimento, com um sorriso amvel e semicerrando as plpebras enrugadas, o que lhe dava um ar afvel, aproximou-se de Bagration e recebeu-o como quem recebe um hspede de cerimnia. Participou-lhe que o seu regimento fora atacado pela cavalaria francesa e que, embora esta tivesse sido repelida, o regimento perdera mais de metade dos seus efectivos. Dizia que o ataque fora repelido, imaginando ser esse o termo militar para o que tinha acontecido com o seu regimento. Mas a verdade  que nem ele prprio sabia o que  que naquela meia hora tinham feito as tropas que lhe haviam sido confiadas e no podia dizer com preciso se o ataque fora repelido ou se o seu regimento fora aniquilado pelo ataque. No principio da aco sabia apenas que as balas e os obuses tinham chovido sobre o seu regimento, matando homens, e que depois algum havia gritado: A cavalaria!, e que os seus tinham principiado a fazer fogo. E agora j no disparavam sobre a cavalaria, que se afastara, mas sobre a infantaria francesa, que aparecia na escarpa fazendo fogo contra os russos.
     O prncipe Bagration acenou com a cabea, como que a dizer que tudo se passava exactamente como ele desejava e como havia previsto. Voltou-se para o seu ajudante-de-campo, deu-lhe ordens para que mandasse descer ao vale dois batalhes do 6 de caadores, diante do qual acabavam de passar. O prncipe Andr reparou com surpresa, nesse instante, na mudana de expresso que se operara no rosto de Bagration. Havia nele a deciso concentrada e jovial de um homem que, num dia quente de Vero, se dispe a atirar-se  gua e prepara o mergulho. J no se lhe viam os olhos embaciados, sonolentos, nem aquele seu falso ar de pensador profundo: os seus olhos redondos e duros de gavio olhavam em frente com solenidade e um ligeiro desdm, no se detendo, aparentemente, em coisa alguma, embora os seus movimentos conservassem a mesma lentido e a mesma firmeza.
     O comandante do regimento pedia-lhe que se afastasse, pois o local era muito perigoso. - Peo-lhe, excelncia, por amor de Deus! - dizia-lhe ele, implorando com o olhar a aprovao do oficial s ordens, que se afastara. - Olhe!
     Fazia-lhe notar as balas que continuamente zumbiam, cantavam e assobiavam em tomo deles. Na sua voz havia aquele tom de implorao e de censura corts que costuma ter um carpinteiro para falar ao patro a quem ocorre a veleidade de manejar o machado: Ns estamos acostumados, mas o patro, o patro vai fazer calos nas palmas das mos! Falava como se aquelas balas o no pudessem matar a ele, e os olhos semicerrados davam-lhe s palavras um acento ainda mais persuasivo. O oficial do estado-maior associou-se s diligncias do comandante do regimento; mas Bagration no lhes respondeu, contentando-se em dar ordem de cessar fogo e de tomarem disposies para receber os dois batalhes que se aproximavam. Enquanto ele falava, como que corrida por mo invisvel, a cortina de fumo que escondia a escarpa levantou-se da direita para a esquerda, impelida pelo vento que se ps a soprar, e diante dos olhos surgiu-lhe a serra fronteira, coberta de franceses em marcha. Todos os olhos se dirigiram involuntariamente para a coluna francesa que avanava para eles, acompanhando os altos e baixos do terreno. J se viam as barretinas de pele dos soldados, j se podiam distinguir os oficiais dos simples soldados de linha. Via-se j palpitar a bandeira.
     - Que bem que marcham - disse algum da comitiva de Bagration.
     A testa da coluna mergulhava j na plancie. O recontro ia dar-se do lado de c da ladeira...
     Os restos do regimento russo empenhado na luta, que se reagruparam  pressa, retiraram-se pela direita; na sua retaguarda, dispersando os retardatrios, avanavam, alinhados, os dois batalhes do 6 de caadores. Ainda no tinham chegado ao nvel de Bagration e j se ouvia o passo arrastado, pesado, cadenciado de toda essa massa. No flanco esquerdo marchava, mais perto de Bagration que qualquer outro, um comandante de companhia, um homem de rosto redondo, bem constitudo, com um ar de parva satisfao, aquele mesmo que sara a correr da barraca. Evidentemente que naquele momento s pensava em desfilar com marcialidade diante do seu general, nisso e em mais nada.
     Com o ar favorecido de todo o soldado que marcha em forma, agitava airosamente as pernas musculadas, como se estivesse a nadar, estendendo-as sem o mais pequeno esforo e distinguindo-se por essa ligeireza do andar pesado dos soldados, que marchavam acertando o passo pelo dele. No flanco trazia uma espada desembainhada, fina e estreita, uma pequenina espada recurva. Que no parecia uma arma, e, voltando os olhos, ora para o comandante ora para trs, sem desacertar o passo, ia balanando o corpo flexvel e vigoroso. Dir-se-ia que todas as foras da sua alma se empenhavam no mesmo objectivo: desfilar o melhor possvel perante os seus superiores. E, sentindo que cumpria perfeitamente o seu papel, era feliz. Esquerdo.., esquerdo.., esquerdo..., parecia repetir de si para consigo, marcando o passo; e naquela cadncia, aquela muralha de soldados, de traos to diferentes, mas todos srios, pesados sob o fardo das mochilas e das espingardas, movia-se como se todos aqueles centos de homens fossem dizendo igualmente para si mesmos: Esquerdo.., esquerdo.., esquerdo. Um gordo major, ofegante, e com o passo trocado, teve de contornar um silvado que se lhe deparou no caminho; um soldado retardatrio, a deitar os bofes pela boca fora, atarantado por ter ficado para trs, veio apanhar a companhia em passo ginstico. Rasgando o espao, uma bala de artilharia passou por cima da cabea de Bagration e do seu squito e veio cair sobre a coluna sem romper a cadncia da marcha: Esquerdo.., esquerdo!! Cerrar, fileiras!, gritou, distintamente, a voz de um oficial da companhia. Os soldados flectiram em arco no lugar onde havia cado o projctil. Um velho sargento condecorado, que se retardara, ao p dos mortos, reocupou o seu lugar, trocando o passo, e retomou a cadncia, rolando os olhos, furioso, Esquerdo.., esquerdo  esquerdo..., dir-se-ia,, ouvir ainda no silncio ameaador e no meio do rudo dos passos que pisavam o terreno ao mesmo tempo.
     - Bravo, rapazes! - exclamou o prncipe Bagration.
     -  a nossa obrigao. Ex.., celn, celn, celncia! - ouviu-se nas fileiras.
     Um soldado de cara franzida, que marchava  direita, gritando, dirigiu um olhar ao general em que parecia dizer: Ns bem sabemos! Outro, sem se voltar, e, como se receasse distrair-se, abriu muito a boca para gritar e passou.
     Gritaram ordens de: Alto e Arriar mochilas.
     Bagration passou revista s fileiras que tinham desfilado diante dele e desmontou. Entregou as rdeas a um cossaco, tirou a burka e deu-lha, estirou as pernas e comps a barretina. A testa da coluna francesa, com os oficiais  frente, surgia no sop da encosta.
     - Que Deus nos ajude! - exclamou Bagration numa voz firme e inteligvel. Voltou-se alguns momentos para a primeira linha das tropas, e com um gesto rpido, num andar desajeitado de cavaleiro, com certa dificuldade, ao que parecia, avanou pelo terreno acidentado. O prncipe Andr sentiu como que uma fora irresistvel que o impelia para a frente e uma sensao de felicidade se apoderou dele!. (Este foi o ataque a respeito do qual Thiers escreveu: Os Russos portaram-se valentemente, e, coisa que raramente acontece na guerra, viram-se formaes de infantaria inteiras marchar resolutamente umas contra as outras, sem que nenhuma cedesse antes do corpo a corpo. E Napoleo, em Santa Helena: Alguns batalhes russos mostraram-se intrpidos. (N, do A.)
     Os Franceses j estavam muito perto; o prncipe Andr, que caminhava ao lado de Bagration, j distinguia nitidamente o correame, as charlateiras vermelhas e at as caras. Reparou mesmo, com toda a preciso, num velho oficial francs que subia a encosta, com dificuldade, embaraado nas polainas muito largas. Bagration, sem dar qualquer outra ordem, continuava, calado, a percorrer as fileiras. De sbito, do lado dos Franceses ouviu-se um tiro, depois outro, e outro ainda.., e ao longo de todas as fileiras dispersas levantou-se uma fumarada e crepitou a fuzilaria. Alguns dos russos caram, e entre eles o oficial da cara cheia que marchava com tanta alegria e animao. Mas no mesmo instante em que troava a primeira salva. Bagration, olhando em volta, gritou - Hurra!
     - Hurra! - O grito ressoou ao longo de toda a linha, e, ultrapassando o general, adiantando-se, mesmo, uns aos outros, os Russos, em formaes pouco ordenadas, mas cheias de jovial ardor, precipitaram-se para o fundo da colina, na perseguio dos franceses em debandada.
     

     
     
     
     Captulo XIX
     
     O ataque do 6 de caadores garantia a retirada do flanco direito. No centro, a interveno da bataria de Tuchine, que conseguira incendiar Schngraben, retivera o movimento dos Franceses. As tropas de Napoleo tinham-se visto obrigadas a apagar o incndio que o vento propagara, permitindo, assim, a retirada dos Russos. A retirada no centro, atravs do barranco, fizera-se apressada e ruidosamente. No entanto, as tropas, ao retirarem, no tinham alterado a boa ordem das suas fileiras. Mas o flanco esquerdo, que fora atacado e cercado ao mesmo tempo pelas excelentes tropas francesas de Lannes, e era constitudo pelos regimentos de infantaria de Azovsk e Podolovski e pelos hssares de Pavlogrado, esse estava desconjuntado. Bagration mandou Jerkov ao general do flanco esquerdo com ordens para recuar imediatamente.
     Jerkov, galhardamente e sempre com a mo em continncia, esporeou o cavalo e partiu a trote. Mas assim que desapareceu da vista de Bagration, a coragem faltou-lhe. Sentiu que um terror invencvel se apoderava dele e no teve nimo de seguir para a zona de perigo.
     Ao aproximar-se das tropas do flanco esquerdo, no se encaminhou para o local da fuzilaria, mas ps-se  procura do general e dos comandantes onde eles no podiam estar, e foi assim que no transmitiu a ordem que recebera.
     O comando do flanco esquerdo pertencia, por antiguidade, ao general daquele mesmo regimento que fora apresentado a Kutuzov em Braunau e onde Dolokov servia como soldado raso. Quanto ao comando do extremo flanco esquerdo, esse fora entregue ao coronel do regimento de Pavlogrado, onde Rostov servia, o que veio a provocar um mal-entendido. Os dois comandantes no se podiam ver um ao outro, e enquanto no flanco direito a aco j tinha principiado h muito e os Franceses j esboavam um movimento de retirada, ambos continuavam a discutir, irritando-se mutuamente. Os regimentos - tanto o de cavalaria como o de infantaria - no estavam de maneira alguma preparados para um combate iminente. Os homens, desde o soldado ao general, no contavam com a batalha e entretinham-se tranquilamente em pacficas ocupaes, como a de dar de comer aos cavalos, na cavalaria, ou apanhar lenha, na infantaria.
     - Visto que ele, em todo o caso,  mais antigo do que eu no seu posto - dizia o coronel alemo dos hssares, muito corado, dirigindo-se a um ajudante-de-campo que se aproximava -, que faa o que entender. C por mim, no estou disposto a sacrificar os meus hssares. Clarins! Toquem a retirar!
     Mas a situao pedia urgncia, a maior urgncia. O canhoneio e a fuzilaria confundiam-se, as balas rebentavam  direita e  esquerda, e os capotes dos atiradores de Lannes ultrapassavam j a linha do moinho e alinhavam do lado de c quase  distncia de um tiro de espingarda. O general de infantaria, no seu andar claudicante, dirigiu-se para o seu cavalo, montou e, bem direito e hirto na sela, aproximou-se do comandante do regimento de Pavlogrado. Os dois comandantes, antes de dirigirem a palavra um ao outro, fizeram uma continncia corts, mas com uma secreta irritao.
     - Mais uma vez lhe afirmo, coronel - disse o general -, sei a como for, eu no posso deixar aqui, nesta floresta, metade dos meus homens. Peo-lhe, volto a pedir-lhe pela segunda vez, que ocupe a posio e que se prepare para o ataque.
     - Pois eu peo-lhe que se no meta em assuntos que lhe no dizem respeito - replicou o coronel, exaltando-se. - Se fosse da cavalaria...
     - No sou da cavalaria, coronel, mas sou um general russo, e se o no sabe -
     - Sei-o muitssimo bem. Excelncia! - exclamou, subitamente, o coronel, que se adiantou a cavalo e se fez muito encarnado. - Faa favor de ir a primeira linha e ver que esta posio no se pode defender. No estou disposto a deixar exterminar o meu regimento para lhe dar prazer.
     - Esquece-se de quem , coronel. No est em causa o que me d satisfao e no consinto que me fale nesse tom. 
     Aceitando o convite do coronel para um torneio de bravura e arqueando o peito e franzindo as sobrancelhas, o general dirigiu-se com ele para a frente do combate, como se o debate que entre eles se travava houvesse de resolver-se precisamente ali, nas primeiras linhas, sob a metralha. Ao chegarem a, algumas balas lhes passaram por cima da cabea e ambos pararam, calados. Nada podia distinguir-se ali, no lugar em que eles estavam, uma vez que at mesmo do ponto onde se encontravam anteriormente era evidente que a cavalaria nada tinha a fazer naquelas bouas e naqueles barrancos e que os Franceses cercavam a ala esquerda. O general e o coronel olharam um para o outro com uma expresso severa e significativa, como dois galos que se preparam para a luta, esperando, debalde, de um lado ou do outro, qualquer indcio de covardia. Ambos mantiveram o desafio. Como nada havia que dizer e nenhum queria dar motivo ao companheiro para pensar que fora ele o primeiro a retirar-se da linha de fogo, ali teriam ficado por muito tempo, a demonstrar a sua mtua valentia, se no mesmo instante, na floresta, quase por detrs deles, se no tivesse ouvido um retinir de armas e gritos surdos e prolongados. Eram os Franceses que caam sobre os soldados que andavam  lenha. Os hssares j se no podiam retirar com a infantaria. Tinham a retirada cortada  esquerda pela frente francesa. Agora, apesar das dificuldades do terreno, era mister atacar para abrir caminho.
     O esquadro a que pertencia Rostov mal tinha montado a cavalo logo se vira cara a cara com o inimigo. Como j acontecera na ponte de Enris, entre o esquadro e o inimigo nada havia, nada, a no ser, a separ-los, essa terrvel linha do desconhecido e do terror como a que separa os vivos dos mortos. Todos os soldados tinham conscincia dessa linha e se interrogavam a si mesmos angustiosamente: transp-la-iam ou no, e como  que a transporiam?
     O coronel aproximou-se das suas tropas, respondeu, colrico, aos oficiais que o interrogavam, e deu as suas ordens como um homem disposto a cumprir desesperadamente aquilo que se prope. No deu nenhuma voz de comando precisa, mas pelo esquadro correu o boato de que iam atacar. Ouviu-se a voz: - Sentido! - e logo um retinir de sabres que eram arrancados das bainhas. Mas ningum se movia. As tropas do flanco esquerdo, infantaria e hssares, tinham a, impresso de que o prprio comandante no sabia o que devia fazer e a indeciso dos superiores comunicava-se aos soldados.
     Depressa, se ao menos eles decidissem depressa!, dizia Rostov para si mesmo, ao ver chegar, finalmente, com alegria, o momento do ataque em que tantas vezes lhe tinham falado os hssares, seus camaradas.
     - Com a ajuda de Deus, rapazes - gritou Denissov - a trote Marcha!
     As garupas dos cavalos da primeira fila principiaram a ondular. Gratchik sacudiu as rdeas e por si mesmo comeou a trotar.
     A direita. Rostov via as primeiras fileiras dos seus hssares e mais para diante, na sua frente, entrevia uma linha escura, que no podia distinguir bem, e que supunha ser o inimigo. Ouviam-se tiros, mas na distncia.
     - Trote acelerado! - gritou uma voz de comando, e Rostov sentiu que o seu Gratchik levantava as traseiras e metia a galope.
     Sentia a vertigem do movimento apossar-se dele e cada vez o tomava uma maior euforia. Notou uma rvore isolada diante de si. Esta rvore ocupava primeiro o centro daquela linha que lhe tinha parecido to terrvel. E eis que ela lhe ficava j para trs, que a tinha transposto, a essa linha, e que ela no s j nada tinha de terrvel para ele, mas cada vez se sentia mais alegre e animado. Ah, como eu os vou espadeirar!, murmurava, apertando o punho da espada.
     - Hur.., r.., a.., a! - gritaram vozes.
     Ai daquele que me cair nas mos, seja ele quem for!, murmurou Rostov, esporeando o seu Gratchik, e, adiantando-se a todos os seus camaradas, lanou-se a todo o galope. Diante dele estava o inimigo. De sbito, foi como se uma imensa verdasca tivesse chicoteado todo o esquadro. Rostov brandiu a espada pronta a ferir, mas no mesmo momento o soldado Nikitenko, que galopava na sua dianteira, afastou-se dele, e Rostov sentiu, como num sonho, que continuava a ser levado para diante com uma rapidez incrvel e ao mesmo tempo que continuava parado no mesmo lugar. Na sua retaguarda o hssar Bondartchuk, seu conhecido, saltou por cima dele, lanando-lhe um olhar de clera. O cavalo de Bondartchuk empinou-se e passou.
     Que vem a ser isto? No me mexo?... Ca, estou morto?, perguntou Rostov, num repente, a si prprio e no mesmo repente a si prprio respondeu. Estava j completamente s no campo. Em vez dos cavalos a galope e das costas dos hssares, em tomo de si apenas via a terra imvel e as barracas. Sentia-se banhado por um sangue quente. No, estou ferido, e o meu cavalo est morto. Gratchik procurou erguer-se nas patas dianteiras, mas voltou a cair, prendendo a perna do cavaleiro. O sangue corria-lhe da cabea. Debateu-se, mas no foi capaz de se levantar. Rostov quis tambm erguer-se, mas voltou tambm a cair: tinha a patrona engatada na sela. Onde estavam os Russos? Onde estavam os Franceses? No sabia. No havia ningum nas proximidades.
     Depois de conseguir desembaraar a perna, endireitou-se. Onde estava, de que lado ficava agora a linha que dividia to nitidamente os dois exrcitos? Era isto que ele a si prprio perguntava, sem conseguir qualquer resposta. Que  que me teria acontecido de desastroso? Isto d-se, mas que deve fazer-se nestes casos?, perguntava-se a si mesmo enquanto se erguia; e ao mesmo tempo reparava que qualquer coisa de suprfluo lhe pendia do brao esquerdo, paralisado. Dir-se-ia que o punho lhe no pertencia. Examinou o brao procurando, atentamente, sinais de sangue, Ah! J vejo gente, disse de si para consigo- satisfeito, ao ver certo nmero de pessoas que se dirigiam para ele... Vm-me socorrer! A frente vinha um homem com uma estranha barretina na cabea e capote azul. Era escuro, de pele tisnada, e tinha o nariz recurvo. Mais dois, e ainda mais dois o seguiam. Um deles falou numa lngua estranha, que no era a russa. No meio de uns homens semelhantes, com as mesmas barretinas na cabea, mais atrs, havia um hssar russo. Amparavam-no por um brao e atrs vinha o cavalo puxado pela arreata.
     Deve ser um dos nossos, prisioneiro... Sim. Naturalmente vo-me aprisionar a mim tambm! Que gente  esta?, continuou Rostov no seu solilquio, no podendo crer no que via. Sero franceses? Via os desconhecidos aproximar-se, e embora, momentos antes, tivesse lanado o seu cavalo a galope para cair sobre eles e espadeir-los, o v-los agora causava-lhe tal pnico que no podia acreditar nos seus olhos. Quem so? Porque correm? Correm para mim? E porqu? Para me matar? Para me matar a mim, de quem toda a gente gosta? E ento, recordando-se do amor que lhe tinham a me, a famlia e os amigos, pareceu-lhe impossvel que os inimigos o quisessem matar. Ah! Ser possvel? Para me matar? Assim ficou, mais de um minuto, sem se mexer e sem se dar conta da situao. O francs que vinha  frente, o do nariz recurvo, j estava to perto que se lhe distinguiam perfeitamente os traos. E a fisionomia exasperada e estranha daquele homem que, de baioneta calada, os dentes cerrados, se precipitava sobre ele, aterrorizava Rostov. Pegou na pistola, e, em vez de disparar, atirou com ela aos franceses, deitando a fugir para as bouas. J no sentia o mesmo que na ponte de Enns, esses sentimentos de incerteza sobre o futuro e esse desejo de luta que ento o animavam; fugia como uma lebre perseguida por uma matilha. Era unicamente o terror de perder a vida jovem e feliz que o dominava por completo. Saltando agilmente por cima dos fossos, com a ligeireza que costumava ter ao jogar s gorielkis (Jogo semelhante ao da barra. (N, dos T.), l ia levado na sua carreira atravs dos campos, voltando para trs, de quando em quando, o rosto jovem e belo, muito plido, ao mesmo tempo que o percorria um calafrio de medo. Ah! Mais vale no ver, pensava. Assim que chegou, perto das bouas, mais uma vez olhou para trs. Os franceses tinham ficado longe, muito longe e, precisamente no momento em que se voltou, viu o que vinha  frente retardar o passo, em vez de o acelerar, e interpelar em alta voz o camarada que o seguia. Rostov parou. No  isso, dizia ele de si para consigo, no  possvel que eles me queiram matar. No entanto, a mo esquerda pesava-lhe, como se dela pendesse um peso de muitas arrobas. No pde ir mais alm. Os franceses tambm tinham parado e alvejaram-no. Rostov fechou os olhos e baixou-se. Uma ou duas balas lhe passaram, silvando, por cima da cabea. Fez um esforo derradeiro, pegou na mo esquerda com a mo direita e de novo correu, agora em direco s bouas. Ali encontrou atiradores russos.
     

     
     
     
     Captulo XX
     
     Os regimentos de infantaria atacados de improviso na floresta punham-se em fuga e as companhias, misturadas, j no eram mais que tropas desordenadas. Um soldado, enlouquecido, pronunciou esta palavra, terrvel na guerra, embora sem significao: - Estamos cortados! - e a frase, grvida de terror, propagou-se por toda a massa dos soldados.
     - Cercados! Cortados! Perdidos! - gritavam os fugitivos. 
     Quando o general, ao ouvir a fuzilaria e os gritos na retaguarda, compreendeu que qualquer coisa de grave se estava a passar no seu regimento, e lhe passou pela cabea que ele, um oficial exemplar, com uma longa folha de servios, que nunca cometera qualquer falta, podia vir a ser acusado, perante os seus superiores, de negligncia ou de incria, de tal modo se sentiu transtornado que no mesmo momento, sem pensar mais na indisciplina do coronel de cavalaria, e esquecendo-se do seu prprio papel de general, e, principalmente, com um desprezo completo do perigo e do instinto de conservao, agarrou-se ao aro da sela, e, esporeando o cavalo, largou a galope em direco ao seu regimento, sob uma saraivada de balas que, felizmente, o no atingiram. S uma coisa o preocupava: saber o que se tinha passado, remediar a situao, reparar, tanto quanto possvel, a falta cometida, caso houvesse erro da sua parte, e ficar isento de toda a censura, ele, que tinha vinte e dois anos de servio, ele, um oficial exemplar e a quem nunca fora feita a menor observao.
     Depois de ter atravessado inclume as linhas francesas, atingiu o campo de batalha por detrs da floresta que os Russos atravessavam, precipitando-se pelo desfiladeiro, sem ouvirem ordens de ningum. Estava-se, ento, naquele grave minuto em que a sorte de uma batalha pode depender de uma hesitao moral: ouviro as tropas em debandada a voz do seu superior, ou, limitando-se a olhar para ele, prosseguiro na fuga? Apesar dos loucos berros de uma voz at a temida dos soldados, apesar da presena daquela cara rubra, descomposta pela ira e j sem configurao humana, apesar da espada que brandia, as tropas continuavam a fugir, a interpelar-se, a disparar para o ar, sem obedecerem. A hesitao moral que decide da sorte das batalhas pendia visivelmente para o lado do pnico.
     O general sufocava, a gritar, no meio da fumarada, parando desesperado. Tudo parecia perdido. Mas, nesse momento, os Franceses, que iam no encalce dos Russos, fizeram, subitamente, meia volta, sem razo aparente, desaparecendo na orla da floresta, e foi ento que na prpria floresta apareceram atiradores russos. Era a companhia de Timokine, a nica que mantivera at ali intactas as suas fileiras e que, entrincheirada num fosso, atacara os Franceses de surpresa. Timokine lanara-se sobre eles soltando gritos to terrveis, cara sobre o inimigo com uma to desvairada audcia, apenas com a sua pequena espada em punho que os Franceses, desorientados, lanaram fora as armas e despediram em debandada. Dolokov, ao lado de Timokine, matou um francs  queima-roupa e foi o primeiro a pegar pela gola num oficial que se rendia. Os fugitivos russos voltaram para trs, os batalhes reagruparam-se, e o inimigo, prestes a cortar em dois o flanco esquerdo, foi momentaneamente repelido. As reservas puderam reunir-se e os fugitivos detiveram-se. Estava o general na ponte com o major Ekonomov, vendo desfilar diante de si os batalhes em retirada, quando se aproximou dele um soldado, que lhe pegou nos estribos e se virou para ele. Esse soldado vestia um capote azul, regulamentar, no trazia nem mochila nem barretina: tinha a cabea amarrada e aos ombros uma cartucheira francesa. Empunhava uma espada de oficial. Estava plido, e os seus olhos azuis fixavam-se descaradamente no superior. Sorria. Posto o general estivesse ocupado a transmitir ordens ao major Ekonomov, no pde deixar de lhe prestar, ateno.
     - Excelncia! Aqui tem dois trofus - disse Dolokov, tirando a espada e a cartucheira... - Fiz prisioneiro um oficial... Est no batalho. - Dolokov arquejava, as suas palavras eram entrecortadas. -  testemunha o batalho inteiro. Peo-lhe que se no esquea. Excelncia!
     - Est bem, est bem - volveu o general, que continuava a sua conversa com Ekonomov.
     Mas Dolokov no o largou. Desatou as ligaduras, puxou pela manga do general e mostrou-lhe o sangue coagulado nos cabelos. - Uma ferida de baioneta, no abandonei as fileiras. No se esquea. Excelncia.
     
     Tinham-se esquecido da bataria de Tuchine, e foi s no fim do recontro, ao continuar a ouvir o canhoneio do centro, que o prncipe Bagration enviou o oficial do estado-maior s ordens, e depois o prncipe Andr, com instrues para que a bataria retirasse o mais depressa possvel. A linha de proteco que se encontrava nas imediaes da bataria de Tuchine desaparecera, em virtude de uma ordem dada no meio da batalha; mas a bataria continuava a disparar e no fora tomada at ento unicamente porque os Franceses nunca poderiam imaginar que quatro peas sem qualquer cobertura tivessem a audcia de continuar a fazer fogo. Pelo contrrio, pensavam, em virtude da enrgica aco desta bataria, que ali, no centro, se encontravam concentradas as principais foras dos Russos; por duas vezes tinham tentado atacar a posio e de ambas as vezes haviam sido repelidos pela metralha das quatro peas colocadas naquela eminncia.
     Pouco depois da partida de Bagration, conseguira Tuchine incendiar Schngraben.
     - Que rebulio que l vai! Como aquilo arde! Hem, que fumarada! Rica pontaria! Famoso! Que fumarada! Que fumarada! - gritavam os artilheiros, excitadssimos.
     Todas as peas, sem instrues, disparavam na direco do incndio. E os soldados, como se estivessem a assistir a um concurso, exclamavam a cada tiro: - Bem apontado!  isso mesmo,  isso mesmo! Eh! Olhem para aquilo! De primeira ordem! - O fogo, que o vento activava, propagava-se rapidamente. As colunas francesas instaladas na povoao recuaram, mas, para se vingar deste revs, o inimigo instalou  direita da aldeia dez peas de artilharia que faziam fogo sobre Tuchine.
     No meio da alegria infantil que lhes despertava o incndio, e entusiasmados com o xito dos seus tiros contra os Franceses, os artilheiros de Tuchine no deram por esta bataria seno quando dois projcteis, e logo, em seguida mais quatro, caram no meio das suas peas. Um deles derrubou dois cavalos e outro arrancou uma perna a um condutor de munies. O ardor que se apoderara de cada um deles no se desvaneceu com isso e apenas mudou de objectivo. Os cavalos foram substitudos pelos da carreta de reserva, os feridos levados e as quatro peas voltaram o seu tiro contra as dez do inimigo. Um oficial camarada de Tuchine foi morto no princpio da aco, e no espao de uma hora, dos quarenta artilheiros, dezassete tinham sido postos fora de combate. Mas nem por isso o outro pessoal da bataria parecia menos alegre e cheio de entusiasmo. Por duas vezes viram surgir l em baixo, a pequena distncia, soldados franceses, e por duas vezes os metralharam.
     O homenzinho dos gestos indecisos e sem jeito s dizia para o seu impedido: - Mais uma cachimbada em cima deles.- E corria  primeira linha, atiando o fogo, e olhava para os Franceses com a mo em pala sobre os olhos.
     - Fogo em cima deles, rapazes! - gritava, e ele prprio pegava nas rodas das peas, para faze-las girar, e fazia manobrar as alavancas.
     No meio da fumarada, ensurdecido pelas detonaes ininterruptas, que o faziam estremecer a cada tiro. Tuchine, sem nunca abandonar o seu cachimbo, corria de uma pea  outra, ora fazendo pontaria, ora contando os projcteis, ora ocupado em mandar desatrelar os cavalos mortos ou feridos, e sempre dando ordens com a sua vozinha fraca, suave e indecisa. Cada vez tinha uma expresso mais excitada. S quando alguns dos seus homens eram mortos ou feridos franzia as sobrancelhas e, afastando-se dos que morriam, increpava os outros que, como sempre, no se davam pressa de amparar os feridos ou de levar os cadveres. Os soldados, na sua maior parte belos rapages, como  costume na artilharia, duas cabeas mais altos que o seu oficial e duas vezes mais largos de ombros, interrogavam com os olhos o seu superior, como se fossem crianas atrapalhadas com o que tinham de fazer, e copiavam, invariavelmente, a expresso que lhe liam no rosto.
     Neste terrvel fragor, no meio daquele inferno e da necessidade de fazer frente a tudo. Tuchine no sentia a mais pequena impresso de medo e no lhe passava pela cabea a ideia de que poderia ser morto ou ficar gravemente ferido. Pelo contrrio, cada vez era maior a sua alegria. Parecia-lhe que j fora h muito, que datava do dia anterior, pelo menos, o momento em que vira o inimigo pela primeira vez e que sobre ele havia disparado o primeiro tiro e afigurava-se-lhe que a pequena rea de terreno em que se encontrava lhe era um local de h muito conhecido e familiar at. Embora se lembrasse de tudo, pensasse em tudo, fizesse tudo que poderia fazer o melhor oficial na sua situao, dir-se-ia estar como que em delrio de febre ou completamente embriagado.
     O barulho ensurdecedor das peas que disparavam por todos os lados, o silvar e rebentar dos projcteis inimigos, a presena dos artilheiros todos suados e vermelhssimos numa azfama em volta das peas, o sangue que corria dos homens e dos animais, aquela fumarada que se erguia no cu do lado do inimigo, sempre acompanhada de um projctil, que vinha cair ora em terra, ora em cima de um homem, ora sobre uma pea ou um cavalo, a vista de todas estas cenas no o impedia de encher a cabea de todo um mundo fantstico, naquele instante os seus encantos. Os canhes inimigos, na sua imaginao, no eram canhes, mas cachimbos, donde partiam as raras fumadas de invisveis fumadores.
     L est outro a fumar, murmurava Tuchine enquanto um penacho de fumo trepava pela montanha acima e era levado pelo vento para a esquerda... Esperemos pela bala para lha tornarmos a mandar.
     - Que lhes havemos de mandar. Excelncia? - perguntava o artilheiro que estava mais perto dele e que o tinha ouvido rabujar.
     - Nada, um obus... - respondia ele.
     - Vamos a isso. Matvievna duma cana.
     Matvievna era o nome que ele dava  grande pea do extremo, de fundio antiga. Os Franceses em tomo dos canhes pareciam-lhe formigas. O rapago bbedo, o n 1 da segunda pea, para ele era o tio. Gostava mais de olhar para ele do que para os outros, e qualquer movimento seu o encantava. O rudo da fuzilaria junto  montanha, ora esmorecendo, ora reanimando-se, figurava-se-lhe a respirao de um ser vivo. Prestava ateno s variaes de intensidade desses rudos.
     Eh! L toma ela ar outra vez, pensava.
     E ele prprio se imaginava um poderoso gigante, de imensa estatura, atirando as suas balas aos Franceses com ambas as mos.
     - Anda. Matvievna, minha velha, no me atraioes! - dizia, recuando alguns passos, quando ouviu por cima da cabea uma voz estranha e desconhecida.
     - Capito Tuchine! Capito!
     Tuchine voltou a cabea, surpreendido. Era aquele mesmo oficial do estado-maior que o tinha expulsado, no acampamento de Grount. Gritava-lhe, numa voz sufocada.
     - Que faz aqui? Est doido? J lhe deram, por duas vezes, ordem de recuar, e o senhor...
     Que querem eles de mim ainda?, disse Tuchine de si para consigo, fitando, mal-humorado, o superior.
     - Eu.., nada... - balbuciou, levando dois dedos  pala da barretina. - Eu -
     O coronel no pde chegar a cumprir a sua misso. Um projctil que naquele momento se aproximava obrigou-o a mergulhar sobre a cabea do cavalo. Calou-se, e preparava-se para dizer mais alguma coisa quando um novo projctil lhe cortou a palavra. Fez meia volta e despediu a galope.
     - Retirar! Todos! - gritou de longe.
     Os soldados puseram-se a rir. Um minuto depois chegou um ajudante-de-campo com a mesma ordem.
     Era o prncipe Andr. O que este viu antes de mais nada, ao penetrar no terreno ocupado pelas peas de Tuchine, foi um cavalo desatrelado, com uma perna partida, que escoiceava rio meio dos varais. O sangue corria-lhe da perna como a bica de uma fonte. Entre os trens de artilharia jaziam alguns mortos. Os projcteis, uns atrs dos outros, voavam-lhe por cima da cabea enquanto se aproximava, e sentiu como que um estremecimento nervoso percorrer-lhe o corpo. Mas a prpria ideia de que tinha medo lhe dava coragem. Eu no posso ter medo, dizia de si para consigo, e, sem pressa, saltou do cavalo no meio da bataria. Transmitiu as ordens sem se afastar. Decidiu mandar atrelar as peas da posio na sua presena e mand-las levar dali. Ao lado de Tuchine, pisando cadveres, e sob o violento fogo dos Franceses, ocupou-se da mudana dos canhes.
     - O oficial que veio h bocado tratou logo de se pr a andar - disse o artilheiro ao prncipe Andr. - No era como Vossa Merc.
     O prncipe Andr no trocou uma s palavra com Tuchine. Estavam ambos to atarefados que dir-se-ia nem sequer se verem um ao outro. Quando, mais tarde, desciam a colina, depois de terem engatado s carretas as duas peas ainda intactas - tiveram de abandonar uma pea desmantelada e um licorne - o prncipe Andr aproximou-se de Tuchine.
     - Bom, at  vista - disse-lhe, estendendo-lhe a mo.
     - At  vista, meu caro - respondeu Tuchine -, meu bom amigo! Adeus, meu caro - acrescentou, sentindo, sem que soubesse porqu, que as lgrimas lhe subiam aos olhos.
     

     
     
     
     Captulo XXI
     
     O vento deixara de soprar; nuvens negras passavam, baixas, sobre o campo de batalha, confundindo-se, no horizonte, com o fumo da plvora. Principiou a escurecer, e os clares do incndio, em dois stios, viam-se agora melhor. O tiroteio comeava a enfraquecer, mas na retaguarda e  direita a fuzilaria tornava-se cada vez mais frequente e mais prxima. Assim que Tuchine, com as suas peas abrindo caminho atravs dos feridos, saiu da zona de fogo e desceu para o barranco, encontrou a oficialidade e os ajudantes-de-campo, entre os quais o oficial de estado-maior Jerkov, que duas vezes lhe fora expedido e que nem uma s chegara  bataria. Todos, interrompendo-se uns aos outros, discutiam as ordens sobre a direco a tomar. Dirigiram-lhe censuras e observaes. Tuchine no tomara qualquer disposio, e em silncio, receoso de falar, pois  mais pequena palavra romperia em soluos, sem que ele prprio soubesse porqu, l ia atrs, montado no seu rocim de artilheiro. Posto houvesse ordem de abandonar os feridos, muitos deles tinham-se arrastado atrs das tropas, pedindo assento em cima das peas. Aquele galhardo oficial de infantaria que antes do combate sara da barraca de Tuchine l ia deitado, com urna bala no ventre, em cima da carreta da Matvievna. No sop da colina, um junker de hssares, muito plido, amparando uma das suas mos com a outra, aproximou-se de Tuchine e pediu-lhe um lugar.
     - Capito, faa favor, estou com este brao contuso - disse, timidamente. - Por amor de Deus, no posso andar!
     Via-se que aquele jovem oficial j pedira mais do que uma vez que o recolhessem e toda a gente lhe recusara auxlio. Tinha uma voz hesitante e lamentosa.
     - Deixe-me sentar, por amor de Deus.
     - Arranjem-lhe lugar, arranjem-lhe lugar! - exclamou Tuchine. - Eh!, tio, estende-lhe um capote - acrescentou, dirigindo-se ao seu artilheiro favorito.- Mas onde  que est o oficial ferido?
     - Levaram-no, estava morto - respondeu algum. - Arranjem-lhe lugar. Sente-se, meu caro, sente-se. Estende o capote. Antonov.
     O junker era Rostov. Amparava o brao ferido, estava plido e o queixo tremia-lhe de febre. Instalaram-no em cima da Matvievna, sobre aquela mesma pea donde acabavam de tirar o oficial morto. Sobre o capote estendido havia sangue, que manchou as calas e as mos de Rostov.
     - Qu, est ferido, meu caro? - disse Tuchine, aproximando-se da pea onde estava instalado Rostov.
     - No, apenas contuso.
     - E que sangue  esse que est em cima da carreta? - perguntou Tuchine.
     - Foi o oficial. Vossa Merc, que l deixou sangue - replicou o artilheiro, limpando o sangue com a manga do capote, como que a desculpar-se da falta de asseio.
     Dificilmente, com o auxlio da infantaria, l levaram as peas para a montanha, e, ao atingirem a aldeia de Gunthersdorf, fizeram alto. Estava to escuro que a dez passos no podia distinguir-se o uniforme dos soldados, e a fuzilaria acabara. Subitamente, a pouca distncia,  direita, ressoaram novamente gritos e salvas. A obscuridade foi iluminada pelos tiros. Era um ltimo ataque dos Franceses, a que respondiam os soldados entrincheirados nas casas. Todos abandonaram de novo a povoao, mas as peas de Tuchine; essas, no podiam mover-se dali, e os artilheiros. Tuchine e o junker trocavam olhares entre si, sem dizerem nada, confiando-se  sorte. A fuzilaria serenou, e, por uma estrada lateral, veio at eles uma conversa de soldados muito animada.
     - Tu no ests ferido. Petrov? - perguntava um deles.
     - Chegmos-lhe bem, irmo. No se metem noutra - respondeu outro soldado.
     - No se v nada. E que coa eles pregaram na sua gente! No  verdade? No se v nada, meninos. No poderamos beber qualquer coisa?
     Os Franceses tinham sido definitivamente repelidos. E foi ento que, pela noite de breu, as peas de Tuchine, enquadradas por um enxame ruidoso de soldados de infantaria, voltaram a pr-se em andamento.
     Nas trevas, era como um rio escuro e invisvelque corria na mesma direco, entre o murmrio das vozes, das conversas, do tropear dos cavalos e do rudo das rodas. No meio de todos estes rumores, os mais diferentes, ouviam-se mais distintamente os gemidos e os gritos dos feridos que subiam na noite. Estes gemidos s por si pareciam encher as trevas em que todos mergulhavam. Gemidos e trevas confundiam-se. Da a algum tempo, um remoinho se produziu no meio desta multido em movimento. Algum montava um cavalo branco, acompanhado de um squito, e ao passar pronunciavam-se algumas palavras. Que  que ele disse? Onde  que ns vamos agora? Devemos ficar no mesmo lugar? Concedeu recompensas? De todos os lados se entrecruzavam estas vidas interrogaes e a massa em movimento comeava a cerrar-se, pois, evidentemente, os que iam na frente tinham parado e corria o boato de que fora dada ordem para fazer alto. Todos, efectivamente, pararam no stio onde estavam, no meio da estrada lamacenta.
     Brilharam luzes e puderam distinguir-se vozes. O capito Tuchine, depois de ter tomado as suas disposies nas companhias, mandou um soldado em busca da ambulncia ou de um mdico para o junker, e sentou-se junto de uma fogueira que os soldados tinham acendido na estrada. Rostov arrastou-se tambm para o p das chamas. O tremor febril que o seu estado lhe causava, o frio e a humidade prostravam-no por completo. Sentia uma vontade irresistvel de dormir, mas no podia, por virtude da dor terrvel no brao, para que no encontrava posio. Ora fechava os olhos, ora fitava a fogueira, que tinha cintilaes escarlates, ora erguia os olhos para a msera silhueta corcovada de Tuchine, escarranchado no cho a seu lado. Os papudos olhos do capito, bons e inteligentes, fixavam-no com simpatia e compaixo. Rostov sentia que Tuchine gostaria de o poder ajudar, de todo o seu corao, mas que nada podia fazer.
     Por todos os lados se ouviam passos e vozes de gente que desfilava, a p e a cavalo, e de soldados de infantaria que se instalavam nas imediaes. As vozes, o rudo dos passos, das ferraduras dos cavalos patinhando na lama, o crepitar prximo e distante das fogueiras, tudo isto formava como que uma vaga estrondeante.
     J no era, como at ali, um rio invisvel correndo nas trevas, mas um oceano caliginoso que se aquieta e palpita depois da tempestade. Rostov olhava e ouvia, sem pensar, tudo o que se passava diante dele e  sua volta. Um soldado de infantaria avanou para a fogueira, ps-se de ccoras, estendendo as mos para as chamas e desviando a cara.
     - D licena. Sua Merc? - disse ele, dirigindo-se a Tuchine -  que eu perdi-me da minha companhia. Sua Merc. No consigo saber onde ela est. Que desgraa!
     Ao mesmo tempo que o soldado, aproximou-se tambm um oficial de infantaria, com a cara amarrada, o qual, dirigindo-se a Tuchine, pediu que fizesse avanar um pouco as peas para deixar passar as bagagens. Atrs deste comandante de companhia precipitaram-se dois soldados. Renhiam violentamente, puxando cada um para o seu lado por uma bota.
     - No tenhas medo! Foste tu que a apanhaste! Tens a mo leve! - gritava um deles, numa voz rouca.
     Chegou depois um soldado plido e magro, o pescoo envolto numa ligadura ensanguentada, que, raivoso, pediu gua aos artilheiros.
     - O qu? Temos de morrer como ces? - dizia ele.
     Tuchine mandou que lhe dessem gua. Em seguida apareceu um soldado, um jogral, que pediu lume para os soldados de infantaria.
     - Lume, bem aceso, para os da infantaria. Encantado com a companhia! Obrigado pelo lume. Havemos de vos pagar com juros - disse ele, levando consigo, para o meio das trevas, um tio aceso.
     Depois, quatro soldados que traziam num capote um objecto pesado passaram junto do acampamento. Um deles tropeou. - Diabos os levem mais a fogueira no meio do caminho - resmungou.
     - Ele est morto, para que o havemos de levar? - observou outro.
     - Eh, rapazes!
     E desapareceram com o fardo na escurido.
     - Ento? Di-lhe muito? - perguntou Tuchine em voz baixa.
     - Di.
     - Sua Excelncia o general chama-o. Est ali, naquela isb - disse um artilheiro aproximando-se de Tuchine.
     - Vou j, meu amigo.
     Tuchine ergueu-se, e, abotoando o capote e ajeitando-o, afastou-se da fogueira.
     No muito longe do acampamento dos artilheiros, numa isb preparada para ele, o prncipe Bagration estava sentado diante de uma mesa, conversando com alguns comandantes de destacamento reunidos em volta dele. L estava o velhito de olhos semicerrados, o general com vinte e dois anos de servio impecvel, muito vermelho, por causa da vodka que bebera e do jantar que ingerira, o oficial do estado-maior, com o seu anel. Jerkov, que olhava com inquietao para toda a gente, e por fim o prncipe Andr, muito plido, os lbios cerrados e os olhos a brilharem, febris.
     A um canto estava uma bandeira tomada aos Franceses e o auditor, com o seu ar ingnuo, palpava-lhe o tecido e abanava a cabea, talvez porque a bandeira o preocupava, ou ento por lhe ser penoso, a ele, com fome, assistir a um repasto em que no tomava parte. No quarto ao lado estava o coronel francs feito prisioneiro pelos drages. Os oficiais russos juntavam-se em volta dele para o verem. O prncipe Bagration agradecia aos comandantes de seco e pedia, pormenores sobre a batalha e as perdas.
     O comandante do regimento que lhe fora apresentado em Braunau contava que desde o comeo da aco tinha evacuado a floresta, reunira os seus homens, que andavam  lenha, e, lanando na refrega os seus dois batalhes, atacara  baioneta e repelira os Franceses.
     - Quando me dei conta. Excelncia, de que o meu batalho estava disperso, parei no meio da estrada e disse com os meus botes: Deixemo-los passar, e depois abramos fogo sobre eles. E foi isso que eu fiz.
     Este coronel tinha desejado tanto agir deste modo, e lamentava to profundamente no o ter conseguido, que acabara por imaginar sinceramente que tudo quanto dizia era exacto. E no fim de contas talvez as coisas se tivessem passado assim. Seria possvel, no meio de toda aquela confuso, reconhecer o que se tinha ou no tinha passado?
     - Alm disso, devo observar-lhe. Excelncia - prosseguiu ele, lembrando-se da conversa de Doloke, com Kutuzov e do seu ltimo encontro com o degradado -, que Dolokov, soldado raso, fez prisioneiro,  minha vista, um oficial francs, e se distinguiu entre todos.
     - Eu vi. Excelncia, o ataque dos soldados de Pavlogrado - interveio Jerkov, sempre com o seu ar inquieto. No tinha visto nesse dia os hssares, e apenas ouvira falar no caso a um oficial de infantaria... - Romperam dois quadrados. Excelncia.
     Ao ouvirem estas palavras de Jerkov alguns dos presentes sorriram, como sempre  espera de qualquer gracejo, mas, ao verificarem que o que ele estava a dizer apenas tinha em vista a glria das tropas e daquela jornada, assumiram uma expresso sisuda, embora a maior parte deles soubesse perfeitamente que tudo aquilo no passava de palavras atiradas ao ar. O prncipe Bagration dirigiu-se ao velho militar.
     - Agradeo-vos a todos, meus senhores: todos os corpos se comportaram com herosmo: infantaria, cavalaria e artilharia. Como  que se compreende que se tenham abandonado no centro duas peas? - perguntou, procurando algum com o olhar. Bagration no inquiria do destino das peas do flanco esquerdo; ele sabia, que a, desde o princpio da batalha, todos os canhes tinham sido abandonados. - Parece-me que j lhe perguntei isso - disse ao oficial de estado-maior em servio.
     - Uma estava desmantelada - replicou este. - Quanto  outra, no sei o que aconteceu; estive presente durante toda a operao e tomei as medidas necessrias. Mal tinha sado dali... Fazia l um calor, realmente - acrescentou com modstia.
     Algum disse que o capito Tuchine estava ali, nas imediaes, e que o tinham mandado chamar.
     - Mas o senhor, o senhor esteve l - disse Bagration ao prncipe Andr.
     - Precisamente partimos quase ao mesmo tempo - atalhou o oficial de estado-maior, dirigindo-se a Bolkonski, com um sorriso amvel.
     - No tive o prazer de o ver - replicou o prncipe Andr, com frieza, e martelando as palavras.
     Toda a gente se calou. Tuchine aparecera no limiar da porta, deslizando timidamente por detrs das costas dos generais Ao passar ao p de todas estas personalidades, na acanhada isb, como sempre muito conturbado com a presena dos superiores, no reparou na haste da bandeira e tropeou.
     Alguns dos presentes puseram-se a rir.
     - Como  que se compreende que tenham abandonado uma pea? - perguntou Bagration, franzindo a testa, no tanto dirigindo-se ao capito como aos que se riam, entre os quais Jerkov se distinguia muito particularmente.
     Somente agora, diante do severo comandante. Tuchine media, em toda a sua monstruosidade, o crime e a infelicidade de ainda estar vivo depois de ter perdido dois canhes. Passara por tantas emoes que at ali ainda no tivera tempo de pensar no caso. O riso dos oficiais ainda o tornava mais desgraado. Ali ficou, diante de Bagration, a tremer, a, tremer, e apenas conseguiu articular:
     - No sei. Excelncia... Excelncia... No tinha mais homens. Excelncia.
     - Podia t-los ido buscar ao batalho que o cobria! Cobertura era coisa que a sua bataria no tinha, eis o que Tuchine ignorava, embora, de facto, fosse essa a verdade. Receoso de comprometer com isso outro comandante, sem dizer palavra, olhou para Bagration, de olhos fitos, como um colegial que, no sabendo o que h-de responder, fica a olhar para o examinador.
     O silncio prolongou-se por bastante tempo. Bagration, que, evidentemente, no queria mostrar-se severo, no achava que dizer; os demais no ousavam intervir. O prncipe Andr olhava disfaradamente para Tuchine e as suas mos tinham estremecimentos nervosos.
     - Excelncia - disse ele, rompendo o silncio com a sua, voz cortante - dignaste-vos enviar-me  bataria do capito Tuchine. Estive l e fui encontrar dois teros dos homens e dos cavalos mortos, duas peas desmanteladas, e, quanto a cobertura, nada.
     Bagration e Tuchine fitavam agora Bolkonski, que revelava uma emoo refreada.
     - E se consente que eu exprima a minha opinio. Excelncia - prosseguiu ele - devo dizer-lhe que devemos em grande parte o xito desta jornada  interveno desta bataria e  firmeza estica do capito Tuchine e da sua companhia. - E, sem aguardar qualquer resposta, levantou-se e abandonou a mesa.
     O prncipe Bagration olhou para Tuchine, e como no queria dar a impresso de que n4o acreditava no juzo peremptrio de Bolkonski nem, ao mesmo tempo, de que estava disposto a acreditar plenamente nele, fez um aceno com a cabea e disse P. Tuchine que podia retirar-se. O prncipe Andr saiu atrs dele.
     - Obrigado, o senhor salvou-me, meu caro - disse-lhe Tuchine,
     Andr envolveu-o num olhar e afastou-se sem dizer nada. Sentia a alma triste e pesada. Tudo aquilo era to anormal, to diferente do que ele tinha esperado.
     
     Que gente  esta? Que faz aqui? Que quer? Quando  que tudo isto acabar?, pensava Rostov, vendo desfilar todas aquelas sombras diante de si. Cada vez lhe era mais penosa a dor que sentia no brao. Apoderava-se dele um sono invencvel, crculos vermelhos danavam-lhe diante dos olhos e a recordao de todas estas vozes, destas caras, a conscincia do isolamento em que estava, misturavam-se  dor que sentia. Eram eles, aqueles soldados, feridos ou no feridos, eram eles que o esmagavam, que pesavam em cima de si, lhe torciam os tendes, lhe assavam as carnes do brao e do ombro partidos. Para se libertar da sua presena, fechou os olhos.
     Adormeceu alguns momentos e durante esse breve intervalo de inconscincia viu desfilar diante toda uma fantasmagoria. Eram a me e as suas grandes mos brancas, os ombros delgados de Snia, os olhos risonhos de Natacha, e Denissov, com a sua grossa voz e os seus bigodes, e Telianine, e toda a sua aventura com este e com Bogdanitch. E estas cenas identificavam-se com a figura desse soldado de voz rude que ele tinha ouvido, e as duas imagens confundidas agarravam-lhe o brao brutalmente sem piedade e sacudiam-lho constantemente no mesmo sentido. Fazia esforos para se libertar destes fantasmas, mas eles no lhe abandonavam o ombro por um segundo que fosse. E o ombro no lhe teria doido mais, ter-se-ia curado, se eles deixassem de lho puxar. Era-lhe impossvel, porm, ver-se livre deles,
     Abriu os olhos e olhou para o ar. A cortina negra da noite estendia-se a poucos centmetros por cima da claridade das fogueiras. Via-se flutuar nessa claridade uma ligeira neve pulverizada. Tuchine no voltava, o mdico no aparecia. Estava s; agora apenas ali havia um soldadito, com o tronco nu, do outro lado da fogueira, que aquecia o corpo amarelento e descarnado.
     Ningum se importa comigo, pensava Rostov... ningum para me socorrer, ningum para me lamentar. E lembrar-me eu que outrora, l em casa, todo eu era fora, e era alegre, e que- rido. Soltou um suspiro e esse suspiro, sem que desse por isso, terminou num gemido.
     - Sente-se mal, hem? - perguntou o soldado, que sacudia a camisa por cima das chamas, e sem esperar resposta, acrescentou, numa voz rouca: - Ah, a gente que hoje para a ficou em pedaos! Foi terrvel!
     Rostov no ouvia as palavras do soldado. Olhava para os pequeninos flocos de neve que rodopiavam por cima da fogueira e lembrava-se do Inverno russo, da casa quente e clara, da pelia suave, dos trens rpidos; via-se cheio de sade, rodeado da ternura e dos cuidados da famlia. Ah!, para que vim eu para aqui?, dizia de si para consigo.
     No dia seguinte, os Franceses no renovaram o ataque e os restos do destacamento de Bagration puderam juntar-se ao exrcito de Kutuzov,






TERCEIRA PARTE
     

     
     
     
     Captulo I
     
     O prncipe Vassili no preparava de antemo os seus planos. E muito menos pensava em fazer mal s pessoas para da extrair proveito. Era apenas um homem de sociedade bem sucedido, e que se habituara a ter xitos. Consoante as circunstncias, de acordo com as suas relaes, diversos planos e combinaes se arquitectavam constantemente na sua cabea, sem que ele prprio se desse perfeita conta disso, e eis em que consistia, para ele, o interesse da sua existncia. No eram uma nem duas as combinaes que ele constantemente tinha em mente, mas dzias: umas apenas em esboo, outras realizadas, e havia ainda as que caam por terra.  claro que ele no costumava dizer de si para consigo, por exemplo: Este indivduo  actualmente uma pessoa poderosa, h toda a vantagem em que eu conquiste a sua confiana e a sua amizade, para poder vir a tirar da algum proveito. Tambm no costumava dizer para si: Ora aqui temos rico o Pedro,  preciso que eu o leve a casar com minha filha, para lhe pedir emprestados os quarenta mil rublos de que tenho necessidade. Apresentava-se o indivduo importante: instantaneamente o seu instinto lhe segredava que este homem podia ser-lhe til, e ei-lo que se relacionava com ele e na primeira ocasio, sem que se tivesse preparado para isso, instintivamente por assim dizer, lisonjeava-o, tornava-se-lhe familiar, insinuava-lhe algumas palavras sobre as suas necessidades.
     Pedro estava ao seu alcance em Moscovo; fez que ele fosse nomeado camarista da corte, o que ento correspondia ao cargo de conselheiro de Estado, e insistiu para que o rapaz o acompanhasse a Petersburgo e se hospedasse em sua casa. Desprendidamente, na aparncia, e ao mesmo tempo com a perfeita convico de que assim devia agir, o prncipe Vassili fazia tudo quanto era preciso para que Pedro desposasse sua filha. Se tivesse arquitectado previamente os seus planos no lhe teria sido possvel imprimir s suas maneiras um ar to natural, nem dispor de tanta simplicidade e familiaridade nas suas relaes com as pessoas de uma situao mais importante do que a sua ou com os seus inferiores. Era constantemente atrado para as pessoas mais poderosas e mais ricas do que ele, e possua a arte pouco vulgar de aproveitar o momento favorvel para delas extrair o que lhe era vantajoso.
     Pedro, que, de um momento para o outro e sem contar, se tornara to rico e conde Bezukov, depois daqueles seus ltimos tempos de isolamento e despreocupao, de tal modo se sentia perseguido pelas pessoas e enfronhado em ocupaes que s na cama lhe era dado encontrar-se consigo mesmo. Tinha-se visto obrigado a assinar papis, a entrar em comunicao com reparties cuja importncia no conseguia perceber muito bem, a interrogar sobre este ou aquele assunto o seu principal intendente, a visitar os seus domnios perto de Moscovo e a receber uma infinidade de pessoas que nunca tinham querido saber sequer da sua existncia e que se teriam mostrado agora muito pesarosas e ofendidas caso ele, porventura, as no quisesse ver. Todas estas variadas personalidades: homens de negcios, parentes, conhecimentos, todas se mostravam, unanimemente, de uma grande amabilidade para com o moo herdeiro, todas estavam incontestvel e evidentemente convencidas das suas altas qualidades. A cada passo ouvia estas palavras: com a sua extraordinria bondade, ou ento: uma pessoa de corao to excelente, ou: o senhor, que tem uma to bela alma, conde..., e outras coisas do mesmo gnero. E de tal maneira que, no fim de contas, principiou a acreditar sinceramente na sua extraordinria bondade, na sua extraordinria inteligncia, tanto mais que no fundo do seu corao sempre se julgara muito bom e muito inteligente. At mesmo as pessoas que anteriormente se tinham mostrado para com ele malvolas ou hostis agora eram todas ternura e amabilidade. A mais velha das princesas, aquela de alta estatura e cabelos lisos como os de uma boneca, que sempre se mostrara to colrica, veio procurar Pedro depois dos funerais. De olhos baixos e muito corada, declarou-lhe que lastimava muito o que se tinha passado entre os dois e que no se sentia agora no direito de lhe pedir fosse o que fosse alm da autorizao, depois da desgraa que a atingira, de ficar ainda algumas semanas numa casa que tanto estimava e por que tanto se tinha sacrificado. Ao dizer estas palavras, no pde conter-se e rompeu a soluar. Muito comovido perante semelhante mudana numa pessoa habitualmente to impassvel como uma esttua. Pedro apertou-lhe a mo e pediu-lhe perdo, sem que ele prprio soubesse de qu. A partir desse dia, a princesa passou, a tricotar-lhe um cache-nez de riscas e tomou-se outra para ele.
     - Faa isso por mim meu amigo; o certo  que ela passou muito por causa do defunto - dissera-lhe o prncipe Vassili, apresentando-lhe um papel a assinar para a princesa.
     Vassili decidira lanar aquele osso  pobre princesa para ela roer, um ttulo de crdito de trinta mil rublos. Era a maneira de evitar que lhe passasse pela cabea dizer qualquer coisa a respeito da participao dele, prncipe Vassili, no negcio da pasta. Pedro endossou o ttulo de crdito, e desde esse momento a princesa redobrou de atenes para com ele. As irms mais novas da princesa foram igualmente muito amveis para com Pedro, especialmente a mais jovem e a mais bonita, a que tinha um sinalzinho na cara, e Pedro sentia-se muitas vezes perturbado com os sorrisos dela e a emoo que manifestava na sua presena.
     A Pedro afigurava-se-lhe to natural que toda a gente gostasse dele, ter-lhe-ia parecido to contrrio  natureza que algum o no estimasse, que no podia deixar de acreditar na sinceridade das pessoas que o cercavam. Alis, no tinha tempo de se interrogar a respeito da sua muita ou pouca sinceridade. No tinha tempo para nada, sentia-se constantemente num estado de suave e alegre embriaguez. Percebia que era o centro de uma importante agitao de toda aquela gente; sentia que esperavam dele a todo o momento fosse o que fosse e que se ele no fizesse isto ou aquilo causaria com isso a aflio de muitos, privando-os do que eles esperavam, e que, se fizesse isto ou aquilo, tudo seria perfeito. Por isso fazia sempre o que esperavam dele, mas os bons resultados aguardados deixavam sempre a desejar.
     Nos primeiros momentos foi o prncipe Vassili, mais do que ningum, quem monopolizou os interesses de Pedro e a sua prpria pessoa. A partir da morte do conde Bezukov, no o abandonou mais. Deu-se ares de algum que est esmagado de trabalho, atarefado, at mais no poder, mas que, por compaixo, no pode entregar aos caprichos da sorte, abandonar aos ladres, um adolescente indefeso, o filho do seu amigo acima de tudo, sobretudo com uma to imensa fortuna. Durante os dias que passou em Moscovo depois do falecimento do conde convocou Pedro ou apresentou-se em casa dele para lhe prescrever o que devia fazer, tomando para isso um tom ao mesmo tempo de lassido e de confiana que parecia dizer: Bem sabe que estou cheio de trabalho e que  por mera caridade que eu me preocupo consigo, e alm disso sabe bem que aquilo que eu lhe proponho  a nica coisa vivel.
     - Bom, meu amigo, enfim, ns partimos amanh - disse-lhe um dia, com os olhos semicerrados, dando-lhe pancadinhas amistosas no brao, no tom de quem dava a entender que o assunto de h muito fora decidido entre os dois e que no valia a pena falarem mais no caso. - Ns partimos amanh, reservo-te um lugar no meu carro. Estou muito contente. Aqui todos os assuntos importantes esto arrumados. Por mim, h muito j que devia ter partido. Ah!, recebi resposta do chanceler. Tinha-a pedido para ti: foste nomeado para o corpo diplomtico e s camarista da corte. Tens aberta a carreira diplomtica.
     Apesar do poder que sobre ele exercia o tom de lassido e de confiana que acompanhava estas palavras. Pedro, que tanto pensava na sua carreira, teria querido fazer objeces. Mas o prncipe Vassili cortou-lhe o discurso naquele tom gorjeado de baixo que parecia excluir toda a possibilidade de o interromperem e que no costumava empregar seno nos casos em que era preciso dominar uma convico.
     - Mas, meu caro, eu tomei esta iniciativa por mim mesmo, para descanso da minha conscincia e no tens nada que me agradecer. Nunca ningum se queixou de ser querido de mais; e, depois, s livre, podes renunciar um dia a tudo isto. Tu vers, quando estiveres em Petersburgo. E j  tempo de te afastares destas horrveis recordaes. - Vassili deu um suspiro. - Mas tudo est assente, meu filho. Deixa ir o meu criado no teu carro. Ah!, j me esquecia - acrescentou ainda- no sei se sabes, meu caro, que eu tinha umas contas em aberto com teu pai, por isso recebi umas pequenas rendas do domnio de Riazan e fiquei com elas: no precisas, no  verdade? Depois faremos contas.
     Aquilo a que Vassili chamava umas pequenas rendas do domnio de Riazan eram, nada mais nada menos, que alguns milhares de rublos de rendas de servos, que metera na sua algibeira.
     Em Petersburgo Pedro viu-se cercado pela mesma atmosfera de amabilidades e gentilezas que conhecera em Moscovo. No pde recusar o lugar, ou antes, o ttulo, que lhe ofereciam, visto no o obrigarem a desempenhar qualquer funo, e tantos foram os convites, as pessoas conhecidas, as obrigaes mundanas a enfrentar, que, ainda mais do que em Moscovo, teve a impresso de estar mergulhado num nevoeiro, num turbilho, sem que a ambicionada felicidade, que parecia aproximar-se a todo o momento, chegasse a tornar-se realidade. De entre os seus conhecidos celibatrios muitos no se encontravam em Petersburgo. A Guarda estava em campanha. Dolokov tinha sido degradado. Anatole encontrava-se no exrcito, na provncia, o prncipe Andr, esse, fora para o estrangeiro. Eis porque Pedro no pde passar as suas noites como antigamente gostava, nem lhe era possvel aliviar, de tempos a tempos, o seu corao nas longas conversas com esse seu amigo mais velho, a quem tanto venerava. Passava todo o seu tempo em jantares, em bailes, principalmente em casa do prncipe Vassili, na companhia da gorda princesa, sua mulher, e da bela Helena.
     Ana Pavlovna Scherer compartilhou, como todos os outros, da mudana de opinio da sociedade relativamente ao novo conde. At a. Pedro, na sua presena, tinha sempre a impresso de que o que dizia no era conveniente, carecia de tacto, no era o que se devia dizer, e os seus discursos, que a ele se lhe afiguravam sensatos quando os formulava para si prprio, tornavam-se estpidos assim que os pronunciava em voz alta, enquanto, pelo contrrio, as mais absurdas observaes de Hiplito pareciam espirituosas e encantadoras. Agora tudo quanto ele dissesse, fosse o que fosse, imediatamente era considerado encantador. Se Ana Pavlovna lho no dizia. Pedro via ser isso mesmo que ela lhe queria dizer e que apenas se coibia de falar para lhe no ferir a modstia.
     No princpio do Inverno de 1805-1806. Pedro recebeu de Ana Pavlovna o habitual bilhete de convite cor-de-rosa, com o post scriptum: Encontrar em minha casa a bela Helena, que nunca nos cansamos de ver.
     Ao ler esta frase. Pedro, pela primeira vez, sentiu que entre ele e Helena se formava uma espcie de unio reconhecida por todos, e esta ideia, ao mesmo tempo que o apavorava, como se lhe impusesse obrigaes que ele no podia cumprir, tambm lhe dava um certo prazer, como que uma lisonjeira eventualidade.
     O sero de Ana Pavlovna foi tal qual o primeiro, excepto na novidade com que ela brindou os seus convidados, que j no era Mortmart, mas um diplomata que chegara havia pouco de Berlim e trouxera as notcias mais frescas sobre a chegada do imperador Alexandre a Potsdam e sobre a energia com que os dois augustos amigos haviam jurado um ao outro estabelecer uma aliana indissolvel para defender o direito contra o inimigo do gnero humano. Pedro foi acolhido por Ana Pavlovna com um matiz de tristeza, evidentemente aluso  perda recente que atingira o jovem, o falecimento do conde Bezukov - o certo  que toda a gente julgava dever seu mostrar a Pedro quanto sentia a morte de um pai que ele quase no chegara a conhecer uma tristeza profunda que se parecia muito com a que a sua expresso traduzia quando falava de sua augusta ama, a imperatriz Maria Feodorovna. Pedro sentiu-se extraordinariamente lisonjeado. Ana Pavlovna organizou, com a sua arte habitual, os grupos no salo. O principal, onde pontificava o prncipe Vassili e os generais, usufrua da presena do diplomata. Outro grupo se formou em volta de uma mesa de ch. Pedro teria gostado de reunir-se ao primeiro, mas Ana Pavlovna, que experimentava a, excitao de um grande general no campo de batalha quando lhe vem ao esprito uma infinidade de inspiraes brilhantssimas que no tem tempo de pr em prtica, tocou-lhe na manga assim que o viu aparecer.
     - Espere, tenho c as minhas ideias para si esta noite. - Lanou um olhar a Helena, sorrindo-lhe: - Minha boa Helena, precisa de ser caridosa para a minha pobre tia, que a adora. V fazer-lhe companhia dez minutos. E para que no se aborrea muito, aqui tem o querido conde, que no vai recusar, certamente, acompanh-la.
     A bela Helena foi ao encontro da tia, mas Ana Pavlovna conservou ainda Pedro ao p dela, fingindo ter de lhe fazer umas ltimas recomendaes.
     - No  realmente encantadora? - disse ela para Pedro, mostrando-lhe aquela beleza de majestoso porte. - E que porte! Uma rapariga to nova e com tamanho tacto, com uma tal perfeio de maneiras! Vem-lhe tudo do corao! Feliz do homem que a merecer! Com ela, o menos mundano dos maridos vir a ocupar, sem querer, a mais brilhante posio na sociedade! No  verdade? Muito gostava que me dissesse a sua opinio e Ana Pavlovna ps Pedro  vontade.
     Pedro era inteiramente sincero ao concordar com Ana Pavlovna sobre a perfeio de maneiras de Helena. Se porventura lhe acontecia pensar nela era para apreciar a sua beleza e o seu extraordinrio talento de conservar em sociedade uma atitude calma, silenciosa e digna..
     A tia, no seu canto, acolheu os dois jovens, mas via-se bem que queria esconder a adorao que tinha por Helena e mostrar sobretudo o medo que lhe inspirava Ana Pavlovna. Interrogou a sobrinha com o olhar, como a perguntar-lhe qual a atitude que devia assumir. Ao deix-los. Ana Pavlovna tocou de novo, ligeiramente, na manga e Pedro, dizendo-lhe:
     - Espero que no volte a dizer que as pessoas se aborrecem em minha casa. - Ao mesmo tempo olhava para Helena.
     Esta teve esse sorriso que queria dizer no consentir fosse a quem fosse que a visse no ficar deslumbrado. A tia tossicou, engoliu a saliva e disse em francs que estava encantada de ver Helena, depois dirigiu a Pedro o mesmo cumprimento, tomando a mesma expresso. No decurso desta conversa, bem pouco interessante e com longas interrupes. Helena encarou Pedro dedicando-lhe aquele lindo sorriso sereno que tinha para toda agente. Pedro estava-lhe to habituado, esse sorriso tinha para ele to pouco significado, que lhe no prestou a mais pequena ateno. A tia falou ento da coleco de caixas de rap do falecido pai de Pedro, o conde Bezukov, e mostrou a sua prpria caixa. Helena pediu-lhe que a deixasse ver o retrato do marido, que ornava a tampa.
     - Deve ser obra de Vinesse - disse Pedro, citando o nome de um miniaturista clebre; debruou-se sobre a mesa para pegar na caixa de rap, sempre com o ouvido atento para o que se dizia na mesa vizinha.
     Levantou-se para dar a volta  mesa, mas a tia passou-lhe directamente a caixa de rap por detrs das costas de Helena. Esta inclinou-se para diante a fim de facilitar o movimento e voltou a cabea, sorrindo. Vestia, como sempre que vinha a festas  noite, um vestido muito decotado, como se usava ento, tanto  frente como atrs. O seu busto, cuja brancura lembrava a Pedro a alvura do mrmore, estava to perto dele que, apesar da sua m vista, podia observar-lhe perfeitamente a beleza dos ombros e do colo, e to perto dos seus lbios que bastava inclinar-se um pouco para os aflorar. Sentia-lhe a tepidez do corpo, respirava-lhe os perfumes, ouvia-lhe o leve estalar do espartilho. E o que o atraa no era aquela beleza marmrea, que formava um todo com o vestido, mas o encanto desse corpo jovem que adivinhava por debaixo da toilette. E, desde que fizera esta descoberta, j lhe no era possvel ver mais nada, pela mesma razo que j no somos capazes de aceitar um erro uma vez que o conheamos.
     Com que ento at agora ainda no tinhas reparado quanto eu era bonita?, parecia dizer-lhe Helena... Ainda no tinhas visto que eu era uma mulher?  verdade, sou uma mulher, uma mulher que pode pertencer a qualquer, e a ti principalmente. Era assim que o olhar dela lhe falava. E naquele momento Pedro sentiu no s que ela podia, mas que devia vir a ser sua mulher, e que no podia ser de outra maneira.
     Estava to persuadido disso como se naquele momento j se encontrassem os dois sob a coroa. Como e quando  que isso iria acontecer? No sabia. No podia dizer tambm se seria uma felicidade para ele; pressentia mesmo vagamente que podia vir a ser uma desgraa, mas sabia que tinha de ser assim.
     Pedro baixou os olhos, depois voltou a ergu-los, e teria querido tornar a v-la como uma beleza longnqua e estranha aos seus olhos, como a via todos os dias at ento; mas j lhe no era possvel. No lhe era possvel, como aquele que, tendo entrevisto, no meio do nevoeiro, uma erva seca das estepes, que tomou por uma rvore, depois disso no mais, quando voltar a v-la, a tomar pelo que ela no . Sentia-a terrivelmente prxima de si. J tinha poder sobre ele. Entre os dois j no havia mais obstculos alm dos que a introduzia a sua prpria vontade, dele.
     - Bom, deixo-o no seu cantinho. Vejo que esta aqui muito bem - disse Ana Pavlovna.
     E Pedro, perguntando-se, de sbito, se no teria feito qualquer coisa de repreensvel, olhou em volta de si, corando. Afigurava-se-lhe que toda a gente sabia, to bem como ele, o que nele se estava a passar. Alguns momentos depois, ao aproximar-se do grupo principal. Ana Pavlovna disse-lhe:
     - Dizem que anda a embelezar a sua casa de Petersburgo.
     Era verdade, com efeito. O arquitecto dissera-lhe ser isso necessrio, e Pedro, sem mesmo saber porqu, tinha mandado arranjar a sua imensa casa de Petersburgo.
     - Est bem, mas no se mude de casa do prncipe Baslio.  bom ter-se um amigo como o prncipe - disse ela com um sorriso para o prncipe Vassili... - Eu entendo alguma coisa disso. No  verdade? E ainda  to novo. Ainda precisa de conselhos. No me leve a mal por eu usar dos meus direitos de velha.
     Calou-se, como fazem sempre as mulheres quando aludem  sua prpria idade, aguardando um cumprimento. Mas, se se casar, ento  diferente. E abrangeu-os aos dois num mesmo olhar. Pedro no olhava para Helena. Mas esta continuava tremendamente prxima dele. Balbuciou qualquer coisa, corando.
     De regresso a casa. Pedro levou tempo para adormecer, pensando no que lhe tinha acontecido. Que lhe tinha acontecido? Nada. Apenas percebia que aquela mulher que conhecera criana, de quem dizia, negligentemente: Sim,  bonita quando lhe falavam da sua beleza, que aquela mulher podia pertencer-lhe.
     Mas ela  estpida, eu prprio j disse que ela  estpida, dizia de si para consigo. Portanto h qualquer coisa de baixo no sentimento que ela me inspira, qualquer coisa de proibido. Contaram-me que Anatole, o irmo, estava enamorado de Helena, e que ela prpria gostava dele, que a este respeito havia uma grande histria, e era por isso mesmo que tinham afastado Anatole. Seu outro irmo era o Hiplito, e o pai, o prncipe Vassili... No, isto no est certo, conclua Pedro, e ao mesmo tempo que assim pensava, sem ir, de resto, at ao fundo do seu pensamento, surpreendia-se a sorrir e confessava a si prprio que uma outra srie de raciocnios sobrenadava os primeiros, que ao mesmo tempo que cismava na nulidade de Helena pensava que ela podia vir a ser sua mulher, que a podia amar, que ela era, talvez, muito diferente, e que tudo o que ele pensava dela, tudo que se dizia dela, era mentira. E ento entrevia, de novo, no uma filha qualquer do prncipe Vassili, mas a mulher senhora daquele corpo e daquele vestido. E, ento, como  que se explica que tais ideias me no tenham vindo ao esprito? E de novo voltava a dizer para si mesmo que isso seria impossvel; havia qualquer coisa de sujo, de antinatural, afigurava-se-lhe, qualquer coisa de desonesto naquele casamento. Recordava-se das frases que Helena pronunciava, dos seus olhares e das suas maneiras, e dos olhares daqueles que os viam juntos. Lembrava-se das palavras e dos olhares de Ana Pavlovna quando lhe falava da casa de Petersburgo, de mil outras aluses tanto do prncipe Vassili como de muitos outros, e sentiu-se aterrorizado ao pensar que de qualquer maneira j se havia comprometido a cumprir um acto que evidentemente no estava certo e no devia fazer. Mas no mesmo momento em que a si prprio impunha esta resoluo, noutro recanto do seu corao representava-se-lhe a imagem de Helena em toda a sua esplendente beleza de mulher.
     

     
     
     
     Captulo II
     
     Em Novembro de 1805 o prncipe Vassili teve um servio de inspeco a quatro provncias. Assim arranjara as coisas para poder visitar os seus domnios, ento no maior abandono. De caminho tencionava passar pela cidade da guarnio de seu filho Anatole para o levar consigo a casa do prncipe Nicolau Andreitch B91konski, na esperana de conseguir cas-lo com a filha desse riqussimo proprietrio. Mas antes de partir e de pr em prtica esta sua nova intriga, desejava arrumar o caso de Pedro, que, em verdade, nesses ltimos tempos passava os dias junto dele, vivendo, inclusivamente, sob o mesmo tecto, ridculo, comovido e estpido, coisa corrente entre os namorados, na presena de Helena, sem que por isso se decidisse pela esperada declarao.
     - Tudo isto est muito bem, mas  preciso que acabe! - murmurava o prncipe, uma bela manh, soltando um fundo suspiro. Tinha de reconhecer que Pedro, que tantas obrigaes lhe devia - Deus o abenoasse! - no estava a proceder bem naquele caso. Sim, a mocidade, a frivolidade... Bom, que Deus o abenoe!, pensava, verificando com satisfao quo grande era a sua indulgncia. Mas  preciso que isto acabe. Depois de amanh  o aniversrio da Helena. Vou convidar algumas pessoas, e se ele no perceber que deve tomar uma atitude ento eu me encarregarei disso. Sim, sou eu quem deve agir. O pai dele sou eu!
     Pedro, ms e meio aps a recepo em casa de Ana Pavlovna, e depois da noite desassossegada e de insnia que se lhe seguira, durante a qual conclura que aquele casamento seria uma infelicidade e que o que tinha a fazer era retirar-se, continuara em casa do prncipe Vasssili, embora compreendesse, aflito, que de dia para dia, aos olhos do mundo, mais ligado parecia a Helena, que no podia voltar a sentir por ela o que sentia antes, que j no queria separar-se dela, que seria horrvel, mas que teria de ligar ao dela o seu destino. Talvez ainda fosse a tempo de se retirar, mas no se passava um dia sem que o prncipe Vassili, que habitualmente no costumava receber, desse uma festa, a que Pedro se sentia na obrigao de assistir, incapaz de fazer o papel de desmancha-prazeres, desiludindo a expectativa geral.
     O prncipe, nos raros momentos em que estava em casa, ao passar junto de Pedro, apertava-lhe a mo, dava-lhe a beijar distraidamente a face enrugada, escanhoada de fresco, dizendo-lhe: At amanh, ou ento: Vem jantar, que  a nica maneira de eu te poder ver, ou ainda: Fico em casa exclusivamente por tua causa, e outras coisas no mesmo gnero. Mas, embora o prncipe, que ficara em casa exclusivamente por causa do Pedro, como dava a entender, no trocasse duas palavras com ele, este no se sentia com coragem de o desapontar. Todos os dias repetia para si mesmo as mesmas palavras: O que  preciso, no fim de contas,  que eu a compreenda, e me capacite do que ela . Mas quando estava eu enganado: antes ou agora? No. Ela no  estpida;  uma rapariga encantadora!, dizia, de si para consigo, s vezes... Erros grosseiros no os pratica, no diz nada estpido. Fala pouco, mas o que diz  digno, simples e decente. Sim, no se pode dizer que seja estpida. Nunca teve complicaes, nunca as ter. Por consequncia no  o que se chama uma mulher m! Por vezes, acontecia-lhe formular um raciocnio diante dela, pensar em voz alta; sempre ela lhe respondia com uma observao breve, mas a propsito, que significava isso no lhe interessar, ou com um sorriso silencioso, um piscar de olhos, operaes em que mostrava, subtilmente, a sua superioridade sobre ele. No lhe faltavam motivos para considerar pueris todos os raciocnios do mundo quando comparados ao seu prprio sorriso.
     Dirigia-se-lhe sempre com um sorriso divertido, confiante, especial, em que havia alguma coisa mais do que no sorriso que lhe andava sempre nos lbios para uso de toda a gente. Pedro sabia que todos aguardavam que ele dissesse enfim alguma coisa, que transpusesse determinado limite, estava certo de que, mais tarde ou mais cedo, o transporia, mas sempre que pensava nesse terrvel passo apoderava-se dele um terror incompreensvel. Centenas de vezes no decurso desse ms e meio, durante o qual, de dia para dia, se ia vendo mais arrastado para esse abismo pavoroso. Pedro dissera consigo mesmo: Que significa isto? Deciso! Quando terei eu deciso?
     Queria decidir-se, mas sentia, com espanto, que no caso presente lhe faltava aquela resoluo que ele no ignorava ter em si e que realmente possua. Pedro era uma dessas criaturas somente fortes quando sentem a conscincia completamente pura. E a verdade  que desde que se sentira possudo pelo desejo, desde aquele momento em que olhara para a caixa de rap, em casa de Ana Pavlovna, a malcia inconfessada dos seus sentimentos paralisava-lhe os esforos da deciso,
     No dia do aniversrio de Helena, o prncipe Vassili apenas convidara para cear um pequeno numero de ntimos, como dizia a princesa, isto , parentes e amigos. Fora dado a entender a esses parentes e amigos dever decidir-se naquela noite o destino da festejada. Os convidados sentaram-se  mesa para a ceia. A princesa Kuraguine, mulher macia, que fora bela e era muito representativa, ocupava o lugar da dona da casa. A sua direita e  sua esquerda distribuam-se os convidados de maior respeitabilidade, um velho general, a mulher e Ana Pavlovna Scherer: na extremidade da mesa sentavam-se as pessoas menos idosas e menos importantes, alm da gente da casa. Pedro e Helena estavam juntos. O prncipe Vassili no participava do repasto. Ia e vinha em volta da mesa, muito bem disposto, sentando-se agora ao p deste, logo ao p daquele. A todos dizia, negligentemente, qualquer palavra amvel, excepto a Pedro e a Helena, cuja presena, dir-se-ia, lhe passava despercebida. Animava toda a gente. As velas davam uma luz alegre; as pratas e os cristais esplendiam, bem como os vestidos das senhoras e o ouro e a prata das dragronas; em volta da mesa giravam os criados, de cafet vermelho; o tinir das facas, dos copos, dos pratos, misturava-se ao rudo das conversas cheias de animao. Ouvia-se, a uma das cabeceiras da mesa, um idoso camarista garantir a uma velha baronesa que sentia por ela um apaixonado amor, e ela ria; na outra cabeceira contavam-se anedotas sobre os dissabores de uma tal Maria Victorovna. Ao centro, rodeava o prncipe Vassili um grupo de auditores. Contava ele s senhoras, num tom divertido, a ltima sesso, a de quarta-feira, do Conselho do Imprio, consagrada  recepo e  leitura, por Srgio Kuzmitch Viazmitinov, o novo general governador militar de Petersburgo, do rescrito famoso do imperador Alexandre Pavlovitch, remetido da frente de batalha, em que o soberano, dirigindo-se a essa personalidade, dizia receber de toda a parte testemunhos da devoo do povo, e que o de Petersburgo, esse lhe era particularmente agradvel, e que se sentia orgulhoso de se encontrar  frente dos destinos de uma tal nao, fazendo por ser digno dessa honra. O rescrito abria com estas palavras: Srgio Kuzmitch! Vindos de todos os lados, chegam at mim os ecos, etc.
     - Com que ento no pde ir alm de Srgio Kuzmitch? - inquiriu uma senhora.
     -  verdade,  verdade, nem mais uma slaba - respondeu o prncipe, rindo. - Srgio Kuzmitch.... Vindos de todos os lados... De todos os lados. Srgio Kuzmitch... O pobre Viazmitinov, decididamente, no pde dizer mais. Vrias vezes tentou recomear a leitura, mas assim que dizia: Srgio, logo rompia em soluos... Kuz.., mitch.., e mais lgrimas... Em vindos de todos os lados sufoca e no pode continuar. E puxa do leno e volta a ler: Srgio Kuzmitch, vindos de todos os lados... , e l surgiam de novo as lgrimas... De tal modo que teve de pedir a outro que tomasse o seu lugar.
     - Kuzmitch.., vindos de todos os lados.., e mais lgrimas... - repetiu um dos convivas, rindo tambm.
     - No seja mau - murmurou Ana Pavlovna, ameaando-o com o dedo, l da outra cabeceira da mesa -,  um valente e excelente homem, o nosso bom Viazmitinoff...
     Todos riam a bom rir. Ao fundo da mesa toda a gente parecia muito animada, pelos mais diversos motivos. S Pedro e Helena continuavam calados, lado a lado, no seu lugar. Ambos tinham um sorriso radioso, em nada relacionado com Srgio Kuzmitch, um sorriso em que se denunciavam os seus ntimos sentimentos. Conversava-se, ria-se, gracejava-se, comia-se com apetite, saboreava-se o vinho do Reno, o saut, os sorvetes, e todos evitavam olhar para aquele par, afectando indiferena, no lhe prestando ateno. Ressaltava, porm, dos olhares que de vez em quando lhe lanavam, que a anedota relativa a Srgio Kuzmitch, os risos, o repasto, tudo era fingimento, e que a ateno de toda a gente apenas estava concentrada num ponto, no par Pedro e Helena. O prncipe Vassili, enquanto ia macaqueando as choraminguices de Srgio Kuzmitch, envolvia a filha num olhar e, ao engasgar-se, no seu rosto lia-se claramente: Sim, sim, tudo vai bem: hoje vai decidir-se tudo.
     Ana Pavlovna ameaava-o amistosamente por causa do nosso bom Viazmitinoff, e nos seus olhos, que dardejavam sobre Pedro furtivos olhares, lia Vassili votos de felicidade para o futuro genro e a filha. A velha princesa, enquanto oferecia vinho  vizinha, suspirava, olhando a filha com irritao, e os seu suspiros queriam dizer: Sim, sim, minha querida, a ns nada nos resta que beber vinho doce; agora  a vez de a mocidade se mostrar feliz. - Oh, que estpidas coisas eu estou para aqui a dizer! Como se isto me pudesse interessar, pensava um diplomata ao olhar para a radiosa face dos namorados. Aquilo, sim,  a verdadeira felicidade!
     No meio da vulgaridade de todas aquelas preocupaes mesquinhas e artificiais vinham subitamente  luz os sentimentos elementares de dois jovens belos e saudveis, atrados um para o outro. Estes sentimentos puramente humanos abafavam todos os demais, pairando acima de toda aquela tagarelice convencional. Os gracejos perdiam o sal, as novidades o interesse, toda a animao parecia factcia. No s os convidados, mas at os prprios lacaios que serviam  mesa pareciam sob a mesma influncia, esquecendo os preceitos da etiqueta, a olhar para a bela Helena e o seu rosto resplandecente e para a grossa e rubicunda fisionomia de Pedro, onde ao mesmo tempo havia inquietao e alegria. Inclusivamente, dir-se-ia que a luz das velas estava ali para iluminar apenas aquelas duas venturosas criaturas.
     Pedro percebia ser o ponto de mira de toda a gente e isso dava-lhe ao mesmo tempo satisfao e embarao. Estava com o ar de um homem concentrado a fazer qualquer coisa. Nada via com nitidez, no compreendia nem ouvia ningum. Apenas, por momentos, de improviso, pedaos de impresses ou de pensamentos vindos do real lhe atravessavam o esprito.
     Ora a est o que eu esperava! , dizia ele de si para consigo... E como  que isto aconteceu? E to depressa? Vejo agora que no  s por ela, mas por todos eles, que tudo isto, inevitavelmente, tem de se dar. Todos to claramente esperam isto, esto todos to convencidos de que isto tem de acontecer, que eu no posso, que eu realmente no os posso desiludir. Como  que se iro passar as coisas? No sei. Mas a verdade  que isto se vai dar, isto vai-se dar com certeza! E estas reflexes perpassavam pelo esprito de Pedro enquanto fitava os belos ombros resplandecentes ali to perto de si.
     De sbito sentia-se tomado de uma espcie de vergonha. Incomodava-o a ideia de monopolizar a ateno de toda a gente, de aos olhos dos outros se apresentar como um rapaz feliz, de, com a sua cara feia, ser uma espcie de Paris conquistador da bela Helena. Mas  provvel que seja sempre assim e que assim tenha de ser, consolava-se a si prprio... De resto, que fiz eu para que assim seja? Quando  que isto principiou? Vim de Moscovo com o prncipe Vassili. Ento ainda nada havia. E, depois, teria eu qualquer motivo para me no hospedar em casa dele? Em seguida joguei as cartas com ela, apanhei-lhe o saquinho, passemos os dois de carruagem. Quando principiou isto ento? Quando  que isto aconteceu? E ei-lo agora sentado ao lado dela como noivo; escuta-a, v-a, sente-lhe a presena, respira-lhe o hlito, espia-lhe os movimentos, admira-lhe a beleza. De sbito afigura-se-lhe que no  ela, mas ele, que quem  de uma beleza extraordinria  ele e  essa a razo por que o esto a olhar e, feliz com aquela geral admirao, arqueia o peito, ergue a cabea, todo ele respira a alegria de tamanha felicidade. Uma voz, a voz de algum que ele conhece, ressoa e repete-lhe a mesma coisa muitas vezes; mas to absorto est que no compreende o que lhe dizem.
     - Estou a perguntar-te se recebeste uma carta de Bolkonski - repetiu pela terceira vez o prncipe Vassili - Que distrado s, meu rapaz!
     O prncipe sorri, e Pedro v que todos os demais lhe sorriem, a ele e a Helena. Afinal, visto que vocs esto todos ao corrente, dizia Pedro para si prprio. Que importa, se  a verdade? E ele prprio sorri, com o seu suave sorriso infantil, e Helena sorri tambm.
     - No recebeste uma carta? De Olmtz? - voltou mais uma vez o prncipe, que parecia necessitar dessa informao para resolver um problema.
     Como  que h algum capaz de falar e de preocupar-se com semelhantes tolices?, disse Pedro de si para consigo. - Sim, de Olmtz - replicou num suspiro.
     Depois da ceia. Pedro, na esteira dos demais, conduziu o seu par ao salo. Os convidados principiaram a dispersar, e alguns deles partiram sem dizerem adeus a Helena. Como se no quisessem distra-la das suas graves ocupaes, alguns aproximaram-se dela um momento e despediram-se proibindo-a de os acompanhar. O diplomata, ao sair do salo, ia calado e aflito. Representava-se-lhe toda a futilidade da sua carreira ao p da ventura de Pedro. O velho general rouquejou algumas palavras colricas para a mulher, que lhe perguntava como se sentia ele da perna. Eh, velha tonta!, pensava, olha para a Helena Vassilievna, aquela, aos cinquenta anos, ainda h-de ser uma beleza de mulher! 
     - Creio que posso tomar a liberdade de os felicitar - murmurou Ana Pavlovna, dirigindo-se  princesa-me, e abraando-a efusivamente. - Se no fosse a minha enxaqueca, ficava mais um bocadinho.
     A princesa no respondeu; estava a invejar a felicidade da filha.
     Pedro, enquanto reconduziam os convidados, ficou por muito tempo s com Helena no salo pequeno. Naquele ltimo ms vrias vezes ficara sozinho com ela, mas nunca lhe falara de amor. Agora sentia isso indispensvel, e no era capaz de se decidir a dar esse ltimo passo. Tinha vergonha; afigurava-se-lhe ocupar, junto de Helena, um lugar que pertencia a outro. Esta felicidade no  para ti, dizia-lhe uma voz ntima.  urna felicidade para quem no tem o que tu tens em ti.
     Mas era preciso dizer alguma coisa, e Pedro falou. Perguntou-lhe se ela tinha gostado da noite. Como sempre. Helena respondeu-lhe, com a sua habitual candura, que o dia do seu aniversrio era sempre, para ela, o mais agradvel do ano.
     Ficaram ainda alguns parentes chegados. Estavam no grande salo. O prncipe Vassili aproximou-se de Pedro, no seu passo indolente. Pedro levantou-se e disse que era tarde. O prncipe lanou-lhe um olhar interrogativo, severo, como se o que ele acabava de dizer fosse to estranho que melhor seria no o ter ouvido. Mas imediatamente esse ar severo se dissipou e o prncipe apertou-lhe a mo, obrigou-o a sentar-se, sorriu-lhe amavelmente.
     - Ento. Helena? - disse ele para a filha, nesse tom habitual de agradvel ternura que os pais costumam adoptar para com os filhos amimados desde crianas e que o prncipe Vassili s imitando os outros pais conseguira reproduzir.
     E voltou-se de novo para Pedro.
     - Srgio Kuzmitch, vindos de todos os lados...  - recitou, desabotoando a parte alta do colete.
     Pedro sorriu, mas o seu sorriso dizia claramente que compreendia no ser a anedota de Srgio Kuzmitch que naquele mo- mento interessava o prncipe, e o prprio prncipe compreendeu que Pedro se no enganava. De sbito, rosnou qualquer coisa e saiu. Pedro percebeu que o prncipe estava comovido. A emoo desse homem mundano perturbou-o; fitou Helena, que tambm parecia emocionada, e lhe disse com o olhar: Ento, a culpa  sua!
      preciso,  indispensvel que eu d este passo, mas no posso, no posso, pensava Pedro, e de novo se ps a falar de coisas sem importncia, de Srgio Kuzmitch, perguntando em que  que consistia, afinal, a anedota que ele no tinha percebido. Helena respondeu-lhe sorrindo que tambm ela lhe no sabia explicar.
     Quando o prncipe Vassili penetrou no grande salo, a princesa falava de Pedro com uma senhora de idade.
     - Evidentemente,  um brilhante partido, mas a felicidade, minha querida...
     - Os casamentos no Cu se fazem - replicava a senhora de idade.
     O prncipe, como se no tivesse ouvido a conversa, encaminhou-se para o recanto mais afastado e sentou-se num div. Fechou os olhos, parecia dormitar. A cabea principiou a pender-lhe para diante, mas subitamente despertou.
     - Aline - disse para a mulher -, vai ver o que eles esto a fazer.
     A princesa encaminhou-se para a porta, estendeu a cabea com o ar mais indiferente deste mundo e espreitou para dentro do pequeno salo. Pedro e Helena ainda l estavam e conversavam.
     - A mesma coisa - disse ela para o marido.
     O prncipe Vassili franziu as sobrancelhas, fez um ricto com a boca, pelas faces perpassou-lhe um movimento nervoso, enquanto assumia um ar contrariado e duro, muito seu; sacudiu-se, levantou-se, atirou a cabea para trs, e num passo decidido, passando diante das senhoras, penetrou no pequeno salo. Dirigiu-se a Pedro, num passo rpido, afivelando uma mscara prazenteira. No seu rosto havia uma expresso to particularmente solene que Pedro se ergueu, assustado, assim que o viu.
     - Louvado seja Deus! - exclamou o prncipe. - Minha mulher contou-me tudo! - e com um dos braos enlaou Pedro e com o outro a filha. - Helena, minha querida filha! Sinto-me muito, muito feliz. - A voz tremia-lhe de emoo.- Fui muito amigo de teu pai.., e ela ser para ti uma excelente esposa.. Que Deus vos abenoe!...
     Beijou a filha e depois Pedro, exalando o seu mau hlito. Corriam-lhe pelo rosto lgrimas sinceras.
     - Princesa, venha c! - gritou.
     A princesa assomou  porta, toda lavada em lgrimas tambm. A senhora idosa tambm enxugava os olhos com o lencinho. Ambas abraaram Pedro, e ele, pelo seu lado, e por vrias vezes, beijou a mo da bela Helena. Pouco depois, voltaram a deix-los ss de novo.
     Tudo isto tinha de ser assim mesmo, e no podia ser de outra maneira, dizia Pedro consigo; no vale a pena, por isso mesmo, que uma pessoa se pergunte se est bem ou mal. Est bem, visto ser um caso arrumado e terem deixado de persistir as dvidas angustiosas que existiam. Segurava na sua, sem dizer nada, a mo da noiva e tinha os olhos fitos no seu belo colo, que arfava, lentamente.
     - Helena - disse de chofre, e calou-se.
      costume dizer qualquer coisa especial num caso destes, pensou; mas no foi capaz de se lembrar com preciso o que se costumava dizer em tais circunstncias. Olhou-a bem de frente. Helena aproximou-se dele. Corou.
     - Ah, tire, tire.., sim, isso - disse ela, apontando-lhe para as lunetas.
     Pedro tirou as lunetas, e nos seus olhos, alm do olhar estranho que tm as pupilas das pessoas habituadas a lentes, houve uma expresso assustada e interrogativa. Quis inclinar-se para lhe beijar a mo, mas ela, graas a um movimento rpido e quase brutal, fez com que os lbios de Pedro, de passagem, encontrassem os dela. E a sua fisionomia completamente transformada, quase cnica, impressionou Pedro desagradavelmente.
     Agora  tarde, tudo acabou, e, de resto, eu gosto dela, disse ele de si para consigo.
     - Amo-a! - murmurou, lembrando-se do que era conveniente dizer-se em casos tais; mas as suas palavras ressoaram to infelizes que ele se sentiu envergonhado.
     Seis semanas depois estava casado, e era o feliz possuidor, como diziam, de uma bela mulher e muitos milhes, e foi instalar-se no grande e belo palcio, todo arranjado de novo, dos condes Bezukov em Petersburgo.
     

     
     
     
     Captulo III
     
     O velho prncipe Nicolau Andreitch Bolkonski recebeu em Novembro de 18O5 uma carta do prncipe Vassili em que lhe anunciava a sua visita na companhia do filho. Estou encarregado de uma inspeco, e est claro que cem verstas nada so para mim, desde que as fao para o ir visitar, meu mui venerado benfeitor, escrevia-lhe ele. E o meu Anatole vai comigo: parte para a guerra e espero lhe permita que lhe exprima de viva voz o profundo respeito que lhe consagra, a exemplo do pai.
     - Bom, j no  preciso levar daqui a Maria. A esto os pretendentes que nos vm procurar em nossa prpria casa - disse, estouvadamente, a princesinha, ao saber da notcia.
     O prncipe Nicolau Andreitch franziu as sobrancelhas, sem responder.
     Quinze dias depois da recepo da carta, uma tarde, chegaram os criados do prncipe Vassili, antecipando-se aos amos, que apareceram no dia seguinte.
     O velho Bolkonski nunca tivera em grande apreo o carcter do prncipe Vassili, e nos ltimos tempos, sobretudo, tal opinio fora reforada ao ver que ele obtivera to altos cargos e dignidades nos reinados de Paulo e Alexandre. Da ter compreendido muito bem, graas s aluses da carta e s insinuaes da princesinha, o que ele pretendia, e a ruim opinio que j formava do prncipe tomou-se em hostilidade desdenhosa. Sempre que falava dele era resmungando. No dia em que o prncipe Vassili chegou esteve especialmente mal disposto e quezilento. Ou que estivesse mal disposto porque o prncipe chegava, ou descontente com a sua vinda por estar mal disposto, o certo  que estava de muito mau humor e desde manh que Tikon, inclusivamente, desaconselhara o arquitecto de apresentar o seu relatrio ao prncipe.
     - Oua-o caminhar - dizia Tikon ao arquitecto, ouvindo os passos do seu amo. - L est ele a bater com os calcanhares no cho, e ns sabemos que...
     No entanto, como de costume, s nove horas, o prncipe saiu para dar o seu passeio, com a sua pelia de veludo de gola de zibelina e barrete igual. Na vspera tinha nevado. A avenida que o prncipe Nicolau Andreitch costumava tomar para ir ao laranjal fora varrida e ainda se viam os vestgios da vassoura na neve. Uma p estava enterrada no talude esboroado que corria dos dois lados do caminho. O prncipe percorreu o laranjal, as instalaes dos criados e as dependncias sorumbtico e silencioso.
     - Pode-se andar de tren? - perguntou o prncipe ao intendente, que o acompanhava at casa, personagem respeitvel, por uma pena o seu amo, na fisionomia e nas maneiras.
     - A neve est espessa. Excelncia. J a mandei varrer na avenida.
     O prncipe teve um aceno de aprovao e aproximou-se da escadaria de entrada. Louvado seja Deus, disse de si para consigo o intendente, a tempestade passou!
     - Teria sido difcil de passar. Excelncia - acrescentou o intendente. - Segundo dizem,  um ministro que a vem visitar Vossa Excelncia.
     O prncipe voltou-se bruscamente e fixou-o, franzindo as sobrancelhas.
     - Qu? Um ministro? Que ministro? Quem  que te deu ordens? - disse, na sua voz penetrante e rude. - Para minha filha, a princesa, ningum desimpediu o caminho, e fizeram-no para um ministro. Aqui no h ministros!
     - Excelncia, eu julguei...
     - Tu julgaste - gritou, em palavras ofegantes e entrecortadas. - Tu julgaste... Ladres! Verdugos! Vou ensinar-te a julgares! - e, erguendo a bengala, brandiu-a sobre a cabea de Alpatitch, e ter-lhe-ia batido se o intendente no tivesse fugido involuntariamente ao golpe.
     - Julgou... Verdugos! - gritou ele de novo.
     Embora Alpatitch, assustado com a ideia de ter tido a ousadia de evitar a bengalada, se tivesse aproximado do amo, vergando diante dele a cabea calva, ou, ento, precisamente por isso mesmo, o prncipe continuou a gritar: - Verdugos!... Quero outra vez a neve no caminho!... - mas no voltou a levantar a bengala e deu-se pressa em penetrar em casa.
     Antes do jantar, a princesa e Mademoiselle Bourienne, sabendo que o prncipe estava de mau humor, aguardaram-no de p; a preceptora, com o seu ar radioso que parecia dizer: No quero saber de nada, eu sou como sou, e a princesa Maria, muito plida, aterrada, de olho,, baixos. O mais grave  que Maria sabia muitssimo bem que naquelas circunstncias era precisa a atitude de Mademoiselle Bourienne, mas imit-la era-lhe impossvel. Para si mesma dizia: Se eu fingir que no dou pela sua m disposio, o pai vai pensar que no tenho estima por ele; e se eu proceder como se estivesse aborrecida e mal disposta, dir o que j tantas vezes tem dito, que estou de trombas...
     O prncipe olhou para a cara aterrada da filha e soltou um grunhido.
     - Asneira.., ou talvez estpida - resmungou.
     E a outra no est c! J lhe devem ter contado histrias, disse ele com os seus botes, pensando na princesinha, ausente.
     - A princesa? - perguntou. - Est escondida?
     - No se sente l muito bem - disse Mademoiselle Bourienne, sorrindo. - No vem  mesa. Compreende-se, no seu estado... - Hum! Hum! - resmungou o prncipe, sentando-se.
     Um dos pratos no lhe pareceu limpo; viu nele urna mancha de gordura e recusou-o. Tikon pegou no prato e deu-o ao criado.
     A princesinha no estava doente, mas tanto medo o prncipe lhe inspirava que, ao sab-lo mal disposto, decidira no vir  mesa.
     - Tenho medo por causa do meu filho - dissera ela a Mademoiselle Bourienne. - S Deus sabe o que pode acontecer por causa de um susto.
     Alis, a princesinha em Lissia Gori vivia constantemente com medo do velho prncipe, que s antipatia lhe inspirava, coisa de que, alis, ela se no apercebia, pois nela o medo sufocava qualquer outra impresso. No sentimento do prncipe por ela havia mais desdm que propriamente antipatia. A princesa, obrigada a viver naquela casa, afeioara-se particularmente a Mademoiselle Bourienne; com ela passava os seus dias, pedia-lhe que passasse as noites junto dela e muitas vezes lhe falava do sogro, criticando-o.
     - Vm a visitas, meu prncipe - disse Mademoiselle Bourienne, desdobrando o seu branco guardanapo com a ponta dos rosados dedos. - Sua Excelncia o prncipe Kuraguine com o filho, pelo que ouvi dizer? - inquiriu ela.
     - Hum!...  um garoto, essa Excelncia... Fui eu quem lhe arranjou um lugar no colgio (Nome dado na Rssia aos ministrios antes da reforma de Alexandre. (N, dos T.) - disse o prncipe, desdenhoso. - E que vem aqui fazer o filho? No percebo nada.  natural que a princesa Elizabeth Karlovna e a princesa Maria o saibam, talvez; quanto a mim, ignoro por que  que ele nos traz o filho. Eu, por mim, dispenso-o.
     Lanou um olhar  filha, que corara.
     - Estars tu tambm doente? Ser com receio do ministro, como disse esse imbecil do Alpatitch?
     - No, meu pai.
     Embora Mademoiselle Bourienne no tivesse sido muito feliz na escolha que fizera do assunto da conversa, no se deu por batida e ps-se a falar do laranjal, da beleza de uma flor que acabava de abrir, e to bem que o prncipe, depois da sopa, amaciou.
     Assim que o jantar acabou, dirigiu-se aos aposentos da nora. A princesinha estava diante de uma pequena mesa, tagarelando com Macha, a sua criada de quarto. Ao ver o sogro empalideceu.
     A princesinha tinha mudado muito. Estava mais feia do que bonita naquele momento. Emagrecera de cara, mal se lhe levantava o lbio, tinha os olhos com olheiras.
     - Sim, que pesada estou - respondeu ela ao prncipe, que lhe perguntou como se sentia.
     - No precisa de nada?
     - No, obrigada, meu pai.
     - Bom, est bem, est bem.
     Saiu e penetrou na antecmara. Alpatitch l estava, de cabea baixa.
     - Voltaram a deitar a neve no caminho?
     - Voltaram. Excelncia; queira perdoar-me, por amor de Deus.., foi uma estupidez.
     O prncipe interrompeu-o e ps-se a rir com o seu riso forado.
     - Bom, bom, est bem.
     Estendeu a mo, que Alpatitch beijou, e encaminhou-se para o gabinete.
     Nessa tarde chegou o prncipe Vassili. Cocheiros e lacaios foram esper-lo  prechpekt (Perspectiva, ou avenida do domnio senhorial. (N, dos T.) e conduziram-lhe as bagagens e o tren, entre grandes gritos, para o pavilho da casa, no caminho propositadamente juncado de neve outra vez.
     Haviam preparado aposentos separados para o prncipe e Anatole.
     Anatole, depois de despir o dlman, sentara-se com os cotovelos em cima da mesa e os grandes e bonitos olhos distraidamente fitos no tampo. Toda, a sua vida se lhe representava como uma srie ininterrupta de divertimentos que, dir-se-ia, algum se encarregava de lhe proporcionar. Nessa mesma ordem de ideias estava ele considerando a sua actual viagem a casa daquele velho extravagante e daquela rica e feia herdeira. E tudo isso, assim o imaginava, devia ser bastante alegre e bastante divertido. E porque no hei-de eu casar com ela, se ela  to rica? O dinheiro faz esquecer tudo, pensava.
     Barbeou-se, perfumou-se, com os cuidados e os requintes a que estava habituado e com a sua caracterstica expresso de rapaz a quem nada resiste, e, a bela cabea erguida, entrou nos aposentos do pai.
     Dois criados davam-se pressa em vestir o prncipe Vassili. Ele prprio parecia muito animado, e ao ver o filho fez-lhe um alegre, aceno de cabea, que parecia querer dizer-lhe: ptimo, e assim mesmo que gosto de te ver.
     - A srio, a srio, meu pai, ela  realmente assim to feia? Diga, - perguntou ele, como se prosseguisse uma conversa muitas vezes abordada durante a viagem.
     - Cala-te! Que tolices! O principal  que saibas ser respeitoso e sensato diante do velho prncipe.
     - Se ele se pe a ralhar, vou-me embora - disse Anatole. No estou disposto a aturar velhos.
     - Lembra-te de que o teu futuro depende disso.
     Entretanto, rio quarto das criadas, no s correra a notcia da chegada do ministro e do seu filho, como j se sabiam todos os pormenores do trajar dos dois. A princesa Maria, sozinha no seu aposento, s a muito custo conseguia dominar a sua agitao.
     Porque  que eles escreveram uma coisa daquelas, porque  que Lisa me falou nisso? Isso no pode ser!, dizia de si para consigo, mirando-se ao espelho. E tenho de aparecer no salo! Ainda mesmo que ele me agradasse, no me seria possvel neste momento mostrar-me diante dele tal como sou. Bastava lembrar-se do olhar que o pai lhe lanaria para sentir-se gelada de medo.
     Tanto a princesinha como Mademoiselle Bourienne j haviam recebido todas as informaes necessrias pela criada de quarto. Macha: o filho do ministro era um lindo rapaz, de faces coradas e sobrancelhas negras; ao pai custara-lhe a subir a escada; mas ele galgara trs degraus de cada vez, leve como uma guia nova. E uma e outra, senhoras de todos estes pormenores, prosseguindo, corredor alm, esta animada discusso, penetraram no quarto da princesa Maria.
     - J chegaram. Maria, j sabe?! - exclamou a princesinha, que a gravidez tornava pesada, deixando-se cair numa poltrona.
      J no trazia a blusa que vestia pela manh, mas uma das suas mais lindas toilettes; o penteado era impecvel, mas, embora se lhe estampasse no rosto uma grande animao, via-se perfeitamente que tinha os traos fatigados e pisados. A toilette, a mesma que ela costumava levar s festas de sociedade em Petersburgo, ainda fazia ressaltar mais quanto estava disforme. Mademoiselle Bourienne introduzira tambm na toilette algumas discretas alteraes, graas s quais o seu rosto fresco e bonito ainda parecia mais sedutor.
     - E a princesa fica tal como est!? - disse ela. - Vo anunciar que aqueles senhores esto no salo; teremos de descer, e no se arranja sequer um pouco?
     A princesinha levantou-se da poltrona, tocou para chamar a criada de quarto e, diligente e animada, ps-se a passar revista ao guarda-roupa da princesa Maria, a fim de lhe arranjar qualquer coisa que vestir. Maria, no seu amor-prprio, humilhava-se por sentir uma certa emoo com a chegada do noivo anunciado e ainda mais por ver que as duas amigas no pareciam estranhar essa emoo. Confessar que se sentia um pouco embaraada por si e pelos outros seria precisamente trair os sentimentos que a tomavam; recusar, por outro lado, arranjar-se como elas lhe sugeriam era favorecer ainda mais os gracejos e as instncias.
     Corou muito, os seus lindos olhos perderam o brilho, o rosto encheu-se-lhe de manchas vermelhas, e, assumindo esse ar de vtima resignada, nela frequente, confiou-se  iniciativa de Mademoiselle Bourienne e de Lisa. As duas mulheres deram-se sinceramente ao trabalho de a embelezar. To pouco bonita era que nenhuma delas se lembraria de a considerar como rival; e foi francamente por isso, com essa convico slida e ingnua das mulheres no poder que tem a toilette para as fazer belas, que se puseram a vesti-la.
     - No, realmente, minha boa amiga, este vestido no lhe fica bem - dizia Lisa, olhando a princesa de perfil, a uma certa distncia. - Pede que te tragam o outro, o massacat.  que realmente tens de te lembrar de que  talvez o teu destino que se vai decidir. Este  muito claro, no te fica bem, no, no te fica bem.
     O que lhe no ficava bem no era o vestido, mas, antes, a figura e o conjunto da sua prpria pessoa; contudo nem Mademoiselle Bourienne nem a princesinha davam por isso. Afigurava-se-lhes que uma fita azul nos andaimes do cabelo - o tirar a charpa azul do vestido castanho, etc., seria o bastante para a embelezar. Esqueciam-se de que era impossvel modificar uma cara espantada ou um corpo deselegante. Da por mais que modificassem a moldura e a ornamentao, aquela cara continuava a ser a mesma, triste e feia. Depois de lhe terem feito experimentar duas ou trs toilettes, ao que a princesa submissamente se sujeitou, depois de lhe terem feito um penteado alto, o que lhe mudava por completo a expresso e lhe desfeava ainda mais a cara, assim que ps a charpa azul e o lindo vestido massacat, a princesinha veio passar duas ou trs vezes em volta dela, com a sua mozinha ajeitou-lhe uma prega, puxou aqui e ali a charpa azul e ps-se a contempl-la, primeiro de um lado, depois do outro, abanando a cabea.
     - Decididamente, no, no  possvel! - exclamou com desespero. - No. Maria, francamente, no lhe fica bem. Prefiro v-la com o seu vestidinho cinzento de todos os dias. No, por amor de Deus, faa isso por mim. Katia - disse para a criada de quarto -, traz o vestido cinzento  princesa. Vai ver. Mademoiselle Bourienne, como eu vou arranjar bem tudo isto. - Sorria antecipadamente da alegria artstica que ia experimentar.
     Quando Katia voltou com o vestido. Maria continuava sentada, imvel, diante do toucador, e no espelho viu que os olhos se lhe enchiam de lgrimas e que os lbios, com a aproximao dos soluos, se lhe comeavam a revolver, nervosos.
     - Vamos, querida princesa - disse Mademoiselle Bourienne -, mais um pequeno esforo.
     A princesinha, tomando o vestido das mos da criada de quarto, aproximou-se de Maria.
     - Bem, agora vamos experimentar uma coisa muito simples, muito galante - disse ela.
     A sua voz, a de Mademoiselle Bourienne e a de Katia, que ria sem saber porqu, misturadas, pareciam um chilrear de pssaros.
     - No, deixe-me - disse a princesa.
     Havia na sua voz um acento to grave e to doloroso que o chilrear cessou imediatamente. Todas trs compreenderam, pela expresso dos seus olhos grandes e belos, cheios de lgrimas e de gravidade, olhando-as, suplicantes, ser intil e at cruel insistirem.
     - Ao menos, mude de penteado - intercedeu a princesinha. - Eu no lhe dizia? - acrescentou ela, dirigindo-se a Mademoiselle Bourienne. - Este gnero de penteado no fica bem com a figurinha de Maria. Nada, nada bem. Por amor de Deus, mude.
     - Deixe-me, deixe-me, tudo isso me  indiferente - replicou ela com a voz afogada em soluos.
     Mademoiselle Bourienne e a princesinha foram obrigadas a reconhecer que Maria, naquele trajo, ficava muito feia, mais feia do que nunca; mas era tarde. E ela olhava-as com aquele ar que elas muito bem conheciam, o seu ar triste e cismtico. No que aquela expresso lhes metesse medo. Medo, eis o que Maria nunca lhes poderia inspirar. Mas elas sabiam perfeitamente que quando ela ficava com aquele ar se fechava, calada e imutvel nas suas resolues.
     - Vai mud-lo, no vai? - disse-lhe a princesinha. No obtendo, porm, qualquer resposta saiu do quarto.
     Maria ficou s. No atendeu o conselho e no s no mudou de penteado como nem sequer se dignou olhar para o espelho. Ali ficou calada e sem foras, os olhos baixos e as mos inertes. E ps-se a sonhar. Via diante de si o marido, esse ser poderoso, dominador, dotado de uma incompreensvel seduo, que a levava consigo, subitamente, para outro mundo, um mundo de venturas muito diferente daquele em que ela vivia. E via um filho, colado o bico do seio, como aquela criana que lobrigara ainda na vspera em casa da filha da que fora sua ama. O marido, ao p dela, olhava-os com ternura, a ela e ao filho. No, no, no  possvel. Sou muito feia!, exclamava para si mesma.
     - O ch est na mesa. O prncipe vem a - disse atrs da porta a criada de quarto.
     Estremeceu, apavorada com o sonho que tivera. Antes de descer, dirigiu-se ao oratrio, e, pousando os olhos no negro perfil da imagem do Salvador, que a lamparina iluminava, assim ficou algum tempo, de mos postas. Na sua alma tremendas dvidas se levantavam. Estaria ela, realmente, fadada para as alegrias do amor, do amor terreno, do amor de um homem? Em seus sonhos matrimoniais entrevia a felicidade do lar, dos filhos, mas o seu sonho mais secreto e poderoso era o prprio amor. E esse sentimento era nela tanto mais forte quanto era certo escond-lo quer aos olhos dos outros, quer aos seus prprios. Deus meu, dizia ela, como poderei eu sufocar no meu corao estes pensamentos diablicos? Que hei-de eu fazer para renunciar definitivamente a estes maus pensamentos e cumprir em paz a Tua vontade? E, mal balbuciara a sua splica, j Deus lhe respondia no fundo do seu corao: No desejes nada para ti prpria; no procures nada, no te perturbes, no invejes ningum. Tanto o futuro, como o teu destino, devem conservar-se-te ocultos; mas comporta-te de maneira a estares preparada para tudo. Se aprouver a Deus fazer-te passar pelas obrigaes do matrimnio, bom ser estares pronta para cumprir a Sua vontade. Tranquilizada por estes pensamentos, sem perder a esperana de ver realizado o seu sonho de amor terreno, benzeu-se suspirando e preparou-se para descer ao salo, sem pensar mais na toilette, nem no penteado, nem na maneira como ia apresentar-se, nem no que iria dizer. Que importncia poderiam ter todas essas misrias ao p dos desgnios de Deus, dAquele sem a vontade do qual nem um s cabelo pode cair da cabea do homem?
     

     
     
     
     Captulo IV
     
     Quando a princesa Maria chegou, j o prncipe Vassili e o filho se encontravam no salo, conversando com a princesinha e Mademoiselle Bourienne. Entrou com o seu passo pesado, batendo os taces. Os senhores e Mademoiselle Bourienne levantaram-se enquanto a princesinha, apontando para ela, exclamava: - C est a Maria! - Maria percorreu-os com um olhar e nenhum pormenor lhe escapou. Viu o prncipe Vassili, que tomara, por momentos, um ar grave ao v-la e se pusera em seguida a sorrir, e viu a princesinha, que procurava ler nos olhos dos visitantes a impresso que ela. Maria, lhes causava. Viu Mademoiselle Bourienne, com a sua fita no cabelo e a sua tez colorida, o olhar mais animado do que nunca, fixado nele; mas ele, ele no lhe foi possvel a ela v-lo: entreviu vagamente uma criatura alta, de pele clara, bonito rapaz, que avanava ao seu encontro.
     O prncipe Vassili foi o primeiro a beijar-lhe a mo: Maria pousou os lbios sobre a testa calva inclinada para ela e em resposta aos cumprimentos do prncipe disse conservar dele uma excelente recordao. Anatole aproximou-se em seguida. Maria continuava sem o ver. Sentiu apenas uma mo suave e forte que lhe tomava a dela, e com os lbios aflorou uma testa branca sobre a qual belos cabelos castanhos cheiravam a cosmtico. Quando, por fim, olhou para ele, a beleza de Anatole impressionou-a. O filho do prncipe Vassili, o dedo polegar da mo direita enfiado na lapela do uniforme, o peito arqueado, o busto bem direito, balanando a perna livre e a cabea ligeiramente inclinada, fitava a princesa com olhos joviais, sem dizer palavra, pensando, evidentemente, noutra coisa. Anatole nem era inventivo nem de compreenso rpida, nem sequer eloquente a conversar, mas tinha, no entanto, uma qualidade preciosa em sociedade: serenidade e segurana, uma segurana que nada seria capaz de abalar. Quando um homem pouco seguro de si se cala a primeira vez que v algum, com plena conscincia do que h de indecoroso no seu silncio e dando tratos  imaginao para encontrar um tema de conversa, o efeito no  bom; Anatole, porm, ali estava, sem dizer nada, balanando a perna e observando, jovial, o penteado da princesa. Era evidente ser-lhe fcil conservar-se assim calado por muito tempo. Se o meu silncio os incomoda, porque no falam? C por mim, no me interessa, parecia querer dizer. Alm disso, no seu trato com mulheres. Anatole procedia sempre de maneira que comeava por despertar nelas curiosidade, depois perturbao e por fim amor: afirmava, desdenhoso, a sua superioridade. Dir-se-ia proclamar: Ah, sim, eu conheo-vos muitssimo bem, muitssimo bem, mas para que me hei-de eu incomodar com isso? Grande prazer lhes dava, est claro!  muito possvel que no pensasse nada disto quando ao p das mulheres, e ,_ mesmo muitssimo provvel que nada pensasse de todo, visto a reflexo no ser o seu forte. Todavia era isso mesmo que o seu aspecto e as suas maneiras diziam. Tudo isso a princesa adivinhou, e, desejosa de lhe demonstrar quo longe dela estava o pretender ocupar-lhe os cios, voltou-se para o velho prncipe. Estabeleceu-se uma conversa animada e geral, graas, principalmente,  tagarelice da princesinha e  aco do seu lbiozinho de buo ligeiro, que lhe descobria os dentes brancos. Trocava ento com o prncipe Vassili essa espcie de gracejos, moeda corrente entre pessoas loquazes, que consistiam em ditos de esprito desde muito admitidos entre os dois interlocutores, em graciosas e divertidas reminiscncias pressupostas do conhecimento de ambos somente, embora no houvesse, nem nunca tivesse havido, entre a princesinha e Vassili recordaes de tal gnero. Vassili prestava-se de bom grado a esse jogo; a princesinha apresentava como reminiscncias casos facetos, que nunca se haviam dado, em que aparecia o nome de Anatole, que ela, por assim dizer, no conhecia. Mademoiselle Bourienne tomava parte na conversa geral e at a princesa Maria se sentia prazenteiramente arrastada naquela incontinncia de alegres historietas.
     - Aqui, pelo menos, temo-lo todo para ns, meu caro prncipe - dizia a princesinha, claro est que em francs. - No  como nas soires em casa de Annette; a consegue sempre escapar-se-nos. Lembra-se da querida Annette?
     - Ah! Mas no diga que vai falar de poltica como Annette! - E a nossa mesinha de ch?
     - Ah, sim!
     - Porque  que nunca ningum o via em casa dela? - perguntou a princesinha a Anatole. - Ah!, j sei, j sei - prosseguiu, piscando o olho. - O seu irmo Hiplito contou-me as suas aventuras. Oh! - Ameaou-o com o dedo. - E em Paris, tambm. Sei de todas as suas rapaziadas.
     - E o Hiplito no te contou - interrompeu o prncipe Vassili, dirigindo-se ao filho e detendo a princesinha por um brao, como se ela quisesse fugir e ele a retivesse a tempo. - No te contou que andava louquinho por uma encantadora princesa e que ela correu com ele?
     - Oh!  a prola das mulheres, princesa! - acrescentou, dirigindo-se  princesa Maria.
     Pelo seu lado Mademoiselle Bourienne, ao ouvir falar de Paris, no perdeu a oportunidade para aludir s suas recordaes, misturando-se na conversa geral.
     Permitiu-se perguntar se havia muito j que Anatole estivera em Paris, e que pensava dessa estada. Anatole respondeu-lhe com muita satisfao, e fitando-a, a sorrir, ps-se a falar-lhe da ptria.
     A presena da bonita Bourienne levava-o a pensar que, decididamente, at mesmo ali, em Lissia Gori, se no aborreceria. No  nada mal!, dizia de si para consigo, mirando-a, no  nada mal esta dama de companhia.  de crer que a h-de conservar quando estivermos casados. A pequena  gentil.
     O velho prncipe, no seu gabinete, no se dava pressa em vestir-se; franzia as sobrancelhas, pensando no que ia fazer. A chegada dos hspedes irritara-o. Quero l saber do prncipe Vassili e do filho! Vassili  um fanfarro, um vazio, e o filho, deixa estar, h-de ser fresco!, resmungava de si para consigo. O que sobretudo o irritava era que aquela visita vinha levantar um problema, ainda no resolvido e a todo o momento adiado, um problema em relao ao qual ele se ia iludindo a toda a hora: c, problema de saber se alguma vez se decidiria a separar-se de Maria e a arranjar-lhe marido. Nunca se resolvia a enfrent-lo a srio, sabendo de antemo no lhe dar uma soluo que no fosse equitativa, e que essa equidade ainda lhe contrariava mais os hbitos de vida que os sentimentos ntimos. No lhe era possvel conceber a existncia sem a filha, embora aparentemente no a estimasse muito. E ento porque cas-la?, pensava, para ser infeliz, naturalmente. A est a Lisa, que casou com o Andr, e onde encontrar hoje em dia um melhor marido? Pois bem, quem pode dizer que ela est contente com a sorte? E quem  que vai casar com Maria por amor?  feia,  desajeitada. Com ela s casa quem lhe agrade a sua posio, o seu dinheiro. Pois no h solteironas que se arranjam? Mais feliz seria realmente! Eis o que ia ruminando, entre dentes, enquanto se vestia, o prncipe Nicolau Andreitch, ao mesmo tempo que o problema sempre adiado pedia uma soluo imediata. Evidentemente que o prncipe Vassili trouxera o filho consigo na inteno de apresentar um pedido, e, na melhor das hipteses, hoje ou amanh, exigiria dele uma resposta clara. Claro, tanto o nome como a situao, tudo estava certo. Sim, no me oponho, dizia de si para consigo, mas ser ele digno dela? Enfim,  o que vamos ver.
     Sim,  o que vamos ver! , concluiu em voz alta,  o que vamos ver.
     E no seu passo, decidido como sempre, penetrou no salo, lanou rapidamente um olhar em roda, notando a mudana de toilette da princesinha, as fitas de Mademoiselle Bourienne, o medonho penteado da princesa Maria, os sorrisos da francesa e do Anatole e o isolamento da filha no meio da conversa geral. Arranjou-se como uma parva!, pensou olhando iracundo para Maria. E no tem vergonha; e ele, que nem sequer se preocupa com ela. Encaminhou-se para o prncipe Vassili.
     - Como est? Como est? Muito prazer em v-lo.
     - Para ver um amigo, sete verstas no se pode dizer que seja muito - disse o prncipe Vassili, falando rpido, como sempre, com segurana e num tom familiar.- Aqui tem o meu benjamim, deixe que eu lho apresente.
     O prncipe Nicolau Andreitch mirou Anatole dos ps  cabea.
     - Um rapago! Um rapago! - exclamou. - D c um beijo. - E apresentou-lhe a cara.
     Anatole beijou o velho, observando-o curioso e com perfeita serenidade, sempre  espera de uma dessas suas excentricidades de que o pai tanto lhe falara,
     O prncipe Nicolau Andreitch sentou-se no seu lugar habitual, num dos cantos do div, puxou uma poltrona para que o prncipe Vassili viesse sentar-se junto dele, apontou-lha, e ps-se a interrog-lo sobre a poltica e as ltimas novidades. Parecia escutar com ateno as palavras de Vassili; a cada passo, porm, olhava para a princesa Maria.
     - Isto , esto j a escrever de Postdam? - iriquiriu, repetindo o que acabava de dizer Vassili, mas de sbito levantou-se aproximou-se da filha.
     - E foi por causa das visitas que te vestiste desta maneira? - disse-lhe. - Realmente ests linda, muito linda. Arranjaste um novo penteado para os nossos hspedes e eu tomo a liberdade de te dizer na presena deles que ser bom que de futuro te no tornes a lembrar de te mascarares sem o meu consentimento.
     - Fui eu, meu pai, quem teve a culpa - interveio a princesinha corando.
     - O seu caso  outro, pode fazer o que quiser - disse Nicolau Andreitch, com uma reverncia.- A Maria no precisa de se fazer feia; feia j ela .
     E retomou o seu lugar, sem se preocupar com as lgrimas que saltavam dos olhos da filha.
     - No, no, acho que este penteado fica muito bem  princesa - interveio o prncipe Vassili.
     - Bom, meu jovem prncipe, como  que te chamas? - disse Nicolau Andreitch, dirigindo-se a Anatole- Vem c, vamos conversar um pouco, travar relaes.
     L vai principiar a farsa, murmurou Anatole entre dentes, e foi sentar-se, sorrindo, ao p do velho prncipe.
     - Com que ento, segundo ouvi dizer, foi educado no estrangeiro. No foi como ns, teu pai e eu, que aprendemos as primeiras letras com um dicono. Dize-me c, ento ests actualmente na Guarda montada? - inquiriu o velho, fitando Anatole de perto e fixamente.
     - No. Passei para o exrcito activo - replicou Anatole, perdido de riso.
     - Ah!, muito bem! Quer dizer que ests disposto a servir o czar e a ptria. Estamos em guerra. Um rapago como tu deve alistar-se no exrcito. E ests na frente?
     - No, prncipe, o meu regimento  que j foi. Mas eu fao parte... De que  que eu fao parte, pai? - perguntou, rindo, ao pai.
     - Bom soldado, bom soldado, no h dvida, mas um soldado que pergunta: De que  que eu fao parte? Ah! Ah! Ah! - e Nicolau Andreitch ps-se a rir.
     Anatole ainda riu com mais vontade. De sbito, o prncipe Nicolau Andreitch franziu as sobrancelhas.
     - Bom, podes ir, agora podes ir - disse ele. Anatole, sorrindo, voltou para junto das senhoras.
     - Com que ento mandaste-o educar no estrangeiro, prncipe Vassili, no  verdade? - perguntou o velho prncipe.
     - Fiz o que pude; de resto, sempre lhe direi que a educao l fora,  muito prefervel  nossa.
     - Sim, hoje tudo  diferente, tudo   moda nova.  um belo rapaz! Um rapago Agora anda da para o meu gabinete. 
     Tomou o prncipe Vassili por um brao e levou-o consigo para dentro.
     Mal se viu a ss com o velho prncipe. Vassili ps-se logo a falar-lhe do seu desejo e das suas intenes.
     - Que  que tu supes? - disse o velho prncipe furioso. - Que eu a prendo, que me no posso separar dela? Que ideia! protestou zangado. - Amanh, se quiseres, posso dar-te uma resposta. Mas deixa-me dizer-te que quero examinar melhor o meu genro. Conheces os meus princpios: tudo s claras. Ama- nh interrog-la-ei na tua presena. Se ela estiver de acordo, ento ele que fique a. Que fique a, quero examin-lo... - Resfolegou, como era seu hbito. - Pois que case com ele, para mim tanto me faz! - gritou, com aquela voz retumbante com que dissera adeus ao filho,
     - Devo falar-lhe francamente - disse o prncipe Vassili, no tom de um homem hbil, mas convencido da inutilidade de qualquer manha perante um interlocutor perspicaz.- Vejo que sabe conhecer as pessoas. O Anatole no  um gnio, mas  honesto e bom rapaz, excelente filho e parente.
     - Bem, bem, depois veremos.
     Como costuma acontecer com as mulheres que vivem muito tempo isoladas, longe do convvio dos homens, as trs senhoras da casa do prncipe Nicolau, diante de Anatole, sentiram que a vida que at ali tinham levado no era vida. Foi como se repentinamente se lhes multiplicasse a faculdade de pensar, de sentir, de observar. Dir-se-ia que a existncia lhes havia decorrido at ento no meio das trevas e que de um momento para o outro uma nova e poderosa luz a iluminara.
     A princesa Maria deixara de pensar na sua feia figura e no seu penteado. A bela e aberta expresso daquele homem, talvez um dia seu marido, absorveu-lhe por completo os sentidos. Parecia-lhe bom, grave, decidido, corajoso e magnnimo: e sobre isso no havia dvidas. Milhares de sonhos futuros a cada momento lhe enchiam a imaginao. Repelia-os e esforava-se por dissimul-los.
     Mas no estarei eu a ser muito fria para com ele?, dizia consigo mesma. Fao o que posso por me conter, porque no fundo do meu corao j me sinto muito perto dele. Mas, claro est, ele ignora tudo o que eu penso dele e pode supor que me no agrada. E Maria fazia o possvel, sem o conseguir, por se mostrar amvel com o recm-chegado, Que horrivelmente feia  esta pobre rapariga!, dizia Anatole consigo mesmo, pensando em Maria.
     Mademoiselle Bourienne, muito excitada tambm com a chegada Anatole, fervilhava de pensamentos, mas de outra natureza. Claro est que esta linda rapariga, sem situao bem definida na sociedade, sem pais, sem amigos, at mesmo sem ptria, no estava disposta a acabar os seus dias ao servio de Nicolau Andreitch, lendo-lhe livros e fazendo companhia  princesa Maria. Desde h muito que Mademoiselle Bourienne esperava a chegada de um prncipe russo capaz de perceber repentinamente a sua superioridade sobre as princesas da sua ptria, feias, mal vestidas, acanhadas, e que dela se enamoraria e a raptaria, e eis que, finalmente, o prncipe russo ali estava em carne e osso. Mademoiselle Bourienne tinha  sua disposio todo um romance que ouvira contar a urna tia e a que ela prpria se encarregava de dar um desfecho; tinha-o ali pronto na imaginao. Era esse romance a histria de urna jovem seduzida perante quem aparece a pobre me, que a censura por se ter dado a um homem fora do casamento. Mademoiselle Bourienne comovia-se por vezes at s lgrimas quando, em imaginao, lhe contava esta histria, a ele, ao sedutor. E eis que, finalmente, ali estava o sedutor, o esperado prncipe russo. Ia rapt-la, depois aparecia a minha pobre me, e acabava por casar com ele. Era assim que todo o seu futuro romance se lhe arquitectava na cabea enquanto falava de Paris com Anatole. No era o interesse que guiava Mademoiselle Bourienne; nem um s momento tinha pensado no que faria, mas estava tudo j to bem preparado em seu crebro que a histria inteira no tinha mais que agrupar-se em tomo da personagem que subitamente aparecera e a quem ela de todo o corao procurava agradar o mais possvel.
     A princesinha, como um velho cavalo de batalha ao ouvir o clarim, preparava-se, inconscientemente e sem pensar na sua posio, para tornar o galope ordinrio da coquetterie, sem qualquer pensamento reservado, sem esforo, mas com uma ingnua e jovial frivolidade.
     Embora Anatole no meio das mulheres assumisse habitualmente a atitude de um homem farto da sua corte, o certo  que sentia uma certa vaidade em ver o efeito que causava naquelas trs. Alm disso, no tardou a sentir pela bonita e provocante Bourienne um movimento de paixo bestial, que nele se desenvolveu com uma rapidez extraordinria, e capaz de o arrastar aos actos mais brutais e audaciosos.
     Depois do ch passaram  sala, do div. A princesa foi instada para que tocasse. Anatole, diante dela, apoiado nas mos e os cotovelos em cima do cravo, ao lado de Mademoiselle Bourienne, fixava em Maria os olhos risonhos e alegres. Esta sentia-lhe os olhos pousados nela com uma alegria em que se misturava certa angstia. A sua sonata favorita, transportava-a a um mundo pleno de poesia intima e o olhar pousado nela ainda a tornava mais potica. De facto, esse olhar procurava-a, mas na realidade no a, fixava a ela, fixava Mademoiselle Bourienne, a quem Anatole, debaixo do piano, pisava o pequenino p nervoso. Mademoiselle Bourienne olhava tambm a, princesa. Nos seus lindos olhos havia como que um alegre receio e uma espcie de expectativa, coisas que a princesa nunca tinha visto neles.
     Como ela gosta de mim!, ia dizendo Maria para si mesma. Que feliz que eu sou neste momento e quo mais feliz hei-de vir a ser com um tal companheiro e um tal marido! Vir ele a ser meu marido?, repetia consigo mesma, sem ousar olh-lo de frente, persuadida de que ele continuava a fit-la.
     A noite, quando, depois da ceia, tiveram de se separar. Anatole beijou a mo da princesa. Sem saber donde lhe viera a audcia. Maria ergueu a vista para o formoso rosto que se aproximava de seus olhos mopes. Depois de ter beijado a mo de Maria. Anatole beijou igualmente a de Mademoiselle Bourienne: no era muito correcto, mas tudo quanto ele fazia era to desprendido e to simples! Mademoiselle Bourienne corou muito, fitando, receosa, a princesa. Que delicadeza!, pensou Maria. Passar pela cabea da Amlia (assim se chamava Mademoiselle Bourienne) que eu possa ter cimes dela e no lhe aprecie a ternura e a dedicao? E, aproximando-se, beijou-a afectuosamente. Anatole acercou-se em seguida da princesinha, para lhe beijar a mo.
     - No, no e no! Quando o seu pai me mandar dizer que se porta bem, dar-lhe-ei a minha mo a beijar. Antes, no. - E abalou, sorrindo, enquanto o ameaava com o dedo.
     

     
     
     
     Captulo V
     
     Cada qual foi para o seu quarto, e a no ser Anatole, que logo adormeceu, ningum pde dormir bem naquela noite. Vir ele a ser meu marido, este homem, que me no  nada neste momento, mas  to belo e to bom, sim, sobretudo to bom?, dizia Maria consigo mesma, sentindo que um grande terror, um terror desconhecido, se apossava dela. No tinha coragem de voltar a cabea. Afigurava-se-lhe estar algum ali atrs do biombo, no canto escuro. E esse algum devia ser o Demnio, esse homem de testa branca, sobrancelhas pretas e boca rosada.
     Tocou para a criada e pediu-lhe que ficasse ali, no seu quarto.
      Mademoiselle Bourienne, nessa noite, passeou longamente no jardim de Inverno, esperando debalde algum, e ora sorria, ora os olhos se lhe enchiam de lgrimas, pensando na pobre me imaginria a dirigir-lhe amargas censuras.
     A princesinha ralhou com a criada de quarto porque a cama estava mal feita. No podia deitar-se nem de lado nem de qualquer outra maneira. Sentia-se mal e incomodada em todas as posies. Pesava-lhe o fardo que trazia consigo. E pesava-lhe tanto mais naquele dia quanto era certo Anatole lembrar-lhe uma poca da sua vida em que ela assim no estava e em que para ela tudo era divertimento e alegria. Sentara-se numa poltrona de roupo e touca de dormir. Katia, cheia de sono, a tranca cada, batia e revolvia pela terceira vez o grosso colcho de penas, resmungando fosse o que fosse.
     - Estou farta de te dizer que est cheio de tortumelos - protestava - tomara eu poder dormir, no  minha a culpa... - E voz tremia-lhe, como a de uma criana prestes a chorar.
     Tambm o velho prncipe no podia sossegar. Tikon, mesmo dormir, ouvia-o de um lado para o outro, furioso, resfolegando pelo nariz. Afigurava-se ofendido na pessoa da filha. E essa era maior das ofensas, porque o visava no a ele, mas a outrem, essa filha a quem ele queria mais do que a si prprio. De si para consigo ia dizendo que iria pensar em tudo aquilo e que acabaria por encontrar o que seria justo e necessrio dizer, mas no conseguia seno enervar-se mais ainda. Basta aparecer o primeiro e esquece-se de tudo, inclusivamente do seu pai, e v de se meter no quarto, de arranjar o penteado, de estar toda desassossegada e de no parecer sequer j um ser humano! Ah!, que contente em deixar o pai! E sabia perfeitamente que eu logo daria por isso. - Resfolegou vrias vezes pelo nariz- Como se eu no visse que aquele imbecil s tem olhos para a Bourienne. Temos de a pr na rua! Como  que uma pessoa pode ter to pouco pudor que no d por isso? J que o no tem por ela, ao menos que o tivesse por mim.  preciso fazer-lhe ver que aquele idiota no lhe liga importncia alguma, que s pensa na Bourienne. Se no tem pudor, eu me encarrego de lhe abrir os olhos...
     Dizer  filha que estava enganada, que Anatole no queria seno arrastar a asa  Bourienne, eis o que seria espicaar o amor-prprio de Maria, e o velho prncipe sabia-o, e sabia que assim a causa estava ganha, isto , que assim o seu desejo de se no separar da filha acabaria por triunfar. E acabou por se sentir tranquilo. Chamou o Tikon e principiou a despir-se. Foi o Diabo que no-lo trouxe aqui!, dizia de si para consigo, enquanto Tikon lhe enfiava a camisa de dormir no corpo descarnado, por cima do peito coberto de um velo de cabelos brancos. No fui eu quem os mandou vir. Vieram para me perturbar a vida, a mim, que j pouca tenho para viver.
     - Diabos os levem! - vociferou, enquanto enfiava a camisa. Tikon estava habituado a ouvir o amo falar sozinho, por isso acolheu, sereno, o olhar interrogador e furioso que emergia da camisa.
     - Foram-se deitar? - perguntou o prncipe.
     Tikon, como todo o bom criado, conhecia  lgua a direco dos pensamentos do amo. Compreendeu que se referia ao prncipe Vassili e ao filho.
     - Sim. Excelncia, dignaram-se deitar e apagar a luz.
     - Que tenho eu com isso, que tenho eu, com isso?! - exclamou o velho, e enfiando as pantufas e envergando o roupo estendeu-se em cima do div onde costumava dormir.
     Embora se no tivesse trocado uma palavra entre Anatole e Mademoiselle Bourienne, ambos se tinham compreendido perfeitamente, pelo menos no que toca  primeira parte do romance, antes da interveno da minha pobre me. Os dois haviam compreendido que muita coisa gostariam de dizer em segredo um ao outro. Eis porque, no dia seguinte logo pela manh, procuraram uma oportunidade de se verem a ss. A hora em que a princesa costumava visitar o pai em seus aposentos encontrava-se Mademoiselle Bourienne corri Anatole no jardim de Inverno.
     Nesse dia Maria toda era tremuras ao aproximar-se do gabinete do pai. Afigurava-se-lhe no s toda a gente saber que ia decidir-se do seu destino, mas que toda a gente sabia tambm no pensar ela noutra coisa. Eis o que ela leu na cara de Tikon, que ia com gua quente, e com quem cruzou no corredor, e a cumprimentou cheio de humildade.
     Nessa manh o prncipe foi muito amvel e atencioso para com a filha. A princesa conhecia muitssimo bem os modos amenos do pai. Costumava mostrar-se-lhe assim quando cerrava os punhos, colrico por ela no compreender qualquer problema de aritmtica, levantando-se, dando alguns passos e vindo depois repetir-lhe as explicaes numa voz aparentemente calma.
     Entrou logo no assunto e principiou a conversa tratando-a por senhora.
     - Fizeram-me uma proposta a seu respeito - disse ele, sorrindo contrafeito. - J deve ter adivinhado que no  pelos meus bonitos olhos que o prncipe Vassili me veio visitar e trouxe consigo o pupilo. - No se sabe bem porque  que Nicolau Andreitch se obstinava em chamar a Anatole pupilo. - Ontem fizeram-me uma proposta a seu respeito. E como conhece os meus princpios, julguei-me no dever de lhe falar.
     - Como  que eu o hei-de compreender, meu pai? - disse a princesa, corando e empalidecendo ao mesmo tempo.
     - Como  que me hs-de compreender?! - exclamou o pai, colrico. - O prncipe Vassili acha-te boa para nora e faz-te uma proposta para o pupilo.  isto que h que compreender. Como  que hs-de compreender-me?... Mas  a ti que eu estou a interrogar.
     - No sei como o senhor, meu pai - murmurou a princesa.
     - Eu? Eu? Mas trata-se de mim? No te incomodes comigo. No sou eu quem se casa. Que  que pensas?  isto que eu gostaria de saber.
     A princesa viu perfeitamente que o pai no encarava o caso de maneira favorvel, mas naquele momento percebeu que o destino de toda a sua vida se tinha de decidir ento ou nunca mais. Baixou os olhos, para evitar o olhar que a privava de todo da faculdade de pensar, no lhe deixando mais que a da sujeio, e disse:
     - No pretendo seno uma coisa; cumprir a sua vontade, meu pai, mas se fosse necessrio exprimir o meu desejo...
     No teve tempo de acabar. O prncipe interrompeu-a.
     - Muito bem! - gritou. - Ele levar-te- com o teu dote ao mesmo tempo que ir beliscando a Mademoiselle Bourienne. Ela  que ser a mulher; quanto a ti...
     O prncipe calou-se. Viu o efeito que as suas palavras produziam na filha. Esta baixou a cabea; estava quase a chorar.
     - Bem, bem, estou a brincar, estou a brincar - articulou ele. - Lembra-te bem disto, princesa: o meu princpio  que a filha tem pleno direito de escolher. E dou-te inteira liberdade. Lembra-te apenas que da tua deciso depender a felicidade de toda a tua vida. No tens de te preocupar comigo.
     - Mas eu no sei.., meu pai.
     - No, no tens nada que te preocupar! Ele casar com quem lhe disserem que h-de casar; se no fores tu, ser qualquer que aparea; mas tu, tu tens a liberdade de escolher... Vai para o teu quarto, pensa, pensa bem, e volta dentro de uma hora, para dizeres diante dele sim ou no. Bem sei que vais orar a Deus. Reza, se  essa a tua vontade, mas farias melhor se pensasses. Bom, vai... Sim ou no, sim ou no, sim ou no! - gritou-lhe enquanto ela, cambaleando, como no meio de um nevoeiro, saa do gabinete.
     O destino estava decidido, e decidido favoravelmente. A aluso que o pai fizera a Mademoiselle Bourienne era terrvel. Era falsa, com certeza, mas ainda assim medonha, e o certo  que ela no podia deixar de pensar nisso. Seguia, avanando a direito pelo jardim de Inverno, quando o sussurrar de urna voz muito sua conhecida - a de Mademoiselle Bourienne -lhe chamou a ateno. Ergueu os olhos e a dois passos viu Anatole com a francesa enlaada, murmurando-lhe fosse o que fosse de terno ao ouvido. Anatole encarou Maria. Uma expresso de furor se lhe pintou no formoso rosto, e no primeiro momento no soltou sequer a cintura de Mademoiselle Bourienne, que no tinha visto a princesa.
     Quem est a? Que me querem? Esperem um bocado!, era o que se lhe lia na cara. A princesa olhou para os dois sem dizer palavra. No conseguia compreender o que se estava a passar. Por fim. Mademoiselle Bourienne soltou um grito e fugiu. Anatole, muito sorridente, fez uma reverncia a Maria, como se a estivesse a convidar a rir com ele daquele acontecimento estranho, e, encolhendo os ombros, dirigiu-se para a porta que conduzia aos seus aposentos.
     Uma hora depois. Tikon veio chamar a princesa Maria. Pedia-lhe que se apresentasse ao prncipe, acrescentando estar presente tambm o prncipe Vassili. No momento em que Tikon chegou estava a princesa Maria sentada no div, com Mademoiselle Bourienne nos braos, que soluava. Passava-lhe carinhosamente a mo pelos cabelos. Os seus lindos olhos, to serenos e luminosos como antes, pousavam-se com uma enternecida compaixo na linda carinha de Mademoiselle Bourienne.
     - No, princesa, estou perdida para sempre no seu corao - dizia esta.
     - Porqu? Cada vez gosto mais de si - replicava Maria - e tudo farei que esteja nas minhas mos para que seja feliz.
     - Mas despreza-me, to pura como , nunca poder compreender estes desvarios da paixo. Ah!, s a minha pobre me...
     - Compreendo tudo - respondeu a princesa sorrindo tristemente. - Sossegue, minha amiga. Tenho de ir ter com meu pai disse ela, erguendo-se.
     O prncipe Vassili, sentado, de pernas cruzadas, a caixa de rap na mo, fingia-se extraordinariamente comovido, mas, rindo intimamente da sua extrema sensibilidade, teve um sorriso enternecido ao ver entrar Maria. Deu-se pressa em tomar a sua pitada de rap.
     - Oh!, querida, querida! - exclamou, levantando-se e tomando-lhe as duas mos. Depois de soltar um suspiro, continuou: - O destino de meu filho est nas suas mos. Decida, minha querida, minha doce Maria, a quem sempre quis como a uma filha.
     Afastou-se dela. Aos olhos afloravam-lhe verdadeiras lgrimas.
     O prncipe Nicolau Andreitch ps-se a resfolegar pelas narinas.
     - O prncipe, em nome do seu pupilo, no, do seu filho, acaba de me pedir a tua mo - pronunciou ele, numa voz forte. - Queres, sim ou no, ser a mulher do prncipe Anatole Kuraguine? Responde por um sim ou por um no, que depois eu me reservo o direito, pela minha vez, de exprimir a minha opinio. Sim, a minha opinio, e apenas a minha opinio - acrescentou para o prncipe Vassili, que assumira uma expresso de splica. - Diz sim ou no!
     - O meu desejo, meu pai,  no o deixar nunca, e de nunca separar a minha vida da sua. No me quero casar - disse com deciso, fitando com os seus belos olhos o pai e o prncipe Vassili.
     - Tolices! Loucuras! Parvoces, parvoces! - exclamou o pai, franzindo as sobrancelhas. Pegou na mo da filha, puxou-a para si e, sem a beijar, aproximou da sua a cara dela, aflorou-a e apertou-lhe a mo, e com tanta fora que ela no pde deixar de, soltar um grito de dor.
     O prncipe Vassili levantou-se.
     - Minha querida, dir-lhe-ei que  este um momento que eu nunca esquecerei; mas, minha querida, ser possvel que no nos d um pouco de esperana, que um dia no possa vir a conquistar um lugar nesse corao to bom, to generoso? Diga que talvez... O futuro  grande. Diga: talvez.
     - Prncipe, o que acabo de dizer  aquilo que sinto no meu corao. Agradeo-lhe a honra que me d, mas nunca serei a mulher de seu filho.
     - Bom, est tudo acabado, meu caro. Muito prazer em ver-te. Bom, vai-te embora, princesa.  verdade, gostei muito, muito de te ver - repetia o velho prncipe, abraando o prncipe Vassili.
     A minha vocao no  esta, pensava a princesa Maria, a minha vocao est em sentir outra felicidade, a felicidade que d o amor e o sacrifcio. E, custe o que custar, hei-de fazer a felicidade da pobre Amlia. Como ela gosta dele! Est to arrependida! Hei-de fazer tudo para os casar. Se ele no  rico, eu me encarregarei de lhe arranjar recursos a ela. Hei-de pedir a meu pai! Hei-de pedir ao Andr! Sentir-me-ei to feliz quando eles casarem! Que infeliz ela , estrangeira, isolada, sem o auxlio de ningum! Ah!, meu Deus!  preciso que ela goste muito dele para ter perdido a cabea a este ponto. E quem sabe se eu, no seu lugar, no faria a mesma coisa!...
     

     
     
     
     Captulo VI
     
     H muito tempo j que os Rostov estavam sem notcias de Nicolau. S em meados do Inverno entregaram ao conde uma carta em cujo endereo ele reconheceu a caligrafia do filho. Ao receber esta carta, o conde, muito comovido, mas fazendo o possvel para que ningum o visse, correu, em bicos de ps, para o seu gabinete e a se fechou a l-la. Ana Mikailovna, ao saber do sucedido, pois dava por tudo o que acontecia em casa, penetrou no gabinete, em passos furtivos, e foi surpreend-lo com a carta na mo, chorando e rindo ao mesmo tempo.
     Ana Mikailovna, conquanto tivesse melhorado de situao econmica, continua a viver em casa dos Rostov.
     - Meu bom amigo?! - exclamou ela, num tom interrogativo e que traduzia uma simpatia a toda a prova.
     O conde soluou mais fortemente que nunca.
     -  do Nikoluchka... Uma carta... Est ferido... Sim, minha querida, ferido. A condessinha... Foi promovido a oficial... Louvado seja Deus!... Como  que havemos de dizer isto  condessinha?...
     Ana Mikailovna sentou-se ao lado do conde, enxugou-lhe as lgrimas com o leno, as lgrimas que escorriam pelo papel, e depois as suas prprias. Leu a carta, consolou o conde e decidiu que ela prpria prepararia a condessa antes do jantar e antes do ch, mas que depois lhe diria tudo, se Deus a ajudasse.
     Durante todo o repasto falou Ana Mikailovna dos acontecimentos da guerra e de Nikoluchka. Por duas ou trs vezes inquiriu quando haviam recebido a sua ltima carta, embora o soubesse muitssimo bem, e deu a entender que talvez naquele mesmo dia viessem a receber nova carta. Todas as vezes que, ao ouvir estas aluses, a condessa manifestava inquietao e se punha a olhar, com olhos alarmados, quer para o conde, quer para Ana Mikailovna, esta, sem dar a impresso de intervir, procurava orientar a conversa para assuntos insignificantes. Natacha, a qual, como nenhum outro membro da famlia, apreendia os mais pequenos matizes da voz, do olhar e da expresso das pessoas, apurara o ouvido desde o princpio do jantar e via perfeitamente existir um segredo qualquer entre o pai e Ana Mikailovna, que esse segredo dizia respeito ao irmo e que Ana Mikailovna preparava o terreno. Apesar de toda a sua ousadia, sabendo quanto a me era sensvel, a tudo o que dizia respeito a Nikoluchka, no se decidiu, durante o repasto, a formular qualquer pergunta, e Io impaciente estava que no comeu e passou o tempo a voltar-se na cadeira, sem querer saber das observaes da preceptora. Porm, assim que a refeio terminou, ela a vai como uma perdida atrs de Ana Mikailovna, e, sempre a correr, ao chegar  sala do div, atirou-se-lhe ao pescoo.
     - Tia, minha querida tia, diga l o que aconteceu. 
     - Nada, minha filha.
     - Ah!, tiazinha, minha pomba, minha querida, meu pesseguinho, no a largo, eu sei perfeitamente que sabe alguma coisa. 
     Ana Mikailovna abanou a cabea.
     - s muito esperta, minha filha - disse ela.
     -  uma carta do Nikoluchka, no  verdade? - interrogou Natacha, lendo a confirmao na cara da tia.
     - Mas, por amor de Deus, s prudente! Tu bem sabes o que isso pode representar para tua me!
     - Bem sei, bem sei, mas diga. Se no me diz tudo j, vou daqui direitinha...
     Ana Mikailovna, em poucas palavras, resumiu-lhe o contedo da carta, com a condio de ela no contar a ningum.
     - Palavra de honra! - exclamou Natacha, benzendo-se. - Nada direi a ningum.
     E foi logo dali ter com Snia.
     - Nikolenka.., est ferido.., escreveu - anunciou muito contente e orgulhosa.
     - Nicolau! - exclamou Snia, empalidecendo.
     Natacha, ao ver o efeito que a notcia do ferimento do irmo causava em Snia, principiou a compreender o que havia de triste no que anunciava.
     Lanou-se ao pescoo de Snia, desfeita em lgrimas.
     - Est um bocadinho ferido, mas foi promovido a oficial; j est bem,  ele prprio quem escreve - dizia ela, entre soluos.
     - Bem se v que vocs, mulheres, so todas umas choramingas - interveio Ptia, que andava de um lado para o outro no quarto- Por mim, estou contentssimo, muito contente que o meu irmo se tenha distinguido assim. Vocs so todas umas choramingas! No percebem nada.
     Natacha, continuando a chorar, sorriu.
     - No leste a carta? - perguntou Snia.
     - No, mas a tia disse-me que j tinha passado tudo e que ele agora era oficial.
     - Louvado seja Deus! - exclamou Snia, benzendo-se. - Mas talvez ela tenha estado a fazer pouco de ti. Vamos ter com a me.
     Ptia continuava a caminhar de um lado para o outro do quarto.
     - Se eu estivesse no lugar do Nikoluchka, ainda havia de, matar mais desses franceses - disse ele -, desses canalhas! Tantos havia de matar que faria um grande monte!
     - Cala-te. Ptia! s parvo!...
     - Eu no sou parvo, parvas so vocs, que choram por ninharias.
     - Lembras-te dele? - perguntou, de sbito. Natacha, depois de um momento de silncio.
     Snia sorriu.
     - Se eu me lembro do Nicolau?
     - No, no  isso que eu quero dizer. Lembras-te de maneira a lembrares-te bem, a lembrares-te de tudo? - voltou Natacha, procurando fazer-se compreender bem, mesmo por gestos, e com um ar muito srio. - Eu lembro-me muito bem do Nikolenka, lembro-me muito bem. J do Bris me no lembro to bem como isso. No me lembro nada, mesmo...
     - Qu? No te lembras do Bris? - perguntou Snia, com espanto.
     - No  que eu me no lembre; sei muito bem como ele , mas no me lembro dele como do Nikolenka. Quando fecho os olhos, veio-o, mas ao Bris no sou capaz.- E ao mesmo tempo ia fechando os olhos. - No, no sou capaz.
     - Ah! Natacha! - exclamou Snia, fitando a amiga com um ar solene e srio. Dir-se-ia consider-la indigna de ouvir o que ela queria dizer e dirigir-se a qualquer outra pessoa com quem no se brinca. - Gosto do teu irmo, e acontea o que acontecer nunca deixarei de gostar enquanto for viva.
     Natacha, sem dizer palavra, fixou Snia com um olhar curioso e surpreendido. Duvidava de que fosse verdade o que Snia acabava de dizer, de que houvesse um amor como aquele de que ela falava. Mas por si no acreditava poder sentir nada parecido. Admitia que aquilo fosse possvel, mas no o compreendia.
     - Vais escrever-lhe? - perguntou.
     Snia ps-se a pensar. Como havia ela de escrever ao Nicolau? Deveria faz-lo? E que lhe havia de escrever? Eis perguntas que a atormentavam. Agora que ele era oficial, um heri e estava ferido, ficava-lhe bem, da sua parte, fazer-se lembrada e, de qualquer maneira recordar-lhe o compromisso que ele tinha tomado para com ela?
     - No sei. Mas penso que desde que ele escreva, eu tambm lhe posso responder - retorquiu, corando.
     - E no ters acanhamento de o fazer?
     Snia sorriu-se.
     - No.
     - Eu teria vergonha de escrever ao Bris; no o faria.
     - E porque hs-de ter vergonha?
     - No sei.  assim. Custava-me, teria vergonha.
     - Bom! Eu c sei porque  que ela teria vergonha - interveio Ptia, ferido pelo que Natacha acabava de dizer -,  porque esteve embeiada pelo gordo das lunetas. - Era assim que Ptia se referia ao seu homnimo, o novo conde Bezukov. - E agora est apaixonada por esse cantor. - Queria referir-se a um italiano, um professor de Natacha. -  por isso que ela tem vergonha.
     - Ptia, tu s parvo! - disse ela.
     - Tanto como tu, minha menina - tornou o garoto de nove anos que era Ptia, nem mais nem menos como um velho brigadeiro.
     A condessa estava preparada pelas aluses de Ana Mikailovna durante o jantar. Recolhida ao seu quarto, no tirava os olhos da miniatura do filho na tampa da caixa de rap e as pupilas enchiam-se-lhe de lgrimas. Ana Mikailovna, j com a carta na mo, aproximou-se em bicos de ps do quarto da condessa e deteve-se.
     - No entre - disse ela ao velho conde, que a seguia de perto. E fechou a porta.
     O conde aproximou o ouvido da fechadura, para escutar. Primeiro apenas ouviu o rudo de uma conversa indiferente, em seguida a voz de Ana Mikailovna, que pregava um longo sermo, depois um grito, a que se seguiu um prolongado silncio, finalmente duas vozes, cheias de joviais entoaes,  mistura com um passarinhar. Da a pouco. Ana Mikailovna veio abrir. Na sua cara transparecia o orgulho de um cirurgio que acaba de concluir uma amputao difcil e acolhe o pblico para que ele aprecie a sua destreza.
     - J est - disse ela para o conde, apontando, com um gesto vitorioso, a condessa, que numa mo tinha a caixa de rap com a miniatura e na outra a carta, e que ia beijando ora uma ora outra coisa. Ao ver o conde, estendeu para ele as suas duas mos, envolveu nos seus braos a sua cabea calva, sem deixar de contemplar a carta e o retrato e, para mais  vontade poder beij-los, teve de afastar um pouco a cabea do marido. Vera. Natacha. Snia e Ptia entraram ento no quarto e a leitura principiou. A carta descrevia em poucas palavras a campanha e as duas batalhas em que Nikoluncka tomara parte; dizia que fora promovido a oficial e que beijava as mos do pai e da me, pedindo-lhes a sua bno, e que enviava beijos para a Vera, a Natacha e o Ptia. Alm disso mandava cumprimentos ao Sr. Scheling, a Madame Schoss e  ama, e pedia que abraassem por ele a sua querida Snia, de quem muito gostava e de quem sempre se lembrava. Nesta altura Snia corou tanto que as lgrimas lhe vieram aos olhos, e, incapaz de sustentar os olhares que nela se fixavam, refugiou-se rio salo, a que deu a volta a correr. Depois fez uma pirueta, e, alargando a saia, acabou por se sentar no cho, muito corada, comovidssima e sorrindo muito. A condessa chorava.
     - Porque est a chorar, me? - perguntou Vera. - Tudo que ele diz nos deve alegrar e no entristecer.
     Nada mais exacto, mas o conde, a condessa e Natacha olharam para ela com um ar de desaprovao, Com quem  que ela se parece?, disse consigo a condessa.
     A carta de Nikoluchka foi lida uma centena de vezes, e todos que eram considerados dignos de a ouvir foram convocados perante a condessa, que a tinha sempre consigo. Quando vieram os preceptores, a ama. Mitenka e muitas outras pessoas conhecidas a condessa leu-lhes a carta sempre com renovada satisfao e de cada vez descobria novas qualidades rio seu Nikoluchka. Era para ela qualquer coisa de estranho e de extraordinrio e ao mesmo tempo um motivo de alegria que aquele filho, que ela sentira remexer nas suas entranhas vinte anos antes, aquele filho, motivo de no poucas discusses com o conde, que o estragava com mimos, aquele filho a quem ela ensinara a dizer grucha e baba, aquele filho estivesse agora l longe, num pas estrangeiro, no meio de estranhos, e que s, sem ningum que o ajudasse ou guiasse, se comportasse como um guerreiro corajoso e ai desenvolvesse uma actividade de soldado destemido. Para ela, a experincia dos sculos, que nos ensina que as crianas se fazem homens por um insensvel pendor, era coisa que no existia. A transformao operada no filho afigurava-se-lhe to extraordinria que era como se milhes e milhes de homens no houvessem obedecido ao mesmo destino. Tal qual como vinte anos antes, quando aquele pequeno ser andava, dentro dela, e ela pensava que nunca ele se lhe dependuraria do seio ou que nunca seria capaz de vir a falar, tambm agora lhe parecia impossvel que esse mesmo pequenino ser fosse um homem vigoroso e valente, modelo de filhos, soldado exemplar como se depreendia das palavras da sua carta.
     - Que estilo! Que bem que ele escreve! - exclamava ela, ao reler os passos descritivos da carta. - E que grande corao! E a seu prprio respeito nada, nada diz... S fala de um tal Denissov e o certo  que naturalmente  ele o mais valente de todos. No diz nada sobre o que ter sofrido. E que corao! Est aqui todo! E recorda-se de toda a gente. No se esqueceu, de ningum! Eu sempre disse que seria assim, disse-o sempre, mesmo quando ele era pequenino, sim, disse-o sempre...
     Durante mais de uma semana foi uma azfama na casa a preparar cartas para o Nikoluchka: fizeram-se rascunhos, passaram-se a limpo. A vista da condessa e por diligncia do conde preparou-se urna encomenda com as coisas mais necessrias e arranjou-se uma determinada importncia para o equipamento e a nova instalao do oficial. Ana Mikailovna, mulher pratica que era, conseguira arranjar para ela e para o filho urna boa proteco no exrcito, inclusivamente para efeitos de correspondncia. Era-lhe permitido enviar as suas cartas ao gro-duque Constantino Pavlovitch, comandante da Guarda. Pelo seu lado, os Rostov pensavam, que o endereo Guarda russa no estrangeiro era mais do que suficiente e que desde que a carta fosse s mos do gro-duque comandante da Guarda no havia razes para no chegar ao regimento de Pavlogrado, que devia ficar por ali nas vizinhanas. E assim foi resolvido mandar as cartas e o dinheiro, pelo correio do gro-duque, ao Bris, que se encarregaria de fazer chegar tudo s mos de Nikoluehka. Houve cartas do velho conde, da condessa, de Ptia, de Ver, de Natacha, de Snia, e s cartas juntaram a importncia de seis mil rublos para o equipamento e muitas outras coisas que o conde enviou ao filho.
     

     
     
     
     Captulo VII
     
     No dia 12 de Novembro, o exrcito de Kutuzov, acampado em Olmtz, preparava-se para a revista que no dia seguinte lhe passariam os dois imperadores, o da Rssia e o da ustria. A Guarda, recentemente chegada da Rssia, acampava a quinze verstas de Olmtz, e no dia seguinte, exactamente para a revista, s dez horas da manh, encontrava-se no campo de manobras da cidade.
     Nicolau Rostov nesse dia tinha recebido um recado de Bris informando-o de que o regimento de Ismail acampava a quinze verstas, sem se deslocar at Olmtz, e que o aguardava ali para lhe entregar as cartas e o dinheiro. Rostov estava ento muito necessitado de fundos, pois as tropas, no regresso da campanha, acampavam nos arredores de Olmtz, onde os cantineiros e os judeus austracos, bem abastecidos, invadiam o acampamento, oferecendo toda a espcie de bugigangas. Entre os oficiais do regimento de Pavlogrado os festins sucediam-se aos festins, e havia comezainas para celebrar as recompensas obtidas durante a campanha e frequentes visitas a Olmtz, a casa de certa Carolina, uma hngara chegada havia pouco que tinha aberto uma estalagem servida por mulheres. Rostov, que havia celebrado dias antes a sua promoo a alferes, comprara a Denissov um cavalo, o Beduno, e estava a dever dinheiro a toda a gente: aos seus camaradas e aos cantineiros. Assim que recebeu o bilhete de Bris, dirigiu-se a Olmtz com um dos seus camaradas, comeu, bebeu uma garrafa de vinho e apresentou-se s no acampamento da Guarda  procura do seu amigo de infncia. Ainda no tivera tempo de se equipar. Vestia um dlman coado de junker com a cruz de soldado, umas calas de montar, com fundilhos de coiro, muito usadas, e um sabre de oficial com cordes. O animal que ele montava era um cavalo do Dom comprado a um cossaco durante a campanha. Tombada para uma das orelhas e atirada para trs, galhardamente, trazia uma barretina de hssar. Quando chegou ao bivaque do regimento de Ismail, ia a pensar no espanto de Bris e dos seus camaradas ao deparar-se-lhe o seu ar sabido e marcial de hssar.
     A Guarda fizera toda a campanha como se no houvesse sado da parada, muito orgulhosa dos seus brilhantes uniformes e da sua ordem impecvel. As etapas tinham sido curtas, com as mochilas em cima das viaturas, e as autoridades austracas haviam preparado excelentes repastos para os oficiais em cada uma das etapas. Os regimentos entravam nas povoaes de banda  frente; durante as tiradas, conforme a ordem do gro-duque, os soldados deviam marchar formados, o que os tornava ainda mais orgulhosos, e os oficiais no seu lugar nas fileiras. Bris, durante todo o trajecto, estivera sempre ao lado de Berg, j comandante de companhia. Tendo obtido, no decurso da campanha, esse comando, soubera merecer a confiana dos seus superiores e obter vantagens materiais muito apreciveis, graas  sua pontualidade e  sua exactido. Quanto a Bris, esse, durante o mesmo perodo, travara muitas relaes susceptveis de lhe virem a ser teis, e, graas  carta de recomendao que Pedro lhe enviara, relacionara-se com Andr Bolkonski, por cujo intermdio esperava conseguir ser adstrito ao estado-maior do generalssimo. Berg e Bris, com os seus uniformes muito cuidados e limpos, descansavam da ltima etapa na habitao assaz confortvel que lhes tinha sido atribuda, sentados em volta de uma mesa redonda, jogando o xadrez. Berg tinha o cachimbo entre os joelhos, e com os cuidados que o distinguiam ia empilhando as pedras do jogo com as suas mos brancas, aguardando que Bris jogasse, e observava o parceiro, o qual era evidente s pensar de momento no xadrez, consoante o seu costume de se no preocupar seno com o que estava a fazer,
     - Sempre quero ver como  que se vai sair desta! - exclamou ele,
     - Faremos o que pudermos - replicou Berg, tocando num peo, para logo o abandonar.
     Entretanto a porta abriu-se.
     - Ora a est ele finalmente! - exclamou Rostov - E o Berg tambm! Eh!, ento, meninos, vamos deitar, dormir!- acrescentou, repetindo as palavras que a ama costumava dizer, e que outrora tanto os faziam rir, a Bris e a ele. Rostov.
     - Santos Padres! Como ests mudado!
     Bris levantou-se para receber Rostov, sem se esquecer de conservar no seu lugar os pees que iam a cair. Quis beijar o amigo, mas Nicolau evitou-o. Por uma tendncia caracterstica da juventude, que detesta os caminhos trilhados, no quer imitar o que est feito, antes, pelo contrrio, gosta de exprimir os seus sentimentos de maneira nova, a seu modo, desde que, pelo menos, no seja como o costumam fazer as pessoas de idade, muitas vezes, alis, pouco sinceramente. Nicolau queria traduzir num acto especial a sua alegria de tornar a ver o amigo, quanto mais no fosse beliscando-o ou empurrando-o, mas nunca beijando-o, como toda a gente. Bris, pelo contrrio, muito tranquila e afectuosamente, beijou-o e abraou-o duas ou trs vezes seguidas.
     Havia quase seis meses que se no viam. Naquela idade, em que se do os primeiros passos na vida, verificavam um no outro mudanas considerveis, uma interpretao completamente nova do meio em que ambos haviam sido educados. Tinham ambos mudado muito do seu ltimo encontro para c e ambos tinham pressa de mostrar um ao outro a que ponto j no eram as mesmas pessoas.
     - Ah, seus polidores de caladas! Vocs esto a limpinhos e asseados que  uma beleza, como se tivessem voltado agora de um passeio pela cidade. No so como ns, pobres diabos do exrcito activo - dizia Rostov, na sua voz de bartono, ainda desconhecida de Bris, com uma verdadeira desenvoltura militar f- exibindo os cales todos sujos de lama.
     A hospedeira, uma alem, ao ouvir a voz estentrea de Rostov, veio espreitar  porta.
     - Rica mulher, hem! - exclamou ele, piscando um olho. - Porque  que gritas tanto? At lhe metes medo - observou Bris. - No te esperava hoje. S ontem te mandei entregar o meu bilhete por um ajudante-de-campo de Kutuzov, que eu conheo, o Bolkonski. No sabia que ele to faria chegar s mos to depressa... Ento! Que fazes tu? Como vais? J estiveste na linha de fogo? - perguntou.
     Rostov, sem responder, ps-se a brincar com a cruz de S. Jorge, de soldado, que lhe pendia dos alamares do uniforme, e, mostrando o brao entrapado, fitou Berg, sorridente.
     -  como vs! - sublinhou.
     - Sim, sim, ptimo! - exclamou Bris - Tambm ns, ns tambm fizemos uma bela campanha. Sabes? Sua Alteza acompanhou sempre, o nosso regimento; por isso tivemos todas as facilidades e gozmos de todas as regalas. Na Polnia, houve recepes, jantares, bailes! No se pode descrever! E o Tsarevitch foi ptimo para todos os oficiais.
     E ambos se puseram  compita a contar histrias narrando um as suas partidas de hssar e a sua vida de campanha, o outro a sua existncia cheia de distraces e de bem-estar, sob as ordens de personagens altamente cotadas.
     - Oh!, a Guarda! - exclamou Rostov. - Mas ouve l, e se tu mandasses vir uma garrafa?
     Bris franziu as sobrancelhas.
     - Se fazes questo disso... - retorquiu,
     Encaminhou-se para a cama onde dormia, tirou debaixo das almofadas muito limpas a bolsa do dinheiro e mandou que fossem comprar vinho.
     - A propsito, vou dar-te as cartas e o dinheiro - acrescentou ele.
     Rostov pegou nas cartas e, pousando o dinheiro em cima do div, encostou-se  mesa e ps-se a ler. Passou a vista por algumas linhas, depois olhou para Berg com irritao. Sentindo-lhe os olhos fitos nele, escondeu a cara com a folha de papel.
     - Assim mesmo mandaram-lhe uma boa maquia - disse Berg, observando o volumoso saco enterrado no div. - Ah!, a ns no nos pesa muito o pr. Por mim, posso dizer-lhe...
     - Oua c, meu caro Berg - disse Rostov -, se eu o visse receber uma carta da famlia ou encontrar um amigo a quem quisesse perguntar qualquer coisa, trataria logo de me ir embora para o no incomodar. Pois ento, v-se embora, peo-lhe, v para qualquer parte, para qualquer parte.., para o diabo!...
     Tinha engrossado a voz; e pegando-lhe por debaixo do brao, com um olhar amvel, para suavizar a dureza das palavras, acrescentou:
     - Sabe? No se zangue, meu caro, meu bom amigo,  francamente que lhe falo, como a um velho camarada.
     - Qu? Claro, compreendo muito bem, conde - balbuciou Berg, na sua voz de ventrloquo, erguendo-se.
     - V at junto dos donos da casa, eles convidaram-no - acrescentou Bris.
     Berg enfiou o seu redingote muito asseado, sem a mais pequena ndoa nem qualquer gro de poeira, repuxou, diante do espelho, o cabelo na testa,  maneira de Alexandre Pavlovitch, e persuadido, graas ao olhar que Rostov lhe lanava, que o seu redingote estava a ter xito, saiu, esboando um amvel sorriso.
     - Ah! Que animal que eu sou! - exclamou Rostov, lendo a carta.
     - Porqu?
     - Ah! Que animal que eu fui em no lhes ter escrito urna vez que tosse antes de lhes ter pregado este susto! Ah! Que animal! - repetiu corando muito. - Ento, sempre mandaste o Gravila buscar uma garrafa? Mandaste? Tanto melhor!
     Dentro da carta dos pais vinha outra, uma carta de recomendao para o prncipe Bagration, carta que a velha condessa, a conselho de Ana Mikailovna, conseguira, atravs de umas pessoas conhecidas, e que enviava ao filho para que ele a entregasse ao destinatrio e tirasse dela o melhor partido.
     - Que tolice! Como se eu Precisasse disto! - murmurou Rostov, atirando com a carta para cima da mesa.
     - Porque  que a deitas fora? - inquiriu Bris.
     -  uma espcie de carta de recomendao. Diabos me levem se eu tenho necessidade disso!
     - Qu, no tens preciso disso? - interrompeu Bris, apanhando a carta e lendo o sobrescrito. - Esta carta pode ser-te muito til.
     - A mim? De modo nenhum! No sou eu quem ir procurar seja quem for na esperana de ser ajudante-de-campo.
     - Porque no? - perguntou Bris.
     - So funes de lacaio.
     - Continuas a ser o mesmo idealista, pelo que vejo - observou o amigo, abanando a cabea.
     - E tu, sempre o mesmo diplomata. Mas no  disso que se trata... E tu, que fazes? - perguntou Rostov.
     - O que vs. At agora tudo tem corrido bem; mas tenho de confessar-te que no desejava outra coisa seno ser ajudante-de-campo; preferia isso a ficar nas fileiras.
     - Porqu?
     - Porque, desde o momento em que uma pessoa escolhe a carreira militar, deve esforar-se por torn-la o mais brilhante possvel.
     - Ah!, realmente! - exclamou Rostov, pensando claramente noutra coisa.
     Olhava o amigo fixamente, e bem nos olhos, como se lhe estivesse a pedir debalde a soluo de um problema.
     O velho Gravila apareceu com o vinho.
     - E se ns mandssemos vir o Afonso Karlitch? - interveio Bris. - Fazia-te companhia a beber; c por mim, no posso.
     - Isso mesmo, isso mesmo! Mas quem diabo  esse alemo? - perguntou Rostov, sorrindo desdenhosamente.
     -  um rico tipo, bom e honesto!
     Rostov fitou mais uma vez Bris nos olhos e suspirou. Berg voltou a aparecer, e em volta da garrafa tomou-se mais afectuosa a conversa dos trs amigos. Os oficiais da Guarda contavam a Rostov as campanhas que tinham feito, as recepes que lhes tinham oferecido ria Rssia, na Polnia e no estrangeiro, o que tinha dito e feito o seu grande chefe, o gro-duque, e repetiam anedotas reveladoras da sua bondade e do seu entusiasmo. Berg, como de costume, calava-se quando no se tratava pessoalmente do seu caso, mas, a propsito do que se dizia dos acessos de clera do gro-duque, contou, com visvel prazer, ter-lhe acontecido encontrar-se ele na Galcia no momento em que o gro-duque passava revista aos regimentos e se zangara por causa da irregularidade dos movimentos de tropas. E referia, sorrindo amavelmente, como o gro-duque, muito zangado, se aproximara dele gritando: Arnatas! - a expresso favorita do Tsarevitch quando estava furioso- e mandara chamar o comandante da companhia.
     - Pode crer, conde, no tive medo algum, sabia perfeitamente que tinha razo. Sabe, conde, eu, sem me vangloriar, sei de cor as ordens do dia do regimento e conheo os regulamentos to bem como o padre-nosso. E era por isso, conde, que no havia qualquer irregularidade na minha companhia. Tinha a conscincia tranquila. Apresento-me. - Nesta altura Berg levantou-se e mimou a cara que tinha nesse momento, com a mo na pala da barretina. De facto, no era fcil exibir uma atitude mais deferente e mais satisfeita. - E pe-se ele ento a insultar-me, a dizer-me as ltimas. Foi um nunca acabar de injrias e de arnatas e de diabos e de a Sibria!. - Nesta altura teve um fino sorriso. - Eu sabia perfeitamente que tinha razo, por isso me calava. Compreende, no  verdade, conde? No dia seguinte no havia nada na ordem do dia,  a isto que se chama no perder a cabea. No  verdade, conde? - concluiu, soltando baforadas de fumo do cachimbo.
     - Sim, no h dvida - observou Rostov, sorrindo.
     Mas Bris, percebendo que Rostov se preparava para chasquear de Berg, desviou habilmente a conversa. Perguntou a Rostov onde e quando fora ferido. Eis o que lhe no desagradou, e principiou a sua histria, entusiasmando-se a pouco e pouco. Contou a aventura de Schngraben, tal qual como o costumam fazer os comparsas de urna batalha, isto , da maneira que mais lhes agradaria que se tivessem passado as coisas, consoante as ouviram contar por outros, numa palavra, fazendo um relato muito bem composto, mas de maneira alguma de acordo com a realidade. Rostov era um rapaz muito franco, e por nada desta vida seria capaz de desnaturar conscientemente a verdade. Principiou com a inteno de contar tudo tal qual se tinha passado, mas, sem dar por isso, involuntria e fatalmente, alterou a verdade em seu proveito. Se ele se tivesse limitado a referir simplesmente a verdade aos seus ouvintes, os quais, mais do que uma vez - e esse era o seu caso - tinham ouvido contar as peripcias de um ataque, e disso tinham uma, ideia muito ntida, e esperavam, precisamente, da parte dele urna histria  imagem e semelhana do que eles prprios pensavam, ningum o teria acreditado, ou ento, o que seria mais grave, teriam pensado ser culpa dele as coisas consigo no se terem passado como geralmente acontecia nos ataques de cavalaria. Era-lhe impossvel dizer, simplesmente, terem-se posto a galopar, que cara do cavalo, que recompusera o brao e que se pusera a correr para a floresta, a fim de escapar aos Franceses. Alm disso, para contar as coisas tal qual, seria necessrio um grande esforo sobre si prprio para no acrescentar fosse o que fosse.  muito difcil narrar uma histria verdica e os rapazes raramente o conseguem. Esperavam ouvi-lo contar que, ardente de entusiasmo, sem saber o que fazia, se precipitara como um tufo sobre o quadrado, que o perfurara, espadeirada para a direita e para a esquerda, que a espada arrancava carne aos pedaos e que, por fim, acabara por cair esgotado e ainda muitas outras coisas do mesmo quilate. E, com efeito, foi uma descrio nesse gnero que ele lhes fez.
     Em plena histria, quando dizia: No podes calcular o furor estranho que se apossa de ns durante o ataque, entrou na sala o prncipe Andr Bolkonski, que Bris aguardava. O prncipe Andr, protector do jovem, sentia-se lisonjeado quando lhe procuravam o apoio e, simpatizando com Bris, que soubera agradar-lhe na vspera, estava desejoso de lhe ser prestvel. Encarregado por Kutuzov de levar uns documentos ao Tsarevitch, passara por casa de Bris na esperana de o encontrar s. Ao ver. , entrada na sala, um hssar do exrcito contando aventuras de guerra - a estava um gnero de pessoas que ele detestava -, dirigiu um amvel sorriso a Bris, franziu as sobrancelhas, piscando o olho na inteno de Rostov, e, com um ligeiro cumprimento, sentou-se no div, indolente e fatigado. Nada lhe era to desagradvel como cair no meio de uma sociedade que detestava. Rostov, adivinhando-lhe os pensamentos, corou; mas a verdade  que, no fim de contas, pouco se lhe dava: aquele homem nada tinha de comum com ele. Entretanto, tendo reparado em Bris, leu-lhe no rosto que tambm parecia envergonhado da presena daquele hssar. Conquanto o prncipe Andr lhe tivesse mostrado uma atitude desagradvel e irnica, e apesar do profundo desdm que lhe inspiravam todos os ajudantes-de-campo do estado-maior, a cuja categoria, naturalmente, o recm-chegado devia pertencer. Rostov, no fundo, sentiu-se confuso, no pde deixar de corar e acabou por se calar. Bris perguntou se havia notcias do estado-maior e se, sem indiscrio, se falava de disposies futuras.
     - Naturalmente continuaro a avanar - replicou Bolkonski, que parecia sem grande vontade de falar diante de desconhecidos.
     Bris aproveitou a oportunidade para perguntar, com a sua habitual polidez, se a rao de forragem dos comandantes companhia no seria duplicada, como constava. O prncipe An respondeu, sorrindo, no estar nas suas mos resolver problemas administrativos de tal magnitude e Berg ps-se a rir.
     - Falaremos depois do seu problema - disse Andr a Bris, lanando um olhar para o lado de Rostov. - Venha visitar-me depois da revista, faremos o que for possvel.
     Deixou errar a vista pela sala em que se encontrava e sem parecer notar o ar de confuso pueril em que cara Rostov, o qual, pouco a pouco, se ia transformando em verdadeira clera, disse-lhes:
     - Creio que estava a falar do recontro de Schngraben? - Esteve l?
     - Estive - respondeu Rostov, com uma certa exasperao, num tom que procurava ferir o ajudante-de-campo.
     Bolkonski percebeu o estado de esprito em que o hssar se encontrava e isso divertiu-o muito. Sorriu com um ar ligeiramente desdenhoso.
     - Sim, so muitas as histrias que se contam agora desse recontro!
     -  verdade - volveu Rostov, numa voz forte, lanando a Bris e Bolkonski olhares subitamente furiosos. -  verdade, contam-se histrias de toda a espcie, mas as que ns contamos, ns, so histrias de quem esteve sob o fogo do inimigo: as nossas histrias tm sumo, no as desses meninos do estado-maior, condecorados sem nada terem feito.
     - E a cujo nmero supe que eu perteno - retrucou o prncipe Andr, o mais tranquilamente deste mundo, e com um sorriso amvel.
     Rostov experimentou um curioso misto de mau humor e considerao perante a serenidade daquele homem,
     - No me refiro ao senhor - respondeu ele. - No o conheo e confesso-lhe que o no quero conhecer. Falo de maneira geral dos oficiais do estado-maior...
     - Pois eu, aqui tem o que me permito dizer-lhe - interrompeu Andr, num tom de tranquila autoridade. - Vejo que tem a inteno de me ofender, e no me custa dizer-lhe que  tudo quanto h de mais fcil desde que no tem respeito por si prprio; mas espero que reconhea que escolhe mal a ocasio e o lugar para semelhantes insinuaes. No tarda que todos ns estejamos envolvidos num duelo muito mais importante e muito mais srio, e alm disso Drubetskoi, que diz ser seu velho amigo, no  culpado de a minha cara ter a pouca sorte de lhe ser desagradvel. Alis - acrescentou, levantando-se - o senhor no desconhece o meu nome e onde me pode encontrar, mas no se esquea de que eu me no considero de modo algum ofendido, estou to pouco ofendido como o senhor. O meu conselho de pessoa mais velha  que o melhor  no pensar mais nisto. Portanto, sexta-feira, depois da parada, espero por si. Drubetskoi. At  vista! - rematou em alta voz, e saudando-os a ambos saiu.
     Rostov no se lembrou de retorquir seno quando ele j tinha desaparecido e tanto mais furioso se sentiu quanto era certo no ter respondido. Ordenou logo que lhe trouxessem o cavalo, e, depois de se ter despedido secamente de Bris, voltou para casa. Que fazer? Ir no dia seguinte ao quartel-general desafiar para um duelo o petulante ajudante-de-campo ou no pensar mais no caso? Eis o problema que o atormentou durante todo o percurso. Ora se dizia a si prprio, iracundo, que seria grande o prazer que teria em ver a cara assustada desse homenzinho dbil e vaidoso diante da sua pistola carregada, ora tinha a surpresa de verificar que entre todos os seus conhecidos a nenhum desejaria tanto tornar a ver como quele ajudantezinho-de-campo a quem to profundamente ficara a odiar.
     

     
     
     
     Captulo VIII
     
     No dia seguinte ao da entrevista de Bris e de Rostov foi a revista das tropas austracas e russas, tanto das foras frescas acabadas de chegar da Rssia como das que vinham do campo de batalha com Kutuzov. Os dois imperadores, o da Rssia, com o prncipe herdeiro, e o da ustria, com o arquiduque, passavam revista a um exrcito aliado de oitenta mil homens.
     Desde a aurora que as tropas, de grande uniforme e escrupulosamente engraxadas, se haviam posto em marcha para formar na esplanada diante da fortaleza. Primeiro viram-se mover milhares de ps e de baionetas, bandeiras desfraldadas, que,  voz dos oficiais, faziam alto, se moviam e formavam com intervalos regulares, ultrapassando outras massas de soldados de infantaria com uniformes diferentes. Em seguida, ao passo cadenciado dos cavalos e ao retinir dos sabres, apareceu a cavalaria em trajo de parada, com uniformes bordados, azuis, vermelhos e verdes, a banda militar  frente, montada em murzelos, alazes e cinzentos. Entre a infantaria e a cavalaria vinha a artilharia, com longas colunas de canhes bem polidos e reluzentes, que estremeciam sobre as rodas, num trepidar metlico, de mechas acesas, dirigindo-se para os locais designados. Os generais, de grande uniforme, corpulentos e muito cingidos, para darem a impresso de mais magros, a nuca apertada nas golas, com as bandas e todas as condecoraes; os oficiais, rebrilhantes e janotas; os soldados, de cara barbeada e lavada, com o seu correame a brilhar; os cavalos, bem arreados e ndios, brilhavam como cetim, as crinas alisadas plo a plo, tudo, numa palavra, dizia ir passar-se um acontecimento importante e solene, que nada tinha de brincadeira. Generais e soldados sentiam no serem nada, no passarem de gros de areia de um oceano humano, bem conscientes da sua fora enquanto elementos daquele todo imenso.
     Desde que luzira o dia que a azfama principiara e s dez horas tudo estava a postos. Sobre a enorme esplanada formavam as colunas. Todo o exrcito formava trs corpos. A frente a cavalaria, depois a artilharia e por ltimo a infantaria.
     Entre cada coluna de tropas abria-se uma clareira. Os trs corpos do exrcito estavam nitidamente separados; primeiro, as tropas de campanha de Kutuzov, entre as quais, no flanco direito e no primeiro plano, o regimento de Pavlogrado; depois os regi- mentos das tropas de linha e a Guarda que chegara da Rssia, por fim o exrcito austraco. Mas todos estavam sob o mesmo comando e sob uma nica disciplina.
     Como vento na folhagem perpassou um murmrio. L vm eles! L vm eles!, disseram vozes ansiosas, e, como uma vaga, um fervilhar de preparativos supremos percorreu as tropas.
     Vindo dos lados de Olmtz surgiu um grup9 em movimento. No mesmo instante, conquanto no houvesse vento, um sopro ligeiro percorreu o exrcito, as flmulas das lanas ondularam e os estandartes estremeceram nas hastes. Dir-se-ia o exrcito inteiro a dar a entender neste frmito a alegria que sentia com a chegada dos imperadores. Uma voz ressoou: Sentido! Em seguida, como os galos ao nascer do Sol, vozes diversas, aqui e ali, foram repetindo a mesma voz. E tudo voltou a serenar.
     Naquele silncio de morte s se ouviam as patas dos cavalos. Era a comitiva dos imperadores que se aproximava das tropas.
     Os clarins do primeiro regimento de cavalaria entoaram uma marcha. Dir-se-ia no serem os clarins que tocavam, mas o prprio exrcito, para festejar a aproximao dos soberanos, que soltava espontaneamente a sua voz. E em seguida, distintamente, ouviu-se a voz jovem e simptica do imperador Alexandre, que gritava a sua saudao s tropas. E o primeiro regimento soltou um Hurra!, um hurra to ensurdecedor, to alegre e prolongado que os prprios homens pareceram assustados com o nmero e o poder que representavam.
     Rostov estava na primeira linha do corpo do exrcito de Kutuzov, para onde se dirigia o imperador. Tambm ele sentia o que todos os demais soldados sentiam: olvido de si prprio, orgulho de um tal poder, entusiasmo apaixonado por aquele que era o objecto de tamanho triunfo:
     Uma s palavra daquele homem, pensava, e aquela massa inteira, de que ele no era mais que uma nfima partcula, lanar-se-ia ao fogo ou  gua, precipitar-se- ia no crime ou na morte, praticaria os mais hericos actos. E por isso no podia dominar um estremecimento ntimo, um quase desfalecimento,  aproximao daquela voz potente.
     Hurra! Hurra! Hurra!, rebentava de todos os lados; e os regimentos, uns aps outros, recebiam o imperador, ao som da marcha militar, e depois vinham os hurras!, e em seguida outra vez a marcha, e ainda de novo os hurras!, alternadamente, de tal modo que o todo, constantemente ampliado, se fundia num trovo ensurdecedor.
     Antes da aproximao do imperador cada regimento, silencioso e imvel, parecia um corpo sem vida; mas assim que ele se aproximava, o regimento animava-se, de sbito, e juntava os seus gritos aos das fileiras que o soberano acabava de percorrer. No meio deste clamor tremendo e ensurdecedor, desta massa de soldados imveis, como que petrificados nas suas formaes, iam evolucionando as centenas de cavaleiros da comitiva, negligentemente, simetricamente, em perfeito -vontade; na vanguarda, a cavalo, os dois imperadores. E era neles que se concentrava a ateno apaixonada e pretensa de toda aquela mole.
     O jovem e belo imperador Alexandre, no seu uniforme da Guarda montada, o tricrnio ligeiramente pendido sobre a orelha, atraa todos os olhares, graas ao seu ar amvel e  sua voz sonora, mas no muito forte.
     Rostov, na vizinhana dos clarins, de longe, com os seus penetrantes olhos, reconhecera logo o imperador, que seguia em todos os seus movimentos. Quando o soberano estava a uns vinte passos e Nicolau pde ver distintamente, nos seus mais pequenos pormenores, esse rosto belo, jovial e jovem, apossou-se dele um enternecimento e um entusiasmo como nunca sentira em toda a sua vida. Os traos, os gestos, toda a pessoa do imperador se lhe afiguraram maravilhosos. Parando diante do regimento de Pavlogrado. Alexandre disse algumas palavras em francs ao imperador da ustria e esboou um sorriso. Ao ver isso. Rostov tambm, sem perceber que sorria, e o entusiasmo que sentia j pelo imperador foi maior ainda. Teria querido testemunhar de qualquer maneira o amor que ele lhe inspirava. E reconhecendo que isso era impossvel, teve vontade de chorar. O imperador, chamando o comandante do regimento, disse algumas palavras.
     Meu Deus, e se ele se dirigisse a mim!, murmurou. Morreria de felicidade!
     O imperador falou tambm aos oficiais::
     - A todos, meus senhores - cada uma das suas palavras era como que uma voz descendo do cu - a todos agradeo do corao.
     Que feliz Rostov se sentiria naquele momento se pudesse morrer pelo seu soberano...
     - Mereceram as insgnias de S. Jorge e sero dignos delas.
      Pudesse eu morrer, morrer por ele, pensava Rostov.
     O imperador disse ainda qualquer cola que ele no percebeu e os soldados, a plenos pulmes, berram: Hurra!
     Rostov, inclinado sobre a sela, gritava tambm a plenos pulmes. Teria desejado ferir-se a si prprio gritando, desde que pudesse exprimir completamente o seu entusiasmo.
     O imperador deteve-se alguns instantes diante dos hssares, como que indeciso.
     Como  que o imperador pode hesitar?, disse Rostov consigo mesmo, mas no mesmo instante pareceu-lhe sublime e cheia de encanto aquela hesitao, como tudo o que do imperador emanasse.
     Mas a hesitao pouco durou. O p do imperador, com a sua bota estreita e pontiaguda,  moda da poca, aflorou o flanco da gua baia inglesa: a mo enluvada de branco apanhou as rdeas, e o soberano seguiu adiante, acompanhado de uma esteira de ajudantes-de-campo disseminados atrs dele. Foi andando, para de novo se deter junto dos outros regimentos, e Rostov, por fim, j s lhe via a pluma branca que emergia do meio da comitiva dos dois soberanos.
     Entre as personagens que seguiam os imperadores Rostov fixou Bolkonski, montado com elegncia e negligncia. Lembrou-se da disputa da vspera e perguntou-se a si mesmo se valeria ou no a pena provoc-lo. Claro que no, concluiu. Vale a pena pensar numa coisa dessas, vale l a pena falar nisso numa hora como esta? Num tal momento de amor, de entusiasmo e de sacrifcio que importam as nossas discusses e as ofensas que recebemos? Amo todos os homens, perdoo a todos neste momento.
     Assim que o imperador acabou de passar revista a todos os regimentos puseram-se as tropas a desfilar em passo de parada, e Rostov, montado no seu Beduno, havia pouco comprado a Denissov, desfilou tambm, no coice do esquadro, isto , sozinho e bem  vista do imperador.
     Antes de passar em frente do czar. Rostov, excelente calo que era, por duas ou trs vezes esporeou o seu cavalo, conseguindo p-lo a galope, esse belo galope quando excitado. Arqueando sobre os peitorais, a cabea coberta de espuma, a cauda eriada, como suspenso, sem tocar no terreno, atirando alternadamente com as patas. Beduing, que parecia tambm sentir o olhar do imperador, desfilou, soberbo, diante do monarca.
     Rostov, as pernas repuxadas para trs e o ventre atirado para a frente, uma s pea ele e o cavalo, o rosto crispado, mas feliz, passou diante do czar como um verdadeiro demnio, no dizer de Denissov.
     - Bravo, hssares de Pavlogrado! - exclamou o imperador. Meu Deus! Que feliz eu me sentiria se ele neste momento me mandasse atirar a uma fogueira, pensou Rostov.
     Quando a revista findou, os oficiais que tinham acabado de chegar juntamente com os de Kutuzov reuniram-se em grupos c, houve animadas conversas por causa das condecoraes, dos austracos mobilizados e dos seus uniformes, de Bonaparte e da sua situao crtica quando chegasse o corpo de Essen e a Prssia se aliasse  Rssia.
     Mas de quem se falava principalmente por toda a parte era do imperador Alexandre; repetiam-se as suas mais insignificantes palavras e toda a gente se sentia fascinada por ele.
     O desejo de todos era s um: lanarem-se, sob o seu comando, contra o inimigo. As ordens do imperador seria impossvel que no vencessem fosse quem fosse, eis o que pensavam, depois da parada, tanto Rostov como a maior parte dos oficiais.
     Agora todos se sentiam mais certos da vitria do que se tivessem ganho duas batalhas.
     

     
     
     
     Captulo IX
     
     No dia seguinte. Bris, pois de envergar o seu belo uniforme e de ter recebido os mais efusivos votos de boa sorte da parte do seu camarada Berg, dirigiu-se a Olmtz para se apresentar a Bolkonski, visto a boa disposio em que este se mostrava para com ele, na esperana de melhorar de situao, e, na melhor das hipteses, conseguir o lugar de ajudante-de-campo de qualquer importante personagem, cargo que muito especialmente o atraa.  bom para o Rostov, a quem o pai manda seis mil rublos de uma assentada, isso de se no querer vergar diante de quem quer que seja, de no querer ser lacaio de ningum. Mas eu, que s comigo posso contar, tenho de tratar da vida e de no perder as boas oportunidades.
     Nesse dia no encontrou o prncipe Andr em Olmtz. Mas o aspecto da cidade, onde se estabelecera o quartel-general, onde estava instalado o corpo diplomtico e onde habitavam os dois imperadores, com as suas comitivas de cortesos e familiares, ainda mais radicou nele o desejo de fazer parte daquele mundo superior.
     No conhecia ali ningum, e o certo  que, apesar do seu elegante uniforme da Guarda, todas aquelas altas personalidades que iam e vinham pelas ruas, em magnficas carruagens, com os seus penachos, os seus grandes cordes e as suas medalhas, quer cortesos, quer militares, se lhe afiguravam tanto acima dele, insignificante oficial da Guarda, que ele e a sua existncia no podiam deixar de lhes passar despercebidos.
     Na sede do quartel-general de Kutuzov, aonde foi procurar Bolkonski, todos os ajudantes-de-campo e at mesmo os subalternos pareciam dar-lhe a entender, pela forma como o olhavam, que oficiais como ele era coisa que no faltava por ali e que principiavam a estar fartos disso. Apesar de tudo, ou talvez at precisamente por essa razo, logo no dia seguinte, dia 15, voltou a Olmtz depois de jantar, e, dirigindo-se s dependncias ocupadas por Kutuzov, perguntou por Bolkonski. O prncipe Andr estava e Bris foi conduzido a um salo espaoso onde naturalmente outrora se danava e em que se viam agora cinco camas e vrios mveis desirmanados: mesas, cadeiras e um cravo. Ao p da porta, um ajudante-de-campo, com o seu roupo oriental, escrevia sentado diante de uma mesa. Outro, o corpulento e vermelhusco Nesvitski, deitado numa das camas, os braos debaixo da cabea a fazerem de travesseiro, ria com o oficial sentado ali perto. Um terceiro, sentado ao cravo, tocava uma valsa vienense; um quarto, meio estendido sobre o mesmo cravo, acompanhava-o cantando. No viu Bolkonski. Nenhum dos oficiais, ao ver Bris, mudou de atitude. O que escrevia, e a quem Bris interpelara, voltou-se pouco satisfeito e disse-lhe que Bolkonski estava de servio; por isso, se lhe queria falar, no tinha mais que dirigir-se  porta da esquerda, na sala de visitas. Bris agradeceu e voltou costas. Na sala de visitas foi encontrar uma dezena de oficiais e generais.
     Quando Bris entrou, o prncipe Andr, com esse ar especial de polida lassido, em que se lia que, se o dever a isso o no obrigasse, aquela conversa no teria durado mais que um minuto, ouvia, piscando os olhos, algo desdenhoso, um velho general russo condecorado, que, quase em bicos de ps, rigidamente erecto, lhe fazia um relatrio, com uma obsequiosa expresso marcial no rosto vermelho.
     - Muito bem, queira ter a bondade de esperar um momento - dizia Bolkonski ao general com o sotaque francs que costumava pr nas suas palavras russas quando queria falar desdenhosamente, e, ao ver Bris, no prestou mais ateno ao militar, que lhe foi no encalo, pedindo-lhe que o escutasse ainda, e dirigiu-se para o jovem com um sorriso jovial e um amistoso aceno de cabea.
     Bris compreendeu naquele momento o que, de resto, j presumia: que no exrcito, acima da disciplina e da subordinao inscritas nos cdigos e ensinadas nos regimentos, coisa que ele to bem conhecia, havia uma outra hierarquia mais subtil que obrigava aquele general de face rubicunda a aguardar respeitosamente e numa atitude militar que se dignassem ouvi-lo, desde que um prncipe Andr, simples capito, a seu belo prazer, resolvesse conversar com o alferes Drubetskoi. E Bris, mais do que nunca, a si prprio prometeu, de futuro, obedecer no aos regulamentos, mas s leis desta hierarquia no prevista. Dava-se conta naquele momento de que o mero facto de ter sido recomendado ao prncipe Andr o punha imediatamente mais alto do que um general, que noutras circunstncias, nas fileiras, estaria em condies de o esmagar a ele, mero alferes da Guarda. O prncipe Andr aproximou-se e deu-lhe o brao.
     - Lamento que me no tenha encontrado ontem. Passei o dia inteiro com os alemes. Fomos com Weirother verificar as disposies tomadas. Quando estes alemes resolvem ser miudinhos, nunca mais nos largam!
     Bris sorriu, como se fosse coisa que toda a gente soubesse isso a que o prncipe Andr se estava a referir. No entanto era a primeira vez que ouvia pronunciar quer o nome de Weirother, quer a palavra disposies.
     - Com que ento, meu amigo, continua a querer ser ajudante-de-campo? Tenho pensado muito em si desde que o vi a ltima vez.
     - Quero; at pensei em dirigir urna petio ao general-chefe - respondeu Bris, corando sem saber porqu. - Tenho uma carta do prncipe Kuraguine. Quero fazer este pedido - acrescentou,  guisa de desculpa - Porque receio muito que a Guarda no venha a bater-se.
     - Bem! Muito bem! Voltaremos a falar nisso - disse o prncipe Andr. - Deixe-me s resolver o caso deste senhor e estou inteiramente s suas ordens.
     Enquanto o prncipe ia comunicar ao comandante- chefe o assunto do general rubicundo, este, que, est claro, no compartilhava das ideias de Bris acerca da hierarquia no prevista pelos regulamentos, fitava com tanta insistncia o insolente alferes que o no deixara concluir a sua conversa com o ajudante-de-campo que este se sentiu incomodado. Voltando a cara, esperou, impaciente, o regresso do prncipe Andr.
     - Bom, meu caro, foi isto o que eu pensei a seu respeito disse o prncipe quando entraram no salo do cravo.- No ganha nada em procurar o general-chefe. Vai-lhe dizer uma srie de amabilidades, convid-lo para jantar (o que, pensou Bris, j no seria mau no ponto de vista da tal hierarquia), mas pouco mais adiantar. No tarda que ns, ajudantes-de-campo e oficiais s ordens, formemos um verdadeiro batalho. Por isso, aqui tem o que, em minha opinio, devemos fazer. Tenho um bom amigo, um general do estado-maior, alis um homem encantador, o prncipe Dolgorukov; e embora voc no saiba, com certeza, o certo  que ns, os do estado-maior, no temos influncia alguma: agora est tudo concentrado nas mos do imperador. Por isso, o melhor  irmos procurar Dolgorukov. Tenho precisamente necessidade de me encontrar com ele. J lhe falei de si. Vamos a ver se ele arranja maneira de o instalar a seu lado ou em qualquer outro stio mais perto do astro-rei.
     O prncipe Andr, sempre que tinha de guiar um moo e ajud-lo a abrir carreira, mostrava-se muito animado. Sob o pretexto de ajudar a outrem, auxlio que ele, por orgulho, no pedia para si prprio, alegrava-o aproximar-se do meio que garantiria o xito. Chamou a si a causa de Bris e com a melhor boa vontade acompanhou-o junto do prncipe Dolgorukov.
     J a tarde ia adiantada quando entraram no palcio de Olmtz ocupado pelos imperadores e seus familiares.
     Nesse mesmo dia houvera um conselho em que tinham tomado parte os membros do Conselho Superior de Guerra e os dois imperadores. Decidira-se, contra o parecer dos velhos generais Kutuzov e prncipe Schwartzenberg, tomar imediatamente a ofensiva e travar uma batalha geral com Bonaparte. Acabava sesso do Conselho de Guerra quando Andr, acompanhado de Bris, entrava no palcio para falar ao prncipe Dolgorukov.
     Todas as personalidades do quartel-general rejubilavam com , deciso tomada, a qual era a garantia da vitria do partido dos novos. A voz dos contemporizadores, que aconselhavam esperar-se para se tomar a ofensiva, fora abafada to unanimemente, as objeces que levantavam haviam sido repelidas com provas to incontestveis das vantagens da ofensiva que a batalha futura de que se falara no Conselho, e que sem dvida alguma terminaria por uma vitria, j no parecia pertencer ao futuro, mas sim ao passado. Havia todas as vantagens: as enormes foras aliadas, incontestavelmente muito superiores s de Napoleo, estavam todas concentradas num mesmo ponto; as tropas estavam entusiasmadas com a presena dos imperadores e no queriam seno bater-se; a posio estratgica sobre a qual convinha actuar conhecia-a, nos seus mais pequenos pormenores, o general austraco Weirother, que comandava os exrcitos. Um feliz acaso permitira que no ano anterior as manobras do exrcito austraco se tivessem desenrolado precisamente no terreno onde agora este tinha de se medir com os Franceses. Havia cartas da regio, a qual era conhecida nos seus mais pequenos pormenores, e Bonaparte, evidentemente enfraquecido, no tomaria qualquer iniciativa.
     Dolgorukov, um dos partidrios mais ardentes da ofensiva, acabava precisamente de sair do Conselho, fatigado, exausto, mas todo entusiasmado e orgulhoso com a vitria que obtivera.
     O prncipe Andr apresentou-lhe o seu protegido, mas Dolgorukov contentou-se em apertar-lhe polidamente a mo, sem nada mais dizer, e depois, no podendo calar os pensamentos que naquele momento o preocupavam, declarou em francs:
     - Ah, meu caro! Que batalha acabmos de ganhar! Deus queira que a verdadeira batalha que a vem finde to vitoriosa. Devo reconhecer, no entanto, meu amigo - acrescentou, animado, e exprimindo-se aos saces -, as minhas lacunas quando me comparo com os austracos, e especialmente com Weirother. Que exactido, que mincia, que conhecimento do terreno, que previso de todas as eventualidades, de todas as condies, dos mais pequenos pormenores! Sim, meu caro,  impossvel imaginar condies mais favorveis do que aquelas em que nos encontramos. Que poderamos ns desejar mais que a aliana da pontualidade austraca com a bravura russa?
     - Ento a ofensiva est definitivamente assente? - inquiriu Bolkonski.
     - E sabe, meu caro, tenho a impresso de que Bonaparte perdeu decisivamente o seu latim. Pois no recebeu hoje mesmo o czar uma carta dele - disse Dolgorukov, com um sorriso significativo.
     - Que me diz? E que escreveu Bonaparte?
     - Que havia ele de escrever? Patarati, patarat... Tudo apenas para ganhar tempo.  o que eu lhe digo, temo-lo nas mos,  um facto! Mas o mais engraado - prosseguiu, rindo com bonomia -  que ningum sabia como escrever o endereo da resposta. Se no se lhe pode chamar cnsul, muito menos imperador. Em minha opinio, devia ter-se escrito Buonaparte.
     - No entanto, entre no o reconhecer como imperador e chamar-se-lhe general Buonaparte h a sua diferena- observou Bolkonski.
     -  precisamente esse o ponto - volveu Dolgorukov rindo com volubilidade. - Conhece Bilibine?  um homem de muito esprito. Props que se endereasse a carta assim: Ao usurpador e ao inimigo do gnero humano.
     E Dolgorukov ps-se a rir a bom rir,.
     - Nada mais? - observou Bolkonski.
     - Foi ainda Bilibine quem encontrou uma frmula sria.  um homem muito fino e muito inteligente.
     - E qual?
     - Ao chefe do Governo francs - explicou Dolgorukov, retomando o ar sisudo. - No acha que  perfeito?
     - Acho, mas no lhe vai agradar nada - disse Bolkonski. - Pelo contrrio! Meu irmo conhece-o, jantou mais do que uma vez com ele, quer dizer, com o actual imperador, em Paris, e disse-me que nunca houve diplomata mais refinado e manhoso: sabe?, um misto da habilidade francesa e do cabotinismo italiano. J ouviu as anedotas a propsito de Markov (Embaixador da Rssia em Paris. (N, dos T.)? S o conde Markov chegou para ele. J ouviu contar a histria do leno?  maravilhosa!
     E o tagarela do Dolgorukov, dirigindo-se ora a Bris ora ao prncipe Andr, contou que Bonaparte, querendo experimentar o embaixador russo Markov, deixara cair de propsito o leno na sua presena e ficara  espera que Markov o apanhasse. Ento este deixara cair tambm o seu leno ao lado do de Bonaparte e, apanhando o seu, no tocara no do imperador.
     - Encantador - disse Bolkonski. - Mas oua c, prncipe, vim procur-lo para lhe pedir um favor para este jovem. Sabe...
     O prncipe Andr no teve tempo de acabar: apresentou-se um ajudante que vinha convocar Dolgorukov para se apresentar ao imperador.
     - Ah, que maada! - exclamou Dolgorukov, levantando-se precipitadamente e apertando a mo ao prncipe Andr e a Bris.- Fique certo de que terei muito prazer em fazer tudo que dependa de mim tanto por si como por este rapaz encantador. - Voltou a apertar a mo de Bris, com um ar desprendido, cheio de bonomia e de animao. - Mas, como v... Para a outra vez!
     Bris sentia-se impressionado por se encontrar naquele momento to perto do poder supremo. Tinha a impresso de estar em contacto com as alavancas que accionavam todas aquelas enormes massas, de que ele, no seu regimento, no passava de uma mnima partcula obediente e insignificante. Seguiram atrs do prncipe Dolgorukov para o corredor e, saindo da porta do gabinete do imperador por onde desaparecera o seu companheiro, viram um homem de pequena estatura,  paisana, de aspecto inteligente, com uma cicatriz no queixo, a qual, no o desfeando, lhe dava uma expresso de vivacidade e de astcia. Este homenzinho acenou familiarmente a Dolgorukov e fitou atentamente e com frieza o prncipe Andr, com quem cruzou no caminho, esperando certamente que aquele o cumprimentasse ou se afastasse para o deixar passar. O prncipe Andr no fez nem uma nem outra coisa; teve uma expresso contrariada, e o outro, afastando-se, tomou por um dos lados do corredor.
     - Quem ? - perguntou Bris.
     -  um homem dos mais notveis, mas tambm dos mais desagradveis que conheo.  o ministro dos Negcios Estrangeiros, o prncipe Ado Czartoriski. So estes indivduos - disse Bolkonski, soltando um suspiro, que lhe fora impossvel reprimir, no momento em que saam do palcio -, so estes indivduos que decidem do destino dos povos.
     No dia seguinte as tropas puseram-se em marcha; no foi possvel a Bris, antes da batalha de Austerlitz, voltar a ver Bolkonski nem Dolgorukov, e ficou  espera no seu regimento, em Ismail.
     

     
     
     
     Captulo X
     
     Na madrugada de 16, o esquadro de Denissov, em que servia Nicolau Rostov, e que fazia parte do destacamento de Bagration, deixou o seu acampamento nocturno para entrar em aco, segundo se dizia. Cerca de uma versta mais adiante, na esteira das outras colunas, encontrou-se na estrada real. Rostov tinha visto desfilar os cossacos, o primeiro e o segundo esquadres de hssares, os batalhes de infantaria com a artilharia, depois vira passar os generais Bagration e Dolgorukov, seguidos de seus ajudantes-de-campo. O medo que, como da primeira vez, tinha sentido antes do combate, a luta interior com que procurava dominar esse medo, o desejo de cumprir o seu dever no meio da confuso, como um verdadeiro hssar, tudo desaparecera de repente. O seu esquadro ficara de reserva e Rostov passara todo o santo dia triste e aborrecido. As nove horas da manh ouviu na sua frente fuzilaria e gritos de Hurra! e viu alguns poucos feridos que eram trazidos para a retaguarda, e no meio de uma centena de cossacos deparara-se-lhe finalmente um destacamento de cavalaria francesa. Os soldados e os oficiais, de regresso  retaguarda, falavam de uma brilhante vitria, da tomada de Wischau e de um esquadro francs feito prisioneiro. O cu estava claro e soalheiro depois da geada que cara durante a noite, e o alegre esplendor daquele dia de Outono harmonizava-se com a notcia de uma vitria, proclamada no s pelo relato dos que nela haviam tornado parte, mas tambm pela alegria que se pintava na cara dos soldados, dos oficiais, dos generais, dos ajudantes-de-campo que passavam, para c e para l diante de Rostov.
     Nicolau parecia, contudo, tanto mais triste quanto era certo ter sentido inutilmente a angstia de quem vai para o combate, pois o dia lhe decorrera em inaco.
     - Anda dai. Rostov, vamos beber qualquer coisa para esqueceres a tua tristeza! - gritou-lhe Denissov, sentado na berma da estrada, diante de um cantil e de algumas vitualhas.
     Em volta de Denissov havia um magote de oficiais que comiam e bebiam palrando.
     - Olha, l trazem outro! - exclamou um deles, apontando para um drago francs prisioneiro que era conduzido, a p, por dois cossacos. Um deles levava pelo brido um belo e corpulento cavalo tomado ao prisioneiro.
     - Vende-me esse cavalo - disse Denissov para o cossaco.
     - Se o fidalgo o quiser...
     Os oficiais levantaram-se e vieram fazer roda em volta dos cossacos e do francs. O drago francs era um rapazola, um alsaciano, que falava com sotaque alemo. A emoo embargava-lhe a voz, tinha as faces muito vermelhas, e, ao ouvir falar francs, ps-se a tagarelar com os oficiais, ora com um, ora com outro. Dizia que nunca se teria deixado aprisionar, que a culpa no fora dele, mas do cabo, que o havia mandado apanhar as gualdrapas dos cavalos, embora ele o tivesse avisado de que os Russos j ali estavam. E ia repetindo a cada momento: mas no faam mal ao meu cavalinho, enquanto lhe passava a mo pelo lombo. Via-se que no compreendia l muito bem onde se encontrava. Ora pedia desculpa de se ter deixado aprisionar, ora, julgando encontrar-se perante os superiores, se vangloriava da exactido e da pontualidade com que cumpria os seus deveres. Com ele chegava at  retaguarda russa em toda a sua frescura a atmosfera do exrcito francs, ento completamente estranha aos Russos. Os cossacos venderam o cavalo a troco de dois ducados, e Rostov, que tinha recebido dinheiro fresco e era o mais abonado, foi quem fez a transaco.
     - Mas que no faam mal ao meu cavalinho! - repetia o alsaciano, dirigindo-se a Rostov, com um ar bonacheiro, quando lhe entregaram o cavalo.
     Rostov, sorrindo, tranquilizou o drago e deu-lhe algum dinheiro.
     -  andar!  andar! - exclamou o cossaco, pegando no brao do prisioneiro para o obrigar a caminhar.
     - O imperador! O imperador! - gritaram de repente.
     Toda a gente se ps a correr, e Rostov, voltando-se, viu, avanando pela estrada, um grupo de cavaleiros que se aproximava, os penachos brancos ao vento. Num abrir e fechar de olhos, cada um retomara o seu lugar nas fileiras e esperava.
     Rostov no compreendia como tinha podido retornar to depressa o seu lugar e montar a cavalo. De sbito, desvanecera-se-lhe o desgosto de no ter tomado parte no combate e o mau humor de se ver no meio dos homens de todos os dias; de chofre, tudo que nele era sentimento pessoal desaparecera. No pensava seno na alegria de ir ver de perto o imperador. Sentia que a presena dele s por si o compensaria bem do dia que perdera. Tomava-o uma felicidade idntica  do apaixonado que por muito tempo esperou a mulher amada. Sem se atrever a voltar-se nas fileiras, e sem que realmente se voltasse, sentia, cheio de jbilo, a aproximao do czar. E o certo  que no era s o tropear dos cavalos que lhe anunciava a prxima vinda do imperador, mas uma como que claridade, um ar de alegria, uma espcie de atmosfera de festa espalhada por todos os lados. A medida que o imperador se acercava, era como se, a seus olhos, um sol fosse irradiando uma luz suave e magnfica, e eis que se sentia como que envolto nos seus raios de luz, que ouvia a sua voz, a sua voz cariciosa, calma, majestosa, e ao mesmo tempo to simples. Como, de resto, j o esperava, fez-se um silncio de morte e no meio desse silncio ouviu-se a voz do imperador,
     - Os hssares de Pavlogrado? - perguntou o czar.
     - A reserva. Sire! - respondeu uma voz, num tom to humano quanto o tom da outra se lhe afigurara sobre-humano.
     Ao chegar  altura em que se encontrava Rostov fez alto. Os seus traos fisionmicos ainda eram mais belos que trs dias antes, por ocasio da parada. Tamanhas eram a alegria e a juventude, tamanha a inocente mocidade que se lhe espelhavam no rosto que dir-se-ia ter a petulncia de uma criana de catorze anos sem deixar de ser um soberano majestoso. Percorrendo distraidamente com a vista o esquadro encontrou os olhos de Rostov e deteve-se, fitando-o alguns segundos. Teria surpreendido o que se estava a passar na alma de Rostov? (Rostov estava persuadido de que ele compreendia tudo.) O certo  que o fitou por instantes com seus olhos azuis, donde escorria uma luz suave e enternecida. Depois, repentinamente, soergueu as sobrancelhas, cravou bruscamente no cavalo a espora do p esquerdo e despediu a galope.
     O jovem imperador no tinha querido deixar de assistir  batalha, e, contra os conselhos dos cortesos, ao meio-dia separara-se da terceira coluna, atrs da qual seguia, para se dirigir  primeira linha.
     Ainda no chegara ao p dos hssares e j alguns ajudantes-de-campo lhe anunciavam o venturoso resultado da aco. Este combate, de que resultou apenas o aprisionamento de um destacamento francs, foi considerado uma grande vitria; por isso o imperador e todo o exrcito, sobretudo no momento em que o fumo da batalha ainda se no dissipara, julgaram os Franceses vencidos e a recuar. Alguns minutos aps a passagem do imperador, a diviso do regimento de Pavlogrado recebeu ordem de avanar. Foi em Wischau, nessa pequena cidade alem, que Rostov pode ver ainda uma vez mais o imperador. No meio da praa da cidade, onde houvera antes fuzilaria assaz violenta, viam-se prostrados mortos e feridos que ainda no tinha havido tempo de retirar. O imperador, cercado por uma comitiva de civis e militares, montava numa gua alaz inglesa, no j a mesma do dia da parada: inclinado de lado, e empunhando, com graciosidade, o lorgnon de ouro, olhava para um soldado, com a cabea ensanguentada e sem barretina, estendido a seus ps, com a cara contra o solo. O soldado ferido estava to sujo, to grosseiro, to sebento, que Rostov se afligiu de v-lo to perto do imperador. Viu os ombros possantes do czar percorridos por uma espcie de tremura febril, notou a perna esquerda esporear nervosamente a montada, e esta j habituada, parecer indiferente e ficar imvel. Um ajudante-de-campo desmontou, pegou no soldado pelos ombros e ps-se a ajeit-lo numa maca que nesse momento apareceu. O ferido soltou um gemido.
     - Cuidado, cuidado, no se pode ter mais cuidado? - recomendou o imperador, que parecia sofrer ainda mais do que o soldado moribundo, e prosseguiu o seu caminho.
     Rostov viu os olhos do imperador cheios de lgrimas, e ouviu-o dizer para Czartoriski, enquanto se afastava:
     - Que terrvel coisa, a guerra! Que coisa terrvel!
     As tropas da vanguarda haviam-se estabelecido adiante de Wischau,  vista da linha do inimigo, que durante todo o dia cedera terreno  mais ligeira fuzilaria. O imperador testemunhou o seu reconhecimento  vanguarda das tropas, prometeram-se recompensas e os homens receberam dupla rao de vodka. Ainda mais alegres que na noite anterior, crepitavam as fogueiras dos acampamentos e os soldados cantavam. Denissov nessa noite festejou a sua promoo a major, e Rostov, bem bebido, props, no fim do repasto, uma sade ao imperador, mas <no, insistiu ele, no  sade de Sua Majestade o Czar, como se diz nos banquetes oficiais, mas  sade do imperador, que  um homem bom, encantador e grande: bebamos  sua sade e  vitria sobre os Franceses!
     - Se ns nos batemos sempre bem at aqui - disse ele e se no deixmos passar os Franceses em Schngraben, o que no seremos capazes de fazer agora, que o temos a comandar-nos? Estamos todos prontos, todos, a morrer por ele alegremente. No  verdade, meus senhores? Talvez no esteja a falar to bem como seria necessrio, pois j lhe bebi um bocado: mas a verdade  que estes so os meus sentimentos e os vossos tambm. A sade de Alexandre I! Hurra!
     - Hurra! - repetiram, em eco, as vozes entusiastas dos oficiais.
     E o certo  que o velho capito Kirsten ps no seu hurra tanto ou mais entusiasmo e no menor sinceridade que o jovem Rostov, oficial de vinte anos.
     Quando os oficiais acabaram de beber e partiram os copos. Kirsten encheu outros, e, em mangas de camisa e calo de montar, avanou de copo na mo e aproximou-se do acampamento dos soldados; numa atitude majestosa e grandes gestos deteve-se, iluminado pela fogueira, que lhe incendiava os grandes bigodes grisalhos e a brancura do peito, visvel atravs da camisa entreaberta.
     - Rapazes,  sade do czar, pela vitria sobre os nossos inimigos, hurra! - gritou na sua voz grave e mscula de velho hssar.
     Os hssares formaram grupos e responderam, como uma s voz, soltando ruidosas aclamaes.
     J tarde, pela noite dentro, quando, por fim, se separaram. Denissov bateu no ombro de Rostov, seu favorito, com a sua pequena mo.
     
     - Com que ento, na guerra, como no h ningum para gente gostar c bem de dentro, toca uma pessoa a enamorar-se do czar - disse ele.
     - Denissov, deixa-te de brincar com coisas srias - gritou Rostov -  um sentimento muito elevado, muito belo...
     - Bem sei, bem sei, meu amigo; e eu compartilho dele, sou o primeiro a aprov-lo...
     - No, tu no compreendes!
     E Rostov, erguendo-se, ps-se a deambular pelo meio do acampamento e a sonhar com a felicidade que seria para ele morrer, no para lhe salvar a vida a ele, coisa em que nem sequer ousava pensar, mas simplesmente morrer diante do imperador. Realmente, era um facto: estava apaixonado pelo seu czar e pela glria dos exrcitos russos, e todo ele era esperana num triunfo prximo. E o certo  que nem s Rostov experimentava tais sentimentos nos memorveis dias que precederam a batalha de Austerlitz: noventa mil homens estavam igualmente apaixonados, embora no no mesmo grau, pelo czar e pela glria dos exrcitos russos.
     

     
     
     
     Captulo XI
     
     No dia seguinte o imperador dormiu em Wischau. O seu mdico s ordens. Villiers, foi chamado vrias vezes. No quartel-general e nos crculos afectos espalhara-se a notcia de que o soberano tivera uma indisposio. Nada comera e dormira mal de noite, segundo diziam os ntimos. A causa era a violenta impresso que lhe produzira na alma sensvel a vista dos feridos e dos mortos.
     No dia 17, de madrugada, um oficial francs, protegido por uma bandeira branca, foi conduzido a Wischau, s guardas avanadas, e pedira audincia ao imperador russo. Este oficial era Savary. O czar acabava de adormecer; Savary viu-se obrigado a esperar. Ao meio-dia era recebido pelo imperador, e uma hora depois regressava s guardas avanadas francesas acompanhado pelo prncipe Dolgorukov.
     O objectivo desta misso, segundo corria, era a proposta para uma entrevista do imperador Alexandre com Napoleo. A entrevista pessoal fora recusada, com grande alegria e grande orgulho de todo o exrcito, e o prncipe Dolgorukov, o vencedor de Wischau, foi enviado com Savary para entrar em contacto com Napoleo, na hiptese de a entrevista solicitada, contra a geral expectativa, ter, realmente, a paz por objectivo.
     A noitinha estava Dolgorukov de regresso, e, tendo-se dirigido imediatamente para junto do imperador, ficou muito tempo a ss com o czar.
     Nos dias 18 e 19 de Novembro, as tropas avanaram ainda duas etapas, e as guardas avanadas inimigas, depois de uma ligeira escaramua, retiraram-se. A partir da tarde do dia 19 houve um importante movimento para c e para l nas altas esferas do comando, que se prolongou at  manh do dia seguinte, 20, jornada da memorvel batalha de Austerlitz.
     Antes da tarde de 19, a inusitada agitao, as conversas animadas, as deslocaes, as misses dos ajudantes-de-campo, limitaram-se apenas ao quartel-general dos imperadores; mas depois este movimento estendeu-se igualmente ao quartel-general de Kutuzov e aos estados-maiores dos comandantes de coluna. Para a tarde, graas s ordenanas, uma verdadeira agitao percorreu todos os corpos do exrcito; na noite de 19 para 20, nos acampamentos ouvia-se um murmrio de vozes, notava-se uma agitao geral e aquela massa de oitenta mil homens ps-se em marcha, numa enorme cortina de nove verstas.
     O movimento que de manh se concentrara no quartel-general dos imperadores e que impulsionara tudo o mais fazia lembrar o da roda motriz de qualquer relgio monumental. Lentamente uma das rodas pe-se em movimento, depois outra, e uma terceira comea a girar, e cada vez mais depressa entram em movimento engrenagens, eixos e roldanas; retinem as campainhas, as figurinhas desfilam e os ponteiros principiam a mover-se regularmente: este o resultado final.
     Tal qual o mecanismo de um relgio, a mquina militar tem de ir at ao fim desde que se verifique o primeiro movimento e tambm se conserva imvel at ao momento em que o impulso inicial atinge as engrenagens at a insensveis. As rodas rangem nos eixos, as charneiras encadeiam-se, os carretes, graas  rapidez da rotao, gemem, enquanto a roda vizinha se mostra to tranquila, to imvel como se essa imobilidade fosse para durar centenas de anos. O momento chega, porm: um dente apanhou-a, e, obediente ao resto, range, rodando, fundindo-se na aco geral cujo resultado e cuja finalidade se lhe mantm desconhecidos.
     Da mesma maneira que no relgio o movimento distribudo por inmeras e diferentes engrenagens e roldanas entra numa lenta deslocao, assim as mltiplas evolues daqueles cento e sessenta mil russos e franceses, o amlgama de todas aquelas paixes, de todos aqueles desejos, de todos aqueles pesares, de todas aquelas humilhaes, de todas aquelas dores, de todos aqueles acessos de orgulho, de medo, de entusiasmo, no vieram a ter por resultado seno o desastre de Austerlitz, aquela batalha que passou  histria como a dos trs imperadores, quer dizer, uma deslocao insensvel da agulha da histria universal no quadrante da histria da humanidade.
     O prncipe Andr, nesse dia, estava de servio, e manteve-se constantemente junto do general-chefe.
     As seis horas da tarde chegou Kutuzov ao quartel-general dos imperadores e, depois de estar algum tempo com Alexandre, dirigiu-se para junto do grande marechal da corte, o conde Tolstoi.
     Bolkonski aproveitou esse momento para colher pormenores dos acontecimentos junto de Dolgorukov. Percebia Kutuzov distrado e descontente e sentia que no quartel-general tambm estavam descontentes com ele, que toda a gente a tinha tomado para com Kutuzov o tom das pessoas que sabem o que os outros ignoram. Por isso muito desejava falar com Dolgorukov.
     - Oh, boa tarde, meu caro - disse-lhe Dolgorukov, que tomava ch com Bilibine. - Ento a festa  para amanh! Como vai o seu velhote? No est l muito bem disposto, no  verdade?
     - No direi que no esteja bem disposto, mas acho que gostaria que lhe prestassem ateno.
     - Mas prestaram-lhe ateno no conselho de guerra e toda a gente est pronta a ouvi-lo quando falar com bom senso; mas demorarmo-nos e esperar, agora que o Bonaparte mais do que nunca receia uma batalha geral, no  possvel.
     - Falou-lhe? - inquiriu o prncipe Andr. - E ento? Que impresso lhe fez Bonaparte?
     - Falei-lhe e fiquei convencido de que no h nada que ele mais tema no mundo que uma batalha geral - repetiu Dolgorukov, frisando sobretudo esta concluso, smula da sua entrevista com Bonaparte. - Se ele no temesse a batalha, porque iria pedir esta entrevista, porque recorreria aos seus parlamentares, e sobretudo porque recuaria quando o recuo  a coisa mais contrria aos seus mtodos de guerra? Pode crer: ele receia uma batalha geral. Chegou a sua hora, sou eu quem lho diz.
     - Mas conte-me, como  ele? - perguntou de novo o prncipe Andr.
     -  um cavalheiro de casaco cinzento, que se pela por ouvir-se chamar de Vossa Majestade, mas eu  que lhe no dei ttulo algum, com grande desapontamento seu. Eis o homem, e  tudo - redarguiu Dolgorukov, trocando um sorriso com Bilibine - Apesar do meu profundo respeito pelo velho Kutuzov  Prosseguiu -, seramos anjinhos se continussemos  espera e lhe dssemos oportunidade de se nos escapar e de nos enganar, quando  certo que neste momento nos est nas mos. No, no devemos esquecer Stivorov e os seus princpios: nunca nos colocarmos na posio de atacados, mas de atacantes. Pode crer, na guerra, a energia dos jovens  muito mais uma garantia do verdadeiro xito do que a experincia dos velhos cunctators.
     - Mas em que situao  que vamos atacar? Fui hoje aos postos avanados e verifiquei no ser possvel saber exactamente onde esto as foras principais do inimigo - observou o prncipe Andr.
     O seu propsito era comunicar a Dolgorukov o plano de ataque que ele prprio congeminara.
     - Ah! Tudo isso no tem a mais pequena importncia - apressou-se a dizer Dolgorukov, levantando-se e abrindo um mapa em cima da mesa. - Todas as hipteses esto previstas: se ele estiver em Brnn...
     E o prncipe Dolgorukov, fluente e pouco claro, exps o movimento de flanco previsto por Weirother.
     O prncipe Andr levantou as suas objeces e exps o seu plano, que podia ser to bom como o de Weirother, mas que tinha apenas uma desvantagem: a de o outro j estar adoptado. Desde o momento em que o prncipe se pusera a mostrar as vantagens do seu plano e os inconvenientes do segundo. Dolgorukov deixou de o ouvir e no voltou a olhar para o mapa seno distraidamente. Por fim, fitando nos olhos o interlocutor, observou:
     - Bom! H hoje conselho de guerra no quartel-general de Kutuzov. Pode expor a o seu plano.
     - E  isso mesmo que eu vou fazer - disse o prncipe Andr, deixando o mapa.
     - Mas o que vos preocupa, meus senhores? - interveio Bilibine, que at ento estivera a ouvir, em silncio, e naquele momento se preparava , ara fazer um gracejo.- Quer seja um desastre ou uma vitria o que amanh nos espera, a glria dos exrcitos russos esta garantida. A no ser o seu Kutuzov, nem um s general  russo. Os chefes, aqui os tm: Herr general Wimpfen, o conde de Langeron, o prncipe de Lichtenstein, o prncipe de Hohenlohe, e por fim Trsch. Prsch.., e assim por diante, como todos os nomes polacos...
     - Cale-se, lngua danada! - exclamou Dolgorukov. - De resto,  falso; agora, pelo menos, h dois russos: Miloradovitch e Dokturov e ainda podamos mencionar um terceiro, o conde Araktcheev, se no fossem os seus fracos nervos.
     - Creio que Mikail Ilarionovitch est de volta - disse o prncipe Andr. - Que a sorte vos seja propcia, meus senhores. - E saiu, depois de apertar a mo a Dolgorukov e a Bilibine.
     Uma vez junto de Kutuzov no resistiu a perguntar ao general, que estava sentado sem dizer palavra, qual a sua opinio sobre a batalha do dia seguinte.
     Kutuzov olhou severamente o seu ajudante-de-campo, e aps um silncio respondeu:
     - Penso que perderemos a batalha, e foi isso que eu disse ao conde Tolstoi, pedindo-lhe que transmitisse a minha opinio ao imperador. Queres saber o que ele me respondeu? Ora, meu caro general, eu trato do arroz e das costeletas, ocupe-se o senhor das coisas da guerra. Sim.., foi isto que me responderam!
     

     
     
     
     Captulo XII
     
     s dez horas da noite Weirother chegou com os seus planos  residncia de Kutuzov, onde tinha ficado assente que se realizaria o conselho de guerra. Todos os generais comandantes de coluna haviam sido convocados para comparecer perante o general-chefe, e  excepo de Bagration, que se recusara a faz-lo, todos se apresentaram  hora marcada.
     Weirother, que fora o exclusivo organizador da futura batalha, na sua animao e agitao, apresentava o mais completo contraste com Kutuzov, nada satisfeito e cheio de sono, pois fora forado, contra sua vontade, a desempenhar o papel de presidente e director do conselho de guerra. Weirother sentia-se, evidentemente,  cabea de um movimento que se tornava irresistvel. Parecia um cavalo atrelado a uma carroa que desliza por uma ladeira abaixo. Se era ele quem puxava o veculo ou se o veculo o arrastava, eis o que ele ignorava; mas o certo  que l ia em marcha acelerada, sem ter possibilidade de reparar no terreno para onde era arrastado. Nessa noite, por duas vezes, fora inspeccionar a linha inimiga, e por duas vezes apresentara o seu relatrio aos dois imperadores, o russo e o austraco, e lhes dera esclarecimentos, indo igualmente ao seu gabinete para ditar o seu dispositivo em alemo. Chegava agora, extenuado, ao quartel-general de Kutuzov.
     To preocupado estava, evidentemente, que se esquecia at de ser respeitoso para com o general-chefe: interrompia-o, falava-lhe bruscamente, com pouca clareza, sem encarar com o interlocutor, sem responder s perguntas que lhe fazia; estava coberto de lama e tinha um ar lamentvel, modo, hirsuto, embora, no entanto, estivesse cheio de segurana e de orgulho.
     Kutuzov estava instalado num pequeno castelo dos arredores de Austerlitz. No grande salo que lhe servia de gabinete encontravam-se reunidos Kutuzov. Weirother e os membros do conselho de guerra. Tomavam ch. Aguardavam apenas a chegada de Bagration para darem comeo aos trabalhos. As oito horas chegou um oficial de ordenanas de Bagration a anunciar que o prncipe no podia assistir ao conselho. O prncipe Andr  que fora encarregado desta misso, e, aproveitando a autorizao que Kutuzov antecipadamente lhe dera, ficou na sala.
     - Uma vez que o prncipe Bagration no vem, podemos comear - disse Weirother, levantando-se apressadamente e aproximando-se da mesa onde estava, estendido, um imenso mapa dos arredores de Brnn.
     Kutuzov, com o uniforme desabotoado, com o grosso e adiposo pescoo descoberto, sentara-se numa poltrona baixa, as duas mos, rechonchudas, de velho, pousadas simetricamente de cada lado: dormitava. Ao rudo da voz de Weirother entreabriu com esforo o olho que lhe restava.
     - Pois sim. Pois sim, faam favor, comea a ser tarde - disse ele; meneou a cabea, depois deixou-a descair e fechou os olhos.
     Se no primeiro momento os membros do conselho puderam pensar que Kutuzov fingia dormir, no h dvida de que o rudo ribombante que lhe prorrompia do nariz quando se procedeu  leitura imediata claramente veio demonstrar que naquele instante o preocupava qualquer coisa muito mais importante que exprimir a sua opinio favorvel ou desfavorvel sobre o dispositivo ou assunto quejando, pois o certo era que se tratava, para ele, de satisfazer urna necessidade imperiosa: a do sono. Efectivamente. Kutuzov dormia. Weirother, com um movimento de impacincia de algum demasiado ocupado para se dar ao trabalho de perder um minuto que fosse, lanou um olhar ao general-chefe, e, convencido de que efectivamente ele dormia, pegou num papel, e em voz alta e num tom montono ps-se a ler o dispositivo da futura batalha, sem esquecer o ttulo, que tambm leu:
     Dispositivo para o ataque  posio inimiga na retaguarda de Kobelnitz e de Sokolnitz no dia 20 de Novembro de 1805.
     Este dispositivo era assaz complicado e difcil de compreender. O original rezava assim:
     Como o inimigo se apoia, na sua ala esquerda, em colinas cobertas de matagal e na ala direita se estende ao longo de Kobelnitz e de Sokolnitz por detrs dos pntanos que existem a, e ns, pelo contrrio, pela nossa ala esquerda ultrapassamos largamente a sua direita,  de toda a vantagem para ns atacarmos esta ala inimiga, principalmente se ocuparmos as povoaes de Soko1nitz e de Kobelnitz, o que nos dar a possibilidade de cair sobre o flanco inimigo e de o perseguir na plancie entre Schlapanitz e a floresta de Thurass, evitando, ao mesmo tempo, os desfiladeiros entre Schlapanitz e Bellowitz, que protegem a frente inimiga. Para alcanar este objectivo  necessrio... A primeira coluna marcha.., a segunda coluna marcha.., etc. (Em alemo no texto original. (N, dos T.)
     Os generais no pareciam ouvir com grande prazer este dispositivo complicado. O general Boekshevden, um louro, grandalho, estava de p, de costas contra a parede, os olhos fitos nas velas acesas; no s parecia no ouvir, mas at no querer que se pudesse pensar que ouvia. Mesmo diante de Weirother, com os seus olhos brilhantes muito abertos voltados para ele, numa pose marcial, as mos nos joelhos, com os cotovelos para fora, sentava-se Miloradovitch, rosado, de bigodes retorcidos, ombros largos. Calava-se obstinadamente, os olhos fitos em Weirother, e no baixou a vista seno quando o chefe do estado-maior austraco acabou a leitura. Ento, virou os olhos significativamente para os outros generais. Mas este olhar significativo no deixava perceber se ele estava de acordo ou no, se aprovava ou reprovava o dispositivo. O general mais prximo de Weirother era o conde de Langeron: com o seu fino sorriso de meridional francs, presente durante toda a leitura, contemplava os seus afilados dedos, fazendo girar entre eles rapidamente uma caixa de rap de ouro guarnecida de miniaturas. No meio de um dos perodos mais longos, suspendeu a rotao da caixa de rap, levantou a cabea, e com uma fria polidez, com a ponta dos delgados dedos procurou interromper Weirother, querendo dizer fosse o que fosse; mas o general austraco, sem deixar de ler, franziu o sobrolho, colrico, e fez com o brao um gesto que queria dizer: Depois, depois dir da sua justia, mas por agora queira seguir pelo mapa e escutar. Langeron ergueu os olhos ao alto, numa expresso de espanto, lanou um olhar a Miloradovitch como que a pedir-lhe explicaes e, ao deparar-se-lhe nada mais que uma expresso que nada significava, baixou os olhos com tristeza, voltando a fazer girar a caixa de rap entre os dedos.
     Uma lio de geografia, disse ele com os seus botes, mas suficientemente alto para ser ouvido.
     Przebiszewski, com respeitosa mas digna, cortesia, voltou para Weirother a concha da orelha, como a dar-se ares de ser todo ouvidos. O pequeno Dokturov, sentado precisamente diante de Weirother, concentrado e modesto e de bruos sobre o mapa, estudava conscienciosamente o dispositivo e o terreno que no conhecia. Vrias vezes pediu a Weirother que repetisse passos difceis que ouvira mal e nomes difceis de algumas povoaes. Weirother aquiescia e Dokturov tomava notas,
     Quando a leitura, que durou quase uma hora, chegou ao fim. Langeron, detendo o movimento da caixa de rap, e sem olhar para Weirother nem para ningum em particular, ps-se a explicar quo difcil seria executar semelhante dispositivo em que a situao do inimigo se pressupunha conhecida, quando era certo que talvez o no fosse de maneira alguma, visto estar em movimento. Estas objeces, posto fundamentadas, era evidente terem por principal objectivo fazer sentir a Weirother, que lera os seus papis com tanta segurana que dir-se-ia dirigir-se a colegiais, que no estava perante imbecis, mas de pessoas que muito lhe poderiam ensinar do ponto de vista militar. Quando a voz montona de Weirother se calou. Kutuzov abriu o olho, como um moleiro que desperta em sobressalto ao deixar de ouvir o rudo sonolento das rodas do moinho, prestou ateno s palavras de Langeron e, como quem diz: Ah, os senhores ainda esto  volta dessas tolices!, deu-se pressa em cerrar de novo a plpebra. A cabea descaiu-lhe mais ainda sobre o peito.
     Procurando ferir Weirother o mais vivamente possvel na sua vaidade de autor. Langeron mostrava que Napoleo podia muito bem atacar em vez de ser atacado, o que tornaria o dispositivo completamente intil. Weirother replicava a todas as crticas com um sorriso desdenhoso, de plena segurana, preparado, evidentemente, de antemo para responder a tudo, fossem quais fossem as objeces que lhe fizessem.
     - Se ele nos pudesse atacar j o tinha feito - lanou ele.
     - Imagina-o, talvez, impotente... - redarguiu Langeron.
     - Se tiver quarenta mil homens, j  muito - replicou Weirother, sorrindo, como o mdico a quem uma pobre mulher recomenda uma tisana.
     - Nesse caso  como se se condenasse a si prprio, se espera o nosso ataque - observou Langeron com um subtil sorriso de ironia, procurando de novo o olhar de aprovao da parte de Miloradovitch.
     Mas este, claro est, de momento estava longe de se ocupar do assunto que dividia as opinies dos generais.
     - Palavra - disse ele. - Amanh tudo isso se ver no campo de batalha.
     Weirother teve de novo um sorriso que queria dizer parecer-lhe ridculo e estranho encontrar objeces junto dos generais russos e dar provas de coisas de que no s ele estava absolutamente convencido, mas de que se haviam persuadido, inclusivamente, os prprios imperadores.
     - O inimigo apagou as fogueiras e no seu acampamento ouve-se um rudo ininterrupto - tornou ele - Que quer isto dizer? Afastar-se-, a nica coisa que ns devemos recear, ou altera as suas posies? - Isto f-lo sorrir. - Mas ainda mesmo que viesse a ocupar a posio de Thurass, com isso apenas nos evitava grandes maadas, e todas as disposies tomadas, nos seus mais pequenos pormenores, continuariam as mesmas.
     - Como assim? - perguntou o prncipe Andr, que de h muito esperava a oportunidade de expandir as suas dvidas. Kutuzov despertou, tossicou e olhou os generais.
     - Meus senhores, o dispositivo de amanh, quer dizer, de hoje, visto ser quase uma hora, no se pode modificar - disse ele. - J o ouviram ler e todos ns cumpriremos o nosso dever. E antes da batalha nada  mais importante (hesitou um momento) que dormir bem.
     Fez meno de se levantar. Os generais, com uma vnia, afastaram-se. Era j bastante mais da meia-noite. O prncipe Andr saiu.
     O conselho de guerra em que o prncipe Andr no pudera exprimir a sua opinio, conforme seu desejo, deixou-lhe urna impresso confusa e nublada. Quem teria razo? Dolgorukov e Weirother, ou Kutuzov. Langeron e os outros, que no aprovavam o plano de ataque? Eis o que ele ignorava. Mas teria sido, de facto, impossvel a Kutuzov comunicar directamente a sua opinio ao imperador? No poderiam as coisas vir a passar-se de outra maneira? Ser legtimo, para dar satisfao s ideias particulares de simples cortesos, arriscar a vida de dezenas de milhares de homens, e a minha tambm?, pensava de si para consigo.
     Sim, pode muito bem acontecer que me matem amanh, prosseguiu. E subitamente, ao pensar na morte, toda uma cadeia de reminiscncias as mais longnquas, as mais ntimas, lhe invadiu a imaginao. Lembrou-se do seu ltimo adeus ao pai e  esposa; lembrou-se dos seus primeiros tempos de namoro com Lisa! Lembrou-se da gravidez da mulher e uma grande piedade por ela e por ele prprio o invadiu, e num estado de tenso nervosa e intensa emoo saiu da cabana que partilhava com Nesvitski e ps-se a andar de um lado para o outro diante da porta.
     A noite estava enevoada, e atravs da bruma filtrava-se, misteriosamente, um raio da Lua. Sim, amanh, amanh!, disse para si mesmo... Amanh talvez tudo tenha acabado para mim; de todas estas recordaes nada restar, todas estas recordaes deixaro de ter para mim o mais pequeno sentido. Amanh, talvez, com certeza amanh,  que eu prevejo que pela primeira vez me ser dado, por fim, mostrar de quanto sou capaz. - E por diante dos seus olhos perpassava a batalha, o seu resultado desastroso, a concentrao do combate num nico ponto e o embarao de todos os seus superiores. E eis que surgia o minuto que o destino lhe reservava, esse seu Toulon h tanto esperado, e que por fim se lhe propiciava. Ei-lo que diz, firme e claramente, tudo quanto pensa a Kutuzov, a Weirother e aos imperadores. A preciso dos seus planos impressiona-os a todos, mas ningum assume a responsabilidade de os pr em prtica, e ei-lo que toma o comando de um regimento, de uma diviso, que impe como condies ningum intervir nas suas disposies: e leva a diviso at ao ponto critico e  ele sozinho quem consegue a vitria. E a morte e a agonia?, diz uma outra voz. Mas nada responde a esta voz, e os seus triunfos continuam.  ele, s ele, quem estabelece o dispositivo da futura batalha. Mero oficial s ordens de Kutuzov,  ele e s ele quem tudo faz. A batalha que se segue ele a ganha. Kutuzov  transferido e  ele norteado para o seu posto... E de- pois?, segreda-lhe ainda a segunda voz, e depois, se tu no tiveres sido antes dez vezes ferido, morto ou trado; e depois? E ento depois?!, replica Andr. Ignoro o que acontecer depois, no quero nem posso sab-lo; mas se  isto que eu desejo, se quero o glria, se quero ser clebre entre os homens, se quero vir a ser um dolo, que culpa realmente tenho eu de querer que as coisas sejam assim, de no querer seno isto, de no viver seno para isto? Sim, s para isto! Nunca o direi a ningum, mas, meu Deus, que hei-de eu fazer se a nica coisa a que realmente aspiro  a glria e a idolatria dos homens! A morte, os ferimentos, a perda da minha famlia, nada me mete medo. Por mais queridas que me sejam todas estas pessoas, meu pai, minha irm, minha mulher, e outros, outros mais, por mais que os estime, e ainda que isso possa parecer terrvel e contra a natureza, a todos estou pronto a sacrificar por um minuto de glria, por um instante de triunfo, pelo amor que inspirarei a pessoas que no conheo e a quem nunca conhecerei, pelo amor, precisamente, dessas mesmas pessoas. E em tudo isto pensava enquanto ia ouvindo um rudo de vozes no ptio do alojamento de Kutuzov. Era a conversa dos impedidos que se deitavam. Um deles, provavelmente um cocheiro, para arreliar o velho cozinheiro de Kutuzov, que o prncipe Andr conhecia muito bem e se chamava Tito, dizia:
     - Tito, eh. Tito!
     - O que aconteceu? - inquiria o velho.
     - Tito, vai malhar o teu trigo (Aforismo intraduzvel. (N, dos T.) - dizia o gracioso.
     - O Diabo te leve! - gritava a outra voz, logo abafada pela risota dos alegres camaradas.
     E apesar de tudo s uma coisa me interessa, s uma coisa me absorve: o desejo de triunfar sobre todos; s me interessa esta fora misteriosa, esta glria que eu sinto pairar aqui por cima de mim, no meio desta neblina!
     

     
     
     
     Captulo XIII
     
     Rostov, nessa noite, encontrava-se com o seu peloto na linha dos flanqueadores na vanguarda do destacamento de Bagration. Os hssares estavam divididos dois a dois, formando a primeira linha; ele prprio a percorria a cavalo, procurando dominar o sono que o prostrava. Na retaguarda descobria-se urna vasta rea ocupada pelos acampamentos nocturnos do exrcito russo, viso confusa no meio do nevoeiro; na vanguarda, completa opacidade. Por mais que Rostov procurasse ver para alm dessa distante neblina, nada podia distinguir: ora era qualquer coisa cinzenta, ora qualquer coisa vagamente negra; por vezes dir-se-ia ver fogueiras no local onde devia encontrar-se o inimigo; outras acreditava no passarem de clares que lhe perpassavam pela vista. Fechava os olhos e a imaginao representava-lhe ora o czar, ora Denissov, ora recordaes de Moscovo, e logo procurava reabri-los, para ver ali mesmo, diante de si, mesmo contra si, a cabea e as orelhas do cavalo que montava, outras vezes negras silhuetas de hssares quando passava a pouca distncia deles, e ao longe sempre o mesmo nevoeiro opaco. Quem sabe?, pensava. Pode muito bem acontecer que o czar, encontrando-me no seu caminho, me venha a dar, como a qualquer outro oficial, uma misso a cumprir e me diga: Vai ver o que se passa l adiante! No ouvi eu j contar que ele, por mero acaso, reconhecendo um oficial, o chamou para junto de si? E se ele me chamasse para junto dele? Oh! Como eu o protegeria, como eu lhe diria toda a verdade, como eu desmascararia os impostores! E Rostov, para se representar a si prprio, ao vivo, a sua dedicao e o seu amor pelo czar, via-se a contas com um inimigo ou um traidor alemo, a quem abatia, cheio de jbilo, ou a quem esbofeteava perante o seu senhor. De sbito, um grito distante f-lo estremecer e despertar daquela abstraco.
     Onde estou eu? Ah! Sim, na linha de fogo. O santo e a senha : Timo. Olmtz. Que pena o nosso esquadro estar amanh de reserva... , disse de si para consigo. Vou pedir que me deixem tomar parte na batalha.  talvez a nica maneira de ver o czar. E agora devo estar quase a ser rendido. Vou dar ainda mais uma volta, e no regresso procurarei o general para lhe fazer o meu pedido. Empertigou-se na sela e esporeou o cavalo disposto a inspeccionar uma vez mais os seus hssares. Pareceu-lhe a manh um pouco mais clara. A esquerda via-se uma vertente suave iluminada e em frente um cabeo negro que parecia abrupto como uma muralha. Sobre o cabeo havia uma mancha clara que Rostov no pode definir: seria uma clareira na floresta iluminada pelo luar ou neve perptua ou um grupo de casas brancas? Pareceu-lhe, mesmo, que alguma coisa mexia. Com certeza  neve aquela mancha. Uma mancha, parafusava ele; mas, no, no  uma mancha...
      Natacha, a minha irm, so os seus olhos negros... Natacha... Ficar ela admirada quando eu lhe disser que vi o imperador? No h dvida,  a Natacha.., aquela manchazinha... - Meta  direita. Excelncia, aqui h uma moita - disse de sbito a voz do hssar diante do qual Rostov ta passando, sonolento.
     Rostov ergueu a cabea, que tinha deixado pender sobre o pescoo do cavalo, e parou ao p do hssar. Prostrava-o um sono de criana. Mas, ento, em que,  que eu estava a pensar? Preciso de me no esquecer. Quando falar ao imperador? No, no se trata disso, mas  amanh. Sim, sim! Natacha.., ataque, taque.., quem? O hssar. Ali!, o hssar com os bigodes... Pelo Tverskaia (Rua importante de Moscovo. (N, dos T.) l vai andando aquele hssar dos bigodes, sim, estou a pensar nele mesmo defronte da casa Guriev... O velho Guriev. Eh!, grande compincha, o Denissov! Mas tudo isto so disparates. Agora o importante  o imperador estar aqui. Quando olhou para mim, quis falar-me, mas no teve coragem... No, fui eu, eu  que no tive coragem. Tudo isto continua a ser disparate; o principal  que eu me no esquea de qualquer coisa muito importante em que estava a pensar. Natacha, ataque.., sim, sim,  isso! E de novo voltou a cabecear sobre o pescoo do cavalo. De sbito, pareceu-lhe que disparavam contra ele. Qu? Qu?... Acutilem-nos! O qu?, gritou, sobressaltado. No momento precisamente em que abria os olhos ouviu diante dele, do lado do inimigo, gritos prolongados de milhares de vozes. O cavalo de Rostov e o do hssar que lhe ficava mais prximo eriaram as orelhas. Na direco donde provieram os gritos acendeu-se e apagou-se uma luz, depois outra, e ao longo de toda a linha francesa, no alto do cabeo, brilharam luzes e os gritos tornaram-se cada vez mais intensos. Rostov conseguia perceber que se falava francs, sem poder compreender. Falava muita gente ao mesmo tempo. Nada mais se discernia seno: aaa!, rrr!
     - Que vem a ser isto? Que te parece? - perguntou ao hssar a seu lado. -  do campo do inimigo, com certeza!
     O hssar no respondeu.
     - Qu, ento tu no ouves? - perguntou de novo Rostov, depois de ter esperado muito tempo por uma resposta.
     - Quem sabe l, meu fidalgo? - replicou o hssar contra vontade.
     - Pela direco que trazem deve ser o inimigo - voltou a dizer Rostov.
     - Se calhar, pode muito bem ser que sim - disse o hssar. -  de noite!... Eh, tu l, cautela! - gritou para o cavalo, que parecia inquieto.
     A montada de Rostov impacientava-se tambm, escarvava a terra gelada, eriava as orelhas ao ouvir barulho e olhava de soslaio para o lado das luzes. O som das vozes ia-se tornando cada vez mais intenso, fundindo-se num rumor geral, que s podia provir de uma massa de muitos milhares de homens. As luzes propagavam-se mais e mais, naturalmente seguindo a linha do campo francs. Rostov j no tinha vontade de dormir. Aqueles gritos de alegria e triunfo no exrcito inimigo agiam sobre ele como um revulsivo. Viva o imperador, viva!, ouvia agora distintamente.
     - No  longe daqui, naturalmente  por detrs do rio - disse Rostov ao seu hssar.
     Este limitou-se a suspirar, sem nada responder, depois ps-se a tossir furiosamente. Ao longo da linha dos hssares ouvia-se um trote de cavalaria, e de sbito emergiu do nevoeiro nocturno, como se fosse um, grande elefante, a figura de um sargento.
     - Meu fidalgo, os generais! - disse ele, aproximando-se de Rostov.
     Rostov, sem deixar de observar as luzes e os gritos, acompanhou o sargento ao encontro de um certo nmero de cavaleiros que se dirigiam para eles ao longo da linha. Um deles montava um cavalo branco. Eram Bagration e Dolgorukov, com os seus ajudantes-de-campo, que vinham observar aquela estranha manifestao de luzes e de clamores no exrcito inimigo. Rostov, aproximando-se de Bagration, fez-lhe o seu relato e reuniu-se aos ajudantes-de-campo, ouvindo o que diziam os generais.
     - Acredite no que eu lhe digo - dizia o prncipe Dolgorukov para Bagration. - Tudo isto no passa de um ardil. Bate em retirada e deu ordens s foras da retaguarda para que acendessem fogueiras e fizessem todo este rebulio para nos iludir.
     - No creio - tornou Bagration. - Desde o princpio da noite que eu os veio em cima daquele morro. Se retirassem, teriam levantado o acampamento. Senhor oficial - disse ele para Rostov -, eles ainda l tm os flanqueadores?
     - Ontem  noite tinham, mas agora no os vejo. Excelncia. Se assim o ordenar, irei l ver com os hssares - disse Rostov. Bagration parou e, sem responder, procurou ver atravs do nevoeiro a cara de Rostov.
     - Bom, ento v - disse, depois de um curto silncio.
     - s suas ordens!
     Rostov esporeou o cavalo, chamou o sargento Fedtchenko e dois hssares, ordenou-lhes que o acompanhassem e principiou a descer o cabeo, a trote, orientado pelos gritos que continuavam. Experimentava um misto de angstia e de alegria ao sentir que ia assim, apenas com trs hssares, a caminho daquelas paragens distantes, brumosas, misteriosas e perigosas onde ningum fora antes dele. Bagration gritou-lhe do alto da colina que no passasse alm do rio, mas Rostov fingiu nada ouvir, e, sem se deter, seguiu sempre em frente, enganando-se a cada momento, tomando arbustos por rvores e moitas por homens, reconhecendo da a pouco o engano em que cara. Depois de ter descido a trote a vertente deixou de ver tanto as linhas russas como as luzes inimigas, mas ouvia os gritos cada vez mais fortes e mais distintos. L no fundo do vale encontrou-se diante de qualquer coisa que lhe pareceu um rio, mas assim que se aproximou mais verificou ser a estrada real. Uma vez a fez estacar o cavalo indeciso: que devia fazer? Seguir a estrada ou atravess-la e depois marinhar pelos campos em frente, no escuro? Seguir ao longo da estrada iluminada, no meio do nevoeiro, era menos perigoso, pois, mais depressa se reconheciam as pessoas. Venham atrs de mim, disse ele; atravessou a estrada e, a galope, ps-se a subir a colina, em direco queles postos onde no comeo da noite havia um piquete francs.
     - Meu fidalgo! L est um! - exclamou um dos hssares atrs dele.
     Rostov mal teve tempo de ver surgir do nevoeiro fosse o que fosse de negro, e logo uma chama brilhou, um tiro zuniu, uma bala passou, como um lamento, alta no meio da neblina, depois desapareceu. Um segundo tiro falhou, mas os fechos da espingarda cintilaram. Rostov fez meia volta e retomou, a galope, o caminho que fizera. Quatro tiros explodiram ainda com pequenos intervalos e as balas assobiaram, em tons diferentes, perdendo-se algures no meio das trevas. Rostov refreou o cavalo, excitado, como ele, pelas detonaes, e seguiu a passo. Ento, vamos, mais outro! Outro ainda!, dizia de si para consigo, alegremente. Mas a fuzilaria cessou.
     Ao aproximar-se de Bagration. Rostov voltou a esporear o cavalo, que partiu a galope, e foi com a mo na viseira da barretina, em continncia, que o abordou.
     Dolgorukov continuava a sustentar a sua ideia de que os Franceses retiravam, e que s tinham acendido aquelas luzes para os enganar.
     - Que prova isso? - dizia ele quando Rostov se acercou. - Podem muito bem ter retirado, deixando um piquete.
     - Evidentemente, ainda no partiram todos, prncipe - dizia Bagration. - Amanh de manh, amanh de manh, saberemos tudo.
     - No alto da colina h um piquete. Excelncia, no mesmo stio de ontem  noite - disse Rostov, debruando-se para diante, com a mo na viseira, e sem poder dominar a alegria que lhe causara a sua expedio, e sobretudo o zumbir das balas.
     - Bom, bom - disse Bagration - os meus agradecimentos, senhor oficial.
     - Excelncia - atalhou Rostov.- Consinta que eu lhe faa um pedido.
     - De que se trata?
     - Amanh o nosso esquadro est de reserva: consinta que eu lhe pea que me destaque para o primeiro esquadro.
     - Como se chama? - Conde Rostov.
     - Ah!, muito bem. Fique comigo como oficial de ordenana.
     - O filho de Ilia Andreitch? - perguntou Dolgorukov. Rostov no respondeu.
     - Ento, posso contar. Excelncia...
     - Eu darei as minhas ordens.
     Amanh pode ser que me mandem levar um despacho ao imperador, pensou. Louvado seja Deus!
     Os gritos e as luzes no exrcito inimigo eram por causa da leitura s tropas da ordem do dia de Napoleo, enquanto o imperador em pessoa percorria a cavalo os acampamentos. Os soldados, que o tinham descoberto, haviam acendido archotes de palha e acorriam gritando: Viva o imperador! A ordem do dia de Napoleo era a seguinte:
     
     Soldados!
     O exrcito russo est diante de vs disposto a vingar o exrcito austraco de Ulm. Estais diante dos mesmos batalhes que batestes em Hallabrnn, e que depois disso tendes vindo a perseguir at hoje.
     As posies que ns ocupamos so formidveis, e quando eles marcharem para contornar a nossa direita, apresentar-me-o o seu flanco. Soldados, eu prprio comandarei os vossos batalhes. Conservar-me-ei longe da linha de fogo se vs, com a vossa costumada bravura, levardes a desordem e a confuso s fileiras inimigas; mas se a vitria se apresentar incerta um momento que seja, vereis o vosso imperador expor-se nas primeiras linhas, pois da vitria no podemos duvidar nesta jornada, em que se trata, antes de mais nada, da honra da infantaria francesa, to importante para a honra de toda a nao.
     Que as fileiras no fiquem desguarnecidas com o pretexto de recolher os feridos e que cada um se compenetre bem do pensamento de que  preciso vencer estes estipendiados da Inglaterra, que to grande dio sentem contra a nossa nao!
     Esta vitria ser o fim da campanha, e poderemos depois dela recolher aos nossos quartis de Inverno, onde viro ao nosso encontro os novos exrcitos que se esto a formar em Frana, e ento a paz que eu farei ser digna do meu povo, de vs e de mim.
     
     Napoleo.
     

     
     
     
     Captulo XIV
     
     As cinco horas da manh ainda era completamente escuro,
     O centro, as reservas e o flanco direito de Bagration ainda se mantinham imveis, mas no flanco esquerdo as colunas de infantaria, de cavalaria e de artilharia, que seriam as primeiras a assaltar a ravina para atacar o flanco direito dos Franceses e repeli-los, de acordo com o dispositivo, para as montanhas da Bomia, principiavam a agitar-se e a deslocar-se dos seus acampamentos. O fumo das fogueiras, onde se lanava tudo que podia servir de empecilho, tornava-se sufocante. O tempo estava frio e sombrio. Os oficiais tomavam ch, comiam qualquer coisa  pressa, os soldados rilhavam os seus biscoitos, batiam com os ps no cho para aquecer e apinhavam-se diante das fogueiras, para onde atiravam com os restos das tendas, cadeiras, mesas, rodas, tinas, tudo que no podiam levar. Os oficiais guias austracos disseminavam-se por entre as tropas russas e transmitiam as ordens de partida. Assim que um oficial austraco aparecia  porta da tenda do comandante do regimento, logo este entrava de se preparar para o combate: os soldados abandonavam as fogueiras, guardavam os cachimbos no cano das botas, atiravam com as mochilas para cima das carroas, desensarilhavam as espingardas e alinhavam-se na forma Os oficiais abotoavam os seus uniformes, afivelavam os cintures, prendiam as suas sacolas e percorriam as fileiras, gritando vozes de comando. Os comboiadores e os impedidos atrelavam, ordenavam, limpavam as carroas. Os ajudantes-de-campo, os comandantes de batalho e de regimento montavam a cavalo, benziam-se, dando as ltimas ordens e indicaes e instrues aos boiadores retardatrios, e ouvia-se o rudo montono de milhares de passos martelando o cho. As colunas punham-se em marcha, sem saberem aonde iam e sem verem, cegas pela multido que as envolvia, o fumo e o nevoeiro cada vez mais espesso, o lugar donde saam, nem aquele aonde se dirigiam.
     O soldado em marcha est enquadrado, limitado nos seus recursos, arrastado pelo seu regimento como o marujo a bordo do navio que o leva. Onde quer que se dirija, por mais longe que v, qualquer que seja a estranha e perigosa latitude desconhecida em que se encontre, o marujo tem sempre diante dos olhos as mesmas pontes, os mesmos mastros, os mesmos cabos; assim tambm o soldado tem sempre presentes os mesmos camaradas, as mesmas fileiras, o mesmo sargento Ivan Mitritch, o mesmo co da companhia. Jutchka (Nome corrente dos cachorrinhos. (N, do T.), os mesmos comandantes.  raro que ao soldado interesse saber em que latitude navega o navio a bordo do qual vai embarcado; mas no momento sente oportuno ressoar nele uma advertncia severa e igual para todos, e que vem s Deus sabe donde;  um aviso que lhe faz ressoar no ntimo a aproximao de um momento decisivo e solene, e que nele desperta uma curiosidade a que no est habituado. O soldado no dia da batalha sente-se como que transportado para fora do crculo dos pequenos interesses do seu regimento; ouve, olha, interroga avidamente, quer saber o que est a passar-se em tomo de si.
     O nevoeiro tornara-se to espesso que, apesar da aurora, nada se via a dez passos. Os arbustos pareciam rvores imensas; superfcies planas dir-se-iam cortadas de ravinas e cheias de declives. Por toda a parte, tanto  direita como  esquerda, havia um inimigo invisvel, a pequena distncia, no qual se podia embater. Mas por muito tempo as colunas foram marchando sempre atravs do mesmo nevoeiro, subindo e descendo encostas, atravessando jardins e vedaes, em terreno novo e desconhecido, sem em parte alguma encontrar inimigos. Pelo contrrio, tanto para a frente como para trs, por todos os lados, s se viam tropas russas caminhando na mesma direco. E o soldado sentia um grande alvio ao verificar que para onde seguia, embora, de resto, ignorasse o seu destino, muitos, muitos dos seus seguiam tambm.
     - Olha, os de Kursk tambm a vo - dizia-se nas fileiras. - Eh!, rapazes, o que a vai de gente nossa! Esta noite, quando se acenderam os fogueiras, no se lhe via o cabo. Palavra, at parecia Moscovo!
     Embora nenhum dos comandantes de coluna se aproximasse das fileiras e falasse aos soldados (os comandantes de coluna, como se vira no conselho de guerra, no estavam l muito bem dispostos, desagradava-lhes a aco iniciada e limitavam-se a executar ordens, sem se preocuparem em reanimar os soldados), estes marchavam alegremente, como sempre que um soldado marcha para a linha de fogo, e sobretudo quando ataca. No entanto, depois de cerca de uma hora de marcha, no meio do nevoeiro, a maior parte dos homens teve de fazer alto e nas fileiras sentia-se a penosa impresso da desordem e da confuso que principiavam a alastrar. Como  que esta impresso se tinha transmitido, eis o que no era fcil de dizer; mas no havia dvida de que se propagava com segurana, que submergia tudo, insensvel e irresistivelmente, como a gua que vai inundando um terreno alagadio. Se as tropas russas estivessem sozinhas no campo de batalha, e no na companhia dos aliados, ter-se-ia passado bastante tempo antes que esta sensao de desordem viesse a transformar-se numa certeza; mas na situao presente, como podiam lanar, com um prazer no dissimulado, e absolutamente legtimo, sobre os imbecis dos alemes a causa da desordem, eis que todos estavam convencidos da existncia de uma confuso assaz lamentvel devida aos devoradores de salsichas.
     - Porque  que eles pararam? Est impedida a estrada? Demos com os Franceses?
     - No, no se ouve nada. Se fossem eles, disparavam.
     - Qu? Fizeram-nos levantar arraiais, e agora deixam-nos para aqui no meio do campo, sem que a gente saiba para qu? Estes malditos alemes so uns trapalhes. Que grandes imbecis!
     - C por mim tinha-os obrigado a ir adiante. Mas  o vais, esto todos l para trs. E ns para aqui estamos de barriga a dar horas.
     - Bom, isto no vai demorar! Dizem que a cavalaria impede o caminho - observou um oficial.
     - Qu! Ento estes raios destes alemes nem ao menos conhecem a terra deles? - comentou outro.
     - A que diviso  que vocs pertencem? - gritou um ajudante-de-campo que nesse momento apareceu.
     - A dcima oitava.
     - Ento que fazem vocs aqui? H que tempo vocs deviam estar l diante; agora j l no conseguem chegar antes da noite.
     - Chama-se a isto uma estupidez; nem eles prprios sabem o que esto a fazer! - exclamou o oficial, que partiu a galope.
     Da a pouco passou um general, que gritou, furioso, uma ordem numa lngua que no era a russa.
     - Tafalafa, que est ele para ali a dizer? - arremedou um soldado, imitando o general que se afastava...- Eu mandava fuzilar estes canalhas!
     A ordem era que estivssemos na nossa posio s nove horas, e ainda nem sequer andmos metade do caminho. Bonita maneira de fazer as coisas!, ouvia-se dizer de vrios lados. E a energia com que as tropas se tinham posto em marcha principiava a transformar-se em desalento e clera contra as ordens estpidas e contra os Alemes.
     A causa da desordem era que quando a cavalaria austraca entrara em movimento no flanco esquerdo, o alto comando entendera que o centro russo estava muito afastado do flanco direito e fora dada ordem a toda a cavalaria para que atravessasse para o lado direito. Alguns milhares de cavaleiros tinham de passar por diante da infantaria, e esta era obrigada a esperar.
     Na linha da frente deu-se um conflito entre um guia de coluna austraco e um general russo. Este gritava, pedindo que mandasse parar a cavalaria; o austraco alegava no ser ele o culpado, mas o alto comando. E entretanto as colunas estacionavam, enfadavam-se, perdiam a coragem. Aps uma hora de paragem, as tropas retomaram por fim a sua marcha e puseram-se a descer a encosta. O nevoeiro, que se havia dissipado nos cabeos, adensava-se, mais espesso, nos vales onde os soldados iam penetrando. Na frente ressoaram, no meio da neblina, um tiro, depois outro, primeiro irregularmente e com um certo intervalo, tra.., ta.., ta, depois, mais regularmente e mais nutrido, e uma escaramua ocorreu nas margens do Goldbach.
     Como no esperavam encontrar o inimigo nas margens do rio, era um pouco ao acaso que o atacavam, no meio do nevoeiro, sem uma palavra de encorajamento dos comandantes, com o sentimento, que todos tinham, de que se perdera tempo, e sobretudo sem que se visse fosse o que fosse, nem na vanguarda nem aos lados. Os Russos ripostavam  fuzilaria com lentido e moleza, avanavam, depois paravam, sem receberem em devido tempo ordens dos comandantes e dos ajudantes-de-campo, que erravam, no meio do nevoeiro, em terreno desconhecido,  procura das suas respectivas seces.
     Foi assim que se iniciou a luta na primeira, na segunda e na terceira colunas, as que haviam descido para o vale. A quarta, onde se encontrava Kutuzov, estava ainda no planalto de Pratzen.
     Nos pontos mais baixos, onde a aco tinha principiado, o nevoeiro continuava espesso; nas eminncias estava mais claro, mas continuava a no poder ver-se o que se passava um pouco adiante. Estariam todas as foras inimigas, como se supunha, a dez verstas daquele ponto, ou encontrar-se-iam naquela linha de bruma? Eis o que ningum soube antes das nove horas.
     A essa hora o nevoeiro alongava-se, como um compacto oceano, pelos vales, mas para os lados de Schlapanitz, na eminncia onde estava Napoleo, rodeado dos seus marechais, tudo era claro. O cu ali era azul e sereno e o disco imenso do Sol, como uma formidvel bia flutuante, vermelho-viva, vogava  superfcie daquele mar leitoso.
     Todo o exrcito francs, e at o prprio Napoleo, com o seu estado-maior, no s no se encontravam na outra margem do rio e dos pntanos das aldeias de Sokolnitz e Schlapanitz, para l dos quais os Russos se dirigiam e onde pensavam travar batalha, mas, pelo contrrio, achavam-se to perto que a olho nu o imperador francs podia distinguir tanto a cavalaria como a infantaria russas. Ele ali estava um pouco mais  frente dos seus marechais, montado num pequeno cavalo rabe cinzento, com o seu capote azul, o mesmo com que fizera a campanha de Itlia. Contemplava, silencioso, as colinas que pareciam emergir do oceano de neblina e sobre as quais, ao longe, se viam as tropas russas em marcha, e escutava o tiroteio na ravina. Naquele momento riem. Um s msculo da cara lhe estremecia: tinha os olhos brilhantes fixos, imveis, num nico ponto. O que previra resultava certo. Os Russos, por um lado, j desciam para as regies alagadias dos pntanos e dos lagos, pelo outro, evacuavam as cumeadas de Pratzen, que era sua inteno atacar, e que considerava a chave da posio. E eis que ele via, atravs da neblina, no pano de fundo formado pelas duas eminncias vizinhas da aldeia de Pratzen, as colunas russas em marcha, todas em direco aos pntanos, de baionetas caladas, desaparecendo, sucessivamente, no mar de brumas. Segundo as informaes recebidas ao fim da tarde, a avaliar pelo rudo dos passos e o fragor das viaturas que se ouviam nos postos avanados durante a noite, pela confuso dos movimentos das colunas russas, seguindo todas as previses, via claramente que os aliados estavam convencidos de que ele. Napoleo, se encontrava muito longe, na sua vanguarda, e que as colunas em marcha perto de Pratzen formavam naturalmente o centro do exrcito russo, e que esse centro era j fraco de mais para atacar com xito. Mas, apesar disso, no se decidia ainda pelo ataque. Aquele dia era para ele uma data solene, o do aniversrio da sua coroao. Pela manh dormira algumas horas, e bem disposto, alegre, repousado, naquela disposio de esprito em que tudo parece possvel e em que tudo resulta bem, montou a cavalo e dirigiu-se para o campo. E l estava, imvel, os olhos fixos nas cumeadas que se descortinavam atravs do nevoeiro e no seu rosto frio reflectia-se essa felicidade cheia de confiana e bem ganhada to prpria dos que so novos e felizes ao amor. Os marechais conservavam-se na sua, retaguarda, sem ousarem distrair-lhe a ateno. Napoleo ora olhava para o planalto de Pratzen ora para o Sol, que emergia da bruma.
     Quando o Sol surgiu inteiro das nuvens e inundou a campina com a sua estonteante claridade, como se fosse aquele o momento que Napoleo aguardava para dar ordens de ataque, descalou a luva da sua bela mo branca, fez um aceno aos marechais e deu ordem de principiar. Os marechais, acompanhados pelos seus ajudantes-de-campo, largaram a galope em direces diferentes e dentro de breves minutos as foras principais do exrcito francs estavam a avanar rapidamente em direco s eminncias de Pratzen, as quais as tropas russas, que  esquerda desciam para os vales, iam deixando completamente abandonadas.
     

     
     
     
     Captulo XV
     
     As oito horas. Kutuzov chegou a cavalo a Pratzen,  frente da quarta coluna de Miloravitch, que devia tomar o lugar das colunas de Przebiszewski e de Langeron, que j tinham descido. Depois da continncia aos soldados d regimento da vanguarda, deu ordem de marcha, querendo significar com isso ser sua inteno comandar essas tropas. Assim que chegou  aldeia de Pratzen, fez alto. O prncipe Andr, na companhia de grande nmero de personalidades da comitiva do general-chefe, conservava-se na retaguarda. Sentia-se emocionado, irritado, e ao mesmo tempo cheio de serenidade, como um homem que v chegar o momento h muito esperado. Estava firmemente convencido de que chegara o seu Toulon ou a sua Ponte dArcole. Como se iam passar as coisas no sabia, mas com firmeza acreditava que assim tinha de ser. O terreno e a situao das tropas russas conhecia-os ele to bem ou melhor que qualquer outro oficial. O seu plano estratgico particular, que evidentemente no seria de aplicar naquele momento, fora posto de lado, e actualmente, adoptando o plano de Weirother, considerava os imprevistos que porventura poderiam surgir e formava novas combinaes que punham  prova a rapidez do seu golpe de vista e da sua deciso.
     A esquerda, l em baixo, no meio do nevoeiro, ouvia-se tiroteio entre tropas invisveis. Ali, afigurava-se ao prncipe Andr, est a concentrar-se a batalha, h ali um obstculo, e se me mandassem l, dizia para si mesmo, com uma brigada ou uma diviso, eu avanaria  frente, de bandeira em punho, e tudo derrubaria  minha passagem.
     A vista dos estandartes dos batalhes que desfilavam no lhe podia ser indiferente. Dizia de si para consigo a todo o momento: Sim, talvez seja com aquela mesma bandeira que me h-de vir a ser dado marchar diante das tropas.
     O nevoeiro nocturno nas cumeadas deixara apenas pela manh uma camada de geada, que se ia transformando em orvalho, mas nos vales continuava a alongar-se como um mar de leite. Nada se via na planura  esquerda onde as tropas russas se batiam e donde vinha o eco da fuzilaria. Nas alturas o cu estava claro, mas de um azul carregado, e  direita l estava n enorme disco do Sol. Em frente, na distncia, na margem oposta do mar de brumas, colinas cobertas de matas limitavam o horizonte: ali estavam, sem dvida, os exrcitos inimigos, pois alguma coisa l se distinguia. A direita, a Guarda penetrava na zona de nevoeiro com um fragor de rodas, um tropear de cavalos, e as baionetas a cintilar furtivamente. A esquerda, por detrs da aldeia, massas de cavalaria aproximavam-se, fundindo-se no nevoeiro. A cabea e no coice marchava a infantaria, o general-chefe, postado  sada da povoao, via as tropas desfilar diante dele. Naquela manh Kutuzov parecia irritado e exausto. A infantaria, que desfilava, fez alto sem que ningum o ordenasse, evidentemente porque na sua dianteira surgira qualquer obstculo.
     - Diga aos homens, enfim, que formem em colunas de batalho e que contornem a aldeia - gritou Kutuzov, colrico, a um general que apareceu. - Como  que, meu caro senhor, no compreende que no convm formar em fileiras nas ruas de uma aldeia em marcha contra o inimigo?
     - Pensava formar atravs da povoao. Alta Excelncia - respondeu o general.
     Kutuzov ps-se a rir com azedume.
     - Devia ser bonito o senhor a estender a sua frente  vista do inimigo, sim, devia ser bonito!
     - O inimigo ainda est longe. Alta Excelncia. Segundo o dispositivo...
     - O dispositivo! - gritou Kutuzov de m catadura. - E quem  que lhe disse?... Trate de fazer o que lhe mandam.
     - As suas ordens.
     - Meu caro - disse, em voz baixa. Nesvitski ao prncipe Andr -, o velho est insuportvel.
     Um oficial austraco, de uniforme branco, com uma pluma verde na barretina, avanou para Kutuzov e perguntou-lhe, da parte do imperador, se a quarta coluna entrara em aco.
     Kutuzov, sem responder, voltou a cabea e por acaso fixou o seu olhar no prncipe Andr, que estava a seu lado. Ao ver Bolkonski, moderou-se e no seu rosto amenizou-se-lhe a expresso, deixando perceber com isso que o seu ajudante-de-campo no era culpado do que estava a acontecer. Sem se dirigir ao oficial austraco, disse a Bolkonski:
     - V ver, meu caro, se a terceira diviso j ultrapassou a aldeia. Diga-lhe que pare e que aguarde as minhas ordens.
     Ia partir o prncipe Andr, quando ele o deteve.
     - E pergunte-lhe se os atiradores esto a postos - acrescentou. - O que eles fazem! O que eles fazem! - exclamou em aparte, continuando a no responder ao austraco.
     O prncipe Andr despediu a cumprir a misso de que fora incumbido. Depois de ter ultrapassado os batalhes que prosseguiam na sua marcha, fez estacar a terceira diviso e verificou que, com efeito, na vanguarda das colunas russas no havia linha de atiradores. O comandante do regimento da vanguarda mostrou-se surpreso com a ordem do general-chefe que o mandava dispor em linha os atiradores. Continuava absolutamente convencido de que havia outras tropas diante dele e de que o inimigo no devia estar a menos de dez verstas. Efectivamente, diante dele havia apenas um terreno deserto que ia descendo, pouco a pouco, e mergulhava no nevoeiro espesso. Depois de lhe ter comunicado, da parte do general-chefe, que era preciso reparar a negligncia cometida, o prncipe Andr fez meia volta. Kutuzov continuava no mesmo stio e no fazia outra coisa seno bocejar, fechando o nico olho, deixando pender o pesado corpo sobre a sela. As tropas tinham suspendido a marcha e mantinham-se de arma, em descanso.
     - Bom, bom! - exclamou para o prncipe Andr, e voltou-se para o lado do general, que, de relgio em punho, dizia ser tempo de avanar, pois todas as colunas do flanco esquerdo j tinham operado a mesma manobra.
     - Temos tempo. Excelncia - observou Kutuzov, entre dois bocejos.- Temo tempo!
     Neste momento, por detrs de Kutuzov, estrondearam, ao longe, aclamaes das tropas e as vozes aproximaram-se, rpidas, ao longo das colunas russas, em marcha. Era evidente que a personagem a quem os soldados aclamavam ia passando clere. Quando os soldados do regimento  frente do qual estava Kutuzov principiaram a gritar, este afastou-se um pouco de lado e voltou-se olhando. Pela estrada de Pratzen galopava uma espcie de esquadro de cavalaria variegadamente condecorado. Dois dos cavaleiros avanavam, a todo o galope,  frente. Um deles, de uniforme preto, com um alto penacho branco, cavalgava um alazo ingls, o outro, de branco, montava um cavalo murzelo. Eram os dois imperadores e as respectivas comitivas. Kutuzov, afectando ser bom subordinado, comandou: Sentido! s tropas em descanso, e fazendo a continncia aproximou-se do imperador. A sua atitude e as suas maneiras tinham mudado por completo. Dir-se-ia um inferior que obedece sem raciocinar. Foi numa afectao de respeito, que, evidentemente, no agradou ao imperador, que se aproximou fazendo a continncia.
     Aquela impresso desagradvel, fiapos de bruma num cu sereno, perpassou pelo rosto do jovem e feliz imperador, para logo desaparecer. Nesse dia, depois da indisposio que tivera, parecia um pouco mais magro que ria parada de Olmtz, em que Bolkonski o vira pela primeira vez depois do seu regresso do estrangeiro: mas nos seus olhos cinzentos havia o mesmo misto arrebatador de majestade e de doura e nos seus lbios finos a mesma mobilidade de expresso, dominada, no entanto, por um sentimento de mocidade e de inocncia.
     Na parada de Olmtz parecia mais majestoso, agora mais alegre e mais enrgico. Depois daquelas trs verstas de galope rasgado tinha cor na cara, e ao fazer estacar o cavalo respirou, num suspiro de alvio, olhando em tomo de si para as caras dos oficiais da comitiva, jovens e animadas como a sua. Czartoriski e Novosiltsov, o prncipe Bolkonski. Stroganov e outros ainda, todos esses moos ricamente fardados e joviais, montados em belos cavalos folgados, muito bem ajaezados, ligeiramente suados, conversando entre si e sorrindo, tinham-se apinhado atrs do imperador. O imperador Francisco, jovem, de pele rosada e alta figura, estava firme na sela de um belo garanho murzelo e lanava olhares ansiosos e taciturnos em tomo de si. Chamou um dos seus ajudantes-de-campo, de uniforme branco, e disse-lhe qualquer coisa. Naturalmente est a perguntar-lhe a que horas partiram, observou de si para consigo o prncipe Andr fitando o seu velho conhecido com um sorriso que mal pde esconder ao lembrar a audincia que o imperador lhe concedera. As comitivas eram formadas por oficiais de ordenana, cavaleiros de escol, russos e austracos, pertencentes aos regimentos da Guarda e do exrcito. Escudeiros conduziam pela arreata magnficos cavalos de reserva provenientes das cavalarias imperiais, cobertos com gualdrapas bordadas. Assim como atravs de uma janela aberta subitamente entra num quarto onde se sufoca um sopro de campesino ar fresco, tambm uma rajada de mocidade, de energia, de confiana no exrcito, emanando daquela brilhante cavalgada, perpassou pelo bem pouco alegre estado-maior de Kutuzov.
     - Ento? Quando  que principia. Mikail Larionovitch? - apressou-se a dizer o imperador Alexandre a Kutuzov, ao mesmo tempo que lanava um olhar de deferncia ao imperador Francisco.
     - Estava  sua espera. Majestade - replicou Kutuzov, numa reverncia respeitosa.
     O imperador apurou o ouvido, franzindo ligeiramente as sobrancelhas e fazendo meno de no ter ouvido bem.
     - Estava  sua espera. Majestade - repetiu o general-chefe.
     O prncipe Andr notou em Kutuzov um estremecimento anormal do lbio inferior enquanto pronunciava estas palavras. - Ainda no esto reunidas todas as colunas, saiba Vossa Majestade.
     O imperador compreendeu, mas era evidente no ser a resposta, muito do seu agrado; encolheu os ombros quadrados e lanou um olhar a Novosiltsov, que estava a seu lado, como a queixar-se de Kutuzov.
     - Mas ns no estamos em Czaritsin. Mikail Larionovitch, onde as paradas s principiam depois de formados todos os regimentos... - E o czar trocou de novo um olhar com o imperador Francisco, se no a convid-lo a tomar parte na discusso, pelo menos a escut-la. Mas Francisco continuava de olhar errante, sem ouvir coisa alguma.
     -  precisamente por isso. Sire - disse Kutuzov, numa voz forte, para bem se fazer ouvir, enquanto de novo lhe perpassava pelo rosto um movimento nervoso. -  por isso que eu no comeo. Sire, precisamente por no estarmos na parada e na de Czaritsin... - Falava de maneira clara e desenvolta.
     Os oficiais da comitiva entreolhavam-se, exprimindo no seu olhar censura e descontentamento. L por ser velho no tinha o direito, no, no tinha o direito de falar assim, lia-se-lhes na expresso.
     O imperador olhou, fixa e atentamente. Kutuzov, esperando que ele acrescentasse mais alguma coisa. Mas dir-se-ia que este esperava tambm fosse o que fosse respeitosamente flectido. O silncio prolongou-se por cerca de um minuto.
     - Alis, se Vossa Majestade o ordena... - acrescentou Kutuzov, reerguendo a cabea e retomando o tom de um general de esprito tacanho, que no discute, mas obedece.
     Deu de esporas ao cavalo, e chamando o comandante de coluna. Miloradovitch, transmitiu-lhe as ordens de ataque.
     As tropas comearam de novo a desfilar, e dois batalhes do regimento de Novgorod, seguidos do batalho de Apcheron, marcharam passando diante do imperador.
     Quando chegou a vez do batalho de Apcheron. Miloradovitch, o rosto rosado, sem capote, de grande uniforme, condecoraes e barrete empenachado caldo para a orelha, desfilou a todo o galope, e, saudando arrogantemente, fez estacar o cavalo diante do imperador.
     - Deus seja convosco, general! - exclamou este.
     - Palavra, faremos o que pudermos. Sire - replicou, com galhardia, sem que tivesse deixado de despertar um sorriso de mofa entre as personagens da comitiva, graas ao seu mau francs.
     Miloradovitch, fazendo meia volta, bruscamente veio postar-se um pouco na retaguarda do imperador. Os soldados de Apcheron, arrebatados pela presena do imperador, desfilaram perante este em marcha marcial e arrogante, num ritmo cadenciado.
     - Rapazes! - gritou Miloradovitch, numa voz forte, confiante e alegre, visivelmente excitado pelo fragor da fuzilaria, pela proximidade da batalha e pela vista dos bravos de Apcheron, seus antigos camaradas do tempo de Suvorov, que desfilavam com a maior galhardia, a tal ponto que esqueceu a presena do imperador - Rapazes! No  a primeira povoao que vocs vo tomar!
     - Faremos o melhor que pudermos! - respondiam os soldados.
     Ao ouvir aquele vozear inesperado, a montada do imperador empinou-se. Este cavalo, que o imperador j montava nas suas revistas, na. Rssia, ali, no campo de batalha de Austerlitz, continuava a servir o dono e a sentir os golpes discretos da sua espora esquerda, mas eriava as orelhas ao rudo da fuzilaria, exactamente como costumava fazer na parada de Czaritsin, sem dar conta dos tiros que ouvia, do que significava a vizinhana do garanho murzelo do imperador Francisco e sempre sem suspeitar o que dizia, pensava e sentia nessa hora o cavaleiro que o montava.
     O imperador, sorridente, voltou-se para um dos seus ntimos apontando os bravos de Apcheron e disse-lhe qualquer coisa.
     

     
     
     
     Captulo XVI
     
     Kutuzov, acompanhado pelos seus ajudantes-de-campo, seguia a passo os carabineiros.
     Depois de ter andado cerca de meia versta no coice da coluna, fez alto ao p de uma casa solitria e abandonada, um albergue, com certeza, na encruzilhada de dois caminhos. Os dois caminhos desciam a encosta e as tropas seguiam por ambos ao mesmo tempo.
     O nevoeiro principiava a dissipar-se e a umas duas verstas de distncia, vagamente, viam-se j as tropas inimigas nos cabeos fronteiros. A esquerda, no vale, a fuzilaria tornava-se mais distinta. Kutuzov parou, trocando algumas palavras com um general austraco. O prncipe Andr, um pouco  retaguarda, observava-os, e, dirigindo-se a um ajudante-de-campo, pediu-lhe o culo
     - Olhe, olhe - disse-lhe este, indicando-lhe, no um ponto afastado, mas o sop da colina em frente. - So os Franceses!
     Os dois generais e os ajudantes-de-campo pegaram no culo, passando-o de mo em mo. Subitamente todos mudaram de expresso e o terror veio estampar-se-lhes na cara. Julgavam os Franceses ainda a umas duas verstas, e inopinadamente ali estavam diante deles.
     -  o inimigo?... No pode ser!... Mas, olhe, olhe... , com certeza - Que quer isto dizer? - diziam algumas vozes.
     O prncipe Andr, a olho nu, distinguia, em baixo,  direita, uma poderosa coluna francesa que avanava ao encontro dos soldados de Apcheron, a menos de quinhentos passos do local onde estava Kutuzov.
     Eis finalmente o minuto decisivo! Eis o combate que vem ao meu encontro!, murmurou o prncipe Andr, e, esporeando o cavalo, aproximou-se de Kutuzov.
     -  preciso mandar parar os regimentos de Apcheron - gritou. - Excelncia.
     Mas nesse mesmo instante tudo se cobriu de fumo; muito prximo rebentou uma salva e uma voz, uma voz de ingnuo terror, a dois passos dali, gritou: Rapazes, estamos perdidos! Esta voz teve o efeito de uma ordem. Ao ouvi-la, deram todos s de vila-diogo.
     Uma multido catica, que crescia de momento a momento, reflua, correndo, para o local onde cinco minutos antes os soldados haviam desfilado perante os imperadores. Era no s muito difcil deter aquela multido, mas impossvel mesmo no ser arrastado no seu movimento de debandada. Bolkonski fazia por no ceder  torrente e parecia estupefacto, sem poder compreender o que se passava. Nesvitski, com ar furioso, muito vermelho, e j sem figura humana, gritava a Kutuzov que se se no afastasse rapidamente acabaria certamente prisioneiro. Kutuzov, sempre no mesmo stio, sem responder, sacou de um leno. Corria-lhe sangue pela cara abaixo. O prncipe Andr conseguiu abrir caminho at junto dele.
     - Est ferido? - Perguntou, com um estremecimento nervoso no maxilar.
     - A ferida no est aqui, mas ali! - replicou Kutuzov, enxugando a cara, ao mesmo tempo que apontava para os fugitivos. - Faam-nos parar? - gritou ele, e, no mesmo instante, sem dvida persuadido da impossibilidade de uma tal tentativa, esporeou o cavalo e partiu pela direita.
     A turba dos fugitivos, como uma vaga, envolveu-o e atirou com ele para trs.
     To compacta era a massa dos que fugiam que quem fosse apanhado por ela muito dificilmente conseguiria libertar-se. Uns gritavam: Toca a andar! Parastes porqu?; outros, voltando-se, disparavam para o ar; um deles fustigou o cavalo de Kutuzov. Depois de se ter arrancado penosamente pela esquerda a esta torrente desencadeada. Kutuzov e a sua comitiva, ento j reduzida a menos de metade, seguiram na direco dos tiros de pea ali prximos. Andr, que escapara da vaga dos fugitivos, procurando no se distanciar de Kutuzov, viu, ao longo da encosta, no meio da fumarada, uma bataria russa que disparava ainda e os Franceses que corriam sobre ela. Mais acima a infantaria russa no arredava p, sem avanar em socorro da bataria e sem recuar com os fugitivos. Um general montado destacou-se do regimento e aproximou-se de Kutuzov. A comitiva deste j estava reduzida apenas a quatro pessoas. Todos haviam empalidecido e entreolhavam-se, calados.
     - Faa parar esses miserveis! - gritou Kutuzov, sufocado pela clera, ao comandante do regimento, apontando para os fugitivos. Mas nesse momento, dir-se-ia que em resposta a esta ordem, um enxame, de balas veio cair, assobiando, sobre o regimento e a comitiva, de Kutuzov.
     Os Franceses atacavam a bataria, e, ao verem Kutuzov, disparavam sobre ele. Ao ouvir a descarga, o comandante do regimento levou a mo a perna. Alguns soldados caram e o porta-bandeira que empunhava o estandarte largou-o das mos; a bandeira vacilou um momento e veio cair sobre as espingardas dos soldados vizinhos. A infantaria, sem comando, disparou uma salva.
     - Oh! - gemeu Kutuzov, em voz desesperada, e olhou em tomo de, si. - Bolkonski - murmurou numa voz trmula, consciente da sua impotncia senil - Bolkonski, que vem a ser isto? - disse, mostrando o batalho disperso e o inimigo.
     Antes de ter tempo de acabar, o prncipe Andr, sentindo l- ,rimas de vergonha e de clera, saltava do cavalo e corria para a bandeira.
     - Rapazes! Para a frente! - gritou com a sua voz penetrante, onde havia alguma coisa de infantil.
     Chegou o momento!, pensou, lanando mo da haste da bandeira e ouvindo, numa espcie de alegria, soprar as balas evidentemente dirigidas contra si. Alguns soldados caram ainda.
     - Hurra! - gritou, e, segurando com dificuldade o pesado estandarte, lanou-se para a, frente, firmemente convencido de que todo o batalho o seguiria.
     E, efectivamente, s deu alguns passos sozinho. Primeiro seguiu-o um soldado, depois outro, e logo todo o batalho, gritando: Hurra!, se precipitou, ultrapassando-o da a pouco. Um sargento pegou na bandeira, pesadssima, que vacilava rias mos do prncipe, mas logo caiu varado. O prncipe Andr voltou a pegar no estandarte e, enrolando o pano em volta da haste, seguiu em frente com o batalho. Diante dele via os artilheiros, uns batendo-se ainda, outros abandonando as peas para se precipitarem para ele; via tambm soldados de infantaria francesa que se apoderavam dos cavalos da artilharia e voltavam as peas contra, os Russos. Juntamente com o batalho, j o no separavam da bataria mais que vinte passos. Em tomo dele ouvia o assobiar ininterrupto das balas e constantemente,  direita e  esquerda, gemidos, e via soldados que caam varados. Mas no prestava ateno a coisa alguma: s o preocupava o que se estava a, passar em frente, na bataria. Via j nitidamente- a silhueta de um artilheiro ruivo, a barretina  banda, que puxava para si o taco da pea enquanto um soldado francs lho disputava do outro lado. Andr distinguia com toda a nitidez o ar alucinado e furioso daqueles dois homens, que, evidentemente, no sabiam sequer o que estavam a fazer.
     Que esto eles a fazer?, pensava o prncipe Andr. Porque  que o artilheiro ruivo no foge, visto j no ter armas consigo? Porque  que o francs o no mata? Se este, se lembra da espingarda e o abate, j no ter tempo de fugir!
     De facto, viu outro francs, de arma aperrada, correr para, os dois adversrios, e o destino do artilheiro, que no dava pelo que o aguardava, e que brandia, triunfal, o taco da pea, ia decidir-se. Porm o prncipe - Andr no viu como o pleito acabou. Pareceu-lhe que recebia na cabea uma cacetada vibrada em toda a fora por um dos soldados que o cercavam. A pancada no lhe produziu dor muito violenta, mas f-lo desviar a ateno e impediu-o de ver o fim da cena que o interessava.
     Que  isto? Vou cair? As pernas tremem-me?, disse de si para consigo, e caiu de costas. Reabriu os olhos na esperana de ver o resultado da luta dos franceses com o artilheiro e de saber se sim ou no este fora morto e se as peas tinham sido tornadas ou salvas. Mas nada mais viu. Por cima da sua cabea nada mais havia alm do cu, um cu muito alto, no claro, mas imensamente alto, onde erravam tranquilamente pequeninas nu- vens cinzentas. Que calma, que paz, que majestade!, pensava. No era assim aquando da nossa louca corrida, no meio dos gritos e da batalha; no era assim quando, o furor e o medo pintados no rosto, o francs e o nosso artilheiro disputavam entre si o taco da pea: ento no havia, como agora, nuvens errantes neste cu profundo e infinito. Como  que eu nunca tinha visto isto, este cu sem limites? E que feliz me sinto de o ver finalmente. Sim, tudo  vaidade, tudo  mentira,  excepo deste cu sem fim. No h nada, absolutamente nada, alm dele. E at mesmo isto no existe, nada existe seno a calma e o repouso. E Deus louvado seja por isso mesmo!.. 
     

     
     
     
     Captulo XVII
     
     No flanco direito do exrcito de Bagration, s nove horas, ainda a batalha no tinha principiado. No querendo aceitar o parecer de Dolgorukov, de opinio de que se devia desencadear o ataque, e para se livrar de responsabilidades, o prncipe Bagration props-lhe consultarem o general-chefe. Sabia o prncipe que em virtude das dez verstas que separavam os dois flancos, e no caso de o emissrio no vir a ser morto, coisa mais do que verosmil, conseguindo chegar at junto do general-chefe, o que era muito difcil, nunca poderia estar de regresso antes da noite.
     Bagration, olhando um por um os oficiais da sua comitiva com os seus grandes olhos sem expresso e meio adormecidos, acabou por se fixar no rosto infantil de Rostov, quase desfalecido de emoo e de esperana. Foi ele o escolhido.
     - E se eu encontrar Sua Majestade antes do general-chefe. Excelncia? - interrogou Rostov com a mo em continncia. - Pode entregar a mensagem a Sua Majestade - apressou-se a intervir Dolgorukov.
     Tendo sido transferido do seu servio na frente. Rostov pudera dormir algumas horas pela manh e sentia-se jovial, decidido, resoluto, numa disposio de esprito em que tudo lhe parecia fcil e possvel.
     Todos os seus desejos se estavam a realizar naquela manh. Travava-se uma batalha geral, e ele tomava parte nessa batalha; mais ainda: era oficial de ordenana do mais bravo dos generais; e ainda mais: via-se encarregado de uma misso junto de Kutuzov, e talvez mesmo junto do prprio imperador. A manh estava serena. Rostov montava um bom cavalo. Na sua alma tudo era alegria e felicidade. Assim que recebeu ordens, esporeou o cavalo e lanou-se a galope ao longo da linha de batalha. Principiou por percorrer a frente do exrcito de Bagration, que permanecia imvel, depois penetrou no terreno ocupado pela cavalaria de Uvarov, e a pde notar um certo movimento e sinais de preparativos de combate. Tendo ultrapassado a cavalaria, ouviu distintamente o rudo das descargas de artilharia e de mosquetaria que continuamente aumentava de intensidade.
     O rudo no ar fresco da manh no era agora, como antes, formado por dois ou trs tiros de espingarda ou uma ou duas detonaes de artilharia. L para o fundo das encostas, antes de se chegar a Pratzen, pde ouvir o fragor da fuzilaria interceptado por tiros de pea to frequentes que por vezes um estampido no se podia distinguir do outro, fundindo-se numa espcie de contnuo trovejar.
     Rostov pde ver, pelas vertentes, os rolos de fumo dos mosquetes que pareciam correr uns atrs dos outros, enquanto a fumarada das peas flutuava e acabava por misturar-se no ar em grandes nuvens. Viu, pelo cintilar das baionetas, no meio da fumarada, as massas da infantaria em movimento e estreitas filas de artilharia com as suas carretas verdes.
     Rostov deteve por momentos o seu cavalo no alto de um montculo, para observar o que se passava; mas por mais que observasse, nada podia compreender do que via. Havia gente que se deslocava no meio da fumarada, linhas de tropas moviam-se para trs e para diante. Mas para qu? Aonde iam aqueles soldados? Era impossvel compreender. Este espectculo, porm, em lugar de o desanimar ou deprimir, redobrava-lhe a energia e a deciso.
     Pois, fogo, fogo sobre eles!, dizia para consigo, e de novo se ps a galopar ao longo das linhas, penetrando cada vez mais na zona das tropas que entravam em combate. O que se passa l adiante no sei, mas tudo deve estar certo!, pensava.
     Depois de ter ultrapassado algumas tropas austracas. Rostov pde ver que as tropas restantes - a Guarda - j haviam entrado em aco.
     Tanto melhor! Mais de perto verei a batalha!
     Quase que seguia ao longo da primeira linha. Um corpo de cavaleiros cavalgava na sua direco. Eram soldados ulanos da Guarda, que regressavam, em desordem, do combate. Ao passar junto deles no pode deixar de ver que um dos homens estava coberto de sangue, mas continuou a galopar.
     Isto nada tem a ver comigo!
     Ainda no dera cem passos quando,  esquerda, cortando-lhe o caminho, surgiu, em toda a extenso do campo livre, uma imensa mole de cavaleiros, de brilhantes uniformes brancos, montando cavalos murzelos que avanava a trote para ele. Rostov esporeou o seu cavalo, que largou num galope doido, para lhes dar passagem, e t-lo-ia conseguido se os cavaleiros viessem no mesmo andamento, mas eles apressaram a marcha, e alguns at se puseram a galope. Rostov cada vez distinguia melhor o tropear dos animais e o tinir das armas e notava com nitidez crescente os cavalos, a cara dos cavaleiros e at os seus traos fisionmicos. Eram os cavaleiros da Guarda russa que corriam a atacar a cavalaria francesa marchando ao seu encontro.
     Todos galopavam mantendo ainda as suas montadas em boa forma. Rostov via-lhes agora as caras e ouvia a voz de comando  carga! de um oficial que esporeava o seu cavalo num galope desenfreado. Rostov, temendo ser esmagado ou arrastado, ps-se a galopar ao longo da sua frente a todo o flego do seu cavalo, mas, no entanto, sem poder evitar uma coliso.
     O cavaleiro da extremidade, um soldado bexigoso, de grande estatura, franziu as sobrancelhas, colrico, ao ver que era inevitvel o choque com Rostov. E t-lo-ia naturalmente deitado por terra, tanto a ele como ao seu Beduno (Rostov sentiu-se minsculo ao p daqueles dois gigantes: soldado e cavalo), se Rostov no tivesse tido a presena de esprito de fustigar a cabea da montada do cavaleiro da Guarda com o seu chicote. Este cavalo, um pesado murzelo de cinco verchoks de altura, empinou-se, as orelhas eriadas, mas o cavaleiro, com um golpe das grandes esporas, lanou-o numa carreira doida, cauda ao vento e pescoo estendido. Mal os cavaleiros ultrapassaram Rostov, logo este ouviu gritos de Hurra! e, voltando-se, viu que as fileiras da vanguarda eram invadidas por cavaleiros estrangeiros, franceses, sem dvida, de charlateiras vermelhas. E mais no pde ver, pois logo em seguida uma pea fez fogo e tudo ficou submerso em fumo.
     Naquele momento em que os guardas montados desapareciam no meio da fumarada. Rostov teve uma hesitao: no sabia se devia galopar atrs deles ou prosseguir no seu caminho, dirigindo-se onde era mister. Foi esta brilhante carga de cavalaria que provocou a admirao dos prprios franceses. Mais tarde Rostov sentiu-se aterrado quando soube que de toda aquela massa de rapazes soberbos, de mancebos ricos e brilhantes, montados em cavalos de milhares de rublos, que de todos aqueles oficiais e de todos aqueles junkers que haviam passado a galope diante dele, aps o ataque no restavam mais de dezoito homens.
     Para que invej-los? A minha vez h-de chegar, e talvez de um momento para o outro eu venha a ter a felicidade de ver o imperador, disse Rostov de si para consigo, retomando o caminho.
     Ao chegar por alturas da infantaria da Guarda, verificou que estava a ser o ponto de mira das balas inimigas, no s por ouvi-las assobiar aos ouvidos, mas tambm ao ver o rosto inquieto dos soldados e a expresso entre grave e marcial dos oficiais.
     Quando passou junto de uma coluna ouviu uma voz pronunciar-lhe o nome:
     - Rostov!
     - Que ? - respondeu, sem reconhecer Bris.
     - Hem? Estivemos na primeira linha. O nosso regimento aguentou a p firme um duro ataque! - disse Bris com um desses sorrisos de felicidade to prprio dos jovens no seu baptismo de fogo.
     Rostov deteve-se.
     - Estiveram?! - exclamou. - E ento?
     - Foram repelidos! - replicou Bris, com animao, e mostrando-se palrador.- Imagina tu...
     Ps-se a contar como a Guarda, ao chegar  linha de fogo, ao ver tropas na sua frente, julgou tratar-se dos austracos, e de repente percebeu, graas s balas disparadas contra ela, que se encontrava na primeira linha e que entrava na luta de improviso. Rostov nada mais quis ouvir e de novo deu de esporas ao cavalo.
     - Aonde vais? - perguntou Bris.
     - Vou numa misso junto de Sua Majestade.
     - Olha, ali o tens - disse Bris, que julgara que o amigo ia em misso junto de Sua Alteza o Gro- Duque, e no de Sua Majestade o Czar. E apontou-lhe o primeiro, que, a uns cem passos, com o capacete e a farda de cavaleiro da Guarda, os ombros quadrados e as sobrancelhas franzidas, gritava uma ordem a um oficial austraco, muito plido na sua farda branca.
     - Qu? Aquele  o gro-duque. Quem eu procuro  o general-chefe ou o imperador - replicou Rostov, sem se deter. - Conde, conde - gritou Berg, surgindo de outro lado, e to excitado como Bris. - Conde, fui ferido na mo direita. - E mostrava o antebrao ensanguentado, envolto no leno de assoar.- E apesar disso c estou no meu posto. Conde, agarrei na espada com a mo esquerda. Na nossa famlia os Von Berg so todos heris!
     Berg disse o que quer que fosse, mas Rostov nada mais ouviu e continuou.
     Depois de ultrapassar a Guarda e de atravessar um espao vazio, para no vir a encontrar-se na primeira linha, como lhe acontecera aquando da carga dos guardas montados, seguiu ao longo da vanguarda das reservas, afastando-se do local em que a fuzilaria e o canhoneio eram mais intensos. De sbito, na sua frente e na retaguarda das tropas russas, num ponto onde lhe era impossvel supor que o inimigo se encontrasse, ouviu fuzilaria muito prxima.
     Que ser isto?, pensou com os seus botes. Estar o inimigo na retaguarda das nossas tropas? No pode ser. E um terror louco se apoderou dele, ao mesmo tempo por si e ao lembrar-se do que poderia ser o resultado da batalha. Acontea o que acontecer, o certo  que no h agora maneira de escapar.  preciso que eu descubra o general-chefe, e, se tudo estiver perdido, o meu dever  morrer como todos os outros.
     Os negros pressentimentos que assaltavam Rostov iam-se confirmando  medida que penetrava na zona ocupada pela massa de tropas de toda a procedncia que se estendia por detrs de Pratzen.
     - Que se passa? Que se passa? Contra quem  que se faz fogo? Quem faz fogo? - perguntava ele, sempre em marcha, aos soldados russos e austracos, que, em grande confuso, lhe vedavam o caminho.
     - S o Demo  que sabe! Estamos fritos! Est tudo perdido! - responderam-lhe em russo, em alemo, em checo, todos aqueles fugitivos, que, tal como ele, tambm no compreendiam o que estava a passar-se.
     - Morram os Alemes! - gritou um deles.
     - Raios os partam, traidores!
     - Que os leve o Diabo a esses russos! (Em alemo no texto original. (N, dos T.) - rouquejou um alemo.
     Feridos arrastavam-se- ao longo do caminho. As injrias, os gritos, os gemidos, fundiam-se na vozearia geral. A fuzilaria havia serenado, e, assim Rostov depois o veio a saber, soldados russos e austracos faziam fogo uns contra os outros.
     Meu Deus! Que  isto?, dizia Rostov consigo mesmo. E aqui, onde o imperador os pode ver de um momento para o outro... Mas no... So por certo apenas alguns poltres.  coisa passageira. No pode ser. No pode ser. Ah!, deix-los para a, depressa!
     A ideia de um desastre ou de uma derrota no podia entrar-lhe na cabea. Embora estivesse a ver as batarias e as tropas francesas instaladas no planalto de Pratzen, onde devia procurar o general-chefe, no podia e no queria render-se  evidncia.
     

     
     
     
     Captulo XVIII
     
     Rostov tinha recebido ordem para descobrir Kutuzov ou o imperador nos arredores de Pratzen. Mas a no estavam; a nem sequer havia qualquer comandante, s se via uma turba-multa de tropas desorganizadas. Esporeou o cavalo, j estafado, na inteno de ultrapassar o mais depressa possvel aqueles bandos, mas quanto mais avanava mais a debandada se acentuava. Na estrada real, onde chegou por fim, amontoavam-se caleches, equipagens de toda a espcie, soldados russos e austracos de todas as armas, feridos e no feridos. Toda esta multido confundida estrondeava e formigava, ao mesmo tempo que o troar sinistro das balas das batarias francesas instaladas nas alturas de Pratzen,
     - Onde est o imperador? Onde est Kutuzov? - perguntava a todos quantos lograva deter, e ningum lhe respondia.
     Por fim agarrou um soldado pela gola e obrigou-o a falar.
     - Ai, irmo! H muito tempo que l esto para diante. Deram s de vila-diogo! - replicou o soldado, rindo, enquanto tentava esgueirar-se.
     Rostov largou o soldado, bbado evidentemente, depois obrigou a parar o cavalo de um impedido ou de um estribeiro de qualquer grada personagem e interrogou-o. O impedido explicou-lhe que cerca de uma hora antes tinham levado o imperador de carruagem, a todo o galope, por aquela mesma estrada, e que Sua Majestade ia gravemente ferido.
     - Isso no pode ser - disse Rostov. - Foi certamente outra pessoa,
     - Vi-o eu com estes que a terra h-de comer - garantiu-lhe o homem, com um sorriso afoito. - Como se eu no conhecesse o imperador! Estou farto de o ver em Petersburgo! L ia, plido, muito plido, puxado pelos seus quatro cavalos pretos. Que de vezes. Pai do Cu, eu os tenho visto passar! No conheo eu agora os cavalos do czar e o Ilia Ivanitch. Parece-me que nunca ningum se lembrou de dizer que o cocheiro do czar no  o Ilia Ivanitch!
     Rostov soltou o brido do cavalo e quis prosseguir o seu caminho. Um oficial ferido que passava dirigiu-se-lhe.
     - Quem procura? O general-chefe? Foi morto por uma bala de artilharia em pleno peito, em frente do nosso regimento. - No foi morto, foi ferido - rectificou outro oficial. 
     - Mas quem? Kutuzov? - perguntou Rostov.
     - Kutuzov no! Como o diabo  que ele se chama? E, depois, tanto faz. No h para a muitos com vida. V l diante, quele povoado, l esto reunidos todos os comandantes - disse o oficial, apontando para a aldeia de Gostieradek, e afastou-se.
     Rostov continuou a passo, sem saber o que faria e a quem iria agora procurar. O imperador estava ferido, a batalha perdida. No era possvel acreditar em semelhante coisa. Dirigiu-se para o local que lhe indicavam, onde, na distncia, avultava o campanrio de uma igreja... Para que ter pressa agora? Que tinha ele agora a dizer ao imperador ou a Kutuzov, no caso de eles realmente estarem sos e salvos e no feridos?
     -  por aqui, meu fidalgo; se vai por a, l adiante matam-no - gritou-lhe um soldado- Matam-no.
     - Que ests tu a dizer? - disse outro soldado. - Que caminho lhe ests tu a apontar? Por ali  mais perto.
     Rostov reflectiu e meteu precisamente pelo caminho onde lhe diziam que seria morto.
     Agora tanto me faz. Se o imperador est ferido, para que hei-de eu poupar-me?, disse de si para consigo. Penetrou na zona onde houvera uma grande chacina de fugitivos de Pratzen. Os Franceses ainda no ocupavam esta povoao, e os Russos, pelo menos os sos e salvos ou feridos, de h muito a tinham evacuado. No solo, como feixes num campo frtil, por cada desiatine, entre mortos ou feridos, jaziam dez a quinze homens. Os feridos arrastavam-se, em grupos de dois ou trs, e ouviam-se os seus gritos e os seus gemidos, dolorosos e por vezes fingidos, assim, pelo menos, se afigurava a Rostov. Para no ver todos esses sofrimentos, deu de esporas ao cavalo e trotou. O horror apossava-se dele. No receava pela vida, mas temia perder a coragem, a coragem de que tanto precisava, e que, sabia-o, acabaria por amolecer diante de tantas desgraas.
     Os Franceses, que haviam deixado de varrer com os seus projcteis o campo semeado de mortos e feridos desde que l no viam ningum de p, ao descobrirem o ajudante-de-campo abrindo caminho pelo meio dele, apontaram-lhe uma das peas e dispararam algumas balas. Esses silvos espantosos e a vista dos cadveres que o cercavam encheram-no de horror e de piedade por si prprio. Lembrou-se da ltima carta da me: Que diria a me, pensou Rostov, se me visse agora no meio deste campo de batalha, ponto de mira destes canhes?
     Na povoao de Gostieradek havia tropas russas fugitivas do campo de batalha em melhor ordem que as demais, ainda que em grande confuso. As balas francesas no chegavam at ali, e o rudo da fuzilaria ouvia-se ao longe. A j toda a gente tinha uma viso ntida dos acontecimentos e todos eram de opinio de que a batalha estava perdida.
     A Rostov, por mais que interrogasse, ningum sabia dizer onde o imperador se encontrava ou onde estava Kutuzov. Uns eram de parecer de ser verdico o ferimento do czar, outros desmentiam e explicavam o falso boato com o facto de ser verdade terem visto passar na grande carruagem do imperador, fugindo do campo de batalha, o marechal da corte conde de Tolstoi, que acompanhava o czar com outras personalidades da comitiva. Um oficial disse a Rostov que por detrs da aldeia,  esquerda, vira fosse quem fosse do alto comando: Rostov para a se encaminhou, ningum esperando encontrar j, mas apenas por descargo de conscincia. Depois de ter andado trs verstas e de ter ultrapassado os ltimos soldados russos, viu dois cavaleiros junto de uma horta ladeada por um fosso. Um deles tinha um penacho branco na barretina e no lhe era desconhecido; o outro, que ele nunca vira, montava um belo cavalo alazo, que Rostov se recordava de ter visto algures. Esse aproximou-se do fosso, esporeou o cavalo, e, soltando as rdeas, f-lo transpor a horta. As patas traseiras ergueram pedaos de terra. Numa brusca meia volta o cavaleiro de novo saltou o fosso e dirigiu-se respeitosamente ao seu camarada do panacho branco, convidando-o, evidentemente, a fazer o mesmo. O cavaleiro que Rostov parecia reconhecer e que principiava a absorver-lhe a ateno fez um aceno negativo. Esse gesto levou-o a reconhecer imediatamente o seu imperador adorado, cuja desdita tanto deplorava.
     Mas no pode ser ele, disse de si para consigo; sozinho neste campo deserto. Nesse momento. Alexandre voltou a cara e Rostov viu esses to queridos traos profundamente gravados na sua memria. O imperador estava plido, tinha as faces sulcadas, os olhos cavados, e assim ainda era maior o seu encanto e a sua doura. Rostov sentia-se feliz por lhe ser dado verificar serem inexactos os boatos postos a correr sobre o ferimento de) czar. Grande felicidade era o t-lo visto. Sabia que podia, e que devia at, dirigir-se-lhe directamente e transmitir-lhe a mensagem de Dolgorukov.
     Mas assim como um jovem enamorado, trmulo e comovido, no ousa exprimir os sentimentos que lhe povoaram as noites, e lana em volta de si olhares assustados como que  procura de auxlio ou da maneira de adiar ou de fugir quando chega o almejado instante em que finalmente se encontra a ss com ela, assim Rostov, agora, que era chegado o momento to ardentemente desejado, no sabia se devia abordar o imperador e passavam-lhe pela cabea mil ideias sobre a maior ou menor convenincia do seu acto.
     Qu?  como se eu aproveitasse a ocasio em que est s e triste. Talvez lhe seja penoso e desagradvel ter de enfrentar neste momento uma cara desconhecida. E depois, que lhe poderia eu dizer, quando um dos seus olhares  quanto basta para me fazer desmaiar e perder a voz? Nem uma s das numerosas frases que mentalmente havia preparado para lhe dirigir lhe vinha aos lbios. De resto, pela sua maior parte, tinha-as ele composto em vista de circunstncias muito diferentes, ou para a hiptese de uma vitria ou de um triunfo, ou ento para o caso em que ele prprio no seu leito de agonia, mortalmente ferido, lhe dissesse todo o seu amor, que a prpria morte confirmava, enquanto o soberano lhe agradeceria os seus feitos hericos.
     E, alm disso, que lhe vou eu perguntar a respeito do flanco direito, agora, que so quatro horas da tarde e a batalha est perdida? No, decididamente no devo falar-lhe. No devo perturb-lo nas suas meditaes. Antes mil vezes a morte que receber dele um mau olhar, que inspirar-lhe uma m opinio. Rostov tomara uma deciso, e com tristeza e desespero na alma afastou-se, voltando-se para trs a todo o momento, para o seu imperador, que l continuava imvel e irresoluto.
     No mesmo instante em que Rostov se dava a todas estas reflexes e tristemente prosseguia o seu caminho chegava o capito Von Toll, inopinadamente, e, ao ver o imperador, aproximou-se dele e ofereceu-se para o ajudar a transpor o fosso. O imperador, que muito precisava de descanso, sentindo-se indisposto, sentou-se debaixo de uma macieira; Von Toll ficou a seu lado. Rostov, de longe, num misto de inveja e tristeza, viu Von Toll falar longa e calorosamente e o imperador, com os olhos cheios de lgrimas, tapar a cara e apertar-lhe a mo.
     E lembrar-me que podia estar no lugar dele!, pensou, e quase sem poder reter as lgrimas condodas pelo destino do imperador prosseguiu o seu caminho em completo desespero, sem saber que fazer ou aonde se dirigir.
     E tanto maior era o desespero de Rostov quanto era certo dar-se conta de que a sua prpria fraqueza era causa da sua dor. Ele teria podido.., no s teria podido, mas deveria ter-se aproximado. Eis uma ocasio nica para lhe testemunhar a sua devoo. E no o tinha feito... Que fiz eu?, interrogou-se a si prprio. Apanhou o brido e voltou ao local onde vira o imperador; mas j no estava ningum junto do fosso. Ali j no havia seno carroas e equipagens. Por um soldado do trem soube que o estado-maior de Kutuzov se encontrava na vizinhana, na povoao para onde se dirigiam os comboios. Rostov seguiu-os.
     A frente marchava o picador de Kutuzov, que conduzia uns cavalos cobertos com mantas. Atrs dele vinha uma carroa e depois um velho servo, de barrete redondo, meia pelia e pernas tortas.
     - Tito!, eh. Tito! - gritou o picador.
     - Que ? - respondeu o velho sem pensar em coisa alguma.
     - Tito, vai malhar o teu trigo.
     - Eh, imbecil! Diabos te levem! - replicou o velho, escarrando, colrico.
     Durante algum tempo seguiram em silncio, depois de novo recomearam com a mesma brincadeira.
     s cinco horas da tarde a batalha estava perdida em toda a frente. Mais de cem peas de artilharia tinham j cado nas mos dos Franceses.
     Przebyszewky e o seu corpo de exrcito haviam deposto as armas. As outras colunas, depois de terem perdido quase metade dos seus efectivos, retiravam em bandos desordenados e confusos.
     Os destroos dos corpos de Langeron e de Dokturov, em massas caticas, comprimiam-se contra os diques e nas margens das albufeiras, nas cercanias da povoao de Augezd.
     As seis horas s no dique de Augezd prosseguia o canhoneio dos Franceses, que tinham instalado numerosas batarias nas vertentes do planalto de Pratzen e faziam fogo sobre as tropas russas em retirada.
      retaguarda. Dokturov e outros, depois de conseguirem reorganizar alguns batalhes, defendiam-se contra a cavalaria francesa, que perseguia os Russos. J era escuro. Neste estreito dique de Augezd, onde, durante tantos anos, o velho moleiro de barrete de algodo tranquilamente pescara  linha, enquanto o neto, de mangas arregaadas, remexia num regador buliosos peixes de prata; neste dique, onde, durante tantos anos, tinham rodado pacficas carroas carregadas de trigo, guiadas por bons morvios de barrete de pele e vestes azuis, para depois voltarem a passar, brancos de farinha, com os seus alvos carregamentos, neste mesmo dique homens comprimiam-se, no meio das carroas e dos canhes, por entre rodas e cavalos, e, de caras desfiguradas pelo terror, pisavam-se entre si, caminhavam por cima de cadveres e de moribundos, matavam e passavam, para acabarem, mortos tambm, alguns passos mais adiante.
     De dez em dez segundos, rasgando os ares, caa uma bala ou explodia um obus no meio daquela multido compacta, matando e salpicando de sangue toda a gente nas imediaes. Dolokov, ferido numa mo, a p, com uma dzia de soldados da sua companhia - j ganhara de novo os gales de oficial - e o coronel, a cavalo, eram os nicos sobreviventes do regimento. Arrastados pela multido, comprimiam-se  entrada do dique, e, cercados por todos os lados, tinham feito alto, porque diante deles um cavalo cara debaixo de um canho e tiravam-no de l. Uma bala matou um homem atrs deles, outra veio rebentar na sua frente, cobrindo de sangue Dolokov. A massa dos soldados precipitou-se desesperadamente, avanou alguns passos e de novo se deteve.
     Se ainda pudermos andar uns cem passos, estaremos salvos com certeza; se estacionamos aqui mais dois minutos, estamos perdidos pela certa, era o pensamento de todos.
     Dolokov, bloqueado, esgueirou-se pela extremidade do dique, derrubou dois soldados e fugiu por cima do gelo escorregadio que cobria a albufeira.
     - Vira a pea! - gritou, ao saltar para cima da neve, que estalava. - Volta-a.
     Era evidente que o gelo, que, ia abrir-se sob o seu peso, com muito mais razo se quebraria sob o peso da pea e da, multido. Os homens olhavam para ele e comprimiam-se contra a margem, sem ousarem saltar para o gelo. O coronel, a cavalo, ali ao p, ergueu a mo e abriu a boca para lhe dizer fosse o que fosse. Subitamente uma bala passou to rente que todos baixaram a cabea. Ouviu-se um estalido em cima de qualquer coisa mole e o coronel caiu juntamente com o cavalo no meio de um charco de sangue. Ningum olhou para ele e ningum se lembrou de o ajudar a levantar.
     - Salvemo-nos por cima do gelo! Salvemo-nos por cima do gelo! Vamos a isto! Volta! No ouves! Para a frente! - gritaram, milhares de vozes, assim que o coronel caiu varado, sem que ningum soubesse ao certo o que estava a, dizer.
     Uma das peas da retaguarda que avanara para o dique obliquou em direco ao gelo. Soldados em massa lanaram-se nesse momento sobre a laguna. O gelo estalou sob os ps de um dos fugitivos, e uma das suas pernas enterrou-se-lhe; quis levantar-se, mas no tardou a afundar-se at  cintura. Os soldados que estavam mais perto dele ficaram imveis, o condutor da pea refreou o cavalo, mas l para trs continuavam a ressoar os gritos: Salvemo-nos por cima do gelo! Porque  que aquele parou? Para a frente! Para a frente! Gritos de terror se ouviram. Os soldados vizinhos da pea chicoteavam os cavalos para os obrigar a voltar e avanar. Estes afastaram-se, da margem. O gelo que sustinha os pees quebrou-se num largo espao e os quarenta homens que sobre ele se encontravam viram-se precipitados para todos os lados, afogando-se, agarrados uns aos outros.
     As balas regularmente continuaram a assobiar e a cair sobre e gelo, na gua, e sobretudo no meio da massa humana que enchia o dique, a albufeira e as margens.
     

     
     
     
     Captulo XIX
     
     No planalto de Pratzen, exactamente no mesmo stio onde tinha cado com a bandeira na mo, estava estendido o prncipe Andr Bolkonski, perdendo sangue e soltando inconscientemente fracos e queixosos gemidos, como os de uma criana.
     Para o fim da tarde deixou de se queixar e calou-se por completo. No soube quanto tempo esteve sem sentidos. De sbito reanimou-se sentindo uma dor pungente e lancinante na cabea...
     Onde est aquele cu sem fundo que eu nunca tinha visto e que vi hoje pela primeira vez?, tal foi o seu primeiro pensamento. E estas dores, tambm as no conhecia. Sim, at hoje ignorava tudo. Mas onde estou?
     Apurou o ouvido e apercebeu um rudo de cavalos que se aproximavam e de vozes que falavam francs. Abriu os olhos. Por cima da sua cabea l estava ainda o mesmo cu profundo, com as suas nuvens flutuantes, cada vez mais altas e que deixavam ver o infinito azulneo. No voltou a cabea e no viu aqueles que, a avaliar pelos rudos que percebia, se aproximavam e paravam.
     Esses cavaleiros eram Napoleo e dois ajudantes-de-campo. Bonaparte havia percorrido o campo de batalha e dera ordens para reforarem as batarias que faziam fogo sobre o dique de Augezd. Agora examinava os mortos e os feridos que jaziam no campo.
     - Que belos homens! - dizia ele, diante do cadver de um granadeiro russo estendido de barriga para baixo, a cara contra o solo, a nuca negra, os braos estendidos a todo o comprimento e j rgido.
     - Esto esgotadas as munies das peas. Sire! - disse nesse momento um ajudante-de-campo que chegava vindo das batarias que bombardeavam Augezd.
     - Mande avanar as da reserva - replicou Napoleo. Depois de ter dado alguns passos deteve-se junto do prncipe Andr, estendido de costas, ao lado da haste da bandeira que tinha sido tomada como trofu pelos Franceses.
     - Eis uma bela morte! - disse, ao v-lo.
     Andr compreendeu que era dele que estavam a falar e que era Napoleo quem falava. Tinha ouvido chamar sire  personagem de quem se tratava. Mas as palavras afloravam-lhe os ouvidos como se fossem zumbidos de moscas. No s lhe no interessavam como lhes no prestava a mais pequena ateno, e breve lhe abandonaram o esprito. A testa escaldava-lhe, sentia que o sangue se lhe ia esvaziando das veias, e continuava sempre a ver o cu longnquo, profundo e eterno. Sabia Napoleo ali. Napoleo, o seu heri, e naquele instante Napoleo, em comparao com o drama que se desenrolava entre a sua alma e aquele cu profundo, sem limites, em comparao com aquelas nuvens que fugiam, parecia-lhe perfeitamente insignificante. Naquele instante era absolutamente indiferente quele que se, debruava sobre ele, quele que falava dele; mas estava contente com o facto de aqueles homens se haverem detido, e apenas desejaria que eles o socorressem e o fizessem regressar quela vida que to bela lhe parecia desde que a compreendia de outra maneira. Chamou a si todas as suas foras para conseguir fazer um movimento e articular alguns sons. Agitou debilmente a perna e despediu uma queixa fraca e dolorosa, que acordou em si prprio um sentimento de piedade.
     - Ah! Vive! - disse Napoleo. - Levantem este rapaz e levem-no  ambulncia!
     Depois de ter dito estas palavras. Napoleo afastou-se e foi ao encontro do marechal Lannes, que, sorrindo, se descobriu e se aproximou para o felicitar.
     Andr no pde reter mais nada. A dor tremenda que lhe causaram o transporte na maca, os choques e as sondagens da sua ferida na ambulncia fizeram-no perder de novo os sentidos. S voltou a si no fim do dia quando o transportaram para o hospital com vrios outros oficiais russos feridos e prisioneiros. Durante o trajecto sentiu-se um pouco reconfortado e pde dar f do que se passava em tomo dele e at mesmo falar.
     As primeiras palavras que ouviu ao voltar a si foram is do oficial francs que os conduzia:
     -  preciso fazer alto aqui. Vai passar o imperador. Convm dar-lhe o prazer de ver estes senhores prisioneiros.
     - Hoje so tantos os cativos, quase todo o exrcito russo, que ele j deve estar farto - disse outro.
     - Sim, mas, no entanto, este, segundo dizem,  o comandante da guarda pessoal do imperador Alexandre - voltou o primeiro, apontando para um oficial ferido, de uniforme branco da Guarda montada.
     Bolkonski reconheceu o prncipe Riepnine, que conhecia dos sales de Petersburgo. Ao lado via-se um jovem de uns dezanove anos, igualmente ferido e tambm fardado de cavaleiro da Guarda.
     Bonaparte, aproximando-se a galope, deteve o seu cavalo junto deles.
     - Qual , o de posto mais elevado? - perguntou, ao ver os prisioneiros.
     Indicaram-lhe o coronel prncipe Riepnine.
     -  o comandante do regimento de cavalaria da Guarda do imperador Alexandre? - interrogou Napoleo.
     - Eu comandava um esquadro - replicou Riepnine. - O seu regimento cumpriu nobremente o seu dever.
     - O elogio de um grande capito  a melhor recompensa de um soldado.
     -  com prazer que lha concedo - voltou Napoleo - Quem , esse jovem que est a seu lado?
     O prncipe Riepnine disse o nome do tenente Suktelen. Napoleo olhou-o, a sorrir:
     - Muito novo veio ele ter connosco.
     - A juventude no impede um homem de ser bravo - disse Suktelen, numa voz trmula de emoo.
     - Bela resposta, mancebo - disse Napoleo - Ir longe! Para completar o trofu dos prisioneiros, o prncipe Andr, colocado tambm na primeira fila, diante do imperador, no podia deixar de lhe atrair a ateno. Napoleo recordou-se de o ter visto no campo de batalha, e dirigindo-se a ele deu-lhe esse mesmo tratamento de rapaz, o aspecto sob o qual ele se lhe havia gravado na memria.
     - E voc, meu rapaz? - disse-lhe. - Como  que se sente, meu valente?
     Ainda que cinco minutos antes Andr tivesse podido dizer algumas palavras aos soldados que o transportavam, agora calava-se, os olhos fixos em Napoleo. Afiguravam-se-lhe to medocres naquele momento os interesses que preocupavam o imperador, o prprio heri que lhe parecia to insignificante, com a sua vaidade mesquinha e a alegria da vitria, quando comparava tudo isto ao espectculo daquele cu imenso, pleno de justia e, de bondade, cuja grandeza compreendera, que lhe era impossvel responder.
     E, com efeito, tudo lhe parecia intil, miservel, ao p dos pensamentos severos e sublimes que o esgotamento das foras lhe provocara aps a efuso de sangue, as dores e a, expectativa de uma morte prxima. Ao mergulhar o seu olhar no de Napoleo, pensava na vaidade da grandeza, na insignificncia da vida, cujo sentido ningum podia compreender, e ainda mais na da morte, cujo significado se conservava ininteligvel e impenetrvel a todos os vivos.
     O imperador deu meia volta sem esperar resposta, e, ao retirar-se, dirigiu-se a um comandante:
     - Tomem conta destes senhores e transportem-nos ao meu acampamento, para que o meu mdico. Larrey, lhes examine os ferimentos.- E, esporeando o cavalo, a galope prosseguiu no seu caminho.
     No rosto de Napoleo lia-se ntimo contentamento e verdadeira felicidade. Os soldados que tinham transportado o prncipe Andr e lhe haviam furtado a imagenzinha de ouro que Maria, sua irm, lhe suspendera ao pescoo, ao verem a benevolncia do imperador para com os prisioneiros, deram-se pressa em restituir-lha. Como, no o soube Andr, mas de repente a medalhinha apareceu-lhe suspensa do uniforme pela sua cadeia de ouro.
     Que felicidade, dizia ele de si para consigo, fitando a imagem que a irm lhe confiara com tanta emoo e piedade, que felicidade, se tudo fosse to claro e simples como a Maria imagina! Que felizes seramos sabendo a quem pedir auxlio nesta vida e o que nos espera depois, para alm do tmulo! Como eu seria, feliz e que tranquilo eu me sentiria se neste momento pudesse dizer: Senhor, tende piedade de mim!... Mas a quem hei-de eu dirigir esta orao? Ser esta fora indefinvel, incompreensvel, a que no s me no posso dirigir, mas que riem mesmo posso exprimir por palavras, o grande todo ou o nada, ou ento esse Deus representado nesta medalha que me deu Maria? No h nada, nada certo, alm do pouco valor de tudo quanto eu posso compreender e da sublimidade desse incompreensvel que ultrapassa toda a grandeza!
     Pegaram na maca. De cada vez que a sacudiam, o prncipe Andr sentia uma dor insuportvel; o seu estado febril agravou-se. Delirou. A lembrana de seu pai, de sua mulher, de sua irm, do filho que ia nascer, a recordao do enternecimento que sentira na vspera da batalha, a figura desse pequeno Napoleo que to insignificante lhe parecera e ainda por cima a obsesso daquele cu profundo, tudo lhe povoava os sonhos de imagens de fogo. Uma vida serena e de tranquila felicidade conjugal em Lissia Gori perpassava-lhe pela imaginao. Mas, mal sentia a alegria desta felicidade, repentinamente lhe aparecia o pequeno Napoleo de olhar frio, limitado, contente com a infelicidade alheia, e de novo recomeavam os horrores da dvida e da dor. S a imagem do cu lhe trazia um certo apaziguamento. L para a madrugada todos estes sonhos se misturavam, numa espcie de caos, e ele precipitou-se nessas trevas da inconscincia e do olvido que na opinio do prprio Larrey deveriam terminar muito mais provavelmente com a morte que com a vida.
     -  um indivduo nervoso e bilioso - dissera ele. - No escapar desta.
     O prncipe Andr, bem como outros feridos com poucas esperanas de cura, foi confiado aos cuidados dos habitantes da regio.






Livro Segundo





Primeira Parte
     

     
     
     
     Captulo 1
     
     - Os princpios de 1806. Nicolau Rostov veio a casa em gozo de licena. Denissov tambm regressava a Voroneje e Rostov conseguira persuadi-lo a acompanh-lo at Moscovo e a hospedar-se em casa dos seus. Na antepenltima muda, para festejar o encontro com o seu camarada. Rostov despejara duas ou trs garrafas na companhia do amigo. As portas da capital, apesar dos barrancos da estrada, estendido ao comprido no fundo do tren de posta. Denissov continuava a dormir, enquanto Rostov,  medida que se aproximava do seu destino, se mostrava mais e mais impaciente.
     Estaremos l no tarda nada! Estaremos l no tarda nada! Oh, estas ruas insuportveis, estas lojas, estes calatch (Po que  uma especialidade de Moscovo. (N, dos T.), estes revrberos, estes izvochtchiks (Carro de praa, (N, dos T.) ia ele dizendo para consigo mesmo quando, nas barreiras, lhe verificaram a licena e entraram finalmente em Moscovo.
     - Denissov, c estamos! Ainda dormes? - gritou, lanando instintivamente o corpo para avante, como se assim esperasse acelerar a marcha do tren.
     Denissov no respondeu.
     - Olha a encruzilhada onde costuma estar Zakar, o cocheiro: e l est ele, o Zakar, sempre com o mesmo cavalo. E aqui est a lojinha onde ns costumvamos comprar o prianiki! (Guloseima feita de amndoas. (N, dos T.) Avia-te! Hem!
     - Qual  a casa? - perguntou o postilho.
     - L adiante, ao fundo, a grande, no vs? Aquela  que  a nossa casa! Denissov! Estamos a chegar.
     Denissov ergueu o pescoo, tossicou e no disse palavra. - Dimitri - gritou Rostov para o lacaio sentado ao lado do postilho - H luz na nossa casa?
     - Sim, senhor, est iluminado o gabinete do papa.
     - Ainda no teria ido para, a cama? Hem! Que te parece? Olha o que te digo, no te esqueas de tirar j da mala a minha nova samarra hngara - acrescentou, cofiando o bigodinho novo. - Avia-te, anda, mais depressa! - gritou para o postilho. - Eh!, acordas ou no. Vssia? - disse, sacudindo Denissov, que voltara a adormecer. - Vamos, francamente! Tens trs rublos para vodka, francamente! - prosseguia, e j poucas casas o separavam da sua. Afigurava-se-lhe que os cavalos no saam do mesmo stio. Finalmente, o tren voltou  direita, em direco  entrada. Rostov viu a cornija to sua conhecida, com o seu gesso esborcinado, os degraus da entrada, o marco do passeio. Saltou do tren em andamento e correu para a porta. A casa l estava, imvel, pouco hospitaleira, como que absolutamente alheia quele que acabava de chegar. No vestbulo ningum. Ah! Deus meti, ter acontecido alguma, coisa?, pensou Rostov. Deteve-se alguns instantes, o corao apertado, e logo continuou a correr atravs do corredor e das escadas to suas conhecidas, de degraus irregulares. L estava o mesmo puxador na porta, cuja sordidez irritava a condessa. Continuava a abrir-se corri a mesma facilidade de outros tempos. Na antecmara estava uma candeia acesa. O velho Mikailo dormia deitado em cima de uma arca. Prokofi, o lacaio, to forte que era capaz de erguer um carro pelo rodado traseiro, estava a entranar orlas de laptis (Calas dos mujiques. (N, dos T.). Voltou-se quando a porta se abriu e imediatamente o seu, ar sonolento e indiferente se converteu em susto, num susto a que vinha misturar-se uma certa alegria,
     - Ah! Deus do Cu! O condezinho! - exclamou, ao reconhecer o menino. - Que aconteceu? Meu querido menino! - E Prokofi, todo trmulo, precipitou-se para a porta do salo, naturalmente para anunciar o acontecimento, mas, reflectindo, voltou atrs e deixou-se cair contra o ombro do seu amo.
     - Est tudo bem? - perguntou Rostov, soltando os braos,
     - Graas a Deus! Est tudo bem! Acabaram agora mesmo de jantar. Deixa-me olhar-te. Excelncia!
     - Est tudo mesmo bem?
     - Est, est, graas a Deus!
     Rostov, que se esquecera por completo de Denissov, sem querer que ningum o anunciasse, atirou a pelia, e em bicos de ps correu para o salo grande, s escuras. Tudo estava como dantes: as mesmas mesas de jogo, os mesmos lustres enfiados nas mesmas camisas. O jovem j fora pressentido em casa, e mal entrara no salo uma porta lateral abrira-se e a famlia rompeu com fragor, caindo sobre ele aos abraos e aos beijos. Depois, por outras portas, veio chegando mais gente; e houve abraos, beijos, exclamaes, lgrimas de alegria. Rostov no era capaz de saber quem era o pai, quem era Natacha, quem era Ptia. Todos gritavam, falavam e o abraavam ao mesmo tempo. S uma pessoa faltava: a me. Rostov deu por isso.
     - Eu no sabia... Nikoluehka.., meu querido!
     - A est ele.., o nosso.., o meu amigo Klia... Como ests mudado! Luz! Sirvam o ch!
     - D c um beijo!
     - E a mim tambm, queridinho!
     Snia. Natacha. Ptia. Ana Mikailovna. Vera, o velho conde, o apertavam contra o peito. Os criados, as criadas de quarto, que enchiam o salo, todos falavam ao mesmo tempo, soltando exclamaes.
     Ptia dependurava-se-lhe nas pernas. 
     - E eu! - clamava ele.
     Natacha beijocava-o, depois puxava-o para si, beijava-o por toda a cara, agarrava-se-lhe s abas do dlman, dava cabriolas e despedia gritos agudos.
     S se viam lgrimas de alegria, olhares cheios de ternura; s se ouviam beijos.
     Snia, vermelha como kumatch (Tecido vermelho de camisas. (N, dos. T.), enfiara-lhe o brao, e toda ela era- plenitude, uma plenitude que lhe subia aos olhos felizes, sempre  procura dos de Rostov. J fizera dezasseis anos e era muito bonita, sobretudo naquele momento em que a alegria se lhe estampava no rosto. Olhava para Rostov e no podia apartar dele os olhos, toda sorridente, como que sufocada de felicidade. Rostov estava-lhe muito reconhecido, mas no deixava de esperar e de procurar fosse quem fosse. A velha condessa ainda no aparecera. E eis que se ouvem passos junto  porta. Eram to rpidos que no acreditava que pudessem ser de sua me.
     Mas era, era ela, era ela com um vestido novo que ele nunca lhe vira, um vestido que mandara fazer na sua ausncia. Todo, se afastaram, e Rostov correu para ela. Uma vez um ao p do outro, a me deixou-se cair contra o peito do filho, rompendo em soluos. Sem foras para levantar a cabea, escondia a cara nos frios alamares do dlman.
     Denissov, de que ningum ainda se apercebera, entrara e detivera-se a olhar para toda aquela gente, esfregando os olhos.
     - Vassili Denissov, um amigo do Nicolau! - exclamou, apresentando-se ao conde, que o interrogava com os olhos.
     - Bem-vindo seja! Bem sei, bem sei! - disse o conde, apertando Denissov nos seus braos e dando-lhe um beijo. - O Nikoluchka avisou-me... Natacha. Vera, c est ele,  o Denissov.
     As mesmas caras juvenis, felizes e cheias de vida precipitaram-se sobre a hirsuta figura de Denissov, rodeando-o.
     - Meu querido Denissov! - exclamou Natacha, que, no podendo refrear o seu entusiasmo, foi para ele, pegou-lhe nos braos e ps-se a beij-lo. Toda a gente se sentiu embaraada com aquela atitude de Natacha. O prprio Denissov corou, mas, sorrindo, tomou-lhe a mo e levou-a aos lbios.
     Conduziram Denissov ao aposento preparado para ele, e toda a famlia Rostov se reuniu no quarto do div  volta de Nikoluchka.
     A velha condessa, sem abandonar a mo do filho, que a cada momento levava aos lbios, sentou-se a seu lado. Os demais, to- dos em volta, bebiam-lhe cada um dos seus gestos, cada uma das suas palavras, cada um dos seus olhares, no deixando de o fixar com olhos amorosos e extasiados. O irmo e as irms debatiam-se, roubando-se mutuamente os lugares mais prximos, e lutavam uns com os outros para lhe apresentarem a xcara de ch, o leno, o cachimbo.
     Rostov sentia-se muito feliz com todas estas demonstraes de afecto; mas os primeiros momentos aps o seu regresso haviam-no tornado to feliz que a alegria que sentia agora era pouca coisa e continuava  espera, esperava sempre, uma felicidade maior.
     No dia seguinte os viajantes, fatigados da viagem, no se levantaram antes das dez horas.
     No quarto contguo ao deles viam-se, a monte, os sabres, as m,)chilas, as cartucheiras, as malas abertas, as botas enlameadas. Dois pares de botas, com as respectivas esporas, depois de engraxadas, acabavam de ser alinhadas junto  parede. Criados traziam bacias de mos, gua quente para a barba e roupas limpas. Havia no ambiente um cheiro a tabaco e a utenslios militares.
     - Eh! Grichka, o meu cachimbo! - gritou Vassili Denissov com voz rouca.- Rostov, levanta-te!
     Rostov, esfregando os olhos pegados pelo sono, ergueu a cabea hirsuta da macia almofada.
     - Que aconteceu? J  tarde?
     - . J deram dez horas - respondeu a voz de Natacha, e no quarto contguo ouviu-se um roagar de vestidos engomados, um segredar e risos de raparigas; atravs da porta entreaberta surgiu qualquer coisa azul, fitas, cabelos pretos e caras joviais. Eram Natacha. Snia e Ptia, que vinham espreitar para ver se ele estaria levantado.
     - Nikolenka, a p! - ouviu-se da porta a voz de Natacha.
     -  j!
     Entretanto. Ptia, que no quarto contguo descobrira os sabres e se apropriara de um deles, cheio daquele entusiasmo to prprio dos rapazes mais novos diante do aparato blico de um irmo mais velho, esquecendo-se de que no era decente para as irms ver homens em trajos menores, abriu a porta.
     -  o teu sabre? - gritou.
     As meninas deram um salto  retaguarda. Denissov, assustado, tratou de esconder as pernas debaixo da colcha, lanando um olhar aflito ao camarada. A porta deixou passar Ptia, depois voltou a fechar-se. Atrs dela ouviam-se risos.
     - Nikolenka, veste o teu roupo - disse Natacha.
     -  o teu sabre? - repetiu Ptia. - Ou  o seu? - acrescentou, com profunda venerao, dirigindo-se  espessa bigodeira preta de Denissov.
     Rostov calou-se  pressa, enfiou um roupo e apareceu  porta. Natacha j tinha enfiado uma das botas de esporas e tratava de se introduzir dentro da outra. Snia girava sobre os taces, fazia inchar o balo da saia e ia acocorar-se naquele momento. Estavam ambas de azul e com os vestidos do mesmo feitio, que eram novos, muito rosadas, frescas e risonhas. Snia fugiu, e Natacha, enfiando o brao no do irmo, levou-o para o quarto do div, onde se puseram a tagarelar. Ainda no tinham tido tempo de perguntar um ao outro essas mil pequenas coisas que s a eles interessavam. Natacha ria a cada palavra que trocavam, no porque fosse para rir o que diziam, mas apenas por se sentir alegre e lhe no ser possvel reprimir essa transbordante alegria,
     - Ah! Que bom que ! - dizia ela a cada momento. Rostov, graas queles calorosos eflvios de ternura, sentia pela primeira vez de h um ano para c desabrochar-se-lhe no corao e na cara aquele riso infantil que o abandonara por completo desde que sara de casa.
     - Agora, ouve - dizia ela -, agora s um verdadeiro homem, no  assim? Nem sabes como eu estou contente por seres meu irmo. - Puxou-lhe pelos bigodes. - Ah! Como eu gostava de vos conhecer bem a vocs, homens. Diz-me c, parecem-se connosco? Hem?
     - Porque  que a Snia se esgueirou? - perguntou Rostov. 
     - Oh! H muito que dizer a esse respeito. E, conta-me l, como  que a vais tratar? Vais trat-la por tu ou por senhora?
     -  como calhar.
     - No a trates por tu, peo-te, depois te direi porqu.
     - Mas porqu?
     - Bom, vou dizer-te porqu. Tu sabes que a Snia  minha amiga, uma amiga por quem eu seria capaz de queimar um brao. Olha, queres ver?
     Natacha arregaou a manga de musselina e mostrou, debaixo do brao delgado, magricela e mole, junto ao ombro, num ponto ordinariamente escondido pelos prprios vestidos de baile, um sinal vermelho.
     - Fui eu que me queimei para lhe provar a minha amizade. Aqueci uma rgua no fogo e cheguei-a aqui.
     Sentado num div cheio de almofadas na antiga sala de estudo, diante de si os olhos extraordinariamente animados de Natacha. Rostov sentia-se de novo mergulhado naquele mundo familiar da sua infncia, que a ningum mais podia interessar seno a ele prprio, mas que lhe proporcionava os melhores prazeres da sua existncia, e a aventura do brao queimado com a rgua em brasa no lhe pareceu uma coisa insignificante; compreendia-a sem se surpreender.
     -  s isso? - perguntou ele.
     - Ah, somos to amigas, to amigas! A histria da rgua  uma estupidez... Mas somos amigas para toda a vida. Ela, quando gosta de algum,  para toda a vida. Eu c no sou assim; esquecer-me-ia depressa.
     - E ento de que se trata?
     - Pois bem,  que ela gosta de mim e tambm de ti. Natacha ficou de repente toda corada.
     - Sim, lembras-te, antes da partida... Sim, ela disse que mesmo que tu esquecesses tudo... Hei-de sempre gostar dele, mas quero que ele se sinta livre... No  verdade que isto  lindo, que isto  nobre? Sim, sim, no  lindo? No  nobre? Responde! - exclamou Natacha, com um tom de voz to grave e to comovido que se via perfeitamente j ter chorado mais do que uma vez ao pensar nisso.
     Rostov ficou pensativo.
     - Eu nunca quebrarei a minha palavra  declarou. - Alis, a Snia  to maravilhosa que era preciso eu ser um imbecil para me negar  felicidade com ela.
     - No, no - tornou Natacha com vivacidade. - J conversmos as duas sobre o assunto. Tnhamos a certeza de havias de falar assim. Mas no pode ser, porque,  preciso compreendas, se tu te considerares ligado pela tua palavra, pode julgar-se que ela o fez de propsito. E tu acabarias por casar, com ela por obrigao, o que no pode ser.
     Rostov apercebeu-se de que tudo aquilo era muito sensato. Desde que a vira, na vspera, que Snia o impressionara pela gentileza. H pouco, embora a tivesse visto apenas de relance, ainda lhe parecera melhor. Era uma encantadora mocinha de dezasseis anos, que, evidentemente, o amava com paixo, disso no podia duvidar um s momento. Porque  que a no desposava agora? Ah! Eram tantos os seus motivos de alegria e tantas as coisas que o preocupavam! Sim - reflectia Rostov -, elas tm razo.  preciso que eu continue livre.
     - Bom, ento, ptimo, havemos de voltar a falar no assunto. Ah! Que contente eu me sinto por tornar a ver-te! E olha l  acrescentou -, tu no atraioaste o Bris?
     - Que Patetice  essa?! - exclamou Natacha, rindo. - No penso nele nem em ningum, nem quero mesmo pensar seja em quem for.
     - Qu? Tu no pensas em ningum? Ento em que pensas?
     - Eu? - respondeu Natacha com um sorriso pleno de felicidade. - Viste o Duport?
     - No.
     - O clebre Duport, o bailarino, nunca o viste? Ento  intil; no podes compreender. Eu, eu sou assim.
     Natacha, arredondando os braos, pegou na saia,  imitao das bailarinas, deu alguns passos correndo, voltou-se, fez uma pirueta, juntou os ps, batendo um no outro, e ergueu-se em pontas.
     - Hem! Olha para isto! Seguro-me. Vs? - disse ela. Mas no conseguia aguentar-se na ponta dos ps. - Aqui tens o que eu quero ser! Nunca me casarei, e hei-de vir a ser bailarina. Mas no digas a ningum.
     Rostov teve um ataque de riso to forte e to sincero que Denissov, no quarto contguo, sentiu cimes daquele riso; Natacha, sem se poder conter, desatou a rir tambm.
     - No  verdade que  lindo? - repetia ela a cada momento.
     - , mas ento j no queres casar com o Bris?
     Natacha ficou toda escarlate.
     - No quero casar com ningum. E hei-de dizer-lho a ele mesmo assim que o vir.
     - No pode ser.
     - E, depois, tudo isto so patetices - prosseguiu ela. - E Denissov, que tal?  simptico?
     - Muito, muito simptico.
     - Bom, adeus, vai-te arranjar. E, ouve l, mete medo, o Denissov?
     - Porque  que ele havia de meter medo? No, o Vaska  bom rapaz.
     - Como  que tu lhe chamas? Vaska?... Tem graa. Ento  simptico?
     - Claro que .
     - Ento no te demores para o ch. Tomamo-lo juntos.
     Natacha voltou a erguer-se em pontas e atravessou o quarto  maneira das bailarinas, sorrindo como s o fazem as rapariguinhas de quinze anos. Rostov, ao dar com Snia no salo, ficou muito corado. No sabia que atitude tomar diante dela. Na vspera tinham-se beijado, nas primeiras efuses do regresso, mas agora compreendia que isso no podia ser. Sentia sobre ele os olhares interrogadores de toda a gente, da me e das irms em particular, sempre  espera de ver o que ele faria. Beijou-lhe a mo e no a tratou por tu. Encontrando-se, porm, os olhos de ambos diziam tu e atiravam beijos um ao outro. O olhar de Snia pedia-lhe perdo de haver ousado lembrar-lhe, por intermdio de Natacha, a promessa dele e agradecia-lhe o amor que lhe tinha. O dele, por sua vez, agradecia-lhe o ela ter-lhe restitudo a sua palavra e protestava, firme, que de uma maneira ou de outra nunca deixaria de a amar, pois lhe no era possvel viver sem gostar dela.
     - Em todo o caso, e curioso - disse Vera, aproveitando um momento em que toda a gente estava calada -,  curioso que a Snia e o Nikolenka agora no se tratem por tu; parecem dois estranhos.
     A observao era acertada, como em geral acontecia a tudo quanto ela dizia, mas, como sempre, igualmente, um grande embarao se apoderou de toda a gente, e no s de Snia, de Nicolau e de Natacha, como at da prpria condessa, que no via com bons olhos aqueles amores do filho. Semelhante inclinao podia faz-lo perder algum brilhante partido. E ela tambm corou como qualquer rapariguinha. Denissov, com grande espanto de Rostov, de farda nova, penteado e perfumado, entrou na sala com a mesma elegncia que costumava ter no campo de batalha, e junto das senhoras comportou-se como um verdadeiro mundano, o que no deixou de surpreender o amigo.
     

     
     
     
     Captulo II
     
     No seu regresso a Moscovo. Nicolau Rostov fora recebido pela famlia como o melhor dos filhos, um heri, o incomparvel Nikoluchka; pelos seus outros parentes, como um rapaz encantador, distinto e bem educado; pelos seus conhecidos, como um belo tenente de hssares, um excelente danarino e um dos melhores partidos da capital.
     Toda Moscovo conhecia os Rostov. Naquele ano, o velho conde estava prspero, visto haver renovado as hipotecas sobre os seus domnios. Eis porque Nikoluchka dispunha de um trotador, usava cales de montar  ltima moda e botas altas como ainda mais ningum usava em Moscovo, de biqueira aguada, e esporas de prata. Levava uma rica vida. Regressando a casa. Rostov experimentava a impresso agradvel de quem se readapta, aps um longo intervalo, a antigos hbitos de existncia. Tinha a sensao de que crescera e de que era agora um homem completo. As suas aventuras de criana, o seu desespero na altura em que fizera exame de catequese e em que ficara reprovado, os seus pedidos de dinheiro ao cocheiro Gavrilo, os beijos trocados com Snia s escondidas, tudo isso lhe vinha  lembrana como criancices de que estava muito longe. Agora era tenente de hssares, vestia um dlman agaloado a prata com a cruz de S. Jorge de soldado e adestrava o seu trotador para as corridas na companhia de amadores hpicos conhecidos reputados e respeitveis. Conhecera uma senhora com quem passava as noites. Dirigia a mazurca nos bailes dos Arkarov, falava da guerra com o marechal-de-campo Kamenski, frequentava o clube ingls e tratava por tu um coronel quarento a quem Denissov o apresentara.
     A sua paixo pelo imperador enfraquecera um pouco desde que estava em Moscovo. Nunca o via, nem tinha ocasio para isso; mas, por vezes, falava dele, dizia quanto o estimava, dando a entender que falando assim calava alguma coisa e que nos seus sentimentos havia uma parte de mistrio que o comum dos mortais no podia entender. No fundo do seu corao compartilhava da adorao geral da cidade por Alexandre Pavlovitch, a quem chamavam ento correntemente um anjo de carne e osso.
     Durante a sua estada em Moscovo, enquanto no regressou ao regimento. Rostov antes se afastou de Soma do que dela se aproximou. Ela era muito bonita, muito gentil, e, claro, amava-o apaixonadamente; mas ele atravessava ento aquele perodo da juventude em que o homem parece ter tanta coisa a fazer que lhe falta tempo para se ocupar de ninharias, com que receia prender-se, e estima antes de mais nada a liberdade, que lhe  indispensvel para tudo o mais. Quando pensava em Snia durante essa estada em Moscovo dizia consigo mesmo: Sim! H muitas, muitas mais como ela, que eu ainda no conheo. Tenho tempo de pensar em amores quando me der na real gana, agora no, agora tenho mais em que pensar. Alem disso, afigurava-se-lhe humilhante para o homem que ento era comprazer-se no convvio de mulheres. Frequentava os bailes e as reunies femininas sempre com o ar de quem est contrariado. As corridas e as visitas a casa dela, isso era outra coisa: isso ficava bem a um verdadeiro hssar.
     No princpio de Maro, o velho conde Ilia Andreitch Rostov andou muito ocupado com a organizao de um banquete no clube ingls em honra do prncipe Bagration.
     O conde, de roupo, ia e vinha ao longo dos sales, dando as suas ordens ao ecnomo do clube e ao famoso Feoktiste, cozinheiro-chefe, acerca dos espargos, dos pepinos frescos, dos morangos, das viandas e do peixe para o banquete. O conde era membro e presidente do clube desde a sua fundao. Tinham-lhe confiado a misso de organizar o banquete em honra de Bagration, pois ningum sabia como ele,  grande e generosamente, preparar uma festa de gala, e poucos eram os que podiam e estavam dispostos - esse o seu caso - a puxar do seu dinheiro se viesse a faltar alguma coisa. O cozinheiro e o ecnomo do clube ouviam, satisfeitos, as instrues do conde, pois estavam cientes de que com ele, melhor do que com qualquer outro, muito teriam a, ganhar com um repasto de alguns milhares de rublos.
     - E, presta ateno,  preciso cristas-de-galo, sim, cristas-de-galo na sopa de tartaruga, sabias?
     - Entradas, trs, no  verdade? - perguntou o cozinheiro.
     O conde concentrou-se.
     - Sim, nada menos... Urna maionese.., uma... - contou pelos dedos.
     - Ento temos de mandar vir esturjes grandes? - perguntou o ecnomo.
     -  claro, no pode deixar de ser e temos de lhes pegar, mesmo que eles no baixem o preo. Ah, valha-nos Deus, ia-me esquecendo... Ainda precisamos de outra entrada. Ah! Santo Deus! - Apertou a cabea entre as mos. - E quem vai fornecer as flores? Mitenka! Eh! Mitenka! A galope. Mitenka, vai ao meu domnio de Podrnoskovni - disse para o intendente, que acorrera ao chamamento -, corre, depressa, e diz ao jardineiro Maksimka que trate de mandar arranjar imediatamente trabalhadores porque quero aqui todas as flores das estufas devidamente acondicionadas em feltro. Sexta-feira preciso aqui de duzentos vasos de flores.
     Depois de ter dado ainda instrues diversas, preparava-se para descansar um pouco junto da condessa quando se lembrou de um pormenor necessrio; voltou atrs, chamou o cozinheiro e o ecnomo, e ps-se de novo a dar ordens. A porta ouviu-se um passo ligeiro, um tilintar de esporas, e o jovem conde entrou, bem posto, bonito e fresco, com o seu bigodinho novo. Via-se que a vida ociosa e tranquila de Moscovo lhe restabelecera as boas cores.
     - Ah, meu rapaz,  de perder a cabea - disse o velho, sorrindo, um pouco envergonhado por ver-se surpreendido pelo filho em tais transes. - Ajuda-me, ao menos! Agora precisamos de cantores. Msicos j eu tenho, mas no seria bom arranjarem-se ciganos? Vocs, militares, vocs morrem por isso.
     - Realmente, meu pai, no creio que o Bagration, quando fazia os preparativos da batalha de Schngraben, tivesse menos preocupaes que o pai neste momento - disse o filho sorrindo tambm.
     O velho conde fingiu-se zangado.
     - Bom, j que tanto falas, faz alguma coisa em meu lugar.
     E voltou-se para o cozinheiro, que, observador e malicioso, com uma respeitosa bonomia, olhava para o pai e para o filho.
     - Vs como  a juventude. Feoktiste? - disse ele - Est sempre a fazer troa de ns, dos velhos.
     - Pois claro. Excelncia. L comerem um bom jantar sabem eles, o que no esto  para se incomodarem com os preparativos.
     -  isso mesmo,  isso mesmo! - exclamou o conde, pegando nas duas mos do filho, muito alegre. - Ora aqui tens j com que te entreter. Mete-te imediatamente no tren de dois cavalos e vai a casa do Bezukov dizer-lhe que o conde Ilia Andreitch te manda pedir-lhe morangos e ananases frescos. Escusas de procurar noutra parte. Se ele no estiver em casa, vai ter com as princesas e depois dirige-te ao Razguliai: o cocheiro Itatka sabe onde . A encontrars o cigano Iliuchka, sabes?, aquele que danou em casa do conde Orlov, lembras-te?, de casaco branco, e traz-mo c.
     - E quer que eu traga tambm as bailarinas? - perguntou Nicolau, rindo - Eh! Eh!
     Nesse momento, em passos surdos, com o ar apressado, preocupado, e com a expresso de devota que nunca a abandonava, entrou Ana Mikailovna. Embora habituada a encontrar todos os dias o conde de roupo, este mostrava-se sempre muito embaraado e pedia-lhe muita desculpa de assim estar vestido.
     - No tem importncia, conde, meu bom amigo - disse ela, conservando os olhos modestamente no cho - Eu irei a casa de Bezukov. O Pedro acaba de chegar, e estou certa de que por todas as suas estufas  nossa disposio. E eu preciso muito de lhe falar. Mandou-me urna carta do Bris. Graas a Deus, est finalmente em servio no estado-maior.
     O conde mostrou-se contentssimo de que Ana Mikailovna se encarregasse de urna parte das suas tarefas e mandou atrelar para ela o tren pequeno.
     - Diga ao Bezukov que est convidado. Vou inscrev-lo. E como vo agora as coisas com a mulher? - perguntou.
     Ana Mikailovna rebolou os olhos e na sua expresso pintou-se um fundo desgosto.
     - Ai, meu amigo, que infeliz que ele  - suspirou. - Se  verdade o que se diz, que horror! Quem  que havia de imaginar, quando todos estvamos to contentes com a sua felicidade! E que boa alma, que alma celeste a desse moo Bezukov! Lastimo-o de todo o corao e hei-de fazer tudo o que depender de mim para o consolar.
     - Mas que aconteceu? - perguntaram, ao mesmo tempo, pai e filho.
     Ana Mikailovna despediu um profundo suspiro.
     - Diz-se que Dolokov, o filho de Maria Ivanovna - articulou ela, em tom misterioso - a comprometeu aos olhos de todos. O Pedro tinha-o acolhido, convidara-o para a sua casa de Petersburgo e... Chega ela, e a ternos aquele valdevinos a fazer-lhe a corte. - Exprimindo-se deste modo tinha a inteno de lamentar Pedro, mas certas entoaes e meios sorrisos deixavam antes adivinhar simpatia por aquele valdevinos, como ela dizia. - Dizem que o Pedro est muito abatido.
     - Isso no o impedir de vir ao clube: at  uma distraco. Vai haver urna festa de arromba.
     No dia seguinte, 3 de Maro, s duas horas da tarde, duzentos e cinquenta membros do clube ingls e cinquenta convidados prestavam as honras da mesa a um hspede ilustre, o heri da campanha da ustria, o prncipe Bagration. Ao conhecer as primeiras notcias sobre a batalha de Austerlitz. Moscovo ficara como que fulminada de espanto. Nessa poca estava toda a gente to acostumada na Rssia a que o pas sasse sempre vitorioso que quando circulou a notcia da derrota uns limitaram-se a negar que fosse verdade, enquanto outros procuravam em razes extraordinrias a explicao de um acontecimento to estranho. No clube ingls, ponto de reunio de tudo quanto havia de melhor, toda a gente bem informada e de opinio respeitvel acordara, em Dezembro, na altura em que principiaram a correr as ms novas, em no falar nem da guerra nem da ltima batalha. As pessoas cuja opinio era de ouvir, o conde Rostoptchine, o prncipe Iuri Vladimirovitch Dolgoruki. Valuiev, o conde Markov, o prncipe Viazemski, no apareceram no clube. Passaram a reunir-se em suas prprias casas, em pequenas rodas ntimas, e os moscovitas que se guiavam pela opinio alheia, como acontecia, por exemplo, a Ilia Andreitch Rostov, viram-se privados durante algum tempo de guias e de formar uma opinio definitiva sobre a guerra. Suspeitavam do pouco optimismo das notcias, mas pensavam ser difcil discuti-las e que o melhor seria calarem-se. Alguns dias mais tarde, no entanto, como membros de um jri que abre a porta da sala das deliberaes, as ilustres personagens cuja opinio era de ouvir no clube voltaram a aparecer, e ento falou-se da guerra clara e francamente. Procuraram-se as causas deste acontecimento inacreditvel, inaudito, impossvel: uma derrota russa. Tudo se tomou claro e por toda a parte em Moscovo passaram a ouvir-se as mesmas consideraes. Entre as causas apontadas figuravam a perfdia dos Austracos, o mau abastecimento das tropas, a traio do polaco Przebyszevsky e do francs Langeron, a incapacidade de Kutuzov, e - acrescentava-se em voz baixa - a juventude e a inexperincia do czar, alm da sua confiana em pessoas nulas e mal intencionadas. Mas era certo que as tropas, as tropas russas propriamente ditas, essas tinham sido extraordinrias e haviam praticado verdadeiros prodgios de herosmo. Os soldados, os oficiais, os generais, todos eram heris. Mas o heri dos heris era o prncipe Bagration, que se distinguira sobretudo no recontro de Schngraben e na retirada de Austerlitz, em que fora o nico que conseguira retirar a sua coluna em perfeita ordem e resistir durante o dia inteiro a um inimigo duas vezes superior em nmero. Alm do mais, o que concorria para que Bagration gozasse em Moscovo da fama de heri era o facto de ele no ter a relaes pessoais e de ser estranho ao meio. Na pessoa do prncipe prestava-se homenagem merecida ao guerreiro, ao simples soldado russo, estranho s recomendaes e s intrigas. Alis o seu nome era inseparvel do de Suvorov, em virtude das recordaes da campanha de Itlia. E depois, tributando-lhe esta homenagem, mais se acentuava, em relao a Kutuzov, o descontentamento que contra ele lavrava e a censura de que era vtima.
     - Se Bagration no existisse era preciso invent-lo - dizia o belo esprito que era Chinchine, parodiando o dito de Voltaire. Ningum falava de Kutuzov, que alguns injuriavam mesmo em voz baixa, chamando-lhe catavento e velho stiro.
     Toda Moscovo repetia as palavras do prncipe Dolgorukov: Tanta vez o cntaro vai  fonte que l fica... E os Moscovitas procuravam consolar-se do desastre evocando as vitrias passadas. Tambm se repetia o que costumava dizer Rostoptchine: que o soldado francs precisa de ser levado para a batalha com frases pomposas, que o alemo  sensvel aos raciocnios lgicos, e  preciso dizer-se-lhe ser mais perigoso fugir que marchar em frente, mas que o russo, esse, mais no carece do que ser contido e s precisa que lhe digam: Calma! Por todo o lado se citavam novos pormenores da bravura revelada em Austerlitz pelos soldados e oficiais russos. Um deles salvara uma bandeira, outro ma- tara cinco franceses, e tal outro, sozinho, fizera fogo com cinco canhes. As pessoas que o no conheciam contavam que Berg, ferido no brao direito, pegara na espada com a mo esquerda e carregara sobre o inimigo. De Bolkonski no se dizia palavra, e apenas os seus ntimos lamentavam que ele tivesse morrido to novo, deixando a mulher em vsperas de parto junto do seu originalssimo pai.
     

     
     
     
     Captulo III
     
     No dia 3 de Maro todas as salas do clube ingls estavam cheias do rumor das conversas, e tanto os scios como os seus convidados, tal qual um enxame de abelhas na Primavera, iam e vinham, sentavam-se ou levantavam-se, agrupavam-se ou isolavam-se, uns de uniforme, outros de fraque, alguns mesmo de cabeleira empoada e de cafet russo. Junto das portas, espiando, atentamente, os mais pequenos gestos dos presentes, prontos a oferecer-lhes os seus servios, viam-se os lacaios, de libr, cabeleiras postias, meias de seda e escarpins. A maioria dos convidados compunha-se de personagens idosas e respeitveis, de largos e resolutos traos, grossos dedos, vozes e gestos opiniticos. Sentadas nos seus lugares reservados, formavam suas rodas habituais. A minoria compreendia os hspedes de passagem, principalmente moos, a cujo nmero pertenciam Denissov. Rostov e Dolokov, o ltimo dos quais retomara os gales de oficial do regimento Semionovski. Na expresso destes jovens, especialmente dos militares, havia um matiz de deferncia assaz desdenhosa para com os velhos. Pareciam dizer-lhes: No nos recusamos a manifestar-vos respeito e considerao, mas ficai sabendo que o futuro  nosso,
     Nesvitski estava presente, na sua qualidade de velho scio do clube. Pedro, que por ordem da mulher deixara crescer os cabelos, j no usava lunetas e se vestia  moda, passeava pelos sales com um ar sombrio e triste. Ali, como de resto em toda a parte, cercava-o uma multido que dobrava a cerviz diante da sua riqueza, enquanto ele, habituado a reinar, a todos tratava com uma menosprezadora indiferena.
     Pela idade devia estar junto dos jovens, mas pela fortuna fazia parte da roda dos velhos, das pessoas respeitveis. Por isso ia passando alternadamente do grupo de uns para o dos outros. Os velhos mais em destaque formavam o centro dos grupos de que se aproximavam com respeito os prprios desconhecidos desejosos de ouvir falar as personalidades importantes. As rodas mais numerosas eram  volta do conde Rostoptchine, de Voluiev e de Narichkine. Rostoptchine contava que os Russos haviam sido espezinhados pelos Austracos em debandada e se tinham visto obrigados a abrir caminho  baioneta pelo meio deles.
     Valuiev contava, confidencialmente, que Uvarov no fora enviado a Petersburgo seno para conhecer a opinio dos Moscovitas sobre Austerlitz.
     Num terceiro grupo. Narichkine falava do conselho de guerra em que Suvorov se pusera a cantar de galo perante as inpcias dos generais austracos. Chinchine, que estava presente, tratou de fazer esprito, dizendo que Kutuzov nem sequer tivera habilidade para aprender com Suvorov a arte pouco complicada do rococ. Mas os velhos fulminaram com o olhar o gracejador de mau gosto, dando-lhe a entender que naquele recinto e quela hora no era decente falar daquele modo de Kutuzov.
     O conde Ilia Andreitch Rostov, preocupado, de botas moles, ia, num passo rpido, da sala de jantar ao salo, cumprimentando  pressa, e com igual familiaridade, as personalidades importantes e as de pouca monta, todas suas conhecidas, ao mesmo tempo que procurava, de quando em quando, com o olhar, o seu belo rapago. Fitava-o jovial e piscava-lhe o olho amistosamente.
     O jovem Rostov estava  janela com Dolokov; tinha-o conhecido havia pouco e parecia muito interessado nesse conhecimento. O velho conde aproximou-se e apertou-lhe a mo.
     - D-me o prazer de passar l por casa, visto que s ntimo do meu rapago... Estiveram l ambos, foram ambos heris... Olha, o Vassili Ignatitch... Viva, meu velho - disse ele para um ancio que passava; mas no teve tempo de acabar o cumprimento: houve um tumulto geral, e um lacaio apareceu, dizendo, fora de si: - Esta a chegar!
     Ouviram-se toques de campainha. Os membros da direco do clube acorreram; os convidados, distribudos pelas diversas salas, como centeio revolvido  p, vieram juntar-se todos no mesmo stio, ficando estacionados no salo nobre mesmo junto da porta.
     Bagration surgiu no limiar do vestbulo, de cabea descoberta e sem a espada, que deixara, segundo o regulamento do clube, no bengaleiro. No trazia a barretina debruada de pele de astrac e o chicote em bandoleira, como Rostov o vira na vspera de Austerlitz, mas vestia um uniforme novo, cingido, e ostentava as condecoraes russas e estrangeiras e a cruz de S. Jorge do lado esquerdo do peito. Via-se perfeitamente que mandara cortar o cabelo e aparar as suas de propsito para a recepo, e isso alterava-lhe desvantajosamente a fisionomia. Tinha um ai endomingado, o que, merc dos seus traos msculos e duros, lhe dava um todo algo cmico. Beklechov e Fdor Petrovitch Uvarov, que tinham chegado ao mesmo tempo que ele, detiveram-se junto da porta para deixar passar aquele ilustre visitante. Bagration sentiu-se embaraado com a polidez que lhe manifestaram; houve uma suspenso geral, e por fim decidiu-se a passar. Caminhava, sem saber que rumo dar aos braos, embaraado e tmido, ao longo do parquet do salo nobre. Com certeza estava muito mais  vontade quando, em Shngraben, debaixo de uma chuva de balas, avanava pelos campos lavrados  frente do regimento de Kursk. Os membros mais destacados do clube acolheram-no junto da primeira porta, manifestando-lhe, nalgumas breves palavras, a alegria que sentiam por tornar a ver um hspede to querido, e, sem aguardar qualquer resposta, tomaram conta dele e conduziram-no ao salo. Foi quase impossvel entrar a, tanta a gente que se comprimia, tentando ver, por cima dos ombros dos que estavam  frente, a figura de Bagration, como se se tratasse de um animal extico. O conde Ilia Andreitch, rindo, gritava em voz forte: - Deixem passar, meus senhores, deixem passar- e, empurrando os que estavam ao seu alcance, introduziu o convidado no salo, indicando-lhe o div central. As personagens gradas, scios em evidncia do clube, cercaram o recm-chegado. Ilia Andreitch, abrindo de novo caminho atravs da turba-multa, voltou a atravessar o salo, e na companhia de um scio do clube reapareceu da a pouco, com uma grande salva de prata, que apresentou a Bagration. Na salva havia uma composio em verso composta e impressa em honra do heri. Bagration, ao ver a salva, lanou  volta de si um olhar aflito, como que implorando proteco. Mas todos os olhares lhe pediam que se resignasse. Quando viu que nada podia fazer, pagou com ambas as mos, num gesto enrgico, na salva de prata, fitando, furioso, o conde, que a trouxera. Algum, delicadamente, tomou-lhe a salva das mos, pois de outra maneira era muito capaz de a manter assim pela noite adiante e era at pessoa para se sentar  mesa com ela.
     Chamaram-lhe a ateno para a composio em verso. Est bem!, eu j a leio, parecia dizer Bagration. Depois, fitando no papel os olhos fatigados, principiou a ler com um ar concentrado c, srio. Ento o autor dos versos pegou no papel e deu comeo leitura. Bagration ouvia, a cabea descada sobre o peito.
     
     S tu a glria do sculo de Alexandre
     E o guardio de Tito no seu trono;
     S terrvel na guerra e na paz homem de bem 
     Rifeu na tua ptria e Csar no combate. 
     Napoleo, no apogeu da sua glria,
     Aprende  sua custa a temer Bagration
     E a no ousar outra vez provocar os russos Alcides...
      (Pea declamatria do gosto da poca. (N, dos T.)
     
     Mal acabara de ler estes poucos versos quando o chefe de mesa gritou, numa voz atroadora: - O jantar est servido! - A porta abriu-se, e na sala de jantar romperam os acordes da polaca: Troves da vitria retumbai, alegra-te, russo valoroso! (Coro de um canto oficial russo (N, dos T.)
     O conde Ilia, o olhar colrico fito no autor dos versos, que prosseguia na sua leitura, inclinou-se profundamente diante de Bagration. Toda a gente se ergueu, fazendo votos para que o jantar fosse melhor do que a poesia, e, com Bagration  frente, deu entrada na sala do banquete. Convidaram o heri a sentar-se no lugar de honra, entre dois Alexandres. Beklechov e Narichkine, aluso ao nome do imperador. Os trezentos convivas tomaram lugar  mesa consoante a sua classe e as suas prerrogativas, os mais nobres mais perto do conviva homenageado: coisa facilmente compreensvel, alis, pois a gua corre sempre para onde o solo  mais baixo.
     Antes de se dar comeo ao banquete. Ilia Andreitch apresentou o filho ao prncipe. Este reconheceu-o e disse algumas palavras inconsequentes e embaraadas, como todas, de resto, que veio a pronunciar naquela noite. O conde relanceava um olhar entre alegre e orgulhoso a todos os presentes enquanto durou essa breve conversa.
     Nicolau Rostov, bem como Denissov e o seu novo amigo, sentaram-se juntos, quase a meio da mesa. Diante deles estava Pedro, ao lado do prncipe Nesvitski. O conde Ilia Andreitch sentava-se em frente de Bagration, junto de outros magnates do clube, que faziam as honras da casa como representantes da cordial hospitalidade moscovita.
     O conde no tinha perdido o seu tempo. O repasto por ele organizado, vitualhas magras e gordas, era sumptuoso. Antes de tudo terminado no pde deixar de manifestar grandes inquietaes. Trocava olhares de entendimento com o chefe de mesa, dava ordens em voz baixa aos lacaios, e no sem emoo ia aguardando o aparecimento de cada prato, alis todos muito do seu conhecimento. Tudo correu s mil maravilhas. Aquando da chegada do segundo prato, ao entrar na sala um gigantesco esturjo ao v-lo. Ilia Andreitch corou, jubiloso e confuso -, os lacaios principiaram a fazer saltar as rolhas das garrafas de champanhe. Depois do peixe, que no deixou de causar sensao, o conde trocou um olhar com os membros do clube: Vai haver muitos brindes, era talvez oportuno principiar, segredou-lhes ele, e levantou-se, de copo na mo. Todos se calaram, muito atentos ao que ele ia dizer.
     - A sade do nosso soberano, o imperador! - exclamou, com os seus bons olhos orvalhados de lgrimas de alegria e triunfo. Nesse mesmo instante ouviu-se entoar: Troves da vitria retumbai. Toda a gente se levantou gritando Hurra!, e Bagration gritou Hurra! com a voz do campo de batalha de Schngraben. Por entre as trezentas vozes ouviu-se distintamente a voz entusiasta do jovem Rostov. Mal podia suster as lgrimas. A sade do imperador, gritou, Hurra!. Depois de ter bebido de um trago, quebrou a taa no cho. Muitos outros lhe seguiram o exemplo. E as aclamaes prolongaram-se por muito tempo. Quando se restabeleceu o silncio, os lacaios apanharam os cristais partidos e toda a gente tomou a sentar-se, satisfeita com a manifestao. Ilia Andreitch levantou-se ainda uma vez, lanou um golpe de vista ao apontamento que tinha ao lado do prato, e em seguida pronunciou um brinde em honra do heri da ltima campanha, o prncipe Piotre Ivanovitch Bagration, e mais uma vez os seus olhos azuis se humedeceram de lgrimas.
     Hurra!  gritaram de novo os trezentos convivas, e, em vez da orquestra, cantores executaram uma cantata composta por Paulo Ivanovitch Kutuzov:
     
     Para os Russos no h obstculos,
     A garantia da vitria est na coragem. 
     Ns temos os nossos Bagrations,
     E os inimigos cair-nos-o aos ps.
     
     Mal os cantores se calaram, novos brindes se ouviram, e Ilia Andreitch mais comovido ficou, e as taas continuaram a partir-se, e os gritos foram cada vez mais vibrantes. Bebeu-se  sade de Beklechov, de Narichkine, de Uvarov, de Dolgorukov, de Apraksine, de Valuiev,  sade da direco do clube, do seu administrador, de todos os seus membros e de todos os seus convidados, e, por fim, muito em particular, ao organizador do banquete, o conde Ilia Andreitch. Ao ouvir este ltimo brinde, o conde puxou do leno, e, nele escondendo a cara, rompeu em soluos.
     

     
     
     
     Captulo IV
     
     Pedro estava sentado diante de Dolokov e de Nicolau Rostov. Bebeu e comeu muito e com avidez, como era seu costume. Mas aqueles que o conheciam bem puderam verificar que mudara muito. Esteve calado durante todo o repasto. De sobrolho carregado, ora lanava em tomo os olhos de mope ou ento, de olhar fixo e ar inquieto, metia os dedos pelo nariz. Tinha um aspecto triste e sombrio. Dir-se-ia no ver nem ouvir o que se passava em volta de si, concentrando todos os seus pensamentos num nico problema, penoso e insolvel.
     A questo angustiosa que o atormentava dizia respeito s aluses da princesa, em Moscovo,  intimidade de Dolokov e da sua prpria mulher, aluses essas agravadas por uma carta annima, recebida nessa manh, em que lhe diziam, no tom cnico de gracejo caracterstico de tal gnero de missivas, que ele no via l muito bem, apesar das lunetas, e que s para ele ainda era segredo a ligao da mulher com Dolokov. Pedro no acreditava numa s palavra da princesa nem da carta, mas era-lhe muito penoso agora olhar para Dolokov, sentado diante de si. De cada vez que, por acaso, o seu olhar pousava nos belos olhos canalhas do oficial, logo se sentia invadido por monstruosos e remendos sentimentos, e afastava a vista. Confrontando, sem querer, todo o passado da mulher com o que diziam na carta, compreendia poder muito bem ser a expresso da verdade o que nela constava, ou podia, pelo menos, parecer a verdade, desde que isso no dissesse respeito  sua prpria mulher, dele. Pedro Bezukov. Lembrava-se involuntariamente de Dolokov, a quem haviam restitudo os gales depois da campanha, no momento em que regressara a Petersburgo e se apresentara em sua casa. Aproveitando as relaes que entre eles existiam dos tempos de deboche, viera directamente para sua casa. Pedro acolhera-o, emprestara-lhe dinheiro. Recordava-se do sorriso de Helena ao exprimir-lhe o desagrado que lhe causara a instalao do hspede l em casa e lembrava os elogios cnicos de Dolokov  beleza de sua mulher. E pensava que desde ento at  vinda para Moscovo ele no mais os havia abandonado um s instante que fosse.
     Sim,  muito bom rapaz, pensava.  um facto. Sentiria um prazer muito especial em desonrar o meu nome e em troar de mim, precisamente por eu ter dado alguns passos em seu favor e de lhe ter testemunhado a minha proteco e o meu auxilio. Eu sei, eu compreendo o sabor que isso lhe acrescentaria  traio, se fosse verdade o que se diz. Mas eu no acredito, no tenho o direito de acreditar, no posso. E lembrava-se da expresso cruel de Dolokov, por exemplo, no momento em que amarrara o polcia ao dorso do urso e o atirara  gua, ou quando certa vez desafiara em duelo algum sem motivo ou matara o cavalo de um postilho. E tinha muitas vezes a mesma expresso ao olhar para ele. Sim,  um brigo, dizia Pedro de si para consigo. Para ele, matar um homem  coisa sem importncia. Est convencido de que toda a gente tem medo dele e isso deve dar-lhe um prazer muito especial. Deve supor que eu tambm tenho medo dele. E a verdade  que tenho. E estes pensamentos despertavam ainda em Pedro sentimentos tremendos e monstruosos. Dolokov. Denissov e Rostov, sentados na sua frente, pareciam alegrssimos. Rostov conversava alegremente com os seus dois amigos, um deles um bravo hssar e o outro um brigo de renome e declarado maroto. De tempos a tempos, lanava a Pedro um olhar motejador, a Pedro, que impressionava toda a gente com a sua fisionomia macia, secreta e preocupada. Alis, a pouca simpatia que Rostov lhe testemunhava vinha, primeiro, do facto de Pedro, do seu ponto de vista, dele, hssar, no passar de um civil ricao, marido de uma beleza famosa, e ainda por cima de pouco tino, e depois, de Pedro, de to preocupado e distrado que estava, no parecer reconhec-lo, a ele. Rostov, e nem sequer lhe ter retribudo o seu cumprimento.
     Aquando da sade ao imperador. Pedro, pensativo, no se levantara nem pegara na taa.
     - Ento? - gritou-lhe Rostov, fitando-o com uma severidade solene. - No ouve? A sade do nosso soberano, o imperador!
     Pedro, com um suspiro, levantou-se, submisso, despejou a taa, e enquanto esperava que todos os demais voltassem a sentar-se fitou Rostov com o seu bondoso sorriso nos lbios.
     - Ora esta! E no o tinha eu reconhecido - observou. Mas Rostov j o esquecera. Estava todo absorvido a gritar Hurra!.
     - Porque  que se no deu a conhecer? - perguntou Dolokov a Rostov.
     - Diabos o levem, imbecil! - replicou este ltimo.
     - Devemos ser amveis para com os maridos das bonitas mulheres - gracejou Denissov.
     Pedro no ouvia o que se dizia, mas desconfiava de que falavam dele. Corou e voltou-se para outro lado.
     - Bom, agora vamos fazer uma sade s mulheres bonitas - tornou Dolokov, muito srio, embora com um sorriso nos cantos da boca, dirigindo-se a Pedro.
     - A sade das mulheres bonitas. Petrucha, e daqueles que gostam das mulheres bonitas - Insistiu.
     Pedro, de olhos baixos, bebeu sem olhar para Dolokov e sem lhe responder. Um lacaio que andava a distribuir exemplares da cantata de Kutuzov, entregou um a Pedro na sua qualidade de convidado de distino. E Pedro dispunha-se a pegar-lhe quando Dolokov se debruou para ele, lhe arrancou o papel das mos e se ps a ler. Pedro relanceou-o com um olhar e as plpebras abaixaram-se-lhe. Os pensamentos terrveis e maus que o haviam atormentado durante o repasto tumultuaram de novo no seu ntimo e apossaram-se dele por completo. Estendeu o corpo obeso por cima da mesa.
     - Com licena! - gritou.
     Ao ouvirem esta voz estridente e ao perceberem a quem ela se dirigia. Nesvitski e o seu vizinho da direita, assustados, deram-se pressa em serenar Bezukov.
     - Ento, calma, que  isso? - murmuraram-lhe, baixinho, assustadssimos.
     Dolokov fitou Pedro com os seus olhos cintilantes, alegres e cruis, sorrindo, como se dissesse: Eh!, gosto disso! 
     - Larga - disse ele acentuando a palavra.
     Pedro, muito plido, os lbios trmulos de clera, arrancou-lhe o papel das mos.
     - O senhor.., o senhor  um miservel!... Exijo-lhe satisfaes - balbuciou, repelindo a cadeira e erguendo-se.
     No mesmo instante em que Pedro fazia este gesto e pronunciava estas palavras, veio-lhe a sensao ntida de que o problema da culpabilidade da mulher, que to poderosamente o atormentara naqueles ltimos dias, se encontrava definitiva e incontestavelmente resolvido pela afirmativa. Sentiu que a odiava e que para sempre estava separado dela. Embora Denissov lhe pedisse que o no fizesse. Rostov anuiu em servir de testemunha a Dolokov, e depois do banquete teve uma conversa com Nesvitski, a testemunha de Bezukov, sobre as condies em que se realizaria o duelo. Pedro voltou para casa, e Rostov, na companhia de Dolokov e de Denissov, ficou no clube at muito tarde, a ouvir os ciganos e os cantores militares.
     - Bom, ento  amanh, em Sokolniki (Grande mata a noroeste de Moscovo. (N, dos T.) - frisou Dolokov, ao despedir-se de Rostov nos degraus do clube.
     - E tu ests calmo? - perguntou Rostov. Dolokov parou.
     - Olha, em duas palavras vou revelar-te o segredo do duelo. Se na vspera de um duelo escreveres o teu testamento e redigires cartas emocionantes aos teus parentes, se pensares na hiptese de poderes ser morto,  que s um imbecil e ests perdido. Se, pelo contrrio, fores para esse duelo com firme inteno de matar o teu adversrio, e o mais cedo e o melhor que puderes, tudo correr s mil maravilhas. Era o que me dizia o nosso matador de ursos de Kostroma. Quem  que no h-de ter medo de um urso?, dizia ele. Mas quando a gente pe os olhos no bicho, adeus medo, e a estamos ns prontos a fazer tudo para que a fera se nos no escape. Pois bem, eu, nestes casos,  o que costumo fazer. At amanh, meu caro!
     No dia seguinte, s oito horas da manh. Pedro e Nesvitski chegaram ao bosque de Soko1niki, onde j encontraram Dolokov. Denissov e Rostov. Pedro dava a impresso de estar preocupado fosse com o que fosse menos com o que ia passar-se. Estava amarelento de tez e os traos eram fatigados. Via-se que no pregara olho em toda a santa noite. Olhava distraidamente em tomo de si e piscava os olhos como se estivesse um sol muito forte. Duas coisas o preocupavam exclusivamente: a culpabilidade da mulher, de que no tinha a mais pequena dvida aps aquela noite de insnia, e a inocncia de Dolokov, sem razo alguma para poupar a honra de um homem, tanto mais quando esse homem lhe era, em verdade, um estranho. Sem dvida que eu, no seu lugar, teria feito o mesmo, dizia Pedro de si para consigo. Sim,  mais do que certo que teria feito o mesmo; e ento, a que propsito este duelo, este assassinato? Ou sou eu quem o mata, ou ento ser ele quem me atingir na cabea, num brao, num joelho. Se eu pudesse ir-me embora, fugir, esconder-me em qualquer parte! E precisamente no momento em que estes pensamentos lhe vinham  cabea perguntava, com um ar especialmente sereno e desprendido, coisa que impressionou os que o observavam: - Est tudo pronto?
     Quando tudo estava em ordem, enterrados na neve os sabres que mareavam o limite que no poderia transpor-se, e as pistolas carregadas. Nesvitski aproximou-se de Pedro.
     - Faltaria ao meu dever, conde - disse-lhe com voz tmida -, e no justificaria a confiana e a honra que me deu escolhendo-me para sua testemunha se neste grave, gravssimo momento, no lhe dissesse toda a verdade. Sou de opinio de que esta pendncia no tem motivos bastante importantes que a justifiquem e que no merece que se derrame sangue por ela ...
     O conde teve culpa, no tem inteira razo, deixou-se exaltar ...
     - Ah!, sim,  espantosamente estpido... - disse Pedro.
     - Nesse caso, deixe que eu transmita o seu pesar, e estou persuadido de que o seu adversrio aceitar as suas desculpas prosseguiu Nesvitski, que, como todos os circunstantes e em geral todos os que testemunham casos do mesmo gnero, no podia acreditar que as coisas fossem at ao duelo, - No preciso dizer-lhe, conde, que  muito mais nobre reconhecermos os nossos erros do que praticarmos um acto irreparvel. No houve ofensa grave nem de uma nem da outra parte. Consinta que eu v parlamentar.
     - No, para qu? - disse Pedro. - Isto no tem importncia... Ento! Est tudo pronto? Diga-me apenas onda  que eu devo colocar-me para disparar - acrescentou com uma doura um pouco afectada.
     Pegou na pistola e perguntou como se disparava. Era a primeira vez que pegava numa pistola, mas no o queria confessar.
     - Ah! Sim, bem sei, no sabia, tinha-me esquecido.
     - Nada de desculpas, absolutamente - disse Dolokov a Denissov, que por seu lado fazia tentativas de conciliao, e tambm ele se aproximou do local designado.
     O duelo ia travar-se a uns oitenta passos da estrada onde tinham ficado os trens, numa clareirazinha de um pinheiral coberto de neve que o degelo dos dias anteriores principiava derreter. As testemunhas, ao procederem  medio do terreno, haviam deixado impressos na neve mole os contornos dos ps desde o ponto em que estavam at aos sabres de Nesvitski e de Denissov, que delimitavam o campo, cravados a dez passos um do outro. Tudo estava pronto h uns trs minutos, e no entanto uma hesitao qualquer impedia o comeo do duelo. O silncio era geral.
     

     
     
     
     Captulo V
     
     - Bom! Vamos a isto - disse Dolokov.
     - Vamos - tornou Pedro, sem deixar de sorrir.
     A situao tornava-se grave. Era evidente que aquele caso, principiado to  ligeira, ningum j o podia deter, e ia seguir o seu curso  margem da vontade dos homens. Tinha de ir at ao fim.
     Denissov foi o primeiro a avanar at  marcao e declarou: - Visto os adversrios se terem recusado  conciliao, no acham ser tempo de comear? Peguem nas pistolas e quando ouvirem dizer trs principiem a avanar.
     - Um! Dois! Trs! - gritou violentamente e afastou-se. Os dois homens aproximaram-se, seguindo o caminho aberto, vendo-se pouco a pouco melhor atravs do nevoeiro. Os adversrios tinham o direito, ao avanarem para o limite fixado, de disparar quando quisessem. Dolokov caminhava em passos lentos, fixando Pedro com os seus olhos azuis, claros e brilhantes. Na sua boca, como sempre, desenhava-se um sorriso.
     Ento, quando me apetecer, posso disparar, disse Pedro para si mesmo ao ouvir a palavra trs!, e ps-se a andar, a passos rpidos, afastando-se do caminho batido e seguindo em plena neve. Tinha a pistola na mo, no extremo do brao estendido, como se receasse ferir-se a si prprio com aquele engenho. Mantinha o brao esquerdo estudadamente  retaguarda, pois o seu desejo seria servir-se dele para firmar o direito, e sabia que isso no era permitido. Depois de ter dado cinco ou seis passos, como se afastasse do caminho traado, olhou para os ps, lanou um rpido olhar a Dolokov e disparou, puxando o gatilho como lhe tinham ensinado. Como no esperava ouvir uma detonao to forte, estremeceu, depois sorriu com a impresso que experimentara e ficou imvel. O fumo, que o nevoeiro ainda tomou mais espesso, no o deixou ver fosse o que fosse nos primeiros momentos; mas no teve a percepo da segunda detonao, que ele esperava. Ouviram-se apenas os passos precipitados de Dolokov e a sua silhueta desenhou-se atravs do nevoeiro. Tinha uma mo apoiada no flanco esquerdo e com a outra segurava a pistola descada. Estava plido. Rostov correu para ele disse-lhe qualquer coisa.
     - No... - respondeu Dolokov, de dentes cerrados. - No.., ainda no acabou. - E dando ainda alguns passos titubeantes e, trpegos, at junto do sabre, caiu no cho ao lado deste. Tinha a mo esquerda ensanguentada, que limpou ao uniforme, apoiando-se nela. O rosto estava plido, sombrio e todo trmulo.
     - Faam fa... - principiou ele, sem poder concluir a frase. Faam fa... - articulou com esforo,
     Pedro, com um soluo, precipitou-se e ia a ultrapassar o espao marcado como limite quando Dolokov gritou: - Na baliza! - e Pedro, percebendo do que se tratava, deteve-se junto do sabre. No havia mais de dez passos a separ-los. Dolokov meteu a cabea na neve e encheu a boca avidamente, em seguida soergueu o busto, endireitou-se e sentou-se, procurando um ponto de apoio. Continuava a mastigar e a chupar a neve que metera na boca. Os lbios tremiam-lhe, mas no deixava de sorrir, e os olhos brilhavam-lhe com a fora que fazia e com o exaspero que sentia no meio da luta que travava consigo prprio. Levantou a pistola e esforou-se por apontar.
     - Ponha-se de perfil, cubra-se com a pistola - disse Nesvitski.
     - Proteja-se! - no pde deixar de gritar o prprio Denissov, testemunha do adversrio.
     Pedro, com o seu afvel sorriso de piedade e de pesar, sem defesa, estendia os braos e as pernas, oferecendo precisamente de frente a Dolokov o seu largo peito, enquanto o fitava com tristeza. Denissov. Rostov e Nesvitski fecharam os olhos. Ao mesmo tempo que a detonao ouviu-se Dolokov:
     - Errei o alvo! - gritou com clera, voltando a deixar-se cair, sem foras, a cara de rojo na neve.
     Pedro apertou a cabea entre as mos, voltou costas e desapareceu no meio do pinheiral, dando grandes passadas em plena neve e dizendo em voz alta palavras sem sentido:
     - Estpido... Estpido! A morte... Mentira repetia ele, o rosto descomposto.
     Nesvitski foi ao seu encontro, deteve-o, e reconduziu-o a casa. Rostov e Denissov levaram o ferido.
     Dolokov, de olhos fechados, estava estendido no tren e nada respondia ao que lhe perguntavam. No entanto, ao chegarem Moscovo, veio repentinamente a si, e, erguendo penosamente cabea, pegou na mo de Rostov, que estava a seu lado. Este sentiu-se impressionado pela fisionomia completamente transformada e pelo ar ao mesmo tempo solene e enternecido de Dolokov.
     - Ento, como te sentes? - perguntou-lhe Rostov.
     - Mal! Mas no  disso que se trata, meu amigo - disse-lhe ele, numa voz entrecortada, - Onde estamos? Em Moscovo, bem sei. Eu, no  nada, mas ela, matei-a, matei-a... Ela no vai suportar isto. Ela no o suportar...
     - Quem? - perguntou Rostov.
     - Minha me, minha me, o meu anjo, o meu anjo adorado, minha me...
     E Dolokov chorava, apertando a mo do amigo.
     Quando se sentiu mais calmo explicou a Rostov que vivia com a me, e que se a me o visse assim moribundo no suportaria o golpe. Suplicou-lhe que a fosse preparar.
     Rostov cumpriu a sua misso, e assim veio a saber, com grande surpresa sua, que Dolokov, essa peste do Dolokov. Esse brigo do Dolokov, vivia em Moscovo na companhia de sua velha me e de sua irm corcunda e que era o mais carinhoso dos filhos e dos irmos.
     

     
     
     
     Captulo VI
     
     Pedro, nesses ltimos tempos, raramente se encontrava sozinho com a mulher. Tanto em Petersburgo como em Moscovo, a casa estava sempre cheia de gente. Na noite que se seguiu  do duelo, como lhe acontecia muitas vezes, no se retirou para o seu quarto de cama, mas ficou no imenso gabinete do pai, nesse mesmo gabinete onde este falecera. Deitou-se num div, disposto a dormir, a fim de esquecer tudo que acontecera, mas no lhe foi possvel. Elevou-se dentro de si subitamente uma tal tempestade de sentimentos, de pensamentos, de recordaes as mais diferentes, que no s lhe no foi possvel passar pelo sono, como no pde sequer estar deitado, e teve de erguer-se do div para percorrer a sala de um lado para outro, em grandes passadas. Lembrava-se dela nos primeiros tempos de casados, os ombros nus, os olhos pisados de paixo, e imediatamente via a seu lado o bonito e cnico rosto de Dolokov, atrevido e escarninho, exactamente como no dia do banquete, e logo em seguida se lhe deparava esse mesmo rosto plido, trmulo, doloroso, o rosto que tinha quando rodopiou e caiu, pesado, sobre a neve.
     Que aconteceu?, perguntava a si mesmo. Matei o amante, sim, matei o amante de minha mulher. Eis o que se passou. E porqu? Como  que eu desci a isto? Mas porque casaste com ela?, respondeu-lhe uma voz ntima.
     Mas em que  que procedeste mal?, perguntava ele a si prprio. Nisto apenas: em seres casado sem amor; em que a enganaste enganando-te a ti prprio. E esse instante em que, depois do jantar, em casa do prncipe Vassili, ele lhe dissera, finalmente, aquelas palavras que se recusavam a sair-lhe da boca: Amo-a, represento u- se-lhe vivo na sua memria.  dai que vem todo o mal.
     Eu sentia ento, continuou ele de si para consigo, eu bem sentia ento que no era isso que eu lhe devia ter dito, que eu no tinha o direito de falar assim. E, no entanto, nem por isso deixou de acontecer o que aconteceu.
     Lembrava-se da lua-de-mel, e esta recordao fazia-o corar. Um incidente, sobretudo, o humilhava e o enchia de vergonha: pouco tempo depois do casamento, viera uma manh ao seu gabinete, com um roupo de seda, ao sair do quarto de cama. Encontrara a o seu intendente principal, que respeitosamente lhe fizera uma vnia, e que, ao v-lo naquele traje ntimo, se permitira um ligeiro sorriso, como a testemunhar-lhe a parte que tomava na felicidade do seu amo.
     E quantas vezes me senti orgulhoso dela, orgulhoso da sua altiva beleza, do seu tacto mundano, pensava. Sentia-me orgulhoso de a ver to inacessvel. E havia razes de sobra para me sentir orgulhoso! De mim para comigo dizia que no a compreendia. Quantas vezes, ao pensar no seu carcter, eu supunha que a culpa era minha, que era eu quem no compreendia a sua serenidade perptua, o seu ar sempre satisfeito, a ausncia de toda a espcie de preferncias ou desejos, quando a soluo do enigma consistia apenas em que ela era uma mulher dissoluta. E quando encontrei a soluo, tudo se tomou claro! Anatole ia procur-la para lhe pedir dinheiro emprestado e beijava-lhe os ombros nus. Ela no lhe dava dinheiro, mas consentia que ele lhe beijasse os ombros. Se o pai, gracejando, lhe excitava o cime, ela respondia-lhe, sorrindo, tranquila, no ser to parva que estivesse disposta a sentir cimes. Pedro pode fazer o que quiser, dizia ela de mim. E um dia em que eu lhe perguntei se no sentia qualquer indcio de gravidez, ps-se a rir com um ar distante, dizendo-me no ser to parva que estivesse disposta a ter filhos, e que, fosse como fosse, filhos meus  que ela nunca teria.
     Lembrou-se depois da trivialidade das suas ideias, da vulgaridade das expresses que lhe eram familiares, no obstante a educao que tivera num meio altamente aristocrtico: No sou to parva como isso... Experimenta e vers... Ora vai passear. Muitas vezes, considerando o xito de que ela gozava junto das pessoas dos dois sexos, jovens e velhos. Pedro no podia compreender porque a no amava. No, nunca a amei, dizia para consigo. Eu sabia muito bem que ela era uma mulher dissoluta, mas nunca tive coragem de o reconhecer. E agora, l estava Dolokov, meio deitado na neve, procurando sorrir, talvez a morrer, respondendo com uma falsa bravata s minhas palavras de arrependimento!
     Pedro fazia parte do nmero das pessoas que, apesar da fraqueza natural do seu carcter, nunca procuram confidentes dos seus desgostos. Ruminava-os sempre consigo prprio.
     Ela, s ela, s ela  culpada de tudo, prosseguia para consigo mesmo. Mas que hei-de fazer? Porque  que me prendi a ela? Porque  que lhe disse Amo-a, quando era mentira, e, pior ainda, porqu essa mentira? A culpa  minha e devo aguent-la... Eh! O qu? A desonra do meu nome, uma vida infeliz? Eh!, que vem a ser tudo isto? A vergonha do nome, a honra, tudo isso  relativo, tudo isso depende do meu prprio ser.
     Eles executaram Lus XVI, reflectia, porque eles eram de opinio de que ele tinha faltado  sua palavra e que era um criminoso, e eles tinham razo do seu ponto de vista, como tinham razo igualmente os que sofreram por ele o martrio e lhe deram um lugar ao lado dos santos. Depois executaram Robespierre, porque era um dspota. Quem  que tinha razo? Quem  que estava em erro? Ningum. Vive enquanto ests vivo: amanh morrers, como eu podia ter morrido h uma hora. Valer a pena atormentar-se uma pes3oa quando a vida no  mais que um segundo relativamente  eternidade?
     Precisamente nesse instante, quando ele se sentia calmo com todos estes raciocnios, surgiu ela, de sbito, na sua imaginao, e precisamente tal como era nesses momentos em que lhe testemunhava o seu mentiroso amor. Sentiu o sangue afluir-lhe ao corao e de novo se viu obrigado a levantar-se, a caminhar, a partir e a dilacerar tudo o que lhe caia nas mos. Porque  que eu lhe disse: amo-a?, repetia a todo o momento. E ao formular-se pela dcima vez, pelo menos, esta interrogao, ps-se a rir sozinho, lembrando-se da frase de Molire: Mas em que vespeiro, cos diabos, se havia de meter!
     Durante a noite tocou a campainha para chamar o criado de quarto e mandou-o preparar as bagagens, a fim de partirem Para Petersburgo. Pensava ser-lhe impossvel voltar a encontrar-se frente a frente com a mulher. Resolveu partir no dia seguinte e deixar-lhe uma carta onde lhe diria estar na inteno de se separar dela para sempre.
     Pela manh, quando o criado de quarto entrou no seu gabinete com o caf. Pedro, estendido na otomana, dormia, com um livro aberto na mo. Acordou sobressaltado e esteve muito tempo assustado antes de perceber onde se encontrava.
     - A senhora condessa manda perguntar se Vossa Excelncia a pode receber - disse o criado de quarto.
     Ainda Pedro no tivera tempo de pensar na resposta e j a condessa em pessoa, num roupo de cetim branco, bordado a prata, e em cabelo, com o lindo rosto coroado em diadema pelas suas duas espessas tranas, penetrava no gabinete com um ar tranquilo e imponente. No entanto, na sua fronte de mrmore, ligeiramente arqueada, havia uma ruga de clera. Com a sua calma soberana no quis falar diante do criado de quarto. Ouvira falar do duelo e viera para conversar sobre o caso. Esperou que o criado pousasse a bandeja e sasse. Pedro olhava-a timidamente atravs das lunetas, e, tal qual uma lebre rodeada por uma matilha de ces que se mantm de orelha murcha, diante do inimigo. Pedro fingiu continuar a ler. Depois, sentindo o absurdo e a impossibilidade da sua atitude, lanou-lhe ainda um olhar tmido. Ela no se sentou, mas olhando-o e sorrindo com, desdm, aguardou que o criado sasse.
     - Que vem a ser isto agora? Que fez? Estou a perguntar-lhe! - disse-lhe ela severamente.
     - Eu? Que fiz eu? - balbuciou Pedro.
     - Ora aqui est o grande valente! Ento, diga alguma coisa, que significa esse duelo? Que quis provar com isso? Ento? Estou falar consigo!
     Pedro revolveu-se pesadamente no div, abriu a boca, mas no pde articular palavra.
     - Visto que no responde, sou eu quem vai falar - prosseguiu Helena. - Acredita em tudo o que lhe dizem. Contaram-lhe... - Despediu uma gargalhada. - que Dolokov era meu amante.- Falava francs e disse a palavra sem qualquer embarao, com o seu cinismo de linguagem habitual.- E acreditou no que lhe disseram! E agora que provou com isto? Que provou com este duelo? Isto apenas: que o senhor  um asno: coisa que toda a gente j sabia. E para chegar a que concluso? Para fazer de mim a mofa de toda Moscovo; para fazer com que se diga que, em estado de embriaguez, fora de si, provocou em duelo um homem de quem tinha cimes sem razo... - Helena ia erguendo a voz progressivamente e ia aquecendo.-, um homem que vale mais do que o senhor de todos os aspectos...
     - Hem!... Hem!... - regougou Pedro, piscando os olhos, sem a olhar e sem fazer um movimento.
     - E que o leva a pensar que ele  mexi amante?... Diga!  por me agradar a companhia dele? Se o senhor fosse mais espirituoso e mais amvel, talvez preferisse a sua.
     - Basta.., peo-lhe - exclamou Pedro, em voz anelante.
     - E porque  que eu me hei-de calar? Nada me impede de falar e de proclamar que deve haver muito poucas mulheres com um marido como o senhor que no tivessem arranjado amantes, coisa que alis no fiz.
     Pedro quis dizer uma palavra e olhou-a com uma expresso to estranha que ela no a compreendeu, depois voltou a deitar-se. Sofria fisicamente naquele momento: tinha o peito opresso e no podia respirar. Dava-se conta de que era preciso fazer fosse o que fosse para pr ponto final quele sofrimento, mas ao mesmo tempo o que ele Queria fazer era terrvel de mais.
     -  melhor que nos separemos - disse ele, numa voz entrecortada.
     - Separemo-nos, se assim o quer, mas com a condio de me dar com que viver... - disse Helena. - Separarmo-nos, como se isso me metesse medo!
     Pedro saltou do div e lanou-se, cambaleante, sobre ela.
     - Eu mato-te! - gritou, e, agarrando, com uma fora que ele prprio desconhecia, no tampo de mrmore da mesa, deu um passo para ela, agitando-o no ar.
     Helena teve uma expresso de terror: soltou um grito agudo e atirou-se para trs. O sangue do pai tinha falado no ntimo de Pedro. Sentia a embriaguez e o prazer da raiva. Atirou com o tampo de mrmore, que se partiu em pedaos, e, de punhos cerrados, caminhou para ela, gritando: - Sai! - numa voz to terrvel que toda a casa a ouviu repassada de terror. S Deus sabe o que ele teria sido capaz de fazer naquele momento se Helena no tivesse fugido.
     Uma semana mais tarde Pedro deu  mulher uma procurao para a administrao de todos os seus bens na Grande Rssia, isto , mais de metade da sua fortuna, e sozinho dirigiu-se a Petersburgo.
     

     
     
     
     Captulo VII
     
     Dois meses tinham decorrido desde que se soubera em Lissia Gori da batalha de Austerlitz e do desaparecimento do prncipe Andr. Apesar de todas as cartas recebidas por intermdio da Embaixada e de todos os inquritos, o seu corpo no fora encontrado e o seu nome no figurava na lista dos prisioneiros. O pior para a famlia era que no deixava de subsistir a esperana de que ele tivesse sido recolhido no campo de batalha pelos habitantes e de que talvez se encontrasse algures, curado ou moribundo, s, no meio de estranhos, impossibilitado de dar notcias. Os jornais, por intermdio dos quais o velho prncipe tivera conhecimento da derrota, tinham mencionado, e, como sempre, demasiado lacnica ou vagamente, que os Russos, depois de brilhantes combates, haviam sido obrigados a bater em retirada e que esta se efectuara em boa ordem. Ele compreendera, atravs desta verso oficial, que os Russos tinham sido batidos. Uma semana depois das notcias dos jornais recebera uma carta de Kutuzov informando-o do destino do filho.
     
     O seu filho - escrevia ele - diante de mim, com a bandeira na mo,  frente do seu regimento, caiu como um heri digno de seu pai e da sua ptria. Muito lamentamos, tanto eu como todo o exrcito, no podermos confirmar ainda se morreu ou se est vivo. Ainda se no perdeu a esperana de que o seu filho esteja vivo, pois a verdade  que de outro modo seria de esperar que o seu nome viesse mencionado entre os dos oficiais cujos corpos foram encontrados no campo de batalha, e cuja lista me foi entregue.
     
     Tendo recebido estas notcias j tarde, pela noitinha, quando estava s no seu gabinete, o velho prncipe, no dia seguinte, deu, como de costume, o seu passeio matinal; mas conservou-se taciturno diante do intendente, do jardineiro e do arquitecto, e, posto tivesse aspecto de encolerizado, no disse uma palavra a ningum.
     Quando,  hora habitual, entrou a princesa Maria no seu gabinete, estava ele ao tomo, como de costume, e no voltou sequer a cabea.
     - Ah!, princesa Maria! - exclamou subitamente, numa voz que no era a sua voz habitual, atirando fora a goiva. A roda continuou a girar, graas  velocidade adquirida. Por muito tempo Maria se lembrou do estridor da roda que lentamente se desvanecia e que para ela passou a fazer parte de tudo o que depois se seguiu.
     Aproximou-se, viu a expresso do rosto do pai e sentiu-se de repente desfalecer. Pelos seus olhos perpassou como que uma nuvem. Aquele rosto, no propriamente triste nem abatido, mas mau e como que reflectindo uma luta sobre-humana, fazia-lhe adivinhar uma tremenda desgraa suspensa sobre ela e prestes a esmag-la, a maior desgraa que ainda conhecera, uma desgraa irreparvel, inconcebvel, a morte dum ser amado.
     - Meu pai! Andr! - exclamou a desajeitada e desgraciosa princesa, mas com um tal encanto indizvel de dor e de esquecimento de si prpria que o pai po pde suportar o seu olhar e se afastou para chorar.
     - Tenho notcias. No est nem entre os prisioneiros nem entre os mortos. Se Kutuzov escreve - prosseguiu com violncia e numa voz forte, como se, por esta violncia, quisesse afastar a filha -,  que foi morto.
     A princesa no caiu nem desmaiou. Estava j plida, mas quando soube a notcia o seu rosto transformou-se e raios emanaram dos seus belos olhos luminosos. Dir-se-ia que uma alegria, uma alegria superior, independente das tristezas e das alegrias deste mundo, submergia a poderosa dor que sentia. Esqueceu todo o medo que tinha do pai, aproximou-se dele, pegou-lhe nas mos, puxou-o para si e passou-lhe um brao pelo pescoo seco e nodoso.
     - Meu pai - disse ela. - No se afaste de mim, choremos os dois juntos.
     - Os miserveis, os briges! - exclamou o velho, afastando dela a cara - Perdem o exrcito, fazem morrer homens! E para qu? Bom, vai prevenir a Lisa.
     A princesa deixou-se cair sem foras numa poltrona, junto do pai, e rompeu em soluos. Via outra vez naquele momento o irmo no instante em que ele se fora despedir de ambas, dela e de Lisa, o seu ar carinhoso e ao mesmo tempo altivo. E via-o de novo no momento em que dependurava ao pescoo, gracejando, mas muito comovido no fundo, a pequena imagem que ela lhe dera. Teria f? Ter-se-ia arrependido da sua incredulidade? Estar ele agora na manso do repouso e da felicidade eternas?, dizia de si para consigo.
     - Meu pai, diga-me, como foi? - perguntou, no meio das suas lgrimas.
     - Vai, vai, ficou na batalha em que foram mortos os melhores soldados russos, onde pereceu a glria russa. Vai, princesa Maria. Previne a Lisa. Eu tambm vou, tambm vou contigo.
     Quando a princesa Maria voltou dos aposentos do pai, a princesinha estava  sua mesa de costume e olhou para a cunhada com esse seu ar concentrado, misto de contentamento e de tranquilidade ntima, peculiar s mulheres no perodo da gravidez. Percebia-se bem que os seus olhos no viam a princesa Maria, mas se fixavam no mais profundo dela prpria, no acontecimento feliz e misterioso que estava a preparar-se.
     - Maria - disse ela, pousando o seu bordado e recostando-se na poltrona -, deixa ver a tua mo.
     Pegou na mo da princesa e pousou-a no seu ventre. Os olhos sorriam-lhe enquanto esperavam, o lbio sombreado por um ligeiro buo soergueu-se-lhe e assim ficou, como se fosse uma criana feliz.
     Maria ajoelhou diante dela e escondeu o rosto nas pregas do vestido da cunhada.
     - Aqui, aqui? Sentes? Que engraado! E sabes. Maria, vou gostar tanto dele - dizia Lisa, os olhos cintilantes de felicidade. Maria no podia erguer a cabea. Chorava.
     - Que tens tu. Macha?
     - Nada... Senti-me triste.., sim, ao pensar no Andr - disse ela, sufocando as lgrimas nos joelhos da cunhada.
     Por vrias vezes durante aquela manh tentou prepar-la e de cada vez que o tentou as lgrimas no a deixaram falar. Esse pranto, que a princesinha no percebia, atormentava-a, apesar de pouco perspicaz. Nada disse, mas teve um olhar inquieto, como quando se espera qualquer coisa. Antes da refeio, viu entrar o velho prncipe, que sempre lhe metera medo, o qual, desta vez, trazia uma cara especialmente m e inquieta e voltou a sair sem dizer palavra. Ela pousou os olhos em Maria, depois quedou-se pensativa, com essa expresso recolhida em si prpria to vulgar nas mulheres grvidas, e de sbito rompeu a chorar. - Por certo tm notcias do Andr - disse ela.
     - No, bem sabes que ainda no houve tempo para isso, mas meu pai anda inquieto e eu atormentada.
     - Ento, no se sabe nada?
     - No, nada - respondeu Maria, olhando firmemente com os seus luminosos olhos.
     Estava resolvida a nada lhe dizer e a persuadir o pai a que ocultasse a recepo das ms notcias at ao momento do parto da princesinha, para muito breve. Tanto Maria como o velho prncipe, cada um a seu modo, l iam suportando e escondendo a sua dor. O prncipe no queria esperar: decidira que Andr estava morto, e, posto houvesse enviado  ustria um dos seus subordinados, com a incumbncia de descobrir o rasto do filho, j encomendara em Moscovo um monumento que pensava mandar erigir no parque e dizia a toda a gente que ele fora morto. Procurava fazer a vida de sempre, sem alterar coisa alguma aos seus hbitos, mas as foras atraioavam-no: os seus passeios eram menos longos, comia e dormia menos e tornava-se mais fraco de dia para dia. Quanto  princesa Maria, essa continuava a ter esperana. Rezava pelo irmo como se ele estivesse vivo e a todo o momento esperava a nova do seu regresso.
     

     
     
     
     Captulo VIII
     
     - Minha boa amiga - dizia a princesinha na manh do dia 19 de Maro, depois do almoo, e o seu lbio, sombreado por um ligeiro buo, solevava-se, como de costume. Mas, como desde a chegada da terrvel nova tanto os sorrisos como o tom das vozes e at o prprio andar das pessoas em casa s acusavam aflio, dir-se-ia que tambm ela, desta vez, afinara pelo tom geral, sem, alis, perceber qual a razo daquela tristeza comum, e o seu sorriso reflectia a mgoa de todos.
     - Minha boa amiga, estou com medo de que o fruschtique (A palavra frichtik (do alemo frukstuck)  muitas vezes Usada pelo povo em vez da palavra russa Zavtrak (pequeno-almoo). (N, dos T.) como diz o nosso cozinheiro Foka, desta manh, me tenha feito mal.
     - Que tens, minha pomba? Ests to plida! Ah! Que plida ests! - disse, assustada, a princesa Maria, aproximando-se, no seu passo lento e mole, da jovem princesinha.
     - Excelncia, no seria melhor mandar chamar Maria Bogdanovna? - perguntou-lhe uma das criadas de quarto ento presentes. Maria Bogdanovna era a parteira do stio, que h quinze dias se instalara em Lissia Gori.
     - Realmente - replicou Maria - talvez seja necessrio. Eu vou. Coragem, meu anjo! - E deu um beijo a Lisa, disposta a sair.
     - Ah!, no, no! - exclamava a princesinha, e no seu rosto, alm da palidez e da dor fsica, reflectia-se a infantil apreenso pelas dores inevitveis.
     - No,  do estmago... Dize que  do estmago, dize Maria, dize...- E ps-se a chorar como uma criana caprichosa que sofre e contorce os braos com certo exagero.
     Maria saiu a correr em busca de Maria Bogdanovna.
     - Meu Deus! Meu Deus! Oh! - continuava a gemer a paciente.
     No caminho encontrou a parteira, que vinha ao seu encontro, esfregando as mos ndias e brancas, com uma expresso importante e serena.
     - Maria Bogdanovna! Parece-me que comeou - disse Maria fixando a parteira com os olhos assustados e muito abertos. 
     - Pois ainda bem - volveu-lhe Maria Bogdanovna, sem alterar o passo. - Isto so coisas, menina, so coisas de que as meninas no entendem.
     - E o mdico de Moscovo sem chegar! - suspirou a princesa. Para dar satisfao aos desejos de Lisa e do prncipe Andr, tinham mandado vir, para aquele transe, um mdico parteiro de Moscovo, e a todo o momento esperavam a sua chegada.
     - No  nada, princesa, no se apoquente - disse Maria Bogdanovna -, mesmo sem o mdico tudo h-de correr bem. Maria, dos seus aposentos, ouviu, cinco minutos depois, que transportavam qualquer coisa pesada. Viu os criados levar para c, quarto de cama o div de couro habitualmente no gabinete do prncipe Andr. Os homens que o levavam tinham um aspecto calmo e solene.
     Maria, sozinha no seu quarto, era toda ouvidos para o que estava a ocorrer em casa, abrindo a porta de quando em quando, sempre que algum passava perto, e observando o movimento do corredor. Vrias mulheres passaram e voltaram a passar, num passo tranquilo; olhavam para a princesa e afastavam-se. Mari, no teve coragem de as interrogar, voltou a fechar a porta, recolheu-se outra vez aos seus aposentos, tomou a sentar-se na sua poltrona, pegou no seu livro de oraes e ajoelhou-se diante das imagens. Infelizmente, com grande surpresa sua, verificou que a orao lhe no trazia sossego. De sbito, a porta do quarto abriu-se, e no limiar, com um leno pela cabea, surgiu a velha ama de Maria. Praskovia Saviclona, que, por ordem expressa do prncipe, quase nunca entrava nos aposentos da princesa.
     - Vim fazer-te companhia. Machenka - disse a ama - e aqui tens as velas do casamento dos prncipes que eu trouxe comigo para as acender diante dos Santos, meu anjo - acrescentou, num suspiro,
     - Ah, como eu gosto de te ver, ama.
     - Deus  misericordioso, minha querida menina.
     A ama acendeu, diante do oratrio, as velas, envoltas em papel dourado, e sentou-se  porta a fazer meia. Maria pegou num livro e ps-se a ler. Quando se ouviam passos ou vozes, a princesa e a ama olhavam uma para a outra, aquela com olhos assustados e de quem interroga, esta com urna expresso serena. As impresses que a princesa Maria estava a sentir eram as mesmas que a pouco e pouco se iam apoderando de toda a gente da casa. Dando ouvidos  crendice segundo a qual quanto menos as pessoas atentarem nos sofrimentos da parturiente tanto melhor ela passa, toda a gente fingia ignorar o que sucedia. Ningum falava no parto mas todo o pessoal da casa, alm da sua gravidade costumada e das boas maneiras habituais entre a gente do prncipe, traa um ar preocupado, modos carinhosos, como se aguardassem um grande e incompreensvel acontecimento que iria realizar-se dentro de instantes.
     Na grande quadra destinada  criadagem tinham deixado de se ouvir risos. No vestbulo, os lacaios, calados, estavam prontos para tudo. No compartimento dos servos haviam-se acendido as lutchines e as candeias e ningum dormia. O velho prncipe, no seu gabinete, andava de um lado para o outro na ponta dos ps e enviara Tikon colher informaes junto de Maria Bogdanovna.
     - Diz-lhe apenas: o prncipe mandou-me perguntar-te o que h de novo, e vens logo contar-me o que ela te disser.
     - Comunica ao prncipe que os trabalhos de parto j principiaram - respondera Maria Bogdanovna, olhando significativamente para o mensageiro.
     Tikon foi transmitir o recado ao prncipe.
     - Est bem - tomou-lhe este, fechando a porta, e Tikon, c fora, no voltou a ouvir o mais pequeno rudo no gabinete.
     Pouco depois voltou a entrar no aposento sob o pretexto de arranjar as velas. Ao ver o amo estendido no div ficou um instante a observar-lhe o rosto desassossegado, abanou a cabea, aproximou-se dele, sem dizer palavra, beijou-o no ombro, e saiu sem tocar nas velas nem dizer porque havia entrado no gabinete. O mais solene dos mistrios deste mundo continuava a decorrer. A tarde passou, veio a noite. O sentimento de expectativa e de enternecimento de todos perante o incompreensvel, em vez de se atenuar aumentou. Ningum tinha vontade de dormir.
     Era uma daquelas noites de Maro em que o Inverno parece querer recuperar os seus direitos, desencadeando, com uma fria desenfreada, as suas ltimas tempestades de neve. Ao encontro do mdico de Moscovo, esperado a todo o momento, fora mandado um tren  estrada real, e alguns homens a cavalo, munidos de lanternas, haviam sido colocados  entrada do caminho vicinal com a misso de o guiarem atravs dos atoleiros e das poas de neve fundida.
     A princesa Maria h muito j que pousara o livro que estava lendo. E ali continuava sentada, sem dizer nada, os olhos luminosos fitos no rosto enrugado da ama, que ela conhecia em seus mais pequeninos detalhes, nas madeixas dos seus cabelos brancos, que lhe saam do leno amarrado  cabea, e nos refegos do seu queixo.
     A ama Savichna, sempre a fazer meia. Ia contando, na sua voz tranquila, sem que ela prpria ouvisse ou entendesse o que estava a dizer, uma histria que cem vezes narrara j, isto , a maneira como a falecida princesa me dera  luz a princesa Maria, em Kichiniev, assistida apenas por uma matrona da Moldvia.
     - Deus  misericordioso; no so precisos doktures (Nesta poca, os mdicos da Rssia eram quase todos estrangeiros, especialmente alemes, (N, dos T.) para nada.
     De sbito um golpe de vento veio sacudir o caixilho da janela (em obedincia s ordens do prncipe, assim que chegavam as andorinhas eram retirados os duplos caixilhos das janelas), e, abalando o fecho mal premido, afastou os cortinados de seda e apagou a vela, ao mesmo tempo que o frio e a neve penetravam no quarto. A princesa Maria estremeceu; a ama pousou a meia e, aproximando-se da janela, debruou-se e segurou o caixilho aberto. O vento frio aoitava-lhe as pontas do leno da cabea e os caracis brancos dos cabelos.
     - Princesa, minha filha, vem algum pela avenida! - exclamou ela, segurando o caixilho sem o fechar. - E traz lanternas. Naturalmente  o doktur...
     - Ah!, meu Deus! Louvado seja Deus! - exclamou Maria.-  preciso ir ao seu encontro; no sabe russo. 
     Atirou um xale para os ombros e saiu ao encontro dos visitantes. Ao atravessar o vestbulo viu, atravs da janela, uma carruagem, de lanternas acesas, parada diante da escadaria. Foi at  escada. No corrimo havia uma lanterna cuja luz o vento agitava. Filipe, o criado, de aspecto alterado, estava em baixo, no patamar, com uma lanterna na mo. Mais abaixo ainda, no cotovelo da escadaria, ouviam-se passos abafados. E uma voz falava, no fie todo desconhecida da princesa Maria.
     - Louvado seja Deus! - dizia a voz. - E meu pai?
     - Foi-se deitar - respondia a voz de Demiane, o mordomo, que descia at ao fundo da escadaria.
     A voz ainda pronunciou mais algumas palavras, a que Demian,, respondeu e os passos abafados aproximaram-se do cotovelo invisvel da escadaria.
      o Andr!, exclamou para si mesma a princesa Maria. No, no pode ser, seria realmente extraordinrio!, e no mesmo momento em que estes pensamentos lhe atravessavam o esprito surgiu no patamar onde estava o criado com a luz a silhueta do prncipe Andr, com a gola da pelia toda salpicada de neve. Sim, era ele, mas plido e emagrecido, o rosto mudado, os traos alterados e estranhamente amaciados. Galgou a escada e abraou-se  irm.
     - No receberam a minha carta? - perguntou, e sem aguar- dar resposta, que lhe no dariam, naturalmente, pois a princesa estava incapaz de falar, voltou-se para o mdico, que encontrara na ltima muda, e na sua companhia continuou a subir P, escada, tomando outra vez a irm nos braos.
     - Que estranho acaso! - exclamou ele .- Macha, minha querida! - e depois de tirar a pelia e as botas, penetrou nos aposentos da esposa.
     

     
     
     
     Captulo IX
     
     A princesinha, de touca branca, estava reclinada num monte de almofadas. As dores tinham diminudo. As madeixas de seus cabelos negros emolduravam-lhe as faces febris e cobertas de suor. Na sua encantadora boquinha rosada e entreaberta, com o lbio sombreado pelo ligeiro buo, havia um sorriso alegre.
     O prncipe Andr entrou e parou diante dela, junto do div sobre o qual jazia. Os olhos dela, com uma expresso infantil, detiveram-se nele, perturbados e cheios de susto, sem mostrar qualquer nova expresso. Gosto de toda a gente, nunca fiz mal, a ningum, porque  que sofro assim? Ajudem-me!, diziam os seus olhos,
     Via o marido, mas no podia compreender o que significava aquela apario sbita. O prncipe Andr contornou o div e deps-lhe um beijo na testa.
     - Minha adorada - disse-lhe ele, usando uma palavra que nunca costumava empregar. - Deus  misericordioso...
     A princesinha interrogou-o com os olhos, num momo de criana mimada. Esperava que me ajudasses, e nada, nada. s como os outros!, diziam os olhos dela. No estava admirada de o ver: no compreendia porque  que ele tinha aparecido. A chegada dele no tinha a mais pequena relao com os sofrimentos que a torturavam e com o consolo que esperava. As dores recomearam, e Maria Bogdanovna pediu ao prncipe que sasse.
     O mdico entrou no quarto. O prncipe Andr saiu e dirigiu-se ao quarto da irm. Ali comearam a falar em voz baixa, mas a conversa interrompia-se a todo o momento. Escutavam e esperavam.
     - V, meu amigo - disse-lhe a princesa Maria.
     Andr voltou para os aposentos da mulher e sentou-se no quarto contguo ao dela, disposto a esperar. Uma mulher com o rosto transtornado saiu do quarto e ao ver o prncipe Andr ficou perturbada. Este apertou a cabea nas mos e assim esteve alguns minutos. Queixumes que faziam lembrar gemidos de um animal ferido ouviram-se atravs da parede. Andr levantou-se e aproximou-se da porta, na inteno de a abrir. Algum a segurava pela parte de dentro.
     - No pode entrar, no pode entrar! - arquejou uma voz assustada.
     Ps-se a andar no quarto de um lado para o outro. Os gemidos cessaram: decorreram ainda alguns segundos. De repente ouviu-se um grito pavoroso, que nada tinha de humano: no era ela quem assim podia gritar.
     Andr acorreu precipitadamente: o grito extinguira-se; agora era um vagido de criana que se ouvia.
     A que propsito esta criana?, disse Andr de si para consigo no primeiro momento. Uma criana? Que criana?... Porque  que est aqui uma criana? Ser um recm-nascido?
     De sbito compreendeu a alegria que este grito significava; os olhos encheram-se-lhe de lgrimas, e apoiado ao parapeito da janela principiou a soluar como se fosse uma criana. A porta abriu-se. O mdico, com as mangas arregaadas, sem redingote, plido e um estremecimento nervoso na cara, entrou no quarto onde estava o prncipe Andr. Este quis interrog-lo, mas ele olhou-o com um ar alucinado e voltou a sair sem dizer palavra. Depois apareceu uma mulher, mas, ao ver o prncipe, quedou-se, indecisa, no limiar da porta. Andr entrou no quarto. A mulher estava estendida, morta, na mesma posio em que ele a vira cinco minutos antes, e a mesma expresso, no obstante a fixidez do olhar e a palidez das faces, estampava-se naquele encantador rosto infantil com o lbio sombreado por uma ligeira penugem.
     Gosto de todos e no fiz mal a ningum, que  que fizeram de mim?, dizia aquele encantador e lastimoso rosto de morta. A um canto qualquer coisa de nfimo e vermelho rosnava e choramingava entre as mos brancas e trmulas de Maria Bogdanovna.
     Duas horas mais tarde o prncipe Andr entrava, em lentos passos, no gabinete do pai. O velho no dormia. Estava  porta, e assim que esta se abriu tomou entre as suas mos rudes e secas, como se fossem tenazes, o pescoo do filho e soluou como uma criana.
     No dia seguinte, pela manh, foi o enterro da princesinha, e, para lhe dizer adeus. Andr subiu os degraus do catafalco e olhou-a dentro do atade. Ela tinha a mesma cara, mas de olhos fechados. Ali!, que  que fizeram de mim?, continuava a dizer, e Andr sentiu no seu ntimo como que uma lacerao e confessou-se a si prprio culpado de um pecado irreparvel e inesquecvel. No podia chorar. O velho tambm se aproximou e beijou a mozinha de cera da defunta, sossegadamente estendida, e o seu rosto pareceu-lhe dizer tambm: Ah!, porque  que me tratou assim? E o velho, ao ver a expresso deste rosto, voltou a cara, iracundo.
     Passaram-se cinco dias, e foi o baptizado do principezinho Nicolau Andrelevitch. A parteira segurava com o queixo as roupinhas da criana, enquanto o sacerdote, com uma pena de pato, ungia as palmas das mos e as plantas dos ps vermelhas e enrugadas da criana.
     O padrinho, que era o av, todo trmulo, com receio de o deixar cair, deu a volta  velha pia baptismal com o nefito nos braos e foi entreg-lo  madrinha, a princesa Maria. Andr, tremendo de susto, com receio de que afogassem a criana, ficara na sala contgua, aguardando o fim da cerimnia. Foi com alegria que o olhou quando a ama lho trouxe, e abanou a cabea satisfeito quando esta lhe disse que o pedao de cera com cabelos da criana lanado na pia no fora ao fundo, mas ficara  tona de gua.
     

     
     
     
     Captulo X
     
     A participao de Nicolau no duelo Dolokov- Bezukov fora abafada, graas ao velho conde, e em vez de ser degradado, como se esperava. Rostov foi nomeado ajudante-de-campo do general governador de Moscovo. Por causa disso no lhe fora possvel ir para o campo com toda a famlia e passara todo o Vero no desempenho das suas novas funes. Dolokov restabeleceu-se, e Rostov, durante a convalescena, tomou-se seu amigo. Dolokov, enquanto doente, foi tratado em casa da me, que o amava apaixonadamente. A velha Maria Ivanovna, que se afeioara a Rostov em virtude da amizade deste pelo seu Fdia, falava-lhe muitas vezes do filho:
     - Sim, conde, o meu filho  nobre de mais, tem uma alma pura de mais - dizia ela - para o sculo em que vivemos. Ningum gosta da virtude, que ofusca toda a gente. Mas diga-me, conde, acha que foi justo, acha que foi digno o que fez Bezukov? Fdia, com toda a sua nobreza de alma, era-lhe afeioado e ainda agora mesmo nunca diz mal dele. Pois no  verdade que fizeram juntos muitas partidas, por exemplo aquela ao polcia em Petersburgo? E a verdade  que Bezukov nada sofreu com isso, enquanto que Fdia pagou as favas. E o que ele sofreu! Sim, voltaria a dar-lhe os gales, mas como no o fazerem? Ah!, sim, bravos, filhos da ptria como ele no andam por a aos pontaps. E esse duelo? Oua o que eu lhe digo. Ter essa gente corao, honra? Sabendo que ele  filho nico, provocaram-no e dispararam contra ele  queima-roupa. Felizmente Deus teve pena de ns E porqu? Sim, quem  que no nosso tempo no  vtima de intrigas? H o direito de uma pessoa ser ciumenta quele ponto? Ainda podia compreender se ele lhe tivesse dito antes alguma coisa, mas h um ano que aquilo durava. E, oua, ele desafiou-o pensando que Fedia no se quereria bater com ele porque lhe devia dinheiro. Que baixeza! Que vilania! Bem sei, o senhor compreendeu o Fdia, meu caro conde, por isso eu gosto tanto de si, creia. So poucos os que o compreendem.  uma alma to elevada, to pura!
     O prprio Dolokov, durante a convalescena, dizia-lhe coisas que n3 era de esperar da sua boca.
     - Consideram-me m pessoa - dizia. - Est bem, suponhamos que sou assim. No quero conhecer seno as pessoas a quem estime e por essas sou capaz de dar a prpria vida. Quanto aos demais a esses era capaz de os esmagar a todos se os viesse a encontrar no meu caminho. Tenho uma me a quem idolatro, de quem no sou digno, dois ou trs amigos, no nmero dos quais conto, e, quanto aos outros, esses apenas os considero na medida em que me podem ser teis ou nefastos. E quase todos eles so prejudiciais, especialmente as mulheres. Sim, meu velho - prosseguia ele -, tenho encontrado homens dignos, de sentidos nobres e elevados. Mas entre as mulheres, at hoje, s encontrei criaturas que se vendem, e, quer sejam condessas ou cozinheiras,  o mesmo. Ainda no encontrei essa pureza celeste, essa dedicao que procuro na mulher. Se um dia encontrasse uma mulher assim, era capaz de dar a vida por ela. Quanto s que eu conheo... - Teve um gesto de desprezo. - E, acredita, se me interessa viver,  apenas na esperana de ainda vir a encontrar essa criatura celeste, que me regenerar, me purificar, me resgatar. Mas tu no me podes compreender.
     - Pelo contrrio, compreendo-te muito bem - respondeu-lhe Rostov, completamente dominado pelo seu novo amigo.
     No Outono, a famlia Rostov estava de regresso a Moscovo. No princpio do Inverno. Denissov voltou tambm a Moscovo e instalou-se-lhes em casa. Esse Inverno de 1806, o primeiro que Nicolau Rostov passou em Moscovo, foi um dos mais alegres e felizes para ele e para a famlia Rostov. Atrara consigo a casa dos pais muitos rapazes; Vera estava uma linda rapariga de vinte anos; Snia, uma mocinha de dezasseis, em todo o encanto da sua juventude; Natacha, meio criana meio mulher, engraada corro uma criana, fascinante como uma donzela.
     Nessa poca a casa de Rostov estava envolvida numa atmosfera especial de carinhosos sentimentos, como costuma acontecer onde h raparigas muito gentis e muito jovens. No meio destas caras frescas, expressivas, sorrindo a cada passo - naturalmente  sua prpria felicidade -, no meio deste rodopio de fogosa animao, ouvindo este chalrar feminino, to inconsequente, mas to afectuoso para toda a gente, e a todo o propsito to cheio de esperana, e o ressoar do canto e da msica, misturados, fosse quem fosse o jovem que entrasse naquela casa logo se sentia predisposto para o amor e para a felicidade, atmosfera em que respirava toda aquela juventude.
     Um dos primeiros rapazes que tinham sido ali levados por Rostov fora Dolokov, que a todos agradara, menos a Natacha, que quase se indispusera com o irmo por sua causa. Sustentara teimosamente ser ele m pessoa. Que rio duelo com Bezukov quem tivera razo fora o Pedro, que Dolokov fora o culpado, e que era pouco amvel e muito pretensioso.
     - Podes dizer o que quiseres - gritava ela, obstinada -,  mau e no tem corao. Mas o teu Denissov, desse, gosto. Pode ser um depravado e tudo quanto quiserem. Seja como for, gosto dele, e compreende-se muitssimo bem. No sei explicar... No outro tudo  calculado antecipadamente, e  disso que eu no gosto; quanto ao Denissov...
     - Sim, o Denissov  outra coisa - replicava Nicolau, deixando perceber que, comparado com Dolokov, o prprio Denissov no valia um caracol. -  preciso compreender a grande alma que  Dolokov,  preciso v-1o ao p da me, que corao o seu...
     - Isso no sei; a verdade  que ao p dele me no sinto  vontade. E, sabes? Est apaixonado pela Snia.
     - A ests tu a dizer disparates...
     - Vais ver se eu no tenho razo.
     As suposies de Natacha eram exactas. Dolokov, que de resto no apreciava a sociedade das mulheres, comeou a frequentar assiduamente a casa dos Rostov, e, embora ningum falasse no assunto, foi coisa tacitamente assente que vinha por causa de Snia. E esta, posto nunca ousasse diz-lo, sabia que assim era; sempre que Dolokov aparecia ficava muito corada.
     O jovem oficial jantava muitas vezes em casa dos Rostov, no perdia espectculo em que a famlia comparecesse e ia ao baile dos Adolescentes, a casa de Ioguel, onde a famlia Rostov era assdua. Mostrava-se particularmente atencioso para com Snia e olhava para ela de tal maneira que esta no lhe sustentava o olhar sem ruborizar-se muito, e tanto a velha condessa como Natacha, perante isso, tambm se sentiam corar.
     Era evidente que aquele estranho colosso se achava sob a irresistvel influncia daquela graciosa morenita que amava outro. Rostov notara haver fosse o que fosse entre Dolokov e Snia, mas no tinha opinio formada acerca da natureza dessas novas relaes. Nesta casa as pequenas esto sempre enamoradas de algum, dizia ele para si prprio, pensando em Snia e em Natacha. Mas a verdade  que j no estava to  vontade diante de Snia e Dolokov e j no se demorava tanto em casa.
     No Outono de 1806 voltou a falar-se na guerra com Napoleo e mesmo com mais entusiasmo ainda que no ano anterior. Foi decretado o recrutamento na proporo de dez em mil homens para o exrcito regular e de nove em mil para a milcia. Por toda a parte se lanava o antema a Bonaparte e em Moscovo no se falava noutra coisa seno na guerra iminente. Quanto  famlia Rostov estes preparativos blicos s lhe tocavam porque Nikoluchka se recusava terminantemente a permanecer em Moscovo e apenas aguardava o termo da licena de Denissov para regressar  sua unidade aps as festas. Esta prxima partida no o impedia de se divertir; pelo contrrio, dava-lhe uma grande excitao. Passava a maior parte do seu tempo fora de casa em jantares, saraus e bailes.
     

     
     
     
     Captulo XI
     
     No terceiro dia, das festas do Natal jantava Nicolau em casa dos pais, coisa que raramente lhe acontecia naqueles ltimos tempos. Era um jantar oficial de despedida, pois eles partiam. Denissov e Nicolau, de regresso ao regimento, logo aps o dia de Reis. Havia vinte talheres, e Dolokov e Denissov eram convidados. Nunca em casa dos Rostov houvera tanta ternura no ar, nunca ali se estivera mergulhado numa atmosfera to apaixonada como naqueles dias de festa. Aproveita estes momentos de felicidade, ama e s amado! Esta  a nica coisa real no mundo; o resto  tolice. S isso deve interessar, eis o que parecia aconselhar aquela atmosfera.
     Nicolau, como sempre, depois de haver estoirado duas pare- lhas, sem ter podido ir a toda a parte aonde queria e para onde fora convidado, chegou a casa precisamente quando o jantar ia para a mesa. Mal entrou logo se sentiu envolvido naquela atmosfera de carinho que pairava na casa e sentiu o curioso embarao de alguns dos convivas. Snia. Dolokov, a velha condessa e at mesmo, de certo modo. Natacha, estavam particularmente comovidos. Nicolau compreendeu ter-se passado qualquer coisa entre Snia e Dolokov antes do jantar, e, com a delicadeza de corao que lhe era prpria, durante todo o repasto mostrou-se enternecido e reservado para com os dois. Nessa noite devia realizar-se um baile promovido pelo mestre de dana Ioguel em honra dos seus alunos de ambos os sexos.
     - Nikolenka, vais a casa do Ioguel? Peo-te, no deixes de ir - dizia Natacha. - Ele conta contigo, e o Vassili Dmitritch (era Denissov) tambm vai.
     - Iria fosse onde fosse s ordens da condessa! - replicou Denissov, que, por graa, representava em casa o papel de escudeiro de Natacha. - Estou at disposto a danar o pas de chle.
     - Irei, se tiver tempo. Estou convidado para casa dos Arkarov. H l hoje uma recepo - disse, por sua vez. Nicolau. - E tu?... - acrescentou, dirigindo-se a Dolokov. Mas, mal tinha feito a pergunta, logo se deu conta da indiscrio.
     - Sim,  possvel... - replicou Dolokov, friamente e com azedume, lanando um olhar a Snia; depois, de sobrecenho carregado, fitou Nicolau com o mesmo olhar com que fixara Pedro no jantar do clube.
     Alguma coisa se passou, disse Nicolau consigo mesmo, e as suas suspeitas mais se avolumaram quando viu que Dolokov saa logo aps o jantar. Chamou Natacha e perguntou-lhe o que havia.
     - Andava precisamente  tua procura - disse-lhe ela, vindo ao seu encontro. - Eu bem dizia e tu no querias acreditar prosseguiu, vitoriosa. - Declarou-se  Snia.
     Posto Snia muito pouco o preocupasse nesses ltimos tempos, sentiu como que rasgar-se-lhe o corao ao ouvir o que lhe dizia Natacha. Dolokov era um partido invejvel e de certos aspectos at mesmo brilhante para uma rf sem fortuna como Snia. Aos olhos da velha condessa e do mundo seria absurdo recusar uma proposta daquelas. Por isso, a primeira reaco de Nicolau ao tomar conhecimento do facto foi de irritao contra Snia. E dispunha-se a dizer que estava muito bem, que era perfeitamente natural pr de parte os compromissos da infncia e que o que era preciso era aceitar, mas no teve tempo.
     - Pois no queres saber? Recusou, recusou redondamente! exclamou Natacha. - Disse-lhe que gostava de algum - prosseguiu ela depois de uma ligeira pausa.
     Era isso mesmo que eu esperava da minha Snia!, pensou Nicolau de si para consigo.
     - E recusou, por mais que a me lhe pedisse, e estou convencida de que no mudar de atitude...
     - A me pediu-lhe? - articulou Nicolau, despeitado.
     - Pediu - volveu Natacha. - Ouve. Nikolenka, no te zangues, mas eu sei que nunca casars com ela. Estou convencida disso s Deus sabe porqu, mas tenho a minha opinio formada a tal respeito.
     - Ora a est uma coisa que tu no podes afirmar - replicou Nicolau. - Mas tenho de falar com ela. Que encanto aquela Snia! - acrescentou, sorrindo.
     - Sim,  encantadora! Vou dizer-lhe que venha ter contigo.
     E Natacha abalou, depois de ter beijado o irmo.
     Momentos depois entrava Snia, muito confusa, muito perturbada, com uma expresso de pessoa que cometeu uma falta. Nicolau aproximou-se dela e beijou-lhe a mo. Era a primeira vez, aps o seu regresso, que se encontravam a ss e que falavam de coisas sentimentais.
     - Snia - principiou ele, de comeo timidamente e depois com ousadia crescente -, teve coragem de recusar um partido to brilhante e to vantajoso?  um bom rapaz, um nobre corao...  meu amigo...
     Snia interrompeu-o:
     - Sim, recusei - apressou-se a dizer.
     - Se foi por mim, receio que da minha parte...
     Snia interrompeu-o de novo. Lanou-lhe um olhar entre splice e assustado.
     - Nicolau, no me diga isso.
     - Digo, devo diz-lo. Talvez seja petulncia da minha parte, mas vale mais falar. Se recusou por minha causa, eu, pela minha parte, devo dizer-lhe toda a verdade. Gosto de si, quero-lhe, estou convencido disso, quero-lhe mais do que a qualquer outra...
     - E  quanto basta para mim - disse Snia, corando. 
     - Sim, mas j gostei vrias vezes e ainda posso vir a gostar de outras, embora no tenha por ningum tanta amizade, confiana e amor como tenho por si. E, depois, ainda sou muito novo. A me no v isto com bons olhos. E  por isso, numa palavra, que eu no estou disposto a comprometer- me. Peo-lhe que pense na declarao de Dolokov - concluiu, articulando com esforo o nome do amigo.
     - No me fale assim. No quero nada. Gosto de si como um irmo e sempre hei-de gostar de si; de nada mais preciso.
     -  um anjo e eu no sou digno de si. O receio que tenho  de no poder corresponder ao que espera de mim.
     E Nicolau beijou-lhe outra vez a mo.
     

     
     
     
     Captulo XII
     
     Era em casa de Ioguel que se realizavam os mais alegres bailes de Moscovo. Eis o que afirmavam as mes ao olharem para as suas adolescentes ensaiando o novo passo de dana que acabavam de aprender, eis o que diziam as prprias adolescentes e os adolescentes, que danavam at cair extenuados; era tambm a opinio dos rapazes e raparigas de mais idade que tinham ido ali por mera condescendncia e que se divertiam l como em parte alguma. Naquele mesmo ano j ali se haviam preparado dois casamentos. As duas lindas princesas Gortchakov ali haviam encontrado noivos, e estes enlaces mais tinham feito aumentar o prestgio dos bailes. A particularidade destas festas estava no facto de no haver nem dono nem dona de casa. Havia apenas o bom do Ioguel, o qual, leve como uma pena, se desfazia em reverncias segundo as regras da sua arte e dava lies pagas a todos os seus convidados. Outra particularidade destes bailes era s ali ir quem, de facto, queria danar e divertir-se, como sabem divertir-se as rapariguinhas de treze a catorze anos que pela primeira vez vestem vestidos compridos. Todas, salvo rarssimas excepes, eram ou pareciam ser muito bonitas; todas tinham um sorriso to triunfante, olhares to ardentes! Acontecia que as melhores alunas danavam at o pas de chle e entre elas distinguia-se Natacha, cuja graa dava nas vistas. Mas naquele ltimo baile do ano estabelecera-se que s se devia danar a escocesa, a inglesa e a mazurca, que ento principiava a estar na moda. Ioguel pedira a Bezukov lhe cedesse um dos sales do seu palcio e o xito da festa estava assegurado na opinio de toda a gente. Havia lindas carinhas no baile, e as meninas Rostov figuravam entre as mais belas. Ambas resplandeciam de felicidade e alegria. Nessa noite. Snia, muito orgulhosa com a declarao de Dolokov e por no a haver aceitado e ter tido uma explicao com Nicolau, ainda estava em casa, muito desassossegada e sem deixar que a criada lhe acabasse de pentear as tranas. Toda ela resplandecia de exuberncia e jovialidade.
     Natacha, no menos orgulhosa por ser a primeira vez que aparecia de vestido comprido num baile a valer, ainda estava mais radiosa. Ambas trajavam vestidos brancos de musselina, enfeitados com fitas cor-de-rosa.
     Natacha, assim que entrou na sala, sentiu-se como que instantaneamente deslumbrada. Apaixonava-se no em particular por quero quer que, fosse, mas por toda a gente ao mesmo tempo. Encontrava-se no mesmo instante do primeiro em que pousava os olhos.
     - Ah!, que bonito! - dizia a todo o momento para Snia. Nicolau e Denissov iam e vinham, percorrendo as salas, com olhares amveis e protectores para os que danavam.
     - Que linda que, ela ! H-de vir a ser uma beleza! - exclamava Denissov.
     - Quem?
     - A condessa Natacha. E que bem que dana! Que graa que tem! - acrescentou, depois de uma ligeira pausa.
     - De quem ests tu para a a falar?
     - De quem? Da tua irm - replicou ele, com impacincia. Rostov sorriu.
     - Meu querido conde, considero-o um dos meus melhores alunos,  preciso que dance - disse o insignificante Ioguel ao aproximar-se de Nicolau. - No v tantas meninas bonitas?
     E dirigiu o mesmo pedido a Denissov, que tambm fora aluno seu.
     - No, meu caro, eu sirvo de figura decorativa - replicou este. - J se no lembra de como eu aproveitei mal as suas lies?
     - Oh! No! - exclamou Ioguel. - No era dos mais atentos, mas tinha jeito, sim, senhor, tinha jeito.
     A orquestra rompeu com uma mazurca, dana ento em pleno xito, novidade que era. Nicolau no pde desculpar-se e foi convidar Snia. Denissov sentou-se ao p das senhoras idosas e, apoiado no sabre, batendo o compasso com o p, principiou a contar-lhes histrias alegres, para faz-las rir, vendo danar a Juventude. Ioguel, no primeiro par, danava com Natacha, o seu orgulho e a sua melhor aluna. Deslizando, suave e molemente, nos seus escarpins, foi o primeiro a lanar-se sala fora com Natacha intimidada, mas que lhe acompanhava atentamente o passo. Denissov no a perdia de vista, marcando o compasso com o sabre, com se dissesse que se no danava era apenas por no querer e no por no saber. No meio de urna das figuras interpelou Rostov, que passava perto.
     - No  nada disso - disse ele. - Que mazurca polaca  essa? De resto, ela dana maravilhosamente.
     Como sabia que, na Polnia. Denissov ganhara fama pela maneira como danava mazurca polaca. Nicolau correu para Natacha.
     - Vai convidar o Denissov. Ele dana isto maravilhosamente! Quando chegou a vez de Natacha, esta levantou-se e, deslizando, levssima, rios seus sapatinhos de cetim, atravessou, muito corada, a saia na direco onde estava Denissov. Percebeu que toda a gente, a olhava aguardando o que ela ia fazer. Nicolau, de longe, viu os dois a discutir, sorrindo. E viu que Denissov recusava rias ria. Dirigiu-se para eles.
     - Faa-me isso. Vassili Dmitritch - dizia Natacha. - Venha da, por favor.
     - Oh!, tenha pena de mim, condessa - dizia Denissov.
     - Ento. Vassia, vai com ela - interveio Nicolau.
     - Vocs fazem-me festas como se eu fosse o vosso gatinho Vaska - disse Denissov, de brincadeira.
     - Prometo-lhe que hei-de cantar uma noite inteira para si - volveu Natacha.
     - Feiticeira, faz de mim o que lhe apetece - consentiu Denissov por fim, tirando o sabre.
     Saiu da fila das cadeiras, agarrou com energia a mo do seu par, ficou muito direito, com o p avanado, aguardando o compasso. Era a cavalo ou a danar a mazurca que deixava de se notar a sua pequena estatura e que adquiria uma atitude marcial. Enquanto esperava o compasso, teve um olhar de soslaio, ao mesmo tempo vitorioso e brincalho, para o seu par, depois, subitamente, bateu com o p no cho e despediu como uma bola de borracha, arrastando consigo a sua dama. Assim, num p s, percorreu metade do salo, sem fazer o mais pequeno rudo. Dir-se-ia lanar-se sobre as cadeiras diante dele. Mas de sbito as esporas retiniram, e, de pernas alargadas, deteve-se um instante em cima dos taces, batendo com os ps no cho. Depois deu uma volta rpida, bateu com a perna direita contra a esquerda e recomeou a girar sobre si mesmo. Natacha adivinhava todos os seus movimentos e, inconscientemente, seguia-lhe as evolues, abandonando-se. Ora a fazia rodopiar pela mo direita ou pela esquerda, ora, ajoelhando, a arrastava, fazendo-a descrever um crculo em volta dela. Em seguida dava um pulo de sbito e lanava-se para a frente, rpido, como se quisesse, de um salto s, percorrer todas as salas, para de novo parar e de novo principiar uma figura nova e imprevista. Quando voltou a depor a dama no seu lugar, fazendo-a rodopiar magistralmente com um bater de esporas. Natacha esqueceu-se da reverncia. Fitou-o com os seus olhos espantados, sorrindo, como se o no conhecesse.
     - Que quer dizer isto? - dizia.
     Embora Ioguel houvesse declarado que aquilo no era a verdadeira mazurca, toda a gente ficara maravilhada com o virtuosismo de Denissov. Vinham-no convidar a cada passo, e as pessoas de idade, sorrindo, comearam a falar da Polnia e dos bons tempos de outrora. Denissov, muito corado por causa da dana e enxugando a testa, veio sentar-se ao lado de Natacha e no a deixou at ao fim da noite.
     

     
     
     
     Captulo XIIII
     
     No dia seguinte. Rostov no viu Dolokov em casa de seus pais e nunca mais l voltou a encontr-lo. Na manh do outro dia recebeu dele um bilhete nestes termos:
     
     Como no fao teno de voltar a aparecer em vossa casa por motivos que tu, muito bem conheces, e como regresso  minha unidade, ofereo hoje aos meus amigos um jantar de despedida. Peo-te, que venhas, pois, ao Hotel de Inglaterra.
     
     Rostov, ao sair do teatro aonde fora com os seus e Denissov, chegou s dez horas do dia marcado ao Hotel de Inglaterra. Conduziram-no imediatamente  melhor sala, reservada para aquela noite por Dolokov. Estavam a reunidas umas vinte pessoas em volta de uma mesa. Quem presidia era Dolokov, que se sentava no meio de dois brandes. Em cima da mesa havia dinheiro em ouro e papel e o oficial fazia de banqueiro. Nicolau, que no voltara a v-lo depois da declarao a Snia e da recusa de que fora objecto, sentiu-se um pouco embaraado por se ver na sua presena.
     O frio e brilhante olhar de Dolokov pousou nele assim que Nicolau entrou no aposento, como se o esperasse h muito. - H quanto tempo nos no vamos! - disse-lhe ele. -
     Obrigado por teres vindo. Assim que eu acabe a banca, temos a o Iliuchka com os seus cantores.
     - Foi a teu convite que vim - disse Rostov, corando. Dolokov no respondeu.
     - Podes fazer a tua parada disse-lhe a certa altura. Lembrou-se naquele momento da curiosa conversa que certo ia tinham tido. No h ningum com mais sorte ao jogo do que os imbecis, dissera-lhe ele.
     - Ou ters medo de jogar comigo? - perguntou-lhe, sor- rindo, Dolokov, que parecia adivinhar o que ia no pensamento de Rostov.
     Este sorriso fez compreender a Nicolau que o amigo estava no estado de esprito em que o vira aquando do jantar do clube ou quando sentia a necessidade, esmagado pelo tdio de uma vida terra-a-terra, de se evadir por um acto estranho e violento.
     Rostov sentia-se embaraado. Procurou, sem o encontrar na sua imaginao, o gracejo digno de servir de resposta ao que Dolokov acabava de dizer. E ainda o no conseguira j Dolokov, fitando-o nos olhos, dizia lentamente, e destacando as palavras, de maneira a que toda a gente pudesse entender:
     - Lembras-te do que uma vez dissemos: que no h ningum com mais sorte ao jogo do que os imbecis?  para ganhar que uma pessoa, deve jogar e eu quero experimentar.
     Devemos experimentar a sorte ou jogar para ganhar?, disse Rostov de si para consigo,
     - Realmente, era bem melhor que no jogasses - acrescentou, pousando as cartas, que acabava de baralhar. - Banca, meus senhores.
     Tendo posto o seu dinheiro na banca. Dolokov preparava-se para dar as cartas. Rostov sentou-se a seu lado e a princpio absteve-se de jogar. Dolokov lanou-lhe um olhar de lado.
     - Ento, no jogas? - disse-lhe.
     Coisa curiosa. Nicolau sentiu-se como que obrigado a pegar numa carta, a pousar sobre ela uma soma insignificante e a principiar a jogar.
     - No tenho dinheiro comigo - murmurou.
     - Tens crdito.
     Rostov apostou cinco rublos na sua carta e perdeu, fez nova parada e voltou a perder. Dolokov matou o que quer dizer que ganhou dez cartas seguidas a Rostov.
     - Meus senhores - disse ele, depois de ter estado algum tempo a servir de banqueiro -, peo-lhes que ponham o vosso dinheiro em cima das cartas, de outro modo posso enganar-me nas contas.
     Um dos jogadores alegou esperar que se dignassem ter confiana nele.
     - Evidentemente, mas tenho medo de me enganar  replicou Dolokov. - Por isso peo-lhes o favor de porem o dinheiro em cima das cartas. Quanto a ti, no te importes, depois faremos contas os dois - disse ele, dirigindo-se a Rostov.
     O jogo prosseguiu; um lacaio ia servindo champanhe . Todas as cartas de Rostov foram mortas e o seu dbito j subia a oitocentos rublos. Dispunha-se a inscrever esta soma numa carta, mas, como lhe ofereciam champanhe, reteve-se e fez a parada habitual: vinte rublos.
     - Deixa - disse Dolokov, fingindo no reparar  no tarda muito que te tenhas refeito. Perco com todos e mato todas as cartas. Ters tu medo de mim?
     Rostov pediu desculpa, deixou ficar os oitocentos rublos e apresentou um sete de copas, com um canto dobrado, que apanhara do cho. Lembrar-se-ia disso perfeitamente mais tarde. Apresentou o seu sete de copas, depois de ter escrito sobre ele, com a ponta de um giz, oitocentos rublos em algarismos direitos, bem desenhados, despejou a taa de champanhe um pouco amornado que lhe apresentavam, sorriu ao ouvir as palavras de Dolokov, e esperando, com o corao a bater, um sete, olhou para as mos de Dolokov, que tinha o baralho. Ganhar ou perder aquele sete de copas representava muito para ele. No domingo anterior o conde Ilia Andreitch dera-lhe dois mil rublos, e, contra o seu costume de falar de dificuldades de dinheiro, acrescentara ser a ltima soma que lhe dava at Maio, e que, portanto, seria bom ele mostrar-se desta vez mais econmico. Nicolau respondera que lhe chegava perfeitamente e que lhe dava a sua palavra de honra de que se contentaria com aquele dinheiro at  Primavera. Naquele momento ainda dispunha de mil e duzentos rublos. Eis porque daquele sete de copas dependia no s a perda de mil e seiscentos rublos, mas tambm a necessidade de quebrar a palavra que dera. Com o corao a bater fitava as mos de Dolokov, dizendo de si para consigo: Vamos, venha de l depressa essa carta e vou daqui cear com Denissov, Natacha e Snia, e tenho a certeza de nunca mais na minha vida voltar a pegar numa carta. E naquele momento todos os pequenos nadas cia vida familiar, as partidas de Ptia, as conversas com Snia, os duetos com Natacha, o jogo do piquet com o pai, a recordao da sua cama to sossegada da Rua Povarskaia, tudo isso lhe perpassava pela mente com toda a fora, toda a nitidez e todo o encanto de uma felicidade h muito passada, perdida e sem preo. Era-lhe impossvel admitir que um estpido acaso, fazendo com que um sete estivesse  direita e no  esquerda, o pudesse privar de semelhante felicidade, de novo reconquistada e que de novo o iluminava com os seus raios, para o mergulhar num abismo de desgraas ainda no experimentadas e desconhecidas. Era qualquer coisa que no devia ser, mas, nem por assim pensar, deixava de observar os movimentos das mos de Dolokov. Essas mos ossudas e vermelhas, cobertas de plos at aos punhos, pousaram as cartas e pegaram na taa que lhe apresentavam e no cachimbo.
     - Com que ento, no tens medo de jogar comigo? - repetiu Dolokov, e, como se quisesse contar qualquer histria brejeira, recostou-se no espaldar da cadeira e ps-se a dizer, com todo o sossego, e a sorrir:
     - Sim, meus senhores, vieram dizer-me que eu em Moscovo tinha fama de batoteiro.  por isso que lhes peo que estejam prevenidos.
     - Vamos, parte - disse Rostov.
     - Oh! Estes ms-lnguas de Moscovo - tornou Dolokov sorrindo e voltando a pegar nas cartas.
     - Ah! - exclamou Rostov, puxando os cabelos. O sete de que ele precisava estava por cima da primeira carta do baralho. Tinha perdido mais do que podia pagar.
     - Ento, que  isso? No te vs espetar - disse-lhe Dolokov, de lado e continuando a partir.
     

     
     
     
     Captulo XIV
     
     Hora e meia depois, j os jogadores no consideravam mais que mera brincadeira as paradas que tinham feito.
     Todo o interesse do jogo se concentrava em Rostov. Em vez de mil e seiscentos rublos,  sua conta havia uma longa coluna de algarismos, que contara at dez mil, mas que naquele momento, como ele confusamente pensava, devia atingir os seus quinze mil. Na realidade, o total ultrapassava j os vinte mil.
     Dolokov j no ouvia o que se dizia nem j contava mais histrias. Seguia o mais pequeno movimento das mos de Rostov e de tempos a tempos lanava os olhos  sua conta. Decidira continuar o jogo at o total atingir os quarenta e trs mil rublos. Fixara esses algarismos porque era quanto somavam a sua idade e a de Snia. Rostov, com a cabea entre as mos, apoiava os cotovelos na mesa coberta de inscries, de ndoas de vinho e de cartas espalhadas. Obcecava-o a mesma penosa impresso, sempre a mesma: aquelas mos ossudas e vermelhas, peludas at aos punhos, aquelas mos, que ao mesmo tempo amava e odiava, pareciam tomar conta dele.
     Seiscentos rublos, um s, paroli, um nove... J no h maneira de me salvar!... Oh!, que bem se estava em casa... O valete sobre uma paz... Mas no pode ser!... Porque me trata ele desta maneira... ? E tudo isto, ao mesmo tempo, lhe aflua ao crebro. Acontecia-lhe fazer uma parada mais forte, mas Dolokov recusava o jogo e indicava ele prprio a soma a jogar. Nicolau obedecia e encomendava-se a Deus, como o fizera no campo de batalha, na ponte de Amsteten; ou ento punha-se a imaginar que aquela carta, a primeira do monte de cartas amarrotadas em cima da mesa, talvez o salvasse; outras vezes empenhava-se em contar os alamares do dlman que vestia; perguntava a si mesmo em que carta tinha o palpite da sua perdio; lanava olhares de angstia aos outros jogadores ou ento contemplava o rosto impassvel do seu parceiro e fazia tudo para lhe adivinhar o pensamento.
     Sim, ele sabe muitssimo bem o que esta perda representa para mim.  impossvel que queira a minha runa.  meu amigo. Tenho amizade por ele... Mas no tem culpa. Que h-de ele fazer, se a sorte o favorece? Eu tambm no sou culpado, reflectia, No pratiquei qualquer m aco. Matei, ofendi ou quis mal a algum? Ento como  que se explica esta tremenda pouca sorte? E quando  que principiou? Apenas h instantes. Aproximei-me desta mesa, na esperana de ganhar cem rublos, de comprar aquela caixinha para oferecer  me no dia dos seus anos e de me ir embora. Que feliz, que livre, que alegre eu estava ento! E no avaliava a felicidade de que gozava! Quando  que tudo isso acabou para dar lugar a esta tremenda situao? Em que se manifesta uma tal transformao? Estou sentado no mesmo stio, a esta mesa, com o gesto de apanhar e de mostrar as cartas, de olhar aquelas mos ossudas e subtis. Quando e como  que isto foi possvel? Que  que aconteceu? Estou de perfeita sade, vigoroso, sou a mesma pessoa, e no me mudei daqui. No, isto no pode ser! Com certeza que tudo isto acaba em nada! 
     Estava vermelho, coberto de suor, embora no fizesse muito calor na sala, e a sua cara metia medo e d ao mesmo tempo, sobretudo em virtude do esforo que fazia para parecer sereno.
     O total atingiu a soma fatal de quarenta e trs mil rublos. Rostov preparava j a carta que devia fazer paroli com os trs mil que acabava de ganhar quando Dolokov atirou com o baralho de cartas para cima da mesa, pegou no giz e se ps a inscrever rapidamente, com a sua letra mida e firme, partindo o giz, a soma que Rostov perdera,
     - Vamos cear! So horas de cear! A esto os ciganos!
     E, com efeito, entrava nesse momento, trazendo consigo o frio que fazia l fora, um certo nmero de mulheres e de homens amulatados, que falavam entre si com um sotaque cigano. Nicolau compreendeu que tudo estava acabado; mas disse com indiferena:
     - Bom! Mais uma partida? Tenho aqui uma cartinha catita. - Afectava no estar interessado seno pela distraco do jogo.
     Est tudo acabado, estou perdido, dizia para si mesmo. Uma bala na cabea  tudo o que me resta a fazer. E nem por isso deixou de dizer alegremente:
     - Ento, mais esta cartinha.
     - Bom - disse Dolokov, que tinha concludo a soma.- Muito bem. Vinte e um rublos jogados - dizia, apontando para o nmero 21, por cima dos quarenta e trs mil, e, pegando nas cartas, disps-se a jogar. Rostov, submisso, apagou o seu paroli e em vez de seis mil escreveu, com todo o cuidado, 21.
     - -me completamente indiferente - murmurou -, o que me interessa  saber se matars a minha carta ou me dars aquele dez.
     Dolokov ps-se a jogar com toda a seriedade. Oh!, como Rostov, naquele momento, odiava essas mos vermelhas, de dedos curtos e peludas at aos punhos, que o tinham em seu poder... O dez ganhou.
     - Tem quarenta e trs mil rublos  sua conta, conde - disse Dolokov, que se levantou da mesa, distendendo o corpo. - Tanto tempo sentado cansa uma pessoa.
     - Sim, tambm eu, no posso mais - disse Rostov.
     Dolokov, como se quisesse lembrar-lhe que lhe no ficava bem gracejar, interrompeu-o:
     - Quando  que poderei receber o que me deve, conde? 
     Rostov, corando, levou-o consigo para uma sala contgua.
     - No te posso pagar tudo de uma s vez, espero que aceites uma letra - disse-lhe ele.
     - Ouve. Rostov - replicou Dolokov, com um sorriso aberto e fitando-o nos olhos. - Conheces o provrbio: feliz aos amores, infeliz ao jogo. A tua prima est apaixonada por ti, bem sei.
     Oh! Como  terrvel sentir-me nas mos deste homem!, disse Rostov consigo. Tinha diante dos olhos a dor que iria dar ao pai e  me quando lhes confessasse o que perdera. E concebia a felicidade que representava o poder desembaraar-se de tudo aquilo, e para si mesmo dizia que Dolokov, ciente de que lhe poderia evitar toda aquela vergonha e todo aquele sofrimento, o que queria era brincar com ele como o gato brinca com o rato.
     - A tua prima - principiou Dolokov. Nicolau, porm, interrompeu-o:
     - A minha prima nada tem que ver com isto e no  para aqui chamada! - exclamou furioso.
     - Ento, quando me pagas? - perguntou Dolokov. 
     - Amanh - respondeu Rostov, e desapareceu.
     

     
     
     
     Captulo XV
     
     Dizer at amanh mantendo um tom natural no era difcil; mas regressar a casa sozinho, tornar a ver irms, irmo, pai e me, resignar-se a uma confisso e pedir um dinheiro a que no tinha direito depois de, sob palavra, haver declarado no precisar dele, eis o que era terrvel.
     Ainda ningum dormia em casa. A gente nova, depois de voltar do teatro e de ter ceado, havia-se sentado ao cravo. Assim que penetrou no salo grande. Nicolau sentiu-se envolvido por aquela atmosfera potica e sentimental naquele Inverno corrente em casa e naqueles ltimos dias, aps a declarao de Dolokov e do baile em casa de Ioguel, concentrada em tomo de Snia e de Natacha, como uma nuvem antes de uma tempestade. As raparigas, com os vestidos azuis que tinham levado ao teatro, muito bonitas, e sabendo que o estavam, felizes e sorridentes, rodeavam o cravo, de p. Vera, no salo, jogava xadrez com Chinchirte. A condessa velha, aguardando o filho e o marido, fazia uma pacincia com urna idosa senhora nobre que vivia na sua companhia. Denissov, os olhos brilhantes e os cabelos desgrenhados, sentara-se, numa pose teatral, diante do cravo, e, percorrendo o teclado com os seus curtos dedos, tirando acordes e rebolando os olhos inchados, com a sua vozinha rouca mas justa, cantava uma poesia de que era autor, e que tentava musicar:
     
     Feiticeira - diz-me c - que impulso  este
     que me leva a acordar sonhos adormecidos?
     Que fogueira me acendeste no corao
     que arrebatadamente se me insinuou na alma?
     
     Cantava com uma voz apaixonada, e seus olhos, negros como gata, fixavam-se em Natacha, perturbada mas feliz:
     - Soberbo! Magnfico! - exclamava Natacha. - Mais outra estncia - prosseguia, sem reparar em Nicolau.
     C em casa tudo est na mesma, dizia este de si para consigo, relanceando a vista para o outro salo, onde viu que estava Vera, bem como a me na companhia da senhora idosa.
     - Ah! C est o Nikolenka!
     Natacha correu para ele.
     - O pai est? - perguntou Nicolau.
     - Que contente estou por tu teres vindo! - exclamou Natacha, sem lhe responder. - Divertimo-nos tanto! Sabes? O Vassili Dmitritch ficou mais um dia por minha causa,
     - No, o pai ainda no voltou - disse Snia.
     - At que enfim, queridinho, anda c, meu filho - exclamou a, voz da condessa no salo.
     Nicolau caminhou para a me, beijou-lhe a mo, e, sentando-se, calado, junto da mesa, ps-se a seguir-lhe os dedos, que iam distribuindo as cartas. No salo grande continuavam a ouvir-se risos e ditos engraados dirigidos a Natacha.
     - Est bem, est bem - condescendia Denissov. - - Mas agora j no pode recusar. Agora tem de cantar a barcarola. Peo-lhe! 
     A condessa envolveu num olhar o filho, muito calado.
     - Que tens tu? - perguntou-lhe.
     - Nada - respondeu ele, como se estivesse irritado com uma pergunta que lhe faziam pela centsima vez. - O pai ainda de- mora muito?
     - Acho que no.
     Nada mudou neles. No sabem nada! Onde poderei eu encontrar refgio?, dizia de si para consigo, voltando a aproximar-se do cravo, no salo grande.
     Snia estava sentada e tocava os primeiros compassos do preldio da barcarola de que Denissov tanto gostava. Natacha preparava-se para cantar. Denissov devorava-a com os olhos.
     Nicolau ps-se a andar de um lado para o outro.
     Que prazer ter ela de cantar? Como  que ela pode cantar? Que alegres que esto todos aqui!, dizia consigo mesmo.
     Snia fez soar os primeiros acordes do preldio.
     Meu Deus! Sou um homem ao mar! Um homem desonrado! Uma bala na cabea, eis tudo quanto me resta, que bonitas horas para cantar! Ir-me embora? Mas para onde? E da, que cantem, que  que isso me faz?
     Nicolau, sempre de um lado para o outro, na sala, lanou um olhar para o grupo de Denissov e das raparigas, evitando encontrar-lhes os olhos.
     - Nikolenka, que tens tu? - parecia perguntar-lhe o olhar de Snia, pousado nele. Snia tinha percebido imediatamente que alguma coisa lhe acontecera.
     Nicolau desviou a vista. Tambm Natacha, com a sua perspiccia, notara imediatamente o estado de esprito do irmo. Mas naquele momento tamanha era a sua alegria, estava to longe de tudo que fosse tristeza, dor ou censura que, como  frequente entre a gente nova, propositadamente se enganava a si prpria. No! No estou disposta a sacrificar a minha alegria pensando nas tristezas dos outros, e, alis, cogitava, estou convencida de que me engano: naturalmente est to alegre como eu.
     -  agora. Snia - disse ela, dando alguns passos para o meio do salo, visto ali, segundo pensava, as condies acsticas serem melhores.
     De cabea erguida, os braos pendentes como as bailarinas. Natacha, num passo elstico e martelado, avanou at meio da sala e estacou.
     Olhem para mim, c estou eu!, parecia dizer, em resposta ao olhar apaixonado com que Denissov a seguia.
     Natacha emitiu a sua primeira nota, a garganta dilatou-se-lhe, o peito solevou-se-lhe, o seu olhar tomou-se srio. No pensava naquele instante em nada de particular e as notas desprenderam-se-lhe dos lbios sorridentes. Eram notas que qualquer pode soltar mil vezes, com os mesmos intervalos e as mesmas pausas, ficando ns completamente frios, e que  milsima primeira vez que as ouvimos estremecemos e choramos.
     Naquele Inverno, pela primeira vez. Natacha dispusera-se a cantar a srio, sobretudo por causa de Denissov, que estava rendido ao seu talento. J no cantava como as crianas: j o no fazia, como antes, numa espcie de aplicao infantil e brincalhona; mas ainda no tinha chegado  perfeio, no dizer dos entendidos que a escutavam, Tem uma linda voz, mas no est trabalhada, comentavam. Este juzo, porm, apenas o formulavam muito depois de Natacha se haver calado. No momento em que aquela voz, ainda pouco trabalhada, cheia de suspiros defeituosos, de garganteios penosos, ressoava, esses juizes severos calavam-se, incapazes de outra coisa que no fosse deixarem-se invadir por aquele canto ainda fruste e s com um desejo: continuarem a ouvi-lo. Aqueles acentos ainda virgens, aquela fora que a si mesmo se desconhecia, aquela doura de veludo, sem preparao alguma, tudo dizia to bem com as faltas de tcnica que dir-se-ia nada poder ser alterado naquela voz sem estragar o conjunto.
     Que vem a ser isto?, dizia de si para consigo Nicolau, abrindo muitos os olhos enquanto ia ouvindo aquela voz. Que lhe teria acontecido? Que bem que ela hoje est a cantar! Subitamente tudo no mundo deixou de existir para ele, salvo a nota, a frase que ia seguir-se; tudo se desvaneceu diante do compasso a trs tempos: Oh, mio crudele affetto... Um, dois, trs... Oh, mio crudele affetto... Um, dois, trs... Um... Ah!, que estpida  a vida!, dizia Nicolau consigo mesmo. Tudo isso, e a infelicidade e o dinheiro e Dolokov e a clera e a honra, tudo isso no passa de uma grande tolice... Isto, sim, isto  verdade... Continua. Natacha, continua, minha querida, continua, minha menina. Ser capaz de dar este si? E deu! Louvado seja Deus. E ei-lo ali, sem reparar que ele prprio estava cantando, que cantava a segunda voz para aguentar aquela alta nota. Ah!, que bem! E fui eu quem deu esta nota? Que lindo!
     Oh!, como aquela nota tinha vibrado, e que comovido Rostov se sentiu no mais ntimo da sua alma. E era como se estivesse separado do mundo inteiro, como se estivesse mais alto que o mundo todo. O que vale ao p disto o que se perde ao jogo e todos esses Dolokovs e todas as palavras empenhadas?... Tudo isso no passa de fatuidade! Uma pessoa pode assassinar, roubar, e no entanto sentir-se feliz...
     

     
     
     
     Captulo XVI
     
     Havia muito tempo que Rostov no sentia tanto prazer em ouvir msica como naquela noite. Mas assim que Natacha acabou de cantar a sua barcarola voltou-lhe o sentimento da realidade. Saiu da sala sem dizer nada e desceu para o seu quarto. Um quarto de hora mais tarde, o velho conde, muito alegre e satisfeito, chegava do clube. Nicolau, ao ouvi-lo entrar, foi procur-lo.
     - Ento, divertiste-te? - inquiriu Ilia Andreitch, sorrindo, orgulhoso, para o filho.
     Nicolau quis responder afirmativamente, mas no pde: as lgrimas iam romper-lhe dos olhos. O conde, com o cachimbo na boca, no notava o estado de esprito do filho.
     Ento,  preciso ter coragem, disse de si para consigo, tomando uma resoluo. E, de sbito, num tom desprendido, de que ele prprio sentiu vergonha, no mesmo tom com que teria pedido uma carruagem para o levar a qualquer parte, disse ao pai:
     Pai, vim procur-lo para lhe falar de negcios. J me esquecia. Preciso de dinheiro.
     - Que dizes tu?! - exclamou o pai, que estava bem disposto. - Eu bem te disse que no te ia chegar. Precisas de muito?
     - Preciso.., de muito - respondeu Nicolau, corando, e com um sorriso desprendido e tolo, de que por muito tempo sentiu remorsos - Perdi algum dinheiro, isto , perdi multo, muito mesmo, quarenta e trs mil rublos.
     - Qu? Com quem?... Ests a brincar?! - exclamou o conde, cuja nuca se cobria subitamente de uma vermelhido apoplctica, coisa frequente entre os velhos.
     - Comprometi-me a pagar essa dvida amanh - replicou Nicolau.
     - Ah!.... - balbuciou o pai, deixando-se cair no div sem foras e num estado desesperado.
     - Que hei-de eu fazer? No  coisa que acontece a, toda a gente? - redarguiu o filho, num tom desprendido e ousado, quando, no fundo de si mesmo, estava a chamar-se a si prprio canalha, cobarde, perdido para a vida inteira. Teria querido beijar as mos do pai, pedir-lhe perdo de joelhos, e tomava aquele ar indiferente, quase descorts, para dizer que aquelas coisas aconteciam a toda a gente.
     O conde Ilia Andreitch, surpreendido por aquele tom, baixou os olhos, e, embaraado, apressou-se a responder:
     - Sim, sim, no vai ser fcil, tenho os meus receios, vai ser difcil arranjar essa importncia... So coisas que acontecem! Sim, essas coisas acontecem...
     E o conde saiu da sala, lanando, de soslaio, um olhar ao filho. Nicolau contava encontrar resistncia, mas nunca aquela atitude.
     - Pai! Pai! - gritou, seguindo atrs do conde, chorando, - Perdoe-me.
     E, agarrando-lhe na mo, pousou nela os lbios, soluando.
     
     Enquanto se desenrolava esta explicao de Nicolau com o conde, me e filha tinham uma entrevista no menos importante. Natacha, muito comovida, refugiara-se ao p da me.
     - Me!, me!.., ele fez-me... 
     - Que  que ele fez?
     - Fez-me, fez-me uma declarao. Me! Me! - A condessa no podia crer no que ouvia. Denissov tinha feito urna declarao. Unia declarao a quem? Aquela garota da Natacha, que ainda mal deixara de brincar com as bonecas e ainda estudava.
     - Cala-te. Natacha, tudo isso so patetices - disse ela, na esperana de que realmente fosse uma brincadeira. 
     - Patetices? Nada disso. Falo srio - replicou Natacha, furiosa - Venho eu pedir-lhe o seu conselho, e a me diz-me que so patetices.
     A condessa encolheu os ombros.
     - Se  verdade que o Sr. Denissov te fez urna declarao, responde-lhe que  parvo e est tudo dito.
     - Mas, no, no  parvo - replicou Natacha, muito sria e com um ar formalizado.
     - Ento que queres que eu te diga? Nessa idade todas vocs tm os seus namoricos. Se gostas dele, casa com ele e deixa-nos em paz - volveu-lhe a condessa, com irritao.
     - No, me, eu no gosto dele, penso que no gosto dele.
     - Ento porque esperas? Diz-lhe isso mesmo.
     - Me, a me est zangada? No se zangue, me querida, acha que eu sou culpada?
     - No, mas que pretendes que eu faa? Queres que eu lhe v falar? - voltou a me, sorrindo.
     - No, eu me encarregarei disso sozinha; mas que hei-de dizer?  tudo to fcil para si. Ah!, se a me visse como ele me falou! De resto, eu vi bem que ele no queria, mas escapou-lhe. 
     - Isso no  razo para o no rejeitares.
     - No, no, tenho tanta pena dele!  to simptico!
     - Ento aceita-o. Alis, j vai sendo tempo de te casares - acrescentou a me num tom entre zangado e irnico.
     - Ah, mezinha, tenho tanta pena dele! No sei que lhe hei-de responder.
     - No s tu quem lhe deve falar, mas eu - concluiu a condessa, irritada apenas por algum ter ousado tratar como uma mulher aquela mida da Natacha.
     - De maneira alguma. Sou eu quem lhe vai falar sozinha, e a me fica a escutar  porta. - E Natacha entrou a correr no salo grande, onde Denissov continuava sentado ao p do cravo, com a cabea nas mos.
     Estremeceu ao ouvir aproximar-se aquele passo ligeiro. 
     - Natacha - disse, dirigindo-se-lhe precipitadamente -, decida do meu destino. Est nas suas mos.
     - Vassili Dmitritch, tenho tanta pena de si!... Ah!,  to bom... Mas no pode ser.., no.., e hei-de gostar sempre muito de si.
     Denissov inclinou-se para lhe beijar a mo e ela ouviu um rudo abafado de soluos, que a perturbou. Pousou os lbios nos seus cabelos hirsutos e emaranhados. No mesmo instante, ouviu-se o frufru precipitado do vestido da condessa, que se aproximava.
     - Vassili Dmitritch, muito obrigada pela honra que nos concede - disse ela numa voz comovida, que a Denissov se afigurou severa -, mas a minha filha  to nova e eu sempre pensei que, como amigo de meu filho, se dirigiria primeiro a mim. No me teria obrigado, nesse caso, a esta atitude de recusa.
     - Condessa - principiou Denissov, de olhos baixos e com uma expresso de quem se sente culpado; quis dizer mais alguma coisa, mas a voz entaramelou-se-lhe.
     Natacha no podia v-lo naquela atitude de sofrimento sem se comover. Rompeu em ruidosos soluos.
     - Condessa, procedi mal - pde dizer por fim Denissov, numa voz entrecortada -, mas, creia-me, tenho uma tal adorao pela sua filha e por toda a sua famlia que daria duas vidas... - Lanou um olhar  condessa e viu que ela conservava rima expresso severa. - Bom, adeus, adeus, condessa - acrescentou, beijando-lhe a mo, e, sem olhar Natacha, saiu da sala num passo rpido e decidido.
     
     No dia seguinte. Rostov viu partir Denissov, que no quis ficar um s dia mais em Moscovo. Todos os seus amigos o haviam acompanhado a casa dos ciganos, e era-lhe impossvel saber como o haviam metido no tren e como tinha percorrido as trs primeiras mudas.
     Depois de Denissov partir. Rostov,  espera do dinheiro que o pai no pudera arranjar imediatamente, ficou ainda quinze dias em Moscovo, sem sair de casa, quase sempre entretido com as raparigas nos seus aposentos.
     Snia mostrava-se mais terna e mais afectuosa do que nunca. Parecia querer mostrar-lhe que o dinheiro por ele perdido ao jogo era um acto que ainda lhe despertava maior amor, e Nicolau, pelo seu lado, considerava-se agora indigno dela.
     Enchia o lbum das meninas com versos e msicas, e logo que mandou os quarenta e trs mil rublos e lhe foi enviado o recibo de Dolokov, abalou, em fins de Novembro, sem se despedir de nenhum dos seus amigos, a fim de reingressar no seu regimento, ento na Polnia.






SEGUNDA PARTE
     

     
     
     
     Captulo 1
     
     Depois da explicao que tivera com a mulher. Pedro partira para Petersburgo. Na estao de posta em Torjok no havia cavalos, ou o dono da posta no lhos quis dar. Pedro viu-se obrigado a esperar. Deitou-se, sem se despir, num div de cabedal, diante de uma mesa redonda sobre a qual estendeu os ps com as suas botas forradas e ps-se a pensar.
     - Quer que traga as malas?  preciso arranjar a cama, trago-lhe ch? - perguntou o criado de quarto.
     Pedro no respondeu, pois no ouvia nada, no via nada. As suas reflexes duravam desde a ltima muda e nelas se mantinha to absorvido que no prestava a mnima ateno ao que se passava  sua volta. No s lhe no interessava saber se chegaria a Petersburgo mais cedo ou mais tarde, ou se poderia dispor ou no de uma cama na estao da posta, mas, em relao aos pensamentos em que cogitava, isso era-lhe indiferente: tanto se lhe dava passar algumas horas naquele local ou a vida inteira.
     O dono da estao de posta, a mulher, o criado de quarto, uma vendedeira de bordados de Torjok, todos tinham vindo oferecer-lhe os seus prstimos. Pedro, sem alterar a posio das pernas, olhava para eles atravs dos cristais das suas lunetas sem chegar a compreender o que queriam e como  que eles todos poderiam viver sem terem resolvido os problemas que o preocupavam. E eram sempre os mesmos desde o dia em que ele regressara de Sokolniki, depois do duelo, e passara uma to penosa noite de insnia; simplesmente, agora, no isolamento da viagem, esses problemas haviam-se tornado mais prementes. Fosse qual fosse o curso dos seus pensamentos, regressava sempre a estas mesmas perguntas, que no podia resolver e que no podia deixar de se formular. Afigurava-se-lhe estar falseada na sua cabea a engrenagem de que dependia toda a sua vida. Certo parafuso no podia continuar a desempenhar as suas funes nem sair donde estava encaixado, e girava sempre, sem sentido, na sua ranhura, sendo impossvel faz-lo parar.
     O dono da estao de posta entrou e rogou humildemente a Sua Excelncia que se dignasse esperar duas horazinhas, comprometendo-se, depois disso, a arranjar a Sua Excelncia, acontecesse o que acontecesse, os cavalos de posta de que ele precisava. Mentia, naturalmente, e apenas tinha em vista extorquir algum dinheiro ao viajante.
     Far bem ou mal?, perguntava Pedro aos seus botes. Para mim faz bem; mas para o viajante que se seguir faz mal, e tambm para ele prprio, isso  inevitvel, pois no tem outra maneira de viver. Garantiu-me que um oficial lhe tinha batido por ter feito a mesma coisa; mas se o oficial lhe bateu  porque queria seguir depressa. Eu disparei contra Dolokov porque me considerava ofendido, e Lus XVI foi guilhotinado porque o consideravam um criminoso, e se um ano mais tarde mandaram matar aqueles que o tinham guilhotinado,  porque tambm havia razes para isso. O que  o mal? O que  o bem? Que devemos ns amar? Que devemos odiar? O que  a vida? O que  a morte? Que foras dirigem tudo isto?
     E no havia resposta a qualquer destas perguntas, salvo uma resposta ilgica, que no explicava coisa alguma. Esta resposta era: Um dia hs-de morrer e tudo acabar. Tu morrers e sabers tudo ou deixars de formular estas perguntas. Mas morrer era uma coisa horrvel.
     A vendedeira de bordados de Torjok, na sua voz estridente, oferecia as suas mercadorias, e em especial chinelas de camura. Tenho centenas de rublos que no sei em que empregar, e ali est aquela mulher com a sua pelia esfarrapada a olhar para mim cheia de timidez, pensava Pedro. E porque  que ela precisa de dinheiro? Poder este dinheiro proporcionar-lhe, por pouco que seja, a felicidade e o sossego da alma? Haver alguma coisa no mundo capaz de fazer com que ela ou eu estejamos menos expostos ao mal e  morte, essa morte que acabar com tudo e que chegar hoje ou amanh, pouco importa o momento, pelo menos aos olhos da eternidade? E de novo fez andar o parafuso que girava no vcuo e o mecanismo continuou a trabalhar sempre no mesmo stio.
     O criado apresentou-lhe um romance de Madame de Souza, meio aberto. Ps-se a ler a histria dos trabalhos e das lutas virtuosas de uma certa Amlie de Mansfeld. E porque  que ela h-de lutar contra o seu sedutor, pensava ele, visto gostar dele? Deus no lhe pode ter introduzido no corao tendncias contrrias  Sua vontade. A minha ex-mulher, essa no lutou, e talvez ela tivesse tido razo. E Pedro disse ainda para si mesmo: Nada foi inventado. Apenas podemos saber que no sabemos nada. E este  o mais alto grau da sabedoria humana.
     Em si prprio e em tomo de si tudo lhe parecia confuso, absurdo e repugnante. Mesmo nesse afastamento de tudo que o cercava. Pedro encontrava uma espcie de gozo e de excitao.
     - Atrevo-me a pedir a Sua Excelncia permita que este senhor se sente aqui - disse o dono da estao de posta, entrando e trazendo consigo um segundo viajante, que ali parara por falta de cavalos.
     Este viajante era um velho de pequena estatura, ossudo, de tez amarelenta, cheia de rugas, e sobrancelhas brancas proeminentes sobre uns olhos brilhantes, cinzento indeciso.
     Pedro tirou as pernas de cima da mesa, levantou-se e estendeu-se na cama que lhe tinham preparado, lanando de tempos a tempos um olhar ao recm-chegado, o qual, de aspecto taciturno e fatigado, sem se dignar olhar para o seu companheiro, se ia despindo, com dificuldade, ajudado pelo criado. Tendo ficado apenas com uma tulupe surrada com forro de ganga e os ps magros e ossudos metidos numas botas de feltro, instalou-se no div e deixou cair em cima do travesseiro a sua grande cabea, de tmporas largas e cabelo rapado; depois ps-se a fitar Bezukov. Pedro sentiu-se impressionado com a expresso severa, inteligente e penetrante desse olhar. Veio-lhe um grande desejo de entabular conversa com o viajante, mas quando se dispunha a interrog-lo sobre a sua viagem reparou que ele j fechara os olhos e que ficara imvel, com as velhas mos rugosas encruzadas, numa das quais tinha um anel de metal com uma caveira. Dir-se-ia ora descansar ora reflectir tranquilamente em qualquer rduo problema. O seu criado tambm era um velhinho de tez amarelenta e todo enrugado, sem bigode nem barba, no por se ter barbeado, mas por ausncia de plo. Este velhinho tirava das malas agilmente o necessrio, preparava a mesa do ch e trouxera um samovar onde a gua fervia. Quando tudo estava pronto, o amo abriu os olhos. Aproximando-se da mesa encheu de ch um copo para si, encheu outro para o velho e deu-lho. Pedro principiou a agitar-se e teve a impresso clara de que se tornava obrigatrio e at mesmo inevitvel meter conversa com o viajante.
     O criado pousou o seu copo vazio, virado de fundo para o ar em cima do pires e sobre ele um cubo de acar que no utilizara, e perguntou ao amo se era precisa mais alguma coisa.
     - Nada. D c o meu livro - disse-lhe o amo.
     Deu-lhe um livro, que Pedro julgou ser um livro de oraes, e o desconhecido principiou a ler atentamente. Pedro continuou a olhar para ele. De sbito, viu-o fechar o livro e p-lo de lado, e outra vez, de olhos cerrados, deitar-se para trs na almofada do div, retomando a posio anterior. Pedro no teve tempo de afastar os olhos: o velho abriu os seus e fitou-o de maneira resoluta e severa.
     Pedro sentiu-se perturbado e quis evitar aquele olhar, mas os olhos brilhantes do velho atraam-no irresistivelmente.
     

     
     
     
     Captulo II
     
     -  ao conde Bezukov que eu tenho o prazer de dirigir a palavra, se me no engano - disse o viajante, em voz alta e sem pressa.
     Pedro, sem dizer palavra, interrogou o interlocutor olhando-o por detrs dos cristais das lunetas.
     - Tenho ouvido falar de si - continuou o velho - e da desgraa de que  vtima. - Acentuou a palavra, como se quisesse dizer: Sim, seja qual for o nome que lhe queira dar,  uma desgraa, eu sei que o que lhe aconteceu em Moscovo  uma desgraa. - Creia que sinto muito.
     Pedro corou, deu-se pressa em saltar da cama e inclinou-se para o velho com um sorriso forado e tmido.
     - No foi por mera curiosidade que lhe falei disto, mas por mais graves razes.
     Calou-se o velho sem deixar de fitar Pedro e convidou-o, dando-lhe lugar no div, a que se sentasse a seu lado.
     - Eu sei que  infeliz - prosseguiu ele. -  novo e eu sou velho. Na medida das minhas foras, muito gostava de o poder auxiliar.
     - Ah!, sim - disse Pedro, com o seu sorriso forado.- Ficar-lhe-ei muito reconhecido... Donde vem?
     O recm-chegado tinha uma expresso bem pouco cordial, mesmo fria e severa at. No entanto a sua palavra e a sua expresso atraam irresistivelmente o conde Bezukov.
     - Mas se a minha conversa, por esta ou aquela razo, lhe for desagradvel - disse o velho -, peo-lhe que mo diga francamente.
     No seu rosto perpassou, sem ser esperado, um sorriso paternal e afectuoso.
     - Mas de maneira alguma, pelo contrrio, gostei muito de o conhecer. - E lanando outro olhar ao anel do seu novo amigo, examinou-o de mais perto. Era urna caveira com dois ossos cruzados, insgnia da franco-maonaria.
     - Permita-me que lhe pergunte - disse ele.-  franco-mao?
     - Sim, perteno  fraternidade dos franco-maes - disse o viajante, fixando Pedro com uma insistncia cada vez maior. - E em meu nome e em nome deles aqui tem a minha mo fraternal.
     - Tenho medo - balbuciou Pedro, sorrindo hesitante entre a confiana que lhe inspirava aquele indivduo e o seu hbito de troar das crenas manicas -, tenho medo de estar muito longe da compreenso.., como  que hei-de dizer? Tenho receio de que as minhas ideias relativamente ao universo em geral sejam to opostas s suas que no nos possamos entender.
     - Conheo as suas ideias - replicou o mao - e essas opinies de que fala e que lhe parecem o resultado de um pensamento pessoal so as ideias da maioria das pessoas, so o fruto, sempre o mesmo, do orgulho, da indolncia e da ignorncia. Desculpe-me, meu caro senhor, mas se eu o no tivesse conhecido no teria entabulado conversa consigo. As suas opinies so um erro lamentvel.
     - Exactamente como se, eu pretendesse afirmar que era o senhor quem estava em erro - disse Pedro, com um breve sorriso.
     - Nunca me atreveria a afirmar que estou na posse da verdade - voltou o Mao, que cada vez impressionava mais o interlocutor com a nitidez e a firmeza das suas palavras - Ningum s por si pode atingir a verdade. S pedra a pedra, com o concurso de todos, graas a milhes de geraes, desde o nosso primeiro pai. Ado, at hoje, se vai erguendo o templo digno de ser habitado pelo Grande Deus - acrescentou, cerrando os olhos.
     - Devo confessar-lhe que no creio, no creio.., em Deus - disse Pedro Com esforo e como penalizado, sentindo, no entanto, a necessidade de dizer toda a verdade.
     O franco-mao observou-o atento, sorrindo como sorriria um homem rico, com as mos cheias de dinheiro, dirigindo-se ao pobre que lhe dissesse que lhe faltavam cinco rublos para ser feliz.
     -  certo que o senhor O no conhece - disse-lhe ele -, o senhor no O pode conhecer. O senhor no O conhece, e  por isso mesmo que  infeliz.
     - Sim,  verdade, sou infeliz - corroborou Pedro - mas que hei-de eu fazer?
     - O senhor no o conhece, e  por isso que  infeliz. O senhor no O conhece e Ele est aqui. Est em mim. Est nas minhas palavras. Est em ti e at mesmo nas palavras sacrlegas que acabas de proferir! - disse o velho numa voz severa e trmula. Calou-se e suspirou, procurando, claramente, retomar a serenidade. - Se Ele no existisse - continuou em voz baixa - ns no estaramos aqui, o senhor e eu, a falar dEle. De qu? De qu e de quem falamos ento? Quem  que tu acabas de negar? - prosseguiu, com uma exaltao severa e autoridade na voz. - Quem  que O inventou ento se Ele no existe? Donde  que te veio ento a ideia de um ser to incompreensvel? Donde  que ento o mundo inteiro e tu prprio tiraram a noo da existncia de um ser inacessvel, de um ser todo-poderoso, eterno e infinito em todos os seus atributos?...
     Calou-se e ficou silencioso por muito tempo. Pedro no pode nem quis romper esse silncio.
     - Existe, mas  difcil compreend-lO - recomeou, sem olhar de frente o interlocutor. Com os olhos fitos diante de si e com as suas mos de velho, que no podia manter quedas, merc da agitao interior que o tomava, ia virando as pginas do livro.- Se se tratasse de um homem de cuja existncia tu duvidasses, eu trazer-te-ia esse homem, pegar-lhe-ia pela mo e mostrar-to-ia. Mas como  que eu, miservel mortal, saberia mostrar a Sua fora todo-poderosa, a Sua eternidade, a Sua misericrdia infinita quele que  cego, ou quele que tapa os ouvidos, ou quele que fecha os olhos para O no ver, para O no compreender e para no ver e para no compreender a sua prpria misria, a sua prpria corrupo? - Ficou um momento calado. - Quem s tu? Que s tu? Julgas-te um sbio s porque s capaz de pronunciar essas palavras sacrlegas - prosseguiu ele, com um sorriso amargo e desdenhoso - e ainda s mais tolo o mais insensato do que o garoto que se entretm com o movimento artisticamente combinado de um relgio e que seria capaz de dizer que pelo facto de no compreender a finalidade de todas aquelas engrenagens tambm no acredita no artista que o fez. Conhec-lo  difcil... Durante sculos, desde o nosso primeiro pai. Ado, at aos nossos dias, trabalhmos nessa cincia e ainda estamos muito longe do fim a alcanar: mas  nesta impossibilidade que se revelam a nossa fraqueza e a Sua grandeza,
     Pedro, com o corao angustiado, fitando no franco-mao os seus olhos brilhantes, escutava-o sem o interromper, sem lhe fazer qualquer pergunta e de todo o seu corao acreditava nas palavras desse homem, um estranho para ele. Seriam as dedues lgicas daqueles discursos que o tinham persuadido, ou, como acontece s crianas, a entoao, o acento de convico e sinceridade do seu interlocutor? Estaria ele abalado por essa emoo que chegava a interromper a voz do orador ou por esses olhos cintilantes de um homem que envelhecera agarrado  sua f, ou por essa serenidade, essa segurana, a conscincia do apstolo que se lia em todo aquele ser e que tanto mais o perturbava a ele. Pedro, quanto era certo ser ele prprio cobarde e sem energia rnoral? Fosse como fosse, o certo  que ele desejava de todo e seu corao adquirir f e experimentava um alegre sentimento de serenidade, de renovao e como que de regresso  vida.
     - No se chega l pela inteligncia, mas pela experincia da vida - disse o franco-mao.
     - No compreendo - interrompeu Pedro, sentindo, com angstia, erguerem-se nele as dvidas. Tinha medo de verificar a obscuridade e a fraqueza dos argumentos do interlocutor, tinha receio de no acreditar nele. - No compreendo como  que o esprito humano no pode alcanar esse conhecimento de que o senhor fala.
     O velho sorriu, e o seu sorriso era benigno e paternal.
     - A suprema sabedoria e a verdade so como um orvalho muito puro de que ns gostaramos de nos sentir repassados. Poderei eu recolher este puro orvalho num vaso impuro e pensar que ele  a prpria pureza? S graas a uma redeno interior poderei fazer que este orvalho que eu venha a recolher em mim tinja um certo grau de pureza.
     - Sim,  assim mesmo - exclamou Pedro com alegria.
     - A sabedoria suprema no se baseia apenas na razo, nas cincias profanas como a fsica.  histria, a qumica e outras em que o conhecimento intelectual est dividido. A sabedoria suprema  una. A sabedoria suprema s conhece uma cincia - a cincia do todo, a cincia que explica toda a criao e o lugar que o homem ocupa. Para instilar esta cincia em ns prprios temos de purificar e de renovar o nosso eu interior, e assim, antes de conhecermos, devemos crer e tornarmo-nos perfeitos. E para atingirmos esta finalidade h no interior da nossa alma luz divina, que  a conscincia.
     - Sim, sim - aprovou Pedro.
     - Contempla com os olhos da alma o teu ser interior e pergunta a ti mesmo se ests contente contigo. Onde  que chegaste guiado apenas pela inteligncia? Quem s tu?  novo, rico, inteligente, cultivado, meu caro senhor. Que fez de todos estes bens que lhe foram concedidos? Est contente consigo e com a sua existncia?
     - No, odeio-a - exclamou Pedro, franzindo as sobrancelhas.
     - Odeia-la? Ento transforma-a, purifica-te, e,  medida, que te fores purificando, conhecers a sabedoria. Lance um olhar  sua existncia, meu caro senhor. Como  que a passou? Em orgias e no deboche. Tendo recebido tudo da sociedade e sem nada lhe restituir, adquiriu a riqueza. Que uso fez dela? Que fez pelo prximo? J pensou nas dezenas de milhares dos seus escravos? Ajudou-os, porventura, fsica e moralmente? No. Tirou beneficio do seu trabalho para levar uma vida desregrada. Eis o que o senhor fez. Escolheu porventura uma profisso em que fosse til ao prximo? No. Tem passado a vida inteira ocioso. Em seguida, veio o casamento, meu caro senhor, e o senhor assumiu a responsabilidade da conduta de uma mulher. E que fez? No a ajudou a procurar o caminho da verdade e arrastou-a para o abismo da mentira e da infelicidade. Um homem ultrajou-o e o senhor procurou mat-lo, e  o senhor quem diz agora que no acredita em Deus e que odeia a, sua prpria existncia. No h nada de estranho em tudo isso, meu caro senhor!
     Tendo assim falado, o franco-mao, como se se sentisse, fatigado por uma longa conversa, de novo voltou a recostar-se na almofada do div, fechando os olhos. Pedro ps-se a contemplar aquele rosto de velho, severo e imvel, que parecia quase sem vida, e remexeu os lbios sem dizer uma palavra. Teria querido dizer: Sim, que miservel vida de ociosidade e deboche!, mas no ousou romper o silncio.
     O franco-mao teve uma tosse rouca, como  prprio dos velhos, e chamou o criado.
     - E ento, os cavalos? - perguntou, sem olhar para Pedro.
     - Trouxeram-nos agora mesmo. No descansa um bocadinho?
     - No, manda atrelar.
     Ir-se- ele embora, deixando-me s, sem ter dito tudo que queria dizer e sem me prometer o seu apoio?, dizia Pedro de si para consigo, e, erguendo-se, ps-se a andar de um lado para o outro atravs do quarto, de cabea baixa, lanando olhares furtivos para onde estava o franco-mao. Sim, nunca tinha pensado nisso, mas a verdade  que tenho levado urna vida desprezvel de deboche.  certo que a detestava e que no era o meu ideal. Este homem conhece a verdade, e, se estivesse disposto, podia revelar-ma.
     Era isto mesmo que Pedro lhe queria dizer, mas no o ousava. Tendo o viajante acabado de arranjar as bagagens com suas velhas mos assaz diligentes, ps-se a abotoar a tulupa. Assim que acabou voltou-se para Bezukov e disse-lhe, em tom indiferente e corts,
     - Aonde se dirige, meu caro senhor?
     - Eu?... Eu vou para Petersburgo - replicou Pedro numa voz hesitante de criana. - Estou-lhe muito reconhecido. Estou inteir3mente de acordo consigo. E no v julgar que sou uma pessoa to pervertida como pensa. De todo o corao gostaria de poder vir a ser o homem que o senhor quereria que eu fosse. Mas nunca encontrei ningum que me ajudasse... De resto, sou eu, claro est, o maior culpado. Ajude-me, instrua-me, e talvez eu venha a ser...
     Pedro nada mais pde dizer. A emoo estrangulou-o, e afastou-se.
     O franco-mao ficou calado por muito tempo, como quem reflecte.
     - A ajuda s Deus a pode dar - disse ele -, mas aquela que , nossa ordem est em condies de lhe prestar, essa prestar-lha-, meu caro senhor. Como vai para Petersburgo, entregue isto ao conde Villarski. - Abriu a pasta e escreveu qualquer coisa numa grande folha de papel que dobrou em quatro. - Permita que lhe d ainda mais um conselho. Assim que chegar  capital consagre os primeiros dias  solido, faa o seu exame de conscincia e no volte  sua vida antiga. Agora desejo que faa boa viagem, meu caro senhor - acrescentou ao ver entrar o criado e que seja feliz -
     Este viajante chamava-se Osip Alexeievitch Bazdeiev, como Pedro veio a saber pelo livro da posta. Era, franco-mao e martinista dos mais conhecidos desde os tempos de Novikovki. Muito tempo depois da sua partida ainda Pedro, sem se deitar nem dar ordem para que atrelassem, continuava a ir e vir na sala da posta, pensando no seu passado corrupto e figurando-se, com o entusiasmo da renovao, um futuro venturoso para ele e irrepreensvel na sua virtude, coisa que lhe parecia agora muito fcil de realizar. Pelo que imaginava, apenas era um homem corrompido por haver esquecido sem querer quanto era belo ser virtuoso. Na sua alma no havia vestgios das suas antigas dvidas. Acreditava firmemente na possibilidade de uma unio fraternal dos homens com vista a auxiliarem-se mutuamente no caminho da virtude e era assim que imaginava a franco-maonaria.
     

     
     
     
     Captulo III
     
     Uma vez em Petersburgo. Pedro no comunicou a ningum que tinha chegado, no foi a parte alguma e passou os seus dias a ler um livro de Toms A. Kempis, obra que lhe viera j no sabia donde. E o nico proveito que extraa desta leitura era a satisfao, para ele desconhecida at esse momento, de poder acreditar na possibilidade de atingir a perfeio e de realizar entre os homens esse amor fraternal e actuante que lhe havia revelado Osip Alexeievitch. Oito dias depois da sua chegada, o jovem conde polaco Villarski, que Pedro conhecia de vista da sociedade petersburguesa, apresentou-se uma tarde em sua casa, com esse ar oficial e solene que havia assumido para se lhe apresentar a testemunha de Dolokov. Fechou a porta assim que entrou, e depois de se certificar de que no havia mais ningum na sala alm de Pedro dirigiu-se-lhe nestes termos:
     - Vim visit-lo, conde - disse-lhe sem se sentar -, a fim de cumprir uma misso e fazer-lhe uma proposta. Uma pessoa altamente colocada na nossa ordem intercedeu para que o senhor seja admitido entre ns antes do prazo habitual e pediu-me que fosse seu Padrinho. Considero um dever sagrado dar cumprimento s suas disposies. Est o senhor disposto, sob o meu patrocnio, a entrar na fraternidade dos irmos franco-maes?
     O tom frio e severo deste homem, que Pedro se habituara a ver quase sempre nos bailes sorrindo amavelmente no meio dos mais brilhantes ornamentos da sociedade elegante, impressionou-o.
     - Sim,  esse o meu desejo - respondeu. Villarski aprovou com um aceno de cabea.
     - Uma pergunta, conde,  qual eu peo que me responda com toda a sinceridade, no como futuro mao, mas como homem de bem. Renegou as suas opinies antigas, acredita em Deus?
     Pedro reflectiu um momento.
     - Sim.., sim, creio em Deus - disse ele.
     - Nesse caso - continuou Villarski, mas Pedro interrompeu-o.
     - Sim, acredito em Deus - repetiu mais uma vez.
     - Nesse caso, podemos seguir - voltou Villarski. - A minha carruagem est  sua disposio.
     Durante todo o trajecto. Villarski conservou-se calado. Quando Pedro lhe perguntou o que tinha a fazer e que devia responder, contentou-se em afirmar que irmos mais dignos do que ele iriam experiment-lo e que ele no tinha a dizer seno a verdade.
     Assim que chegaram  porta do edifcio onde estava instalada a loja, subiram uma escada escura e penetraram numa pequena antecmara iluminada onde, sem que qualquer criado os ajudasse, despiram as pelias. Dali passaram para outra de- pendncia. Um homem de estranhas roupagens surgiu no limiar da porta. Villarski, indo ao seu encontro, disse-lhe algumas palavras em francs em voz baixa e aproximou-se de um pequeno armrio em que Pedro viu umas vestes como nunca vira. O seu companheiro pegou num leno, vendou-lhe os olhos e atou-o com um n na nuca, deixando uma madeixa de cabelo desastradamente metida no n. Depois puxou-o para si, abraou-o e conduziu-o, levando-o pela mo. Pedro, incomodado com a venda que lhe repuxava os cabelos, fazia caretas e ao mesmo tempo sorria com um ar embaraado. A sua espessa figura, os braos balouando, com o rosto todo contrado e sorridente, ia seguindo Villarski com passos tmidos e hesitantes.
     Depois de ter dado uns dez passos, o guia deteve-o.
     - Acontea o que acontecer - disse-lhe ele- tudo deve suportar com coragem, caso esteja firmemente resolvido a dar entrada na nossa instituio. - Pedro acenou afirmativamente com a cabea. - Quando ouvir bater  porta - acrescentou Villarski - tire a venda. Coragem e que seja bem sucedido.- E saiu, depois de lhe ter apertado a mo.
     Uma vez s. Pedro continuou a sorrir. Por duas ou trs vezes encolheu os ombros, impaciente, levou a mo  venda, como a querer arranc-la, e voltou a deix-la cair. Os cinco minutos decorridos depois que lhe haviam vendado os olhos afiguravam-se-lhe uma longa hora. Tinha as mos dormentes, as pernas vergavam-se-lhe. Parecia extraordinariamente cansado. As impresses que sentia eram das mais complexas e das mais variadas. Tinha medo do que se estava a passar com ele, e ainda receava mais mostrar que o tinha. Estava curiosssimo por saber o que lhe iriam fazer e o que lhe iam revelar; mas nele dominava a alegria de ver chegar o momento em que finalmente entrasse no caminho da renovao e da vida activa e virtuosa com que sonhava desde o seu encontro com Osip Alexeievitch. Na porta ressoaram umas pancadas violentas. Pedro desatou a venda e olhou em volta de si. A dependncia estava s escuras. Havia apenas um recanto iluminado em que bruxuleava uma lamparina sobre qualquer coisa branca. Pedro aproximou-se e verificou que a lamparina estava pousada em cima de uma mesa preta onde havia um livro aberto. O livro era os Evangelhos e o objecto branco em que ardia, a lamparina urna caveira. Leu as conhecidas palavras Ao princpio era o Verbo e o Verbo era Deus, em seguida deu a volta  mesa e viu uma grande caixa aberta a transbordar. Era um caixo cheio de ossos. Pedro no sentiu a mnima surpresa perante o que via. No seu desejo de principiar uma vida completamente nova, totalmente diferente da anterior, contava com coisas extraordinrias, muito mais extraordinrias ainda do que aquelas que estava a ver. A caveira, o caixo, o Evangelho, por isso esperava ele, e afigurava-se-lhe que devia esperar ainda muito mais. Esforou-se por sentir qualquer emoo como um sentimento devoto. Deus, a morte, o amor, a fraternidade humana, dizia dentro de si mesmo, procurando que estas palavras encerrassem no emoes obscuras, mas smbolos de felicidade. A porta abriu-se e algum entrou.
     A plida luz que, apesar de tudo, permitia que Pedro distinguisse os objectos, apareceu um homem de pequena estatura. Ao passar da luz para a obscuridade, parou; depois, em passos prudentes, aproximou-se da mesa, na qual pousou as suas pequenas mos enluvadas.
     O recm-chegado trazia um avental de pele branca que lhe cobria o peito e parte das pernas; no pescoo tinha uma espcie de colar debaixo do qual apareciam uns altos bofes brancos que lhe encaixilhavam o rosto alongado, iluminado pela parte inferior.
     - Porque veio aqui? - disse ele, voltando-se para o lado donde vinha o rudo que Pedro estava a fazer. - Porqu, se no acredita na verdadeira luz, se a no v, porque veio aqui, que quer de ns? A sabedoria, a virtude, a cultura?
     Logo que a porta se abrira e que o desconhecido entrara. Pedro sentira-se tomado por um sentimento de temor e de respeito semelhante ao que costumava experimentar na infncia quando se confessava: encontrava-se frente a frente com um homem muito afastado pela sua condio e muito perto do ponto de vista da fraternidade humana. Com palpitaes que lhe cortavam a respirao, aproximou-se do reitor - o nome que se d na franco-maonaria ao irmo encarregado de preparar o recipiendrio que aspira a entrar na organizao. Mais de perto reconheceu tratar-se de, um dos seus amigos, um certo Smolianinov, e impressionou-o pensar que aquele homem seu conhecido para ele devia ser apenas um irmo e um iniciador virtuoso. Esteve muito tempo sem poder encontrar palavras, obrigando o reitor a repetir as perguntas.
     - Sim, eu.., eu - quero regenerar-me - acabou por articular.
     - Bom - disse Smolianinov, que prosseguiu: - Tem alguma noo dos meios de que a nossa santa ordem dispe para o fazer alcanar o seu objectivo? - A sua palavra era calma e pronta.
     - Sim.., espero.., ser guiado - socorrido.., na minha regenerao - disse Pedro, a voz trmula e as palavras difceis, ao mesmo tempo o resultado da emoo e do pouco hbito de exprimir em russo ideias abstractas.
     - Que noo tem da franco-maonaria?
     - Penso que a franco-maonaria  a fraternidade e a igualdade dos homens que tm a virtude por objectivo - replicou Pedro, que,  medida que ia falando, sentia vergonha de empregar palavras por de mais vulgares para a solenidade de momento.- Eu julgo...
     - Bom - deu-se pressa em responder o reitor, visivelmente satisfeito cem a resposta. - Procurou na religio os meios de alcanar esse fim?
     - No, sempre a considerei contrria  verdade, e no a segui - disse Pedro to baixo que o mao no ouviu e pediu-lhe que repetisse. - Eu era ateu - acrescentou.
     - Procura a verdade a fim de se conformar com as suas leis na vida; por conseguinte, procura a sabedoria e a virtude, no  assim? - prosseguiu o reitor, depois de um instante de silncio.
     - Procuro, procuro - afirmou Pedro.
     O franco-mao tossicou, cruzou sobre o peito as mos enluvadas e retomou a palavra.
     - Devo agora revelar-lhe os principais objectivos da nossa ordem, se essa finalidade concordar com a sua, ter vantagem em fazer parte da nossa agremiao. O essencial, e por conseguinte a base sobre a qual assenta, a ordem e que nenhuma tora humana pode destruir,  a conservao e a transmisso  posteridade dos importantes mistrios que chegaram at ns vindos dos sculos mais recuados e at mesmo do primeiro homem, mistrios de que depende talvez o destino do gnero humano. Mas como estes mistrios so de tal ordem que ningum os pode conhecer e tirar deles partido desde que se no tenha preparado por uma longa e cautelosa purificao de si prprio, nem toda a gente se pode vangloriar de os possuir facilmente. Eis porque o nosso segundo objectivo consiste em predispor os nossos irmos tanto quanto possvel para purificar os seus coraes e para elevar e esclarecer a sua razo, graas aos meios que a tradio nos desvendou, em nome daqueles que se esforaram por esclarecer esses mistrios, e torn-los assim capazes de os receber. Pela purificao e regenerao dos nossos adeptos esforamo-nos, em terceiro lugar, por corrigir igualmente o humanidade inteira, oferecendo-lhe modelos de honestidade e de virtude e assim procuramos com todas as nossas foras combater o mal que reina no mundo. Reflicta nisto, que eu voltarei a visit-lo - acrescentou e saiu.
     Lutar contra o mal que reina no mundo..., repetiu Pedro de si para consigo, e diante dos seus olhos perpassou a sua aco futura nesse sentido. Afigurou-se-lhe estar perante homens tal como ele prprio quinze dias antes e mentalmente dirigia-lhes uma alocuo. Representavam-se-lhe esses homens corruptos e infelizes, a quem ele levaria auxlio nas suas palavras e nos seus actos. Representavam-se-lhe os opressores a quem ele arrancaria as suas vtimas. Dos trs objectivos enumerados pelo reitor, este ltimo, a regenerao do gnero humano, era o que mais lhe agradava. Os graves mistrios de que aquele homem falara, ainda que excitassem a sua curiosidade, no se lhe afiguravam essenciais. Quanto ao segundo objectivo, a purificao e a regenerao prprias, interessava-lhe pouco, desde que naquele mesmo momento experimentava a grande satisfao de se encontrar j totalmente liberto dos seus vcios de outrora e unicamente preparado para o bem. Meia hora depois o reitor voltou para comunicar ao recipiendrio as sete virtudes, correspondentes aos sete degraus do templo de Salomo, que cada mao deve cultivar em si prprio. Estas virtudes eram as seguintes: 1 A modstia, que guarda os segredos da ordem; 2 A obedincia aos seus superiores; 3 Os bons costumes; 4 O amor da humanidade: 5 A coragem; 6 A generosidade, e 7 O amor da morte.
     - Em stimo lugar - disse-lhe o reitor - esforai-vos, pensando muitas vezes na morte, por chegar a encar-la no como uma inimiga terrvel, mas como uma amiga.., que liberta desta vida de misrias a alma atormentada pelos trabalhos da virtude para a introduzir na manso da recompensa e do repouso.
     Sim, deve ser assim, dizia Pedro quando, depois de ter pronunciado estas palavras, o reitor desapareceu outra vez, deixando-o entregue s suas reflexes solitrias. Deve ser assim, mas eu sinto-me ainda to fraco que amo a minha existncia, cujo sentido s agora se vai descobrindo pouco a pouco aos meus olhos. Mas as cinco outras virtudes que Pedro enumerava, contando pelos dedos, essas sentia-as na sua alma: a coragem, a ,generosidade, os bons costumes, o amor da humanidade e particularmente a obedincia aos superiores, que at para ele no era uma virtude, mas antes uma venturosa sorte, de tal modo, com efeito, ele se sentia feliz por poder agora escapar ao seu livre arbtrio e submeter a sua vontade quele e queles que possuam a incontestvel verdade. Quanto  stima virtude. Pedro tinha-a esquecido e no foi capaz de se lembrar dela.
     Pouco depois, pela terceira vez, voltou a aparecer o reitor, e perguntou-lhe se ele continuava decidido na sua resoluo e se estava disposto a submeter-se a tudo quanto dele exigissem.
     - Estou pronto para tudo - disse Pedro.
     - Devo fazer-lhe saber ainda - voltou ele - que a nossa ordem ensina a sua doutrina no s pela palavra, mas por outros meios, que agem sobre aquele que procura verdadeiramente a sabedoria e a virtude talvez mais poderosamente ainda do que as explicaes orais. Esta sala, com a decorao que tem diante dos olhos, j deve estar a agir sobre o seu corao, se o seu corao  sincero, mais fortemente que as palavras.  natural que  medida que for sendo iniciado venha a tomar contacto com outros meios de ensino do mesmo genero. A nossa ordem imita as sociedades antigas, que desvendavam a sua doutrina atravs dos hierglifos. O hierglifo - acrescentou ele -  o smbolo das coisas que no impressionam os nossos sentidos e que possuem qualidades semelhantes quelas que ele representa.
     Pedro sabia perfeitamente o que era um hierglifo, mas no tinha coragem de abrir a boca. Ouvia em silncio, pressentindo, por tudo quanto escutava, irem principiar as provas.
     - Se est decidido, devo proceder  sua iniciao - disse ento o reitor, aproximando-se dele - Em testemunho da sua generosidade, peo-lhe que me entregue tudo quanto possui de precioso.
     - Mas eu nada trouxe comigo - disse Pedro, que supunha estarem a pedir-lhe tudo o que ele possua.
     - O que traz consigo: relgio, dinheiro, anis...
     Pedro apressou-se a entregar a bolsa do dinheiro, o relgio, e levou muito tempo para tirar do grosso dedo o anel de casamento. Quando acabou, o franco-mao disse:
     - Em sinal de obedincia, peo-lhe que dispa o seu fato. Pedro tirou o fraque, o colete e a bota do p esquerdo, consoante a indicao do reitor. Este levantou a camisa do lado esquecido do peito e, baixando-se, dobrou o canho da cala, na perna esquerda,  altura do joelho. Pedro preparava-se para descalar tambm a bota do p direito e dobrar a outra perna da cala, para assim poupar esse trabalho quele homem, mas o franco-mao disse-lhe no ser preciso e deu-lhe um chinelo para calar no p esquerdo. Com um sorriso infantil em que havia embarao, hesitao e troa de si mesmo, sorriso que, sem querer, se lhe espalhava pelo rosto. Pedro continuava de p, os braos balouando e as pernas afastadas, diante do seu iniciador, aguardando novas ordens.
     - E por fim, em sinal de sinceridade, queira confessar-me qual  a sua principal fraqueza - disse-lhe este.
     - A minha fraqueza! - exclamo u Pedro. - Eu tenho tantas...
     - A fraqueza que de entre todas mais o faz hesitar no caminho da virtude,
     Pedro ficou calado, reflectindo.
     O vinho? A carne? A ociosidade? A preguia? A exaltao? A clera? As mulheres? Mentalmente ia enumerando os seus vcios, pesando um por um, sem saber a qual deles dar preferncia.
     - As mulheres! - disse, em voz baixa, quase imperceptvel.
     O mao no pestanejou e ficou por muito tempo silencioso depois desta resposta. Por fim caminhou para Pedro, pegou no leno que estava em cima da mesa e de novo lhe vendou os olhos.
     - Pela ltima vez, digo-lhe: entre em si prprio, ponha um freio s suas paixes e procure a felicidade, no nessas paixes, mas no seu prprio corao. A fonte da felicidade no est fora de ns, mas em nos mesmos...
     Pedro sentia-se j penetrado por um manancial refrigerante de felicidade que naquele momento lhe enchia o corao de alegria e de enternecimento.
     

     
     
     
     Captulo IV
     
     Pouco tempo depois vieram buscar Pedro  dependncia escura, j no o reitor, mas o seu padrinho. Villarski, a, quem reconheceu pela voz.
     s perguntas que este lhe fez sobre a firmeza das suas resolues. Pedro replicou: - Sim, sim, consinto -, e com o seu sorriso irradiante de criana, com o gordo peito nu, marchando timidamente, coxeando, um dos ps calado e o outro descalo, caminhou enquanto Villarski mantinha uma espada com a ponta apoiada no seu peito nu.
     Levaram-no ao longo de corredores, obrigando-o a dar voltas para diante e para trs, e por fim conduziram-no  porta da loja. Villarski tossiu; como resposta ouviram-se pancadas com o mao manico e a porta abriu-se. Algum com voz de baixo - Pedro conservava os olhos vendados -lhe perguntou quem era, onde e quando tinha nascido, etc. Conduziram-no em seguida para o local, sem lhe tirarem a venda dos olhos, falando-lhe constantemente, por alegorias, das dificuldades da sua viagem, da santa amizade, do Supremo Arquitecto do Universo, da coragem com que devia suuortar os sofrimentos e enfrentar os perigos. Durante todo o trajecto Pedro notou que lhe chamavam ora aquele que procura, ora aquele que sofre, ora ainda aquele que pede, e que iam batendo sempre de maneira diferente com os maos e as espadas. Enquanto o aproximavam de um certo objecto, notou que rima hesitao e rima confuso se apoderavam dos guias. Percebeu que as pessoas que o rodeavam estavam a discutir umas com as outras em voz baixa e que uma delas insistia para que o conduzissem a um certo tapete. Fui seguida, pegaram-lhe ria mo direita, que pousaram sobre fosse o que fosse e disseram-lhe que apoiasse um compasso, com a esquerda, no seio esquerdo, em seguida fizeram-no repetir.  medida que lha iam lendo, a frmula de juramento de fidelidade s regras da ordem. Depois apagaram as velas, acenderam lcool, o que Fedro percebeu pelo cheiro, dizendo-lhe que ia contemplar uma pequena luz. Tiraram-lhe a venda e Pedro viu, como em sonhos, a plida luz do lcool, algumas pessoas com aventais semelhantes ao do reitor, de p diante dele, todas com uma espada apontada ao seu peito. Entre eles estava um homem com uma camisa branca ensanguentada. Ao ver isto. Pedro fez um movimento de peito na direco das espadas, como se quisesse ser trespassado. Mas as espadas afastaram-se e de novo lhe amarraram a venda.
     - Agora j viste a pequena luz - disse-lhe uma voz. Depois acenderam as velas outra vez, disseram-lhe que ia agora ver a grande luz, de novo lhe desataram a venda e uma dzia de vozes clamou de repente: Sic transit gloria mundi.
     Pouco a pouco. Pedro foi voltando a si e ps-se a observar a sala onde se encontrava e as pessoas que o rodeavam. Em volta de uma, comprida mesa coberta com um pano negro estavam sentados doze homens que, envergavam trajos iguais aos que ele vira anteriormente. Alguns deles, pessoas da sociedade petersburguesa, eram seus conhecidos. No lugar da presidncia estava rim jovem desconhecido para ele, que tinha, pendente do pescoo, urna condecorao especial. A sua direita sentava-se o sacerdote italiano que ele vira havia um ano em casa de Ana Pavlovna. Estavam presentes tambm um alto dignitrio e um governador suo que ele encontrara outrora em casa dos Kuraguine. Todos se conservavam num silncio solene escutando o presidente, que empunhava um mao. Suspensa da parede, via-se uma estrela flamejante: a um dos lados da mesa desdobrava-se uma pequena tapearia representando diversos atributos, no outro erguia-se uma espcie de altar com o Evangelho e uma caveira. A toda a volta perfilavam-se sete castiais, como os que se vem nas igrejas. Dois dos irmos conduziram Pedro ao altar, fizeram-no abrir as pernas em forma de esquadro e intimaram-no a que se deitasse no cho, dizendo que assim se prosternava perante as portas do templo.
     -  preciso que ele receba primeiramente a colher de pedreiro - murmurou um dos presentes.
     - Basta - disse outro.
     Pedro, estupefacto, sem compreender, olhava em volta com os seus olhos de mope, e, de sbito, sentiu que a dvida lhe entrava no esprito: Onde estou eu? Que estou eu a fazer? No estaro a troar de mim? No me virei a envergonhar quando me lembrar de tudo isto? Mas a dvida foi breve. Fitou as caras srias que o rodeavam, recordou-se de tudo quanto fizera j, e de si para consigo reconheceu que no podia deter-se a meio caminho. Sentiu-se aterrado ao verificar que duvidara, e, esforando-se por recuperar o primitivo enternecimento, prosternou-se perante as portas do templo. E, efectivamente, um enterneci- mento mais violento, ainda do que o anterior se apoderou dele. Depois de ter estado prostrado algum tempo, disseram-lhe que se erguesse, ataram-lhe o avental de carneira branca igual ao que os outros traziam e puseram-lhe na mo uma colher de pedreiro e trs pares de luvas. Depois o gro-mestre dirigiu-lhe a palavra. Disse-lhe que tudo devia fazer para no macular a, brancura daquele avental, emblema da firmeza e da inocncia. Em seguida, referindo-se  colher de pedreiro, explicou-lhe que com ela devia esforar-se por purgar o seu corao dos vcios e aplanar condescendentemente o corao do prximo. Quanto ao primeiro par de homem, disse-lhe que ele no poderia compreender-lhe o significado, mas que era bom que o conservasse quanto ao segundo par, de homem tambm, disse que o devia trazer s reunies; e por fim, quanto ao terceiro, esse de mulher, declarou: Irmo, estas luvas de mulher tambm te foram igualmente atribudas. D-as  mulher que tu resp2itares acima de todas. Este presente ser o penhor da pureza do teu corao para com aquela que deves escolher como digna companheira de um pedreiro-livre. E, aps um momento de silncio, acrescentou: Mas cautela, meu irmo, no consintas que mos impuras calcem essas luvas. Enquanto o gro-mestre falava. Pedro julgou perceber nele uma certa perturbao. E ele prprio se sentiu tambm confuso. Corou, com as lgrimas nos olhos, como costuma acontecer s crianas, olhou apreensivamente  roda e reinou um silncio embaraoso.
     O silncio foi interrompido por um dos irmos, que, ao conduzir Pedro direco  tapearia, se ps a ler, num caderno, a explicao de todas as figuras a representadas: o Sol, a Lua, o mao, o fio-de-prumo, a colher de pedreiro, a pedra bruta e cbica, a coluna, as trs janelas, etc. Em seguida foi-lhe apontado o seu lugar, mostraram-lhe as insgnias da loja, disseram-lhe o santo e a senha, consentindo, por fim, que se sentasse. O gro-mestre procedeu  leitura do regulamento. Este era muito extenso, e Pedro, possudo de alegria, de emoo e de embarao, sentia-se incapaz de compreender fosse o que fosse. No conseguiu ouvir com ateno seno os dois ltimos pargrafos: Nos nossos templos, dizia o gro-mestre, no conhecemos outros graus alm daqueles que separam a virtude do vcio. Evita oposies que possam destruir a igualdade. Corre em auxlio do teu irmo, seja ele quem for, ajuda aquele que se extraviar, levanta aquele que cair e jamais nutras clera ou dio contra o teu irmo. S amvel e afvel. Alimenta em todos os coraes a chama da virtude. Partilha a felicidade que tiveres com o teu prximo e que a inveja no perturbe nunca esta bem-aventurana. Perdoa ao teu inimigo, e vinga-te dele fazendo-lhe bem. Desde que cumpras assim a lei suprema voltars a encontrar os trilhos da tua antiga grandeza perdida.
     Terminada que foi a leitura, levantou-se, estreitou Pedro nos seus braos e beijou-o. Este, os olhos cheios de lgrimas de alegria, olhava em roda, sem saber que responder quer s felicita5es que sobre ele afluam quer aos cumprimentos dos que com ele queriam estreitar relac5es. No distinguia particularmente qualquer amigo seu; em toda aquela gente apenas via irmos com os quais muito desejava trabalhar.
     O gro-mestre bateu com o mao em cima da mesa. Todos se sentaram nos seus lugares, e um dos presentes leu algumas linhas sobre o dever de humildade.
     Em seguida, algum props que se cumprisse o ltimo rito. O grande dignitrio que desempenhava as funes de irmo mendicante percorreu a assembleia. Pedro teria desejado inscrever-se no rol das colectas com toda a sua fortuna, mas receava dar assim uma prova de orgulho e inscreveu apenas uma importncia igual  de todos os demais.
     A sesso estava terminada, e, ao regressar a casa. Pedro julgou-se de volta de uma longa viagem que durara dezenas de anos; afigurava-se-lhe estar completamente transformado e que se despedira para sempre do tempo passado e de todos os seus antigos hbitos.
     

     
     
     
     Captulo V
     
     No dia imediato ao da sua iniciao estava Pedro retido em sua casa e a procurar compreender o significado do quadrado em que um dos lados simboliza Deus, o outro o mundo moral, o outro ainda o mundo fsico e o ltimo urna miniatura dos dois anteriores. De tempos a tempos, levantava os olhos do livro e do quadrado, e na sua imaginao representava-se-lhe o seu novo plano de vida. Na vspera, na loja, tinham-lhe, dito que a histria do seu duelo havia chegado aos ouvidos do imperador e que seria prudente para ele afastar-se de Petersburgo. Pensava ausentar-se para os seus domnios do Sul e, a dedicar-se aos seus camponeses. Sonhava, feliz com esta sua nova vida quando, de improviso, viu entrar o prncipe Vassili.
     - Meu amigo, que fizeste tu em Moscovo? Porque  que te indispuseste com a Liolia, meu caro? Ests completamente enganado? - exclamou, assim que assomou  porta - Sei tudo, posso garantir-te que Helena est to inocente diante de ti como Cristo diante dos Judeus.
     Pedro ia responder, mas o prncipe interrompeu-o.
     - E porque  que tu, sem rodeios, te no dirigiste directamente a mim, como a um amigo? Sei tudo, compreendo tudo, procedeste como  prprio de um homem que preza a sua honra, talvez com um tudo-nada de precipitao, mas no falemos mais nisso. Pensa, contudo, na situao em que nos colocas, a ela e a mim, perante a sociedade, e at mesmo perante a corte - acrescentou, baixando a voz. - Ela em Moscovo, e tu aqui. Pensa bem nisto, meu caro. - Apertou-lhe a mo.- Tudo isto no passa de um mal-entendido. Tu prprio j deves ter dado por isso, creio eu. Vamos escrever-lhe os dois imediatamente e ela no tardar a. Tudo se h-de explicar. De outra maneira, sempre te direi, meu caro, que podes vir a sofrer com isto.
     O prncipe Vassili lanou-lhe um olhar significativo:
     - Sei de fonte limpa que a imperatriz viva est interessadssima no caso. Como sabes, ela gosta muito da Helena.
     Pedro, por mais de uma vez, esteve para responder, mas no s o prncipe lho no permitia, como tambm receava replicar-lhe num tom que implicasse recusa definitiva a qualquer acordo, tom que alis estava decidido a empregar para com o sogro. Alm disso, lembrava-se dos termos do mandamento manico: S amvel e afvel. franzia o sobrolho, corava, levantava-se e voltava a sentar-se, lutando consigo mesmo numa das circunstncias mais penosas por que ainda tivera de passar: dizer a uma pessoa, cara a cara, palavras desagradveis, dizer quele homem, por pior que ele fosse, coisas que ele no esperaria ouvir de ningum. To habituado estava a submeter-se ao ar do prncipe, a um tempo de indiferena e segurana, que nem mesmo naquele momento se sentia com foras para resistir. No entanto, tinha a certeza de que o seu futuro dependia das palavras que proferisse. Continuaria ele pelo mesmo caminho, ou tomaria, de facto, os novos rumos to atraentes que os pedreiros-livres lhe haviam mostrado e nos quais estava firmemente convencido de vir a encontrar uma vida regenerada?
     - Ento, meu caro - disse o prncipe Vassili, em tom de zombaria - diz-me que sim, e eu lhe escreverei em teu nome, trataremos de matar o bezerro da fbula e...
     Mas o prncipe no pde concluir a frase. Pedro, o rosto toldado pela clera, tal qual seu falecido pai, disse em voz baixa, sem olhar para o interlocutor:
     - Prncipe, eu no o mandei chamar, v-se embora, peo-lhe, v-se embora - repetiu, sem poder crer nas suas prprias palavras, e sentindo-se contente por ver a expresso de embarao e de receio que se pintava no rosto do visitante.
     - Que tens tu? Ests doente?
     - V-se embora - repetiu, mais uma vez, na sua voz tremula. E o prncipe Vassili no teve outro remdio seno abalar, sem mais explicaes.
     Oito dias mais tarde. Pedro, depois de se despedir dos seus amigos da maonaria e de lhes ter deixado, como oferenda, importantes somas, partiu para as suas terras. Os seus novos irmos deram-lhe cartas para os pedreiros-livres de Kiev e de Odessa e prometeram-lhe escrever-lhe para o guiarem na sua nova carreira.
     

     
     
     
     Captulo VI
     
     O caso de Pedro e Dolokov fora abafado, e, no obstante a severidade que o imperador costumava mostrar nesse tempo para com os duelos, o certo  que nem as testemunhas nem os adversrios se viram envolvidos em qualquer processo. Mas a histria do duelo, agravada pelo rompimento de Pedro com a mulher, era comentadssima na sociedade. Se  certo que esta tinha mostrado indulgncia e estima para com Pedro enquanto ele fora filho ilegtimo, que o havia adulado e festejado enquanto fora o melhor partido de todo o imprio, depois do seu casamento, assim que mes e filhas casadouras deixaram de pr nele qualquer esperana, os seus crditos desceram muito na opinio da alta sociedade, tanto mais que ele no sabia nem queria atrair a benevolncia fosse de quem fosse. Ento todos o acusavam, a ele s, do que acontecera, diziam-no um ciumento insuportvel, capaz de acessos de furor sanguinrios tal qual seu falecido pai. E quando, depois da partida do marido. Helena reapareceu em Petersburgo, todas as pessoas conhecidas a acolheram no s com simpatia, mas at com no sei qu de respeitoso, em lembrana da sua infelicidade. Quando em conversa o nome do marido vinha a talho de foice, assumia um ar de dignidade, que ento adoptara, um pouco inconscientemente e apenas graas a um tacto especial, que era bem seu. Esse ar queria dizer estar resolvida a suportar sem lamentaes a sua desventura e o marido ser para ela como que uma cruz enviada por Deus. O prncipe Vassili, esse, era mais franco na expresso do que pensava. Encolhia os ombros quando lhe vinham falar de Pedro e, levando um dedo  testa, dizia:
     - Est plulas, assim o julguei sempre.
     - E eu bem o disse - confirmava Ana Pavlovna -, e ainda h pouco repeti diante de toda a gente - insistia, especialmente, na prioridade -, que ele era um rapaz com o crebro desarranjado, completamente estragado pelas ideias corruptas do sculo. J o dizia quando toda a gente lhe cantava hinos, na altura em que ele regressou do estrangeiro. E no sei se se lembram daquela noite em que ele quis armar em Marat. Como  que tudo isto acabou? Desde essa ocasio que fui contrria a tal casamento, e tinha previsto tudo quanto aconteceu.
     Ana Pavlovna continuava a organizar soires, da mesma maneira, nos seus dias livres, e como s ela sabia, e onde se reunia, antes de mais nada, a nata da verdadeira alta sociedade, a fina flor da essncia intelectual da sociedade de Petersburgo, como ela prpria costumava dizer. Alm desta fina seleco de convidados, as suas soires eram clebres porque primava em apresentar aos convidados em cada uma delas uma nova e interessante personalidade, e que em nenhum outro lado em Petersburgo mais clara e seguramente se podia apreciar a temperatura poltica dos meios legitimistas da corte.
     No fim de 1806, quando foram conhecidos todos os tristes pormenores do desbaratamento por Napoleo do exrcito prussiano em Iena e Auerstaedt e a capitulao da maior parte dos redutos fortificados, j o exrcito russo se encontrava na Prssia e principiara a segunda guerra contra o imperador dos Franceses. Ana Pavlovna deu em sua casa uma soire. A nata da verdadeira sociedade consistia na encantadora e infeliz Helena, abandonada pelo marido, em Mortemart, no sedutor prncipe Hiplito, havia pouco chegado de Viena, em dois diplomatas, na tia, num jovem cujos nicos predicados consistiam em se dizer dele que se tratava de um homem de muito mrito, numa dama de honor promovida pouco antes, e que se fazia acompanhar da me, e em mais algumas pessoas de menor notoriedade.
     A personalidade que Ana Pavlovna primava em apresentar a seus convidados como novidade da noite era Bris Drubetskoi, chegado havia pouco a Petersburgo, proveniente do exrcito prussiano, como correio e ajudante-de-campo de uma muito alta personalidade.
     A temperatura que nessa noite acusava ali o termmetro poltico era a seguinte. Por mais que os soberanos e os altos postos, dizia-se, faam por se entender com Bonaparte, a fim de me causar ou de nos causar dissabores e aborrecimentos, a nossa opinio acerca dele no pode modificar-se. No deixaremos nunca de a este respeito exprimirmos francamente a nossa maneira de ver, e tudo quanto poderemos dizer ao rei da Prssia e aos demais  isto: tanto pior para eles... Tu a quiseste. Georges Dandin, eis tudo quanto nos cabe dizer. Este o grau de temperatura que atingira em casa de Ana Pavlovna o termmetro poltico. Quando Bris, preparado para a apresentao aos convidados, penetrou na sala, quase toda a sociedade estava j reunida, e a conversa, orientada pela dona da casa, girava em tomo das relaes diplomticas da Rssia com a ustria e da esperana que ento lavrava de conseguir-se uma aliana com esse pas.
     Bris, no seu elegante uniforme de ajudante-de-campo, galhardo, fresco e rosado, entrou na sala com o seu ar desembaraado e foi conduzido, como era da praxe,  presena da tia, a quem tinha de apresentar as suas homenagens, misturando-se depois ao grupo principal dos convidados. Ana Pavlovna deu-lhe a beijar a mo seca, apresentou-o a algumas das personalidades que ele no conhecia, esclarecendo-o em voz baixa acerca de cada uma delas.
     - O prncipe Hiplito Kuraguine, um rapaz encantador. O Sr. Krug, encarregado de negcios de Copenhaga, um esprito profundo, ou ento, simplesmente: O Sr. Shitoff, um homem de muito mrito.
     Bris, durante o perodo de servio, graas s diligncias de Ana Mikailovna, aos seus gostos particulares e  discrio do seu carcter, conseguira a mais invejvel das situaes. Era ajudante-de-campo de uma alta personalidade, desempenhara uma importante misso na Prssia e acabava de chegar daquele pas como correio. Havia-se iniciado inteiramente naquela disciplina no regulamentada que tanto lhe agradara em O1mutz e de harmonia com a qual um alferes podia ocupar uma posio incomparavelmente muito mais elevada que a de um general, e segundo a qual, para se triunfar na carreira, no havia necessidade de esforo, de trabalho, de coragem, ou de perseverana, mas simplesmente de um talento especial para tratar com os distribuidores de recompensas. E o certo  que ele prprio se surpreendia com os seus rpidos xitos e com o facto de ver os outros no compreenderem o interesse de semelhantes manobras. Esta revelao transformara por completo a sua existncia, as suas relaes com os seus conhecimentos anteriores, todos os seus projectos de futuro. No era rico, mas empregava os seus ltimos rublos vestindo-se muito melhor do que os demais. Preferia privar-se de muita coisa que lhe desse prazer a apresentar-se numa carruagem ordinria ou a permitir que o vissem nas ruas de Petersburgo envergando um uniforme velho. No se relacionava nem procurava relacionar-se seno com as pessoas de posio mais elevada do que a sua e que, por conseguinte, lhe poderiam vir a ser teis. Adorava Petersburgo e tinha o maior desdm por Moscovo. Era-lhe pouco agradvel lembrar-se dos Rostov e do seu entusiasmo de infncia por Natacha, e desde que se incorporara no exrcito nunca mais pusera os ps em sua casa.
     Convidado para a soire de Ana Pavlovna, honra que considerava passo importante na sua carreira, imediatamente compreendera o seu papel e deixara que esta aproveitasse o interesse que ele para ela poderia ter, dedicando-se a observar atentamente cada uma das personagens presentes e a pesar as possibilidades e as vantagens das relaes a estabelecer com esta ou com aquela. Sentou-se no lugar que lhe indicaram, ao lado da bela Helena, e apurou o ouvido para a conversa geral.
     - Viena considera as bases do tratado to inaceitveis que se no poderiam conseguir nem mesmo com uma srie de xitos brilhantes e pe em dvida os meios que os poderiam proporcionar,  esta a frase textual do gabinete de Viena.- Era assim que falava o encarregado de negcios da Dinamarca.
     - A dvida  que  lisonjeira - replicou o homem de esprito profundo, com um fino sorriso nos lbios.
     -  preciso no confundir o gabinete de Viena com o imperador da ustria - atalhou Mortemart. - O imperador da ustria nunca pensou numa coisa dessas, s o gabinete  que fala assim.
     - Eh! Meu caro visconde - acorreu Ana Pav1ovna. - A Urope... - Pronunciava a Urope sem qualquer razo, julgando utilizar deste modo uma subtileza de linguagem a que se podia dar o luxo falando, como falava, o francs. - A Urope nunca ser nossa aliada sincera.
     E encaminhou em seguida a conversa para a firmeza e a coragem do rei da Prssia, ria inteno de levar Bris a entrar em cena,
     Este ouvia corri toda a ateno aquele que falava, aguardando sua vez, e de tempos a tempos relanceava a vista  sua vizinha, a bela Helena, a qual, por vrias vezes, respondera com um sorriso aos olhares do belo e jovem ajudante-de-campo.
     Muito naturalmente, a propsito da situao da Prssia. Ana Pavlovna pediu a Bris que contasse a sua viagem a Glogau e que dissesse o que pensava do estado do exrcito prussiano. Bris, sem se apressar, num francs puro e correcto, exps alguns pormenores muito interessantes acerca das tropas e da corte, evitando cuidadosamente, em toda a sua exposio, formular uma opinio pessoal sobre os factos que relatava. Durante algum tempo monopolizou a, ateno geral, e Ana Pavlovna Pde verificar que os seus convidados muito apreciavam a novidade que ela lhes oferecia. Helena, mais do que ningum, prestou ateno a conversa de Bris. Por vrias vezes o interrogou sobre as suas viagens e pareceu muito preocupada com a situao do exrcito prussiano. Quando Bris se calou, virou-se para ele com o seu sorriso habitual:
     -  absolutamente indispensvel que venha, a minha casa - disse-lhe, num tom que podia fazer acreditar que, merc de certas combinaes misteriosas para ele, a sua visita era imprescindvel.
     - Tera-feira, entre as oito e as nove. Dar-rne- grande prazer.
     Bris deu-se pressa em prometer-lhe que estava  sua disposio e preparava-se para uma longa conversa quando Ana Pavlovna chamou Helena com, o pretexto de que a tia desejava ouvir as histrias do militar.
     - Conhece o marido dela, no  verdade? - disse Ana ao oficial, assumindo um ar de mistrio e assinalando, com um gesto, a bela Helena. - Ah!, que encantadora e infeliz mulher! No fale no nome dele diante dela, peo-lhe, no fale no nome dele!  muito penoso para ela,
     

     
     
     
     Captulo VII
     
     Quando Bris e Ana Pavlovna se acercaram novamente do grupo, o prncipe Hiplito era o centro da conversa. Chegando-se para a borda da poltrona em que se sentava, pronunciou: O rei da Prssia!, e ps-se a rir. Toda a gente se voltou para o seu lado.
     - O rei da Prssia! - repetiu; depois voltou a rir e tomou a enterrar-se na sua poltrona, retomando o seu ar srio e calmo. Ana Pavlovna aguardou alguns instantes e, vendo que decididamente Hiplito nada mais dizia, ps-se a contar como esse mpio do Bonaparte roubara em Potsdam a espada de Frederico-o-Grande.
     -  a espada de Frederico-o-Grande que eu... - ia a dizer, mas Hiplito interrompeu-a.
     - O rei da Prssia... - e mais uma vez, quando toda a gente se mostrava j atenta s suas palavras, no teve mais que dizer e calou-se.
     Ana Pavlovna mostrou uma expresso descontente. Mortemart, o amigo de Hiplito, disse-lhe bruscamente:
     - Vejamos, que aconteceu ao vosso rei da Prssia?
     Hiplito ps-se a rir como se se sentisse embaraado.
     - No, no  nada, eu queria apenas dizer... - Pensava repetir um gracejo que ouvira em Viena e para que procurara toda a noite um a-propsito.- Eu apenas queria dizer que  disparate fazermos a guerra pelo rei da Prssia.
     Bris ps-se a sorrir com circunspeco, de modo a que o seu sorriso pudesse ser interpretado ao mesmo tempo como censura ou como aprovao, consoante a maneira como o gracejo viesse a ser recebido. Todos se puseram a rir.
     -  mau o seu trocadilho, espirituoso, mas injusto - disse Ana Pavlovna, ameaando-o com o dedo. - Ns no fazemos a guerra pelo rei da Prssia, mas pelos bons princpios. Ah!, que mau este prncipe Hiplito!
     Durante toda a noite nunca mais a conversa se esgotou, abordando principalmente boatos polticos. Mas foi sobretudo no fim que mais se animou, quando se falou das recompensas concedidas pelo imperador.
     - Se N. N, recebeu o ano passado uma tabaqueira com o retrato - disse o homem de esprito profundo -, porque  que S. S, no poder receber uma igual?
     - Peo perdo, uma tabaqueira com o retrato do imperador  uma recompensa, no uma distino - replicou o diplomata - ou antes um presente.
     - Houve antecedentes, citar-lhe-ei Schwarzenberg.
     -  possvel - objectou uma terceira pessoa.
     - Aposto. A gr-cruz  diferente...
     Quando se levantaram para partir. Helena, que tinha falado muito pouco durante toda a noite, renovou junto de Bris o pedido que lhe fizera, ou, antes, a ordem amvel e instante para que viesse v-la na tera-feira seguinte.
     Quando no dia aprazado, pela noite. Bris entrou no sumptuoso salo de Helena, no pde compreender de princpio, claramente, a necessidade que ela tivera de o ver. Outras pessoas da sociedade estavam presentes, e a condessa poucas palavras lhe dirigiu. Apenas quando ele se despediu, beijando-lhe a mo, ela lhe segredou, em voz muito baixa, deixando nesse momento, estranhamente, de sorrir: Venha jantar amanh...  noite.  preciso que venha... Venha.
     Durante aquela sua primeira estada em Petersburgo. Bris tomou-se ntimo da condessa Bezukov.
     

     
     
     
     Captulo VIII
     
     A guerra reacendia-se e o teatro das operaes aproximava-se das fronteiras russas. Por toda a parte se ouvia clamar contra Bonaparte, o inimigo do gnero humano. Milcias e recrutas agrupavam-se pelas aldeias, e do teatro da guerra chegavam notcias contraditrias, falsas, como sempre, e por isso mesmo interpretadas de maneiras completamente diferentes.
     A vida do velho prncipe Bolkonski, do prncipe Andr e da princesa Maria mudara muito de 1805 para c.
     Em 1806, o velho prncipe fora designado para o cargo de um dos oito chefes da milcia nomeados para toda a Rssia. Apesar da sua decrepidez, que muito se acentuara durante o perodo em que supusera o filho morto, julgou de seu dever no recusar as funes que o imperador em pessoa lhe confiara, e esta actividade nova que se lhe oferecia ajudava-o a recuperar a coragem e o vigor. Andava continuamente a girar pelos trs distritos que tinha a seu cargo. Cumpria escrupulosamente as suas obrigaes. Era severo, quase cruel, para com os subordinados, e descia aos mais pequenos pormenores da sua tarefa. A princesa Maria deixara de dar lies de Matemtica com o pai e s penetrava no gabinete do ancio pela manh, acompanhada da ama e do principezinho Nicolau, como lhe chamava o av, quando o velho prncipe estava em casa. A criana, corri a ama e Savichna, a velha criada, ocupavam os aposentos da falecida princesa, e Maria passava a, maior parte do tempo ao p do sobrinho, procurando substituir o melhor que podia a me do pequenino. Mademoiselle Bourienne parecia tambm apaixonadamente afeioada  criana e a princesa Maria, privando-se muitas vezes dessa alegria, deixava  amiga a satisfao de ameigar o seu anjinho, como ela dizia, e de brincar com ele.
     Junto do altar da igreja de Lissia Gori tinham mandado levantar um oratrio sobre o tmulo da princesinha, e a haviam erguido um monumento de mrmore, encomendado em Itlia, que representava um anjo de asas abertas pronto a esvoaar. Este anjo tinha o lbio superior um pouco soerguido, como se fosse sorrir, e um dia Andr e a irm, ao sarem do oratrio, verificaram - coisa curiosa - que aquele rosto lembrava o da finada. Mas, mais estranho ainda, coisa que Andr no confessou a Maria,  que ele encontrava nos traos que o artista por acaso dera  fisionomia a mesma expresso de lamentosa queixa que ele prprio lera no rosto da mulher morta. - Ah!, porque me trataram assim?...
     Pouco tempo depois do seu regresso, o velho prncipe atribura ao filho a parte que lhe competia na herana e dera-lhe Bogutcharovo, domnio importante situado a quarenta verstas de Lissia Gori. Ou fosse por causa das penosas lembranas que andavam ligadas a esta casa, ou porque no pudesse suportar por mais tempo o carcter do pai, ou ainda porque tivesse necessidade de solido, o prncipe Andr tomara conta da sua nova propriedade, onde mandara fazer obras, e l passava a maior parte do seu tempo.
     Depois da campanha de Austerlitz o prncipe Andr tornara a resoluo de no voltar a servir no exrcito. Quando a guerra recomeou e que toda a gente teve de partir, para no reingressar no servio activo passou a desempenhar funes, sob as ordens paternas, no engajamento das milcias. O pai e o filho, depois da campanha de 18O5, parecia terem trocado as suas opinies mtuas relativamente aos acontecimentos. O velho prncipe, esporcado pela sua nova actividade, esperava os melhores resultados da campanha em marcha; Andr, pelo contrrio, que no tomava parte na guerra, e a deplorava secretamente, via tudo sob a mais negra perspectiva.
     No dia 26 de Fevereiro de 1807 o velho prncipe partiu para uma inspeco. Andr, como em geral era seu costume, durante as ausncias do pai, ficou em Lissia Gori. Havia j trs dias que o pequeno Nicolau no passava bem de sade. Os cocheiros que tinham conduzido o velho prncipe regressaram trazendo da cidade cartas e papis para o prncipe Andr.
     O criado de quarto, com as cartas, no o encontrando no gabinete, dirigiu-se aos aposentos da princesa Maria, onde tambm o no encontrou. Disseram-lhe que estava no quarto do filho.
     - Com sua licena. Excelncia, est ali o Petruchka, com uns papis - disse uma das criadas ao prncipe Andr, que se havia sentado numa cadeirinha de criana e, de mos trmulas e sobrancelhas carregadas, vertia o contedo de um frasco num copo meio de gua.
     - Que ? - perguntou, contrariado, e um seu movimento involuntrio fez com que despejasse algumas gotas a mais. Lanando tudo fora, voltou a pedir gua. Uma criada veio trazer-lha.
     No quarto havia uma cama de criana, duas arcas, duas poltronas, uma mesinha, um guridon e uma cadeira pequena, aquela precisamente em que o prncipe Andr se sentava. Os cortinados estavam repuxados e havia apenas uma vela acesa em cima da mesa, por detrs de um caderno de msica, para que a luz no incidisse sobre a cama.
     - Meu amigo - disse-lhe Maria, que estava ao p do doentinho -, espera um bocado...  melhor assim.
     - Ah, por amor de Deus, ests sempre a dizer disparates - replicou o prncipe Andr, em voz baixa, e em tom irritado, na, inteno evidente de ferir a irm.
     - Meu amigo, era melhor no o acordar, ele adormeceu - voltou ela, num tom insistente.
     Andr ergueu-se e em bicos de ps aproximou-se do leito com a poo que deitara no copo.
     - Achas realmente que o no devemos acordar? - interrogou ele, indeciso.
     - Como tu quiseres - realmente.., eu supunha.., mas, como tu quiseres - acrescentou a princesa Maria, vergonhosa de ver que a sua opinio triunfava. Chamou-lhe a ateno para a criada, que continuava  espera.
     Era a segunda noite que passavam  cabeceira da criana, que ardia em febre. Durante aquelas quarenta e oito horas, em que, muito pouco confiantes no mdico da casa, haviam mandado chamar outro  cidade, tinham experimentado tudo. Modos pela insnia e pela inquietao, atiavam um contra o outro o seu mal-estar, dirigindo-se mutuamente censuras.
     - Petruchka est ali com uns papis que vm da parte do pai de Vossa Excelncia - disse a criada em voz baixa.
     O prncipe Andr saiu.
     - Ah!, chega em boa hora! - exclamou, e, depois de receber as instrues orais que o pai lhe transmitia pelo criado, bem como as cartas, voltou para junto do filho.
     - E ento? - perguntou.
     - Na mesma. Espera, peo-te. Karl Ivanitch est sempre a dizer que o sono  o melhor dos remdios - murmurou Maria. Andr aproximou-se da cama e tomou o pulso da criana. A sua mozinha escaldava,
     - Que vo passear, tu e o teu Karl Ivanitch! - Foi em busca da poo e voltou para junto do leito.
     - Andr, no faas isso! - implorou a irm.
     Franziu o sobrolho, colrico, e, como se olhar para ela o fizesse sofrer, debruou-se para a criana com o copo na mo.
     - Exijo-o - disse. - Vamos, d-lhe tu o remdio.
     Maria encolheu os ombros, mas, pegando, submissa, na poo, procurou ministrar-lha com a ajuda da criada. A criana chorava e engasgava-se. Andr, com as mos na cabea, saiu do quarto e foi sentar-se na sala contgua.
     Continuava com as cartas fechadas na mo. Abriu-as, maquinalmente, e ps-se a ler. O velho prncipe, em papel azul, no seu mido cursivo, aqui e ali recorrendo a uma abreviatura, escrevia-lhe nos seguintes termos:
     
     Acabo de saber, por um correio, uma feliz nova, caso no se trate de inveno. Bennigsen, segundo se diz, teria desbaratado Bonaparte em Eylau. Em Petersburgo o entusiasmo  geral e as recompensas chovem sobre o exrcito. Embora se trate de um alemo, felicito-o. No sei o que tem feito o comandante de Kortchevo, um tal Kandrikov; at  data ainda no conseguimos receber reforos nem vveres. Vai imediatamente procur-lo e diz-lhe que lhe farei saltar os miolos se dentro de oito dias - no tiver em meu poder o que  preciso. Voltei a receber carta de Petienka, na qual me fala da batalha de Preussisch-Eylau; tomou parte nela,  tudo verdade. Quando as pessoas se no metem naquilo a que no so chamadas, at mesmo um alemo  capaz de bater Bonaparte. Diz-se que bateu em retirada em completa desordem. No te esqueas: dirige-te sem delongas a Kortchevo e cumpre as minhas ordens!
     
     Soltando um suspiro, o prncipe Andr abriu a segunda carta. Era de Bilibine: duas pginas numa caligrafia mida. Voltou a dobr-la sem a ler e recomeou a carta do pai, que terminava: dirige-te sem delongas a Kortchevo e cumpre as minhas ordens!
     No, queira desculpar, no irei enquanto o meu filho no estiver restabelecido, disse ele para consigo mesmo e encaminhou-se para a porta na inteno de ver o que se passava no quarto da criana.
     Maria continuava junto da cama, embalando o pequeno com toda a suavidade.
      isto mais uma notcia desagradvel para mim, pensava, rememorando a carta do pai. Sire, os nossos derrotaram Bonaparte agora, precisamente quando eu j no estou em armas.  verdade,  verdade, o destino est sempre a troar de mim... Pois seja, faa-se a sua vontade!... E ps-se a ler a carta, escrita em francs, que lhe enviava Bilibine. Olhava para as linhas sem perceber metade do que lia e fazia-o apenas para, por momentos, deixar de pensar no que por demasiado tempo o havia exclusivamente atormentado.
     

     
     
     
     Captulo IX
     
     Bilibine encontrava-se nesse momento adido ao quartel-general, na condio de diplomata, e na sua carta, com seus gracejos e seus boleios  francesa, descrevia toda a campanha, usando uma franqueza bem russa, franqueza essa que no recuava nem diante dos juzos pessoais nem diante da prpria zombaria. Dizia pesar-lhe a discrio diplomtica e sentir-se feliz por ter algum como Andr a quem escrever, pessoa com quem no se importava de se abrir, derramando toda a blis acumulada desde que via o que se estava a passar no exrcito. A carta, de data j no muito recente, era anterior  batalha de Preussisch-Eylau,
     
     Desde o nosso grande xito de Austerlitz, como sabe, meu caro prncipe, que no mais me separei dos quartis-generais. Pelo que se v, tomei gosto  guerra, e estou-lhe no papo.  inacreditvel o que vi durante estes trs meses.
     Comeo ab ovo. O inimigo do gnero humano, como sabe, atara os Prussianos. Os Prussianos so aqueles nossos fiis aliados que em trs anos apenas nos enganaram trs vezes. Damos por eles o corpo ao manifesto. Mas, ao que parece, o inimigo do gnero humano no quer saber dos nossos lindos discursos, e, com o seu modo impolido e selvagem, lana-se sobre os Prussianos sem lhes dar tempo de terminarem a parada e num abrir e fechar de olhos deixa-os a deitar a lngua pela boca fora e trata de se instalar no Palcio de Potsdam.
     Desejo ardentemente, escreve o rei da Prssia a Bonaparte, que Vossa Majestade sela recebido e tratado no meu palcio da maneira que mais lhe agradar, e nessa inteno tomei todas as medidas que as circunstancias me permitem. Oxal o tenha conseguido! Os generais prussianos primam em ser corteses para com os Franceses e depem as armas , primeira intimao.
     O comandante da guarnio de Glogau, com dez mil homens sob o seu comando, pergunta ao rei da Prssia o que deve fazer caso seja intimado a render-se... Tudo isto so factos reais.
     Numa palavra, esperando apenas impor-nos pela nossa firme atitude militar, eis-nos em guerra a valer, e, o que  pior, em guerra nas nossas prprias fronteiras com e pelo rei da Prssia. Tudo est a postos, falta-nos apenas uma coisa sem importncia - o general-chefe. Como se chegou  concluso de que o xito de Austerlitz teria sido mais decisivo se o general-chefe fosse menos jovem, passa-se revista aos octogenrios, e, entre Prozorofski e Karrienski, escolhe-se o ltimo. O general chega-nos em kibjk  moda de Suvorov, e  acolhido com manifestaes no meio de aclamaes de alegria e triunfo.
     No dia 4 chega o primeiro correio de Petersburgo. Transportam as malas para o gabinete do marechal, que gosta de fazer tudo pelas suas prprias mos. Chamam-me para ajudar  distribuio das cartas e tornar conta das que nos so destinadas. O marechal segue o nosso trabalho e aguarda os despachos que lhe so dirigidos. Procuramos; nem um.
     O marechal impacienta-se, ele prprio decide procurar e encontra cartas do imperador para o conde T., para o prncipe V, e quejandos. Ento, ai o ternos num dos seus ataques de fria negra. Despede raios e coriscos contra toda a gente, apodera-se das cartas, abre-as, e l as que o imperador enderea a outros. Ah!  assim que se comporta para comigo? No tem confiana em mim! Ah! D instrues para me espiarem. Fora daqui! E ei-lo que redige a famosa ordem do dia para o general Bennigsen:
     Estou ferido, no vosso montar a cavalo e portanto comandar o exrcito. O senhor levou o seu corpo de exrcito derrotado para Pultusk, onde este se encontra sem lenha e sem forragens e desprovido do necessrio, por isso, como ainda ontem o disse ao conde Boekshevden,  preciso retirar para a nossa fronteira, o que tem de fazer-se hoje Mesmo.
     As minhas expedies a cavalo, escreveu ao imperador, <provocaram-me uma ferida proveniente do abuso da sela, o que, alm de outros inconvenientes, me impede por completo de montar e comandar um exrcito da importncia deste; eis porque confiei o comando ao general mais antigo, o conde Boeksheden, transmitindo -lhe todos os servios, e aconselhei-o a que, no caso de lhe faltarem mantimentos, se retirasse para mais perto de ns, para o interior da Prssia, visto que no h po para mais de vinte e quatro horas e nalguns regimentos j acabou de todo; foi isso, pelo menos, o que declararam os comandantes de diviso Ostermann e Siedmorietski, e nos lares dos camponeses tudo foi devorado. Quanto a mim, aguardando o meu restabelecimento, fico no hospital de Ostrolenko. Ao transmitir, com data de hoje, o presente relatrio a Vossa Majestade, tenho a honra de lhe participar que, se o exrcito permanecer ainda quinze dias no seu actual acampamento, quando chegar a Primavera no restar um s soldado vlido.
     Permita Vossa Majestade que um velho se retire para o campo, levando consigo a vergonha de no ter podido cumprir o grande e glorioso destino para que fora escolhido. Aguardarei aqui, no hospital, a vossa muito augusta autorizao, para que no venha a desempenhar no exrcito o papel de escriba em vez do de chefe. A minha retirada do exrcito no produzir a mais ligeira sensao -  um cego que se retira do exrcito, nada mais. Homens como eu encontram-se na Rssia aos pontaps.
     O marechal zangou-se com o imperador e castigou-nos a todos; no  lgico?
     E aqui tem o primeiro acto. No acto seguinte, o interesse e o absurdo crescem, como  natural. Depois da partida do marechal, chegou-se  concluso de que ns estvamos  vista do inimigo e era preciso travar batalha. Boekshevden  general-chefe por antiguidade, mas o general Bennigsen no  dessa opinio, tanto mais que, estando com o seu corpo de exrcito diante do inimigo, quer aproveitar a ocasio para uma batalha aus eigener Hand (Por suas prprias mos. (N, dos T.), como dizem os Alemes. E teve-a. Foi a batalha de Pultusk, que tem sido considerada uma grande vitria, mas que, na minha opinio, de vitria nada tem. Ns, civis, temos, como sabe, o mau hbito de decidir quando uma batalha  uma vitria ou uma derrota. O que se retira depois do combate , em nossa opinio, aquele que a perdeu, e foi por isso que ns perdemos a batalha de Pultusk. Em resumo, retirmos no fim da batalha, mas envimos um correio a Petersburgo com a notcia de uma vitria, e o general no cede o comando em chefe a Boekshevden na esperana de receber de Petersburgo, em reconhecimento da sua vitria, o ttulo de general-chefe. Durante este interregno inicimos um plano de manobras extremamente interessante e original. A nossa finalidade no consiste, como seria de esperar, em evitar o inimigo ou atac-lo, mas unicamente em evitar o general Boekshevden, o qual, por direito de antiguidade, seria o nosso chefe. Visamos este objectivo com tanta energia que at mesmo quando atravessamos um rio no vadevel queimamos as pontes para cortarmos a ligao com o nosso inimigo, o qual, de momento, no  Bonaparte, mas Bockshevden. Este livrou-se de ser atacado e aprisionado por foras inimigas superiores graas a uma das nossas belas manobras, que nos livrava dele. Boekshevden persegue-nos, fugimos. Assim que ele atravessa para a margem do rio onde ns estamos, ns passamos para a margem contrria. Finalmente, o nosso inimigo Boekshevden apanha-nos e ataca-nos. Os dois generais zangam-se. Chega mesmo a haver um desafio para duelo da parte de Boekshevden e um ataque de epilepsia da parte de Bennigsen. Mas, no momento crtico, o correio que leva a notcia da nossa vitria de Pultusk traz-nos de Petersburgo a nomeao do general-chefe, e o primeiro inimigo. Boekshevden, est liquidado: podemos pensar agora no segundo. Bonaparte. Mas ento acontece que nesse momento se ergue diante de ns um terceiro inimigo, o exrcito ortodoxo, que pede, clamando, po, carne, suchari, feno, que sei eu! Os armazns esto vazios, os caminhos impraticveis. O exrcito ortodoxo lana-se na pilhagem e de maneira tal que o que viu na ltima campanha lhe no pode dar a mais pequena ideia do que se est a passar. Metade dos regimentos forma tropas livres, as quais percorrem o pas levando tudo a ferro e fogo. Os habitantes esto completamente arruinados, os hospitais transbordam de doentes e a fome grassa por toda a parte. O quartel-general j por duas vezes foi atacado por bandos de salteadores e o prprio general-chefe viu-se obrigado a pedir o auxlio de um batalho para correr com eles. Aquando um desses ataques levaram-me a minha mala vazia e o meu roupo. O imperador quer conceder a todos os comandantes de diviso autorizao para fuzilar os salteadores, mas tenho o meu receio de que esta medida venha a obrigar metade do exrcito a fuzilar a outra metade.
     
     De princpio, o prncipe Andr limitara-se a deixar errar os olhos pela carta, mas, depois, sem dar por isso, e embora conhecesse o grau de veracidade que devia atribuir s asseres de Bilibine, sentiu-se cada vez mais interessado pela leitura. Ao chegar a este ponto amarfanhou a carta e deitou-a fora.
     O que o irritava no era o que ela dizia, mas o sentir que o que estava a ocorrer no teatro da guerra, e que lhe era estranho, o podia emocionar quele ponto. Fechou os olhos, passou a mo pela testa, como para afastar as preocupaes que a sua leitura lhe despertara, e apurou o ouvido para o que estava a acontecer no quarto do filho. De sbito pareceu-lhe ouvir atrs da porta um rudo estranho. Invadiu-o uma onda de terror; teve medo de que o estado da criana se tivesse agravado enquanto estivera entretido na leitura. Aproximou-se da porta em bicos de ps e abriu-a.
     Nesse momento viu que a velha criada, com ar apavorado, escondia qualquer coisa e que Maria j no estava junto da cama.
     - Meu amigo - murmurou por detrs dele a voz da irm, com um acento, assim se lhe afigurou, verdadeiramente desesperado.
     Como acontece muitas vezes depois de uma longa insnia e de violentas inquietaes, assenhoreou-se dele um terror irracional; convenceu-se de que o filho estava morto. Tudo quanto via e ouvia parecia confirmar o seu pavor.
     Acabou tudo, pensou, e um suor frio lhe cobriu a testa. Como louco, aproximou-se do pequeno leito, persuadido de que o ia encontrar vazio, de que a criada escondera a criana morta. Afastou os cortinados, e durante algum tempo os seus olhos nada puderam distinguir. Por fim viu a criana: as faces vermelhas, a cabea mais baixa do que a almofada. Mamava em sonhos e respirava com toda a regularidade. Ao v-la, o prncipe Andr, tanto mais alegre quanto era certo estar persuadido de que a tinha j perdido, debruou-se, e,  semelhana do que vira fazer  irm, chegou os lbios  fronte do filho para se certificar se ele teria febre. A tenra pele estava hmida; tacteou-a com a palma da mo, at os cabelos escorriam, to abundante era a transpirao. No s no estava morto, como era evidente ter o principezinho vencido a crise e que recuperara a sade. Andr teria querido agarrar, estreitar contra o seu corao aquele serzinho delicado, mas no ousou. Ali ficou, de olhos fitos naquela cabecinha, naquelas mozinhas, naquelas perninhas que se desenhavam debaixo das roupas. O sussurro de um vestido ouviu-se junto dele e uma sombra apareceu sob o cortinado da cama. Andr no se voltou, continuando, de olhos fitos na criana, a ouvir a sua respirao compassada. A sombra era da princesa Maria, que, em passos muito leves, se havia aproximado e soerguera o cortinado. O prncipe, sem voltar a cabea, reconheceu-a e estendeu-lhe a mo, que ela apertou nas suas.
     - Est a transpirar - disse ele.
     - Era isso que eu te vinha dizer.
     A criana, a dormir, agitou-se ligeiramente, sorriu e comprimiu a testazinha de encontro  almofada.
     Andr olhou para a irm. Os luminosos olhos de Maria, na penumbra dos cortinados, brilharam mais do que habitualmente, cheios de lgrimas felizes. Inclinou-se para o irmo e beijou-o, suspendendo-se ligeiramente nas sanefas do leito. Receosos de acordar o doentinho, assim ficaram, na meia luz dos cortinados, sem poderem apartar-se daquela intimidade em que os trs formavam como que um mundo  parte de tudo o mais. Foi Andr quem primeiro se afastou, despenteando os cabelos na musselina dos cortinados.
     Sim,  tudo quanto me resta, murmurou ele para si mesmo, num suspiro.
     

     
     
     
     Captulo X
     
     Pouco depois da sua admisso na confraria manica. Pedro, munido de um memorial completo, propositadamente escrito para ele, de tudo quanto era necessrio fazer-se nos seus domnios, foi-se de longada para, o distrito de Kiev, onde vivia a maior parte dos seus servos.
     Chegado que foi, mandou convocar para a contadoria principal todos os seus intendentes, a quem exps as suas intenes e os seus desgnios. Disse-lhes que deveriam tomar imediatamente medidas tendentes  emancipao completa dos seus camponeses, e que de ento at essa data estes no deveriam ser sobrecarregados de trabalho, que as mulheres e as crianas seriam dispensadas de tarefas pesadas, que era necessrio prestar-lhes auxlio, que os castigos corporais passariam a ser substitudos por repreenses orais e que em cada um dos seus domnios se organizariam hospitais, asilos e escolas. Alguns dos seus intendentes, e entre eles havia vrios quase analfabetos, ouviam-no aterrorizados, interpretando as palavras do jovem conde como se elas quisessem dizer que ele no estava contente com a sua administrao e no desconhecia os roubos de cada um; outros, depois de um momento de pnico, puseram-se a achar graa s intenes do amo e s palavras novas que nunca tinham ouvido; outros ainda escutavam-no com prazer, e outros finalmente, os mais inteligentes, a cujo nmero no pertencia o intendente-geral, perceberam, pelo que lhe ouviam, qual a atitude que teriam de tomar para com ele para melhor conseguirem os seus fins.
     O intendente-geral disse da sua grande simpatia pelos projectos do amo, mas no sem deixar de lhe observar quo necessrio lhe seria,  parte estas transformaes, ocupar-se dos prprios bens, em vista do mau estado dos negcios.
     Apesar do enorme patrimnio do conde Bezukov, depois que a herana lhe viera parar s mos e com ela, segundo se dizia, os quinhentos mil rublos de rendimento, o certo  que ele se encontrava muito menos rico do que quando recebia os dez mil rublos de penso que o pai lhe dava. Nas suas linhas gerais, o oramento do novo conde Bezukov era este, pouco mais ou menos: pagava ao conselho pela totalidade dos seus domnios cerca de oitenta mil rublos; a manuteno da sua propriedade prxima de Moscovo, da sua casa da mesma cidade e os encargos com as dispendiosas mesadas s princesas oravam por trinta mil rublos: as penses elevavam-se a quinze mil e as obras de beneficncia a mesma coisa, aproximadamente. Cento e cinquenta mil eram pagos  condessa para a sua manuteno. Pagava, de juros de dvidas contradas, cerca de setenta mil rublos. A construo de uma igreja ainda em obras tinha-lhe absorvido nos dois ltimos anos perto de dez mil rublos. E o restante, cerca de cem mil, era despendido nem ele sabia como, de tal sorte que todos os anos se via obrigado a contrair novas dvidas. Alm disso, constantemente o intendente- geral lhe escrevia a dar-lhe parte de incndios, de ms colheitas, de reparaes em armazns e prdios. E eis que a primeira tarefa que se impunha a Pedro era aquela para que ele tinha menos aptido e gosto: cuidar dos seus prprios interesses.
     Todos os dias Pedro trabalhava com o seu intendente- geral. Mas cedo percebeu que no passava da cepa torta. Dava-se conta de que a actividade que desenvolvia era em pura perda, que os negcios lhe escapavam das mos e que, por isso mesmo, no os via progredir. Por um lado, o intendente expunha-lhe as coisas sob a sua pior luz, mostrando-lhe a necessidade de pagar as dvidas e de empreender novos trabalhos com a ajuda dos servos, e nisso no queria Pedro ouvir falar. Por outro, exigia que se apressasse a emancipao, ao que o intendente opunha a necessidade de pagar antes a dvida ao conselho de tutela, o que tornava impossvel a realizao imediata dos projectos do amo.
     O intendente no declarava ser completamente impossvel a sua efectivao: para conseguir este objectivo propunha se vendessem as florestas do distrito de Kostroma, as terras do Baixo Volga e o domnio da Crimeia. Mas estas operaes, na sua opinio, eram to complicadas, implicavam tanta papelada, tantos embargos, tantas intimaes, tantos ditos dos tribunais, tantas autorizaes que Pedro perdia a cabea e contentava-se em responder-lhe: Bem, bem, anda para diante.
     Faltava a Pedro esse esprito prtico e essa tenacidade que lhe teriam permitido tomar conta ele prprio de todos os seus negcios. Mas, como esse trabalho lhe repugnava, contentava-se em fingir, diante do intendente, estar interessadssimo por ele. Quanto ao intendente, esse procurava dar-lhe a impresso, na sua presena, de considerar todos esses trabalhos da mais alta importncia para ele, seu amo, enquanto que para si os considerava aborrecidssimos.
     Na grande cidade encontrou pessoas conhecidas. Os desconhecidos davam-se pressa em relacionar-se com ele e cumulavam de amabilidades esse ricao da ltima hora, o mais importante proprietrio do distrito. Aquilo que ele confessara ser a sua maior fraqueza aquando da admisso na loja manica tentou-o to fortemente que lhe foi impossvel resistir. Passou de novo dias, semanas, meses completamente absorvido pelas recepes, pelos almoos, pelos bailes, sem tempo de se refazer, tal qual como em Petersburgo. Em lugar da vida nova que esperava recaiu na antiga, s com a diferena de ser noutras condies.
     No tinha outro remdio seno reconhecer que de entre as trs obrigaes impostas pela franco-maonaria no cumpria aquela segundo a qual cada mao deve ser um modelo no ponto de vista moral e que das sete virtudes requeridas no possua duas: os bons costumes e o amor da morte. Ia-se consolando convencendo-se intimamente de que cumpria a outra obrigao, isto , o interesse pela melhoria das condies de vida do gnero humano e que era detentor de outras virtudes: o amor do prximo e principalmente a generosidade.
     Na Primavera de 1807 decidiu regressar a Petersburgo. Pensava percorrer durante a viagem todos os seus domnios e verificar pessoalmente em que p se encontravam as ordens que dera e em que situao se achava nesse momento aquele povo que Deus lhe havia confiado e que ele se esforava por cumular de benesses.
     O intendente, a cujos olhos todos os projectos do moo conde no passavam de rematada loucura, ao mesmo tempo prejudicial para si, para o proprietrio e para os camponeses, viu-se obrigado, no entanto, a fazer certas concesses. Embora persistisse em considerar impossvel a emancipao dos servos, tomou medidas, em virtude da prxima visita do amo, no sentido de mandar construir em todos os domnios grandes barraces, que serviriam de escolas, hospitais e asilos. Por toda a parte preparou recepes de que eram excludas a solenidade e a pompa, pois sabia que no agradavam a Pedro. Mas pensou que manifestaes de carcter religioso, com acompanhamento de imagens e oferendas de po e sal, prova do reconhecimento dos camponeses, essas deviam, na sua maneira de compreender o amo, influir sobre ele e impression-lo.
     A Primavera naquelas paragens do Sul, uma viagem rpida e confortvel na sua calea vienense, a solido da estrada - tudo isso foi de efeito feliz no animo de Pedro. Os domnios que ele ainda no tinha visitado eram todos muito pitorescos. Por toda a parte os camponeses pareciam prsperos e em extremo reconhecidos pelos benefcios recebidos de tal modo era acolhido por todos os seus servos. Conquanto essa recepo calorosa o enchesse de confuso, dava-lhe no fundo da sua alma uma grande alegria. Um certo lugar os camponeses apresentaram-lhe o po e o sal com uma imagem de S. Pedro e S. Paulo, e pediram-lhe licena, em honra daqueles santos patronos e em testemunho de amor e reconhecimento pelos benefcios recebidos, para erguerem, a expensas suas, uma nova capela na igreja. Alm disso, mes, com seus filhos de peito, vieram ao seu encontro agradecer-lhe t-las poupado a trabalhos penosos. Ainda noutro lugar aguardava-o um padre, de cruz alada, rodeado de um bando de crianas a quem, graas ao conde, ele ensinava catequese e a ler e escrever. Em todos os seus domnios Pedro pde ver, com seus prprios olhos, dependncias de alvenaria em construo, ou j concludas, todas segundo uma planta nica: hospitais, escolas, hospcios, que deveriam estar prontos num prazo relativamente curto. Por toda a parte lhe foi dado ver, graas aos relatrios dos feitores, que o trabalho fora diminudo e ouvia como- vedoras provas de reconhecimento da boca dos prprios camponeses que vinham ao seu encontro, em delegaes, com seus cafets azuis na cabea.
     Ignorava porm que a aldeia onde lhe tinham apresentado o po e o sal e onde se pretendia erguer uma capela a S. Pedro e S. Paulo era uma povoao mercantil com feira pelo S. Pedro e que aquela capela de h muito fora comeada pelos ricaos locais, esses mesmos que se lhe haviam apresentado em delegao, quando o certo  que nove dcimos dos camponeses se achavam na mais completa misria,
     Ignorava que desde que tinham deixado de mandar executar trabalhos pesados s mes com filhos de colo, essas mesmas mulheres se viam obrigadas a suportar, dentro de casa, um trabalho tanto ou mais penoso que o que faziam fora dela. Ignorava que o padre que o recebera de cruz alada oprimia os paroquianos obrigando-os a pagar dzimos em espcie e que os alunos reunidos  sua volta lhe tinham sido confiados entre lgrimas, e que se seus pais os quisessem reaver teriam de pagar avultadas somas. Desconhecia que as construes de pedra, consoante os seus planos, haviam sido feitas pelos prprios camponeses, o que lhes agravara as tarefas, apenas suavizadas no papel. Ignorava que ali mesmo, onde o intendente lhe mostrara os foros reduzidos de um tero, consoante os seus desejos, a tarefa fora aumentada de metade. Eis porque Pedro se sentia encantado com a viagem atravs dos seus domnios e de novo possudo daquele entusiasmo filantrpico que se apoderara dele quando sara de Petersburgo, e a tal ponto que escreveu cartas entusiastas a seu irmo instrutor, nome que dava ao gro-mestre.
     Que fcil , quo pouco esforo  preciso para se conseguir tanto bem, dizia Pedro de si para consigo, e que descuidados que ns somos!
     Sentia-se feliz com o reconhecimento que lhe testemunhavam, se bem que ao mesmo tempo experimentasse um certo mal-estar aceitando-o. Isso vinha lembrar-lhe estar na sua mo fazer muitssimo mais por aquela gente simples e boa.
     O seu intendente-geral, um celerado, assaz estpido, de resto, que soubera levar o moo conde, inteligente mas ingnuo, e que fazia dele o que queria, como se ele fosse um brinquedo, ao ver o efeito que nele provocaram os processos de que lanara mo, logo tratou de extrair da novos argumentos sobre a impossibilidade, e sobretudo sobre a inutilidade, da emancipao dos servos, os quais no precisavam de uma tal medida para se sentirem completamente felizes.
     Pedro, no fundo do seu corao, estava de acordo com ele, pelo menos para reconhecer ser difcil conceber gente mais feliz e que s Deus sabia o que a liberdade lhes viria a dar. Mas, apesar de tudo, insistia na realizao do que ele considerava uma causa justa. O intendente prometia-lhe fazer tudo quanto lhe fosse possvel para dar cumprimento ao seu desejo, sabendo perfeitamente que ele nunca seria capaz de verificar se se tinham tomado medidas para a venda das florestas e dos bens, para o resgate ao conselho de tutela, e que, ainda por cima, nunca mais falaria no caso e no chegaria a saber que as dependncias construdas permaneciam vazias e que os camponeses continuavam a dar em trabalho e em dinheiro o que sempre tinham dado por toda a parte, ou seja, tudo de quanto fossem capazes.
     

     
     
     
     Captulo XI
     
     No regresso da sua viagem ao Sul, na melhor das disposies de esprito. Pedro ps em execuo o seu muito antigo projecto de ir visitar o seu bom amigo Bolkonski, a quem no via h dois anos.
     Bogutcharovo ficava numa regio plana e razoavelmente feia, coberta de prados e florestas de pinheiros e btulas, em parte dizimadas. A residncia senhorial era na extremidade da aldeia, que se estendia em linha recta dos dois lados da estrada, na retaguarda de um tanque recentemente cavado, completamente cheio, cujas margens ainda no estavam guarnecidas de erva, no meio de um bosque novo onde se erguiam, aqui e ali, alguns pinheiros.
     A residncia compunha-se de um cerrado para os molhos de trigo, um grupo de construes que davam para o ptio, cavalarias e estufa, e de uma grande casa de pedra com um fronto semicircular, ainda no concludo. Em tomo da casa havia um parque recm-plantado. As paliadas e o portal eram slidos e novos. Sob um alpendre viam-se duas bombas de incndio e um tonel pintado de verde. Os caminhos eram direitos, as pontes sobre os cursos de gua resistentes e guarnecidas de parapeitos. Em tudo se via ordem e boa administrao. Os criados que encontrou, aos quais perguntou onde habitava o prncipe, apontaram-lhe um pequeno pavilho novo marginando o tanque.
     O velho valido do prncipe Andr. Antnio, ajudou Pedro a apear-se da sua calea, disse-lhe que o prncipe estava em casa e conduziu-o a uma pequena antecmara muito asseada.
     Pedro sentiu-se impressionado com a modstia daquela pequena casa limpa em comparao com o luxo brilhante de que vira cercado o seu amigo a ltima vez que com ele estivera em Petersburgo. Deu-se pressa em penetrar no pequeno salo, que cheirava a resina de pinheiro e ainda por rebocar. Quis ir mais longe, mas Antnio precedeu-o em bicos de ps e bateu  porta.
     - Que se passa? - disse uma voz rude e pouco amvel.
     - Uma visita - respondeu Antnio.
     - Diz-lhe que entre - e ouviu-se o rudo de uma cadeira que se afastava.
     Pedro aproximou-se vivamente da porta e encontrou-se cara a cara com Andr, que vinha a sair, de aspecto pouco satisfeito e traos envelhecidos. Pedro abraou-o e, depois de tirar as lunetas, beijou-o na cara e olhou-o de perto.
     - Ora aqui est o que eu no esperava. ptimo! - exclamou Andr.
     Pedro, silencioso, olhava, assombrado, o amigo, sem poder apartar os olhos dele, aturdido com a mudana que nele se operara. As suas palavras eram acolhedoras, tinha o sorriso nos lbios, mas aos olhos apagados, como mortos, por mais que fizesse no conseguia comunicar-lhes sombra de alegria. No que tivesse emagrecido ou estivesse plido, mas aquele seu olhar e aquela sua fronte sulcada de rugas, sinal de pensamentos concentrados, impressionavam Pedro e causavam-lhe como que uma sensao de repulsa, uma vez no habituado a v-los no amigo.
     Como sempre acontece depois de uma longa separao, no foi fcil encetarem desde logo uma boa conversa. As perguntas e as respostas eram breves, posto abordassem assuntos de que tanto um como outro estavam certos de ser dignos de mais larga explanao. Mas, por fim, voltaram a tratar dos assuntos a que apenas se haviam referido abreviadamente: o passado, os seus planos de futuro, a viagem de Pedro, as suas ocupaes, a guerra, etc. A preocupao e o abatimento que Pedro notara no olhar do seu amigo reflectiam-se agora mais pronunciadamente no sorriso com que ele acolhia as tiradas de Pedro, especialmente quando o ouviu falar com jovial emoo do passado e do futuro. Apesar de toda a sua boa vontade. Andr no podia mostrar interesse por essas palavras, e Pedro acabou por compreender que, diante do seu amigo, no caam bem nem o seu entusiasmo, nem os seus sonhos, nem as suas esperanas de felicidade e de virtude. Sentiu-se embaraado ao expor todas as suas novas teorias manicas, especialmente aquelas que a sua ltima viagem lhe tinha permitido renovar e despertar em si. Refreava-se, receava parecer ingnuo, ao mesmo tempo que ansiava mostrar, quanto mais depressa melhor, j no ser a mesma pessoa, que era agora um Pedro bem melhor do que aquele que Andr conhecera em Petersburgo.
     - No posso dizer-lhe quanto me aconteceu nestes ltimos tempos. Nem eu prprio me reconheo.
     - Efectivamente mudaste muito, muito, de ento para c - disse Andr.
     - E quanto a si, quais so os seus projectos?
     - Os meus projectos? Os meus projectos? - repetiu Andr, surpreendido ele prprio com o sentido dessas palavras. - Como vs, dedico-me  construo, quero estar definitivamente instalado no ano que vem...
     Pedro, em silncio, ficou-se a contemplar firmemente o rosto envelhecido do seu amigo.
     - No  isso; estava a perguntar-lhe... - Mas Andr interrompeu-o:
     - Para que havemos de falar de mim?... Conta-me, conta-me a tua viagem, tudo o que fizeste l longe, nos teus domnios.
     Pedro ps-se a contar-lhe o que tinha feito, procurando dissimular o mais possvel a sua prpria participao nos melhoramentos realizados. Por mais de uma vez Andr antecipou-se a Pedro na concluso das descries por ele encetadas, como se para ele o que o amigo contava fossem coisas de h muito suas conhecidas e ele escutasse todas essas histrias no s sem interesse, mas at com algum enfado.
     Pedro acabou por se sentir pouco  vontade na companhia do amigo. Calou-se.
     - E, como vs, meu caro - disse Andr, que estava sentindo, era evidente, os mesmos embaraos e enfado que o seu amigo. - Estou aqui como num acampamento e vim apenas para passar os olhos por isto. Volto hoje mesmo para junto de minha irm. Terei muito prazer em apresentar-te. Mas creio que tu a conheces.- Dir-se-ia que no procurava seno matar o tempo na companhia do seu hspede, cujas ideias nada tinham j de comum com as suas prprias.- Abalamos depois do jantar. E agora queres visitar as minhas instalaes?
     Saram, e at ao jantar deambularam pela propriedade, conversando acerca das coisas polticas e dos amigos comuns, como se fossem pessoas de pouca intimidade. O prncipe Andr falou-lhe com animao, e pondo nisso um certo interesse, das obras novas que estava a fazer, mas no meio da conversa, ainda sobre os prprios andaimes, no momento em que lhe descrevia a futura disposio dos aposentos, calou-se repentinamente:
     - De resto, nada disto tem o mais pequeno interesse. Vamos jantar e depois abalamos.
     Durante o jantar veio a talho de foice falarem do casamento de Pedro.
     - Fiquei muito surpreendido quando me disseram - disse Andr.
     Pedro corou, como sempre acontecia em tal momento, e deu-se pressa em dizer:
     - Hei-de contar-lhe um dia como tudo isso se passou. Mas, como sabe, acabou, e para sempre.
     - Para sempre? Nada se faz para sempre.
     - Mas ento no sabe como isso acabou? Ouviu falar do duelo?
     - E tiveste de chegar a esse ponto!
     - A nica coisa em que estou agradecido a Deus  de no ter matado esse homem - murmurou Pedro.
     - E porqu? No fica mal a ningum matar um co danado.
     - Sim, mas matar um homem no est bem, no  justo...
     - No  justo porqu? - insistiu Andr. - Ao homem no compete decidir do que  justo ou do que o no . O homem sempre errou e sempre h-de errar, e principalmente naquilo que ele considera justo ou injusto.
     -  injusto o que prejudica o prximo - observou Pedro, que sentia prazer em verificar, pela primeira vez desde que chegara, que o amigo comeava a animar-se e a tornar calor pela conversa, e pretendia, deste modo, dar a conhecer tudo que o levara ao estado em que actualmente se encontrava.
     - E como sabes distinguir o que prejudica o prximo? - perguntou Andr.
     - O mal! O mal! - exclamou Pedro. - Todos ns sabemos muito bem o que  mau para ns prprios.
     - Sim,  verdade, sabemos, mas o que me faz mal pode no fazer mal a outro - redarguiu Andr, cada vez mais animado e desejoso de expor a Pedro o seu novo ponto de vista. E acrescentou em francs: Na vida s conheo dois males bem reais: e remorso e a doena. S a ausncia destes dois males  que  o bem. Viver para mim prprio e limitar-me a evitar estes dois males, eis, actualmente, em que consiste toda a minha sabedoria.
     - E o amor do prximo, e a dedicao? - atalhou Pedro. - No, no posso concordar consigo. Viver apenas para no fazer mal, para evitar o remorso.  pouco, muito pouco. Vivi assim, vivi s para mim e malogrei a minha vida. E s agora  que estou a viver, ou, pelo menos, a esforar-me por viver - rectificou por modstia - para os outros. S agora  que compreendi a felicidade da existncia. No, no posso estar de acordo consigo, e estou convencido de que no pensa o que diz.
     O prncipe Andr fitou Pedro sem dizer nada, com um sorriso zombeteiro nos lbios.
     - Vais ver a minha irm Maria. Estaro os dois de acordo  disse. -  possvel que tenhas razo no que te diz respeito - acrescentou aps alguns momentos de silncio. - Cada um vive como melhor entende. Tu, tu viveste para ti e entendes que vivendo assim ias malogrando a tua vida e que no soubeste o que era felicidade seno no dia em que comeaste a viver para os outros. Eu, por mim, fiz a experincia contrria. Vivi para a glria. E que  a glria?  tambm o amor do prximo, o anseio de fazer alguma coisa por ele, o desejo de merecer os seus louvores. Quer dizer que eu vivi para os outros e que no s estive em risco de comprometer a minha existncia, como a malogrei, de facto, completamente. Eis porque, de ento para c, desde que no vivo seno para mim, passei a ter uma vida mais serena.
     - Mas como  possvel viver-se s para si? - interrogou Pedro, cada vez mais exaltado. - E seu filho, sua irm, seu pai?
     - Continuam a ser eu, no so os outros - replicou Andr. - Os outros, o prximo, como dizem, tu e a Maria, so a causa principal do erro e do mal. O prximo so esses camponeses de Kiev a quem tu queres fazer bem.
     Olhou para Pedro com um olhar irnico e provocador. Era evidente que procurava desafi-lo.
     - Pelo que vejo, quer divertir-se - replicou Pedro, cada vez mais animado. - Onde  que pode haver erro e mal no desejo que h em mim de praticar o bem? E se eu no fizer quase nada, e mal, a minha boa inteno l est sempre, e, seja como for, sempre fiz qualquer coisa. Que mal  que pode haver em ensinar aos desgraados dos nossos camponeses, homens como ns, que vivem e morrem sem outra noo de Deus e da verdade que no sejam ritos vos e oraes sem qualquer significado para eles, que mal  que pode haver em ensinar-lhes a consoladora crena numa vida futura, numa recompensa proporcional aos seus actos, num alvio das suas dores? Que mal, que erro  que haver em impedir que os homens morram de doena sem qualquer socorro, quando  to fcil auxili-los materialmente, arranjando para eles remdios, hospitais e asilos onde acabem os seus tristes dias? E no ser um bem palpvel e incontestvel que eu procure descanso e alvio no trabalho para o campons e para a mulher que amamenta o seu filho, pobres deles que no sabem o que seja repouso nem de noite nem de dia?... - acrescentou Pedro com a sua gaguice atrabiliria. - E foi isso que fiz, mal, incompletamente, de acordo, mas a verdade  que o fiz em certa medida, e no s ningum me dissuadir de que no foi um bem o que eu pratiquei, como ningum me convencer de que o Andr no pensa da mesma maneira. E o mais importante - concluiu - e  isso que eu sei, e disso estou convencido,  que a nica verdadeira felicidade da vida  a satisfao que se tira do bem que se faz.
     - Sim, se se puser assim o problema,  outra coisa - disse o prncipe Andr. - Eu construo urna casa, planto um parque, tu fundas hospitais. Tanto o meu acto como o teu podem ser considerados mero passatempo. Mas, quanto ao que  justo, ao que  o bem, deixa Aquele que tudo sabe, e no a ns, o cuidado de o decidir. Contudo, se queres continuar a discusso, est bem, seja feita a tua vontade!
     Levantaram-se da mesa e foram instalar-se na escada, que formava como que uma varanda.
     - Bom, vamos  discusso - principiou Andr. - Tu dizes: escolas, instruo e tudo o mais - continuou, contando pelos dedos -, isso quer dizer que tu queres tirar aquele - apontou para um campons que ia passando e os saudou - do seu estado animal e dar-lhe o sentido das necessidade morais. Pois eu penso que a sua nica felicidade possvel  a felicidade animal, e tu queres priv-lo disso. Invejo-o, e tu, tu queres torn-lo eu, sem lhe dares, alis, todos os meus recursos. Em segundo lugar, tu dizes: aliviemo-lo do seu trabalho. Mas, na minha opinio, o trabalho fsico, para ele,  uma necessidade, uma condio da sua existncia, tal qual como para ti o trabalho intelectual. Tu, tu no podes deixar de pensar. Eu deito-me s trs horas da manh e tanta coisa me vem  cabea que no posso conciliar o sono. Revolvo-me na cama, fico sem dormir at alta madrugada, apenas porque penso, e no posso deixar de pensar; da mesma maneira que ele no pode deixar de lavrar ou de ceifar. Sem isso iria para a taberna e ficaria doente. Assim como eu no poderia suportar o seu tremendo trabalho fsico - bastavam oito horas para me matar -, ele no suportaria a minha ociosidade fsica, tanto engordaria que acabaria por morrer. Em terceiro lugar, que disseste tu, afinal? - Andr agarrava o seu terceiro dedo - Ah!, sim, os hospitais, os medicamentos. Suponhamos que ele tem uma apoplexia. Tu sangra-lo e ele cura-se. Ficar dez anos entrevado, um tropeo para toda a gente. Seria muito melhor e muito mais simples morrer. Outros viro a este mundo e h sempre gente de sobra. Se ao menos tu lamentasses perder um trabalhador encarando o problema como eu, mas tu queres trat-lo por amor dele prprio. Ele no precisa disso. E, de resto, que iluso a tua ao pensares que a medicina j curou algum! Que tem morto muita gente  um facto! - acrescentou, de sobrancelhas carregadas e voltando a cara.
     Andr expunha as suas ideias com tanta clareza e tanta nitidez que se depreendia facilmente no ser a primeira vez que analisava aqueles problemas, e ao falar fazia-o com tanto prazer e to abundantemente que se via bem no se expandir h muito. Tanto maior era a animao do seu olhar quanto era certo serem pessimistas as concluses a que chegara.
     - Ah!,  terrvel!,  terrvel! - disse Pedro. - No posso compreender que se viva com semelhantes ideias. Sim, confesso que tenha passado por fases semelhantes ainda no h muito tempo, em Moscovo e em viagem. Mas nessas alturas sinto-me de tal modo arrasado que  como se deixasse de viver; tudo me  odioso.., a comear por mim prprio. Ento deixo de comer, deixo de me lavar... E a si. Andr, que lhe acontece?
     - Porque hei-de eu desleixar-me? Isso no  prprio. Pelo contrrio, acho que devemos procurar tornar a nossa existncia o mais agradvel possvel. Estou vivo, e a culpa no  minha, por isso  bom que continue a viver o melhor que puder, sem incomodar ningum, at  hora da morte.
     - Mas que o leva a ter semelhantes ideias? Est disposto, ento, a ficar assim, sem se mexer, sem qualquer iniciativa...
     - A vida se encarrega de nunca nos deixar em repouso. Ficaria encantado se nada tivesse que fazer, mas deu-se o caso de a nobreza da regio me ter dado a honra de me escolher para seu marechal: s eu sei quanto me custou ver-me livre dessa gente. No havia meio de perceberem que eu era completamente destitudo dos predicados necessrios para o desempenho de tal cargo, que me faltava essa espcie de vulgaridade parrana e buliosa, a qualidade mais apreciada nas pessoas nessa situao. E, ainda por cima, tenho esta casa, que foi preciso construir para ter umas telhas minhas que me cubram e onde eu possa viver em paz. E agora a milcia.
     - E porque  que no voltou para a tropa?
     - Depois de Austerlitz? - replicou ele, sorumbtico. - No, graas a Deus! Jurei a mim mesmo no voltar a servir no activo. E estou disposto a no o fazer. Ainda mesmo que Bonaparte aqui aparecesse, em Smolensko, ameaando Lissia Gori, eu no voltaria a pegar em armas. Sim, como te dizia - prosseguiu ele, serenando,- agora esto a mobilizar a milcia, meu pai  o comandante - chefe da 3 regio e a nica maneira que eu tenho de evitar o regresso ao meu posto  estar ao seu servio.
     - Quer dizer, portanto, que continua a prestar servio.
     - Sim, continuo.
     Calou-se por alguns instantes.
     - E quais so, em rigor, as suas funes?
     -  simples. Meu pai  um dos homens mais notveis da sua poca. Mas est velho e, embora no possamos dizer que  uma pessoa dura,  facto que tem um carcter muito impetuoso. O hbito em que est de dispor de um poder sem limites torna-o terrvel, principalmente agora, que depende, como chefe da milcia, directamente do imperador. H uns quinze dias, se eu tenho chegado duas horas mais tarde, tinha mandado enforcar um escriba em Iuknov - acrescentou Andr com um ligeiro sorriso. - E ento presto servio porque ningum a no ser eu tem influncia sobre meu pai, e ser esta a nica maneira de evitar que ele cometa qualquer acto de que mais tarde viria a sentir remorsos.
     - Ento, como v...
     - Sim, mas no  como o senhor pensa! - prosseguiu Andr. - No tinha nem tenho qualquer sentido de benemerncia para com esse canalha desse escriba, que roubara uns pares de botas aos milicianos. Teria sentido mesmo um grande prazer em v-lo enforcado, mas tive pena de meu pai, isto , de mim prprio.
     O prncipe Andr parecia cada, vez mais agitado. Os olhos brilhavam-lhe febrilmente no momento em que procurava convencer Pedro de que nos seus actos no existia o mais pequeno desejo de fazer bem ao prximo.
     - Com que ento, queres dar carta de alforria aos teus camponeses! ptimo! Mas no vejo que isso seja um bem, quer para ti, pois estou convencido de que nunca aoitaste fosse quem fosse nem nunca mandaste ningum para a Sibria, quer muito menos para os teus camponeses. De resto, quando acontece baterem-lhes, aoitarem-nos, deportarem-nos para a Sibria, no creio que venham a sentir-se pior por isso. Na Sibria continuam a mesma vida animal. E, quanto aos aoites, acabam por se curar das feridas e no ficam por isso mais infelizes do que anteriormente. Mas aqueles para quem eu julgo necessria a liberdade so os que moralmente esto perdidos, os carregados de remorsos, os que fazem tudo para calar a voz da conscincia, os que se endurecem no abuso que cometem do seu direito de punir, justa ou injustamente. Eis os que lamento e no interesse de quem gostaria de ver libertar os servos. Tu, naturalmente, nunca conheceste qualquer, mas eu tenho tratado com criaturas muito dignas, educadas na tradio do poder sem limites, que, com o correr dos anos, se tornaram irritveis, se fizeram duras e cruis; conscientes disso, mas sem se poderem dominar, acumulam assim sobre si prprias desgraas sobre desgraas.
     O prncipe Andr falava com tamanha convico que Pedro, sem querer, dizia para consigo mesmo que tais reflexes haviam sido sugeridas ao amigo pelo estado moral de seu prprio pai. No soube que responder-lhe.
     - Sim, isto  que me inspira piedade: a dignidade do homem, a tranquilidade da conscincia, a pureza da alma comprometida, e no as costas e as cabeas dos outros, pois, quer as aoitem, quer as tosquiem, nem por isso deixam de ser costas e cabeas (Tosquiar algum  faz-lo assentar praa. (N, dos T.)
     - Seja como for, no, nunca serei da sua opinio - concluiu Pedro.
     

     
     
     
     Captulo XII
     
      tardinha, o prncipe Andr e Pedro meteram-se numa calea e partiram para Lissia Gori. Andr, que relanceava furtivos olhares a Pedro, de tempos a tempos interrompia o silncio para dizer qualquer coisa em que se denunciava a sua excelente disposio.
     Falava-lhe, apontando para os campos, nos aperfeioamentos agronmicos que tinha introduzido na lavoura.
     Pedro, macambzio, limitava-se a responder por monosslabos, parecendo mergulhado nos seus pensamentos.
     De si para consigo ia dizendo que o amigo era infeliz, que estava em erro, que ignorava a verdadeira luz e que o seu papel era vir em seu auxlio, ilumin-lo e levantar-lhe o esprito. Mas, assim que se punha a congeminar o que lhe iria dizer e como o diria, compreendia que Andr, com uma simples palavra e um s argumento, arrasaria a sua argumentao, e tinha medo de principiar, tinha medo de expor a zombarias muito possveis a arca santa das suas crenas.
     - Ora vejamos: que  que o leva a pensar assim - principiou ele, de chofre, de cabea baixa, como um touro que arremete -, que  que o leva a pensar assim? No tem o direito de pensar assim.
     - De pensar o qu? - interrompe Andr, surpreso. - Pensar assim a respeito da vida, do destino do homem. Isso no pode ser. Eu tambm pensei assim, e quer saber o que me salvou? A franco- maonaria. Ah!, no se ria. Pode crer, a franco-maonaria. No  uma seita religiosa, cheia de ritos, como eu julgava, mas a melhor, a nica expresso do que h de melhor, do que h de eterno no homem.
     E ps-se a expor-lhe em que consistia a franco-maonaria e como ele a compreendia. Disse-lhe que era a doutrina crist emancipada dos estorvos dos governos e das religies, a doutrina da igualdade, da fraternidade e do amor.
     - A nossa santa confraria  a nica que possui o verdadeiro sentido da vida - continuou ele -, tudo o mais so fantasias. Creia, meu amigo, fora desta associao s h mentira e falsidade. E eu estou de acordo consigo e pronto a dizer que ao homem honesto e inteligente nada mais lhe resta que acabar por viver como o Andr vive, com a nica preocupao de no incomodar os outros. Mas, se adoptar os nossos princpios fundamentais, se entrar na nossa confraria, se se nos entregar, se se deixar dirigir por ns, acabar por sentir, como eu prprio senti, que  um elo desta cadeia enorme e invisvel cujo princpio se esconde nos Cus.
     Andr ouvia falar Pedro sem dizer palavra, de olhos fixos diante dele. Como o rudo do carro o no deixava ouvir bem, por mais de uma vez lhe pediu que repetisse o que estava a dizer. O fulgor que brilhava nas pupilas de Andr e o seu silncio garantiam a Pedro que as suas palavras no estavam a cair em cesto roto e que ele no pensava interromp-lo nem zombar do que ele dizia.
     Chegaram a um rio cujas guas haviam transbordado e o qual tiveram de atravessar de barco.
     O prncipe Andr, encostado  amurada, contemplava, calado, a massa lquida a que os raios do sol-poente arrancavam labaredas.
     - Ento? Que  que pensa de tudo isto? - perguntou Pedro. - Porque  que no diz alguma coisa?
     - Que  que eu penso? Mas estou a ouvir-te. Tudo isso est muito bem - replicou. - Tu dizes-me: entre na nossa confraria e ns lhe mostraremos o fim da vida, o destino do homem e as leis que governam o mundo. Mas quem somos ns? Homens! Como  que vocs sabem tudo isso? Porque ser que s eu no vejo o que vocs vem? Vocs vem na terra o domnio do bem e da verdade, mas eu no o vejo.
     Pedro interrompeu-o.
     - Acredita numa vida futura? - perguntou.
     - Numa vida futura? - Mas Pedro no o deixou prosseguir, e, tomando esta interrogao como uma negativa, tanto mais que de longa data sabia do atesmo do seu amigo, de novo o interrompeu.
     - Acha que lhe  impossvel ver o reino do bem e da verdade sobre a terra. Tambm eu no acreditava em tal coisa e no  possvel admiti-lo se se considerar a nossa vida como o fim de tudo. Sobre a terra, principalmente sobre a terra - dizia ele, apontando para os campos -, no h verdade: tudo  mentira e maldade. Mas no universo, no conjunto do universo  a verdade que reina. Ns somos por um momento filhos da terra, mas eternamente somos filhos do universo. No sentirei eu, no fundo da minha alma, que sou uma parte deste todo, enorme e harmonioso? No sentirei eu que nesta imensa e infinita quantidade de seres, atravs da qual se manifesta a divindade ou a suprema fora, o que vem a dar no mesmo, eu sou um fuzil, um degrau da escada dos seres que vai do mais nfimo ao mais elevado? Se eu vejo, se vejo claramente esta escada que vai da planta at ao homem, porque  que eu hei-de partir do princpio de que ela se detm precisamente em mim em vez de alcanar sempre mais longe, cada vez mais longe? Eu sinto em mim que, pela mesma razo de que nada se perde no universo, tambm eu no posso desaparecer e que continuarei a ser para todo o sempre como sempre tenho sido. Sinto que alm de mim e para alm de mim h espritos vivos e que  nesse universo que reside a verdade.
     - Sim,  a doutrina de Herder - interveio Andr. - Mas, meu caro, no  essa doutrina que me convence: a vida e a morte, sim. O que me convence  ver urna criatura a quem queremos muito, a quem muito estamos presos, para com quem nos sentimos culpados e de que esperamos remir o mal que lhe fizemos - e ao dizer estas palavras a sua voz tremia e desviava a vista - e que de um momento para o outro comea a sofrer, a padecer tremendas dores e deixa de existir... Porqu?  impossvel que no haja uma resposta para isto! E eu estou convencido de que h... Bis o que me convence, eis o que me convenceu - concluiu ele.
     - Claro, claro - repetiu Pedro. - Mas no  isso precisamente que eu estive a dizer?
     - No. O que eu quero dizer  que no so os raciocnios que me convencem da necessidade duma vida futura, mas este facto apenas: o de irmos pela vida fora de mo dada com um ser humano, e este ser, de repente, desaparecer alm, no nada, e ento determo-nos diante desse abismo e ficarmos a olhar. E eu, eu olhei...
     - E ento? Sabe que h um alm, que h algum. Alm  a vida futura. Esse algum  Deus.
     O prncipe Andr permanecia calado. Havia muito j que a carruagem e os respectivos cavalos tinham atingido a outra, margem, que estes j estavam de novo atrelados, que o Sol j mal se via no horizonte e que a geada do crepsculo comeava a cobrir de estrelas de gelo o lamaal do atracadouro, e ainda Pedro e. Andr, com grande espanto dos lacaios e dos barqueiros, continuavam no barco entretidos a falar.
     - Se Deus existe, se h rima vida futura, a verdade existe, existe a virtude, e a suprema felicidade do homem consiste no esforo para as alcanar.  preciso viver,  preciso amar,  preciso crer - dizia Pedro -, pois no vivemos apenas nesta hora, sobre este pedao de terra, mas sempre vivemos e eternamente havemos de viver, alm, no Todo.- E apontava para o cu.
     Andr continuava apoiado  borda do barco e ouvia Pedro sem deixar de fitar os reflexos vermelhos do sol-poente nas guas cada vez mais azuis. Pedro calou-se. A serenidade era completa. H muito que o barco estava atracado e no se ouvia seno o tnue ondular da superfcie lquida batendo de encontro ao fundo da embarcao. A Andr afigurou-se-lhe que aquele sussurro confirmava o que dizia Pedro:  a verdade, acredita.
     Soltou um suspiro e envolveu num olhar de criana, luminoso e terno, o rosto de Pedro, muito corado e vitorioso, e como sempre intimidado diante da superioridade do amigo.
     - Sim, se ao menos assim fosse! - exclamou. - Vamos, o carro espera-nos. - E, pondo os ps em terra, soergueu os olhos para o cu que Pedro lhe apontara e, pela primeira vez depois de Austerlitz, tomou a ver aquele cu profundo e eterno, o cu que havia contemplado estendido no campo de batalha, e sentimentos h muito nele adormecidos, melhores sentimentos, despertaram subitamente na sua alma, como numa ressurreio de alegria e juventude. Entregues aos hbitos quotidianos da vida, todas as suas tendncia ntimas se haviam desvanecido pouco a pouco, mas, embora no tivesse sabido nutri-las, o certo  que continuava a senti-las vivas dentro de si. Desta sua conversa com Pedro passou a datar uma vida que, se exteriormente parecia a mesma, no seu foro ntimo passara a ser completamente nova.
     

     
     
     
     Captulo XIII
     
     Era noite quando Andr e Pedro se apearam diante da entrada principal de Lissia Gori. No momento em que chegavam. Andr chamou a ateno do amigo, todo sorridente, para a azfama junto da escada de servio. Uma velha, toda corcovada, de alforge s costas, e um homenzinho vestido de preto, de grande cabeleira, ao verem aproximar-se a calea esconderam-se no alpendre. Duas mulheres correram atrs deles e os quatro, depois de haverem lanado um olhar espavorido  carruagem, desapareceram na pequena escada,
     - So as almas de Deus da Macha - observou Andr. - Julgaram que era meu pai que chegava. Eis a nica coisa em que ela se lhe no submete: ele deu ordem para Macha correr com estes peregrinos, mas continua a receb-los.
     - E que vm a ser estas almas de Deus? - inquiriu Pedro.
     O prncipe Andr no teve tempo de lhe responder. Os criados acorriam ao seu encontro. Perguntou-lhes pelo velho prncipe e se o esperavam breve,
     Naquele momento ainda estava na cidade, e aguardavam-no de um momento para o outro.
     Andr conduziu o amigo aos seus antigos aposentos, os quais, em casa de seu pai, estavam sempre preparados para o receber, e dirigiu-se ao quarto do filho.
     - Vamos ver minha irm - disse ele quando voltou para o levar consigo. - Ainda a no vi. Est escondida com as suas almas de Deus.  bem feito para ela. Vai ficar envergonhadssima. Mas ficars conhecendo essa gente.  curioso, palavra.
     - Que vm a ser estas almas de Deus?
     - J vais ver.
     A princesa Maria ficou realmente muito envergonhada, e a cara cobriu-se-lhe de manchas escarlates ao v-los entrar. No seu quarto confortvel, com os seus oratrios de cones diante dos quais ardiam lamparinas, sentado num div, ao lado dela, tomando ch, estava um rapazola de nariz aquilino e cabelos compridos, vestido de frade.
     Junto deles, numa poltrona, sentava-se urna velha descarnada e rugosa, de expresso corts e infantil.
     - Andr, porque me no preveniste? - disse ela com uma entoao de censura na voz suave e pondo-se diante dos seus peregrinos, como uma galinha diante dos seus pintainhos.
     - Muito prazer em o ver. Estou muito contente por o ver - disse ela para Pedro, enquanto este lhe beijava a mo. Conhecera-o ainda muito criana, e agora a amizade que ele tinha por Andr, as suas infelicidades com a mulher, e sobretudo o seu bondoso feitio, a sua simplicidade, dispunham-na muito bem para com ele. Olhando-o com os seus lindos olhos luminosos parecia dizer-lhe: Gosto muito de si, mas, por amor de Deus, no faa troa dos meus.
     Depois dos primeiros cumprimentos todos se sentaram.
     - Ah! Com que ento tambm c est o Ivanuchka! - exclamou Andr, sorridente, dirigindo-se ao moo peregrino.
     - Andr! - suplicou a irm.
     -  preciso que saibas que  uma mulher - Andr esclareceu Pedro.
     - Andr, por amor de Deus! - insistiu Maria.
     Via-se perfeitamente que os gracejos de Andr a propsito dos peregrinos e a baldada interveno de Maria em seu favor eram hbito corrente entre os dois irmos.
     - Mas, minha boa amiga - prosseguiu Andr - deveria, pelo contrrio, estar-me reconhecida por eu explicar a Pedro a sua intimidade com este jovem.
     - Realmente? - disse Pedro, que, com uma expresso curiosa e cheia de seriedade, coisa por que Maria lhe estava particularmente reconhecida, observava, por detrs das lunetas, a figura de Ivanuchka. Este, percebendo que se lhe referiam, olhava para todos com o seu olhar astuto.
     No valia a pena que Maria se mostrasse to incomodada por causa dos seus. Eles no mostravam o mais pequeno embarao. A velha, de plpebras descidas, mas relanceando furtivamente os olhos aos recm-chegados, pousara no pires a chvena de fundo para o ar, pusera de lado o torro de acar j meio rodo e quedara-se muito sossegada na sua poltrona, esperando que lhe oferecessem mais ch. Ivanuchka, enquanto bebia, em pequenos goles, pelo pires, a furto ia fitando os dois amigos, com os seus olhos maliciosos, muito femininos.
     - Ouve l, estiveste em Kiev? - perguntou Andr  velhinha.
     - Estive, paizinho - replicou a velha, prolixamente. - Precisamente pela Natividade, tive a dita, junto dos santos padres, de participar nos santos mistrios do Cu. E agora vou a Koliazine, paizinho. Houve ali um grande milagre...
     - E Ivanuchka vai contigo?
     - No, eu sigo o meu caminho, meu benfeitor - disse Ivanuchka, fazendo o possvel por imprimir  voz um registo de baixo. - Foi em Iuknov que eu me encontrei com Pelagueiuchka.
     Pelagueiuchka interrompeu a companheira. Morria por contar tudo quanto vira.
     - Em Koliazine, paizinho, houve um grande milagre.
     - E que foi que aconteceu? Novas relquias? - perguntou Andr.
     - Por amor de Deus. Andr - intercedeu Maria. - Pelagueiuchka, no contes nada.
     - Que dizes tu, mezinha, porque  que eu no lhe hei-de contar? Eu gosto muito dele.  bom,  enviado de Deus.  meu benfeitor; deu-me dez rublos, lembro-me muito bem. Quando eu estava em Kiev. Kiriuchka falou-me.  um inocente, uma verdadeira alma de Deus. Anda sempre descalo, tanto no Vero como no Inverno. Porque  que tu no vais, disse-me ele, aonde deves ir? Vai a Koliazine. Houve ali um milagre, a nossa Me, a Santssima Maria Me de Deus, manifestou-se. Ao ouvir estas palavras despedi-me dos santos padres e abalei.
     Todos estavam calados. S a peregrina falava, numa voz pausada, entrecortada de profundas inspiraes.
     - Quando l cheguei, paizinho, a gente disse-me: Um grande milagre aconteceu: os santos leos escorrem das faces da nossa Me, a Santssima Me de Deus...
     - Bem, bem, basta, depois contars isso - disse a princesa Maria, corando.
     - Deixa que eu lhe faa uma pergunta - interveio Pedro. - Viste isso com os teus prprios olhos?
     - Pois vi, paizinho, tive essa felicidade. Na cara da santa havia uma claridade tal que parecia uma luz do Cu, e das suas faces aquilo escorria, escorria...
     - Mas isso  uma fraude! - exclamou Pedro, ingenuamente, depois de ter prestado muita ateno s palavras da peregrina.
     - Ah!, paizinho, que ests tu a dizer? - suspirou Pelagueiuchka, aterrorizada, e como se procurasse socorro junto de Maria. 
     -  assim que se engana o povo - prosseguiu ele.
     - Oh! Jesus Cristo. Nosso Senhor! - exclamou de novo a peregrina, benzendo-se.- Oh!, no fales assim, paizinho. Havia um anaral (Queria dizer general. (N, dos T.) que no acreditava e dizia:  uma artimanha dos frades. E assim que abriu a boca cegaram-se-lhe os olhos. E ento teve um sonho, viu a Nossa Me das Criptas, que caminhava para ele e lhe dizia: Acredita em mim e eu te curarei. E ento ele clamou: Levem-me, levem-me at junto dEla. E tudo isto  a pura verdade, vi com os meus prprios olhos. Levaram logo dali o cego at ao p da santa. Aproximou-se, prosternou-se diante dela: Cura-me e eu te darei, disse ele, tudo o que o czar me concedeu. E eu vi, paizinho, eu vi a sua estrela posta na imagem. E que julga? Ele ficou a ver.  pecado falar assim. Deus te castigar - disse ela para Pedro num tom severo.
     - Realmente a estrela apareceu na imagem? - perguntou Pedro.
     - Naturalmente promoveram a Nossa Me a general - zombou Andr, sorrindo.
     Pelagueiuchka empalideceu de repente estorcendo os braos de desespero.
     - Paizinho, paizinho, que pecado, e tu tens um filho! - exclamou ela, de plida tornando-se subitamente escarlate. - Paizinho, que ests tu a dizer, que Deus te perdoe! - benzeu-se. Senhor, perdoa-lhe! - Voltou a benzer-se. - Senhor perdoa-lhe! Ah!, mezinha, o que  que... - prosseguiu ela, voltando-se para Maria. Levantou-se e, quase a chorar, ps-se a preparar o alforge. Via-se claramente estar aterrorizada e tambm envergonhada de haver aceitado esmolas numa casa onde era possvel pronunciarem-se coisas daquelas, ao mesmo tempo que denotava certa pena por dever renunciar a essas mesmas esmolas.
     - Que prazer tiveram nisto? - interveio a princesa Maria. - Era bem melhor que no tivessem aparecido aqui...
     - Eu estava a brincar. Pelagueiuchka - replicou Pedro. Princesa, palavra que no a quis ofender, disse isto sem querer. No ligues importncia, eu estava a brincar - voltou ele, sorrindo timidamente, e procurando fazer esquecer o que se passara. - E Andr tambm, ele tambm estava a brincar.
     Pelagueiuchka, por momentos, pareceu incrdula, mas Pedro tinha uma expresso to sincera ao confessar-se arrependido e Andr fitava com tanta doura ora Pedro ora a peregrina que esta pouco a pouco acabou por se acalmar.
     

     
     
     
     Captulo XIV
     
     A peregrina, mais serena e entrando de novo na conversa, ps-se a narrar longas histrias do tio Anfiloke, cuja vida era to santa que das suas mos se evolava cheiro a incenso. Depois contou como uns frades seus conhecidos, aquando da sua ltima viagem a Kiev, lhe haviam dado a chave das criptas e como, s com urna bolacha no estmago, ali passara quarenta e oito horas junto dos santos padres. Rezava a um deles, lia as minhas oraes, ia at ao p do outro. Dormitava um bocadinho, voltava a tocar nos tmulos e, mezinha, havia ali tanto sossego, sentia em mim tanta graa que me no apetecia voltar para a luz de Deus.
     Pedro ouvia-a muito atento e com a maior serenidade. O prncipe Andr saiu, e Maria, deixando as almas de Deus acabar o seu ch, conduziu Pedro at ao salo.
     - Muito bom  o Pedro - disse-lhe ela.
     - Ah!, realmente, eu no tinha a mais pequena inteno de a ofender, compreendo-a perfeitamente e aprecio muito os seus sentimentos.
     A princesa Maria olhou para ele e sorriu com suavidade.
     - Sim, h muito que o conheo e estimo-o como se fosse meu irmo - disse ela. - Como lhe pareceu o Andr? - apressou-se ela a perguntar-lhe, sem lhe dar tempo a responder s suas palavras amveis. - Ando muito preocupada com ele. No Inverno passou melhor de sade, mas na Primavera a ferida voltou a abrir e o mdico disse-lhe que lhe convinha ir fazer uma cura no estrangeiro. E o seu moral tambm me atormenta muito. Os homens no so como ns, ele no pode dar largas  sua dor e chorar a sua mgoa. Traz tudo isso l dentro de si. Hoje est alegre e animado, mas  a sua presena que lhe d essa boa disposio. Muito raramente o vejo assim. Se fosse capaz de o convencer a ir at ao estrangeiro! Ele precisa de actividade, e esta vida calma e sempre igual acaba com ele. Os outros no do por isso, mas eu vejo perfeitamente que  assim.
     As dez horas, assim que ouviram os guizos da carruagem do velho prncipe, que chegava, os lacaios precipitaram-se para a escada principal. Andr e Pedro saram tambm ao seu encontro.
     - Quem ? - Perguntou o velho prncipe, ao apear-se, dando com os olhos em Pedro. - Ah! Muito prazer! D c um beijo! - exclamou, assim que reconheceu o jovem.
     Estava de ptima disposio e foi amabilssimo com Pedro. Antes da ceia. Andr, de regresso ao gabinete do pai, encontrou os dois em calorosa discusso. Pedro queria provar que ainda chegaramos a um tempo em que acabariam as guerras.
     O prncipe, escarnecendo dele, mas sem se zangar, sustentava o ponto de vista contrrio.
     - A nica maneira, de acabarem as guerras e sangrar os homens e porem-lhe gua no lugar do sangue. Patetices de mulher, patetices de mulher - dizia ele, batendo amigavelmente no ombro de Pedro.
     Em seguida aproximou-se da mesa junto da qual estava Andr, que visivelmente evitava tomar parte na discusso, folheando os papis que o pai trouxera da cidade. Ps-se a falar-lhe da milcia.
     - O marechal da nobreza, conde de Rostov, no me pde fornecer os homens que eram precisos. Pois no queres saber? Assim que a chegou meteu-se-lhe na cabea oferecer um grande jantar. Eu lhe darei os jantares... Olha, repara nisto... Pois  verdade, meu rapaz - continuou, dirigindo-se ao filho e batendo nas costas de Pedro -,  um belo rapaz o teu amigo. Gosto dele! D-me calor. Qualquer outro era capaz de se pr para a com discursos muito ajuizados e no tnhamos prazer algum em ouvi-lo. Mas este farta-se de dizer patetices e enche-me de energia, a um velho como eu! Bom, vo, vo!  muito natural que eu tambm aparea, que v cear com vocs. Continuaremos a nossa discusso. Espero que gostes da minha pateta, da princesa Maria - gritou ele a Pedro j do limiar da porta.
     Somente ali, durante aquela estada em Lissia Gori,  que Pedro pde apreciar todo o mpeto e todo o encanto da sua amizade por Andr. E esse encanto estava no tanto nas suas relaes com o amigo, mas ainda mais no trato com os seus parentes e com toda a gente da casa. Tanto em relao ao velho prncipe, assaz rebarbativo, como  doce e tmida Maria, posto mal os conhecesse, foi como se de repente sentisse que sempre os estimara. Alis toda a gente gostava dele. Maria, seduzida pelas suas maneiras delicadas para com os peregrinos, fitava-o com o mais luminoso dos seus olhares. At o pequeno Nicolau, o prncipe de um ano, como lhe chamava o av, tinha risadinhas para Pedro e ia aos seus braos sem chorar. Mikail Ivanovitch e Mademoiselle Bourienne presenteavam-no com os seus sorrisos mais afveis, enquanto ele conversava com o velho prncipe. Este assistiu  ceia: fazia-o, evidentemente, em honra de Pedro. Durante os dois dias que este passou em Lissia Gori foi extremamente amvel para com ele, convidando-o para conversar.
     Quando Pedro partiu e toda a famlia voltou a encontrar-se reunida, cada um deu a sua opinio acerca dele, como  costume sempre que um convidado novo visita uma casa, e, coisa rara, ningum teve que dizer dele seno bem.
     

     
     
     
     Captulo XV
     
     Desta feita, pela primeira vez desde que regressara de licena. Rostov percebeu at que ponto era afeioado a Denissov e a todo o seu regimento.
     Ao chegar experimentou qualquer coisa de semelhante ao que sentira ao aproximar-se da casa da Rua Povarskaia. Ao deparar-se-lhe o primeiro hssar de uniforme desabotoado, ao ver o ruivo Dementiev e as parelhas de cavalos baios, ao ouvir Lavruchka gritar jovialmente para o seu amo: L vem o conde!, ao descobrir Denissov, tal como estava deitado na sua barraca, correndo a abra-lo e aos oficiais agrupados  sua volta. Rostov sentiu a mesma impresso que experimentara quando a me, o pai e as irms o haviam acolhido entre carinhos, e lgrimas de alegria lhe subiram aos olhos, embargando-lhe a voz. O regimento ainda era para ele um lar, uma casa to querida e agradvel como a prpria casa paterna.
     Depois de apresentado ao comandante do regimento e de empossado, no mesmo esquadro em que estivera incorporado antes, nas funes do servio de abastecimento de forragens, ei-lo que, nos mil e um pormenores da vida de caserna, naquele sentir-se privado de liberdade e foradamente cingido a um quadro estreito e invarivel, experimentava a mesma sensao de sossego, de amparo, de estar em sua prpria casa, no seu devido lugar, como quando se encontrava sob o tecto paterno. Ali nada se pare- cia com aquele tumulto da vida no mundo livre, onde no encontrava o seu lugar, onde no sabia viver, ali j no havia uma Snia a quem fosse preciso dar ou no explicaes. Acabavam-se as alternativas em que era obrigado a decidir se ia ou no a tal ou tal lugar. No mais aqueles longos dias de vinte e quatro horas que  preciso preencher de maneiras to diversas; no mais aquela multido com quem se no tem a mais pequena intimidade e que ao mesmo tempo tambm nos no  completamente estranha; no mais problemas de dinheiro com o pai, nem sempre muito claros; no mais a lembrana dessa terrvel perda ao jogo por causa de Dolokov! Ali, no regimento, tudo era preciso e simples. O universo estava dividido em duas partes desiguais: uma o seu regimento de Pavlogrado, a outra o resto do mundo. E esse resto do mundo era-lhe completamente indiferente. No regimento a todos conhecia. Sabia quem era o tenente, quem o capito, quem era boa pessoa, quem m rs, mas, fosse como fosse, todos eram seus camaradas, e isso  que importava. O cantineiro fiava-lhe; pagar-se-lhe-ia de quatro em quatro meses. Nada a combinar, nenhuma escolha a fazer no regimento de Pavlogrado, mais iro havia do que abster-se cada um do que no era acertado, e, se algum recebia, ordem de levar a cabo determinada misso, s urna coisa tinha a fazer: o prescrito e ordenado em termos claros e minuciosos. E tudo batia certo.
     Ao retomar os seus hbitos regulares da caserna. Rostov sentia uma alegria, e um alvio muito parecidos com aqueles que experimenta um homem fatigado que descansa. Esta vida durante a campanha foi-lhe tanto mais agradvel quanto, depois da perda ao jogo, coisa que, no obstante toda a indulgncia dos pais, ele a si prprio no podia perdoar, tomara a resoluo de fazer o seu servio, no como antes, mas de molde a apagar a falta que cometera, fazendo-o bem feito, como camarada e oficial modelos, isto , transformando-se num perfeito cavalheiro, o que lhe parecia mais difcil na alta sociedade do que rio regimento. Resolvera igualmente reembolsar os pais, no prazo de cinco anos, da dvida que contrara por causa do jogo. Recebia uma penso anual de dez mil rublos. Decidira contentar-se de ento para o futuro com dois mil, consagrando o excedente  amortizao desse dbito.
     
     Depois de mltiplos movimentos de retirada e de marchas avante, aps as batalhas de Pultusk e de Preussisch-Eylau, o exrcito russo concentrara-se em Bartenstein. Aguardava-se a chegada do imperador para se recomear a campanha.
     O regimento de Pavlogrado, que fazia parte daquela fraco do exrcito que participara na campanha de 1805, depois de completar os seus efectivos na Rssia, chegara demasiado tarde para as primeiras operaes. No estivera nem em Pultusk nem em Preussisch-Bylau, e para a segunda parte da campanha, urna vez reunido ao exrcito em p de guerra, fora integrado no destacamento de Platov,
     Este destacamento operava independentemente do, exrcito. Por vrias vezes os hssares de Pavlogrado haviam tomado parte em escaramuas com o inimigo e feito prisioneiros. De uma das vezes destruram mesmo as bagagens do marechal Oudinot. No ms de Abril tinham estado acantonados algumas semanas numa povoao alem abandonada e completamente em runas, sem nunca de l sarem.
     O degelo principiava. Tudo era lama, fazia frio, os cursos de gua descongelavam, os caminhos tornavam-se intransitveis. Durante alguns dias no houve rao de forragem para as montadas nem rancho para os homens. Como os comboios de abastecimentos se no podiam deslocar, os soldados espalhavam-se pelas aldeias abandonadas e desertas  procura de batatas, que at essas eram cada vez mais raras.
     Tudo fora devorado e quase todos os habitantes tinham desaparecido. Os poucos que ficaram viviam mais desgraados que mendigos. Nada tinham para pilhar, e os soldados, inclusivamente, alis pouco propensos  piedade, em vez de os privarem do pouco de que dispunham, repartiam com eles as suas migalhas.
     Nas operaes em que tomara parte, o regimento de Pavlogrado apenas tivera dois feridos, mas depois, merc da fome e da doena, perdera quase metade dos seus efectivos. Era to certa a morte nos hospitais que os soldados, consumidos pela febre e cobertos de pstulas, consequncia da m alimentao, preferiam continuar nas fileiras, arrastando-se penosamente, a dar baixa por doena.
     Com a chegada da Primavera descobriram uma planta, parecida com o espargo,  flor da terra, e a que chamaram, no se sabe porqu, a doce raiz de Maria. Em busca desta raiz doce, em verdade amarga, percorriam os prados e os campos, desenterravam-na com as pontas dos sabres e comiam-na, no obstante haver ordens terminantes para que o no fizessem. Uma doena se disseminou com a Primavera, que consistia no inchao das mos, dos ps e da cara, e que os mdicos atribuam  ingesto desta raiz. Apesar de todas as ordens em contrrio, os solda.- dos do esquadro de Denissov continuaram a comer a raiz desta planta, pois havia quinze dias j que os ltimos biscoitos estavam racionados - cabia apenas meio arrtel a cada homem - e as batatas ultimamente recebidas chegaram greladas.
     Havia igualmente quinze dias que as montadas comiam o colmo que cobria as casas: a sua magreza era esqueltica e, como ainda no tinham sido tosqueadas, o plo de Inverno formava tufos empastados.
     No obstante todas estas desgraas, tanto soldados como oficiais mantinham a mesma vida. Plidos, de caras inchadas, cobertos com uniformes em andrajos, os hssares continuavam a comparecer  chamada, a proceder  limpeza das suas montadas e ao polimento do correame: arrancavam o colmo das coberturas das casas para os cavalos, apresentavam-se ao rancho, donde voltavam esfomeados, e acabavam por zombar do mau passadio e da barriga vazia. Continuavam, como sempre, nos cios do servio, a atear grandes fogueiras, a aquecer-se ao fogo, a fumar, a andar pelos campos na colheita de batatas para cozer, embora j greladas e fermentadas, a contar histrias ou a ouvir o que se passara nas campanhas de Potemkine ou de Suvorov, ou ainda as aventuras de Aliocha, o espertalho, ou de Milkolka, o arteso do pope.
     Com os oficiais acontecia a mesma coisa, metidos aos dois e aos trs em casas sem tectos nem paredes, parte em runas. Os oficiais de patente superior tratavam dos abastecimentos de forragem e de batatas e em geral da rao dos homens. Os suba]ternos, como sempre, jogavam as cartas, pois tinham dinheiro de sobra quando no havia que comer, ou quaisquer outros jogos inocentes, como a svaika ou a bola. Pouco se falava da marcha geral das operaes, porque nada de positivo se sabia a tal respeito e porque confusamente se pressentia que as notcias no deviam ser por a alm.
     Rostov, como anteriormente, habitava com Denissov, e a amizade entre ambos ainda era maior agora, depois da ltima licena. Denissov nunca lhe falava da famlia, mas a carinhosa afeio que o comandante testemunhava ao seu oficial dava a perceber a este que era ao seu desventurado amor por Natacha que devia aquele recrudescimento amistoso. Procurava Denissov expor Rostov o menos que podia a qualquer aco perigosa, fazendo o possvel por conserv-lo em segurana, e grande era o seu contentamento sempre que o via regressar so e salvo de qualquer escaramua. Durante uma dessas misses de reconhecimento o jovem oficial descobrira, numa povoao evacuada e deserta onde fora procurar abastecimentos, um velho polaco, bem como uma filha deste, com um filhinho de peito. Esfarrapados e mortos de fome, no podiam arrastar-se nem tinham meio, fosse qual fosse, que os levasse dali.
     Rostov trouxe-os consigo para o acampamento, instalou-os na sua prpria cabana, e enquanto o velho se no restabeleceu, isto durante algumas semanas, foi ele quem os sustentou. Um dos seus camaradas, ao falar-se de mulheres, pusera-se a zombar dele, dizendo que Rostov ainda era mais maroto que os marotos e que o que ele tinha a fazer era apresentar aos camaradas a linda polaca a quem salvara a vida. Rostov no gostou da zombaria, cobriu de injrias o camarada, e s a muito custo Denissov conseguiu evitar que ambos se batessem em duelo. Depois do incidente. Denissov, que tambm ignorava qual o gnero de relaes do amigo com a polaca, ps-se a censur-lo pela exaltao que mostrara, e Rostov explicou-lhe:
     - Que queres tu?... Para mim  como se fosse minha irm, e nem sei dizer-te porque me senti ferido.., pois a verdade  que.., o que ele disse...
     Denissov bateu-lhe afectuosamente no ombro e principiou a passear de um lado para o outro sem olhar para ele, costume muito seu quando se sentia comovido.
     - Sempre me saram uns doidos, estes Rostov! - exclamou, e os olhos encheram-se-lhe de lgrimas.
     

     
     
     
     Captulo XVI
     
     Em Abril, com a notcia da chegada do imperador ao campo de batalha, as tropas reanimaram-se. Rostov no teve a sorte de assistir  parada de Bartenstein em que o soberano passou revista aos corpos de exrcito: os hssares de Pavlogrado estavam na primeira linha, muito longe daquelas paragens.
     Tinham acampado. Denissov e Rostov instalaram-se numa barraca de terra, cavada pelas praas, coberta de ramadas de verdura. Este gnero de abrigos estava ento em moda no exrcito e a sua construo era como segue: cavava-se uma trincheira de cerca de uma archina e meia de largura, duas de profundidade e trs e meia de comprimento. Numa das extremidades talhavam-se alguns degraus, que serviam de escada de acesso. A trincheira era o quarto, o qual, para os felizardos, como, por exemplo, o comandante do esquadro, dispunha, no lado oposto ao da sada, de uma prancha de madeira, assente sobre duas estacas, que fazia de mesa. Nas duas paredes da trincheira, a terra, cavada na extenso de duas archinas, ajeitava-se para camas e divs. O tecto dispunha-se de maneira que na parte central se podia estar de p: por cima das camas havia mesmo espao suficiente para um homem se sentar, aproximando-se da mesa. Denissov, muito estimado pelos homens do seu esquadro, vivia com um certo conforto. Podia orgulhar-se de dispor na frente da sua barraca de uma prancha de madeira com um vidro partido, mas consertado. Quando o frio apertava, vinham colocar-lhe nos degraus da escada, no salo, como Denissov costumava dizer, uma lata coberta de brasas que iam buscar s fogueiras do acampamento. Ento a temperatura tornava-se to agradvel que os oficiais, sempre numerosos na barraca dos dois amigos, se punham em mangas de camisa.
     No ms de Abril Rostov estivera de guarda. Tendo regressado ao acampamento certo dia, s oito horas da manh, depois de uma noite em claro, mandou que lhe trouxessem brasas vivas, pois estava encharcado. Depois de mudar de roupa, fez as suas oraes, bebeu o, ch, aqueceu-se, arrumou as suas coisas no seu canto e em cima da mesa e estendeu-se de costas, em mangas de camisa, apoiando a cabea nos braos cruzados na nuca, o rosto todo crestado pelas mordeduras do vento. Pensava na agradvel perspectiva de vir a ser promovido por esses dias, em virtude do reconhecimento que ultimamente fizera, e ia aguardando a chegada de Denissov, que estava ausente. Muito desejava dar a lngua com ele. Nas traseiras da barraca, entretanto, ressoou a voz furiosa de Denissov, que parecia fora de si. Rostov precipitou-se para a abertura, para ver com quem ralhava ele, e deparou-se-lhe o quartel-mestre Toptcheenko.
     - Tinha-te dado ordens para que os no deixasses comer dessas tais razes de Macha - vociferava Denissov. - Eu bem vi o Lazartchuk, que vinha do campo carregado.
     - Eu dei ordens. Alta Nobreza, mas eles no me do ouvidos - replicava o quartel-mestre.
     Rostov voltou a deitar-se e disse para os seus botes: Ele que se avenha; agora, c por mim, acabei o meu servio e estou a dormir, pois claro! Do stio em que estava distinguiu ainda, alm da voz do quartel-mestre, a de Lavruchka, a esperta e astuciosa ordenana de Denissov. Falava de comboios, de biscoitos e de bois, coisas que ele lobrigara quando fora por mantimentos.
     A voz de Denissov, porm, de novo ressoou, afastando-se e gritando: Selar cavalos! Segundo peloto!
     Aonde iro eles?, perguntava Rostov a si mesmo.
     Cinco minutos mais tarde Denissov entrava na barraca, subia para cima da cama com as botas enlameadas, remexia em todas as suas coisas, pegava no chicote e no sabre e saa. Como Rostov lhe perguntasse aonde ia, respondeu, vagamente e colrico, que tinha que fazer.
     - Que Deus me julgue e o grande imperador! - exclamou, ao sair, e Rostov ouviu atrs da barraca ferraduras de cavalos patinhando na lama. No se preocupou mais com, o destino do amigo. Bem quente no seu cantinho adormeceu e no voltou a sair seno ao fim da tarde. Denissov ainda no voltara. O tempo limpara. Em volta da barraca vizinha dois oficiais e um junker jogavam  svaika, enterrando, por graa, razes na lama mole. Rostov associou-se-lhes. No meio do jogo viram aproximar-se umas carroas, atrs das quais quinze hssares trotavam, montados em pilecas. As carroas com a sua escolta aproximaram-se e logo foram rodeadas por uma multido de hssares.
     - E estava o Denissov a lamentar-se - disse Rostov - com os abastecimentos  vista.
     -  verdade! - exclamaram os oficiais. - Vamos ter os homens contentes.
     Um pouco mais atrs surgiu Denissov na companhia de dois oficiais de infantaria, com quem conversava.
     Rostov foi ao seu encontro.
     - Devo preveni-lo, capito - dizia um deles, um oficial pequenino e franzino, que parecia furioso.
     - J lhe disse, no lhe entrego coisa alguma - repontava Denissov.
     -  bom que tome nota, capito,  um acto de violncia que pratica apoderando-se dos nossos comboios H dois dias que os nossos soldados no comem.
     - E os meus h quinze! - respondia Denissov.
     -  um acto de pilhagem, compreende, meu caro senhor?! repetia o oficial de infantaria, elevando a voz.
     - Que  que os senhores querem? Hem? - gritava Denissov, exaltando-se de chofre. - Pois bem, fique descansado, eu prestarei contas, mas no a si, e deixe-se de me gritar aos ouvidos, ou ento a coisa  falada. Destroar! - acrescentou, dirigindo-se aos oficiais.
     - Pois muito bem! - volveu o pequenino oficial, sem se comover e sem ceder. -  um roubo e eu...
     - V para o diabo que o carregue! Destroar! E j, se no quer que elas lhe doam. - E Denissov esporeou o cavalo contra ele.
     - Est muito bem, est muito bem! - exclamou o oficial de infantaria, em tom ameaador. E, dando de rdea  sua montada, afastou-se a trote, mal sentado na sela,
     - Olhem para aquilo.  tal qual um cachorro em cima de uma estaca! Um autntico cachorro em cima de uma estaca - gritou-lhe Denissov. Era o maior insulto que um homem de cavalaria podia dirigir a um soldado de infantaria a cavalo. E desatou a rir ao aproximar-se de Rostov.
     - Roubei a infantaria, roubei-lhes o comboio  fora! - exclamou ele. - Ento os nossos homens ho-de estourar de fome? As carroas que caram nas mos dos hssares destinavam-se a um regimento de infantaria, mas Denissov, ao saber, por Lavruchka, que o comboio no trazia escolta, tratara de se apoderar dele com os seus homens. Logo foram distribudos biscoitos  discrio, e at os outros esquadres receberam a sua parte.
     No dia seguinte o comandante do regimento convocou Denissov e disse-lhe, fitando-o atravs dos dedos afastados: Aqui tem como eu encaro o caso: nada sei e no mandarei proceder a qualquer inqurito, mas acho que seria melhor apresentar-se no estado-maior e tratar de arranjar as coisas na repartio de abastecimentos, e at, se isso fosse possvel, assinar um recibo em que confirmasse ter recebido as provises. Caso contrrio, a remessa ser escriturada na conta do regimento de infantaria. Instauraro um processo, e tudo isto pode vir a acabar mal.
     Denissov, assim que deixou o comandante do regimento, dirigiu-se ao estado-maior na sincera disposio de lhe seguir o conselho. Ao fim da tarde regressou  barraca num estado em que Rostov nunca o vira. No podia falar, sufocava. Quando o amigo lhe perguntou o que tinha, s lhe ouviu proferir invectivas e ameaas que ningum podia entender, to rouca e sem alento era a sua voz.
     Alarmado com o estado do amigo. Rostov ajudou-o a despir-se, deu-lhe de beber e n)andou chamar o mdico.
     - Vou ser julgado por pilhagem, percebes? D-me de beber. Pois que me julguem, mas hei-de-lhes dar uma coa, hei-de dar uma coa a esses canalhas! E hei-de falar com o imperador. D-me gelo - gritava ele,
     O mdico do regimento, depois de o observar, disse ser preciso sangr-lo. Extraram-lhe do cabeludo brao uma tigela cheia de sangue negro, e s ento ele se viu em estado de contar tudo o que se passara.
     - Chego eu - contou ele. - Ora onde  que est o vosso comandante?  aquele, disseram-me. No poder esperar? Tenho que fazer, tive de caminhar trinta verstas, no tenho tempo para esperas. Vai-me anunciar... Ora, pois, ali me aparece o chefe dos bandidos, e mete-se-lhe na cabea, tambm a ele, de me pregar moral: Foi um assalto!- No  ladro - disse-lhe eu - aquele que se apodera de alimentos para matar a fome dos seus soldados, mas o que rouba para encher as algibeiras! Pelo que vejo, no est disposto a calar-se. Bom. Vai assinar uma declarao no comissrio e o caso seguira o seu curso. - Chego ao comissariado. Entro. Sentado  mesa.., quem vejo eu? Hem! V se adivinhas?... Quem  que nos condena a morrer de fome? - gritou, batendo na mesa com a mo que acabara de ser sangrada e com tal violncia que a mesa oscilou e os copos embateram uns nos outros.- Telianine! Qu? s tu quem nos condena a morrer de fome? E, zs-ps, ali mesmo nas bochechas! Ah!, aquilo no levou muito tempo! Ah!, grandecssimos... A sova que eu lhe dei! Sim, posso-me gabar, pagou-mas todas! - E Denissov mostrava os dentes brancos, por baixo dos bigodes pretos, um riso feroz.- Teria dado cabo dele se o no tivessem levado da minha vista.
     - Bom, no grites tanto, tem calma - disse-lhe Rostov. - L est o sangue a correr de novo. Quietinho, hem!  preciso arranjar outra vez a ligadura.
     Fizeram-lhe de novo o penso e levaram-no para a cama. No dia seguinte acordou sereno e jovial.
     Ao meio-dia, porm, o ajudante-de-campo do regimento, apreensivo e triste, apareceu na barraca dos dois amigos e apresentou ao major Denissov, no sem lhe exprimir o seu pesar, um papel oficial, da parte do comandante do regimento, em que se lhe faziam diversas perguntas acerca da aventura da vspera. Comunicou-lhe que o caso ia assumir um aspecto muito grave, que fora nomeada uma comisso de inqurito e que, em face da actual severidade dos regulamentos sobre roubos e indisciplina no exrcito, aquilo, na melhor das hipteses, teria por consequncia uma baixa de posto.
     Do ponto de vista dos queixosos, o caso apresentava-se da seguinte maneira: depois do assalto ao comboio, o major Denissov, sem para isso ter sido convocado, apresentara-se, em estado de embriaguez, no gabinete do intendente-chefe dos abastecimentos, chamara-lhe bandido, ameaara bater-lhe, e, como tivesse sido posto na rua, precipitara-se para outra repartio, batera em dois funcionrios e provocara uma luxao no brao de um deles.
     Perguntando-lhe o amigo o que havia de verdade em tudo aquilo. Denissov respondeu-lhe, rindo, que, efectivamente, um quindan se metera na contenda, mas que toda aquela histria no passava de imbecilidade e bagatela, que no tinha medo algum dos juizes e que se aqueles miserveis se atrevessem a torn-lo de ponta podiam estar certos de que nunca mais se esqueceriam dele.
     Afectava falar com negligncia de toda aquela histria, mas Rostov conhecia-o o bastante para compreender que, no fundo e apesar de tudo, receava ter de afrontar a justia e estava seriamente preocupado com uma aventura que por certo lhe iria causar muitos dissabores. Todos os dias chegavam papis, a que era preciso responder, pedidos de esclarecimentos para o quartel-general, e no primeiro de Maio recebeu ordem para entregar o comando do esquadro ao oficial mais antigo e para se apresentar perante o estado-maior da diviso a fim de prestar declaraes sobre o caso de pilhagem de que a comisso de abastecimentos fora vtima. Na vspera. Platov dirigira um reconhecimento com dois regimentos de cossacos e dois esquadres de hssares. Denissov, como sempre, adiantara-se nas linhas para mostrar a sua coragem. Uma bala disparada pelos Franceses veio atingi-lo na barriga da perna.  natural que em qualquer outra ocasio Denissov no tivesse deixado o seu regimento por virtude de um ferimento to insignificante, mas, nas circunstncias de momento, aproveitou-se do facto para no comparecer na diviso e deu baixa ao hospital.
     

     
     
     
     Captulo XVII
     
     Em Junho deu-se a batalha de Friedland, em que os hssares de Pavlogrado no tomaram parte e  qual se seguiu um armistcio. Rostov sentiu muito a falta do amigo. Desde que ele partira nada mais soubera dele, e, atormentado com as consequncias do seu caso e com os resultados do seu ferimento, aproveitou o armistcio e pediu licena para visitar Denissov no hospital.
     Este estava instalado num povoado prussiano por duas vezes arrasado, uma pelas tropas russas, outra pelas francesas. Precisamente porque se estava no Vero, poca do ano em que o campo  to belo, essa aldeola, com os seus telhados desmantelados, os seus muros em runas, as suas ruas cheias de lixo, os seus habitantes esfarrapados, os soldados bbedos ou doentes errando pelas ruas, oferecia um espectculo particularmente triste.
     Uma casa de alvenaria com o ptio atulhado de destroos, as janelas e os vidros quebrados, servia de hospital. Alguns sol- dados, envoltos em ligaduras, plidos e inchados, andavam de um lado para outro ou sentavam-se no ptio, ao sol.
     Quando Rostov entrou sentiu um cheiro a podrido e a hospital que lhe causou vmitos. Na escada encontrou o mdico militar russo, de charuto na boca. Era seguido por um oficial dos servios de sade.
     - No posso estar em toda a parte - dizia ele. - Vem esta noite a casa de Makar Aleksieitch, que l me encontrars.
     O oficial dos servios de sade perguntou-lhe ainda fosse o que fosse.
     - Pois sim, faz o que entenderes! No  sempre a, mesma coisa? - O mdico viu Rostov, que subia a escada- Que deseja Vossa Merc? disse-lhe ele. - Que pretende? Pelos vistos, como as balas o pouparam, prepara-se para apanhar um tifozinho, no  verdade? Isto aqui, meu velho,  a casa dos pestferos.
     - Que diz? - perguntou Rostov.
     - O tifo, meu velho. Quem aqui entra fica condenado  morte. S ns os dois. Makieev e eu - apontou o oficial dos servios de sade -,  que, podemos prestar servio nesta casa. J l vo cinco dos nossos colegas. Sempre que chega algum de novo, dentro de oito dias vai desta para a melhor - acrescentou com visvel satisfao. - Mandaram-se vir oficiais prussianos, mas os nossos queridos aliados no gostam disto.
     Rostov disse-lhe que desejava ver o major de hssares Denissov, ali hospitalizado.
     - No sei, no conheo, meu velho. Imagine, s  minha conta tenho trs hospitais, para cima de quatrocentos doentes! Temos de dar graas a Deus que as senhoras piedosas prussianas nos mandem caf e gaze, dois arrteis por ms. Se no fosse isso, estaramos perdidos. Sim, meu velho - acrescentou a rir -, quatrocentos! E todos os dias me esto a mandar mais. No  verdade, quatrocentos? Hem!? - Perguntou ele, dirigindo-se ao oficial dos servios de sade.
     Este parecia exausto. Via-se aguardar com impacincia a partida daquele mdico tagarela.
     - Sim, o major Denissov - repetiu Rostov- que foi ferido em Moloten.
     - Parece-me que morreu. No  verdade. Makieev? - perguntou com indiferena.
     Rostov descreveu a figura de Denissov.
     - Sim, sim, tinha um assim - voltou o mdico em tom prazenteiro. - Mas parece-me que morreu. De resto, vou j verificar nas minhas listas. Tem-las a. Makieev?
     - As listas esto em casa de Makar Aleksieitch - respondeu o oficial dos servios de sade. - Mas v ver na sala dos oficiais, pode verificar com os seus prprios olhos - acrescentou, dirigindo-se a Rostov.
     -  melhor no se meter nisso, meu velho - disse o mdico -, pois pode acontecer que j no volte a sair de l.
     Mas Rostov no lhe deu ouvidos e pediu ao oficial dos servios de sade que lhe indicasse o caminho.
     - Depois, pelo menos, no se queixe - gritou-lhe o mdico, j do fundo da escada.
     Rostov e o seu guia penetraram num corredor. Naquele recanto obscuro era to intenso o cheiro a hospital que Rostov tapou o nariz e teve de parar a tomar flego antes de prosseguir. A direita abriu-se uma porta e no limiar surgiu um homem magro e amarelento, de muletas, descalo, e apenas com uma camisa em cima do corpo. Apoiando-se  ombreira, ps-se a olhar para os que chegavam com pupilas brilhantes, cheias de inveja.
     Rostov relanceou os olhos pela porta e viu que deitados no cho, em cima de palha e de mantas, havia doentes e feridos.
     - Posso ver? - perguntou.
     - Que quer ver? - disse o oficial dos servios de sade.
     Mas, precisamente porque este no parecia muito desejoso de entrar,  que Rostov avanou pela sala dos soldados. O cheiro, que no tivera outro remdio seno respirar no corredor, era ali ainda mais intenso. No era bem a mesma coisa: era mais acre, e agora via-se ser dali mesmo que provinha. Na comprida sala que o sol brilhante alagava penetrando pelas altas janelas, em duas filas, as cabeas contra a parede, apenas com uma passagem no meio, estiraavam-se os feridos e os doentes. A maior parte deles parecia inconsciente e no prestou a mais pequena ateno aos que entravam. Os conscientes soergueram o corpo ou levantaram o rosto magro e amarelo, e todos se puseram a seguir Rostov, sem o perder de vista, ao mesmo tempo numa expectativa de socorro e num sentimento de despeito ou inveja perante algum em to perfeito estado de sade. Rostov avanou at a meio da sala, lanou um olhar, atravs das portas abertas, para os quartos vizinhos, e dos dois lados se lhe apresentou o mesmo espectculo. Deteve-se, olhando em volta de si, sem dizer palavra. Estava longe de pensar que se lhe depararia um quadro daqueles. A seus ps, meio atravessado na coxia central, ali mesmo, no soalho, estava prostrado um doente, um cossaco, com certeza, pois rapara os cabelos caracteristicamente. Deitado de costas, tinha as pernas estendidas e os braos enormes abertos. A sua cara era vermelho-prpura, e os seus olhos, absolutamente em alvo, deixavam-lhe ver a crnea completamente branca. Nas pernas e nos braos, nus e tambm muito vermelhos, os tendes salientes pareciam cordas. Batia com a nuca de encontro ao soalho e numa voz rouca repetia sempre a mesma palavra. Rostov apurou o ouvido e pde perceber o que ele dizia. Beber! Beber! Beber! Procurou com os olhos algum que deitasse aquele doente no seu lugar e lhe desse de beber.
     - Quem diabo  que toma conta aqui destes doentes? - perguntou ao oficial dos servios de sade.
     Neste momento, de um quarto contguo saiu um soldado do trem em servio no hospital que, depois de alguns passos, se perfilou em sentido diante do oficial,
     - Deus salve a Vossa Merc! - gritou, cravando os olhos em Rostov, a quem, evidentemente, tomara pelo director do hospital.
     - Pe-no na cama e d-lhe gua - disse Rostov, apontando para o cossaco.
     - As ordens de Vossa Merc - tornou o soldado, condescendente, arregalando os olhos, ainda mais e sempre na posio de sentido, sem se mexer, alis.
     Ah!, sim, aqui nada h a fazer, disse Rostov de si para consigo, baixando os olhos. E dispunha-se a retirar-se, quando,  direita, sentiu um olhar obstinadamente fito nele. Voltou-se. Quase ao canto, sentado sobre um capote, um velho soldado, de barba branca muito crescida, a cara severa, esqueltica e amarela, olhava-o fixamente. O vizinho de um dos lados murmurou-lhe qualquer coisa, acenando para Rostov. Este percebeu que o velho lhe queria fazer um pedido. Aproximou-se e viu que ele s tinha uma perna; a outra fora-lhe arrancada at um pouco acima do joelho. O vizinho do lado oposto, estendido, imvel, com a cabea tombada para trs, a pequena distncia do velho, era um soldado moo, plido de cera, de nariz aquilino, a cara cheia de sardas e os olhos em alvo. Rostov examinou o soldado e estremeceu.
     - Mas parece-me que este... - disse para o oficial dos servios de sade.
     - J estamos fartos de pedir que o levem. Excelncia - gemeu o velho soldado, o queixo a tremer de comoo. - Morreu esta manh. Somos homens, no somos ces...
     - Eu vou tratar disso, vou mandar algum. Vo j lev-lo, vo j lev-lo - apressou-se a dizer o oficial dos servios de sade. - Quando quiser...
     - Vamos, vamos - disse Rostov, e tambm apressadamente, de olhos baixos, e encolhendo-se, como para passar despercebido, saiu varado pelo fogo dos olhares de censura e inveja que o alvejavam.
     

     
     
     
     Captulo XVIII
     
     De novo no corredor, o oficial dos servios de sade encaminhou Rostov para a sala dos oficiais, a qual se compunha de trs corpos, cujas portas tinham ficado abertas. Havia vrias camas; os oficiais feridos ou doentes estavam uns sentados, outros deitados. Alguns deles, de capote hospitalar, passeavam de um lado para o outro. A primeira pessoa que Rostov encontrou foi um homenzinho magricela e manco, de barrete de algodo e capote, que chupava um cachimbo curto, andando para c e para l na sala. Procurava lembrar-se onde o teria visto.
     - Tem graa, muito pequeno  o mundo - disse o homenzinho. - Tuchine, sou eu. Tuchine, lembra-se de mim? Aquele que o trouxe l de diante, de Schngraben! E, como v, tiraram-me um pedacinho... - acrescentou, com um suspiro, mostrando a manga vazia do capote. - Anda  procura de Vassili Dmitrievitch Denissov, um camarada que est aqui? - disse ele, adivinhando quem Rostov procurava. - Por aqui, por aqui! - E Tuchine conduziu-o  dependncia contgua, onde vrias pessoas riam ao mesmo tempo.
     Como  que esta gente pode viver aqui, e ainda por cima com vontade de rir?, pensou Rostov, ainda de narinas impregnadas daquele cheiro a cadver que respirara na dependncia dos soldados. E os olhares invejosos que o haviam ali dardejado continuavam a persegui-lo. Diante dele estavam sempre os olhos em alvo do moo soldado.
     Denissov, a cabea enterrada na almofada, dormia a sono solto, embora j fosse meio-dia.
     - Eh! Rostov? Como vai isso? Como vai isso?! - exclamou ele, acordando, com a voz que tinha no regimento. Rostov, porm, pesaroso, observou que nas suas maneiras desenfadadas, na sua animao habitual, se ocultava um sentimento novo - uma espcie de azedume - que, inclusivamente, se lhe pintava no rosto, lhe transparecia nas palavras e at na entoao da voz.
     De pequena importncia, o ferimento que recebera ainda no cicatrizara, embora seis semanas tivessem decorrido desde a data em que baixara ao hospital. Estava plido e tinha o rosto inchado, como todos os demais hospitalizados. Mas no foi isso que mais impressionou Rostov. Impressionou-o sobretudo o amigo no parecer muito satisfeito de o ver e sorrir de modo contrafeito. Nada lhe perguntara sobre o regimento e a marcha geral das Operaes. E quando o camarada aflorou o assunto, deixou cair a conversa.
     Rostov teve at a impresso de que ele mostrava uma certa contrariedade quando se lhe fazia qualquer referncia ao regimento e  vida ao ar livre l de fora, para l das paredes do hospital. Dir-se-ia fazer tudo para esquecer a sua vida passada e se no preocupar seno com o seu conflito com os funcionrios dos abastecimentos. Como Rostov lhe perguntasse em que p estavam as coisas, logo ele puxou de um papel, de debaixo da almofada, papel que recebera da comisso de inqurito, e o rascunho da respectiva contestao. Ps-se a ler-lhe a resposta e nessa altura animou-se um pouco, chamando a ateno de Rostov para as ironias que dirigia aos inimigos. Os seus camaradas de hospital, que faziam crculo  volta de Rostov, alguns vindos de fora, dispersaram a pouco e pouco logo que Denissov principiou a ler esses papis. Rostov percebeu que todos eles j tinham ouvido vezes sem conta aquela histria, que principiava a cheirar-lhes mal. Apenas ficaram a ouvi-lo o vizinho de cama, um corpulento ulano, de cachimbo na boca, taciturno, e o pequ2nino maneta Tuchine, que abanava a cabea, reprovador. No meio da leitura o ulano interrompeu-o:
     - Na minha opinio - disse ele, dirigindo-se a Rostov -, s uma coisa h a fazer: pedir a clemncia do imperador. Ouvi dizer que vo distribuir muitas recompensas e que naturalmente tambm haver indultos...
     - Qu? Eu pedir clemncia ao imperador? - exclamou Denissov num tom a que procurava imprimir o calor e a energia de outrora, mas em que no vibrava seno uma v irritao. - E porqu? Se eu fosse um salteador pediria clemncia, mas a verdade  que estou precisamente a ser perseguido por ter denunciado os ladres. Pois que me julguem! No tenho medo de ningum! Servi o czar e a ptria com honra e no sou ladro. Arrancarem-me os gales, a mim, e... Escuta, digo-lhes isso claramente. Aqui tens o que eu escrevi: Se eu fosse um ladro dos dinheiros pblicos...
     - Tudo isso est bem, no h dvida - interrompeu Tuchine. - Mas no  disso que se trata. Vassili Dmitritch - e prosseguiu, dirigindo-se sempre a Rostov. - Uma pessoa tem de se submeter e Vassili Dmitritch no est disposto. E o que  certo , que o auditor lhe disse que o caso era grave.
     - Se  grave, tanto pior! - exclamou Denissov.
     - O auditor j lhe redigiu um pedido de clemncia - prosseguiu Tuchine. - Agora  preciso assin-lo para que este senhor o leve consigo. - Apontou para Rostov. - Est bem relacionado no estado-maior. Boa oportunidade.
     - J disse, no me vergarei diante seja de quem for - interrompeu Denissov, retomando a leitura do papel.
     Rostov no ousava aconselhar o amigo, embora, instintivamente, compreendesse que o caminho apontado por Tuchine e os outros era o mais seguro, e que grande satisfao teria se lhe pudesse prestar qualquer servio. A verdade  que lhe conhecia muitssimo bem o gnio obstinado e estava a par da sua justssima revolta.
     Quando Denissov terminou a leitura do seu verrinoso arrazoado, que durara para cima de uma hora. Rostov ficou calado e levou o resto da tarde na mais triste das disposies, na companhia dos camaradas de Denissov, outra vez reunidos em volta da cama deste. Contou tudo quanto sabia e por sua vez ouviu o que lhe contaram os doentes. Durante toda a tarde. Denissov manteve-se num taciturno silncio.
     J de noite, quando se dispunha a partir. Rostov perguntou ao amigo se nada queria l de fora.
     - Quero, espera - disse ele. Lanou um olhar ao grupo dos oficiais, e, retirando de debaixo da almofada todos os seus papis, dirigiu-se  janela onde tinha o tinteiro e ps-se a escrever.
     - Para grandes males grandes remdios - murmurou, de volta da janela, entregando a Rostov um grande sobrescrito. Era o pedido de clemncia endereado ao imperador e redigido pelo auditor, no qual Denissov, sem a mais leve referncia s suas queixas contra o intendente, se limitava a implorar um indulto.
     - Transmite isto; est claro que...
     No pde concluir. No rosto esboou-se-lhe um sorriso doloroso e forado,
     

     
     
     
     Captulo XIX
     
     De regresso ao regimento, e depois de ter posto o comandante ao corrente das circunstncias em que se encontrava o processo de Denissov. Rostov dirigiu-se a Tilsitt com a carta para o imperador,
     A 13 de Junho, os imperadores francs e russo haviam-se encontrado nessa cidade. Bris Drubetskoi tinha pedido  alta personagem a que estava adido que o deixasse fazer parte da comitiva que devia ir a Tilsitt:
     - Eu gostava de ver esse grande homem - dissera ele, referindo-se deste modo a Napoleo, a quem sempre chamara, como toda a gente, Bonaparte.
     - Est a falar de Bonaparte? - perguntara-lhe, sorrindo, o general.
     Bris relanceou um olhar interrogador ao superior e compreendeu imediatamente tratar-se de um gracejo para o experimentar.
     - Meu Prncipe, refiro-me ao imperador Napoleo - replicou ele. O general bateu-lhe amistosamente no ombro.
     - Hs-de ir longe - comentou, e incluiu-o na comitiva.
     Bris, com mais alguns privilegiados, estava no Nimen no dia da entrevista dos imperadores. Viu as jangadas com os monogramas imperiais, viu Napoleo, na margem oposta, passando diante do cordo da Guarda, viu o rosto pensativo de Alexandre aguardando, em silncio, na estalagem  beira do rio, a chegada de Napoleo. Viu ainda os dois imperadores nas suas canoas e Napoleo, que fora o primeiro a chegar  jangada, avanando, em passos rpidos, e acolhendo Alexandre de mo estendida. E viu desaparecer os dois no pavilho. Desde que frequentava as altas esferas. Bris habituara-se a observar atentamente o que se passava  sua volta e a tomar notas por escrito. Durante a entrevista de Tilsitt teve o cuidado de perguntar os nomes das pessoas que acompanhavam Napoleo. Observou os uniformes que envergavam. Ouviu atentamente o que diziam as altas personalidades. Precisamente no momento em que os imperadores penetravam no pavilho, viu as horas no relgio e no se esqueceu de fazer o mesmo quando Alexandre saiu. A entrevista durara uma hora e cinquenta e trs minutos. Anotou este pormenor nessa mesma noite entre outros que ele pressentia de importncia histrica. Como a comitiva do imperador fora pouco numerosa, era da maior importncia, para uma pessoa empenhada em subir na sua carreira, ter assistido  entrevista dos dois monarcas, e Bris, pelo facto de l ter estado, desde logo percebeu que a sua posio se havia fortemente consolidado. A partir da no s passou a ser conhecido, como a atrair os olhares, e desde ento a sua presena tomou-se familiar. Duas vezes foi encarregado de misses junto do imperador, de sorte que o prprio monarca o conhecia de vista, e os cortesos, em vez de procurarem evit-lo, como at a, puseram-se a consider-lo como uma nova personagem e grande teria sido a sua surpresa se o no tornassem a ver.
     Bris coabitava com outro ajudante-de-campo, o conde Jilinski. Educado em Paris, este rico polaco gostava doidamente dos Franceses e quase todos os dias, enquanto se conservaram em Tilsitt, oficiais da Guarda e do grande estado-maior francs se reuniam para jantar e almoar com Jilinski e Bris.
     No dia 24 de Junho, o conde Jilinski ofereceu uma ceia aos seus amigos franceses. Entre eles encontrava-se certo convidado de grande categoria, um ajudante-de-campo de Napoleo, vrios oficiais franceses da Guarda e um jovem, de uma velha e aristocrtica famlia, pagem do imperador. Nesse mesmo dia. Rostov, aproveitando a obscuridade, para no ser reconhecido, chegara a Tilsitt  paisana e dirigira-se a casa de Jilinski e de Bris.
     Tanto Rostov como o exrcito donde provinha estavam longe de ter mudado de sentimentos para com Napoleo e os seus sbditos, os quais, at ali inimigos, tinham passado a ser amigos. Esta reviravolta s se havia verificado, porm, no quartel-general de que Bris fazia parte. No exrcito toda a gente continuava a sentir pelos Franceses, como at a, um misto de clera, de desdm e de terror. Ainda ultimamente. Rostov, tendo-se exaltado no decurso de uma discusso com um oficial dos cossacos de Platov, sustentara que se Napoleo viesse a ser capturado o tratariam como criminoso e no como imperador. E dias atrs, em presena de um coronel francs ferido, tanto se exasperara que dissera no poder falar-se em paz entre um imperador legtimo e um bandoleiro da espcie de Bonaparte. Eis porque fora grande o seu espanto ao depararem-se-lhe em casa de Bris oficiais franceses e esses mesmos uniformes que ele estava habituado a ver, em circunstncias muito diferentes, nos postos avanados. Assim que dera com um oficial francs  porta de Bris apossara-se dele esse sentimento blico, esse dio ao inimigo perfeitamente naturais num soldado. Detendo-se no limiar da porta, perguntou, em russo, se era de facto ali que habitava Drubetskoi. Bris, ao ouvir uma voz estranha no vestbulo, saiu a informar-se de quem era. Assim que percebeu tratar-se de Rostov, no pde ocultar uma certa contrariedade.
     - Ah, s tu! Que grande prazer, que grande prazer em ver-te! - disse, no entanto, ao mesmo tempo que, sorrindo, caminhava para ele. Mas a Rostov no escapara a primeira reaco de Bris.
     - No chego em boa hora, segundo creio. E realmente no teria vindo se no tivesse aqui que fazer - articulou friamente.
     - Estou apenas admirado que tenhas podido deixar o teu regimento. - Um momento, volto j - respondeu a uma voz que o chamava.
     - Veio perfeitamente que no cheguei em boa hora - repetiu Rostov.
     A expresso contrariada de Bris tinha-se desvanecido. Era de crer que, depois de reflectir, houvesse tomado uma atitude, e, com a maior tranquilidade deste mundo, pegou-lhe nas duas mos e levou-o para uma dependncia contgua. Bris fitava Rostov com serenidade e firmeza. Dir-se-ia ter posto diante dos olhos qualquer coisa como as lunetas azuis peculiares a quem sabe viver. Pelo menos foi isso que Rostov pensou.
     - Ento, que ideia  essa? Como  que podes pensar que serias importuno?! - exclamou.
     Conduziu-o  sala onde estava posta a mesa para a ceia, apresentou-o aos seus convidados, dizendo-lhes o nome e explicando no se tratar de um paisano, mas de um oficial de hssares seu velho amigo.
     - O conde Jilinski, o conde N. N., o capito S. S. - acrescentou, ao apresentar os seus convidados. Rostov lanou um olhar insulso aos franceses, saudou-os com rgido aprumo e remeteu-se ao silncio.
     Jilinski no pareceu acolher com grande satisfao no seu meio este russo desconhecido e no lhe dirigiu a palavra. Bris fingia no perceber o constrangimento que sobreviera e fazia o possvel por animar a conversa, mantendo a mesma serenidade e a mesma amabilidade mundana que mostrara ao receber Rostov. Um dos franceses, com a proverbial cortesia da sua raa, dirigiu a palavra a Rostov, sempre calado, e perguntou-lhe se no viera de propsito a Tilsitt para ver o imperador.
     - No, vim tratar de outro assunto - respondeu secamente o oficial russo.
     Rostov ficara mal disposto desde que vira a expresso contrariada que aflorara ao rosto de Bris e, como sempre acontece s pessoas em tal estado de esprito, desde logo se lhe afigurou que toda a gente lhe era hostil e que estava ali a servir de estorvo. E efectivamente assim era: todos se sentiam constrangidos, e s ele no tomava parte na conversa geral que desde logo se travara.
     Que diabo vem este aqui fazer?, pareciam dizer-lhe todos os olhos fitos nele. Levantou-se e aproximou-se de Bris.
     - Vejo muito bem que te estou a incomodar - disse-lhe, em voz baixa. - Permite que te fale no que aqui me traz, e ir-me-ei imediatamente embora.
     - De maneira alguma - replicou Bris. - Alis, se te sentes fatigado, vamos at ao meu quarto e descansars um pouco.
     - Como tu quiseres...
     Penetraram no pequeno quarto onde Bris dormia. Rostov, sem mesmo se sentar, ps-se imediatamente a contar-lhe o que o trazia ali, num tom irritado, como se Bris o tivesse contrariado em qualquer coisa, perguntando-lhe se ele, por intermdio do general de quem era ajudante-de-campo, queria ou podia interceder por Denissov junto do imperador, informando-se, inclusivamente, por quem seria mais conveniente transmitir-lhe a carta. Rostov, s depois de a ss com Bris, se deu conta, pela primeira vez, de que no estava  vontade diante do amigo de infncia. Este, sentado, de pernas cruzadas, e esfregando as mos uma na outra, ouvia Rostov como um general costuma ouvir a exposio de um subordinado. Ora o olhava de lado ora de frente, mas sempre com o mesmo ar de quem sabe viver que momentos antes lhe mostrara. E o certo  que de cada vez que Rostov sentia esse olhar pousado nele, embaraado, baixava a vista.
     - J ouvi falar de histrias desse gnero e estou informado de que o imperador  muito severo em casos destes. Em minha opinio, acho que no se deve pensar em apelar para Sua Majestade. Sou de parecer que seria melhor recorrer directamente para o comandante do corpo... Creio, de resto...
     - Se no ests disposto a fazer qualquer coisa,  melhor que o digas desde j! - gritou Rostov, num tom irritado, sem olhar para o interlocutor.
     - Pelo contrrio, farei tudo que estiver nas minhas mos; simplesmente sou de opinio de que...
     No mesmo instante ouviu-se  porta a voz de Jilinski chamando Bris.
     - Bom, vai-te embora, vai-te embora... - disse Rostov, que, recusando-se a tomar parte na ceia, ficou s na pequenina dependncia e se ps a passear de um lado para o outro, enquanto na sala vizinha se ouvia o estrpito jovial de vozes que falavam francs.
     

     
     
     
     Captulo XX
     
     Rostov chegara a Tilsitt num dia muito mal escolhido para intervir a favor de Denissov. Como estava de fraque e deixara o regimento sem a devida autorizao, nem ele prprio podia pensar em procurar o general. Quanto a Bris, mesmo que quisesse, era-lhe impossvel fazer fosse o que fosse no dia seguinte ao da chegada de Rostov. Nesse dia, 27 de Junho, deviam assinar-se os preliminares da paz. Os imperadores tinham trocado entre si as respectivas condecoraes. Alexandre fora galardoado com a Legio de Honra e Napoleo com a gr-cruz de Santo Andr, e nesse mesmo dia estava aprazado um banquete oferecido pela Guarda francesa ao batalho de Preobrajenski. Deviam estar presentes os dois imperadores.
     Rostov, to irritado e contrariado estava com Bris que, quando este o veio procurar depois da ceia, fingiu dormir e na manh seguinte, ainda de madrugada, levantou-se e partiu, evitando encontr-lo. De fraque e chapu de coco, ps-se a vaguear pela cidade, observando os franceses e os seus uniformes, inspeccionando as ruas e as casas onde se tinham instalado os dois imperadores. Viu as mesas postas e os preparativos do banquete em plena praa. As ruas estavam engalanadas de colgaduras e bandeiras russas e francesas com enormes monogramas: A e N. Nas janelas tambm havia bandeiras com os mesmos monogramas.
     J que Bris nada est disposto a fazer por mim, no voltarei a dirigir-me a ele. Decidido de uma vez para sempre, dizia Rostov com os seus botes. Tudo acabou entre ns, mas no me irei embora daqui sem tudo ter tentado para salvar Denissov, sobretudo sem ter feito chegar a carta s mos do imperador... O imperador?... E o imperador ali!? E, sem dar por isso, ia-se aproximando da residncia imperial.
      porta estavam parados cavalos de sela, e a comitiva ia montando, naturalmente para acompanhar o imperador,
     De um momento para o outro tenho-o diante dos olhos, dizia Rostov de si para consigo. Desde que eu possa entregar-lhe directamente o apelo, desde que eu tenha tempo de lhe explicar tudo... Sero eles capazes de me prender por eu estar  paisana? No. No  possvel. O imperador h-de saber compreender de que lado est a justia. Compreende tudo, sabe tudo. Quem haver a mais equitativo e mais magnnimo do que ele? R, de resto, mesmo que me prendessem por eu estar aqui, que mal havia nisso?... Rostov assim pensava enquanto seguia com os olhos um oficial que entrava na residncia do imperador. Ah! Estou a ver. Ento as pessoas podem entrar... Que estupidez! Eu me encarregarei ento de lhe entregar a carta em mo prpria. Tanto pior para o Drubetskoi, que me obriga a dar este passo. E, de sbito, numa deciso de que ele prprio se no julgava capaz, tacteando o papel na algibeira, avanou direito  porta da residncia imperial.
     Desta vez no vou perder a oportunidade, como depois de Austerlitz, dizia de si para consigo, esperando ver-se, de um momento para o outro, diante do imperador. E s o pensar em tal trazia-lhe o sangue todo ao corao, Deixar-me-ei cair a seus ps, implorar-lhe-ei. Ele h-de ajudar-me a levantar do cho, ouvir-me-, agradecer- me- a.  Sinto-me sempre feliz quando posso fazer bem, mas no h maior felicidade para mim do que reparar uma injustia. Eram estas as palavras que, em sua opinio, o imperador lhe dirigiria. E ei-lo que avana, ante os olhares curiosos dos presentes, pela escadaria da residncia.
     Depois da escadaria de acesso, outra, grande escada conduzia directamente ao andar nobre. A direita havia uma porta, que estava fechada. Ao fundo da escada, outra porta abria para o rs-do-cho.
     - Quem procura? - perguntou algum.
     - Quero entregar uma carta, um apelo a Sua Majestade - respondeu Nicolau em voz trmula.
     - Um apelo? Ao oficial de servio. Por aqui, se faz favor. - Indicaram-lhe a porta ao fundo da escada. - O pior  que ele o no recebe.
     Ao ouvir esta voz indiferente. Rostov foi tomado de pavor. A ideia de vir a encontrar-se subitamente na presena do monarca era-lhe ao mesmo tempo to fascinante e to temerosa que s desejou desaparecer, mas o furriel que o tinha recebido abriu-lhe a porta do oficial de servio e no teve remdio seno entrar.
     No meio da dependncia, de p, estava um homenzinho cheio, dos seus trinta anos de idade, de calas brancas e botas de canho, que naquele mesmo momento acabava de enfiar uma camisa de fina cambraia. De costas, o criado abotoava-lhe os suspensrios novinhos em folha, todos bordados a seda, que logo saltaram  vista de Rostov. Entretanto, ia conversando com algum que devia estar no quarto pegado.
     - Bem feita, e de uma beleza diablica - dizia ele, mas, lobrigando Rostov, calou-se e franziu o sobrolho.
     - Que deseja? Um apelo?...
     - Que ? - perguntaram do outro quarto.
     - Mais um peticionrio - replicou o homem dos suspensrios.
     - Diga-lhe que volte outro dia. Ele vai sair, tem de montar a cavalo.
     - Outro dia, outro dia, amanh.  muito tarde...
     Rostov deu meia volta e disps-se a partir, mas o indivduo dos suspensrios deteve-o,
     - Da parte de quem? E o senhor quem ?
     - Da parte do maior Denissov - respondeu Rostov.
     - E o senhor, quem  o senhor? Oficial? 
     - Tenente conde Rostov.
     - Que audcia, hem! Transmita pelas vias competentes. E o senhor desaparea, desaparea sem perda de tempo... - Dizendo o que enfiou o uniforme que o criado de quarto lhe estendia.
     Rostov saiu para o vestbulo e viu na escadaria da entrada muitos oficiais e alguns generais, em grupo, todos de grande uniforme, atravs dos quais forosamente tinha de abrir caminho.
     Amaldioando a audcia que tivera, tomado de grande pnico ao lembrar-se de que de um momento para o outro podia vir a achar-se diante do prprio imperador, vergonha que o levaria  cadeia, e s agora medindo a imprudncia do seu comportamento, que muito sinceramente lamentava, ia-se esgueirando, de cabea baixa, daquela casa  porta da qual estacionava to brilhante comitiva, quando ouviu uma voz conhecida pronunciar-lhe o nome e sentiu uma mo que o detinha.
     - Eh!, meu rapaz, que anda por aqui a fazer, e ainda por cima de fraque? - perguntou-lhe uma voz de baixo.
     Era um general de cavalaria que durante a campanha soubera conquistar as boas graas do imperador e em tempo fora comandante da diviso a que Rostov pertencia.
     Assustado. Rostov procurou, de princpio, justificar-se, mas, ao ver a expresso de zombadora bonomia que se pintava no rosto do general, chamou-o de parte e numa voz comovida exps-lhe toda a histria de Denissov, pedindo-lhe que intercedesse a favor do seu amigo, que ele to bem conhecia. O general, depois de o ter ouvido, abanou a cabea, preocupado.
     -  triste,  triste a situao desse bravo. Deixa ver o apelo- Ainda Rostov no tinha acabado a sua narrativa e entregado a carta quando na escada ressoou um precipitado retinir de esporas. O general, afastando-se dele, aproximou-se da escadaria. Eram os membros da comitiva que desciam para montar a cavalo. O escudeiro Eneux, aquele mesmo que estivera em Austerlitz, aproximou-se com o cavalo do imperador, enquanto na escada se, ouvia um ligeiro ranger de botas, que Rostov imediatamente compreendeu de quem era. Esquecendo por completo o perigo que corria, precipitou-se, com outros civis curiosos, para o parapeito da escadaria, e, como dois anos antes, tomou a ver aqueles mesmos traos adorados, aquele rosto, aquele olhar, aquele porte, aquele mesmo misto de doura e majestade... E a sua alma de novo se sentiu repassada, mais ainda do que da ltima vez, de entusiasmo e amor pelo seu monarca. O imperador, com o uniforme do Preobrajenski, de cales de pele branca e botas de cano, no peito uma condecorao que Rostov nunca vira - a Legio de Honra -, surgiu no alto da escadaria, de chapu debaixo do brao, calando as luvas. Deteve-se, olhou em tomo de si e tudo pareceu iluminado pela cintilao do seu olhar. Disse qualquer coisa a um dos seus generais. Reconheceu igualmente o comandante da diviso de Rostov, sorriu-lhe e chamou-o para junto de si.
     Toda a comitiva se afastou, e Rostov viu que o general dirigia ao imperador um discurso assaz longo. Este respondeu-lhe qualquer coisa e deu um passo para o cavalo que o aguardava. De novo as personalidades da comitiva e o pblico, de que Rostov fazia parte, voltaram a aproximar-se. Parado junto do cavalo, com a mo na sela, o imperador disse, em voz alta, ao general de cavalaria, evidentemente na inteno de que todos o ouvissem:
     - No posso, general, e no posso porque a lei est acima de mim - e assentou o p no estribo.
     O general inclinou-se respeitosamente. O imperador montou a cavalo e despediu a galope. Rostov, arrebatado pelo entusiasmo, precipitou-se, com a multido, atrs dele.
     

     
     
     
     Captulo XXI
     
     Na praa para onde se dirigia o imperador alinhavam,  direita, um batalho do regimento de Preobajenski,  esquerda, outro, da Guarda, com as suas barretinas de pele de urso.
     Enquanto o imperador cavalgava por um dos flancos dos batalhes, que apresentavam armas, pelo outro galopava um idntico grupo de cavaleiros,  frente dos quais Rostov julgou ver Napoleo. No podia ser outra pessoa. Galopava, com o seu pequeno bicrnio na cabea, a gr-cruz de Santo Andr ao pescoo, o uniforme azul desabotoado, deixando ver o colete branco, no seu puro-sangue rabe, cinzento, coberto por uma gualdrapa bordada a ouro. Ao chegar ao p de Alexandre soergueu o bicrnio e Rostov, num golpe de vista de cavaleiro experimentado, logo percebeu por esse gesto que Napoleo no era um bom selim. Os batalhes gritavam: Hurra! e Viva o imperador. Napoleo disse qualquer coisa a Alexandre. Desmontaram e apertaram as mos. Bonaparte tinha um sorriso falso e forado. Alexandre pronunciou algumas palavras muito corteses,
     Sem perder de vista os dois imperadores, no obstante o tropear das montadas dos gendarmes franceses, que mantinham a multido a distncia. Rostov seguia-lhes todos os movimentos. O que mais o impressionou, pois o no esperava, foi ver Alexandre tratar Bonaparte de igual para igual e verificar o -vontade deste na presena do czar da Rssia, como se essa familiaridade lhe fosse to ntima como habitual.
     Alexandre e Napoleo, seguidos do longo cortejo da sua comitiva, aproximaram-se do flanco direito do batalho do regimento de Preobrajenski, caminhando de frente para a multido que estava desse lado. O pblico to perto se viu subitamente do imperador que Rostov, na primeira fila de povo, teve medo de ser reconhecido.
     - Sire, peo licena para conferir a Legio de Honra ao mais valente dos seus soldados - disse uma voz cortante e clara, destacando cada slaba.
     Era o mido Bonaparte quem falava, fitando Alexandre nos olhos. Este prestou grande ateno s suas palavras e, aprovando com um movimento de cabea, sorriu, numa expresso amvel.
     - quele que mais galhardamente se bateu nesta ltima guerra - acrescentou Napoleo, martelando palavra por palavra e percorrendo com os olhos, numa serenidade e numa segurana que revoltaram Rostov, as fileiras dos russos que, diante dele, numa atitude militar, se mantinham em sentido, fixando os olhos no seu imperador, sem um movimento.
     - Consente Vossa Majestade que eu pea a opinio do coronel? - disse Alexandre, e deu alguns passos precipitados para o prncipe Kozlovski, comandante do batalho.
     Bonaparte, entretanto, descalava de uma das suas mos brancas uma luva que se rasgou e ele deitou fora. Um ajudante-de-campo precipitou-se a apanh-la.
     - Quem escolheremos? - perguntou Alexandre, em russo, e em voz baixa, ao prncipe Kozlovski.
     - Quem Vossa Majestade haja por bem ordenar.
     O imperador franziu ligeiramente as sobrancelhas e disse, circunvagando a vista:
     - Mas temos de lhe responder seja o que for.
     Kozlovski, tomando urna deciso, percorreu as fileiras com os olhos, e Rostov sentiu-se abrangido por esse olhar.
     Serei eu, porventura?, disse de si para consigo. 
      Lazarev! - gritou o coronel, num tom severo, e Lazarev, o primeiro soldado da fileira, galhardamente, avanou na forma.
     - Aonde vais? Deixa-te estar aqui! - murmuravam algumas vozes quele homem, que no sabia para onde ir. Lazarev estacou, olhando de vis, receoso, para o seu coronel. Movimentos nervosos faziam-lhe estremecer as linhas do rosto, como costuma acontecer aos soldados chamados rias fileiras.
     Napoleo voltou a cabea imperceptivelmente e fez um gesto com a sua pequena mo rechonchuda como se fosse pegar em qualquer coisa. Os membros da comitiva, adivinhando imediatamente de que se tratava, agitaram-se, segredaram entre si fosse que fosse, fizeram circular ordens, e um pagem, o mesmo que Rostov vira na vspera em casa de Bris, acorreu, e, inclinando-se respeitosamente para a mo estendida, e sem delongas, deps nela uma condecorao com uma fita vermelha. Napoleo, sem olhar, apertou-a entre dois dedos. Avanou para Lazarev, e qual, de olhos arregalados, obstinadamente, continuava a no ver seno o seu imperador, e relanceou a vista ao czar Alexandre como a mostrar-lhe que o que naquele momento estava a fazer era por ele e no pelo seu aliado. A pequena mo branca que sustinha a cruz aflorou os botes do uniforme do soldado Lazarev. Dir-se-ia que Napoleo sabia que para fazer perpetuamente feliz aquele soldado, para que ele se tornasse alvo de recompensas e de atenes de toda a gente, era quanto bastava a sua mo dignar-se tocar-lhe na arca do peito. Napoleo limitou-se a aproximar a cruz do arcabouo de Lazarev e, retirando a mo, voltou-se para Alexandre, como se estivesse ciente de que a cruz l ficaria dependurada. E a verdade  que ficou.
     Mos solcitas, tanto de russos como de franceses, apanharam-na instantaneamente e fixaram-na no uniforme. Lazarev fitou, taciturno, o homenzinho das mos brancas que sobre ele fizera certos gestos, e continuando, imvel, a apresentar armas, ps-se a olhar para Alexandre, firme nos olhos, como a perguntar-lhe se devia continuar ali, se devia afastar-se ou, talvez, fazer qualquer outra coisa. Mas, como lhe no davam qualquer ordem, assim ficou, imvel, por muito tempo.
     Os imperadores montaram, de novo, rios seus cavalos e afastaram-se. Os soldados do regimento Preobrajenski destroaram, misturando-se aos da Guarda, depois foram sentar-se s mesas do banquete preparado para eles.
     Lazarev ocupou o lugar de honra. Oficiais russos e franceses abraavam-no, felicitavam-no, apertavam-lhe as mos. Muito povo e grande nmero de oficiais se aproximaram para o ver de perto. Ia um burburinho de risos e conversas, em russo e em francs, por toda a praa, em volta das mesas. Dois oficiais, de rosto iluminado, alegres e contentes, passaram ao p de Rostov.
     - Ora a tens, amigo, um mimo! At nos servem em tachos de prata - disse um deles. - Viste o Lazarev?
     - Vi.
     - Segundo ouvi dizer, amanh os do Preobrajenski vo dedicar-lhe uma festa,
     - Imagina! Que sorte que teve aquele Lazarev! Uma penso de doze mil francos por ano, hem!
     - Eh! Isto  que  uma barretina, rapazes! - exclamou um soldado, enterrando na cabea a barretina de plo de urso de um camarada francs.
     - Soberbo! Magnfico!
     - Sabes qual  o santo e a senha? - disse um oficial do Preobrajenski ao camarada. - Antes de ontem era: Napoleo. Frana, bravura. Ontem: Alexandre. Rssia, grandeza. Hoje  o imperador que os d; amanh Napoleo. O imperador vai dar amanh a cruz de S. Jorge ao mais valente dos soldados da Guarda francesa. No pode deixar de ser. Tem de pagar-lhe na mesma moeda.
     Bris, com o amigo Jilinski, veio tambm fazer uma visita ao local do banquete aos soldados do Preobrajenski. Ao voltar-se, descobriu Rostov parado rio recanto de uma casa.
     - Eh! Rostov, viva Mal nos chegmos a ver - disse-lhe ele, e no pde deixar de perguntar-lhe o que tinha ele, to sombria e perturbada lhe viu a expresso.
     - Nada, absolutamente nada - replicou Rostov. 
     - Passas l por casa?
     - Naturalmente, sem falta.
     Ficou muito tempo, de p, no seu recanto, olhando de longe os convivas. Operava-se nele um doloroso trabalho que no conseguia levar ,a bom fim. Dvidas terrveis lhe invadiam o esprito. Recordava-se de Denissov e da mudana que nele se dera, da sua inesperada submisso, e do hospital, com os seus amputados de braos ou de pernas, da sua imundcie, dos seus doentes. To viva fora a impresso que tudo aquilo lhe produzira que continuava a sentir nas narinas o cheiro cadavrico do hospital, e chegava a voltar-se para ver donde  que lhe viria tamanha pestilncia. Diante dos seus olhos representavam-se-lhe Bonaparte, bem disposto, e a sua mo branca, esse homem agora nada mais nada menos que imperador e a quem Alexandre cumulava de afeio e respeito. Mas ento porqu aquelas pernas e aqueles braos mutilados, porqu aqueles mortos? E vinha-lhe  memria Lazarev, condecorado, e Denissov, castigado, sem esperana de perdo. To estranhos eram os pensamentos que o assaltavam que teve medo.
     De um lado os aromas que se evolavam das mesas do banquete, de outro a fome que o devorava arrancaram-no quela perplexidade. No tinha remdio seno comer alguma coisa antes de meter-se a caminho. Encaminhou-se para o hotel que vira nessa manh. Transbordava de gente. Eram muitos os oficiais  paisana como ele; dificilmente conseguiu que o servissem. Dois camaradas da mesma diviso a que ele pertencia vieram juntar-se-lhe. A conversa que se entabulou veio abordar naturalmente o tema da paz. Estes oficiais, como quase todos os seus camaradas em armas, mostravam-se descontentes com a paz depois de Friedland Eram de opinio de que se tivessem resistido mais tempo Napoleo estaria perdido, pois as tropas francesas j no tinham nem biscoitos nem munies. Nicolau comia sem dizer palavra, e ainda bebia mais do que comia. S  sua conta emborcou duas garrafas. As preocupaes que o trabalhavam interiormente, sem que ele lhes visse soluo, no deixavam de o atormentar. Tinha medo de se lhes abandonar, sem, de resto, lhes poder fugir. De sbito, ao ouvir a um dos oficiais que era uma humilhao aquele encontro com os Franceses, ps-se aos gritos, com uma veemncia que nada parecia justificar e que muito surpreendeu os camaradas presentes. Estava muito corado.
     - Com que autoridade  que se atrevem a julgar o que est feito? Como se atrevem a julgar os actos do imperador?! No est ao nosso alcance compreender nem as suas intenes nem os seus actos!
     - Mas eu no mencionei o imperador - protestou o oficial, no sem deixar de atribuir  embriaguez aquela sbita diatribe. Rostov, porm, no se calava:
     - Ns no somos diplomatas, somos soldados, e nada mais do que isso  prosseguiu. - Mandam-nos dar a vida, e no temos outra coisa a fazer seno dar a nossa vida. Se nos castigarem  porque somos culpados. No nos compete julgar. Se apraz ao nosso monarca reconhecer Bonaparte como imperador e se entende que deve estabelecer com ele uma aliana, isso mesmo  que  necessrio. Se nos pusssemos a julgar e a discutir tudo, nada seria sagrado. Podamos dizer que Deus no existe, que nada existe! - Enquanto falava. Nicolau batia com o punho fechado em cima da mesa, e por mais intempestivos que os seus discursos se apresentassem aos seus interlocutores, o certo  que obedeciam exactamente ao curso dos pensamentos que o atormentavam- A nossa obrigao  cumprir o nosso dever, bater-mo-nos, no pensar, e  tudo - concluiu.
     - E beber tambm! - exclamou um dos oficiais, pouco disposto a discusses.
     - Isso mesmo, e beber - confirmou Nicolau. - Eh, tu, tu a, venha de l mais uma garrafa - clamou.







TERCEIRA PARTE
     

     
     
     
     Captulo I
     
     Em 1808, o imperador Alexandre dirigiu-se a Erfurth para de novo se encontrar com Napoleo, e na alta sociedade de Petersburgo muito se falou dos esplendores dessa entrevista solene.
     Em 1809, as relaes entre os dois soberanos do mundo, como ento se lhes chamava, haviam-se tornado to ntimas que quando, nesse ano, o imperador francs declarou guerra  ustria, um corpo de exrcito russo atravessou a fronteira a fim de cooperar com o seu ex-inimigo Bonaparte contra o seu ex-aliado o imperador da ustria, e at nas altas esferas se falou do casamento de Napoleo com uma das irms de Alexandre. E  margem das combinaes polticas exteriores, a sociedade russa do tempo dava mostras de uma preocupao particularmente viva em face das transformaes que se operavam ento em todos os sectores da administrao do Estado.
     Entretanto, a vida, a existncia quotidiana, com os seus interesses materiais - a sade, a doena, o trabalho, o descanso -, com as suas preocupaes intelectuais e quejandas - a cincia, a poesia, a msica, o amor, a amizade, o dio, as paixes, o mal -, continuava, como anteriormente, alheia s alianas polticas novas e a todas as novas reformas em projecto.
     O prncipe Andr passou consecutivamente dois anos no campo. Todas as iniciativas que Pedro procurara pr em prtica nos seus domnios, e que haviam resultado infrutferas, pois passava a vida a mudar de ideias, realizou-as o prncipe Andr sem disso se vangloriar e sem grande dificuldade.
     Era dotado no mais alto grau dessa tenacidade prtica que tanta falta fazia a Pedro. Realizava fosse o que fosse sem bulha nem esforo.
     Os trezentos servos de um dos seus domnios foram inscritos no nmero dos trabalhadores de condio livre, e foi este um dos primeiros actos do gnero praticados em toda a Rssia. Em outros dos seus domnios o trabalho forado foi substitudo pelo foro. Em Bogritcharov o instalara,  sua custa, uma parteira, e um padre, pago por ele, ensinava a ler os filhos dos camponeses e os criados.
     Parte do tempo passava-o o prncipe em Lissia Gori, ria companhia do pai e do filho, ento ainda ao cuidado das criadas, e a outra parte decorria para ele no seu eremitrio de Bogutcharovo, como lhe chamava o velho prncipe. Apesar da indiferena que costumava exibir diante de Pedro por tudo quanto se passava no mundo, seguia atentamente os acontecimentos, recebendo muitos livros, e com grande espanto observava que as pessoas, recm-chegadas de Petersburgo - o centro da vida do pas -, que porventura os visitavam, quer a ele, quer ao pai, sabiam muito menos de poltica interna e externa que ele prprio, que nunca deixava a sua aldeia.
     Alm de cuidar da administrao dos seus domnios e de se dar s mais variadas leituras de ordem geral. Andr por essa poca ocupava-se especialmente do exame crtico das ltimas duas infelizes campanhas russas, ao mesmo tempo que se dava  elaborao de rim projecto de reforma dos cdigos e regulamentos militares do pas.
     Na Primavera de 1809 foi de visita aos domnios de Riazan, propriedade de seu filho, de quem era tutor.
     Estendido na sua calea, aos raios j quentes de um sol primaveril, ei-lo que contempla a relva tenra, as primeiras folhas das btulas e as primeiras nuvens brancas da Primavera correndo pejo azul vivo do cu. Em nada pensava, e ia olhando, alegre e vago, ora para a direita ora para a esquerda do caminho,
     Ficaram-lhe para trs o rio e o barco em que no ano anterior palestrara longamente com Pedro. E tambm um povoado sujo, cerrados, trigo de Inverno ainda verde. Depois desceu  ponte, onde ainda se viam, vestgios de neve, galgou uma ladeira argilosa, percorreu campos de restolho e brejos de onde em onde com os seus tufos verdes e penetrou numa mata de btulas que bordejava os dois lados estrada. No meio da mata quase fazia calor, no soprava s mnima aragem. As btulas, salpicadas de folhas verdes e viscosas, estavam imveis, e de sob o tapete de folhas secas do ano anterior rompiam, verdejantes, soerguendo-o, as primeiras ervas, semeadas de flores violetas. Pinheiros baixos esparsos pejo meio dos vidoeiros, com a sua perptua e sombra verdura, evocavam desagradavelmente o Inverno que findara. Os cavalos assustaram-se ao entrar na mata e da a pouco estavam cobertos de suor.
     Piotre, o lacaio, disse qualquer coisa ao cocheiro, que lhe respondeu afirmativamente. Logo se viu, porm, que o assentimento do cocheiro lhe no bastava. Voltou-se na almofada para o amo.
     - Veja Vossa Excelncia que bem que se respira! - disse, sorrindo com deferncia,
     - O qu?
     - Que bem que se respira. Excelncia.
     Que  que ele, quer dizer? -, pensou Andr. Ah!, sim, j sei, est a referir-se  Primavera, E circunvagando o olhar: Que verde que tudo est.., e to depressa! As btulas, as cerejeiras, os lamos, j, principiaram... E os carvalhos no se vem. Ah!, ali est um.
     No extremo do caminho avultava um carvalho. Provavelmente dez vezes mais velho que as btulas da mala, era dez vezes mais grosso e erguia-se dez vezes mais alto. Era tiro carvalho enorme, uma rvore de duas braas de tronco, com ramos certamente de tia muito lascados e a casca rachada com grandes cicatrizes. Com os seus braos e os seus dedos tortuosos e estirados, desairosos e sem simetria, dir-se-ia, rio meio das btulas novinhas todos sorridentes, um, velho monstro intratvel e desdenhoso. S os pinheiros esparsos pela floresta, com a sua verdura morta e perptua, os pinheiros e aquele carvalho teimavam em mostrar-se insensveis aos encantos da Primavera, recusando-se a dar pele, sol que brilhava e pela Primavera que chegava.
     Primavera, amor, felicidade!, parecia proclamar o velho carvalho. Ser possvel no estardes ainda desiludidos com todas estas nscias e absurdas miragens? Sempre, a mesma coisa, sempre as mesmas fices! No h Primavera, nem sol, nem felicidade! Olhai, vede estes pobres pinheiros como mortos, para ali esmagados, sempre ss, e volvei os olhos para mim, que tambm continuo a estender os meus dedos retalhados e esmigalhados, onde quer que rompam, do meu dorso, dos meus flancos, e para .aqui estou, como eles me querem, e no creio nas vossas esperanas nem nas vossas mentiras!
     O prncipe Andr, ao atravessar a floresta, mais de urna vez se voltou para este como  espera de o ver dirigir-lhe qualquer aceno amistoso. Mesmo  sombra dele havia relva, flores, embora a velha arvore, macambzia, imvel, continuasse monstruosamente carrancuda no meio da vida em tomo.
     Sim, este carvalho tem razo, toda a razo, pensava o prncipe Andr, As iluses so boas para os outros, para os que so novos; para ns, que conhecemos a vida, tudo acabou! E toda uma onda de novos pensamentos desesperados, em que para ele havia contudo um certo encanto, embora triste, se lhe levantou na alma  vista daquele carvalho. No decurso desse dia veio a reflectir de novo na sua prpria existncia, acabando por chegar, como sempre, a esta desencantada, se bem que apaziguadora, concluso: que nada devia tentar na vida, limitando-se a acabar os seus dias sem praticar o mal, sem se atormentar e sem desejar fosse o que fosse.
     

     
     
     
     Captulo II
     
     Em virtude de certas questes de tutela sobre o domnio de Riazan. Andr teve necessidade de se avistar com o marechal da nobreza do distrito, nem mais nem menos o conde Ilia Andreievitch Rostov. Em meados de Maio apresentou-se em sua casa. Entrara-se j no perodo tpido da Primavera. As florestas j estavam vestidas de folhagem. Havia poeira e fazia calor, e quando se passava junto de um curso de gua j apetecia mergulhar na corrente.
     Andr, triste, preocupado com as mil coisas que tinha de tratar com o marechal, atravessou as leas do parque da casa Rostov em Otradnoie. A direita pareceu-lhe ouvir nos macios de verdura alegres vozes femininas, e dai a pouco viu um bando de raparigas que se atravessava diante da cabea. A frente delas salientava-se uma mocinha trigueira, de olhos negros, muito esbelta, extraordinariamente esbelta, com um vestidinho de algodo amarelo, na cabea um leno branco, por debaixo do qual lhe esvoaavam os caracis soltos do cabelo. Gritou qualquer coisa, mas, ao ver que se tratava de algum desconhecido, tomou a desaparecer no macio donde emergira, rompendo a rir, sem olhar para trs.
     De sbito o prncipe Andr sentiu uma impresso penosa. O tempo estava to belo, o sol to vivo, havia tanta alegria na natureza, e aquela rapariguinha sem conhecer nem querer conhecer nada fora dela, satisfeita e feliz com a sua prpria existncia, o sua existncia tola, sem dvida, mas despreocupada e alegre. Donde lhe vir tanta alegria? Em que pensar ela? Com certeza no nos regulamentos militares e na organizao dos camponeses de Riazan. Em que pensar ento? Que a far feliz?, eis o que o prncipe Andr no podia deixar de perguntar a si mesmo, cheio de curiosidade.
     O conde Ilia Andreievitch levava em Otradnoie, no ano da graa de 18O9, a mesma vida de sempre, isto , recebia em sua casa quase toda a provncia, sempre pronto a oferecer aos convidados caadas, espectculos, jantares, concertos. Quem quer que aparecesse de novo encantava-o; por isso acolheu Andr com grande alegria e quase  fora obrigou-o a passar a noite em sua casa.
     No decurso de um bem fastidioso dia, durante o qual se vira monopolizado pelo seu velho anfitrio e os convidados deste mais em evidncia - estava-se em vsperas de uma rija festa e a casa cheia -. Bolkonski por vrias vezes relanceou os olhos a Natacha, risonha e jovial no meio dos rapazes e das raparigas, e sempre que para ela olhou ps a si mesmo esta pergunta: Em que pensar ela? Donde lhe vir tanta alegria?
      noite, sozinho num local onde vinha pela primeira vez, muito lhe custou a adormecer. Ps-se a ler, depois apagou a vela, da a pouco tomou a acend-la. No quarto, com as portadas fechadas por dentro, fazia calor. E sentia-se furioso com o imbecil do velho - que assim tratava Rostov - por ter querido ret-lo em sua casa, persuadindo-o de que no conseguira ainda os papis necessrios da cidade. E consigo prprio tambm por ter ficado. Levantou-se e aproximou-se da janela para abri-la. Mal entreabrira as portadas, logo o luar, como se h muito aguardasse aquele sinal, lhe entrou pelo quarto dentro. Abriu a janela de par em par. A noite estava fresca, calma e luminosa. Precisamente defronte da sacada encontrava-se um fileira de rvores podadas, de um dos lados muito negras, e do outro banhadas por uma claridade de prata. A seus ps entrevia-se um tapete de plantas carnudas e hmidas. As folhas frisadas e os caules escorriam luz. Mais para alm, para l das rvores escuras, lobrigava-se uma espcie de telhado, que cintilava, coberto de orvalho; mais para a direita uma grande rvore esguedelhada, com o tronco e os ramos de um branco vivo, e no alto a Lua quase cheia, num cu de Primavera por assim dizer sem estrelas. Andr encostou-se ao parapeito da janela e abandonou os olhos  contemplao do firmamento.
     O quarto do prncipe ficava num andar intermdio. Por cima havia outros quartos igualmente habitados, e tambm ali se no dormia. Ouviam-se vozes de mulher.
     - Sim, s mais uma vez - murmurava uma dessas vozes, que Andr imediatamente reconheceu.
     - Mas quando te dispes a dormir? - replicava outra dessas vozes.
     - No, no vou dormir, no quero dormir, no posso, que hei-de eu fazer? Espera s um pouco mais...
     As duas vozes femininas trautearam uma espcie de frase musical, por certo remate de qualquer melodia conhecida.
     - Oh, que bonito! Bom, agora vamos dormir. Acabou-se.
     - Dorme tu, se queres, eu no posso - voltou a primeira voz.
     A que falara aproximara-se da janela e at certamente se debruara, pois sentia-se-lhe o ruge-ruge do vestido e o ofegar da respirao. Tudo estava em silncio e como que esttico a Lua, o luar, as sombras. O prncipe Andr procurava no se mexer, para no denunciar a sua presena indiscreta.
     - Snia. Snia - voltou a primeira voz. - Como queres; que uma pessoa durma? Vem ver, que lindo! Oh, que lindo! Acorda. Snia. - E esta voz dir-se-ia repassada de lgrimas. - Nunca na minha vida vi noite to linda!
     Na resposta de Snia houve qualquer coisa de impaciente.
     - Mas vem ver, s um bocadinho, que linda Lua!... Oh, que lindo! Anda, ver! Querida, minha queridinha, vem ver! Achas que iro? Basta uma pessoa pr-se de joelhos, assim, e agarrar o,, joelhos, agarrar-se muito. Depois, a vou eu pelos ares fora, a voar! Olha, assim!
     - Ento? Deixa-te disso! s capaz de cair!
     Ouviu-se, como que uma luta e a voz descontente de Snia, que dizia: So quase duas horas!
     - Oh, estragas tudo. Vai-te embora, vai-te.
     Tudo recaiu no silncio, mas Andr sentia que algum, continuava  janela, graas aos ligeiros sussurros, aos breves suspiros que lhe chegavam aos ouvidos.
     - Meu Deus! Meu Deus! Que querer dizer tudo isto? - exclamou a voz de sbito. - J que  preciso dormir, vamos dormir. - E fechou a janela.
     E a minha existncia que lhe importa!, pensava Andr ao escutar aquelas vozes e, sem saber porqu, receoso e ao mesmo tempo como que esperanado de ele prprio estar envolvido naquelas palavras. Outra vez ela! Parece de propsito!
     De repente ergueu-se no fundo da sua alma uma tal confuso de pensamentos e de esperanas pueris, perfeito contraste com toda a sua existncia, que Andr, incapaz de explicar a si prprio claramente o que nele se estava a passar, adormeceu quase de chofre.
     

     
     
     
     Captulo III
     
     No dia seguinte pela manh, depois de se despedir do conde e sem aguardar que as senhoras estivessem visveis, abalou.
     Eram j princpios de Junho quando Andr, no decurso da sua jornada de regresso, voltou a atravessar aquela mata de btulas onde um carvalho todo contorcido lhe fizera uma impresso to curiosa e memorvel. O tilintar das campainhas dos cavalos da, carruagem ainda era mais surdo que ms e meio antes: tudo eram sombras e mato bravo. Os pinheiros novos esparsos pela floresta no prejudicavam j a beleza do conjunto e, harmnicos com o ambiente, os seus botes de feltro haviam-se coberto de uma macia verdura.
     O dia estivera, quente. Algures preparava-se uma tormenta, mas apenas uma pequenina nuvem borrifara a poeira do caminho e as folhas inchadas de seiva. O lado esquerdo da floresta estava ria penumbra; o direito, orvalhado e todo lustroso, brilhava ao sol, ligeiramente agitado pelo vento. Tudo estava em flor. Aqui e ali ouviam-se os rouxinis soltar os seus trinados e garganteios.
     Sim, foi nesta floresta que eu vi aquele carvalho que tantas afinidades tinha comigo, dizia de si para consigo Andr. Onde estar ele agora? E olhava  esquerda do caminho, sem saber onde encontr-lo, sem o reconhecer. De sbito, maravilhado, encontrou a rvore. O velho carvalho, transfigurado, distendia-se, como um zimbrio de luxuriante e sombria verdura, e parecia crescer, quase imvel, sob os raios do sol-poente. Dos seus membros contorcidos, das suas escaras, das suas antigas dvidas, das suas velhas dores, nem sinal. Folhinhas novas, tmidas de seiva, rompiam-lhe directamente da casca dura e centenria, e de tal sorte que custava a crer que aquele ancio fosse seu progenitor. Sim,  realmente o mesmo carvalho, pensou Andr, e de sbito sentiu-se inundado de um obscuro sentimento de alegria e renovo primaveril. Todos os melhores instantes da sua existncia passada lhe acorreram  memria, de repente e ao mesmo tempo. E Austerlitz, com o seu cu profundo, e a mscara da sua mulher morta com a expresso de censura, e Pedro, no barco, e a rapariguinha embriagada pelo esplendor da noite, daquela mesma noite, e a magnificncia do luar, tudo isto, de um s golpe, se lhe figurou real na imaginao.
     No, a vida no acabou aos trinta e um anos, concluiu, firme e definitivo. E no basta que eu veja claro em mim, , preciso que todos vejam igualmente claro em si prprios. E Pedro e esta rapariguinha que queria voar pelos cus fora.  preciso que todos eles me conheam, que a minha vida no decorra s para mim, que no seja to independente que no se reflicta na sua e a deles na minha e que todos eles, em sua vida, se confundam comigo.
     De regresso da viagem. Andr decidiu ir a Petersburgo no Outono e, para justificar essa resoluo, deu-se ao trabalho de coleccionar vrias razes. Toda uma srie de dedues, qual delas a mais lgica, capazes de justificar esta viagem, e inclusivamente um vago projecto de retomar as suas funes na corte, acorreram ao seu encontro. Agora nem sequer podia compreender como pudera pr em dvida a necessidade de se consagrar a uma vida activa, tal qual como h um ms lhe no pudera vir ao esprito a ideia de abandonar o campo. Afigurava-se-lhe claramente que toda a experincia da vida que lhe fora dado adquirir se perderia sem vantagem para quem quer que fosse; no passaria de um puro contra-senso, caso ele lhe no desse a aco por finalidade e ele prprio se no decidisse a tomar parte nela. Era-lhe mesmo impossvel imaginar como  que at a, levado por dedues to lgicas como as actuais, embora igual- mente pobres, se lhe tinha representado como certo que seria rebaixar-se, depois de to duras lies da vida, acreditar ainda na possibilidade de ser til, na possibilidade do amor e da ventura. A lgica agora sugeria-lhe coisa completamente diferente. De volta da sua viagem, comeou a aborrecer o campo, as ocupaes que at ai o entretinham j lhe no interessavam. Muitas vezes, sentado no seu gabinete, solitrio, levantava-se, aproximava-se de um espelho e punha-se a mirar longamente os traos que lhe vincavam o rosto. Depois afastava os olhos do espelho e pousava-os no retrato de Lisa, sua falecida mulher, que, com os seus caracis apanhados a moda grega, docemente lhe sorria, na moldura dourada. J lhe no dirigia as terrveis censuras de outrora, olhava-o alegremente, simplesmente, com um ar curioso. E Andr, as mos atrs das costas, passeava no seu gabinete de um lado para o outro, por muito tempo, ora preocupado, ora sorridente, deixando que o esprito lhe errasse por mil pensa- mentos extravagantes que as palavras no poderiam exprimir, secretos como se fossem criminosos, em que se associavam Pedro, a glria, a rapariguinha da janela, o carvalho, a beleza feminina, o amor, pensamentos que haviam transformado toda a sua existncia. E se nesses instantes algum o procurava, mostrava-se particularmente seco, severo, cortante, de uma rgida lgica.
     Meu amigo, sucedia, s vezes, dizer Maria inocentemente, penetrando no gabinete a uma hora dessas, hoje no podemos sair com Nikoluchka. Est muito frio.
     Se estivesse calor, replicava ele em tom seco, eram capazes de o deixar sair em camisa, mas, como est frio, basta que lhe vistam qualquer coisa quente, j que os fatos quentes no foram feitos seno para isso.  o que  preciso concluir quando se verifica estar frio e no tomar a resoluo de o deixar em casa, quando a verdade  que uma criana precisa de respirar ar puro. Andr afectava uma tal lgica como para se castigar a si prprio desse trabalho ilgico e inconfessado a operar-se dentro de si prprio.
     Maria, ento, dizia de si para consigo que a reflexo faz dos homens criaturas secas.
     

     
     
     
     Captulo IV
     
     O prncipe Andr chegou a Petersburgo em Agosto de 1809. Estava-se no apogeu da glria do moo Speranski e era a altura em que ele mostrava mais energia na realizao das suas reformas. Foi nesse ms de Agosto que o imperador, ao passear de carruagem, tivera um acidente, magoara um p, e ficara trs semanas fechado em Peterof, todos os dias em contacto com Speranski. Nessa poca se elaboraram no s os dois clebres ucasses, que to grande celeuma levantaram, sobre a ordenao da hierarquia na corte e a criao dos exames para a colegiada de assessores e conselheiros de Estado, mas tambm uma verdadeira constituio destinada a revolucionar o regime judicirio, administrativo e financeiro vigentes, desde o conselho do imprio at s autoridades dos volostes (Diviso territorial equivalente  provncia. (N, dos T.). Foi ento que se realizaram e tomaram vulto os vagos sonhos liberais que o imperador Alexandre alimentava ao subir ao trono e que j tentara aplicar com o auxlio dos seus colaboradores, os Czartoriski, os Novossiltsov, os Kotchubei e os Strogonov, a quem, por graa, costumavam chamar a sua comisso de salvao pblica.
     Agora Speranski substitura-os a todos nos negcios civis e Araktcheiev ocupava-se das questes militares. O prncipe Andr, pouco depois da sua chegada, e, na sua qualidade de camarista, apareceu na corte e nas audincias privadas do imperador. Este, que por duas vezes o encontrara no seu caminho, no se dignara, honr-lo com unia, nica palavra. Pensava Andr ser antiptico ao imperador e que a sua cara e toda a sua pessoa lhe eram desagradveis. O olhar seco e distante que Alexandre lhe lanou ainda veio confirmar mais tal suposio. Os cortesos explicaram-lhe esta frieza atribuindo-a ao facto de Sua Majestade ter ficado descontente por ele- desde 1805, no ter voltado a prestar servio no exrcito.
     Bem sei que no est nas nossas mos regermos as nossas simpatias e as nossas antipatias, dizia Andr com os seus botes, por isso, o melhor que eu tenho a fazer  no pensar apresentar ao imperador a minha memria sobre o novo cdigo militar. A ideia acabar por seguir o seu destino sozinha.
     Exps as suas ideias a um velho marechal amigo do pai. Este, que lhe marcara uma data para o receber, acolheu-o amavelmente e prometeu-lhe falar ao imperador. Alguns dias depois participara-lhe que devia apresentar-se ao ministro da Guerra, o conde. Araktcheiev
     
     As nove horas da manh do dia aprazado o prncipe Andr apresentou-se na sala de espera do conde Araktcheiev.
     No o conhecia pessoalmente e nunca o vira mesmo, mas o que dele sabia no o predispunha muito a seu favor.
      ministro da Guerra,  homem de confiana do imperador; ningum, portanto, pode intervir nos assuntos que lhe dizem respeito. Confiaram-lhe o exame do meu memorial porque s ele pode p-lo em vigor, pensava Andr, enquanto esperava ser recebido, no meio de vrias personalidades, mais ou menos importantes, na sala de espera de Araktcheiev.
     No desempenho das suas funes, principalmente enquanto fora ajudante-de-campo. Andr passara por muitas antecmaras de altas personagens e estava habituado a distinguir as suas caractersticas prprias. A do conde Araktcheiev era inconfundvel. As pessoas de somenos importncia que aguardavam a sua, vez mostravam confuso e humildade; as de mais categoria traam geralmente um certo embarao, oculto sob uma falsa despreocupao, uma espcie de zombaria de si prprias, da sua prpria situao e da personalidade diante de quem iam comparecer. Havia ainda os que andavam na sala para c e para l, preocupados, e os que riam, cochichando. Andr percebia que falavam da pessoa do ministro, ratando-o pela alcunha de Sila Andreitch, e pronunciando as palavras ele vai tratar-te da sade. Um general, personalidade importante, visivelmente vexado por ser obrigado a esperar tanto tempo, estava de pernas cruzadas e sorria para si mesmo.
     Logo, porm, que a porta se abriu, em todas as caras instantaneamente transpareceu o sentimento do medo. Andr pediu ao funcionrio de servio que o anunciasse segunda vez, mas - ele fitou-o com ar zombeteiro dizendo-lhe que esperasse a sua vez. Depois de algumas das personagens presentes haverem sido introduzidas no gabinete do ministro e de novo reconduzidas por um ajudante-de-campo, fizeram passar pela porta temerosa um oficial cuja humilde e assustada aparncia chamara a ateno de Andr. A audincia deste oficial foi morosa. Ouviu-se, de sbito, atrs da porta, o fragor de uma voz irritada e l de dentro saiu, muito plido, de lbios trmulos, o pobre oficial, que atravessou a sala de espera apertando a cabea nas mos.
     Chegou em seguida a vez do prncipe Andr e o funcionrio de servio segredou-lhe: A direita, ao p da janela.
     Andr penetrou num gabinete muito simples e asseado e viu, sentado a uma mesa, um homem dos seus quarenta anos, de longo busto, em cima do qual urna cabea, tambm muito longa, de cabelos curtos, grossas rugas, sobrancelhas espessas sobrepujando uns olhos apagados verde- acastanhados e um nariz vermelho proeminente. Araktcheiev voltou a cabea para ele sem o fitar.
     - Que pretende? - perguntou.
     - Nada pretendo. Excelncia - replicou Andr com a maior tranquilidade.
     Os olhos de Araktcheiev voltaram-se para ele.
     - Tenha a bondade de se sentar, prncipe Bolkonski.
     - Nada pretendo, mas o imperador dignou-se transmitir a Vossa Excelncia a nota que eu apresentei...
     - Deixe dizer-lhe, meu caro senhor, que li a sua memria - interrompeu Araktcheiev. Eram as primeiras palavras amveis que pronunciava, e imediatamente se ps a olhar para outro lado e a afectar um tom cada vez mais indiferente e desdenhoso. - O senhor prope novas leis militares? H muitas leis, leis antigas, e muito pouca gente que as aplique. Hoje em dia todos tm a mania de fazer leis.  mais fcil escrever do que agir.
     - Eu vim aqui, por desejo do imperador, saber de Vossa Excelncia qual o destino que pensa dar ao meu memorial - disse Andr polidamente.
     - Anotei a minha opinio no prprio memorial e transmiti-o  comisso. Por mim no o aprovo - disse Araktcheiev erguendo-se e pegando num papel que estava em cima da mesa. - Aqui tem! - E estendeu-lhe o papel.
     Atravessado, escrito a lpis, sem maisculas, sem ortografia, sem pontuao, liam-se as seguintes linhas: Elaborado com pouca seriedade, visto ser copiado pelo Cdigo Militar francs, difere sem motivo do regulamento militar em vigor.
     - E a que comisso foi transmitido? - inquiriu Andr. - A comisso do Cdigo Militar, e propus o nome de Vossa Merc para fazer parte dela. Mas sem honorrios.
     Um sorriso perpassou pelos lbios de Andr.
     - Mas eu no pretendo tal cargo...
     - Como membro sem honorrios - repetiu Araktcheiev. - Boa tarde. Eh! A pessoa que se segue. Quem  que est a ainda? gritou, fazendo uma vnia ao prncipe Andr.
     

     
     
     
     Captulo V
     
     Enquanto aguardava a nomeao para membro da comisso do Cdigo Militar, o prncipe Andr voltou a relacionar-se com antigos conhecimentos, principalmente com as pessoas que ele sabia muito poderosas e em condies de lhe poderem vir a ser teis. Uma curiosidade inquieta e irresistvel, muito semelhante quela que experimentara nas vsperas das batalhas, arrastava-o agora, que estava na capital, para essas altas esferas em que se prepara o futuro e se decide do destino de milhes de homens. Ia percebendo, atravs da irritao dos antigos, a curiosidade dos no iniciados, a reserva dos demais, a agitao e a inquietao de todos e a profuso de juntas e de comisses, das quais o nmero de membros crescia hora a hora, que naquele ano de 1809 se preparava em Petersburgo uma imensa batalha civil cujo generalssimo era essa personagem misteriosa, desconhecida para ele e que a seus olhos avultava sob a seduo de um gnio: Speranski.
     E este movimento reformador, que ele muito vagamente conhecia, e Speranski, o seu animador, comearam a interess-lo to apaixonadamente que no tardou a relegar para segundo plano das suas preocupaes o destino do Cdigo Militar.
     Andr estava na melhor das disposies para ser bem acolhido em todas as altas esferas da sociedade petersburguesa de ento. O partido dos reformadores procurava cativ-lo e testemunhava-lhe simpatia, primeiro porque ele gozava da fama de homem muito inteligente e de vasta cultura, e em segundo lugar porque conquistara j, emancipando os camponeses, reputao de esprito liberal. O partido dos velhos descontentes, contrrio s reformas, mostrava interesse por ele supondo-o adepto das ideias do pai. As mulheres, ou, como quem diz, a sociedade, festejavam-no como um futuro marido rico e titular e uma figura nova, aureolada da aventura romanesca de haver passado por morto e de ter perdido a esposa em circunstncias trgicas. Alm disso, a opinio unnime de todos quantos outrora o haviam conhecido era de que ele mudara muito, e com vantagem, naqueles cinco anos, que se lhe robustecera e suavizara o carcter, que perdera os ares afectados de antigamente, o orgulho e o esprito custico, e que ganhara a serenidade que s o tempo vai dando aos homens. Falavam dele, interessavam-se por ele e toda a gente o procurava.
     No dia seguinte ao da sua visita a Araktcheiev, foi a uma soire a casa do conde Kotchubei, a quem contou o que se passara na entrevista com Sila Andreitch. Kotchubei assim se referia a Araktcheiev, empregando a alcunha com essa mesma vaga ironia que Andr tivera ocasio de observar na antecmara do ministro da Guerra.
     - Meu caro, mesmo no seu caso, no poder deixar de precisar de Mickail Mikailovitch.  o grande obreiro. Eu falarei com ele. Prometeu-me vir aqui esta noite...
     - Mas que tem Speranski com os regulamentos militares? - perguntou Andr.
     Kotchubei abanou a cabea, sorrindo, como que surpreendido com a ingenuidade de Bolkonski.
     - Falmos de si h dias - prosseguiu ele - dos seus trabalhadores livres...
     - Ah!, foi ento o senhor, prncipe, que emancipou os seus camponeses? - perguntou um velho da poca de Catarina, voltando-se para Bolkonski com um ar desdenhoso.
     - Era um pequeno domnio que no dava rendimento algum - replicou este, para no irritar inutilmente o velho e assim atenuar a importncia do seu acto.
     - Tem medo de estar atrasado - continuou o ancio, lanando um olhar a Kotchubei. - H uma coisa que eu pergunto: quem h-de trabalhar a terra se se der a liberdade aos servos? Fazer leis  fcil, mas governar  bem mais difcil.  o mesmo que vai acontecer agora. Diga-me, conde, quem vir a ser chefe de administrao se toda a gente tem de ser submetida a um exame?
     - Aqueles que forem aprovados nesse exame, suponho eu - replicou Kotchubei, cruzando as pernas e circunvagando os olhos pela sala.
     - Assim, por exemplo, eu tenho nos meus escritrios um tal Prianitelinikov:  um homem excelente, um homem precioso, mas j fez sessenta anos. Ir ele apresentar-se a exame?
     - Sim,  de facto difcil, tanto mais que a instruo est muito pouco espalhada, mas...
     O conde Kotchubei no concluiu a frase. Levantou-se e, pegando no brao de Andr, encaminhou-se em direco a algum que acabava de chegar: um grande homem louro, calvo, dos seus quarenta anos, alta testa, rosto comprido, estranho, e de uma brancura extraordinria. Vestia um fraque azul, trazia uma condecorao ao pescoo e um crach no lado esquerdo do peito. Era Speranski. O prncipe Andr reconheceu-o imediatamente e sentiu uma emoo interior, como  costume nos momentos cruciais da existncia. Seria respeito, seria inveja, seria curiosidade? Ignorava-o.
     A figura de Speranski era de um tipo original que o fazia sobressair no meio de todas as demais. Nunca, em qualquer das pessoas que Andr conhecia, surpreendera urna calma semelhante e uma tal segurana associadas a tanto embarao e a tanto acanhamento nos gestos. Em ningum encontrara um olhar ao mesmo tempo to enrgico e to suave nuns olhos - assim semicerrados e como que repassados de gua, tanta firmeza num sorriso insignificante, uma voz, to dbil, to igual, to calma e sobretudo uma tal brancura fina num rosto e principalmente numas mos, excessivamente gordas e meigas, embora grandes. Tal brancura e tal suavidade de pele nunca Andr pudera observ-las seno nos soldados com muito tempo de hospital. Eis Speranski, o secretrio de Estado, o referendrio do imperador, seu companheiro em Erfurth, onde, por mais do que uma vez, se encontrara com Napoleo.
     O olhar de Speranski no ia de uma pessoa para outra como acontece involuntariamente quando algum  introduzido numa sociedade numerosa. Tambm no se dava pressa em falar. Sua voz era serena, sentia-se nela a certeza de quem sabe Que  escutado e no olhava seno para a pessoa com quem conversava.
     Andr observava com ateno particular todas as palavras e todos os gestos de Speranski. Como  vulgar nas pessoas habituadas a julgar severamente o prximo, quando se tratava de algum de reputao, tendia sempre a encontrar nesse algum uma smula de todas as perfeies humanas.
     Speranski afirmou a Kotchubei que lamentava muito no ter podido chegar mais cedo, mas estivera retido no palcio. No disse ter sido o imperador quem o retivera. E Andr notou esta afectao de modstia. Quando Kotchubei lhe apresentou o prncipe Andr. Speranski dirigiu lentamente os olhares para ele, sempre com o mesmo sorriso, e olhou-o silenciosamente.
     - Tenho muito prazer em conhec-lo. Ouvi falar de si, como, alis, toda a gente - disse ele.
     Kotchubei aludiu em poucas palavras ao acolhimento que Araktcheiev fizera a Bolkonski. O sorriso de Speranski acentuou-se.
     - O presidente da comisso do Cdigo Militar  amigo meu, o Sr. Magnitski - observou, articulando claramente cada silaba e cada palavra -, se quiser posso proporcionar-lhe uma conferncia com ele. - Calou-se para sublinhar a pausa do pargrafo. - Espero que v encontrar simpatia junto dele e o desejo de fazer tudo que seja razovel.
     Imediatamente se formou uma roda em volta de Speranski, e o ancio que falara de um tal Prianitchnikov tambm se permitiu dirigir-lhe uma pergunta.
     Andr, sem tornar parte na conversa, observava todos os movimentos daquele homem, ainda ontem um obscuro seminarista, e em cujas mos brancas e gordas estava agora o destino da Rssia. Impressionou-o a serenidade extraordinria e o ar desdenhoso na resposta de Speranski ao velho. Dir-se-ia deixar cair de inacessveis alturas a palavra condescendente. Tendo o velho elevado um pouco a voz, sorriu e disse que no era juiz das vantagens ou dos inconvenientes das decises que o imperador tinha por bem tomar.
     Depois de participar por algum tempo na conversa geral Speranski levantou-se e, aproximando-se do prncipe Andr, levou-o consigo para o outro extremo da sala.
     Era evidente que julgava necessrio parecer interessar-se por Bolkonski.
     - No tive tempo de falar consigo, prncipe, no meio da animada conversa a que me obrigou aquele venerando ancio - disse-lhe, sorrindo, com uma certa discrio desdenhosa, querendo demonstrar com isso ambos saberem muitssimo bem a que ponto eram nulas as pessoas com quem ele acabava de conversar. E esta atitude no deixou de lisonjear Andr. - Conheo-o h muito, primeiro graas  sua conduta para com os camponeses, exemplo que ns gostaramos de ver seguido por muitos outros proprietrios, e em segundo lugar porque o prncipe  o nico dos camaristas que no se julgou atingido pelo novo ucasse relativo s categorias da corte, que tanta discusso e tantas recriminaes provocou.
     - Sim - replicou Andr. - Meu pai no quis que eu beneficiasse desse direito. Principiei o meu servio pelos graus inferiores.
     - Seu pai, embora homem de outro tempo, est realmente muito acima dos nossos contemporneos, que tanto criticam uma medida em que se procura simplesmente estabelecer a justia nas suas bases naturais.
     - No entanto, parece-me que essas crticas no deixam de ter o seu fundamento... - disse Andr, que diligenciava combater em si prprio a influncia de Speranski, de que se apercebia crescente.
     Desagradava-lhe aprov-lo em tudo: desejava refut-lo. O certo , porm, que, embora de costume se exprimisse com fluncia e clareza, naquele momento, ao falar com o homem de Estado, sentia certo embarao. Aquela personalidade, que o levara a tantas observaes, prendia-lhe demasiadamente a ateno.
     - Quer dizer que na maior parte dos casos essas crticas no tm talvez por fundamento seno o amor-prprio ferido - objectou, tranquilamente. Speranski.
     - Ou ento, em parte tambm, os interesses do Estado - volveu o prncipe Andr.
     - Como assim?... - inquiriu Speranski, baixando os olhos.
     - Eu sou partidrio de Montesquieu - respondeu Andr. - E a sua mxima de que o princpio das monarquias  a honra parece-me incontestvel. Certos direitos e privilgios da nobreza parecem-me meios de manter este sentimento.
     O sorriso desapareceu do branco rosto de Speranski e a sua fisionomia s ganhou com isso. Seguramente, a mxima citada por Andr parecera-lhe digna de interesse.
     - Se encara a questo por esse ponto de vista - principiou ele, exprimindo-se em francs com dificuldade visvel e pondo ainda mais morosidade na dico que quando falava russo, mas com muita serenidade.
     Exprimiu a opinio segundo a qual a honra no pode ser mantida por privilgios prejudiciais ao bom andamento dos negcios pblicos, de que a honra ou  a noo puramente negativa da absteno de actos censurveis ou um certo estimulante capaz de nos levar a conquistar a aprovao ou as recompensas em que esta se traduz. As suas dedues eram concisas, simples e claras.
     - A instituio que encorajasse a honra como fonte de emulao seria a todos os ttulos semelhante  Legio de Honra do grande imperador Napoleo, que, em vez de prejudicar, concorre para o bom andamento dos servios, sem que seja por isso privilgio de casta ou de corte.
     - De acordo, mas no h que negar que os privilgios da corte atingem o mesmo objectivo - contraveio Andr. - Todos os privilegiados se consideram na obrigao de manter dignamente a sua categoria.
     - No entanto, pelo que vejo, no quis tirar partido desse benefcio - observou Speranski, rematando deste modo com uma palavra amvel um debate que principiava a embaraar o interlocutor. - Queira dar-me a honra de me procurar na prxima quarta-feira - acrescentou. - Entretanto terei falado com Magnitski e j poderei dizer alguma coisa que lhe interesse, alm do prazer que me dar conversar mais longamente consigo.
     Saudou, de olhos baixos, e,  francesa, sem se despedir, saiu, procurando no ser notado.
     

     
     
     
     Captulo VI
     
     Logo nos primeiros tempos da sua permanncia em Petersburgo. Andr apercebeu-se de que toda a construo de ideias que nele se elaborara no decurso da sua vida solitria fora relegada para um canto, preterida pelas inmeras pequeninas preocupaes que o absorviam.
     Ao fim da tarde, de regresso a casa, registava no seu livro de notas quatro ou cinco visitas indispensveis, ou um encontro marcado para determinada hora. As ocupaes quotidianas, o emprego do tempo fixado de maneira a chegar pontualmente onde era mister, absorviam-lhe o melhor da sua capacidade de trabalho. Nada fazia, no pensava mesmo em coisa alguma, no tinha tempo, e as opinies que emitia - com razovel xito - eram apenas o resultado do muito que meditara enquanto estivera no campo.
     s vezes observava, desgostoso, que repetira no mesmo dia as mesmas coisas em locais diferentes. To ocupado andava o dia inteiro que nem mesmo tinha tempo de reconhecer que no pensava em coisa alguma.
      semelhana do que acontecera aquando do seu primeiro encontro em casa de Kotchubei, foi grande a impresso que lhe fez Speranski ao receb-lo, quarta-feira, em sua casa e ao manter com ele um longo e confiado colquio.
     Tanta era a gente que o prncipe Andr julgava desprezvel ou nula e to grande o seu desejo de encontrar em quem quer que fosse o ideal vivo da perfeio a que aspirava que lhe no foi difcil acreditar que Speranski representava efectivamente esse padro ideal de inteligncia e de virtude.
     Se Speranski pertencesse ao mesmo meio que Andr, se tivesse a mesma educao, a mesma formao moral, cedo este teria descoberto as fraquezas humanas desse homem, a sua carncia de qualquer espcie de herosmo. Mas a verdade  que esse esprito lgico que o surpreendia nele lhe inspirava tanto mais respeito quanto era certo no o apreender em toda a sua extenso. Alm disso, ou porque apreciasse a capacidade de Andr ou porque julgasse conveniente conquist-lo. Speranski, na presena do prncipe, exibia um juzo sereno, isento de parcialismo, e mostrava-lhe essa lisonja subtil,  mistura com uma certa presuno, que consiste em um homem reconhecer tacitamente que o seu interlocutor e ele prprio so as nicas pessoas capazes de compreender quo nscios so os demais e sensatas e profundas as suas prprias ideias, as ideias s deles os dois.
     No decurso da longa conversa que mantiveram quarta-feira  noite. Speranski repetira muitas vezes frases deste jaez: Entre ns considera-se tudo quanto ultrapassa o nvel dos hbitos inveterados..., ou ento, sorrindo: Mas ns outros queremos ao mesmo tempo que os lobos se saciem e os cordeiros fiquem intactos... , ou ainda: Eles no podem compreender isto... E falava num tom que queria dizer: Ns, isto , tu e eu, sabemos muito bem o que eles valem e quem ns somos, ns.
     Esta demorada conversa havia consolidado em Andr a impresso que Speranski lhe causara no primeiro dia em que lhe falara. Tinha-o por um esprito poderosamente lgico e pensante, um homem de alta inteligncia, que conseguira conquistar o poder  fora de energia e de vontade e que se no servia dessas qualidades seno para maior glria da Rssia. A seus olhos Speranski era precisamente o homem que ele prprio teria desejado ser, aquele que sabe joeirar na peneira da razo todas as manifestaes da viria, o homem que s considera digno de interesse o que  razovel e que a tudo aplica o mesmo metro-padro racional. Nas dedues de Speranski tudo se lhe apresentava to simples e claro que, sem dar por isso, estava sempre de acordo com ele. O facto de lhe fazer algumas objeces e de o discutir obedecia apenas ao desejo de se mostrar independente e de lhe fazer compreender que se no submetia a todas as suas opinies. Nele tudo estava certo, tudo era perfeito. Duas coisas, porm, perturbavam Andr: aquele olhar frio, glacial como o cristal de um espelho, que impedia que se lhe penetrasse na alma, e aquelas mos brancas e macias, que ele no podia deixar de contemplar como se contemplam as mos dos detentores do poder. Esse olhar com reflexos de cristal e essas mos macias exasperavam Andr. Desagradvel lhe era tambm o desprezo pelos homens que notara em Speranski e a variedade de argumentos de que lanava mo para apoiar as suas opinies. Utilizava todas as armas do raciocnio ao seu alcance, salvo a analogia, e essas suas transies de uma para outra linha de defesa afiguravam-se ao prncipe Andr demasiado violentas. Ora se instalava no plano prtico e censurava sonhadores, ora lanava mo da stira e varava, sarcstico, os adversrios, ora ainda se mostrava severamente lgico quando no ascendia repentinamente ao plano metafsico. E este processo de raciocnio era a sua arma favorita. Conduzia os problemas at aos altos paramos da metafsica, dava definies do espao, do tempo, do pensamento e, extraindo da argumentos polmicos, regressava ao terreno da discusso.
     Em suma, o trao principal desta inteligncia, aquele que mais vivamente impressionara o prncipe Andr, era a sua f incontestvel, inabalvel, no poder e nos direitos do esprito. Via-se perfeitamente que nunca lhe aflorara ao pensamento esta ideia, to familiar a Andr, segundo a qual nem sempre  possvel ao homem exprimir o que ele prprio pensa, nem jamais perguntara a si prprio se porventura tudo aquilo em que pensava, tudo aquilo em que acreditava no seriam, no fim de contas, puras tolices. E o certo  que esta forma particular do esprito de Speranski era a que mais seduzia o prncipe Andr.
     Nos primeiros tempos das suas relaes com este homem, o prncipe sentira por ele uma exaltao apaixonada muito parecida com a que alimentara outrora por Bonaparte. O facto de ser filho de um padre, circunstncia que levava muito tolo a olh-lo com desprezo, considerando-o membro de uma classe inferior, fazia que Andr se mostrasse circunspecto no seu entusiasmo, reforando-lhe inconscientemente os sentimentos que por ele nutria. Naquela primeira noite que estiveram juntos. Speranski, a, propsito da comisso encarregada da reviso das leis, contou-lhe que essa comisso existia h cento e cinquenta anos, que j custara milhes de rublos, nada tendo feito ainda, e que Rosenkampfse limitara a colar etiquetas em todos os artigos de legislao comparada.
     - E aqui tem para o que o Estado despendeu todos estes milhes! - disse ele, - Queremos dar ao Senado um poder judicirio novo e no temos leis. E  por isso mesmo que considero um crime ver afastadas do poder pessoas como o prncipe.
     Bolkonski respondeu que para tanto carecia de uma formao jurdica que no tinha.
     - Mas se ningum a tem, como queria t-la o prncipe?  um crculo vicioso, de que s  fora poderemos sair.
     
     Oito dias depois Andr era membro da comisso do Cdigo Militar, e - coisa com que no contava - chefe da seco da comisso de legislao. A pedido de Speranski consentiu em encarregar-se da primeira parte do Cdigo Civil. E, socorrendo-se do cdigo de Napoleo e das leis de Justiniano, meteu ombros  reviso do captulo respeitante aos direitos do homem.
     

     
     
     
     Captulo VII
     
     Dois anos antes, em 18O8. Pedro, no regresso da viagem que fizera aos seus domnios, vira-se, sem o pretender,  testa da franco-maonaria de Petersburgo. Organizou lojas capitulares e lojas funerrias, recrutou novos membros, tratou da unificao das diversas lojas e das actas que lhes competiam. Distribuiu donativos para a construo de templos e tanto quanto lhe foi possvel completou o produto de colectas, coisa em que geralmente os membros davam provas de avareza e pouca diligncia Quase s com dinheiro seu manteve a casa dos pobres fundada pela ordem em Petersburgo.
     Entretanto continuava a viver da mesma maneira, entre as mesmas tentaes e as mesmas manifestaes de libertinagem. Gostava de comer bem e de beber melhor e, conquanto considerasse o facto degradante e imoral, no podia abster-se de compartilhar dos prazeres dos celibatrios com quem se associava.
     Apesar do entusiasmo que punha no desempenho das suas mltiplas ocupaes. Pedro comeou a compreender, um ano decorrido, que o terreno da franco-maonaria em que assentava ps se lhe tornava menos firme quanto mais firmemente nele se procurava apoiar. Apercebia-se ainda de que, com o volver do tempo, mais difcil se tornava libertar-se. Ao entrar para a franco-maonaria tivera a impresso de pousar o p confiante na superfcie lisa de um pntano. E, mal o pousara, logo se sentira afundar. Para melhor experimentar a solidez do terreno, avanara o outro p e enterrara-se ainda mais, atolara-se, e agora patinhava, mergulhado at aos joelhos na lama do pntano.
     Jos Alexeievitch no estava em Petersburgo, ultimamente havia-se desinteressado das lojas da capital e nunca deixava Moscovo. Todos os membros das lojas eram indivduos com quem Pedro privava na sociedade e era-lhe difcil ver neles s irmos manicos, esquecendo serem tambm o prncipe B, ou Ivan Vassilievitch D., criaturas que ele geralmente conhecia por fracos caracteres e pessoas sem valor moral. Por debaixo dos aventais e das insgnias manicas via aparecer os uniformes e as condecoraes, a maior aspirao de tais criaturas. Muitas vezes, ao recolher as esmolas e ao complet-las com os vinte ou trinta rublos solicitados - era frequente uma dezena de membros, metade dos quais to ricos como ele prprio, deixarem a colecta em dbito -. Pedro lembrava-se do juramento manico em que cada irmo se compromete a dar todos os seus bens ao prximo, e na sua alma nasciam dvidas, que procurava desvanecer.
     Os irmos seus conhecidos dividiam-se, para ele, em quatro categorias. Da primeira faziam parte os que no participavam activamente quer nos assuntos das lojas, quer nos problemas da humanidade, exclusivamente ocupados no estudo dos mistrios da ordem, nos problemas relativos  Trindade Divina ou ao trplice princpio de todas as coisas - o enxofre, o mercrio e o sal - ou ainda ao significado do quadrado e das figuras simblicas do templo de Salomo. Pedro venerava esta categoria de irmos, a que pertenciam os mais antigos, e na qual, pensava, se inclua o prprio Jos Alexeievitch, embora no partilhasse das suas preocupaes. O lado mstico da franco-maonaria no lhe cativava as preferncias.
     Na segunda categoria considerava, consigo prprio, aqueles que se lhe assemelhavam, os que procuravam, que hesitavam, e que, sem terem achado na franco- maonaria um caminho direito e lmpido, persistiam na esperana de o vir a encontrar.
     No terceiro grupo inclua aqueles - e eram os mais numerosos - que no viam na ordem mais que as suas manifestaes exteriores e as cerimnias e que se consagravam ao cumprimento desses ritos sem se preocuparem com o seu contedo e o seu sentido oculto. Era o caso de Villarski e at do gro-mestre da loja principal.
     O quarto, por fim, abrangia igualmente grande nmero de irmos, nefitos sobretudo. Nele figuravam, consoante lhe fora dado observar, os que em nada acreditavam, nada desejavam, e que apenas se haviam filiado para conhecer os irmos ricos e poderosos, graas s suas relaes e  sua fidalguia, espcie muito abundante.
     Pedro comeava a sentir-se pouco contente com a actividade que desenvolvia. A maonaria, pelo menos a maonaria que tinha diante dos olhos, na maior parte dos casos afigurava-se-lhe no passar de um puro formalismo. Claro est que no pensava em atacar os fundamentos da prpria instituio, mas estava persuadido de que a maonaria russa ia por caminho errado e se afastava dos seus objectivos. Ris porque no fim do ano abalou para o estrangeiro na inteno de se iniciar nos altos mistrios da ordem.
     No Vero de 1809. Pedro estava de regresso a Petersburgo. Os pedreiros-livres russos haviam sabido, atravs dos seus correspondentes no estrangeiro, que Bezukov conquistara a confiana de vrios altos dignitrios, fora iniciado num grande nmero de mistrios e tinha sido promovido aos graus mais elevados, regressando cheio de projectos teis  maonaria russa. Os irmos de Petersburgo todos se apressaram em visit-lo, procurando conquistar-lhe a simpatia e ficaram persuadidos de que ele lhes reservava qualquer surpresa.
     Convocou-se a reunio solene de uma loja do segundo grau, onde Pedro prometera comunicar a mensagem, de que era portador, destinada aos irmos de Petersburgo, da parte dos altos dignitrios da ordem. A sesso era plenria. Aps as cerimnias habituais. Pedro levantou-se e principiou:
     Queridos irmos!, disse, corando e gaguejando, com o discurso escrito na mo, no basta cumprir os nossos mistrios no segredo da loja,  preciso agir.., sim, agir. Estamos neste momento adormecidos e precisamos de agir.
     Pegou nas folhas e ps-se a ler:
     A fim de espalhar a verdade pura e de conseguir o triunfo da virtude, devemos libertar os nossos semelhantes dos preconceitos, difundir regras de acordo com o esprito do nosso tempo, darmo-nos  tarefa de instruir a mocidade, unirmo-nos por laos indissolveis aos espritos mais esclarecidos, vencer, ao mesmo tempo corajosos e prudentes, a superstio, a incredulidade e a estultcia, formando, entre aqueles que nos so dedicados, pessoas ligadas entre si pela unidade do objectivo e dispondo do poder e da fora. Para alcanar esta finalidade  Preciso que a virtude prevalea sobre o vcio e que o homem de bem receba j neste mundo recompensa eterna das suas virtudes. Mas a verdade  que a estes altos desgnios se ope um grande nmero de instituies polticas externas. Que fazer em tal estado de coisas? Favorecer as revolues, arrasar tudo, usar da fora contra a fora?... No, isso no est nos nossos desgnios. Todas as reformas impostas pela violncia so censurveis, pois nunca corrigiro o mal enquanto os homens continuarem a ser o que so e visto que a prudncia dispensa perfeitamente a violncia. A nossa ordem deve procurar formar homens decididos, virtuosos e unidos pela identidade de convico, a qual consiste em querer, por toda a parte e com todas as suas foras, castigar o vcio e a estultcia e proteger o talento e a virtude, numa palavra, arrancar da lama os que disso so dignos, para os associarmos  nossa ordem. S ento a nossa instituio ter o poder de amarrar insensivelmente as mos dos fautores da desordem e de os dirigir sem que eles prprios dem por isso. Em resumo, seria preciso estabelecer uma forma de governo universal e dirigente capaz de se propagar pelo mundo inteiro, sem no entanto romper os laos civis dos vrios Estados, e sob cuja gide todos os demais governos continuariam a existir de acordo com a sua lei habitual, em tudo livres na sua aco, excepto em oporem-se ao fim supremo da nossa ordem, o qual  o de procurar que a virtude triunfe do vcio. Esse o objectivo do prprio cristianismo. Foi ele que ensinou os homens a ser prudentes e bons e a seguirem, para seu bem, o exemplo e as lies dos melhores e dos mais prudentes.
     No tempo em que tudo estava mergulhado nas trevas bastava exortao s por si. O ineditismo da verdade proclamada dava-lhe uma fora especial; mas hoje precisamos de meios muito mais poderosos. Actualmente  necessrio que o homem, guiado pela sua prpria sensibilidade, encontre na virtude como que um encanto sensual. No  possvel extirpar as paixes. Temos de limitar-nos a dirigi-las para uma finalidade nobre e  por isso que cada um de ns deve poder dar-lhes satisfao nos limites da virtude e a nossa ordem estar pronta a proporcionar-nos os meios.
     Logo que haja em cada Estado um certo nmero de homens dignos de ns, cada um deles se encarregar de formar outros iguais a si: todos acabaro por estar estreitamente unidos e ento tudo ser possvel na nossa ordem, a qual, em segredo, j tanto conseguiu para bem da humanidade.
     O discurso provocou na loja no s uma forte impresso, mas tambm uma certa emoo. Reconhecendo nas doutrinas expostas as perigosas teorias do iluminismo, a maioria acolheu-o com uma frieza que surpreendeu Pedro. O gro-mestre procurou refut-lo. Pedro, cada vez mais caloroso, ps-se a desenvolver as suas ideias. Havia muito que se no assistia a uma sesso to tempestuosa. Formaram-se partidos: uns atacavam Pedro, acusando-o de iluminismo; outros defendiam-no. Foi a primeira vez que este se deu conta da diversidade infinita dos espritos, razo pela qual nenhuma verdade  vista do mesmo aspecto por duas pessoas. At mesmo aqueles que pareciam seus partidrios o compreendiam  sua maneira, sugerindo-lhe restries, modificaes com que ele no podia estar de acordo, uma vez que o seu objectivo principal era precisamente o de transmitir as suas ideias tal qual ele prprio as concebera.
     No fim da sesso o gro-mestre deu-lhe a entender, com alguma malevolncia e num toro irnico, que ele se exaltara de mais e que fora antes o entusiasmo da discusso que o amor da virtude que o determinara. Pedro no respondeu e em poucas palavras perguntou se a sua proposta era aceite. Como lhe respondessem negativamente, saiu sem aguardar as formalidades ordinrias e voltou para casa.
     

     
     
     
     Captulo VIII
     
     Pedro viu-se de novo assaltado pelo tdio que tanto receava. Nos trs dias que se seguiram ao discurso que proferira na loja esteve estendido num div sem receber ningum e sem ir a parte alguma.
     Foi nessa altura que recebeu uma carta da mulher pedindo-lhe uma entrevista. Queixava-se da mgoa que aquele apartamento lhe causava e dizia-se disposta a consagrar-lhe, da para o futuro, toda a sua existncia.
     No fecho da carta anunciava-lhe chegar dentro de dias a Petersburgo, de regresso do estrangeiro.
     Pouco depois, um dos menos estimados entre os irmos manicos de Pedro forava-lhe o isolamento, e, conduzindo a conversa para o captulo da sua vida conjugal, insinuava-lhe, como se fosse um irmo que lhe falasse, quanto era injusta a sua dureza para com a esposa e que procedendo desse modo se mostrava em contradio com a regra essencial da maonaria segundo a qual devamos perdoar a quem se arrepende.
     Por essa altura tambm a sogra, a mulher do prncipe Vassili, lhe mandara recado a pedir-lhe que a visitasse, por pouco tempo que fosse, pois queria falar-lhe de coisas muito importantes. Pedro percebeu existir uma conjura e que o queriam reconciliar com a mulher e a verdade  que no estado moral em que se encontrava nem sequer achou o caso desagradvel. Tudo lhe era indiferente. Nada lhe parecia de grande importncia na vida, e sob a influncia do tdio que o atormentava no procurava defender a sua independncia nem sequer j pensava na resoluo que tomara de castigar a mulher.
     Ningum tem razo, ningum  culpado; talvez que ela prpria no seja culpada, dizia de si para consigo.
     Se no cedeu imediatamente, aceitando desde logo uma reconciliao, foi apenas porque no estado de apatia moral em que se encontrava no tinha foras para fazer fosse o que fosse. Se a mulher viesse naquele momento ao seu encontro, seria certo que a no afastaria de si. Pois no lhe era indiferente, perante as preocupaes que o absorviam, viver ou no com ela?
     Sem responder nem  mulher nem  sogra, um dia, j noite fechada, meteu-se a caminho de Moscovo ria inteno de consultar Jos Alexeievitch. Eis o que anotou no seu dirio:
     
     Moscovo, 17 de Novembro.
     Acabo de sair de casa do Benfeitor e dou-me pressa em registar as minhas impresses a esse respeito. Jos Alexeievitch vive pobremente e h j trs anos que sofre muito com uma doena de bexiga. Ningum lhe ouviu ainda uma queixa ou um murmrio. Desde manh at noite alta, exceptuando as horas em que toma os seus mais que frugais repastos, est todo entregue a trabalhos cientficos. Recebeu-me afectuosamente e mandou-me sentar na cama em que ele prprio estava estendido. Fiz-lhe o sinal dos cavaleiros do Oriente e de Jerusalm, a que ele me respondeu no mesmo estilo e com o seu meigo sorriso perguntou-me o que tinha eu aprendido nas lojas da Prssia e da Holanda. Contei-lhe tudo quanto sabia, expus-lhe as ideias que desenvolvera na nossa loja de Petersburgo e contei-lhe o mau acolhimento que a encontrara e o meu rompimento com os irmos. Jos Alexeievitch, depois de muito ter reflectido em silncio, exps-me o seu ponto de vista, o qual iluminou instantaneamente todo o meu passado e o caminho que doravante se abria diante de mim. Fiquei surpreendido ao perguntar-me se eu me lembrava do trplice objectivo da ordem: 1 a conservao e o estudo dos mistrios; 2 a purificao e a regenerao de ns prprios com vista a podermos participar desses mistrios, e 3 o aperfeioamento do gnero humano graas aos esforos feitos em vista desta purificao. Qual destes objectivos  o mais importante e o primeiro deles? Claro est que a emenda e a purificao de ns prprios.  este o nico que ns sempre nos podemos esforar por conseguir, independentemente de todas as circunstncias. Ao mesmo tempo, porm,  ele que exige de ns os maiores esforos: eis porque, desorientados pelo orgulho, deixamos de lado este objectivo essencial e nos consagramos quer ao conhecimento dos mistrios que no nosso estado de impureza no somos dignos de compreender, quer ao aperfeioamento do gnero humano, quando o certo  que ns prprios estamos a ser exemplo de indignidade e de perverso. O iluminismo no  boa doutrina precisamente porque os seus adeptos se deixaram levar pelo desejo de desempenhar um papel social e  o orgulho que os domina. Desse ponto de vista Jos Alexeievitch censurou o meu discurso e tudo quanto eu fizera. No fundo da minha alma senti-me de acordo com ele.
     A respeito da minha vida familiar, eis o que ele me disse: O principal dever do franco-mao, como acabo de lhe dizer, est no aperfeioamento de si prprio. Muitas vezes, porm, julgamos poder alcanar mais depressa este objectivo afastando de ns todas as dificuldades da vida.  o contrrio, meu caro senhor, afirmou,  no meio da agitao do mundo que ns podemos alcanar os nossos trs objectivos: 1 o conhecimento de ns mesmos, pois o homem no pode conhecer-se verdadeiramente seno por comparao; 2 o aperfeioamento, que se no alcana seno na luta; 3 a virtude suprema, que  o amor da morte. S as vicissitudes da vida nos podem mostrar toda a vaidade desta, contribuindo para nos inspirar o amor da morte, isto , o desejo da ressurreio numa nova vida.
     Estas palavras eram tanto mais extraordinrias quanto  certo Jos Alexeievitch, apesar de todos os seus sofrimentos fsicos, nunca sentir o peso da existncia, mas amar a morte, para a qual, apesar de toda a sua pureza e toda a sua sublimidade, ainda se no sentia suficientemente preparado. Em seguida o Benfeitor explicou-me por completo o significado do grande quadrado da criao e demonstrou-me que os algarismos 3 e 7 so o fundamento de tudo quanto existe. Aconselhou-me a que no renunciasse a todas as relaes com os meus irmos de Petersburgo e, conquanto me limitasse a desempenhar na loja funes de segunda ordem, que me devia esforar por desvid-1os dos caminhos do orgulho, trazendo-os para a verdadeira senda do conhecimento e do aperfeioamento de ns prprios.
     Alm disso, a mim, pessoalmente, aconselhou-me a que antes de mais nada me observasse a mim mesmo e nessa inteno ofereceu-me um caderno - este mesmo em que neste momento escrevo -, onde de futuro registarei todos os meus actos.
     
     
     Petersburgo, 23 de Novembro.
     Voltei a viver com minha mulher. Minha sogra, toda chorosa, veio a minha casa e disse-me que a Helena se encontrava em Petersburgo e me implorava que a ouvisse, que estava inocente, que era infeliz abandonada por mim e mais muitas outras coisas. Eu sabia que desde que consentisse em tornar a v-la no teria coragem para resistir s splicas que me fizesse. Sem saber que fazer, perguntava a mim mesmo a quem pediria socorro e conselho. Se o Benfeitor aqui estivesse, ter-me-ia guiado. Recolhi-me em mim mesmo, reli as cartas de Jos Alexeievitch, recordei as nossas conversas e conclu que se no me devia negar a quem pede, antes estender a todos mo caritativa, com mais razo o devia fazer a uma pessoa que me estava ligada por laos to estreitos, no me furtando  minha cruz. Mas j que  em nome do triunfo da virtude que eu lhe perdoo, ao menos que a minha unio com ela tenha apenas finalidade espiritual. Tomei esta resoluo e dei parte dela a Jos Alexeievitch. Pedi a minha mulher que esquecesse todo o passado, que me perdoasse aquilo em que eu tivesse andado mal para com ela e que pela minha parte nada tinha a perdoar-lhe. Sentia-me feliz por lhe falar nestes termos. Que ela no saiba quanto me foi penoso tornar a v-la. Instalei-me nos andares superiores da nossa casa e a felicidade que sinto neste momento  a de algum que de novo recomeou a vida.
     

     
     
     
     Captulo IX
     
     A alta sociedade que se reunia quer na corte, quer nos grandes bailes dividia-se ento, como sempre, de resto, em vrios crculos, cada um com a sua fisionomia prpria. O mais numeroso era o francs - partidrio da aliana com Napoleo -, o do conde Rumiantsov e Caulaincourt. Helena passou a ocupar neste crculo um dos lugares mais em evidncia assim que veio reinstalar-se em Petersburgo com o marido. A gente da Embaixada de Frana, e grande nmero de pessoas, notveis pelo seu esprito e pela sua polidez, que faziam parte da mesma sociedade, frequentaram os sales da condessa,
     Helena encontrava-se em Erfurth aquando da famosa entrevista dos imperadores e foi a que encetou as suas relaes com todos os nomes ilustres da Europa e do meio napolenico. Brilhante fora o seu xito. Napoleo, que a vira no teatro, dissera dela:  um soberbo animal. Estes xitos de mulher bela e elegante no surpreenderam Pedro, pois, com os anos, tornara-se ainda mais formosa. Grande foi, porm, a sua surpresa ao verificar que naqueles dois anos ela arranjara maneira de gozar da reputao de uma mulher encantadora, to espiritual quo bela. O famoso prncipe de Ligne escrevia-lhe cartas de oito pginas. Bilibine reservava as primcias dos seus ditos de esprito para a condessa Bezukov. O ser-se admitido nos seus sales equivalia a receber diploma de pessoa de esprito. Os jovens liam livros de propsito antes de se apresentarem nas suas recepes, para assim disporem de um assunto de conversa, e os secretrios de embaixada, e por vezes os prprios embaixadores, confiavam-lhe segredos diplomticos, de tal sorte que Helena, no seu gnero, era um verdadeiro potentado. Pedro, que a tinha por muito estpida, assistia por vezes, num estranho misto de perplexidade e de receio, s recepes e aos jantares que ela dava e em que se falava de poltica, de poesia ou de filosofia. Experimentava um sentimento semelhante ao do prestidigitador que espera a todo o instante ver descoberto o truque de que usa. Ou porque a estupidez fosse precisamente o que convinha para dirigir um salo deste gnero ou porque os logrados sentissem prazer em se deixar iludir, o certo  que o truque no era descoberto e a reputao de mulher encantadora e espiritual to solidamente se arreigara  personalidade de Helena Vassilievna Bezukov que ela podia pronunciar as maiores necedades e as mais rotundas tolices que nem por isso os seus admiradores deixavam de se extasiar perante o que ela dizia, dando-se ao cuidado de atribuir a cada uma das suas palavras um sentido profundo, sentido que ela prpria estava longe de suspeitar.
     Pedro, eis o marido talhado para esta brilhante mundana. Era o original distrado, o esposo fidalgo, que no incomodava ningum, e no s no estragava a impresso geral do alto tom do salo, mas, antes pelo contrrio, merc do contraste que estabelecia com a distino e o tacto da mulher, lhe servia de vantajoso pano de fundo. No decorrer desses dois anos, a contnua conteno de esprito a que se obrigara na familiaridade com as coisas abstractas, o seu perfeito desdm por tudo o mais levara-o a assumir nesta sociedade bem pouco interessante para ele um certo tom de indiferena, de desprendimento e de indulgncia para com tudo - coisa que se no adquire artificialmente - que no deixava de inspirar respeito. Entrava no salo da mulher como um actor que entra no palco, conhecia toda a gente, a todos acolhia bem, mantendo-se a igual distncia de todos. Por vezes participava numa conversa que o interessava, e ento, sem se preocupar em saber se os cavalheiros da Embaixada estavam ou no presentes, exprimia, tartamudeando, ideias que frequentemente eram muitssimo contrrias ao tom da ocasio. Porm a opinio acerca do original marido de a mulher mais distinta de Petersburgo to radicada estava que ningum tomava a srio as suas inconvenincias.
     Entre os numerosos jovens que frequentavam assiduamente os sales de Helena um dos mais ntimos, aps o regresso de Erfurth, era Bris Drubetskoi, que j ento fizera uma brilhante carreira. Helena chamava-lhe o meu pagem e tratava-o como se ele fosse uma criana. Os sorrisos que lhe dirigia eram iguais aos que dirigia a todos os outros, e no entanto Pedro por vezes sentia-se perante eles desagradavelmente impressionado. Bris testemunhava ao marido de Helena uma deferncia especial, cheia de dignidade e como que de compaixo, e punha nisso uma nuance que ainda mais inquietava Pedro. Este sofrera tanto, trs anos antes, com a ofensa que recebera da esposa que procurava agora evitar um ultraje semelhante, em primeiro lugar mantendo-se como se no fosse marido da mulher e em seguida no se permitindo a si prprio suspeitar da sua conduta.
     Sim, agora que ela armou em bas-bleu,  porque renunciou para sempre aos desvarios de outrora, dizia para si mesmo. No h exemplo de uma bas-bleu se abandonar a desvarios do corao, repetia, desenterrando, nem ele sabia donde, este axioma a que se agarrava com unhas e dentes. No entanto, coisa estranha, a presena de Bris no salo da mulher, onde era visto a todo o instante, exercia sobre ele um efeito quase fsico: paralisava-o de braos e pernas, suprimia-lhe o automatismo dos movimentos e dos gestos.
     Que curiosa antipatia, dizia consigo mesmo; no entanto, antigamente at gostava dele, e mesmo muito.
     Eis como, aos olhos do mundo. Pedro passava por um grande senhor, marido, um pouco mope e ridculo, de uma mulher clebre, um original espiritual que nada fazia, mas que, por isso mesmo, no fazia mal a ningum, um fraco e pobre diabo. Contudo na alma de Pedro ia-se realizando, entretanto, um trabalho complicado e difcil de desenvolvimento interior, que lhe abria largos horizontes e o conduzia, ao mesmo tempo que a no poucas dvidas, a muitas alegrias morais.
     

     
     
     
     Captulo X
     
     Prosseguindo no seu dirio, eis o que ele escrevia por essa altura:
     
     24 de Novembro.
     Levantei-me s oito horas, li as Sagradas Escrituras, depois fui  minha reunio. [Pedro, a conselho do Benfeitor, consentira em fazer parte duma comisso.] Voltei para jantar. Comi s. A condessa tem muitos convidados que a mim me so desagradveis. Comi e bebi moderadamente e depois da refeio copiei documentos para os irmos. A noite desci aos sales da condessa; contei ali uma divertida histria acerca de B, e tarde de mais  que reconheci, em virtude das grandes gargalhadas de toda a gente, que no devia ter contado a histria.
     Deito-me, sereno e feliz de esprito. Senhor Todo- Poderoso, ajuda-me a seguir pelas Tuas sendas, isto : 1.o a dominar os meus ataques de clera, graas  cordura e  pacincia; 2.o a vencer a luxria, graas  continncia; 3.o a afastar-me das agitaes mundanas, embora no abandonando: a) os negcios pblicos; b) os interesses de famlia; c) as relaes de amizade, e d) os assuntos econmicos.
     
     
     27 de Novembro.
     Levantei-me tarde, e, uma vez acordado, fiquei muito tempo na cama, por preguia.  meu Deus! Ajuda-me e fortalece-me, para que eu possa caminhar pelas Tuas sendas. Li as Sagradas Escrituras, mas sem o recolhimento necessrio. O irmo Urussov apareceu, falmos das vaidades deste mundo. Referiu-se aos novos projectos do imperador. Principiei por critic-los, mas lembrei-me das regras e do que me disse o Benfeitor, que o verdadeiro irmo manico deve ser zeloso instrumento do Estado quando lhe pedem o seu concurso e espectador passivo do que lhe no diz respeito. A minha lngua  a minha maior inimiga. Os irmos G. V, e O, tambm apareceram. Tivemos uma conversa preambular sobre a admisso de um novo irmo. Confiaram-me as funes de reitor. Sinto-me indigno e incapaz, de bem desempenhar esse cargo. Falmos depois da interpretao das sete colunas e dos degraus do templo, das sete cincias, das sete virtudes, dos sete vcios, dos sete dons do Esprito Santo. O irmo O, foi muito eloquente. A noite houve recepo. As novas instalaes concorreram largamente para a magnificncia do espectculo. Foi Bris Drubetskoi o irmo recebido. Coube-me ser seu padrinho e igualmente seu reitor. Um estranho sentimento me agitou durante todo o tempo em que estive com ele no templo obscuro. Surpreendi-me a sentir por ele um dio que debalde procurei dominar. E, no entanto, sinceramente, desejaria salv-lo do mal e conduzi-lo ao caminho da verdade, mas os maus pensamentos no me abandonavam. Para comigo dizia que, ao filiar-se, o seu objectivo no era outro seno aproximar-se de certas pessoas, de ganhar as boas graas daqueles que pertencem  nossa loja. Efectivamente, por mais de uma vez perguntou se Fulano ou Sicrano no faziam parte da loja, coisa que alis eu lhe no pude confirmar. Como me foi dado observar,  com toda a certeza incapaz de ter respeito pela nossa santa ordem e est por de mais preocupado com a sua pessoa fsica e por de mais satisfeito consigo mesmo para aspirar a qualquer aperfeioamento moral. No entanto no tenho razes especiais para duvidar dele. Pareceu-me, todavia, pouco sincero e durante todo o tempo em que esteve sozinho comigo no templo obscuro afigurou-se-me que sorria com desdm dos meus discursos e no me faltaram desejos de lhe trespassar a valer o peito nu com a espada que nele apoiava. No me pude mostrar eloquente, mas, sinceramente, no podia dar parte das minhas dvidas aos irmos e ao gro-mestre.  Grande Arquitecto do Universo, ajuda-me a encontrar as verdadeiras sendas que me faro sair do labirinto da mentira.
     
     Trs pginas em branco se sucediam. Depois estava escrito o seguinte:
     
     Tive uma longa e instrutiva conversa em segredo com o irmo V., que me aconselhou a que me acautelasse com o irmo A. Muitas coisas me foram reveladas, ainda que eu seja indigno delas. Adonais  o nome daquele que criou o mundo. Eloim  o nome do que dirige todas as coisas.
     O terceiro nome  aquele que se no pronuncia: significa o Todo. As minhas conversas com o irmo V, fortalecem-me, iluminam-me e consolidam-me no caminho da virtude. Nele a dvida no existe. Vejo claramente a diferena que lia entre as pobres cincias que se ensinam no mundo e a nossa santa doutrina, que abarca tudo. As cincias humanas fragmentam tudo para compreenderem, matam tudo para examinarem. Na santa cincia da nossa ordem tudo  uno, tudo  inteligvel na sua complexidade, na sua vida. A trade, os trs elementos das coisas, so o enxofre, o mercrio e o sal. O enxofre tem ao mesmo tempo as propriedades do azeite e do fogo; junto ao sal excita nele, graas ao fogo que encerra, o desejo, por meio do qual atrai o mercrio, o apanha, o retm e produz com ele corpos distintos.
     O mercrio  a essncia espiritual no estado lquido e gasoso.  o Cristo, o Esprito Santo, o Ser.
     
     
     3 de Dezembro,
     Acordei tarde, li as Sagradas Escrituras mas fiquei insensvel. Em seguida sa do meu quarto e passeei de um lado para o outro no salo. Queria meditar, mas em vez disso a minha imaginao representou-me um facto ocorrido h quatro anos. Encontrando-me em Moscovo, depois do duelo. Dolokov disse-me que esperava que eu usufrusse agora de uma perfeita quietude da alma, apesar da ausncia de minha mulher. No lhe respondi ento; mas agora lembro-me de todos os pormenores dessa conversa e mentalmente dirijo-lhe as diatribes mais malvolas e as palavras mais custicas. Refiz-me e sacudi de mim estes pensamentos, mas no me arrependi devidamente. Depois apareceu Bris Drubetskoi e ps-se a contar diversas anedotas. No lhe mostrei boa cara e dirigi-lhe mesmo algumas palavras pouco amveis. Respondeu-me. Exaltei-me e disse-lhe uma srie de coisas desagradveis e at mesmo descorteses. Calou-se; eu quis fazer esquecer as minhas palavras, mas j era tarde de mais. Meu Deus, no consigo saber comportar-me para com ele. A causa est no meu amor-prprio. Considero-me muito acima dele, de modo que a minha conduta  bem pior do que a sua. Ele mostra-se indulgente para com a minha grosseria, enquanto eu, pelo contrrio, s mostro desdm para com ele. Meu Deus, permite que eu diante dele veja melhor a minha indignidade e que proceda de modo a ser til, at mesmo a ele. Depois de jantar passei pelo sono, durante o qual ouvi distintamente uma voz que me dizia ao ouvido esquerdo: Chegou a tua hora.
     Sonhei que caminhava na escurido e que de sbito me via rodeado de ces. Nem por isso caminhava com menos medo. De repente um cachorrinho deitou-me os dentes  barriga da perna esquerda e no me largava. Lancei-lhe as mos ao pescoo e estrangulei-o. Mal me libertara de um, logo outro, muito maior, me ferra os dentes. Agarro-o, e quanto mais o levanto no ar mais pesado e maior ele se torna. De sbito aparece o irmo A., que me pega por debaixo dos braos, me leva consigo e me conduz a um edifcio onde se no pode entrar seno depois de se atravessar uma prancha muito estreita. Quando principiei a andar por cima dela, a prancha oscilou e caiu e eu trepei por uma paliada a que dificilmente me podia agarrar. Depois de grandes esforos consegui iar o corpo de tal sorte que fiquei com as pernas de um lado e o tronco do outro. Voltei-me e vi o irmo A., de p em cima da paliada, apontando-me uma grande avenida e um parque no qual havia uma bela e imponente construo. Acordei. Senhor. Grande Arquitecto do Universo, ajuda-me a ver-me livre destes ces, que, so as minhas paixes, e do ltimo, de entre todos aquele que, em si concentra a potncia de todos os demais. Ajuda-me a penetrar nesse templo da virtude cuja viso eu tive no meu sonho.
     
     
     7 de Dezembro.
     Sonhei que Jos Alexeievitch estava em minha casa e eu me sentia feliz e muito desejava trat-lo bem. Mas como eu tagarelava indefinidamente com estranhos e de mbito me lembrei de que isso lhe era desagradvel, tive vontade de me aproximar dele e de o apertar nos meus braos. Porm, ao aproximar-me, vi que o seu rosto se transfigurava, remoando, e ouvi algumas palavra mas em voz muito baixa sobre a doutrina da ordem, e to baixa que o no pude compreender. Em seguida samos todos da sala e ento aconteceu qualquer coisa muito curiosa. Estvamos sentados, uns, ou deitados no cho, outros. E ele falava-me. Mas eu, querendo mostrar-lhe a minha sensibilidade, sem prestar ateno s suas palavras, pus-me a evocar dentro de mim o estado do meu ser interior e a graa de Deus que me inunda. E ento os olhos encheram-se-me de lgrimas e muito feliz me senti por ele ter visto que eu chorava. Mas lanou-me um olhar de descontentamento e afastou-se de mim, interrompendo a conversa. Senti-me intimidado e perguntei-lhe se era de mim que ele tinha querido falar. No me respondeu, mostrou-me uma expresso amvel e depois, repentinamente, surpreendemo-nos no meu quarto, onde h uma cama de casal. Deitou-se ele  beira da cama e eu, que senti desejos de por ele ser acariciado, estendi-me tambm a seu lado. E eis que ele me interroga: Diga-me a verdade, qual  a sua maior paixo? Sabe qual ? Creio que j a conhece. Perturbado com a pergunta, redargui-lhe que a preguia era a minha maior paixo. Abanou a cabea, incrdulo. Ento respondi-lhe, cada vez mais perturbado, que, embora estivesse com minha mulher, como ele me aconselhara, no vivia com ela maritalmente. A isto ele objectou que eu no devia privar minha mulher das minhas carcias. Deu-me a entender ser essa a minha obrigao. Eu, porm, respondi-lhe que tinha vergonha, e de repente tudo desapareceu. Acordei e veio-me  memria este passo das Sagradas Escrituras: E a vida era a luz dos homens. E a luz brilhou nas trevas e as trevas no a receberam. O rosto de Jos Alexeievitch resplandecia de juventude. Nesse mesmo dia recebi uma carta do Benfeitor a propsito dos deveres conjugais.
     
     
     9 de Dezembro.
     Tive um sonho que me fez acordar com o corao febril. Sonhei que estava na minha casa de Moscovo, deitado num div, e que Jos Alexeievitch saa do salo. Vi imediatamente que se havia operado nele como que uma ressurreio e corri ao seu encontro. Beijei-lhe a cara e as mos e ele disse-me: Notaste que a minha cara no  a mesma? Olhei-o mantendo-o apertado nos meus braos, e vi que ele tinha cara de mulher, mas que lhe faltavam os cabelos e que mudara por completo de fisionomia. E disse-lhe ento: T-lo-ia reconhecido apesar de tudo se o tivesse encontrado por acaso. E, entretanto, para mim mesmo murmurava: Estarei a dizer a verdade? E de sbito vi-o diante de mim estendido como um cadver; depois, pouco a pouco, voltou a si, e entrou comigo no meu espaoso gabinete tendo na mo um grande livro pintado, de folhas de papiro. E eu disse-lhe: Fui eu quem o pintou. E ele respondeu-me com um aceno de cabea. Abri o livro; em todas as suas pginas havia lindos desenhos. E eu sabia que esses desenhos representavam as aventuras amorosas da alma com aquele a quem a alma ama. Numa das pginas vi uma linda imagem de uma virgem, com vestes transparentes, a erguer-se nas nuvens. E eu sabia que essa virgem mais no era que uma representao do Cntico dos Cnticos. E, ao contemplar esses desenhos, sentia perfeitamente que estava fazendo mal, mas no podia desprender deles os olhos. Senhor, ajudai-me!  meu Deus! Se o abandono a que me votas  obra Tua, que seja feita a Vossa vontade. Mas, se sou eu a sua causa, ensina-me o que devo fazer. Morrerei vtima da minha depravao se me abandonas completamente.
     

     
     
     
     Captulo XI
     
     A situao econmica dos Rostov no melhorara no decurso dos dois anos que haviam passado no campo. Embora Nicolau, obstinado na sua resoluo, continuasse a sua obscura carreira num regimento desconhecido, gastando relativamente pouco, o certo  que o gnero de vida que a famlia levava em Otradnoie era o que sempre fora. Alm disso. Mitenka, to bem ou to mal conduzia os negcios que as dvidas aumentavam de ano para ano. O velho conde s via uma maneira de salvar a situao: aceitar um cargo, e ei-lo que vai para Petersburgo em cata de um lugar. Procurava um lugar, mas, assim o dizia, ao mesmo tempo fazia por divertir as pequenas pela ltima vez. Pouco depois de chegarem a Petersburgo. Berg pediu a mo de Vera e o pedido foi aceite.
     Em Moscovo os Rostov faziam parte da alta sociedade sem darem por isso e sem perguntarem a si prprios de que sociedade faziam parte. Em Petersburgo, porm, a sua situao era incerta e pouco definida. Provincianos, no eram visitados pela mesma gente que em Moscovo teria jantado  custa dos Rostov nem eles previamente perguntaram a que sociedade pertenciam. Viviam em Petersburgo to faustosamente como em Moscovo e os seus jantares reuniam as mais variadas personagens: vizinhos do campo, velhos proprietrios rurais pouco abastados com suas filhas, a dama de honor Peronskaia. Pedro Bezukov e o filho de um mestre-escola do distrito empregado na capital. No tardou que os ntimos dos Rostov fossem Bris. Pedro, a quem o velho conde trouxera consigo certa vez que o encontrara na rua, e Berg, que passava dias inteiros l em casa prestando  filha mais velha dos Rostov, a condessa Vera, as homenagens que habitual- mente presta  noiva o rapaz com intenes matrimoniais.
     Berg mostrava com orgulho a toda a gente o brao direito ferido em Austerlitz. A mo esquerda apoiava-a num sabre que para nada lhe servia. To obstinadamente decidira contar o seu feito a qualquer que lhe aparecia, e to grande era a importncia que lhe atribua, que acabara por fazer que os outros acreditassem na autenticidade e no valor do seu acto, e o certo  que, graas a essa proeza, obtivera duas condecoraes.
     Tivera igualmente ocasio de se distinguir na guerra da Finlndia. Apanhara um estilhao de obus que acabava de matar um ajudante-de-campo junto do general-chefe e entregara-o ao comandante. E exactamente como acontecera com o caso de Austerlitz, com tantos pormenores e to insistentemente relatara o facto que toda a gente acabou por acreditar tratar-se de um acto exemplar e, finda que foi a guerra da Finlndia, l lhe foram concedidas mais duas condecoraes. Em 1809 era capito da Guarda, com o peito constelado de veneras, e em Petersburgo desempenhava um cargo bem remunerado.
     Havia cpticos que costumavam sorrir sempre que diante deles se falava dos mritos de Berg, mas ningum se atrevia a dizer que ele no era um soldado pontual e corajoso, muito bem visto pelos seus superiores, moo de ptima moralidade, com uma carreira brilhante diante de si e at mesmo uma slida situao na sociedade.
     Quatro anos antes, ao encontrar na plateia de um teatro de Moscovo um dos seus camaradas alemes, apontara-lhe Vera Rostov, dizendo-lhe, em alemo: Aquela ser minha mulher. E a partir desse momento a sua resoluo estava tomada. Actualmente, em Petersburgo, comparando a posio dos Rostov com ,, sua prpria, decidira que o momento tinha chegado e fizera o seu pedido.
     A proposta de Berg principiara por ser acolhida com um espanto pouco lisonjeiro para ele. Considerava-se um pouco estranho que o filho dum obscuro fidalgo da Livnia pedisse em casamento uma condessa Rostov, mas o trao principal do carcter de Berg era o egosmo, um egosmo to ingnuo e inofensivo que os Rostov, inconscientemente, concluram tudo estar certo, visto ele prprio disso se mostrar firmemente convencido. Para mais, to abalada estava a fortuna da famlia que o noivo no podia ignorar a situao. E a verdade  que Vera tinha vinte e quatro anos, aparecia muito em sociedade, e, embora bonita e sensata, ainda ningum se lembrara de lhe fazer a corte. A proposta foi aceite.
     Ests a ver, dizia Berg ao camarada, a quem s dava o nome de amigo pela simples razo de que era natural que tivesse pelo menos um. Ests a ver, examinei o caso por todos os lados. No me teria casado se no tivesse feito convenientemente todos os meus clculos e se no chegasse  concluso de que o passo no tinha desvantagens para mim. Pelo contrrio. Actualmente meus pais gozam de uma situao desafogada, desde que eu lhes arranjei uma quinta nos pases blticos. Ora eu posso viver perfeitamente em Petersburgo com o meu soldo, a fortuna dela e o meu esprito de economia. Podemos viver mesmo muito bem. No me caso por causa do dinheiro: acho isso pouco nobre. Mas  bom que a mulher contribua com a sua quota-parte e o marido com a dele. Eu tenho as minhas funes a desempenhar, ela as suas relaes e uma pequena fortuna. Nos tempos que correm isto no  coisa para desdenhar, no  verdade? E o principal  uma pessoa casar com uma linda e honesta rapariga, e ela gostar de ns...
     Berg, ao dizer isto, sorriu, corando.
     E eu tambm gosto dela, pois acho-lhe um carcter srio e excelente. E a tens, por exemplo, a irm: essa  muito diferente, tem um carcter desagradvel, falta-lhe bom senso e no sei que h nela, no atrai... Enquanto que a minha noiva... Espero que venhas a nossa casa..., ia a dizer jantar, mas conteve-se, ...tomar ch, e, graas a um especial movimento da lngua, emitiu um pequeno arco de fumo de tabaco, emblema perfeito de todos os seus sonhos de felicidade.
     Uma vez passado o primeiro momento de embarao provocado pelo pedido de Berg, a famlia, como  costume em casos tais, entrou numa quadra de festas e alegria, embora de alegria pouco sincera e toda exterior. Os pais pareciam constrangidos e um pouco envergonhados. Receavam deixar transparecer que gostavam pouco de Vera e que lhes no era desagradvel verem-se livres dela. Mais do que ningum na famlia, o conde era a pessoa mais contrariada.  certo que ele prprio no poderia claramente explicar a causa da contrariedade que sentia, mas eram os embaraos de dinheiro que o atormentavam. Ignorava por completo o que possua, qual o montante das dvidas e o que estava em condies de dar a Vera como dote. Quando nasceram, a cada uma das filhas atribura-lhes, respectivamente, trezentas almas em dote. Mas uma das aldeias abrangidas j fora vendida, a outra estava hipotecada e to atrasada no pagamento dos juros que era mister vend-la, e assim no havia mais remdio que renunciar s propriedades base. Quanto a dinheiro de contado, era coisa que tambm no existia.
     Havia j mais de um ms que Berg estava noivo, s faltavam oito dias para o casamento e o conde ainda no resolvera, pela sua parte, o caso do dote nem falara ainda no assunto  mulher. Ora queria atribuir  filha o domnio de Riazan, ora vender uma floresta, ora ainda pedir dinheiro emprestado sobre letra. Alguns dias antes da cerimnia. Berg apresentou-se de manh cedo no gabinete do conde e, sorridente, perguntou, respeitosamente, ao futuro sogro em que consistia o dote da condessa Vera. O conde to embaraado ficou com a pergunta, a qual, alis, h muito previa, que respondeu ao acaso a primeira coisa que lhe veio  cabea.
     - Acho muito bem que te preocupes com isso, estou muito contente. Vais ver que no ters razo de queixa.
     E, dando algumas pancadinhas no ombro de Berg, levantou-se como que disposto a dar por finda a conversa. Mas Berg, sempre sorridente, declarou que continuava sem saber em que consistia precisamente o dote de Vera e que se lhe no fosse dado tomar conta imediatamente, pelo menos, de parte dele ver-se-ia obrigado a retirar o seu pedido.
     - Reflicta, conde, que se eu consentisse em casar sem dispor dos meios necessrios para manter minha mulher o meu procedimento seria desonesto.
     O conde, desejoso de se mostrar mos-largas e no querendo expor-se a novos pedidos, deu por finda a conversa pondo a sua assinatura numa letra no valor de oitenta mil rublos. Berg teve um sorriso benigno, beijou o ombro do conde e disse estar-lhe muito agradecido, mas que lhe era impossvel organizar a sua nova vida sem dispor de trinta mil rublos em dinheiro,
     - Ao menos vinte mil, conde - acrescentou -, e nesse caso a letra seria apenas de sessenta mil.
     - Bem, bem, muito bem - acorreu o conde -, desculpa-me, meu amigo, podes contar com os teus vinte mil rublos em dinheiro e a letra no ser de menos de oitenta mil. Bem, d c um abrao.
     

     
     
     
     Captulo XII
     
     Estava-se em 1809 e Natacha acabara de fazer dezasseis anos, o termo por ela assinalado no dia em que se tinham beijado, quatro anos antes. Desde ento nunca mais tornara a v-lo, uma vez que fosse. Quando se falava de Bris diante de Snia e da me. Natacha dizia, com o maior desembarao, ser evidente que todas essas velhas histrias no passavam de infantilidades de que no valia a pena falar, completamente esquecidas h muito. Mas no fundo do seu corao perguntava-se a si mesma com ansiedade se, em verdade, o lao que a prendia a Bris seria uma brincadeira ou uma promessa sria a que estivesse realmente ligada.
     Desde a poca em que Bris, em 1805, deixara Moscovo para ingressar no exrcito, nunca mais tornara a ver os Rostov. Vrias vezes estivera em Moscovo, passara a pequena distncia de Otradnoie, mas nunca se decidira a visit-los.
     Natacha pensava s vezes que ele no queria tornar a v-la e as suas suspeitas vieram a confirmar-se graas ao tom contristado que assumiam as pessoas idosas da famlia ao falarem no caso.
     - Nos tempos de hoje esquecem-se facilmente os amigos - dizia a condessa sempre que algum aludia a Bris.
     Tambm Ana Mikailovna aparecia ultimamente muito pouco, adoptara uma espcie de atitude de dignidade, e sempre que falava dos mritos do filho e da brilhante carreira que encetara fazia-o com um acento de entusiasmo e compenetrao. Quando os Rostov chegaram a Petersburgo. Bris foi visit-los.
     No o fez sem emoo. A lembrana de Natacha era uma das suas mais poticas reminiscncias. No entanto dava este passo na firme resoluo de fazer compreender, tanto a ela pessoalmente como aos pais, que as suas relaes de infncia no implicavam qualquer espcie de compromisso, quer da parte dela. Natacha, quer da parte dele. Bris. Gozava de brilhantssima situao na sociedade, graas  sua intimidade com a condessa Bezukov. E tambm estava fazendo brilhante carreira, merc da proteco de certa importante personagem junto de quem gozava de inteira confiana, nutrindo, alm disso, um projecto de casamento com um dos mais ricos partidos de Petersburgo, projecto facilmente realizvel. Quando Bris entrou no salo dos Rostov. Natacha estava nos seus aposentos. Ao saber que ele chegara, apareceu, muito corada, nos lbios um sorriso onde havia mais alguma coisa que amabilidade.
     Bris lembrava-se da Natacha de vestidos curtos, olhos negros faiscando sob os caracis do cabelo, o riso infantil em catadupa, que ele conhecera quatro anos antes. Por isso, quando viu entrar no salo uma Natacha completamente diferente, grande perturbao o tomou e tambm uma profunda admirao. Natacha deu por isso e regozijou-se.
     - Ento, j no conheces a tua amiguinha azougada? - disse-lhe a condessa.
     Bris beijou a mo de Natacha, dizendo no estar em si com a modificao que nela se operara.
     - Como esta linda!
     - Assim parece! - replicaram-lhe os olhos risonhos da mocinha. - E o pai, acha que envelheceu? - perguntou ela. 
     Natacha sentou-se, e, sem tomar parte na conversa de Bris e da condessa, ps-se a examinar, concentrada, o noivo da sua infncia nos mais pequeninos pormenores. Por sua vez. Bris sentia aflor-lo esse olhar afectuoso, mas obstinado, e de tempos a tempos olhava tambm para ela.
     O uniforme, as esporas, a faixa, o penteado de Bris, era tudo  ltima moda e muito comme il faut... Foi o que ela notou imediatamente. Bris estava sentado, a trs quartos, numa poltrona ao p da condessa e ia afagando com a mo direita a luva imaculada que lhe moldava a mo esquerda. Falava, com uma prega especial dos lbios, um pouco afectada, da alta sociedade petersburguesa, e com ligeira ironia do tempo de Moscovo e das pessoas conhecidas de ento. No foi por acaso, como Natacha teve ocasio de notar, que aludiu, a propsito da alta aristocracia, ao baile da embaixada onde estivera, dos convites para casa de Fulano e de Sicrano.
     Natacha conservou-se calada todo esse tempo, relanceando os olhos a furto. Estes seus olhares acabaram por inquietar e perturbar Bris. A cada passo se voltava para ela, interrompendo o que estava a dizer. No se demorou mais de dez minutos, erguendo-se e pedindo licena para se retirar. E sempre os mesmos olhos curiosos, um pouco provocantes e zombeteiros, seguindo-lhe os movimentos. Depois desta primeira visita. Bris, reconhecendo que achava Natacha to atraente como outrora, entendeu no dever abandonar-se a esse sentimento, uma vez que um casamento com ela, menina quase desprovida de fortuna, acarretaria a runa da sua carreira, e renovar as antigas relaes sem pensar em casar seria proceder com pouca correco. Decidiu de si para consigo evitar encontr-la. No entanto, apesar desta resoluo, voltou a aparecer em casa dos Rostov alguns dias mais tarde, renovando depois essas visitas com frequncia e l ficando dias inteiros. Passava o tempo a dizer a si prprio que se tornava necessria urna explicao entre ele e Natacha, que lhe devia fazer compreender que era preciso esquecerem o passado, que apesar de tudo.., ela no podia vir a ser sua mulher, que ele no tinha fortuna e que nunca lhe concederiam a sua .mo. Mas nunca conseguia falar, e sentia-se embaraado de mais para abordar semelhante explicao. A medida que os dias passavam mais difcil a situao se tornava. Natacha, assim o observava a me e Snia, parecia de novo enamorada de Bris como antigamente. Cantava-lhe as melodias preferidas, mostrava-lhe o lbum de recordaes, pedia-lhe que escrevesse qualquer coisa e impedia-o de pensar nos tempos antigos, to belos lhe tornava os momentos presentes. De dia para dia ele se ia perdendo no meio da neblina, sem lhe comunicar as suas intenes, no sabia o que fazia, nem porque voltava a v-la, nem como tudo aquilo iria acabar. Bris deixara de aparecer em casa de Helena, de quem recebia todos os dias bilhetinhos cheios de queixas. Nem por isso, contudo, as suas visitas a casa dos Rostov, onde passava dias inteiros, mostravam rarear.
     

     
     
     
     Captulo XIII
     
     Certa noite em que a condessa velha, de camisa de dormir, sem os caracis postios e com as guedelhas a aparecer por debaixo da touca de algodo, fazia, ajoelhada no tapete, as profundas genuflexes das suas oraes da noite, gemendo e tossicando, a porta abriu-se e Natacha apareceu a correr, os ps, sem meias, dentro das chinelas de quarto, tambm de camisa de dormir e com papelotes. A condessa voltou-se e franziu o sobrolho. Terminava a ltima orao: Ser este leito o meu tmulo? De sbito todo o seu recolhimento se desvaneceu. Natacha, muito corada e em grande excitao, ao ver que a me rezava, estacou, de sbito, meio acocorada, e deitou a lngua de fora, como se acabasse de ser surpreendida em qualquer maldade. Como a me continuava a rezar, correu para a cama, a p-coxinho, tirou as chinelas e deu um pulo para cima do leito que a condessa receava viesse a ser o seu tmulo. Era urna grande cama de penas, com cinco almofadas, de tamanho decrescente.
     Natacha, uma vez em cima da cama, meteu a cabea no edredo, deixou-se descair at junto da parede e ps-se a encolher-se, a aninhar-se, puxando os joelhos para o queixo, agitando as pernas e com um riso abafado, ora escondendo a cabea, ora lanando um olhar de vis para o lado onde estava a me. A condessa, findas as suas oraes, aproximou-se da cama com uma expresso severa. Ao ver, porm, que Natacha escondia a cabea debaixo das cobertas, um sorriso meigo e bom lhe veio aos lbios.
     - Ento, que  isso? - disse ela.
     - Me, podemos conversar as duas um bocadinho? - Perguntou Natacha.- Deixa-me beijar-te aqui, no pescoo, uma s vez.- Abraou-se  condessa e beijou-a debaixo do queixo. Nestes seus modos havia uma certa brusquido, mas era to ligeira e hbil que quando abraava a me conseguia sempre no lhe fazer mal algum, nem aborrec-la ou ma-la.
     - Bom, que aconteceu hoje? - disse a me, ajeitando-se nas almofadas e esperando que a filha, depois de dar duas voltas sobre si mesma, viesse instalar-se a seu lado, debaixo da mesma coberta, as mos fora dos lenis e a cara muito sria.
     Estas visitas nocturnas que Natacha fazia  me antes de o conde regressar do clube eram os momentos mais felizes das duas - me e filha!
     - Que aconteceu hoje? Eu tambm queria falar contigo...
     Natacha ps-lhe a mo na boca.
     - De Bris... Bem sei - disse ela, num tom muito srio foi por isso que vim at aqui. No diga, eu sei. Agora, fale - tirou a mo. - Diga, me. Acha-o gentil?
     - Natacha, j fizeste dezasseis anos. Na tua idade j eu estava casada. Dizes que Bris  gentil. Sim,  muito gentil rapaz, gosto dele como se fosse meu filho, mas, que queres fazer?... Que intenes so as tuas? Deste-lhe volta ao miolo,  o que eu tenho visto...
     Dizendo estas palavras, a condessa voltou-se para a filha. Natacha continuava estendida, sem se mexer, de olhos fixos numa das esfinges de acaju esculpidas a cada canto da cama, de modo que a me apenas podia v-la de perfil. A condessa sentiu-se impressionada pela expresso sria e concentrada que se lhe lia no rosto.
     Natacha estava cismadora.
     - Bom, ento o que aconteceu? - disse ela.
     - Deste-lhe volta ao miolo,  um facto, e que quer isso dizer? Que lhe queres? Bem sabes que no podes casar com ele.
     - Porqu? - perguntou Natacha, sem alterar a posio.
     - Porque ele ainda  muito novo, porque  pobre, porque  teu parente.., porque tu prpria no gostas dele.
     - Quem lhe disse?
     - Tenho a certeza, e isso no  bonito, minha filha.
     - E eu.., se eu quisesse...- balbuciou Natacha.
     - No digas tolices.
     - E se eu quiser...
     - Natacha, srio, srio...
     Natacha no a deixou concluir, puxou para si a grossa mo da condessa, beijou-a por cima e por baixo, em seguida voltou-a e beijou-lhe os ns dos dedos, depois o intervalo entre cada um deles, ainda os outros ns, contando: - Janeiro. Fevereiro. Maro. Abril. Maio. Ento, fale, me, porque est calada? Fale!
     Fitava a me, que a envolvia num olhar terno, e na contemplao em que estava parecia ter esquecido tudo que tinha para dizer.
     - Isso no  decente, minha querida. Nem toda a gente conhece a vossa familiaridade de criana, e o verem-te em tal intimidade pode prejudicar-te aos olhos dos outros rapazes que frequentam a nossa casa. E sobretudo s serve para o atormentar inutilmente.  natural que a esta hora j tenha encontrado um partido rico que mais lhe convenha. E o certo  que anda de cabea perdida.
     - Acha? - disse Natacha.
     - Vou falar-te com juzo. Tambm eu tive em tempos um primo...
     - Sim, bem sei... Kirilo Matveitich, mas esse  velho. - Nem sempre foi velho. Por isso, olha. Natacha,  bom que eu fale com o Bris. No convm que venha c tantas vezes...
     - E porque no, se lhe da prazer?
     - Porque eu sei que isto no tem ps nem cabea... - Quem lhe disse? No, me, no fales com ele. So tolices! - exclamou a rapariguinha assumindo o tom de algum a quem querem tirar o que lhe pertence, - Est descansada. No caso com ele. Ento, porque no h-de ele aparecer, se isso nos diverte tanto a ele como a mim? - Natacha ps-se a sorrir a olhar para a me. - No caso com ele, e tudo ficar como estava.
     - Que dizes tu, minha filha?
     - Sim, como estava.  absolutamente necessrio que eu no case com ele? Ento tudo ficar como est.
     - Como est, como est - repetiu a condessa enquanto uma grande gargalhada a agitava dos ps  cabea, uma grande gargalhada de velha.
     - Oh, no se ria assim, cale-se! - exclamou Natacha. - A cama est toda a tremer.  to parecida comigo,  to alegre... Espere... - Pegou-lhe nas duas mos e continuou a contar, beijando-as a partir do dedo mnimo: - Junho. Julho. - E passando para a outra mo: - Agosto... Diga, me, acha que ele gosta muito de mim? Que lhe parece? Tambm gostaram assim tanto de si? Sim,  muito gentil, muito, muito gentil! Mas para meu gosto  um bocadinho estreito, assim como a caixa do relgio... No percebe?... Sim, estreito, e cinzento-claro...
     - Que estas tu para ai a dizer?
     - No me diga que no compreende - prosseguiu ela - o Nikolenka, esse, compreenderia tudo... Bezukov, por exemplo,  azul, azul-forte, com vermelho  mistura.., e  quadrado.
     - Querer-me parecer que tambm tu fazes um bocadinho coquette com esse, no  verdade? - disse a condessa a rir. 
     - No. Disseram-me que era pedreiro-livre.  bom rapaz, mas vermelho e azul-carregado... Como  que lhe hei-de explicar?
     - Condessinha - disse a voz do conde atrs da porta. - Ests acordada? - Natacha deu um pulo para o cho, procurou as chinelas e fugiu para o quarto.
     Custou-lhe a adormecer. No se cansava de dizer a si prpria que ningum podia compreender tudo quanto ela sentia, tudo quanto ela tinha na cabea.
     Snia! dizia de si para consigo, olhando para a prima, que dormia toda enrolada como uma galinha felpuda. Ah, sim,  verdade, esta sim,  virtuosa a valer. Est apaixonada pelo Nikolenka e de nada mais quer saber. A me tambm me no compreende. Ningum  capaz de perceber a menina inteligente que eu sou e como a menina Natacha  bonita, prosseguiu, falando de si mesma na terceira pessoa, como se fosse algum muito inteligente, urna jia de homem, que dela estivesse falando. Tem tudo, tudo por si.  espirituosa, extraordinariamente gentil, e boa, extraordinariamente boa, e habilidosa... Nada, monta muito bem a cavalo e tem uma voz!  o que lhe digo: uma voz surpreendente!
     Trauteou a sua frase favorita de uma pera de Cherubini, deitou-se em cima da cama, ps-se a rir ao pensar que ia adormecer repentinamente, chamou Duniacha para apagar a vela, e ainda Duniacha no sara do quarto j ela abalara para o venturoso mundo dos sonhos, onde tudo  to fcil e to belo como na realidade, e at mesmo muito mais belo, pois e de outra maneira.
     No dia seguinte a condessa mandou chamar Bris, com quem teve uma conversa, e desse dia em diante Bris deixou de frequentar a casa.
     

     
     
     
     Captulo XIV
     
     No dia 31 de Dezembro, na vspera do Ano Novo de 181O, para festejar o reveillon, havia baile em casa de um grande fidalgo do tempo de Catarina. O corpo diplomtico e o prprio czar deviam comparecer.
     Uma brilhante iluminao fazia resplandecer a fachada do muito conhecido pa1!cio da grande personalidade, situado no Cais dos Ingleses. No trio, atapetado de vermelho, estava a polcia, e no apenas guardas, mas o prprio chefe, com uma dzia de oficiais. Carruagens partiam e chegavam incessantemente, com seus lacaios de farda vermelha ou chapus emplumados, conduzindo senhores de uniformes agaloados, com grandes cordes e veneras. Senhoras, de vestidos de cetim e pelias de arminho, apeavam-se, com grandes precaues, por entre o rudo das ferragens que faziam os estribos ao fecharem-se, e l iam, tapete fora, em passos apressados e silenciosos.
     De cada vez que uma carruagem se aproximava era quase certo desprender-se um murmrio da multido. Havia chapus no ar,
      o czar?... No,  o ministro.., o prncipe.., o embaixador... No vs as plumas?..., ouvia-se no meio da turba. Algum, ao que parecia, mais bem vestido do que os outros, conhecia toda a gente e designava pelo nome os mais ilustres dignitrios da, poca.
     J um tero dos convidados tinha chegado e ainda em casa dos Rostov, que deviam assistir ao baile, se procedia aos ltimos retoques febris nas to1etteS.
     Quantas conferncias, quantos preparativos feitos j, que receios de no serem convidados, de os vestidos no estarem prontos a tempo, de as coisas se no arranjarem como convinha...
     Maria Ignatievna Peronskaia, amiga e parente da condessa, dama de honor da antiga corte, criatura magra e amarelenta, acompanhava os Rostov, guiando aqueles provincianos nos meandros da alta sociedade de Petersburgo,
     As dez horas deviam os Rostov ir buscar a dama de honor ao Palcio de Tavritcheski. J eram dez menos cinco e as meninas ainda no estavam vestidas.
     Era o primeiro grande baile de Natacha. Levantara-se s oito horas e levara todo o dia numa febril agitao. Desde manh que no fazia outra coisa seno empenhar-se em que todos, a me. Snia e ela prpria, se apresentassem o melhor possvel.
     Snia e a condessa entregavam-se-lhe inteiramente. A condessa devia levar um vestido de veludo vermelho-escuro, as duas raparigas trajos brancos vaporosos, em cima de uma sombra de seda cor-de-rosa com rosas no corpinho. E iriam penteadas  grega. O essencial j estava feito. J tinham lavado a cara, j se haviam perfumado, e o rosto, as mos, o colo, as orelhas, tudo fora cuidadosamente polvilhado de p-de-arroz, como convinha para um baile. J estavam enfiadas as meias de seda de ponto aberto e calados os sapatinhos de cetim com fitas. Os penteados estavam prontos. Snia dava os ltimos retoques na toilette, a condessa tambm. Mas Natacha, que ajudara toda a gente, ainda estava atrasada. Com o roupo pelos ombros magricelas, l estava diante do espelho. Snia, j pronta, no meio do quarto, espetava um alfinete, picando-se, com o dedo mnimo, procurando ajeitar a ltima fita, que repontava.
     - Assim no, assim no. Snia - dizia Natacha. De cabea voltada, por causa da criada que a penteava, agarrara os cabelos, antes que a aia tivesse tempo de os largar. - O n assim no. Vem c.
     Snia sentou-se. Natacha ps-lhe a fita de outra maneira.
     - Desculpe, menina, assim nada posso fazer - protestou a criada de quarto, sem largar os cabelos de Natacha.
     - Oh, meu Deus, bem, espera um pouco. Assim, Snia.
     - Vejam se se aviam - disse a condessa. - Esto a dar dez horas.
     -  j,  j. E a me, j est pronta?
     - S me falta pr o toucado.
     - No ponha a touca sem eu a ajudar - gritou Natacha. - A me no sabe!
     - Mas so dez horas.
     Resolvera estar no baile pelas dez e meia e Natacha ainda tinha de enfiar o vestido, e havia que passar ainda pelo Palcio de Tavritcheski.
     Terminado que foi o penteado. Natacha, de saia de baixo, que lhe deixava  mostra os sapatinhos de baile, e vestida uma camisola trapalhona da me, aproximou-se de Snia, examinou-a e depois correu para a condessa. Obrigou-a a voltar a cabea, ajeitou-lhe o toucado, beijou-lhe os cabelos brancos e a vem ela outra vez a correr para as criadas que lhe cosiam a bainha do vestido.
     Procuravam encurtar a saia, comprida de mais. Duas criadas empenhavam-se nessa tarefa, na precipitao cortando as linhas com os dentes. Ainda outra criada, de alfinetes na boca, ia e vinha entre a condessa e Snia. E outra ainda sustinha, de brao erguido, o vaporoso vestido.
     - Mavrucha, despacha-te, minha querida!
     - Deixe ver o dedal, menina.
     - Ento, estamos finalmente prontos? - disse o conde, que apareceu no limiar da porta. - Aqui tm os vossos perfumes. Mademoiselle Peronskaia j deve estar  espera.
     - Pronto, menina - disse a criada de quarto, erguendo, em dois dedos, o vaporoso vestido bordado. E soprou-lhe, agitando-o, gesto que punha em relevo a sua beleza e a sua brancura. Natacha comeou a vesti-lo.
     - Um momento, um momento, no entres, pai - gritou ao conde, que entreabrira a porta. A voz de Natacha emergia da nuvem de tecido que a escondia por completo.
     Snia foi fechar a porta. Um minuto depois deixaram entrar o conde. Vestia um fraque azul, meias de seda e escarpins. Todo ele era perfume e pomadas.
     - Ah!, pai querido, que lindo que ests, que encanto! - disse Natacha, de p, no meio do quarto, ajeitando as pregas da saia.
     - Espere, menina, espere - dizia uma das criadas, que, de joelhos, segurava o vestido e com a lngua movia os alfinetes que tinha na boca.
     - Digam o que quiserem - exclamou Snia, excitadssima, examinando o vestido de Natacha. - Digam o que disserem, ainda est muito comprido!
     Natacha afastou-se para se mirar no espelho do tren. Efectivamente Snia tinha razo.
     - Meu Deus, no, menina, no est comprido - protestou Mavrucha, de gatas, no cho, atrs da ama.
     - Se est muito comprido faz-se mais curto.  um instante enquanto se arranja - disse, num tom decidido. Duniacha, tirando uma agulha do corpete e metendo mos  obra.
     Nesse mesmo instante, a condessa, com um ar tmido e em passinhos midos, penetrou no quarto, de toucado e vestido de veludo.
     - Eh! Eh!, minha linda! - exclamou o conde.-  a mais linda de todas!...
     Quis abra-la, mas ela, corando, afastou-o, para que ele lhe no amarrotasse o vestido.
     - Mezinha, o toucado um pouco mais descado para o lado - disse Natacha. - Eu vou espetar-lhe um alfinete. - E precipitou-se para a me, mas as criadas que lhe cosiam a bainha do vestido no tiveram tempo de a seguir no seu movimento c um pedao da musselina rasgou-se.
     - Oh, meu Deus! Que aconteceu? Francamente, a culpa no foi minha...
     - No tem importncia, eu vou arranjar tudo, nada se v - acorreu Duniacha.
     - Minha linda, minha rainha! - exclamou a ama, que acabava de entrar. - E a Soniuchka, ento! Ah!, minhas lindas!...
     s dez horas e um quarto, finalmente, toda a famlia subia para a carruagem e abalava. Mas ainda era preciso passar pelo Jardim de Tavritcheski.
     Mademoiselle Peronskaia estava pronta. Apesar da sua idade de ser feia, tudo se havia passado em casa dela como na dos Rostov, s com menos precipitao, atendendo a que estava muito habituada a situaes idnticas. Sua velha carcaa fora perfumada, frisada, empoada, no havia pormenor na sua cara que no tivesse sido cuidadosamente inspeccionado e at o vestido que levava provocou a admirao entusistica da criada de quarto quando ela apareceu de vestido amarelo ornado com o emblema imperial. Mademoiselle Peronskaia admirou as toilettes das senhoras Rostov.
     Estas, por sua vez, louvaram o gosto da velha, senhora e os seus enfeites e, com mil cautelas no penteado e nos vestidos, cerca das onze horas todas se meteram nas suas carruagens e partiram.
     

     
     
     
     Captulo XV
     
     Durante todo o dia Natacha no tivera, por assim dizer, um minuto de descanso e por isso no lhe fora possvel pensar um instante que fosse no que a aguardava.
     No ar hmido e frio da noite, comprimida nos assentos da carruagem, aos solavancos, no meio de uma profunda escurido, pela primeira vez se representou na imaginao o espectculo que ia contemplar: o baile, as salas iluminadas, a msica, as flores, as danas, o imperador, toda a brilhante juventude de Petersburgo. Era to belo o que a esperava que no queria acreditar, ali com aquela sensao de frio, de incmodo e de obscuridade dentro da carruagem. S no momento em que, depois de ter pisado o tapete vermelho do trio, penetrou no vestbulo, tirou a pelia e se engolfou, ao lado de Snia,  frente da me, por entre as flores da grande escadaria iluminada pde avaliar o que isso era. S ento pensou na compostura que devia mostrar no baile e procurou assumir esse porte solene que julgava indispensvel a toda a rapariguinha em tais circunstncias. Porm, felizmente para ela, teve a sensao de que os olhos lhe giravam nas rbitas: nada podia ver com nitidez, o pulso batia-lhe desordenadamente e o sangue aflua-lhe ao corao. No lhe foi possvel assim afectar aqueles ares que a teriam ridicularizado, e avanou, num desfalecimento de emoo, procurando por todos os modos dissimular a perturbao que a tomava. E era exactamente essa a compostura que mais lhe convinha. Por todos os lados caminhavam convidados tambm com trajes de baile e trocando palavras em voz baixa. Os espelhos da escadaria iam devolvendo imagens de senhoras nos seus vestidos brancos, azuis, cor-de-rosa, carregados de prolas e diamantes, os braos e ombros nus.
     Natacha via-se nos espelhos e no era capaz de se reconhecer, confundida com as outras. Tudo se misturava, fundindo-se num desfile brilhante. Quando entrou no primeiro salo, o murmrio das vozes, dos passos, dos cumprimentos que se trocavam, ensurdeceu-a e a refulgncia da luz ainda mais a cegou. Os donos da casa, que se encontravam havia meia hora, de p,  porta, repetindo a cada um dos seus convidados a eterna frase: Muito prazer em v-lo, acolheram amavelmente os Rostov e Mademoiselle Peronskaia.
     As duas rapariguinhas, de vestidos brancos iguais, com rosas rios cabelos pretos, fizeram a mesma reverncia, mas o olhar da dona da casa demorou-se mais na cintura fina de Natacha. Ao olh-la teve para ela um sorriso especial, diferente dos que consagrava a toda a gente. Lembrava-se, sem dvida, ao v-la, do seu passado brilhante de donzela, para sempre perdido, e do seu primeiro baile. O dono da casa seguiu-a igualmente com os olhos e perguntou ao conde se era sua filha.
     - Encantadora! - disse ele, enviando-lhe um beijo na ponta dos dedos.
     O grande salo regurgitava de convidados, que se acumulavam  porta de entrada aguardando o imperador. A condessa foi colocar-se nas primeiras filas. Natacha apurava o ouvido e tinha a impresso de que falavam dela e que a miravam. Adivinhava agradar a todos quantos a notavam e isso apaziguou-lhe um pouco a emoo que a tomara.
     H idnticas a ns, mas h quem se apresente muito pior, dizia de si para consigo.
     Mademoiselle Peronskaia segredava  condessa o nome das pessoas mais conhecidas.
     - L est o embaixador da Holanda, v, aquele, ali, o de cabelos brancos - dizia, indicando um velhinho de cabeleira de prata muito anelada, rodeado de senhoras a quem fazia rir. E ali tem a rainha de Petersburgo, a condessa Bezukov - acrescentou, mostrando Helena, que dava entrada no salo. - Linda mulher! Nada fica a dever a Maria Antonovna. Repare como novos e velhos a rodeiam.  linda e tem esprito... Dizem que o prncipe imperial.., est doido por ela. E estas duas, embora nada bonitas, ainda tm uma corte mais numerosa.
     Indicou duas senhoras que entravam, me e filha, realmente muito feias.
     - Um partido que vale milhes - disse Mademoiselle Peronskaia. - E ali tem os amadores.
     - Aquele  o irmo da condessa Bezukov. Anatole Kuraguine - prosseguiu ela, mostrando um belo oficial, de uniforme da Guarda, que ia passando, de cabea erguida, diante delas, o olhar distante.
     - Que belo moo! No  verdade? Vo cas-lo com uma noiva riqussima. Mas o vosso primo Drubetskoi tambm lhe faz a corte. Fala-se em milhes. Mas, que vejo? O embaixador da Frana em carne e osso - observou, mostrando Caulaincourt, enquanto respondia a uma pergunta da condessa. - Repare. Parece um rei. Apesar de tudo, so amveis, muito amveis, estes franceses. No h pessoas mais amveis em sociedade. Ah!, l est ela finalmente. Esta, sim, leva a palma a todas, a nossa Maria Antonovna! E a simplicidade com que ela se veste! Que mulher encantadora! E aquele gordo, de lunetas, pedreiro-livre universal - disse, designando Bezukov. - Ponha-o ao lado da mulher. Um autntico fantoche!
     Pedro caminhava, rebolando o seu espesso corpo, atropelando as pessoas, acenando com a cabea para a direita e para a esquerda, com tanta franqueza e despreocupao como se circulasse na praa do mercado. Abria caminho, dir-se-ia procurar algum.
     Natacha descobriu com satisfao a figura de Pedro, to sua conhecida, esse fantoche, como lhe chamava Mademoiselle Peronskaia. Sabia que eram eles, e ela particularmente, quem ele procurava entre a multido. Pedro prometera-lhe que viria quele baile e que lhe apresentaria rapazes para danar.
     No entanto, antes de se aproximar. Bezukov deteve-se ao p de um homem moreno, de estatura mediana, bonito rapaz, de uniforme branco, que conversava com um outro, de grande estatura, carregado de condecoraes, no vo de uma janela. Natacha reconheceu imediatamente o jovem de uniforme branco: era Bolkonski, que se lhe afigurou remoado, mais alegre e bonito.
     - Ali est outra pessoa conhecida, me: Bolkonski, v? - disse Natacha. - Lembra-se? Passou a noite em nossa casa, em Otradnoie.
     - Ah!, conhecem-no? - perguntou Mademoiselle Peronskaia. - Eu no posso com ele. Pe e dispe de tudo. E  de um orgulho sem limites! Sai ao pai.  todo do Speranski. Passam a vida a fazer projectos. Repare como ele trata as senhoras! Olhem aquela que se lhe dirige, e ele a voltar-lhe as costas. Eu lhe diria se se atrevesse a portar-se assim comigo.
     

     
     
     
     Captulo XVI
     
     De sbito, um frmito percorreu os sales, a multido segredou qualquer coisa, afastou-se, e por uma ala aberta no meio dos espectadores, ao som das fanfarras, entrou o imperador. Os donos da casa seguiam-no. O czar caminhava, saudando ligeiramente  esquerda e  direita, como se tivesse pressa de acabar com aquela estopada. A orquestra tocava uma polaca, ento em voga, de cuja letra constava: Alexandre. Isabel, como o nosso corao rejubila...
     O imperador dirigiu-se para o salo mais pequeno. Toda a gente velo espreitar  porta. Pessoas com ar circunspecto principiaram a andar de um lado para o outro. Ento os convidados desimpediram a porta do salo onde o czar conversava com a dona da casa. Um jovem de expresso perturbada veio pedir s senhoras que recuassem. Algumas, esquecendo todas as convenincias mundanas, sem receio de descompor as toilettes, fizeram parede na primeira fila. Os cavalheiros aproximaram-se das damas e formaram-se os pares para a polaca.
     Toda a gente se afastou, e o imperador, sorridente, dando a mo  dona da casa, saiu do salo. Caminhava a compasso. Atrs dele vinha o anfitrio com Maria Antonovna Narishkina, em seguida os embaixadores, os ministros, os generais. Mademoiselle Peronskaia ia recitando os seus nomes sem interrupo. Mais de metade das senhoras, convidadas para danar, dispunham-se para a polaca. Foi ento que Natacha percebeu que tanto Snia, como a me, como ela prpria, faziam parte do pequeno nmero condenado a servir de pano de fundo. Natacha ali estava, de p, os braos finos balanando, os pequeninos seios, ainda adolescentes em alvoroo, retendo a respirao. Olhava em frente, com os olhos brilhantes e inquietos, uma expresso indecisa, agitada entre urna grande alegria e um imenso desgosto. No a preocupavam nem o imperador nem qualquer das outras altas personagens que Mademoiselle Peronskaia havia apontado. S pensava numa coisa: Ser realmente verdade que ningum me convidar para danar? No figurarei entre os primeiros pares? No serei notada por algum destes homens que parecem no me ver agora, ou, se porventura olham para mim,  como se dissessem: Ah!, no  ela! Ento escusamos de a olhar. No, isto no pode ser!  preciso que eles saibam que quero danar, que dano muitssimo bem e que grande seria o prazer que eu lhes daria se danassem comigo.
     Os compassos da polaca que por muito tempo ressoavam no tardaram que chegassem aos ouvidos de Natacha com uma cadncia lgubre. Davam-lhe vontade de chorar. Mademoiselle Peronskaia afastara-se. O conde estava no outro extremo do salo. E ela, a condessa e Snia ali estavam, sozinhas, como que perdidas no meio de uma floresta, entre toda aquela gente que lhes era estranha, sem despertarem o interesse de ningum, sem que algum se preocupasse com elas. Passou o prncipe Andr, com uma senhora pelo brao, sem dar sinais de as ter reconhecido.
     O belo Anatole, sorridente, trocava algumas palavras com o par, relanceando a Natacha o olhar indiferente com que se olha para uma tapearia. Por duas vezes Bris passou perto delas, voltando disfaradamente a cara. S Berg e a mulher, que no danavam, vieram juntar-se-lhes.
     Natacha sentiu-se mortificada com aquela cena de famlia, ali, em pleno baile, como se um baile fosse o local mais indicado para semelhantes confraternizaes. No prestava a mais pequena ateno a Ver, que lhe falava do seu vestido verde. Por fim o imperador reconduziu o seu terceiro par; j danara com trs senhoras e a orquestra deixara de tocar. Um ajudante-de-campo, com um ar preocupado, aproximou-se das senhoras Rostov pedindo-lhes que recuassem um pouco mais, embora j estivessem encostadas  parede, e a orquestra encetou os primeiros acordes de uma valsa, lentos e suaves, arrebatadores e bem ritmados. O imperador percorreu a sala com os olhos, sorrindo. Decorreram segundos sem que qualquer par se mexesse. Outro ajudante-de-campo com funes protocolares aproximou-se da condessa Bezukov e convidou-a para danar. Esta, sorrindo e sem para ele olhar, pousou-lhe a mo no ombro. O ajudante-de-campo, com mestria, seguro de si, sem se apressar, enlaou-a vigorosamente e levou-a consigo, primeiro deslizando at  extremidade da pista, depois, pegando-lhe na mo esquerda, fazendo-a rodopiar ao ritmo cada vez mais clere da msica. S se ouvia o retinir cadenciado das esporas nos ps geis do danarino, enquanto o vestido de veludo da senhora que rodopiava fazia balo naquelas evolues, acompanhando o compasso a trs tempos. Natacha ao v-los quase chorava, por no ter sido convidada para aquela primeira valsa.
     O prncipe Andr, de uniforme branco de coronel de cavalaria, meias de seda e escarpins, ar alegre e animado, estava na primeira fila, no longe dos Rostov. Conversava com ele, acerca da primeira sesso do Conselho do Imprio, que devia realizar-se no dia seguinte, o baro Vierov. Andr, ntimo de Speranski e membro da comisso de legislao, podia proporcionar seguros esclarecimentos a respeito da sesso anunciada, a qual estava provocando uma srie de comentrios. A verdade, porm,  que no ouvia o que Vierov ia dizendo e ora olhava para o imperador ora para os pares que se preparavam para danar a valsa sem se decidirem a faz-lo.
     Examinava os cavalheiros, intimidados pela presena do imperador, e as senhoras, mortas por serem convidadas para danar.
     Pedro aproximou-se e tomou-lhe o brao.
     - O prncipe, que est sempre pronto para danar, porque no convida a minha protegida, a menina Rostov? Ali a tem - disse ele.
     - Onde? - perguntou Bolkonski. - Queira desculpar-me disse para o baro. - Falaremos depois neste assunto; num baile  preciso danar. - Avanou na direco que Pedro lhe apontara. A figurinha ansiosa e desolada de Natacha impressionou-o imediatamente. Reconheceu-a, adivinhando-lhe os desejos, percebeu que era a primeira vez que vinha a um baile, lembrou-se da conversa que surpreendera  janela e com uma expresso jovial aproximou-se da condessa Rostov.
     - D-me licena que lhe apresente minha filha - disse a condessa, corando.
     - J tenho o prazer de a conhecer, se a condessa bem se recorda - volveu o prncipe, inclinando-se profundamente com uma cortesia que desmentia por completo a rudeza que lhe atribura Mademoiselle Peronskaia. Aproximou-se de Natacha e estendeu o brao para lhe enlaar a cintura, antes mesmo de ter formulado qualquer convite. A carinha desolada de Natacha, to pronta a reflectir o desespero como a suprema alegria, iluminou-se subitamente com um sorriso infantil, cheio de felicidade e reconhecimento.
     H quanto tempo eu te esperava, parecia dizer, ao mesmo tempo assustada e feliz, no seu sorriso, que desabrochava no meio das lgrimas prontas a correr, mal apoiou a mo no ombro do prncipe Andr. Era o segundo par que entrava na pista. Bolkonski era um dos melhores danarinos da poca. Por sua vez. Natacha acompanhava-o maravilhosamente. Os seus ps, nos sapatinhos de cetim, rpidos e ligeiros, pareciam no tocar o solo. No rosto fulgia-lhe uma venturosa animao. Seu colo nu e seus braos eram magros e no muito bonitos, comparados com os de Helena. No tinha os ombros cheios, nem os seios formados, os braos eram delgados, mas a verdade  que Helena parecia j poluda pelo fogo dos milhares de olhos que lhe deslizavam pelo corpo, enquanto Natacha era a perfeita imagem da donzela que pela primeira vez enverga um vestido decotado e que naturalmente por isso se teria sentido envergonhada caso lhe no tivessem dito ser indispensvel.
     O prncipe Andr gostava de danar e como antes de mais nada queria subtrair-se s conversas polticas e srias com que o atormentavam, como queria afastar de si quanto mais depressa melhor a atmosfera de embarao provocada pela presena do imperador, pusera-se a valsar e escolhera Natacha, primeiro para ser agradvel a Pedro, depois por ser ela a primeira rapariga bonita que lhe chamara a ateno. Quando, porm, lhe passou o brao pela cintura fina e flexvel e a sentiu to perto de si agitada pelo ritmo da dana e a viu sorrir-lhe de to perto, dir-se-ia que uma embriaguez o tomara. Quando, anelante, voltou i conduzi-la para junto da condessa e por alguns instantes, em repouso, fitou os pares que continuavam a danar, uma onda de mocidade e de vida se ergueu dentro dele.
     

     
     
     
     Captulo XVII
     
     Depois de Andr veio Bris convidar Natacha e em seguida o ajudante-de-campo que organizava as danas e inaugurara o baile, e ainda outros, de tal modo que Natacha transferia para Snia o excedente dos seus pares. Muito animada e feliz, danou toda a noite. No viu nem deu por nada  sua volta. No reparou que o imperador conversava demoradamente com o embaixador de Frana, que falava a esta ou quela senhora com uma amabilidade especial, que o prncipe Fulano ou Sicrano fizera isto ou aquilo, que Helena tivera um grande xito e que determinado cavalheiro lhe prestara uma ateno particular. Nem sequer deu pela partida do imperador, a no ser porque depois dela o baile recrudescera de animao. O prncipe Andr voltou a danar com ela um dos mais alegres cotillons antes da ceia. Lembrou-lhe que a vira pela primeira vez na avenida de Otradnoie e recordou-lhe aquela noite de luar em que ela no podia dormir e a conversa que involuntariamente ouvira. Estas recordaes fizeram corar Natacha; procurou justificar-se, como se tivesse vergonha dos sentimentos que o prncipe Andr nela surpreendera.
     Bolkonski, como toda a gente de sociedade, adorava encontrar-se com pessoas isentas do banal selo mundano. Era o caso de Natacha, com os seus deslumbramentos, a sua alegria, a sua timidez. At os seus erros de francs tinham encanto. Conversando com ela, tratava-a com suave e afectuosa delicadeza. Sentado a seu lado, falando-lhe das coisas mais vulgares e insignificantes, admirava-lhe o fulgor do olhar e o sorriso, que no traduzia respostas a palavras trocadas, mas uma espcie de alegria interior. Enquanto danava com outros, admirava-lhe especial- mente a graa ingnua. No meio do cotillon. Natacha, depois de uma figura, voltou, anelante, para o seu lugar. Um novo par a convidou. Sem flego, sem poder mais, estava prestes a recusar, mas, de sbito, apoiou-se no ombro do par, sorrindo para o prncipe Andr.
     Gostaria muito de descansar e de ficar ao p de si; estou cansada, mas, bem v, procuram-me... Sinto-me alegre, sou feliz; esta noite gosto de toda a gente; e ns entendemo-nos to bem! Eis o que o seu sorriso dizia, isto e muito mais ainda. Quando o par a reconduziu. Natacha ps-se a correr pela sala para arranjar duas senhoras para a figura.
     Se for a prima a primeira pessoa a quem se dirigir, e s depois procurar outra, ser minha mulher, disse o prncipe Andr, de si para consigo, de maneira absolutamente inesperada, enquanto a seguia com os olhos. Foi  prima que Natacha se dirigiu primeiro.
     Que tolices nos passam s vezes pela cabea, pensou ele. Mas a verdade  que esta rapariguinha  to gentil e to original que lhe no dou um ms para ir a bailes antes de estar casada... Ningum aqui se lhe compara. Bis em que pensava quando Natacha, compondo a rosa do corpete, voltou a sentar-se junto dele.
     No fim do cotillon, o velho conde, de fraque azul, aproximou-se. Convidou o prncipe Andr a visit-los e perguntou  filha se se divertira. Natacha no respondeu logo e sorriu, como se dissesse: E pode perguntar-se uma coisa destas?
     - Diverti-me como nunca na minha vida! - disse ela, e Andr viu-a, num gesto espontneo, erguer os braos delgados para estreitar o pai e depois tornar a deix-los cair. Sim, sentia-se feliz como nunca. Atingira esse supremo instante de felicidade em que tudo  perfeio e bondade e em que se no pode acreditar nem no mal, nem na desgraa, nem na dor.
     No decurso deste baile. Pedro sentiu-se pela primeira vez humilhado pelo prestgio de que gozava a mulher nas altas esferas da sociedade. Estava taciturno e distrado. Uma grande ruga lhe sulcava a fronte, e, de p, junto duma janela, olhava, sem ver, atravs dos vidros das lunetas.
     Natacha, que ia cear, passou pela sua frente. Impressionou-a a sua expresso triste e infeliz. Parou junto dele. Teria desejado socorr-lo, comunicar-lhe a felicidade a mais que sentia,
     - Que divertidos que todos esto, no acha, conde? - disse ela.
     Pedro sorriu com um ar distrado, sem perceber o que a jovem lhe dizia.
     - Sim, muito feliz - tornou ele.
     Como  que uma pessoa pode estar descontente?, dizia Natacha de si para, consigo. E tratando-se de um homem to bom como este Bezukov! A seus olhos, todos os que estavam no baile eram igualmente bons, gentis, belos e amavam-se uns aos outros. Ningum seria capaz de ofender o semelhante, e eis porque toda a gente devia sentir-se feliz.
     

     
     
     
     Captulo XVIII
     
     No dia seguinte. Andr lembrou-se do baile da vspera, mas no se demorou muito tempo a pensar nisso. Sim, um baile brilhantssimo. E ento.., sim, aquela Rostov, que gentil! H nela qualquer coisa de fresco, de especial, que no  de Petersburgo e que a distingue de todas as demais. E a isso se limitaram os seus pensamentos. E depois do ch ps-se a trabalhar.
     No entanto, ou por fadiga ou insnia, o certo  que no estava nos seus melhores dias, e era-lhe impossvel fazer fosse o que fosse. Achava pouco interesse no trabalho entre mos, e, como muitas vezes acontece, foi grande o seu contentamento quando lhe vieram anunciar uma visita, um tal Bitski, membro de diversas comisses, assduo nos crculos de Petersburgo, encarniado partidrio de Speranski e das suas reformas e zeloso alvissareiro dos escndalos da capital, um desses homens prontos a acompanhar as opinies em voga como quem se adapta  moda no vestir e que assim gozam da fama de partidrios das ideias novas. De aspecto preocupado, mal se desembaraou do chapu, precipitou-se para Andr e inopinadamente ps-se a falar. Acabava de ser informado do que se passara essa manh na sesso do Conselho do Imprio, inaugurado pelo imperador, e foi com grande entusiasmo que se lhe referiu. O discurso do czar fora a todos os ttulos notvel. Falara como s o costumam fazer os monarcas constitucionais, O imperador disse sem rodeios que o Conselho e o Senado constituam corpos do Estado, que o Governo devia basear-se no na arbitrariedade, mas em princpios slidos. Afirmou que as finanas e os oramentos pblicos deviam ser reorganizados. Bitski relatava tudo isto, frisando certas palavras e esbugalhando muito os olhos.
     -  um facto, estamos perante um acontecimento que representa o incio de uma era nova, a era mais grandiosa da nossa histria - concluiu.
     O prncipe Andr ouvia aquele relato sobre a inaugurao do Conselho do Imprio, que com tanta impacincia aguardara e a que atribua tamanha importncia, e surpreendia-se que um tal acontecimento, agora que se realizara, no s lhe no causasse a mais pequena emoo, mas se lhe afigurasse at insignificante. Ouvia com serena ironia o relato entusiasta de Bitski. Uma ideia muito simples lhe vinha ao esprito: Que tenho eu e que tem este Bitski que ver com isto? Que nos importa que o imperador se tenha dignado falar assim no Conselho? Tornar-me- isto mais feliz ou melhor?
     E esta pequenina reflexo reduziu a nada subitamente todo o interesse que ele poderia ter nas reformas realizadas. Nesse mesmo dia jantaria em casa de Speranski na intimidade, como dissera o anfitrio. Este jantar, na roda da famlia e dos amigos de um homem por quem ele tinha to grande entusiasmo, despertara-lhe tanto maior interesse quanto  certo nunca haver surpreendido Speranski na intimidade. Mas agora perdera todo o interesse em assistir ao jantar. No entanto,  hora marcada, batia  porta da pequena moradia de Speranski, no Jardim de Tavritcheski. Na sala de jantar da residncia de Speranski, de um meticuloso asseio, que fazia lembra- lima cela de convento. Andr, um pouco atrasado, s cinco horas, veio encontrar j reunidos todos os componentes dessa reunio de amigos, pessoas ntimas apenas. No havia outra senhora alm da filha do ministro, com a mesma esguia figura do pai, e a preceptora. Os convidados eram Gervais. Magnitski e Stolipine. J no vestbulo Andr ouvia o estridor das vozes e um riso sonoro e claro semelhante ao que se costuma ouvir no palco. Algum - dir-se-ia Speranski - espaava os ah, ah!, ah! E como o prncipe Andr nunca ouvira rir Speranski, sentiu-se desagradavelmente impressionado por aquele riso vibrante e agudo.
     Entrou na sala de jantar. Toda a gente estava de p, entre duas janelas, junto da mesinha dos hors-doeuvre. Speranski, de fraque cinzento e condecoraes, ainda, evidentemente, com o mesmo colete branco e a mesma alta gravata clara que levara a famosa sesso do Conselho do Imprio, estava, diante da mesa, com uma expresso jovial. Os convidados faziam roda em tomo dele. Magnitski, voltado para Mikail Mikailovitch, contava uma anedota. Speranski ouvia, rindo antecipadamente do que ele diria. Quando o prncipe Andr entrou, as gargalhadas abafavam de novo as palavras de Magnitski. Stolipine ria num tom de baixo, mastigando um pedao de po com queijo. Gervais, com um riso sibilante. Speranski, com o seu riso agudo e desbagulhado.
     Sem deixar de rir, estendeu ao prncipe Andr a mo branca e macia.
     - Muito prazer em v-lo, prncipe - disse - Um instante - acrescentou, dirigindo-se a Magnitski e interrompendo a sua histria. - Fizemos um acordo: hoje  jantar de amigos, esto proibidos os assuntos srios. - E, voltando-se para o narrador, ps-se novamente a rir.
     Andr, ao ouvi-lo rir assim, sentiu-se ao mesmo tempo surpreendido e desapontado. Afigurava-se-lhe estar diante de outro homem. Tudo que at a ele representara para si de misterioso e de sedutor se desvanecera subitamente e nada de cativante via nele j.
     A alegre conversa continuou. Era um rosrio de anedotas. Assim que Magnitski se calou, logo outro convidado mostrou desejos de contar qualquer coisa ainda mais jocosa.
     Em geral eram anedotas relativas, seno ao meio dos burocratas, pelo menos a alguns deles. Naquela roda todos pareciam to convencidos da nulidade de tal gente que o partido que tomavam a seu respeito era o de uma stira indulgente. Speranski contou que na sesso do Conselho dessa manh, como algum perguntasse a um dignitrio duro de ouvido qual a sua opinio, este respondera que era da mesma. Gerais contou pormenorizadamente um caso de inspeco particularmente notvel pela estupidez de todos os comparsas que nele intervinham. Por sua vez. Stolipine, gaguejando, associou-se ao colquio e ps-se a falar calorosamente dos abusos do regime anterior, o que fazia que a conversa corresse o perigo de assumir um tom srio. Magnitski troou do entusiasmo de Stolipine. Gervais disse um gracejo e a conversa retomou o tom frvolo desejado.
     Era um facto que Speranski gostava de descansar dos seus trabalhos e desopilar com os amigos, e os seus convidados, cientes desse seu desejo, procuravam distra-lo, divertindo-se a si prprios. Mas esta alegria produziu em Andr um efeito penoso.
     O timbre agudo da voz de Speranski era-lhe desagradvel, o seu riso constante parecia soar-lhe a falso e irritava-lhe os nervos. E ele, o nico que no ria, teve receio de parecer enfadonho, embora, em verdade, ningum houvesse reparado que ele no estava no diapaso da roda. Todos pareciam alegrssimos.
     Por vrias vezes tentou Andr entrar na conversa, mas de todas elas as suas palavras pulavam como uma rolha na gua. Era-lhe impossvel afinar pelo tom dos gracejos.
     Nada havia de mal ou de inconveniente no que eles diziam, tudo era espirituoso e podia at ser divertido; mas a verdade  que lhe faltava fosse o que fosse, o sal de toda a verdadeira, alegria. E o certo , que os convivas nem sequer pareciam suspeitar de que esse sal existisse.
     Findo que foi o repasto, a filha de Speranski e a preceptora levantaram-se. Speranski acariciou com a sua branca mo o rosto da filha e beijou-a. E tambm este gesto pareceu pouco natural ao prncipe Andr.
     A moda inglesa, os homens ficaram sentados  mesa e beberam vinho de) Porto. No meio da conversa que se entabulou a propsito da guerra de Espanha, em que todos estavam de acordo para aprovar Napoleo. Andr ps-se a defender um ponto de vista contrrio. Speranski sorriu, e no desejo evidente de mudar de conversa contou uma anedota sem a mais pequena relao com o que se estava a dizer. Todos se calaram durante alguns instantes.
     Tendo ficado mais algum tempo a mesa. Speranski rolhou a garrafa do vinho, dizendo:
     - Hoje este vinho anda por mesas altas. - E entregou-a a um criado, levantando-se. Todos o imitaram, e em ruidosa conversa entraram no salo. Vieram entregar a Speranski duas cartas que um correio acabava de trazer. Pegando nelas, o dono da casa retirou-se para o seu gabinete. Mal ele saiu da sala a alegria geral desapareceu e os convidados puseram-se a conversar entre si em voz baixa e num tom sensato.
     - Bom, agora so horas de recitar! - disse Speranski, ao voltar do gabinete. - Tem um talento extraordinrio! - acrescentou, para o prncipe Andr, apontando-lhe Magnitski. Imediatamente este se empertigou, principiando a declamar versos humorsticos em francs, inspirados em personagens clebres de Petersburgo. E por vrias vezes os aplausos o obrigaram a calar-se.
     Finda a recitao. Andr aproximou-se de Speranski e pediu-lhe licena para retirar-se.
     - Onde  que vai to cedo? - perguntou-lhe ele.
     - Prometi ir a casa de uns amigos...
     Ambos se calaram. O prncipe Andr fitou de perto aqueles olhos de reflexos metlicos que impediam qualquer penetrao e sentiu-se ridculo por ter pensado poder esperar alguma coisa daquele homem e dos empreendimentos em que andava envolvido. E perguntou a si mesmo como pudera tomar a srio tudo quanto ele fazia. Aquele riso forado, sem verdadeira alegria, por muito tempo ficou a ressoar-lhe rios ouvidos depois que deixou a casa de Speranski.
     De regresso a casa, entregou-se a recordar toda a sua existncia em Petersburgo durante aqueles ltimos quatro meses, como se se tratasse de qualquer coisa nova. Lembrou-se das suas diligncias, das suas iniciativas, da histria do seu projecto de cdigo militar aceite para exame e sobre o qual todos se empenhavam em guardar silncio unicamente porque outro trabalho, muito inferior, j estava preparado e havia sido apresentado ao imperador. Vieram-lhe ao esprito as sesses da comisso de que Berg fazia parte. Recordou-se como nessas sesses se haviam discutido, cuidadosa e longamente, todas as questes de forma e de processo e como houvera o cuidado de pr de lado o essencial. E lembrou-se tambm dos seus prprios trabalhos legislativos, de como traduzira cuidadosamente em russo os artigos do direito romano e do cdigo francs, deplorando o tempo que perdera com isso. Depois o pensamento levou-o at Bogutcharovo, lembrou-se das suas ocupaes na aldeia, da sua viagem a Riazan, dos seus mujiques, do estaroste Drene e, olhando os artigos do direito das gentes que cuidadosamente distribura por artigos, sentiu-se admirado como pudera consagrar tanto tempo a um trabalho to estril.
     

     
     
     
     Captulo XIX
     
     No dia seguinte o prncipe Andr foi visitar algumas pessoas a quem ainda no vira, e entre elas os Rostov, com quem reatara relaes no ltimo baile. No era s a cortesia que o levava a fazer esta visita, tambm se sentia arrastado a faz-la pelo desejo de rever aquela rapariguinha, cheia de vivacidade e carcter, que lhe deixara uma impresso to agradvel.
     Natacha foi a primeira pessoa a aparecer-lhe. Trazia um vestido azul, caseiro, e assim vestida ainda pareceu mais bonita ao prncipe Andr que na toilette de baile. Tanto ela como toda a demais famlia Rostov o acolheram como a um velho amigo, simples e cordialmente. Aquela gente, que ele severamente julgara outrora, afigurava-se-lhe agora composta de pessoas excelentes, simples e boas. Tais eram a hospitalidade e a bonomia do velho conde, qualidades particularmente encantadoras em Petersburgo, que ele no pde recusar o convite para jantar.
     Sim,  gente boa e simptica, dizia para consigo mesmo. E nem sabem o tesouro que tm em Natacha. Boas pessoas e ptimo fundo para fazer sobressair uma rapariga to potica, to cheia de vida.
     Ao p de Natacha sentia-se abeirar de um mundo que ignorava completamente, um mundo especial, pleno de alegrias de que nunca compartilhara, um mundo que muito o intrigara j na alameda de Otradnoie e  janela banhada pelo luar. E agora j esse fundo o no intrigava, j lhe no era estranho. Abeirando-se dele, novas alegrias viera encontrar.
     Depois de jantar, e a seu pedido. Natacha sentou-se ao cravo e cantou. O prncipe Andr, de p junto da janela, conversando com as senhoras, escutava-a. No meio de uma frase calou-se, e, sem que ele prprio soubesse como, sentiu que uma comoo lhe subia  garganta, coisa de que se no julgava capaz. Fitou Natacha, que continuava a cantar, e uma vaga de felicidade como jamais sentira lhe inundou a alma. Parecia feliz e ao mesmo tempo tristssimo. No tinha razo para chorar, e no entanto estivera a ponto disso. Chorar porqu? Pelo seu primeiro amor? Pela defunta princesinha? Pelas suas iluses perdidas? Pelas suas esperanas de futuro?... Por tudo isso e tambm por outra coisa.
     O que antes de mais nada lhe provocava aquela comoo era a sbita revelao que nele se operava de uma assustadora contradio entre o que sentia de infinitamente grande e de inacessvel no fundo de si prprio e o ser estreito e corpreo que ele tambm era e que ela era tambm. Tal contradio era todo o seu tormento e toda a sua alegria enquanto Natacha cantava.
     Quando ela acabou, aproximou-se de Andr e perguntou-lhe se gostara de a ouvir. Feita a pergunta, logo uma grande perturbao a tomou, compreendendo que a no devia ter feito. Andr olhou-a sorrindo e disse-lhe que o seu canto lhe agradara como lhe agradava tudo quanto ela fazia.
     O prncipe Andr s tarde, pela noite dentro, se retirou de casa dos Rostov. Deitou-se maquinalmente, mas no tardou que verificasse no poder conciliar o sono. Ora se deixava estar deitado na cama, de vela acesa, ora se erguia, para voltar a deitar-se, sem que aquela insnia o fatigasse, tais os sentimentos novos e alegres que sentia. Era como se sasse da atmosfera asfixiante de um quarto fechado para o ar livre da natureza. No lhe passava pela cabea a ideia de estar enamorado de Natacha. No pensava nela sequer, embora a tivesse diante dos olhos, e por isso mesmo a vida se lhe apresentava agora sob uma luz completamente nova. Que receio eu? Porque  que me aflijo, porque  que me preocupo dentro deste quadro estreito, quando o certo  que a vida, toda a vida, com todas as suas alegrias, est diante de mim?, dizia consigo mesmo. E pela primeira vez de h muito tempo para c se ps a fazer alegres planos para o futuro. Decidiu chamar a si a educao do filho, que precisava de arranjar um preceptor a quem o confiar, e depois que deve- ria pedir a demisso e viajar pelo estrangeiro, visitar a Inglaterra, a Sua, a Itlia. Tenho de aproveitar a minha liberdade enquanto me sinto com juventude e fora, pensava. Pedro tinha razo quando dizia ser preciso acreditar na felicidade para sermos realmente felizes, e eu agora tambm o creio. Que os mortos enterrem os mortos. Enquanto estamos vivos precisamos de viver e de ser felizes.
     

     
     
     
     Captulo XX
     
     Uma manh o coronel Adolfo Berg, que Pedro conhecia, como de resto conhecia toda a gente em Moscovo e Petersburgo, apresentou-se-lhe em casa com o seu vistoso uniforme novo, as ma- deixas penteadas para diante e lustrosas de cosmticos,  moda do imperador Alexandre Pavlovitch.
     - Acabo de estar com a condessa sua mulher - disse ele, sorrindo - e no posso esconder o meu desgosto por no ter visto deferido o meu convite. Espero ser mais feliz consigo, conde.
     - Que pretende, coronel? Estou s suas ordens.
     - Conde, estou hoje completamente instalado na minha nova casa - disse Berg, persuadido de antemo de que esta notcia no podia deixar de ser acolhida com sumo prazer - e por isso desejava oferecer uma pequena festa s pessoas das minhas e das relaes da minha mulher. - E um sorriso ainda mais gracioso lhe perpassou pelos lbios. - Queria pedir  condessa e a si, caro conde, que me dessem a honra de vir a nossa casa tomar uma chvena de ch e partilhar da nossa ceia.
     Infelizmente, a condessa Helena Vassilievna, considerando a sociedade de Berg indigna dela, tivera a crueldade de declinar o seu convite. To claramente Berg explicou porque desejava reunir em sua casa um grupo de pessoas pouco numeroso, mas escolhido, pois isso a ele lhe daria grande prazer e seria o primeiro a lamentar fazer sacrifcios para outros fins, como jogar as cartas ou coisas igualmente prejudiciais, embora para receber gente de tom se no poupasse a sacrifcios, tanto insistiu, que Pedro no pde recusar o convite e prometeu aparecer.
     - Mas no venha muito tarde, conde, j que me permite, a pelas oito horas menos dez, se faz favor. Jogaremos uma partida, tambm l estar o nosso general. , muito bom para mim. Depois cearemos. Fica ento combinado.
     Contrariamente ao seu costume, que era chegar sempre atrasado. Pedro nessa noite chegou a casa dos Berg s oito menos um quarto, e no s oito menos dez.
     Os Berg, j com tudo a postos para a soire, aguardavam os convidados de ponto em branco.
     Berg e a mulher recebiam no seu gabinete, muito asseado, muito bem iluminado, decorado de bustos e de quadros e guarnecido de mobilirio novo. Ele, de uniforme, igualmente novo e rigorosamente abotoado, explicava  mulher ser de toda a convenincia ter relaes entre as pessoas de uma situao mais elevada, visto dessa gente s poderem esperar-se coisas agradveis. H sempre qualquer vantagem nisso, h sempre qualquer coisa que se lhes pode pedir. Observa, por exemplo, a minha carreira desde os mais baixos postos. - No contava o tempo por anos, mas por promoes- Os meus camaradas nesta altura ainda nada so, e eu, como vs, estou em vsperas de ser nomeado comandante de regimento e tenho a grande dita de ser teu marido. Levantou-se para beijar a mo de Vera, mas de passagem ajeitou um dos cantos do tapete, que estava dobrado. E a quem devo eu tudo? Antes de mais nada  arte de escolher as minhas relaes. Claro est que alm disso  bom sermos virtuosos e cumpridores.
     Berg sorriu com a conscincia da sua superioridade sobre uma fraca mulher e calou-se, dizendo de si para consigo que, afinal de contas, aquela encantadora pessoa a quem chamava esposa era fraca como todas as mulheres e no podia aspirar ao que constitui a dignidade do homem, a dignidade de se ser um homem (Em alemo no texto original. (N, dos T.)
     Entretanto. Vera sorria tambm, consciente da sua superioridade sobre o virtuoso e excelente marido, o qual, no entanto, em sua opinio, compreendia mal a vida, como, alis, todos os homens. Berg, que julgava as outras mulheres atravs da sua prpria, considerava-as a todas seres fracos e estpidos. Vera, julgando os homens atravs do marido e generalizando as suas observaes, supunha que todos eles no faziam outra coisa seno considerar-se cheios de razo, embora na realidade nada compreendessem e no passassem de criaturas orgulhosas e egostas.
     Berg levantou-se e, enlaando a mulher cautelosamente, para lhe no amarrotar a romeira, que lhe custara a ele muito cara, beijou-a nos lbios.
     - H uma coisa que temos de considerar: no devemos ter filhos por ora - ponderou, merc de uma inconsciente associao de ideias.
     - Tens razo - assentiu Vera. - Tambm  esse o meu desejo. Precisamos de viver para a sociedade.
     - A princesa Iusupova tem uma muito parecida - disse Berg, apontando para a romeira com um sorriso bondoso e feliz. 
     Neste momento anunciaram o conde Bezukov. Os esposos trocaram um sorriso de satisfao, cada um deles chamando a si a honra daquela visita.
     A isto  que se chama saber cultivar relaes, pensou Berg. A isto  que se chama saber-se um homem conduzir na vida!
     - Peo-te que no venhas interromper-me quando eu estiver a falar com os convidados - advertiu Vera.- Sei muitssimo bem como me hei-de dirigir a cada um e o que  preciso dizer s pessoas com quem conversar.
     Berg sorriu.
     - Nem sempre: as vezes, com os homens,  preciso ter conversas de homens - observou ele.
     Pedro foi recebido numa sala inteiramente mobilada de novo, onde era impossvel urna pessoa sentar-se sem alterar a meticulosa simetria. Parecia compreensvel e de modo algum inslito que Berg, generosamente, se tivesse proposto alterar a disposio das poltronas e do div em ateno a to querido visitante, mas a sua perplexidade era tanta que deixou o convidado decidir. Este, porm, no teve dvidas em quebrar a simetria, puxando de uma cadeira. E imediatamente Berg e Vera deram incio  soire, interrompendo-se a cada momento um ao outro no decurso da conversa com o conde.
     Vera, que, mulher sensata, decidira que devia falar a Pedro na Embaixada de Frana, principiou logo por abordar esse tema. Por sua vez. Berg, partindo do princpio de que uma conversa de homens se tornava igualmente necessria, interrompeu a mulher para abordar o caso da guerra com a ustria e inconscientemente no tardou que tivesse transitado das consideraes gerais para as circunstncias pessoais acerca das propostas que lhe haviam sido feitas para tomar parte na campanha e das razes que o tinham levado a declinar o convite. Embora a conversa resultasse, por isto mesmo, assaz descosida e Vera estivesse furiosa com a interveno do marido, foi com prazer que os esposos verificaram ter a soire principiado muito bem, conquanto nessa altura apenas ainda com um s convidado, e parecer-se, como duas gotas de gua se parecem, com todas as demais soires em que se conversa, se bebe ch e h velas acesas.
     Da a pouco apareceu Bris, velho camarada de Berg. E foi com um matiz de superioridade e certo ar protector que se dirigiu ao casal. Depois chegou a vez do coronel e de uma senhora, e do prprio general, e dos Rostov, e ento a soire tomou-se incontestavelmente igual a qualquer outra. Berg e Vera no podiam esconder a satisfao que lhes causava o bulcio que reinava na sala, ao ouvirem aquelas conversas desirmanadas, o ruge-ruge dos vestidos e as saudaes que se iam trocando. Tudo se estava a passar como em toda a parte. Sobretudo o general parecia-se com todos os outros generais, todo ele elogios  instalao, batendo amistosamente no ombro de Berg e organizando, com uma desenvoltura toda paternal, a mesa do boston. Depois sentou-se ao lado do conde Ilia Andreitch, considerando-o, depois de si, a pessoa de maior representao. Os velhos com os velhos, os jovens com os jovens, a dona da casa na mesa de ch com os seus bolos em cestinhos de prata, absolutamente como na soire dos Panine, tudo decorreu sem tirar nem pr como em qualquer outra soire.
     

     
     
     
     Captulo XXI
     
     Pedro, na sua qualidade de convidado de marca, teve de tomar lugar  mesa do boston com Ilia Andreitch, o general e o coronel. E ali veio a encontrar-se sentado diante de Natacha e no pde deixar de sentir-se impressionado com a estranha mudana que nela se operara desde a noite do baile. Conservava-se calada, e no s menos bonita que ento, mas at mesmo pareceria feia se no fosse a expresso de doura e a indiferena por tudo que se lhe espelhavam no rosto.
     Que ter ela?, dizia de si para consigo enquanto a olhava. Natacha, sentada ao lado da irm na mesa de ch, desprendida e sem o fitar, ia respondendo a Bris, que estava perto de ambas. Pedro, que acabava de jogar uma partida completa e fizera cinco vazas, ouvindo rumor de passos e troca de cumprimentos, lanou um olhar a Natacha.
     Que lhe ter acontecido?, repetiu, ainda mais admirado.
     O prncipe Andr, com um ar atencioso e enternecido, estava diante de Natacha e dirigia-lhe a palavra. Ela erguia os olhos para ele, muito corada, procurando dissimular a emoo que a tomava. De novo lhe flamejava no rosto a labareda de um fogo interior. Parecia completamente transfigurada: de feia que ainda h momentos parecia, voltara a recuperar a beleza da noite do baile.
     Andr aproximou-se de Pedro e este julgou ver tambm na cara do amigo uma expresso nova e um ar de juventude.
     No decurso da partida Pedro mudou vrias vezes de lugar, ora de costas para Natacha, ora de frente para ela, e durante o tempo dos seis robers nunca deixou de os observar, aos dois.
     H entre eles qualquer coisa de muito importante, pensou, e um misto de alegria e de mgoa a tal ponto o emocionou que se esqueceu das suas prprias preocupaes.
     Findos os seis robers, o general levantou-se dizendo no ser possvel jogar em condies to adversas, e Pedro voltou a estar livre. A um canto. Natacha conversava com Snia e Bris; Vera dizia qualquer coisa ao prncipe Andr, sorrindo com finura. Pedro aproximou-se do amigo e sentou-se ao lado dos dois, tendo o cuidado de perguntar se no estaria a ser indiscreto. Vera, que percebera as atenes de Andr para com Natacha, julgara-se na obrigao de, numa festa em sua casa, uma autntica soire, fazer algumas finas aluses sentimentais, e, aproveitando uma oportunidade em que via o prncipe s, encetara com ele uma conversa sobre o amor em geral e a irm em particular. Julgava ela necessrio, perante um convidado inteligente, que assim aos seus olhos se apresentava o prncipe Andr, pr em jogo toda a sua diplomacia.
     Quando Pedro se aproximou, notou que Vera parecia muito exaltada e que o prncipe Andr, coisa que raramente lhe acontecia, estava comovido.
     - Que acha? - perguntava ela, com um sorriso subtil- Diga-me, prncipe, j que  to perspicaz e to bem compreende o carcter das pessoas, que pensa de Natacha? Acha-a capaz de ser constante nos seus afectos, como qualquer outra mulher? (Queria, claro esta, referir-se a si prpria.) E que ser capaz de gostar de um homem e ficar-lhe fiel para sempre? Isto considero eu o verdadeiro amor. Que acha, prncipe?
     - Conheo muito pouco a sua irm - replicou o prncipe Andr com um sorriso onde a ironia procurava ocultar uma certa perturbao -, conheo-a muito pouco para poder responder a uma pergunta to delicada. E, de resto, devo confessar-lhe, a mulher  tanto mais fiel quanto menos atraente.- E, enquanto isto dizia, ia olhando para Pedro, que se aproximava.
     - Sim, tem razo, prncipe - retomou Vera. - No nosso tempo... - Vera falava do seu tempo como em geral as pessoas de esprito acanhado, que supem ter descoberto e julgado as particularidades do seu tempo e esto persuadidas de que os homens se transformam consoante as pocas- No nosso tempo as raparigas gozam de tanta liberdade que o prazer de ser cortejada asfixia nelas muitas vezes o verdadeiro sentimento. E Natlia, h que o reconhecer,  muito sensvel a isso. - Esta nova aluso a Natacha fez que Andr franzisse outra vez o sobrolho. Quis levantar-se, mas Vera continuou, sorrindo ainda com mais finura:
     - Creio que ningum tem sido mais cortejada do que ela. Mas a verdade  que at  data ainda nenhum homem lhe agradou a srio. E o conde sabe isso muito bem - acrescentou dirigindo-se a Pedro. - At mesmo o nosso primo Bris, que chegou, aqui para ns, muito, muito longe na arte de seduzir...
     Ao ouvir estas palavras, o prncipe Andr franziu as sobrancelhas e continuou calado.
     -  amigo de Bris? - perguntou-lhe Vera.
     - Sim, conheo-o...
     - Naturalmente ele j lhe falou no seu amor de infncia por Natacha?
     - Ah! Houve um amor de infncia? - perguntou o prncipe Andr, corando repentinamente.
     - Sim. Sabe entre primos e primas a intimidade acaba muitas vezes em amor; quanto mais prima... No acha?
     - Oh! Evidentemente - tornou o prncipe Andr, e, numa forada animao, ps-se a gracejar com Pedro, dizendo-lhe que ele precisava de ter muito cuidado com as primas quinquagenrias de Moscovo. E, sempre no mesmo tom de gracejo, levantou-se, travou-lhe do brao e levou-o consigo para um recanto.
     - Que se passa? - perguntou Pedro, surpreendido com a estranha agitao do amigo, a quem no passara despercebido o olhar que Andr lanara a Natacha quando se erguera.
     - Preciso.., preciso de falar contigo - respondeu ele. - Como sabes, as nossas luvas de mulher... - referia-se s luvas que era costume oferecer aos franco-maes recm-iniciados para que estes as ofertassem  mulher de quem viessem a gostar. Eu... No, depois falarei contigo... - E com uma estranha chama no olhar e um extremo nervosismo aproximou-se de Natacha e sentou-se a seu lado. Pedro percebeu que ele lhe pedia qualquer coisa e que ela lhe respondia corando subitamente.
     Mas nesse mesmo momento Berg aproximou-se de Pedro para lhe pedir encarecidamente que viesse tomar partido na disputa que se travara entre o general e o coronel acerca dos acontecimentos de Espanha.
     Berg sentia-se contente e feliz. Havia no seu rosto um sorriso perene. A sua soire era uma perfeita soire e em tudo igual s demais soires a que ele assistira. Tudo tal qual: as delicadas conversas das senhoras, os jogos, o general jogando as cartas e engrossando a voz, o samovar, os bolos. S faltava uma coisa, uma coisa que ele observara em todas as soires cujo modelo imitava: uma conversa ruidosa entre homens e uma discusso sobre um assunto grave e interessante. O general encetara uma conversa desse gnero e Berg deu-se pressa em chamar Pedro para que viesse tomar parte nela.
     

     
     
     
     Captulo XXII
     
     No dia seguinte, o prncipe Andr foi jantar a casa do conde Ilia Andreitch e passou a tarde inteira em casa dos Rostov. Toda a gente adivinhara a razo da sua visita e ele, sem se importar com os demais, todo o dia procurou no se afastar de Natacha. Esta, assustada no fundo, mas feliz e palpitante, pressentia, como toda a gente em casa, que um acontecimento solene se ia dar. A condessa lanava ao prncipe olhares srios e tristes quando o via com Natacha, e timidamente, para disfarar, punha-se a tagarelar disto e daquilo sempre que o olhar de Andr se dirigia para ela. Snia receava afastar-se de Natacha e ao mesmo tempo tinha medo de ser importuna ficando ao p deles. Natacha empalidecia de receio quando ficava por instantes sozinha com o prncipe Andr, cuja timidez a surpreendia. Sentia-o pronto a fazer-lhe uma confidncia que no chegava.
     Quando,  noite, o prncipe abalou, a condessa foi ter com Natacha e disse-lhe em voz baixa:
     - Ento?
     - Me, por Deus, peo-lhe, nada me pergunte neste momento. No posso falar nisso - replicou ela.
     Isto no a impediu, contudo, de permanecer nessa mesma noite, por muito tempo, na cama da me, ora num sobressalto de emoo, ora palpitante de receio, o olhar imvel num ponto qualquer. Contava que ele lhe dissera muitas coisas amveis e que falara numa viagem ao estrangeiro e que lhe perguntara onde pensavam passar o Vero, e que tambm falara de Bris.
     - Mas nunca, nunca me aconteceu uma coisa assim! - murmurou. - Diante dele tenho medo, tenho sempre medo. Que quer isto dizer? Quer dizer que desta vez  verdade, no ? Est a dormir, me?
     - No, minha querida, tambm estou cheia de medo. Bom, vai para a tua cama.
     - J sei que no poderei dormir. Que absurdo dormir! Mezinha, mezinha, nunca senti nada parecido com isto! - exclamou, assustada e surpreendida com o sentimento que descobria na alma. - Quem havia de dizer!...
     Natacha julgava-se enamorada de Andr desde a primeira vez que o vira, em Otradnoie. E estava assustada, como perante uma felicidade estranha e inesperada, com o facto de aquele homem em que ela reparara ento - estava firmemente persuadida disso - ter surgido de novo no seu caminho e ela lhe no parecer indiferente.
     - E havia de vir precisamente nesta ocasio a Petersburgo, agora que ns aqui estamos. E havamos de nos encontrar naquele baile. O destino  que  o culpado. Sim, o destino: tudo isto tinha de acontecer. J ento, quando o vi, senti qualquer coisa de extraordinrio.
     - Que mais te disse ele? Que versos so esses? L-os, filha... - perguntou a me, que estivera cismando e a interrogava agora sobre uns versos que Andr escrevera no lbum de Natacha.
     - Me, acha que parece mal casar com um vivo?
     - Cala-te. Natacha. Reza a Deus. No cu se casa.
     - Querida mezinha adorada, gosto tanto de si, e que feliz eu sou! - exclamou Natacha, lanando-se nos braos da me, os olhos cheios de lgrimas repassadas de felicidade e emoo.
     A essa mesma hora. Andr, em casa de Pedro, falava do seu amor por Natacha e da firme resoluo de casar com ela.
     
     Nesse mesmo dia, a condessa Helena Vassilievna dava uma recepo em sua casa. Estavam presentes o embaixador de Frana, e prncipe imperial, havia pouco visita ntima da condessa, muitas senhoras e personalidades de distino. Pedro desceu ao rs-do-cho, deu uma volta pelos sales e toda a gente reparou no seu aspecto alheio e taciturno.
     Desde a noite do baile que Pedro, pressentindo a aproximao de um ataque de hipocondria, fazia o possvel por reagir. Desde que o prncipe era ntimo de sua mulher vira-se inopinadamente nomeado camarista, e a partir desse momento passara a sentir na alta sociedade uma impresso desagradvel, misto de vergonha e de embarao, e de novo principiavam a assalt-lo os seus tristes pensamentos sobre a vaidade de todas as coisas humanas. E a disposio melanclica ainda mais realava a comparao que a cada passo estabelecia entre a sua situao e a de Andr, depois que assistia  marcha dos sentimentos que de dia para dia aproximavam o seu amigo e a sua protegida. Procurava no pensar igualmente nem na mulher, nem em Natacha, nem em Andr. De novo tudo se lhe afigurou sem importncia ao p do sentimento de eternidade, e de novo se lhe formulou no esprito este pensamento: Para qu? E dia e noite, ocupado com os trabalhos de maonaria, tentava afastar do seu esprito os maus pensamentos. Era meia-noite, sara h pouco dos aposentos da condessa, e estava instalado nas suas dependncias do andar inferior, numa sala de tecto baixo, cheia de fumo, com um roupo enxovalhado pelas costas, sentado  mesa, copiando as actas autnticas das lojas escocesas, quando algum penetrou no aposento. Era o prncipe Andr.
     - Ah!  o prncipe? - exclamou Pedro, distrado e enfadado. - Eu, como v, estou a trabalhar - acrescentou, mostrando o caderno em que escrevia, num gesto de pessoa infeliz que trabalhando procura esquecer os aborrecimentos da vida.
     Andr deteve-se diante dele, o rosto radiante e como que transfigurado pela alegria, e sorriu-lhe, num egosmo de felicidade, sem reparar no aspecto infeliz do amigo.
     -  verdade. Pedro, quis falar-te ontem, e aqui estou hoje pronto a faz-lo. Nunca senti nada que se parea com isto. Estou enamorado, meu amigo.
     Pedro, de sbito, soltou um grande suspiro, e deixou-se cair .sobre o div, ao lado de Andr, com todo o peso do corpo. 
     - De Natacha Rostov, no  verdade?
     - Sim, sim, de quem havia de ser? Nunca pensei, mas este amor  mais forte do que eu. Ontem atormentei-me e sofri, e, no entanto, por nada desta vida desejaria no ter sofrido assim. No vivia. Agora, sim, agora vivo, e no posso viver sem ela. E ela, gostar ela de mim?... Para Natacha j sou um velho... Ento, nada me dizes?
     - Eu, eu? Que hei-de eu dizer - exclamou Pedro, de repente, erguendo-se e principiando a andar de um lado para o outro. - Sempre pensei que... Esta rapariga  um verdadeiro tesouro, um tesouro tal.., sim, uma prola! Meu querido amigo, no pense mais. Deixe-se de hesitaes, case-se, case-se, case-se... Estou convencido que no haver homem mais feliz no mundo.
     - E ela?
     - Gosta de si.
     - No digas tolices... - replicou Andr sorrindo e olhando para Pedro bem nos olhos.
     - Gosta, tenho a certeza - insistiu Pedro enfadado.
     - Ento ouve - tornou o prncipe, travando-lhe do brao.- Sabes em que situao moral me encontro? Preciso de abrir o corao seja a quem for.
     - Bom, bom, diga. Sentir-me-ei muito feliz - replicou Pedro, e com efeito a expresso modificou-se-lhe subitamente; as rugas da testa desapareceram-lhe, e, sorrindo, ps-se a ouvir o prncipe Andr, que parecia outro homem. Onde o seu tdio, o seu desprezo pela vida, o seu desencanto? Pedro era a nica pessoa diante de quem ele se atrevia a desabafar. E disse-lhe tudo quanto lhe ia na alma. Descreveu-lhe os seus planos fceis e audaciosos para o futuro, declarou-lhe que no podia sacrificar a sua felicidade a um capricho do pai, que estava disposto a obrig-lo a dar o seu consentimento para a boda e a faz-lo gostar da sua noiva, ou que ento passaria sem isso. E por outro lado mostrou-lhe o assombro que sentia perante aquele sentimento desconhecido que o dominava por completo, como se fosse qualquer coisa estranha e independente dele.
     - Se algum me tivesse dito que eu viria a gostar assim de uma mulher, no teria acreditado - acrescentou. - O que sinto agora  completamente diferente do que outrora experimentei. Actualmente o universo divide-se para mim em duas partes: uma, em que ela est presente, e onde tudo  felicidade, esperana, luz; a outra, em que ela no figura, e onde tudo so trevas e dores...
     - Trevas e obscuridade - repetiu Pedro -, sim, sim, compreendo, compreendo.
     - No posso deixar de amar a luz, no tenho culpa de que assim seja. E sinto-me muito feliz. Compreendes? Sei que compartilhas da minha alegria.
     - Sim, sim confessou Pedro, observando o amigo com um olhar enternecido e tristonho. Quanto mais o destino do prncipe se iluminava, mais lgubre se lhe afigurava o seu.
     

     
     
     
     Captulo XXIII
     
     Para casar. Andr precisava do consentimento paterno, e por isso no dia seguinte partiu para a aldeia.
     O velho encarou a comunicao do filho com uma serenidade aparente e uma clera secreta. No podia compreender que algum quisesse modificar a sua vida e nela introduzir qualquer coisa de novo quando a sua prpria chegava ao fim. Que, ao menos, me deixem acabar os meus dias a meu gosto, depois podero fazer o que quiserem, dizia de si para consigo o ancio. Para com o filho, contudo, procedeu com a diplomacia das grandes ocasies. Foi com um ar sereno que discutiu com ele.
     Em primeiro lugar, aquele casamento, do ponto de vista do parentesco, da fortuna e da fidalguia, no era uma aliana brilhante. Em segundo lugar. Andr no estava na primeira juventude e tinha pouca sade, e o velho insistia principalmente neste ponto, porquanto ela era muito jovem. Em terceiro lugar, havia uma criana, que no podia ser confiada aos cuidados de uma garota. E por fim, acrescentou, fitando o filho com um ar trocista:
     - Eis o que te peo, espera um ano, vai viajar pelo estrangeiro, cuida de ti, trata de arranjar um alemo para dirigir a educao do prncipe Nicolau, como  teu desejo, e depois, se o teu amor, a tua paixo, a tua obstinao, tudo o que tu quiseres, continuarem os mesmos, ento casa-te. E aqui tens a minha ltima palavra, fica sabendo, a minha ltima palavra... - E concluiu num tom que significava nada haver no mundo que o fizesse mudar de opinio.
     O prncipe Andr percebeu que o pai esperava que os sentimentos dele, seu filho, ou os de sua noiva no resistiriam  prova de um ano, ou ento que, tendo em vista a sua avanada idade, ele prprio viria a morrer entretanto. E decidiu acatar a sua vontade, adiando o casamento para da a um ano. Trs semanas depois da ltima noite em casa dos Rostov. Andr estava de regresso a Petersburgo.
     No dia que se seguiu  explicao que tivera com a me. Natacha, de manh  noite, esperou a visita de Bolkonski, mas este no apareceu. No segundo e no terceiro dia, a mesma coisa. Pedro tambm no apareceu, e Natacha, que ignorava que Andr partira para a aldeia, no podia compreender aquela ausncia.
     E assim decorreram trs semanas. Natacha recusava-se a aparecer em parte alguma e andava de um lado para o outro, de sala para sala, como uma sombra, ociosa e desolada. A noite, a ocultas de toda a gente, chorava, e j no procurava a me na sua cama. A cada momento corava e irritava-se. Imaginava que todos sabiam das suas decepes, todos a troavam ou deploravam. E estas mordeduras no seu amor-prpro, acrescidas do seu grande desgosto, ainda a tornavam mas infeliz.
     Certo dia foi ter com a me, quis dizer-lhe fosse o que fosse e rompeu a chorar. As suas lgrimas eram como as de uma criana castigada que no sabe porque a puniram.
     A condessa procurou consol-la. Natacha principiou por ouvir o que a me dizia, depois, subitamente, interrompeu-a:
     - No diga mais, me, no penso e no quero voltar a pensar mais nisso! A verdade  que apareceu e depois ningum o tomou a ver, nunca mais... - Tremia-lhe a voz, ia chorar de novo, mas conteve-se e prosseguiu tranquilamente:
     - No me quero casar. Alm disso, tinha medo dele. Agora estou completamente sossegada, completamente.
     No dia seguinte. Natacha enfiou um vestido velho de que muito gostava, porque se lembrava das manhs alegres em que o vestira, e voltou  vida antiga, que havia abandonado em seguida  noite do baile. Depois do ch, dirigiu-se ao salo mais espaoso, seu preferido por causa da boa acstica, e recomeou o solfejo. Assim que terminou a primeira lio, postou-se no meio da sala e entoou uma frase musical de que muito gostava. Entretinha-se a ouvir o efeito maravilhoso e inesperado para ela daquelas notas soltas derramando-se pelo vazio da sala e lentamente morrendo. E de repente sentiu-se alegre. Para que hei-de eu pensar em tudo isto? Assim tambm estou bem, dizia de si para consigo. E comeou a passear de um lado para o outro do grande salo, caminhando pelo sonoro pavimento, no em passo natural, mas apoiando primeiro o taco e depois a biqueira dos sapatos novos, seus preferidos. E ao ouvir o martelar cadenciado do taco e da biqueira dos sapatos, rangendo, experimentava um prazer to grande como o que sentira ao escutar o eco da sua prpria voz. Passando por diante de um espelho, relanceou-lhe um olhar. Aquela sou eu!, parecia dizer a expresso que se lhe pintara no rosto. ptimo! No preciso de ningum.
     Um criado quis entrar na sala para proceder  limpeza, mas ela mandou-o embora, fechou a porta e prosseguiu no seu passeio. Naquela manh regressara ao profundo amor de si prpria e  admirao pela sua prpria pessoa. Que encanto esta Natacha!, exclamava, dando a palavra a uma terceira pessoa, ser colectivo e do sexo forte.  bonita, nova, tem uma linda voz, no incomoda ningum. Deixem-na ento em paz. Mas, ainda mesmo que a deixassem em paz, no mais saberia recuperar a tranquilidade antiga, isso mesmo teve ocasio de verificar no tardou muito.
     A porta do vestbulo que abria para a rua abriu-se e algum perguntou: Esto em casa? E uns passos se ouviram. Natacha lanou um olhar ao espelho, mas j l no estava. Ouvia rudo no vestbulo. Porm, quando conseguiu tornar a ver-se no espelho empalideceu. Era ele. Tinha a certeza, embora a custo lhe percebesse a voz para alm da porta fechada.
     Muito plida e assustada, correu para o salo.
     - Me, est ali Bolkonski! - exclamou. - No posso, me,  insuportvel. No quero sofrer. Que hei-de fazer?...
     Ainda a condessa no tivera tempo de responder, j o prncipe entrava na sala, com um aspecto preocupado e srio. Assim que seus olhos encontraram Natacha, o rosto iluminou-se-lhe. Beijou a mo da condessa e da filha e sentou-se.
     - H muito tempo no tnhamos o prazer... - principiou a condessa, mas o prncipe Andr cortou-lhe a palavra, para lhe responder imediatamente, tanta pressa tinha de dizer o que queria:
     - No tornei a aparecer porque estive em casa de meu pai: precisava de conversar com ele sobre um assunto muito grave. Cheguei esta noite - disse, fitando Natacha. - Preciso de lhe falar, condessa - acrescentou, depois de um momento de silncio.
     A condessa baixou os olhos, suspirando.
     - Estou s suas ordens - disse ela.
     Natacha percebia que devia retirar-se, mas no era capaz de se decidir a faz-lo. Tinha um n na garganta e olhava para Andr de uma forma quase descorts, bem de frente, com os olhos muito abertos. Vai ser agora? J?... No, no pode ser, dizia para si mesma.
     Andr voltou a fit-la, e ento Natacha convenceu-se de que se no enganava. Sim, agora, j, ia decidir-se o seu destino. - Vai Natacha, eu te chamarei- segredou-lhe a condessa. Natacha lanou a Andr e  me um derradeiro olhar, splice e consternado, e saiu.
     - Condessa, vim pedir-lhe a mo de sua filha - principiou Andr.
     Um grande rubor subiu  cara da condessa, mas no respondeu logo.
     - O seu pedido... - disse, pausadamente, enquanto ele se calava e a fitava nos olhos. - O seu pedido... - estava perturbada - -nos agradvel, e por mim aceito-o, estou muito contente. E meu marido.., espero.., mas tudo depende dela.
     - Falarei a Natacha quando tiver o seu consentimento... Concede-mo? - inquiriu o prncipe Andr.
     - Com certeza - replicou ela, e estendeu-lhe a mo. E depois, num misto de embarao e de ternura, poisou-lhe os lbios na testa no momento em que ele se inclinava para lhe beijar a mo. Desejaria querer-lhe como a um filho, mas sentia-o por de mais distante. Intimidava-a. - Estou convencida de que meu marido no se opor - acrescentou ela. - Mas seu pai...
     - Meu pai, a quem comuniquei os meus projectos, ps-me como condio do seu consentimento que o casamento se no realize antes de um ano. E era isto precisamente o que eu lhe queria dizer.
     -  verdade que Natacha ainda  muito nova, mas tanto tempo...
     - No pode ser de outra maneira - volveu Andr, suspirando. - Vou chamar Natacha. - disse a condessa, saindo da sala. - Senhor, tende piedade de ns! - ia implorando ao afastar-se.
     Snia disse-lhe que Natacha estava no quarto. Sentada na cama, plida, os olhos secos cravados nos cones, os lbios balbuciantes, persignando-se rapidamente, murmurava fosse o que fosse. Ao ver entrar a me, saltou da cama, correu para ela e caiu-lhe nos braos.
     - Que , me? Que ?
     - Vai, vai, est  tua espera. Pediu-me a tua mo - disse a condessa friamente, pelo menos assim pareceu a Natacha. - Vai.., vai- prosseguiu ela com tristeza e reprovao, ao v-la despedir numa carreira, e soltou um profundo suspiro.
     Mais tarde Natacha quis lembrar-se de como entrara no salo e no podia. Ao chegar ao limiar da porta, ao v-lo, estacou. Ser possvel que este estranho se haja tornado agora tudo para mim?, perguntou a si prpria, e imediatamente ouviu a resposta: Sim, tudo, ele e s ele,  agora para mim a pessoa mais querida do mundo. O prncipe Andr aproximou-se dela de olhos baixos.
     - Enamorei-me de si desde o primeiro instante em que a vi. Posso ter esperanas?...
     Ergueu os olhos para ela, e a expresso grave e apaixonada de Natacha impressionou-o. Aquele rosto parecia dizer-lhe: Perguntar para qu? Para que duvidar do que  evidente? Para que falar quando as palavras no podem exprimir o que uma pessoa sente?
     Aproximou-se, e de novo parou. Andr pegou-lhe na mo e beijou-a.
     - Gosta de mim?
     - Gosto, gosto! - exclamou Natacha, como se lhe estivessem a arrancar uma confisso. E por vrias vezes respirou fundo, como se sufocasse, e rompeu em soluos.
     - Que foi? Que tem?
     - Oh, sou to feliz! - balbuciou ela, suspirando, os olhos cheios de lgrimas. Inclinou-se para ele e, hesitando um momento, como a perguntar-se a si prpria se o poderia fazer, beijou-o.
     O prncipe Andr apertava-lhe as suas mos nas dele, olhava-a nos olhos, e j no conseguia encontrar no fundo do seu corao o mesmo amor que sentira por ela. Produzira-se nele subitamente como que uma revoluo. A misteriosa e potica atraco do desejo desaparecera, e em seu lugar surgia agora uma espcie de compaixo por aquela fragilidade de criana e de mulher, agora havia nele uma espcie de susto diante daquele abandono e daquela entrega. Era a conscincia, misto de alegria e de tristeza, do dever que para sempre o ligava a ela. Conquanto no to poticos e luminosos como outrora, os sentimentos que ela agora lhe inspirava eram mais srios e mais fortes.
     - Sua me disse-lhe que s nos poderemos casar daqui a um ano? - articulou Andr, sem deixar de a olhar nos olhos.
     Ser possvel que eu, a garota que sou para toda a gente, dizia Natacha de si para consigo, ser possvel que eu seja agora a mulher deste homem amvel, uma igual deste homem inteligente, um estranho ainda para mim, e a quem o meu prprio pai respeita? Ser isto verdade? Ser verdade que a vida tenha deixado de ser para mim uma brincadeira, que eu seja agora uma pessoa crescida, que tenha de prestar contas de todos os meus actos e de todas as minhas palavras? Mas que me estava ele a dizer?
     - No - replicou ela, sem perceber o que Andr lhe perguntava.
     - Perdoe-me - disse ele -, a Natacha  to nova e eu j passei por tantas coisas na vida. Tenho medo por si. Ainda se no conhece a si mesma.
     Natacha escutava-o com toda a ateno, fazendo esforos para compreender o sentido das palavras que ele lhe dizia, mas sem o conseguir.
     - Por mais penoso que seja para mim este ano que me separa da felicidade - prosseguiu Andr - dar-lhe- tempo de avaliar os seus sentimentos. Peo-lhe que me faa feliz dentro de um ano. At l considere-se sem compromissos. O nosso noivado manter-se- secreto e se entretanto se convencer de que me no ama ou, pelo contrrio, se continuar a gostar de mim... - acrescentou com um sorriso forado.
     - Porque  que me fala assim? - interrompeu Natacha.- Bem sabe que principiei a gostar de si desde que o vi pela primeira vez, em Otradnoie - acentuou com o firme acento da verdade.
     - Tem um ano para bem se conhecer...
     - Um ano inteiro! - disse, de sbito. Natacha, compreendendo finalmente que o casamento s se realizaria da a doze meses. - Mas um ano, porqu? Porqu um ano?... - O prncipe Andr ps-se a explicar-lhe os motivos. Natacha, porm, no o ouvia j.
     - Mas no pode ser de outra maneira? - perguntou.
     Andr no respondeu, e Natacha percebeu pela sua fisionomia que a deciso era irrevogvel.
     -  horrvel! Oh!,  horrvel, horrvel! - exclamou de sbito Natacha, rompendo a chorar. - Se tiver de esperar um ano, morro. No pode ser,  horrvel! - Ergueu os olhos para o noivo e viu que a perplexidade e a dor o alanceavam.
     - Bom, bom! Farei tudo que for preciso - disse ela, enxugando rapidamente as lgrimas. - Sou to feliz!
     Ento os pais de Natacha entraram na sala e deram a sua bno aos noivos.
     A partir desse dia, o prncipe Andr passou a frequentar a casa dos Rostov na qualidade de noivo de Natacha.
     

     
     
     
     Captulo XXIV
     
     No se festejou o noivado e a ningum foi participado que Bolkonski e Natacha eram noivos. O prncipe Andr assim o quis. Dizia que j que era ele o causador daquele contratempo sobre ele deviam pesar todos os seus inconvenientes. E acrescentou que a palavra dada era para ele um compromisso eterno, mas que Natacha continuaria senhora da sua inteira liberdade. Se dentro de seis meses verificasse que o no amava, teria pleno direito de se desligar do compromisso. Escusado dizer que nem Natacha nem os pais queriam ouvir falar nisto, mas Andr era inabalvel nesse ponto. Ia todos os dias a casa dos Rostov, mas no tratava Natacha como noiva: no a tuteava e limitava-se a beijar-lhe a mo. Entre os dois, aps o pedido de casamento, as relaes passaram a ser muito diferentes do que at ento - mais ntimas, mais simples. At a haviam sido como estranhos um ao outro. Achavam graa lembrarem-se da maneira como mutuamente se encaravam naquele tempo em que ainda no eram nada um para o outro. E agora era como se se sentissem outras pessoas: antigamente dissimulavam, agora eram simples e sinceros. De princpio, a famlia experimentava certo embarao na presena de Andr. Consideravam-no como que pertencendo a outro mundo, e Natacha levou muito tempo antes de conseguir familiarizar a sua gente com o noivo: dizia-lhes, orgulhosa, que s na aparncia ele era assim uma pessoa especial, mas que no fundo era igual aos demais, que a no intimidava e que ningum devia intimidar-se dele. Depois de algum tempo, habituaram- se, e naturalmente voltaram aos seus hbitos de vida antigos, hbitos com que o prprio prncipe, de resto, se identificava. Sabia falar de assuntos agrcolas com o conde, de vestidos com a condessa e Natacha, e de bordados e lbuns com Snia. Por vezes, a famlia Rostov, na intimidade ou na presena de Andr, referia-se  surpresa que lhe causava o que acontecera, vendo sinais de destino em tudo: na chegada do prncipe a Otradnoie, na vinda deles para Petersburgo, as semelhanas de Natacha e do noivo assinaladas pela velha criada aquando da primeira visita deste, a altercao em 1805 entre Andr e Nicolau e ainda muitas outras coisas.
     Na casa respirava-se esse tdio potico e silencioso que costuma envolver os noivos. s vezes, sentados  mesma mesa. Todos se calavam. E acontecia as outras pessoas levantarem-se e irem-se embora, e os noivos, que ficavam ss, continuarem calados. Raramente falavam do futuro. O prncipe Andr receava esse tema e tinha escrpulos em abord-lo. Natacha partilhava do mesmo sentimento, como, alis, de todos os seus pensamentos secretos, que sempre adivinhava. S uma vez se lembrou de lhe falar do filho. Andr sorriu, o que muitas vezes acontecia agora, e o que muito agradava a Natacha, e replicou que o filho no viveria com eles.
     - E porqu? - interrogou Natacha, assustada.
     - No posso tir-lo ao av, e alm disso...
     - Ia gostar tanto dele! - exclamou Natacha, que logo lhe adivinhou o pensamento. - J sei, no quer que tenham alguma coisa a dizer de ns.
     O velho conde costumava abeirar-se s vezes do prncipe Andr, beijava-o, pedia-lhe conselhos sobre a educao do Ptia ou a respeito da vida militar de Nicolau. Quanto  velha condessa, essa suspirava olhando para os noivos. Snia, receosa a todo o momento de ser Indiscreta, estava sempre a arranjar pretextos para os deixar ss, mesmo quando no era necessrio. Quando Andr falava - tinha um verdadeiro talento de narrador. - Natacha ouvia-o cheia de orgulho, e quando era ela quem falava podia ver, num misto de alegria e de receio, como ele a olhava, atento e escrutador. E perguntava-se, inquieta: Que procura ele de mim? Que quer ele dizer com este olhar? Que acontecer se no encontrar em mim o que procura? As vezes apoderava-se de Natacha aquela louca alegria to prpria do seu temperamento, e era com grande satisfao que via e ouvia rir o prncipe Andr. Este raramente ria, mas, quando o fazia, era sem reservas, e ento mais ela se sentia, graas a esse riso, identificada com ele. Se no fosse a ideia da separao que se aproximava, enchendo-a a ela de pavor e a ele, quando nisso pensava, fazendo-o empalidecer. Natacha ter-se-ia sentido plenamente feliz.
     Na vspera da sua partida para Petersburgo o prncipe Andr apareceu na companhia de Pedro, que no voltara a casa dos Rostov desde a noite do baile. Pedro parecia confuso e perturbado. Ps-se a conversar com a condessa. Natacha e Snia foram jogar o xadrez e convidaram Andr, que se abeirou delas.
     - H muito que conhecem Bezukov? - perguntou. - Gostam dele?
     - Gostamos.  muito bom rapaz. Mas um pouco ridculo.
     E, como sempre que Natacha falava de Pedro, contou histrias a propsito das suas distraces, algumas das quais eram inventadas.
     - Sabe que lhe falei no nosso segredo? - disse Andr. - Conheo-o desde criana.  um corao de ouro. Peo-lhe uma coisa. Natacha - acrescentou, de sbito, muito srio. - Vou partir e s Deus sabe o que pode vir a acontecer. Pode deixar de gostar de mim... Sim, bem sei que no devo falar assim. Mas, enfim, acontea o que acontecer, durante a minha ausncia...
     - Que poder acontecer?
     - Se acontecesse alguma desgraa - prosseguiu ele -, peo-lhe. Mademoiselle Sophie, suceda o que suceder, s a ele peam conselho e amparo.  uma pessoa distrada, um pouco ridcula, mas um corao de ouro.
     Nem o pai, nem a me, nem Snia, nem o prprio Andr puderam prever o efeito que a partida deste produziria em Natacha. Agitada, muito vermelha, os olhos sem uma lgrima, ia e vinha pela casa, ocupada nas coisas mais insignificantes, como se no compreendesse o que a esperava. No chorou sequer no momento em que ele, ao despedir-se, lhe beijou pela ltima vez a mo. No se v embora! , disse ela apenas, numa tal voz que ele se perguntou a si prprio se no deveria ficar realmente, e por muito tempo havia de lembrar-se daquele instante. Depois de ele partir, tambm no chorou, mas durante alguns dias deixou-se ficar sentada nos seus aposentos, sem se interessar por coisa alguma, repetindo de quando em quando:
     Ai!, porque se foi ele embora?
     No entanto, quinze dias depois, inesperadamente, ante a surpresa de todos, despertou daquele torpor, voltou a ser como era antes, embora com outra expresso mental, como costuma acontecer s crianas quando se levantam depois de uma prolongada doena.
     

     
     
     
     Captulo XXV
     
     A sade e o carcter do velho prncipe Nicolau Andreievitch Bolkonski no ano que se seguiu  partida do filho pioraram muito. Tomou-se ainda mais irritvel e todos os seus arrebatamentos de clera imotivada caam geralmente sobre a princesa Maria. Dir-se-ia escolher adrede todos os recantos sensveis do corao desta para a fazer sofrer moralmente com a maior crueldade que podia. Maria tinha duas paixes, e portanto duas alegrias: o sobrinho Nikoluchka e a religio, e esses os dois objectivos favoritos dos ataques e - das ironias do prncipe. Falasse-se do que se falasse, logo ele conduzia a conversa para as supersties das solteironas e a indulgncia e os mimos excessivos destas para com as crianas. O que querias era fazer dele uma menina como tu. Fazes mal. O prncipe Andr precisa de um filho, no de uma filha, dizia-lhe ele. Ou ento, dirigindo-se a Mademoiselle Bourienne, perguntava-lhe, na presena de Maria, que pensava ela dos popes e dos cones russos, e l vinham de novo os seus sarcasmos...
     Feria a cada passo e a qualquer pretexto a princesa Maria, mas a filha, para lhe perdoar, nem por isso tinha de fazer um grande esforo. Como poderia ele ser culpado a seus olhos? E como  que ele, que no fundo tanto lhe queria, podia ser injusto para com ela? E, de resto, em que consistia realmente a equidade? A princesa no tinha a mais pequena noo dessa palavra grandiloquente. Para ela todas as complicadas leis da humanidade se resumiam numa s, simples e clara, a lei do amor e do sacrifcio, a lei ensinada aos homens por Aquele que, sendo Deus, muito padeceu por amor da humanidade. Que lhe importava a ela a justia ou a injustia de outrem? A sua condio era sofrer e amar e isso mesmo estava ela fazendo.
     No Inverno, o prncipe Andr apareceu em Lissia Gori. Mostrara-se alegre, compassivo e terno como ainda a irm o no vira. E previu que alguma coisa acontecera, mas Andr nada lhe disse a respeito dos seus amores. Antes de tornar a partir, teve uma longa conversa com o pai e a princesa Maria pde observar que a entrevista os deixara a ambos descontentes.
     Pouco depois da partida do irmo, a princesa escreveu de Lissia Gori para Petersburgo  sua amiga Jlia Karaguine, a noiva que ela sonhava - sonho sempre na mente das raparigas solteiras - para o prncipe Andr. Jlia estava de luto pelo irmo, que morrera na guerra da Turquia:
     
     Est escrito que a nossa sina seja o sofrimento, minha querida e boa amiga Jlia.
     To cruel  a perda que acabas de sofrer que eu a no posso explicar seno como uma merc particular de Deus, que assim quer, por muito vos amar, pr-te  prova a ti e  tua boa me. Ah!, minha amiga, s a religio, s ela, pode, no digo consolar-nos, mas salvar-nos de cairmos no desespero. S a religio nos pode explicar tudo quanto, sem a sua ajuda, o homem  incapaz de compreender, ou seja, porque chama Deus a Si as criaturas de bom corao, de nobres sentimentos, que sabem dar felicidade aos outros na vida, no fazem mal a ningum e so mesmo precisas para a felicidade alheia, enquanto deixa viver criaturas ms, inteis, prejudiciais, e um fardo para elas prprias e para os outros. A primeira morte a que assisti e que no mais poderei esquecer - a da minha cunhada - obrigou-me a pensar muito. Assim como tu perguntas ao destino porque foi o teu bom irmo chamado para o seio de Deus, tambm eu lhe perguntei porque Lisa, aquele anjo, tinha de morrer, ela, que no s nunca fizera mal a algum, mas em cuja alma s houvera bons sentimentos. E que queres que te diga, minha amiga? Cinco anos so passados e s agora na minha fraca inteligncia comeo a compreender porque  que ela devia morrer e como esta morte no era seno um sinal da misericrdia infinita do Criador, cujas aces, ainda mesmo quando ns as no compreendemos, so sempre a prova do amor sem limites que Ele dedica  criatura humana. Muitas vezes penso que ela era, naturalmente, de uma inocncia anglica de mais para dispor de energias que a deixassem cumprir os seus deveres de me. Se como rapariga era irrepreensvel, talvez o no tivesse sido como me. Agora no s nos deixou a todos, e muito especialmente a Andr, as saudades mais preciosas, como o certo  que a esta hora j deve ter alcanado l em cima um lugar que eu no ouso esperar para mim prpria. Sem falar da recompensa que ter obtido, esta morte prematura e terrvel teve sobre meu irmo e sobre mim o efeito mais benfico, apesar da nossa dor. Quando passmos por este desgosto, se tais pensamentos me tivessem ocorrido, t-los-ia afastado de mim com horror; agora, porm, tudo isto se tomou to claro e incontestvel! Se te digo estas coisas, minha amiga,  apenas para te convencer da verdade evanglica, que se tomou a regra da minha vida! Nem um s cabelo nos cai da cabea sem a Sua vontade. E a vontade do Senhor s o Seu ilimitado amor por ns a conduz e  por isso que tudo quanto nos sucede s para nosso bem acontece. Perguntas-me se passaremos o Inverno em Moscovo? Apesar do meu desejo de tornar a ver-te, no o creio nem o desejo. Estranhars, talvez, que a culpa seja de Bonaparte. J vers como. A sade de meu pai est a decair muito; no suporta a menor contradio e est muito irritvel. Esta irascibilidade, como sabes,  provocada especialmente pela poltica. No pode tolerar a ideia de Bonaparte tratar de igual para igual todos os soberanos da Europa e em particular o nosso, o neto da grande Catarina! Como deves calcular, a poltica no me interessa, mas, atravs do que diz meu pai e das suas conversas com Mikail Ivanovitch, estou ao par de tudo quanto sucede no mundo, e sobretudo de todas as honras que prestam a Bonaparte, e, ao que parece, no mundo inteiro; s em Lissia Gori lhe recusam o ttulo de grande homem e de imperador dos Franceses. Realmente, meu pai no pode tolerar que assim seja. Calculo que, principalmente em virtude das suas ideias polticas e na previso de todos os aborrecimentos que lhe poderia vir a causar a sua maneira de proceder e os hbitos em que est de exprimir as suas opinies sem querer saber do que os outros pensam, no v com bons olhos a ida para Moscovo. Tudo quanto ganha no tratamento que est a seguir perder-se-ia merc das inevitveis discusses sobre Bonaparte. De qualquer maneira, muito em breve saberei o que se resolve. A nossa vida familiar segue o seu curso habitual, a no ser no que diz respeito a meu irmo Andr, que continua ausente. Como j te disse, mudou muito nestes ltimos tempos.  este o primeiro ano depois da infelicidade de que foi vtima em que parece em verdade ter renascido moralmente para a vida. Voltou a ser o que era quando criana: bom, terno, um corao de ouro, como outro melhor no conheo. Compreendeu por fim, ao que parece, que a vida ainda no acabou para ele. Mas, se mudou do ponto de vista moral, fisicamente decaiu muito. Est mais magro e mais nervoso. Estou inquieta por ele e sinto-me muito contente que ele tenha resolvido fazer esta viagem ao estrangeiro, h muito prescrita pelos mdicos. Tenho esperanas nos seus resultados salutares. Disseste-me que em Petersburgo se fala dele como um dos jovens mais activos, mais cultos e mais inteligentes. Perdoa-me este orgulho de irm, mas sempre assim pensei. No podes calcular o bem que ele tem feito aqui tanto aos seus mujiques como  nobreza da regio. Em Petersburgo s encontrou o que merecia. Estou muito surpreendida com os boatos que correm e que chegaram at a, a Moscovo, especialmente com as atoardas como essa de que me falas sobre um suposto casamento de meu irmo com a pequena Rostov. No acredito que ele volte a casar seja com quem for e com muito mais forte razo com essa pequena. E aqui tens porqu: primeiro, embora ele fale raramente da sua falecida mulher, o desgosto que sofreu foi to profundo que no creio pense em substitu-la e em dar uma madrasta ao nosso anjinho; em segundo lugar, pelo menos quanto me  dado sab-lo, essa rapariga no pertence  categoria das mulheres que lhe podem agradar. No creio que o prncipe Andr case com ela e francamente te digo que o no desejo. Mas j vai longa esta carta e estou a terminar a minha segunda folha de papel. Adeus, minha querida amiga, que Deus te tenha na Sua santa guarda. A minha querida companheira. Mademoiselle Bourienne, envia-te um beijo.
     
     Maria
     

     
     
     
     Captulo XXVI
     
     Em meados do Estio. Maria recebeu da Sua uma carta inesperada do irmo em que este lhe dava parte de um caso imprevisto e surpreendente. Participava-lhe estar noivo de Mademoiselle Rostov. Esta carta vinha banhada do mais exaltado amor pela noiva e da maior ternura e de uma completa confiana pela irm. Dizia-lhe nunca ter amado como agora e que s tambm agora compreendia a vida; pedia-lhe que lhe perdoasse nada lhe ter dito, aquando da sua visita a Lissia Gori, a respeito das suas intenes, embora houvesse falado disso ao pai. No lhe falara no caso porque Maria teria intercedido junto do velho prncipe para ele dar o seu consentimento e com isso s teria concorrido para o exasperar, sem nada obter, ficando depois a suportar o peso inteiro do descontentamento paterno, Alis, escrevia ele, as coisas ainda no estavam definitivamente resolvidas nessa altura, mas agora sim. O pai, ento, imps-me que esperasse um ano; j l vo seis meses, metade do prazo, e a verdade  que nunca estive mais decidido na minha resoluo. Se os mdicos me no obrigassem a conservar-me aqui, nas guas, j eu estaria na Rssia, mas ainda tenho de esperar trs meses. Tu conheces-me bem e sabes quais as minhas relaes com o pai. No preciso de lhe pedir seja o que for e sempre serei independente, mas agir contra sua vontade, despertar-lhe a clera, talvez quando j to pouco tempo tem para viver connosco, seria tornar incompleta a minha felicidade. Escrevo-lhe sobre o mesmo assunto e peo-te que escolhas o momento que te parecer mais favorvel para lhe entregares a carta que te remeto, informando-me, depois, da, maneira como ele encarou a situao e se achas que h alguma esperana em consentir que antecipe de quatro meses o prazo fixado! 
     Depois de largas vacilaes, de muitos escrpulos e fervorosas preces. Maria entregou a carta ao pai. No dia seguinte o velho prncipe disse-lhe com a maior tranquilidade:
     - Escreve a teu irmo e diz-lhe que espere que eu morra... No tardar muito... Dentro de pouco tempo estar livre de mim...
     Maria quis objectar qualquer coisa, mas o pai no lho consentiu, e foi levantando a voz.
     - Casa-te, casa-te, querido amigo... Soberba parentela!... Pessoas de mrito, no haja dvida! E ricas, no  verdade? Ah! Claro, que linda madrasta para o Nikoluchka! Diz-lhe que se case amanh mesmo. Eh! Eh! Eh! Nikoluchka ter uma madrasta, e eu, eu, por mim, caso com a Burienka!... Eh! Eh! Eh! Assim tambm eu lhe darei a ele uma madrasta! O pior  que no quero mais mulheres c em casa. Que se case, mas que v viver para outra parte. Talvez tu queiras ir viver para casa dele. Pois muito boa viagem! E que passes por l muito bem! Muito bem!...
     Depois deste desabafo, o prncipe no voltou a falar no assunto. Mas o desagrado que lhe causava a fraqueza de Andr transparecia a cada passo nas relaes entre o velho prncipe e a filha. Um novo motivo de ironia veio juntar-se aos anteriores - o da madrasta e o do seu namoro em perspectiva com Mademoiselle Bourienne.
     - Por que diabo no hei-de eu casar com ela? - dizia ele para a filha. - Fazia-se dali uma ptima princesa!
     E, com efeito, naqueles ltimos tempos Maria notara, com grande pasmo, que o pai, de dia para dia se mostrava mais ntimo com a francesa. Escreveu a Andr sobre a forma como o pai acolhera a carta que ele lhe escrevera, dando-lhe, no entanto, algumas esperanas, pois talvez conseguisse lev-lo a dar o seu consentimento.
     Nikoluchka e a sua educao. Andr e a religio, eis as nicas alegrias e os nicos motivos de satisfao da princesa Maria. Mas, alm disso, como todos precisamos de aspiraes pessoais, no mais fundo do seu corao. Maria ocultava um sonho e uma esperana, todo o lenitivo da sua vida. Essa iluso consoladora e essa esperana devia-as aos homens de Deus, os inocentes e os peregrinos que frequentavam a casa s escondidas do prncipe. Quanto mais vivia, quanto mais experincia adquiria, quanto mais observava a vida tanto mais se surpreendia com a cegueira dos homens que procuram na terra a felicidade e os gozos, que lutam, que sofrem e que mutuamente se querem mal para alcanar essa miragem impossvel e v a que chamam felicidade. O prncipe Andr tinha amado uma mulher, que morrera; e isso no lhe bastava, queria procurar de novo a felicidade junto de outra mulher. O pai opunha-se a esse casamento porque desejava para ele uma mulher de sangue mais nobre e de famlia mais rica. E ei-los lutando e sofrendo e atormentando o semelhante e perdendo a sua alma, a sua alma imortal, para alcanarem prazeres que no duram mais do que uma hora. No s o sabemos por ns prprios, mas tambm por Cristo, o filho de Deus, que desceu  Terra e nos disse que esta vida no  mais do que um breve espao de tempo e uma prova. E, no entanto, a estamos ns, que nos agarramos a ela, pensando encontrar a felicidade c em baixo. Como  que ningum ainda percebeu isto?, interrogava-se Maria. Ningum, a no ser os homens de Deus, escrnio de toda a gente. E eles, de sacola ao ombro, a vm, pela escada de servio, com medo de que o prncipe os veja, no com receio de serem maltratados, mas apenas para que ele no caia em pecado. Abandonarem a famlia, a terra natal, todas as preocupaes deste mundo, no se prenderem a seja o que for e errarem de um lado para o outro, cobertos de andrajos, sob um nome suposto, sem nunca fazerem mal a outrem e rezando tanto pelos que os protegem como pelos que os maltratam, no, no h vida, no h verdade superiores  sua! Maria conhecia uma peregrina, uma tal Fiedossiuschka, mulher dos seus cinquenta anos, pequenina, picada das bexigas, sossegada, que havia trinta anos andava descala e carregada de cadeias. Tinha por ela uma especial afeio. Certo dia em que Fiedossiuschka lhe falava da sua vida, no seu obscuro quarto apenas iluminado pela lamparina do cone, a princesa Maria pensou de sbito to intensamente que s aquela mulher encontrara o verdadeiro caminho da vida que ela prpria decidiu fazer-se peregrina. Quando Fiedossiuschka se retirou, a princesa meditou muito tempo e por fim chegou  concluso de que, por mais estranho que isso fosse, o devia fazer. Confiou esta deciso ao seu confessor, o monge Akinfii, que aprovou as suas intenes. A pretexto de dar um presente a uma das peregrinas. Maria tratou de arranjar um trajo completo: bata, cafet, uns lapti e um leno preto. Por vezes, ao abeirar-se da cmoda onde escondera essas coisas, detinha-se, irresoluta, perguntando a si prpria se no chegara o momento de pr em prtica o seu projecto.
     Escutando as histrias dos peregrinos, essas histrias simples e mecnicas para eles, mas cheias de profundo sentido para ela, a princesa Maria, por vrias vezes, esteve a ponto de tudo abandonar e de fugir de casa. Em sua imaginao, via-se j com Fiedossiuschka, vestida como ela, de grosseiros andrajos, de bordo em punho e sacola ao ombro, por essas estradas pedregosas, de um lado para o outro, sem dios nem amores humanos, sem desejos nem invejas, chegando definitivamente onde no h mais dores nem mais suspiros, mas sim a alegria e a beatitude eternas.
     Chegarei a qualquer parte, rezarei, e antes que ganhe amor a esse lugar partirei para outro. Continuarei a andar at que chegue finalmente a esse asilo eterno e sereno onde no h mais tristeza nem dores... , dizia Maria de si para consigo.
     Mas mal via o pai, e sobretudo o pequeno Koko, vacilava na sua resoluo, chorava s escondidas e reconhecia ser uma pecadora: queria mais ao pai e ao sobrinho do que a Deus.







QUARTA PARTE
     

     
     
     
     Captulo I
     
     A tradio bblica ensina-nos que a felicidade do primeiro homem antes da queda consistia na ausncia de trabalho, isto , na ociosidade. O gosto da ociosidade manteve-se no homem rprobo, mas a maldio divina continua a pesar sobre ele, no s por ser obrigado a ganhar o po de cada dia com o suor do seu rosto, mas tambm porque a sua natureza moral o impede de encontrar satisfao na inactividade. Uma voz secreta diz ao homem que ele  culpado de se abandonar  preguia. E, no entanto, se o homem pudesse achar um estado em que se sentisse til e em que tivesse o sentimento de que cumpria um dever, embora inactivo, nesse estado viria a encontrar uma das condies da sua felicidade primitiva. Esta condio de ociosidade imposta e no censurvel  aquela em que vive toda uma classe social, a dos militares. Em tal ociosidade est e estar o principal atractivo do servio militar.
     Nicolau Rostov desde 1807 que lhe saboreava as delcias no regimento de Pavlogrado, onde continuava incorporado no esquadro cujo comando lhe fora transmitido por Denissov.
     Rostov transformara-se num belo rapaz, de maneiras rudes. Os seus conhecidos de Moscovo t-lo-iam achado com mau ar. A verdade, porm,  que os seus camaradas, os seus subordinados e at os seus superiores o estimavam e respeitavam, e por isso mesmo a vida militar lhe sorria. Nos ltimos tempos, quer dizer em 1809, nas cartas que recebia de casa havia frequentes queixas da me acerca do estado financeiro da famlia, de facto assaz precrio, acrescentando a condessa que principiava a ser tempo de ele voltar, para consolo e alegria dos seus velhos pais.
     Ao ler estas cartas. Nicolau receava que o quisessem tirar do meio em que ele, alheado de todas as preocupaes, vivia tranquilo e ditoso. Pressentia que mais tarde ou mais cedo se veria obrigado a entrar de novo na engrenagem da vida, com todas as suas trapalhadas, as contas com os administradores, as discusses, as intrigas, as relaes, a sociedade, o caso de Snia e as promessas que lhe fizera. Tudo isto se lhe apresentava terrivelmente difcil e confuso, e ento respondia  me, em cartas frias e clssicas, que principiavam sempre: Minha querida me, terminando pela frmula: Seu filho muito obediente e em que nada dizia quanto ao regresso a casa. Em 1810 uma carta dos pais veio inform-lo do noivado de Natacha com Bolkonski, acrescentando que o casamento se no realizaria seno da a um ano, em virtude da oposio do velho prncipe. Esta notcia entristeceu e mortificou um pouco Nicolau. Em primeiro lugar tinha pena de ver afastar de casa Natacha, a irm querida, e depois, do seu ponto de vista de hssar, lamentava no ter estado presente para fazer compreender a Bolkonski que no era honra to grande quanto ele supunha a aliana que lhe oferecia, e que, se era verdade ele gostar da irm, eis o bastante para dispensar a autorizao do louco do seu pai. Pensou, por momentos, pedir uma licena para falar com Natacha antes do casamento, mas aproximava-se a poca das manobras e, ao lembrar-se de Snia e das complicaes que o aguardavam, resolveu adiar o projecto. Entretanto, na Primavera desse mesmo ano recebeu urna carta da me, escrita s escondidas do conde, e esta carta decidiu-o a partir. Dizia-lhe ela que se ele se no resolvesse a tomar conta dos negcios da famlia todo o patrimnio acabaria vendido em hasta pblica e eles todos reduzidos  misria. O conde era um fraco, confiava de mais em Mitenka, era muito bom e toda a gente o enganava e as coisas iam sempre de mal a pior. Por Deus te peo que venhas imediatamente se queres por cobro  desgraada situao de toda a nossa famlia.
     Esta carta impressionou muito Nicolau, que era dotado desse bom senso dos medocres que lhes indica sempre o que mais convm fazer.
     Se quisesse abalar desde logo teria de pedir baixa ou ento uma licena. No sabia l muito bem porque faz-lo, mas, depois de dormir a sesta, deu ordem para lhe selarem Maro, o cavalo pigaro, garanho fogoso que no montava havia muito, e ao voltar para casa com o animal coberto de espuma participou a Lavruchka (o criado que herdara de Denissov) e aos camaradas reunidos para a noite que pedira uma licena para voltar a ver os pais. Custava-lhe partir sem ter sido informado pelo estado-maior, coisa para ele de alta importncia, se iria ser promovido a capito e se lhe seria concedida a cruz de SantAna por causa das ltimas manobras. Tambm lhe custava partir sem ter vendido ao conde Golukovski a troika de cavalos pigaros que aquele fidalgo polaco regateara com ele e que apostara vender-lhe por dois mil rublos. Igualmente lhe parecia impossvel no assistir ao baile que os hssares promoviam em honra de Madame Psazdetzka para arreliar os ulanos, que estavam a organizar outro em honra de Madame Borzovska. Apesar de tudo, sabia que tinha de abandonar aquele meio to franco e to simptico, para o trocar por outro onde o no aguardavam seno tolices e complicaes. Oito dias depois chegava a concesso da licena. Os hssares seus camaradas, no s os do regimento, mas de toda a brigada, ofereceram-lhe um jantar, a quinze rublos por cabea, com duas orquestras e dois grupos de cantores. Rostov danou a trepak (A trepak  uma dana de camponeses, em que o danarino se mantm de ccoras e lana alternadamente as pernas para diante. (N, dos T.) com o major Bassov; os oficiais, qual deles o mais bbado, balanaram-no, apertaram-no nos braos e deixaram-no cair. Os soldados do 3.O esquadro, por sua vez, tambm o balanaram, gritando: Hurra! Por fim meteram Rostov no tren e levaram-no at  primeira muda.
     Durante a primeira metade do caminho, isto , de Krementchug a Kiev, como  costume, todos os pensamentos de Rostov foram para os lugares que acabava de deixar, para o seu esquadro. Mas, uma vez percorrida esta parte do trajecto, comeou a esquecer-se dos cavalos pigaros, do ferrador Dojoveika, e ps-se a pensar, apreensivo, sobre o que iria encontrar em Otradnoie. Quanto mais se aproximava mais intensamente pensava na casa. Dir-se-ia que nele os sentimentos morais obedeciam  lei da queda dos corpos. Na ltima muda antes de Otradnoie deu trs rublos de gorjeta ao postilho e foi como um verdadeiro garoto que trepou, sem flego, os degraus de sua casa.
     Depois das efuses do primeiro instante, apoderou-se dele essa sensao estranha de desapontamento que faz dizer, quando algum no encontra o que procura: Tudo est na mesma. Para que tive eu tanta pressa? Mas, pouco a pouco, acabou por se habituar ao antigo ambiente da casa. Os pais, as mesmas pessoas, apenas haviam envelhecido um pouco. O que neles havia de novo era uma espcie de inquietao, por vezes uma como que desinteligncia, que outrora no existia, originada, assim em breve o reconheceu, pela m situao financeira. Snia j andava perto dos vinte anos. Mais bela no podia estar, tanto dera agora do que prometera antes, e isso bastava. Tudo nela falava de amor e felicidade desde que Nicolau chegara, e o certo  que a fiel e inabalvel dedicao daquela rapariga o enchia de orgulho. Ptia e Natacha eis quem mais o surpreendia. Ptia estava um rapago de treze anos, inteligente, bem disposto e travesso, cuja voz principiava a engrossar. Quanto a Natacha, por muito tempo a olhou admirado e sorrindo:
     - J no s a mesma! - exclamou.
     - Qu? Estou mais feia?
     - Pelo contrrio, olhem para o seu ar importante! Uma princesa! - murmurou ele.
     - Sim, sim - replicou Natacha, muito contente.
     E ps-se a contar-lhe os seus amores com o prncipe Andr, a chegada deste a Otradnoie, e mostrou-lhe a ltima carta que dele recebera.
     - Ests contente? - perguntou ela. - Por mim, estou tranquila e sinto-me feliz.
     - Muito contente - replicou Nicolau. -  um homem encantador. E ests realmente apaixonada?
     - Muito - exclamou ela. - Gostei do Bris, do meu professor, de Denissov, mas agora  outra coisa. Sinto-me tranquila, estou em terreno slido. Sei que no h pessoa melhor do que ele e sinto-me agora to sossegada, to feliz! No, no  como antigamente...
     Nicolau disse a Natacha quanto achava desagradvel aquele compasso de espera de um ano, mas Natacha replicou-lhe, com certa irritao, demonstrando-lhe no poder ser de outra maneira, e que no seria bom entrar na sua nova famlia contra a vontade do sogro, e que ela prpria, de resto, assim o quisera. - Nada percebes, absolutamente nada - concluiu.
     Nicolau, concordando com a irm, calou-se. As vezes, olhando-a a furto, estranhava-a. A atitude de Natacha no era de modo algum a de uma noiva apaixonada longe do noivo. Mostrava-se serena, alegre e sempre igual, exactamente como outrora. E isto surpreendia-o; olhava aquele noivado com uma ponta de desconfiana. No acreditava, de facto, que o futuro da irm estivesse definitivamente estabelecido, tanto mais quanto era certo nunca ter visto juntos os dois noivos. Parecia-lhe que qualquer coisa faltava quele projecto de casamento. Que significa este compasso de espera? Porque no se celebrou o pedido de casamento?, perguntava a si prprio. E um dia em que conversava com a me pde verificar, com surpresa e quase satisfao, que tambm ela, l no fundo doseu corao, confiava pouco naquela aliana.
     - Olha o que ele diz - disse para o filho mostrando-lhe uma carta do prncipe Andr, com aquele tom de hostilidade secreta que h em todas as mes quando se trata do futuro conjugal de suas filhas - olha o que ele escreve: que no poder vir antes de Dezembro. Que o prende longe daqui? Naturalmente est doente. Tem muito pouca sade. Nada digas a Natacha. Embora parea alegre, realmente no o est. So os ltimos dias da sua vida de rapariga, e eu sei bem o que lhe vai no corao de cada vez que recebe uma carta. Alis, quem sabe? Talvez tudo acabe bem - conclua de cada vez que falava no caso. -  uma excelente pessoa.
     

     
     
     
     Captulo II
     
     Nos primeiros tempos Nicolau parecia preocupado e triste. Atormentava-o a ideia de ver-se envolvido naquelas estpidas histrias de interesses por causa das quais a me o mandara regressar a casa. Para se ver livre quanto mais depressa melhor de um tal fardo, trs dias depois da sua chegada, furioso e sem dizer aonde ia, de m catadura, encaminhou-se para o pavilho de Mitenka a fim de lhe pedir contas de tudo. Que vinham a ser essas contas de tudo. Nicolau sabia-o menos que o prprio Mitenka, aterrorizado e surpreso com a sua visita. As contas e as explicaes de Mitenka no foram longas. Os estarostes, o ajudante e o estaroste do distrito, que aguardavam no vestbulo, ouviram, assustados, mas no sem satisfao, a voz do jovem conde, primeiro surda, depois cada vez mais alta, e por fim as palavras injuriosas com que o verberou.
     Bandido! Ingrato!... Mato-te como se mata um cachorro... No ests a tratar com meu pai... Ladro!...
     Depois, essas mesmas criaturas, no com menos susto e tambm no menor contentamento, viram o jovem conde, muito encarnado, os olhos injectados, arrastar Mitenka pelo pescoo e, com grande destreza, aplicar-lhe um pontap por cada palavra que ia dizendo.
     No olho da rua! Que eu nunca mais te torne a ver aqui, malandro! 
     Mitenka precipitou-se pela escada abaixo e desapareceu no meio de um macio da mata. Aquele macio era o refgio de todos os culpados de Otradnoie. O prprio Mitenka, quando voltava bbado da cidade, a costumava ocultar-se, e muitos outros, que por sua vez tinham de esconder-se de Mitenka, l procuravam asilo.
     A mulher do intendente e as cunhadas, assustadas, assomaram  porta do quarto onde cantava um samovar reluzente e em que se via a cama alta de Mitenka, com a sua colcha de trapos.
     O jovem conde, sufocado, passou junto delas sem lhes prestar ateno, e num passo resoluto entrou em casa.
     A condessa, a quem as criadas vieram contar imediatamente o que se passara no pavilho, por um lado, tranquilizou- se, dizendo de si para consigo que desta vez as coisas iam entrar no bom caminho, mas, por outro, inquietou-a o estado em que esta cena deixara o filho. Vrias vezes se aproximou, na ponta dos ps, da porta do quarto onde Nicolau ia fumando cachimbo sobre cachimbo.
     No dia seguinte o velho conde chamou Nicolau de parte e advertiu-o, com um sorriso embaraado:
     - Sempre te digo que te exaltaste em vo. Mitenka contou-me tudo.
     Eu j sabia, disse Nicolau com os seus botes, que nada conseguia perceber do que se passa nesta casa de doidos.
     - Zangaste-te por ele no ter escriturado aqueles setecentos rublos, mas estavam na outra pgina, que tu no viste.
     - Meu pai, ele  um canalha, um ladro, tenho a certeza. E o que eu fiz foi bem feito. Mas, se assim quer, nada mais lhe direi.
     - No, meu amigo... - O conde estava um pouco perturbado. Sabia que administrara mal a fortuna da mulher e que aos olhos dos filhos era culpado, mas no via maneira de remediar o seu erro. - Peo-te que te ocupes de tudo, estou velho e...
     - Perdoe, pai, se fui desagradvel, mas ainda sei menos que o pai de tudo isto.
     Diabos levem estes camponeses, estas contas, estas verbas inscritas na outra pgina, dizia de si para consigo. Em tempo ainda cheguei a compreender o que era um paroli de seis vazas, mas do que eles dizem nada percebo. E da para o futuro no voltou a tocar naqueles assuntos. No entanto, certo dia a condessa mandou-o chamar e disse-lhe que tinha em seu poder uma letra assinada por Ana Mikailovna, no valor de dois mil rublos, e gostava de saber que destino entendia ele dever dar-lhe.
     - Pois aqui tem o que penso - replicou Nicolau. - Diz a me que depende de mim. No gosto nem de Ana Mikailovna nem de Bris, mas foram nossos amigos e so pobres. Aqui tem o que devemos fazer! - E rasgou a letra. A me principiou a chorar de alegria. A partir de ento, o jovem Rostov, sem se preocupar com os assuntos administrativos da famlia, apaixonou-se por um divertimento novo para ele, a caa, divertimento que em casa do velho conde era tido em grande conta.
     

     
     
     
     Captulo III
     
     Os primeiros gelos matinais apareceram, e as terras, alagadas pelas chuvas de Outono, ficaram endurecidas pela geada. Os trigos outonais principiavam, a deitar tufos e o seu verde-vivo destacava-se das manchas amarelas do restolho das ceifas anteriores, pisado pelo gado e entrecortado pelas franjas avermelhadas do trigo sarraceno. As copas das rvores, que em fins de Agosto ainda formavam ilhas de verdura no meio dos campos negros novamente lavrados e dos restolhos, eram agora ilhas de ouro ou ento de um vermelho-vivo por entre o trigo novo verde-claro. As lebres cobriam-se de plo, as raposas novas principiavam a dispersar e os lobitos deitavam corpos maiores que os dos ces. Era a melhor poca para a caa. A matilha do jovem e fogoso caador Rostov no s ainda estava magra, mas em tal estado que foi decidido no conselho geral dos caadores que se dessem aos ces trs dias de repouso e que no principiassem a caar antes de 16 de Setembro, iniciando a batida pela mata onde fora vista uma ninhada de lobinhos por ora intacta.
     Eis a situao a 14 de Setembro. Durante aquele dia os caadores permaneceram em casa; havia gelo e frio, mas l para o fim da tarde o tempo melhorou e principiou a degelar. No dia seguinte, quando o jovem Rostov assomou, pela manh, de roupo,  janela do seu quarto viu que estava uma manh de caa como outra melhor no havia. O cu parecia fundir-se e, sem vento, deixar-se cair sobre a terra. O nico movimento que se percebia na atmosfera era a precipitao, de cima para baixo, das microscpicas partculas do opaco nevoeiro. Gotas transparentes que caam sobre as folhas recm-tombadas pendiam dos ramos nus das rvores da mata. Na horta a terra negra molhada e brilhante, como sementes de papoula, confundia-se a certa distncia com o lenol embaciado e hmido da neblina. Nicolau veio at  escada encharcada, coberta de lama: tinha nas narinas o aroma lnguido das florestas  mistura com o cheiro dos ces. Milka, a cadela preta malhada, de largas ancas, com grandes olhos negros  flor da testa, levantou-se mal viu o dono, espreguiou-se, voltou a deitar-se como uma lebre e depois, de chofre, deu um pulo e veio lamber-lhe a cara e os bigodes. Outro co, um galgo, ao v-lo, correu de um macio de flores, onde estava deitado, precipitou-se para a escada, e, alando a cauda, comeou a roar-se pelas pernas de Nicolau.
     Oh! Oh!, ouviu-se naquela altura. Era o grito inimitvel dos caadores em que a voz de baixo, mais profunda, se une  mais aguda, de tenor, e o monteiro Danilo surgiu, vindo de um dos ngulos da casa. Era um caador de cabea branca, com o rosto sulcado de rugas e cabelos aparados em forma de ferradura,  moda da Ucrnia. De chibata dobrada na mo, havia nele aquele ar importante e de supremo desdm peculiar aos caadores. Ao chegar junto do amo tirou o gorro circassiano e lanou-lhe um olhar altivo. Nesse olhar, um pouco desdenhoso, nada havia porm de ofensivo. Nicolau pde ver que aquele homem, que desprezava toda a gente e se considerava mais do que ningum, era afinal o seu homem de confiana, o seu caador.
     - Danilo! - exclamou, impressionado por aquele tempo ideal, pelos ces, pelo monteiro, como que trespassado por aquele frmito irresistvel que tudo faz esquecer aos caadores e em que h seja o que for da emoo de um namorado diante da mulher amada.
     - Que deseja. Excelncia? - perguntou Danilo, numa voz grossa, que fazia lembrar a de um primeiro-dicono, uma voz rouca de tanto gritar aos ces. Dois olhos negros, brilhantes, olharam de soslaio o amo, que continuava calado. Ento, parece que no te aguentas!, pareciam dizer aqueles olhos.
     - Lindo dia, no  verdade? Que dirias tu a urna caada? - murmurou Nicolau, coando Milka atrs das orelhas.
     Danilo piscou os olhos sem responder.
     - Mal amanheceu mandei o Uvarka ver o que havia - voltou o monteiro, na sua voz de baixo, aps alguns instantes de silncio. - Disse-me que passaram para a reserva de Otradnoie. Ouviu-os uivar. (Queria isto dizer que a loba, que sabiam ambos andar por ali, passara com a sua ninhada para a floresta de Otradnoie, reserva de caa aproximadamente a duas verstas da propriedade.)
     - Ento temos de ir j? - voltou Nicolau.- Venham c, tu e o Uvarka.
     - s suas ordens!
     - Espera. No ds ainda de comer aos ces.
     - Bom.
     Cinco minutos depois. Danilo e Uvarka chegaram ao grande gabinete de Nicolau. Daizilo era de pequena estatura, mas ali, dentro de uma sala, dava a impresso de um cavalo ou de um urso num parquet, no meio de mveis ou por entre objectos de uso dirio. E ele prprio se dava conta disso mesmo, e por isso, como de costume, no passava do limiar da porta, fazendo esforos para falar em voz baixa, por em nada mexer, receoso de quebrar alguma coisa nos aposentos do amo e procurando despachar o mais depressa que podia tudo quanto tinha a dizer, pressuroso de voltar ao ar livre e sair de sob aquele tecto para de novo se sentir debaixo da curva do firmamento.
     Concludas que foram as perguntas e depois que Danilo lhe garantiu que os ces no corriam qualquer risco - ele prprio no desejava outra coisa seno ver-se a caar -. Nicolau deu ordem para selarem os cavalos. Quando porm Danilo saa, entrava Natacha, numa carreira, ainda por pentear e vestir, embrulhada no xale da criada. Com ela vinha Ptia.
     - Vais  caa? - disse ela. - Bem me queria parecer. A Snia dizia que no, mas eu sei muito bem que com um dia destes no deixarias de sair.
     - Sim,  verdade - replicou Nicolau de m catadura, pois desde que se propusera uma caada a valer no queria ter consigo nem Natacha nem Ptia, que s podiam embara-lo. - Mas s aos lobos. E isso para ti no  divertido.
     - Estas enganado.  do que mais gosto - replicou Natacha. - Oh!, que mau, resolveu ir a caa, mandou selar os cavalos e nada nos disse.
     - Para os Russos no h obstculos! - exclamou Ptia. - Mas tu no podes ir, foi a me quem o disse - tornou Nicolau, dirigindo-se a Natacha.
     - Pois irei, sem dvida alguma - tornou esta, peremptria. - Danilo, manda selar os cavalos e diz a Mikailo que traga o meu casal de galgos - acrescentou, dirigindo-se ao monteiro.
     Assim como parecia a Danilo inconveniente e penoso estar numa sala, tratar com uma senhora tambm se lhe afigurava impossvel. Baixou os olhos, e, como se aquilo no fosse com ele, deu-se pressa em sair, pondo o maior cuidado em no tocar em Natacha com qualquer movimento brusco.
     

     
     
     
     Captulo IV
     
     O velho conde, que sempre mantivera um excelente grupo de caa, cuja direco agora confiara ao filho, naquele dia, 15 de Setembro, estava muitssimo bem disposto e preparava-se tambm para tomar parte na caada.
     Uma hora depois todos os caadores estavam reunidos junto da escadaria principal. Nicolau, srio e preocupado, o que significava no ter tempo para atentar em ninharias, passou por Natacha e Ptia sem prestar ateno ao que eles diziam. Examinou todos os preparativos da caada, deu ordem para que uma das matilhas, com os seus respectivos batedores, fosse na frente, montou o seu alazo do Don, e, depois de ter assobiado  sua prpria matilha, atravessou a sebe e dirigiu-se aos campos que levavam  floresta de Otradnoie. O cavalo do velho conde, um alazo pequenino, de grandes crinas brancas, chamado Viflianka, era levado pela arreata por um estribeiro. O conde iria de carro para o lugar que lhe fora indicado.
     Contavam-se ao todo cinquenta e quatro ces, conduzidos por seis monteiros ou guardas de canil. Alm dos amos havia oito caadores, com mais de quarenta galgos, de tal sorte que, no conjunto, para a caada contavam-se cerca de cento e trinta ces e vinte caadores montados.
     Cada galgo conhecia bem o seu dono e dava pelo seu nome. Por sua vez, cada caador sabia o que tinha a fazer e tinha um conhecimento preciso do seu posto e do papel que lhe cabia. Assim que atravessaram a sebe da floresta, todos, sem fazer rudo, sem pronunciar uma palavra, alinharam-se, simtrica e tranquilamente, pelos caminhos e pelos campos que levavam  mata de Otradnoie.
     Os cavalos avanavam campos fora como por um tapete macio, patinhando por vezes nos charcos ao atravessarem os caminhos. A neblina continuava a descer sobre a terra, vagarosa e imperceptivelmente, fundindo-se com as coisas. De tempo a tempo ouvia-se quer o assobio de um caador, quer o relincho de um cavalo, quer o estalido de um chicote ou o ganir de um co chamado  ordem.
     J teriam andado uma versta quando emergiram do nevoeiro, ao encontro dos caadores, mais cinco cavaleiros com os seus respectivos ces.  frente deles trotava um velho de agradvel aspecto, fresca tez e fartos bigodes brancos.
     - Bons dias, tio - disse Nicolau, quando o velho se aproximou dele.
     - Muito bem, vamos a isto.., j desconfiava - disse o tio, parente afastado dos Rostov, no muito rico e seu vizinho -, j desconfiava que no te ias ficar, e fizeste bem. - Muito bem, vamos a isto, era a sua expresso favorita. - Toma j conta da mata; o meu Guirtchik disse-me que os Ilaguine esto em Korniki com os seus homens. Vo-te roubar o rasto dos lobos; muito bem, vamos a isto!
     - Pois vamos. Ser preciso reunir as matilhas? - perguntou Nicolau. - Que acha?
     Reuniram os ces numa s matilha e o tio l foi ao lado de Nicolau. Natacha, enrolada no leno donde emergia o rosto em que os olhos brilhavam, muito animados, aproximou-se deles a trote, seguida do Ptia, do seu caador e do estribeiro Mikailo, encarregado pela velha ama de tomar conta dela. Ptia ria sem saber de qu, fustigando e excitando o cavalo. Natacha, segura e elegante, montava o seu Arabtchik e dirigia-o com mo firme e sem esforo.
     O tio olhou, descontente, para Natacha e Ptia. No lhe agradavam brincadeiras na caa, para ele coisa sria.
     - Bons dias, bons dias, mas tenham cuidado, no pisem os ces - replicou o velho severamente.
     - Nikolenka, olha o Trunila, que lindo co! Conheceu-me! exclamou Natacha, apontando o seu co de caa predilecto, Em primeiro lugar. Trunila no  um co como outro qualquer,  um co de caa, disse Nicolau de si para consigo, fitando irm com severidade, na esperana de lhe fazer compreender distncia que os separava naquela altura. Natacha percebeu.
     - Tio, no tenha medo que a gente os v atrapalhar - disse-lhe ela. - Prometemos-lhe no sair do nosso posto.
     - Muito bem, condessinha - volveu-lhe o tio. - Mas cuidado, no vo cair do cavalo, seno ento, muito bem, vamos a isto!, nunca mais nos entendemos.
     A tapada de Otradnoie j se via a umas cem sagenas e os caadores principiavam a chegar. Rostov, que conseguira assentar definitivamente com o tio o local donde deviam ser largados os ces, e aps ter indicado a Natacha o lugar em que ela fica- ria e por onde no podia passar animal algum, dirigiu-se para o mato, do outro lado da ravina.
     - Tem cuidado, sobrinho, vais defrontar-te com um lobo velho. - disse o tio - Cautela, no v ele fugir-te.
     -  isso que se vai ver - retorquiu Rostov. - Karai (Nome que designa a cor: baio-escuro. (N, dos T.), aqui! - gritou ele, para responder s palavras do tio. Era um velho co, muito feio, de plo ruo, afamado por atacar sozinho as velhas lobas. Toda a gente ocupou os seus postos. O velho conde, que bem conhecia a paixo do filho pela caa, dava-se pressa para no chegar atrasado, e ainda os caadores no tinham ocupado os seus lugares j Ilia Andreitch, muito corado e folgazo, as bochechas trmulas, desembocava no meio dos trigais verdes, ao trote dos seus cavalos, nas imediaes do posto que lhe fora designado. Desabotoando a pelia e tomando conta dos seus apetrechos de caa, montou o Viflianka, bom animal, bem tratado, luzidio e sossegado, que tambm principiava a envelhecer. A carruagem que o trouxera partia de regresso. Conquanto no fosse caador de fibra, o certo  que conhecia a fundo as leis da caa. Foi colocar-se na clareira da floresta, colheu as rdeas, e depois de bem sentado na sela e em forma, sorrindo, olhou em roda.
     Junto dele estava o seu criado de quarto. Simeo Tchekmar, velho cavaleiro, que principiava a ficar pesado. Tchekmar trazia trela trs molossos vigorosos, mas gordos de mais, como acontecia ao cavalo e ao cavaleiro. Dois outros ces, animais inteligentes, sem trela, deitaram-se ali ao lado. A uns cem passos, na clareira do bosque, postava-se outro estribeiro do conde, um tal Mitka, calo temerrio e apaixonado caador. O conde, de acordo com as velhas usanas, antes da caada bebeu um golo de vodka num copo de prata e trincou qualquer coisa regada com meia garrafa do seu bordus favorito.
     Ilia Andreitch, depois da caminhada e do vinho que bebera, corara um pouco. Os olhos, hmidos, tinham uma cintilao especial, e, encavalitado no selim, todo embrulhado na pelia, dir-se-ia uma criana que levam a passear.
     Tchekmar, magro e de faces cavadas, cumprida que foi a sua tarefa, fitou o amo, a quem servia com a maior fidelidade havia mais de trinta anos, e, sentindo-o muito bem disposto, resolveu entabular com ele uma aprazvel cavaqueira. Entretanto algum se aproximou, circunspecto - via-se bem que assim o tinham instrudo -, vindo do lado da floresta, e parou por trs do conde. Era um velho de barba branca, de casaco de mulher e gorro alto: nem mais nem menos que o bufo a quem chamavam Nastsia Ivanovna, nome de mulher.
     - Ol. Nastsia Ivanovna! - exclamou o conde, em voz baixa, piscando o olho -, cautela, no espantes as feras, seno tens de te haver com o Danilo!
     - Ora essa! J tenho barba na cara! - replicou Nastsia Ivanovna.
     - Chiu! Cala-te... - sussurrou o conde, e voltando-se para Simeo 
     - Viste a Natlia Ilinitchna? - disse-lhe. - Onde est ela? - Com o Piotre Ilitch,  sada dos matagais de Jarov - replicou Simeo, sorrindo. - Tambm as senhoras querem meter o nariz...
     - E se tu visses. Simeo, como ela monta a cavalo... - disse o conde. - No fica atrs de qualquer homem!
     - Estou pasmado. De nada tem medo, e que ligeira!
     - E o Nikolenka? Onde est? Para os lados do barranco de Liadov, no  verdade? - perguntou o conde, sempre em voz baixa.
     - Isso mesmo. Sim, senhor, ele sabe muito bem onde  que se h-de colocar. E aquilo  que  saber montar! No outro dia Danilo e eu ficmos pasmados - disse Simeo, que sabia muito bem como agradar ao amo.
     - Monta bem, no  verdade? E que porte a cavalo, hem!
     -  uma estampa! Ainda h tempo, quando andava  caa nos matagais de Zarvazino e levantou um raposo, era v-lo saltar, metia medo! O cavalo vale bem mil rublos, mas o cavaleiro no h dinheiro que o pague. No h para a outro menino assim!
     - No h... - murmurou o conde, que parecia lamentar que Simeo tivesse acabado to cedo o seu discurso. - No h outro... - repetiu ele, afastando as abas da pelia para tirar a caixa do rap.
     - H dias, quando ia a sair da missa, todo janota. Mikail Sidoritch... - Simeo no concluiu a frase, pois ouvira distintamente o latir de dois ou trs ces. Ps-se  escuta, inclinando a cabea, e acenou ao amo em silncio, para que este se calasse. - Vo atrs das feras... - murmurou. - Devem ter acabado de chegar ao barranco de Liadov.
     O conde, ainda com um vago sorriso, olhava  distncia, na sua frente, a mo em pala diante dos olhos e a caixa de rap fechada, sem se lembrar de tomar a pitada. Depois do latido dos ces ouviu-se o grito: Lobo, que soltava a voz de Danilo, cava como a duma trombeta. Toda a matilha veio juntar-se aos dois ou trs primeiros ces e ouviu-se o alarido sonoro e prolongado do latido dos galgos, peculiar quando no encalo de um lobo. Os monteiros j no aulavam os ces e apenas gritavam: A boca!, e sobre todas as demais vozes ouvia-se a de Danilo, ora grave, ora aguda e penetrante. Parecia encher toda a floresta e prolongar-se na distncia.
     Depois de algum tempo  escuta, calados, o conde e o estribeiro perceberam que os ces se tinham dividido em duas matilhas: a primeira, a mais numerosa, que ladrava com toda a fora e se ia afastando a pouco e pouco, e a outra, que corria ao longo da mata, para os lados do conde, e era da que se ouviam os A boca! de Danilo. O latir das duas matilhas misturava-se, cascalhava e ia-se afastando.
     Simeo soltou um suspiro e agachou-se para ajeitar a trela em que um cachorro se havia enredado. Tambm o conde suspirou, e ao dar pela caixa de rap na mo abriu-a e tirou uma pitada. Para trs!, gritou Simeo a um dos ces que aparecera na clareira da floresta. O conde estremeceu e deixou cair a caixa do rap. Nastsia Ivanovna desmontou e foi apanhar a caixa.
     O conde e Simeo olhavam para ele. De sbito, como costuma acontecer, a vozearia aproximou-se: dir-se-ia que estavam mesmo ali o latir dos ces e a voz potente de Danilo,
     O conde virou-se e viu  sua direita Mitka a olhar para ele, com os olhos fora das rbitas, enquanto, de barrete na mo, lhe apontava alguma coisa l adiante, do outro lado.
     - Ateno! - gritou numa voz que, por muito tempo retida, parecia explodir, como um trovo, e ps-se a galopar, atrs dos ces, na direco do conde.
     O conde e Simeo saram da clareira e viram  sua direita o lobo, que, num curto galope, se dirigia para a orla do bosque que eles acabavam de deixar. Os ces, que ladravam raivosos, libertando-se da trela, lanaram-se sobre a fera mesmo sob as patas dos cavalos.
     O lobo parou a custo, como se tivesse qualquer coisa no cachao, voltou a grande cabea para os ces e em dois ou trs pulos desapareceu na orla da mata, agitando a cauda. No mesmo momento, da orla oposta, com um latido que parecia um lamento, surgiram primeiro um, depois dois, em seguida trs ces, por fim a matilha inteira, todos correndo em direco ao local por onde o lobo acabara de passar. Da a pouco, por entre as aveleiras, surgiu o alazo de Danilo coberto de espuma. Sobre a sua larga garupa, numa bola, todo inclinado para diante, vinha ele, sem barrete, os cabelos brancos, esguedelhados, caindo-lhe para a cara, muito vermelha e coberta de suor.
     - A boca! A boca!  gritava quando viu o conde, no seu olhar havia rancor.
     - Arr... - vociferou, brandindo o ltego, ameaador. - Espantaram o lobo... Isto  que so caadores! - E, como se reconhecesse que o conde, assustado e confuso, no merecia que lhe dissessem mais nada, fustigou o flanco do alazo, coberto de suor, vibrando-lhe os golpes que apetecia para o amo, e despediu na peugada dos ces. O conde, atordoado com tudo aquilo, voltou-se, tentando sorrir, como que a implorar a indulgncia de Simeo. Este porm, que se afastava, contornava os matagais, para obrigar o lobo a sair do seu reduto. Os ces, por ambos os lados, continuavam a perseguir a fera, mas esta deslizara por entre os arbustos e nenhum caador a pde alcanar.
     

     
     
     
     Captulo V
     
     Entretanto. Nicolau Rostov l estava no seu posto esperando a fera. Consoante se distanciava ou se aproximava a matilha, conforme o latir dos ces, muito seu conhecido, e a voz dos monteiros, mais perto ou mais longe, ia acompanhando tudo quanto se passava na floresta. Sabia haver ali lobos velhos e crias novas, e tambm que as matilhas se tinham cindido em duas e que algures haviam desalojado uma fera e que a perseguio redundara em fracasso. A todo o momento esperava ver surgir um lobo na sua frente. Mil conjecturas lhe atravessavam o esprito acerca da direco que o animal tomaria e a maneira de o atacar. A esperana nele alternava com o desalento. Por vrias vezes implorara a Deus que lhe mandasse o lobo direito a ele. Rezava com um arrebatamento um pouco pueril, como acontece quando qualquer causa insignificante provoca uma violenta emoo. Que Te custava fazeres isso por mim?, dizia ele. Sei que s poderoso e que  talvez pecado pedir- Te uma coisa destas, mas rogo- Te, faz com que um lobo velho me aparea e que, diante de meu tio, que est ali a espreitar-nos. Karai lhe ferre os dentes no cachao.
     Milhares de vezes naquela meia hora Rostov percorreu de olhar obstinado, tenso, inquieto, a clareira do bosque, com os seus dois carvalhos de folhas ralas emergindo de um emaranhado de faias, o seu barranco de paredes abruptas e o barrete do tio, que mal se via por cima das moitas,  direita.
     No, no vou ter essa sorte!, exclamava ele. E isso que custava? Mas no terei essa sorte!  o que sempre me acontece em tudo, nas cartas, na guerra, s tenho azar! Austerlitz e Dolokov perpassaram-lhe sucessivamente, com toda a nitidez, diante dos olhos. Que ao menos uma vez na vida, uma s, me seja dado matar um lobo velho. Nada mais peo!, pensava, enquanto apurava o ouvido e perscrutava  direita e  esquerda, no lhe escapasse o mais pequeno rumor da perseguio.
     De novo voltou a olhar para a direita e pareceu-lhe ver qualquer coisa correndo na sua direco, atravs do campo deserto. No, no pode ser!, murmurou entre dentes, soltando um suspiro de satisfao, como um homem que v finalmente realizar-se um sonho muito antigo. Ia cumprir-se um dos seus grandes desejos, e simplesmente, sem alarido, sem ostentao, sem qualquer circunstncia particular. No podia acreditar no que os olhos lhe mostravam, e por momentos essa dvida manteve-se. Um lobo avanava diante dele, galgando pesadamente o barranco que lhe cortava o caminho. Era um animal j idoso, de lombo esbranquiado, a barriga rua e magra. Corria sem grande pressa, persuadido naturalmente de que ningum o via. Rostov, a respirao suspensa, olhou para os ces. Uns estavam deitados, outros de p, mas no tinham visto o lobo e no davam por coisa alguma. O velho Karai, de cabea entre as pernas, caava as pulgas, arreganhando os dentes amarelentos e, ferrando-os, irado, nas patas traseiras.
     A boca! A boca!, incitou Rostov, em voz baixa, estendendo os lbios. Os ces estremeceram e de um salto ficaram de orelhas espetadas. Karai deixou de mordiscar as patas, levantou-se, de orelhas espetadas tambm, e ps-se a agitar a cauda, de que pendiam tufos de plo.
     Solto-os ou no?, perguntava Nicolau a si prprio, enquanto o lobo continuava a avanar para ele, afastando-se da floresta. De sbito houve uma mudana no aspecto da fera: parecia inquieto ao ver, coisa provavelmente nova para ele, olhos humanos fitos na sua corpulncia, e, com a cabea ligeiramente voltada para o caador, estacou. Que hei-de eu fazer: continuar a andar ou voltar para trs? Tanto faz! Adiante!, parecia dizer de si para consigo, e prosseguiu em frente, sem voltar a olhar para trs, em pulos suaves, espaados, caprichosos, mas firmes.
     A boca! A boca!..., gritou Nicolau numa voz que no era a sua. E, de rompante, o seu bom cavalo lanou-se barranco abaixo, galgando os charcos, para ir cortar a retirada ao lobo. Mais rpidos ainda do que ele, os ces ultrapassaram-no. Nicolau no ouvia os seus prprios gritos, no se apercebia dos saltos que dava, no via os ces nem o terreno por onde galopava: s via o lobo, que, cada vez mais veloz, galgava os charcos sem mudar de direco. Milka, a cadela preta, de larga anca, foi a primeira a aparecer nas imediaes da fera e no tardou a seu lado. Cada vez se aproximava mais e mais... E eis que a apanha. Mas o lobo olhou-a de soslaio, e Milka, em vez de forar a carreira, como era seu costume, alou o rabo e apoiou-se nas patas dianteiras. A boca! A boca!, gritava Nicolau.
     O ruo Liubime surgiu na retaguarda de Milka, lanou-se a sete pernas sobre o lobo e ferrou-lhe os dentes nas patas tra- seiras. No mesmo instante, contudo, assustado, deu um salto para o outro lado. O lobo acocorou-se, rangendo os dentes e, erguendo-se de novo, de novo se lanou numa carreira, ganhando avano, seguido, coisa de uma archina de distncia, por toda a matilha, que o no podia apanhar.
     Escapa desta! No, no pode ser!, disse Nicolau com os seus botes, e continuava a gritar em voz j rouca: A boca! A boca!..., procurando com os olhos o seu velho co, toda a sua esperana. Karai, com todas as suas foras de velho, puxando quanto podia pelo corpo, os olhos cravados na fera, corria, pesadamente, a seu lado, tentando cortar-lhe o passo. No entanto, a agilidade do lobo e a relativa lentido do galgo indicavam claramente que os prognsticos do resultado seriam favorveis ao lobo.
     Nicolau estava a ver, diante dele, a pequena distncia, a mata onde certamente o lobo iria embrenhar-se. Foi ento que na sua frente surgiu um caador e os seus ces, vindos ao seu encontro. Ainda havia uma esperana. Um cachorro, castanho-ruo, de longo corpo, desconhecido dele, e proveniente de uma matilha estranha, lanou-se sobre o lobo e quase o deitou a terra. Mas a fera, mais clere do que seria de esperar, soergueu-se e voltou-se, de dentes arreganhados, contra o co, o qual, coberto de sangue, o flanco trucidado, mergulhou, de focinho na terra, despedindo uivos desesperados.
     Karaiuchka! Pobrezinho!..., murmurava Nicolau, quase a chorar.
     O velho co, as coxas cheias de tufos de plos a dar a dar, aproveitando a vantagem do que acontecera, j estava a uns cinco passos do lobo, pronto a cortar-lhe o passo. Como se pressentisse o perigo, a fera olhou de soslaio para Karai, colou a cauda ao ventre e forou a marcha. Nessa altura Nicolau deu-se conta de que alguma coisa se estava a passar entre a fera e o co. Num abrir e fechar de olhos. Karai cara em cima do adversrio e os dois foram rolar de cabea num tremedal que se lhes abria adiante.
     
     Foi para Nicolau um dos mais felizes momentos da sua vida aquele em que viu os dois animais chafurdando no barranco, o lombo grisalho do lobo a emergir da gua, as patas traseiras entesadas, o focinho, de orelhas estiradas, que Karai abocanhava, aterrado e arquejante. J se agarrava ao aro da sela, pronto a desmontar e acabar com o lobo, quando, de sbito, do meio da matilha, que acorrera, o focinho da fera se soergueu e as suas patas dianteiras surgiram no rebordo do barranco. O lobo arreganhou os dentes - Karai j lhe largara o cachao -, ergueu-se, sobre as patas traseiras, fora do charco e depois, com o rabo entre as pernas, de novo liberto dos ces, ei-lo que d s de vila-diogo. Por sua vez. Karai, o plo todo eriado, contuso e ferido provavelmente, saiu tambm do fosso.
     - Meu Deus! Que hei-de fazer? - exclamou Nicolau, desesperado.
     O monteiro do tio surgiu a galopar, vindo de outro lado, para cortar o passo ao lobo, e de novo a fera se viu cercada pelos ces.
     Nicolau, o seu estribeiro, o tio e o monteiro deste andavam  roda da matilha gritando A boca!, prontos a desmontar de cada vez que o lobo assentava os quartos traseiros no solo, para de novo voltarem  perseguio assim que ele se refazia e tentava alcanar o matagal, onde estava o seu porto de salvamento.
     Desde o principio da perseguio que Danilo ouvira os gritos dos caadores e sara da clareira. Vira o Karai enrolado com o lobo, e detivera a montada quando julgara tudo terminado. Mas como os caadores no desmontavam, e o lobo, liberto dos seus inimigos, se preparava para fugir, ei-lo que lana o seu alazo, no contra a fera, mas em frente, na direco da floresta, para assim,  imitao do que fizera Karai, lhe cortar a retirada. Graas a esta manobra caa a galope sobre o lobo no mesmo instante em que, pela segunda vez, os ces do tio o imobilizavam. Danilo galopava sem gritos, uma faca desembainhada ria mo esquerda, fustigando, rpido, os flancos tensos do cavalo.
     Nicolau no vira nem ouvira nada de Danilo at ao momento em que o cavalo deste, arquejante, passou diante dele e em que sentiu como que a queda de um corpo e logo viu o monteiro, no meio dos ces, atacando o lobo pela retaguarda e tentando apanh-lo pelas orelhas. Tomou-se evidente ento, tanto para os ces como para os caadores e para o prprio lobo, ser chegado o fim.
     Assustada, de orelhas encolhidas, a fera tentou ainda soerguer-se, mas os ces assaltaram-na por todos os lados. Danilo, levantando-se, deu um passo a tropear e, com todo o peso do corpo, como se se deixasse cair na cama, precipitou-se sobre o animal, agarrando-o pelas orelhas. Nicolau quis atravess-lo com a faca, mas Danilo murmurou-lhe:
     - No  preciso, vamos amarr-lo vivo. - E, mudando de posio, assentou um p no pescoo da fera. Introduziram-lhe uma estaca nas goelas, amarraram-lhe uma corda, como se lhe atassem um barao, laaram-lhe as patas e Danilo, por duas ou trs vezes, virou-o de um lado para o outro.
     De parecer sorridente, embora cansados, os caadores carregaram o lobo vivo no dorso de um cavalo, que relinchava, assustado, e, entre os latidos da matilha, puseram-se a caminho do local onde fora combinado reunirem-se. Uns a p, outros a cavalo, toda a gente veio ver a fera que, com a sua cabeorra tombada e uma estaca atravessada nas goelas, olhava com os grandes olhos vtreos a turbamulta de ces e de homens que a rodeava. Quando algum lhe tocava, um frmito lhe agitava os membros amarrados, e havia nela ao mesmo tempo qualquer coisa de simples e de selvagem. Tambm o conde Ilia Andreitch lhe quis tocar.
     - Ena! Que grande lobo!  velho, no ? - perguntou a Danilo, de p junto da fera.
     - , sim. Excelncia - replicou este, desbarretando-se, ligeiro.
     O conde lembrou-se do lobo que deixara fugir e da imprecao de Danilo.
     - Estavas muito zangado comigo, hem, rapaz! - segredou-lhe.
     Danilo no respondeu; limitou-se a sorrir timidamente, com um sorriso infantil, doce e agradvel.
     

     
     
     
     Captulo VI
     
     O velho conde voltou para casa; Natacha e Ptia prometeram no se demorar. Como ainda era cedo, a caada prosseguiu. Por volta do meio-dia soltaram os ces no fundo de um barranco coberto de mato espesso. Nicolau ficou num campo de restolho, donde abrangia todos os caadores.
     Diante dele havia uma seara nova, e um pouco mais alm, num fosso, estava escondido o seu monteiro, por trs de uma frondosa mata de aveleiras. Assim que soltaram os ces. Nicolau comeou a ouvir, de quando em quando, o latido de um deles, conhecido seu. Era o Voltorn. Logo outros ces se lhe vieram juntar, ora calados, ora recomeando os latidos. Momentos depois uma voz, l do matagal, gritou: Raposo  vista, e toda a matilha se lanou naquela direco, afastando-se de Nicolau.
     Este via os caadores, com os seus gorros encarnados, galo- pando pela borda do barranco, no meio dos ces, e esperava a todo o momento ver surgir o raposo do outro lado do matagal, na seara nova. O caador postado no fosso mudou de posio, soltando os ces, e foi ento que Nicolau viu um raposo cor de fogo, animal raro, de patas curtas, que, de rabo eriado, dava s de vila-diogo atravs da seara. Os ces iam em cima dele. A medida que se aproximavam, o bicho ia descrevendo crculos, cada vez mais apertados, pelo meio da matilha, e a cauda sempre a arrastar pelo cho. Por fim caem sobre ele primeiro um co branco, estranho, depois um preto, e tudo se confunde.
     Finalmente, os ces param, formando um crculo, e assim ficam, quase imveis, com os flancos voltados para o exterior. Dois caadores lanam-se a galope para o campo de batalha: um, de barrete encarnado, o outro, desconhecido, de cafet verde.
     Que vem a ser isto?, disse Nicolau de si para consigo. Donde veio aquele caador? No  o monteiro do tio.
     Os caadores acabaram com o raposo e durante algum tempo ali permaneceram. Em tomo deles viam-se os cavalos com as suas selas altas e os ces deitados no cho. Os caadores gesticulavam, apontando para a raposo. A certa altura ressoa a trompa de caa, sinal de disputa.
     -  um caador dos Ilaguine - disse o estribeiro de Nicolau - que est a discutir com o nosso Iv.
     Nicolau deu ordem ao escudeiro para procurar Natacha e Ptia e encaminhou-se, a passo, para o local onde os monteiros concentravam os ces. Alguns dos caadores dirigiram-se para onde se dirimia o pleito.
     Nicolau desmontou e deteve-se junto dos ces com Ptia e Natacha, acabados de chegar, aguardando o resultado da disputa.
     O caador que tomara parte na altercao apareceu na clareira do bosque com o raposo dependurado ria sela do seu cavalo e aproximou-se do jovem amo. De longe desbarretou-se, procurando manter uma atitude respeitosa; estava plido, a clera sufocava-o e no rosto pintava-se-lhe a ira. Tinha um dos olhos negros, mas parecia no dar por isso.
     - Que foi? - perguntou Nicolau.
     - Pois no querem ver que eles passam agora a caar com os nossos ces? Quem filou o raposo foi a minha cadela cinzenta. Que se atreva a dizer o contrrio! Queria apanhar-me o animal! Era o que mais faltava! Aqui o tem, o raposo dele. E se querem ver como elas mordem! - acrescentou, puxando pela - faca de caa, como se ainda estivesse perante o adversrio.
     Nicolau, sem lhe responder, pediu  irm e a Ptia que o esperassem ali e encaminhou-se para o local onde estavam os caadores de Ilaguine.
     O monteiro vencedor juntou-se ao grupo dos seus camaradas e ali, no meio dos curiosos, relatou a sua faanha.
     Eis o que acontecera. Ilaguine, com quem os Rostov andavam em demanda, costumava caar nas terras pertena da famlia destes desde tempos imemoriais, e naquele dia, dir-se-ia de propsito, aproximara-se do local privativo onde caava a gente do vizinho, consentindo que um dos seus monteiros seguisse o rasto do animal levantado pelos ces de Rostov. Nicolau, que nunca pusera os olhos em cima de Ilaguine, excessivo sempre nos seus juzos e sentimentos, tendo em vista o que sabia dos actos de violncia e arbitrariedade de tal senhor, odiava-o cordialmente, considerando-o o mais figadal dos seus inimigos.
     Em grande irritao, avanava apertando na mo, furioso, a sua chibata, decidido a recorrer aos actos mais enrgicos e perigosos.
     Mal atingira a clareira da floresta, viu encaminhar-se para si um gordo cavalheiro de gorro de castor, montado num belo murzelo e ladeado por dois escudeiros.
     Em lugar do inimigo com que contava, deparou-se-lhe em Ilaguine um senhor muito respeitvel e corts, assaz desejoso de conhecer o jovem conde. Assim que se aproximou levou a mo ao gorro, numa saudao, e imediatamente se ps a dizer quanto lamentava o sucedido, que mandaria castigar o monteiro que se atrevera a seguir o rasto de uma matilha alheia e que tinha muito prazer em travar relaes com o moo, oferecendo-lhe, inclusivamente, as suas terras para nelas caar.
     Receando que o irmo cometesse alguma violncia. Natacha seguira-o, de perto, muito emocionada. Ao ver os dois inimigos cumprimentarem-se amistosamente aproximou-se. Ilaguine saudou Natacha com um cumprimento ainda mais rasgado, e, sorrindo amavelmente, disse-lhe que a achava o perfeito retrato de Diana tanto na sua paixo pela caa como na sua beleza, de que, alis, muito ouvira falar j.
     Para reparar a falta do seu monteiro. Ilaguine pediu insistentemente a Rostov que se dignasse passar pelas suas tapadas, a uma versta dali, e, onde, segundo ele, as lebres abundavam.
     Nicolau acedeu, e o grupo de caadores, agora duplicado, prosseguiu o seu caminho.
     Para se atingir o outeiro de Ilaguine era preciso atravessar os camp9s. Os monteiros haviam-se juntado e lado a lado os amos cavalgavam. O tio de Rostov e Ilaguine examinavam furtivamente os ces uns dos outros, procurando no serem mutuamente notados e sempre no receio de se lhes deparar algum exemplar melhor do que os seus prprios.
     A Rostov impressionou-o sobretudo a beleza de uma das cadelas, no muito grande, de pura raa, fina, de msculos de ao, olhos negros  flor da pele, e malhas avermelhadas, que fazia parte da matilha de Ilaguine. Ouvira falar na fogosidade dos ces do vizinho e aquela linda cadela afigurava-se-lhe, de facto, rival digna da sua Milka.
     No meio de uma conversa muito grave, encetada por Ilaguine, a respeito das colheitas daquele ano. Nicolau chamou-lhe a ateno para a cadela das malhas avermelhadas.
     - Parece boa esta cadela - disse-lhe em tom despreocupado. -  fogosa?
     - Aquela? Ah, sim,  um belo animal, e caa muito bem retorquiu Ilaguine com certa indiferena, se bem que, em troca da sua Erza, um ano antes, houvesse cedido a um vizinho trs famlias de servos. - Ento em sua casa, conde, tambm no foi grande coisa a colheita? - prosseguiu ele. E porque lhe parecia corts pagar a gentileza ao jovem conde, ps-se a examinar-lhe os ces, em especial Milka, cujas amplas formas o haviam impressionado.
     - Tambm ali tem um belo animal.  soberba a cadela das malhas pretas! - observou.
     - Sim, no  m. Corre bem - replicou Nicolau.
     Se agora aqui nos aparecesse uma lebre velha eu te diria o que ela vale!, pensava ele, e, voltando-se para o escudeiro que o acompanhava, disse-lhe estar pronto a dar um rublo a quem lhe levantasse uma lebre, isto , a quem a descobrisse na toca.
     - No consigo perceber porque  que os caadores tm inveja do que os outros caam ou dos ces que os outros possuem. Digo-lhe com toda a franqueza, conde, a mim o que me agrada  um bom passeio. Haver alguma coisa melhor que uma boa companhia como esta? - De novo cumprimentou Natacha, tirando o barrete.- L isso de contar as peles das peas mortas nada me diz!
     - Claro, claro.
     - Ou pr-se uma pessoa a discutir l porque outro co que no o seu apanhou uma pea de caa.., isso de modo nenhum. Para mim, desde que possa admirar o espectculo de uma caada  quanto basta. No lhe parece que tenho razo, conde? Alm disso, acho que...
     A ela! A ela!, gritou nesse momento um dos monteiros, estacando. Estava no alto de uma corcova, no meio do restolho, de ltego no ar. E de novo voltou a despedir um grito prolongado: A ela! A ela! Este grito e o ltego erguido queriam dizer que acabava de descobrir uma lebre na toca.
     - Acho que farejou uma lebre - disse Ilaguine com indiferena. - Que lhe parece? Vamos a isto, conde?
     - Acho que sim... Mas como? Juntos? - replicou Nicolau, relanceando um olhar a Erza e ao co ruo do tio. Rugai, os dois rivais com os quais ainda no medira as foras da sua cadela,
     E se eles deixassem a minha Milka para trs?, cogitava, enquanto se encaminhava, na companhia de Ilaguine e do tio, ao encontro da lebre.
     -  velha? - Inquiriu Ilaguine ao aproximar-se do caador que descobrira a lebre. Depois, um, pouco agitado, afastou-se e assobiou a Erza.
     - E ento. Mikail Nikanoritch? - perguntou, dirigindo-se ao tio.
     O tio cavalgava de cenho carregado.
     Para que hei-de eu meter-me nisto? Foram os seus ces.., ento, muito bem, vamos a isto! Cada co lhe custou uma aldeia! Animais de mil rublos! Pois faa brilhar os seus, eu contentar-me-ei com a vista.
     - Rugai! Aqui, aqui! Rugaiuchka! - gritou, pondo nesse diminutivo toda a ternura e toda a esperana que o cachorro ruo lhe inspirava. Natacha, que dera conta da emoo secreta dos dois velhos e do irmo, compartilhava do mesmo sentimento.
     O caador continuava no alto da corcova, de ltego no ar; os amos aproximavam-se a passo. Os ces, espalhados, farejavam, enquanto os caadores convergiam de vrios pontos. Todos avanavam lentamente e em silncio.
     - Onde est a lebre? - perguntou Nicolau, quando chegou o, uns cem passos do monteiro.
     Porm, antes de este ter tempo de responder, a lebre, pressentindo o perigo, abandonara a sua toca e despedira numa carreira. A matilha inteira precipitou-se atrs dela. Toda a partida - por um lado, os picadores, contendo os ces, gritando-lhes: Alto!, e, pelo outro, os monteiros aulando os galgos: A boca!-, depois de se agrupar, meteu a trote em direco ao campo. O impassvel Ilaguine. Nicolau. Natacha, e o tio cavalgavam sem saber para onde, diante deles apenas os ces e a lebre, procurando no perder, por um instante que fosse, o espectculo da caada. A lebre era velha e veloz. Depois de cada salto detinha-se e alava as orelhas, atenta aos gritos e ao trotar dos cavalos que subitamente principiaram a ouvir-se de todos os lados. Tendo dado uns dez pulos sem grandes pressas, deixando aproximar os ces, escolheu a direco e, consciente do perigo, repuxou as orelhas para trs e despediu a toda a brida. Conseguira meter-se no restolho, mas diante dela estendia-se a seara nova, onde o terreno era lamacento. Os dois ces do caador que levantara a lebre, mais prximos dela do que os outros, foram os primeiros a persegui-la. Mas no tinham corrido muito quando surgiu a cadela de Ilaguine. Erza, a das malhas avermelhadas. A poucos passos da lebre, e na Inteno de lhe ferrar os dentes na cauda, largada a toda a velocidade, formou um pulo, mas veio rolar no solo de pernas para o ar. A lebre arqueou o lombo e rompeu numa carreira ainda mais veloz. Atrs da Erza apareceu a cadela de malhas pretas, a Milka, a das ancas largas, que dentro de pouco ganhava terreno sobre a lebre.
     - Miluchka! Pequenina! - gritava Nicolau, vitorioso. Dir-se-ia que Milka ia apanhar a lebre e cair-lhe em cima, mas logo a ultrapassou, sendo precipitada mais longe. A lebre agachara-se, e de novo a linda Erza se lanou atrs dela, e, mesmo colada  sua cauda, dir-se-a tomar precaues para que desta vez se no enganasse ao ferrar-lhe os dentes na perna traseira.
     - Erzauska! Pequenina! - gritava Ilaguine, numa voz suplicante, e completamente modificada. Mas Erza no ouvia as palavras do dono. Precisamente no momento em que se preparava para abocanhar a lebre, esta deu uma guinada e veio surgir na linha que separava o restolho da seara. Erza e Milka, como uma parelha de cavalos atrelados, seguiam, lado a lado, ao longo da pista. Ali a lebre estava mais  vontade e os ces no a podiam bater em velocidade.
     - Rugai. Rugaiuclika! Muito bem, vamos a isto! - gritou naquela altura ainda uma nova voz, e Rugai, o co ruo e corcunda do tio, estiraando-se e arqueando o lombo, como que movido por uma mola, alcanou as duas cadelas. Depois passou-lhes adiante, e num grande esforo colou-se  prpria lebre, obrigando-a a mudar de direco e a meter pelo meio da seara nova. Perseguiu-a ainda mais encarniadamente ao longo desses campos lamacentos, enterrando-se at ao ventre. De sbito virou os ps por cima da cabea e rolou com a presa no meio da lama. Ento os outros ces rodearam-no, formando uma estrela. Num abrir e fechar de olhos, toda a gente veio juntar-se  volta dos ces. O tio, o nico caador contente, saltou do cavalo e, pegando na lebre, acabou com ela. Sacudia-a para que o sangue corresse enquanto olhava emocionado para a direita e para a esquerda, rolando as pupilas, sem saber que destino dar s mos e aos ps e balbuciando palavras sem nexo: Claro! Muito bem! Vamos a isto! Isto  que  um co! Chegou para todos, at para os de mil rublos... Muito bem! Vamos a isto! Sufocava e rolava os olhos com fria, como se injuriasse algum, como se toda a gente lhe tivesse azar, como se o houvessem ofendido e s agora lhe fosse dado vingar-se. Pois a tm para que servem os ces de mil rublos; muito bem! Vamos a isto!
     - Rugai. Toma, toma l! - gritou atirando ao co uma das patas da lebre, mascarrada de terra. - Bem a mereces! Muito bem; vamos a isto!
     - Estava muito cansada! J tinha corrido hoje trs vezes - dizia Nicolau, que tambm no ouvia o que se dizia nem se importava com que o no ouvissem.
     - Essa  boa! Atravessou-se-lhe no caminho! - acorreu o monteiro de Ilaguine.
     - Assim era fcil; desde que o primeiro a deixou escapar, qualquer fraldiqueiro a teria apanhado - ps-se a dizer Ilaguine, muito corado, arquejante, quase sem flego, merc da carreira e da emoo. Por sua vez. Natacha, sufocada, soltava gritos de alegria e de entusiasmo to agudos que vibravam nos ouvidos. Era a sua maneira de traduzir o que os caadores exprimiam com palavras. E to selvagens eram os seus gritos que em qualquer outra circunstncia ela prpria se sentiria envergonhada de os soltar e os outros no teriam podido deixar de ficar surpreendidos. O tio amarrou a lebre  sela do seu cavalo, com um ar desembaraado e folgazo, estendeu-a sobre a garupa, como se com tal gesto quisesse censurar qualquer coisa aos companheiros e como se a ningum quisesse falar saltou para a montada e abalou. Todos os demais, tristonhos e arreliados, acabaram por se separar sem ter podido recuperar o aspecto de afectada indiferena que anteriormente mostravam. Por muito tempo foram seguindo com o olhar o perro ruo e corcunda, que, de lombo coberto de lama e sacudindo a coleira, prosseguia o seu caminho entre as patas do cavalo do amo com ar sereno e triunfador.
     Que diabo! Sou como qualquer outro quando se no trata de perseguir uma pea de caa. Caso contrrio, cautela comigo! Era isto, pelo menos, o que Nicolau julgava depreender da atitude de Rugai.
     Quando da a pouco o tio se aproximou de Nicolau, este no pde deixar de se sentir lisonjeado pelo facto de ele se dignar dirigir-lhe a palavra depois de tudo o que se passara.
     

     
     
     
     Captulo VII
     
     Pela noite, quando Ilaguine se despediu de Nicolau, este encontrava-se to longe de Otradnoie que aceitou o convite do tio para se instalar com a sua gente l em casa, na sua aldeia de Mikailovka, e a passarem o sero.
     - Era melhor que viessem para minha casa; muito bem, vamos a isto! - disse-lhe ele. - O tempo est hmido, podiam descansar e a condessita voltaria para a quinta de carro.
     Aceitaram a proposta, enviaram um caador a Otradnoie buscar transporte e os trs irmos l se dirigiram para casa do tio. Cinco criados, entre moos e velhos, acorreram, ao alto da escada principal, a receber o amo. Na escada de servio juntaram-se dezenas de mulheres, de todas as idades e de todos os tamanhos, espreitando a chegada dos caadores. A presena de Natacha, uma senhora, e uma senhora a cavalo, despertou tamanha curiosidade nos criados que muitos deles, sem cerimnia, se aproximaram dela, para a olharem de perto, e sobre ela se puseram a fazer observaes, como se ela fosse um desses fenmenos de feira que, no sendo criatura humana, no ouve nem percebe o que dizem a seu respeito.
     - Arrinka, olha para ela sentada de esguelha! Est sentada e tem a saia cada por ela abaixo.., e tambm tem uma trompa! - Santo Deus, e a faca que ela tem!
     - Parece uma trtara
     - E como  que tu no caste? - perguntou uma mais atrevida, dirigindo-se directamente a Natacha.
     O tio desmontou em frente da escada principal da sua casa rodeada de verdura e, lanando um olhar aos criados, gritou-lhes, autoritariamente, que se fossem os que ali no faziam falta e que preparassem as coisas para receber os convidados e os caadores.
     Todos dispersaram. O tio ajudou Natacha a desmontar e ofereceu-lhe a mo para ela subir os degraus pouco firmes da escada de madeira. A casa, de vigas  vista e paredes sem reboco, no era de um asseio por a alm. Via-se que os seus habitantes pouco se preocupavam com a limpeza. No entanto no se podia dizer que o enxovalho fosse grande. No vestbulo, de cujas paredes pendiam peles de lobo e de raposa, cheirava a mas frescas.
     O tio conduziu os seus convidados atravs de um salita onde havia uma mesa de desarmar e cadeiras de mogno, depois f-los entrar numa sala mobilada com uma mesinha redonda de btula e um div e por fim no gabinete de trabalho, com o seu canap esfarrapado, o seu tapete coado e as suas paredes decoradas com os retratos de Suvorov, dos pais do proprietrio e do prprio, fardado de militar. Cheirava ali muito a tabaco e a ces. O tio disse-lhes que se sentassem e que estivessem  vontade como em sua prpria casa e saiu da sala. Rugai, ainda coberto de lama, no tardou a entrar tambm, indo aninhar-se debaixo do div, onde se ps a lamber-se. Do gabinete partia um corredor em que se via um biombo de estofo esfarrapado. Por detrs desse biombo ouviam-se risos e vozes de mulher. Natacha. Nicolau e Ptia desembaraaram-se dos seus equipamentos de caa e sentaram-se no div. Ptia, com a cabea encostada ao brao, no tardou a adormecer; Natacha e Nicolau ficaram calados. Com a cara afogueada, morriam de fome, mas sentiam-se alegres. Entreolhavam-se. Uma vez a caada finda. Nicolau achava desnecessrio continuar a manter perante a irm a sua superioridade de homem. Natacha piscou-lhe o olho, e os dois, sem poderem conter-se, romperam em grandes gargalhadas antes mesmo de encontrarem um motivo que justificasse o riso.
     Da a pouco voltava o tio, de sobrecasaca, cala azul e botas de meio cano. E Natacha percebeu que aquele trajo, que tanto a surpreendera e lhe despertara tamanha troa certo dia em que vira o tio assim vestido em Otradnoie, no era afinal nem pior nem melhor que o redingote e o fraque. O velho tambm estava muito alegre; no s no se ofendeu com as gargalhadas dos dois irmos, pois lhe no passava pela cabea que eles se rissem da sua maneira de vestir, como se juntou a eles e riu tambm.
     - Muito bem, menina condessa, muito bem! Vamos a isto! Nunca na minha vida vi uma menina assim - disse, oferecendo a Rostov um cachimbo de comprido pipo e tomando para si outro de pipo mais curto, que enchia com trs dedos, conforme o seu costume. - Todo o dia a cavalo como um homem, ningum diria!
     Entrementes, uma criada, naturalmente descala, a avaliar pelo som abafado dos passos, abriu a porta e uma formosa quarentona, cheia, de duplo queixo, lbios vermelhos e grossos, entrou no gabinete com uma bandeja cheia de iguarias. Com ar hospitaleiro e gestos afveis, observou os convidados enquanto os saudava respeitosamente com um sorriso cordial. Apesar da rotundidade invulgar, que a obrigava a empinar o seio e o ventre e a manter a cabea inclinada para trs, esta mulher, a governanta do tio, tinha um andar muito leve. Aproximou-se da mesa, colocou sobre ela a bandeja, e habilmente, com as suas mos brancas e rechonchudas, ps-se a retirar dela, o que fez num abrir e fechar de olhos, as garrafas, os zakuskis e outras iguarias. Feito isto, afastou-se e, com um sorriso nos lbios, deixou-se ficar no limiar da porta. Aqui tm! E agora compreendes o teu tio?, parecia dizer a Rostov aquela apario. Como no compreend-lo? No s Rostov, como a prpria Natacha, compreendiam o tio e o que significavam aquelas suas sobrancelhas um pouco altivas e aquele seu sorriso feliz e satisfeito que lhe perpassava pelos lbios quando entrara Anssia Fiodorovna. A bandeia trouxera vodka, licores, cogumelos em vinagre, folhados de trigo, mel cozido e espumoso, mas, nozes frescas e torradas e nozes com mel. Anssia Fiodorovna voltou a sair e deps ainda em cima da mesa marmelada com mel e acar, presunto e um frango acabado de sair do forno.
     Tudo isto fora cuidado e preparado por Anissia Fiodorovna. Tudo sabia, por assim dizer, a Anssia Fiodorovna e tinha a sua frescura, o seu asseio, a sua brancura e o seu agradvel sorriso.
     - Coma, menina condessinha - disse ela, enquanto ia oferecendo a Natacha agora isto, logo aquilo.
     Natacha de tudo comeu e parecia-lhe nunca ter visto nem comido to bons folhados, to perfumada marmelada, to boas nozes com mel e um frango to apetitoso. Anssia Fiodorovna saiu.
     Rostov e o tio beberam licor de cerejas enquanto iam falando de caadas, de Rugai, dos ces de Ilaguine. Natacha, de olhos brilhantssimos, mantinha-se muito direita no div e escutava-os. Por vrias vezes tentara acordar Ptia, para que ele comesse alguma coisa, mas este apenas soltara palavras ininteligveis, sem conseguir despertar. Natacha estava to alegre e sentia-se to bem naquele meio novo para ela que s receava ouvir chegar cedo de mais os drojkis que a viriam buscar. Depois de um momento de silncio inesperado, como costuma acontecer em casa daqueles que recebem pela primeira vez pessoas conhecidas, o tio disse, como se respondesse ao pensamento ntimo dos seus hspedes:
     - E aqui tm como vou acabando os meus dias... Depois de uma pessoa morrer, muito bem, vamos a isto? Acaba-se tudo! Ento para que h-de a gente ser infeliz?
     Muito expressiva era a cara do tio! Dir-se-ia quase belo ao dizer estas palavras. Ao esprito de Rostov acorreu ento o bem que o pai e os vizinhos diziam dele. Em todo o distrito gozava da reputao do mais desinteressado e do mais nobre dos homens. Era chamado para servir de rbitro nas questes de famlia, davam-no como executor testamentrio, confiavam-lhe segredos, tinham-no eleito para o cargo de juiz e ainda para outras funes, mas ele recusara aceitar qualquer emprego pblico. Passava os meses de Outono e da Primavera a percorrer os campos no seu alazo, no Inverno deixava-se ficar em casa e no Vero estendia-se  sombra das rvores no seu frondoso jardim.
     - Porque no presta o tio servio no exrcito?
     - Fui funcionrio, mas depois deixei-me disso. Essas coisas no so para mim, muito bem, vamos a isto! De nada percebo. Isso  bom para vocs. Seria perder o meti latim! L a caa  outra cantiga, muito bem, vamos a isto! Abram a porta -gritou.- Para que a fecharam?
     A porta, no extremo do corredor, a que o tio chamava o colidor, abria para o cubculo dos caadores, que tal era o nome dado  habitao do pessoal servo das caadas.
     Ouviram-se uns ps descalos que caminhavam apressadamente e uma mo invisvel abriu a porta do cubculo dos caadores. Do corredor chegavam, ntidas, as notas de uma balalaka, tocada, evidentemente, por um virtuoso na sua arte. Havia algum tempo j que Natacha prestava ouvidos quela msica e saiu para o corredor para melhor a ouvir.
     -  o meu cocheiro, o Mitka... Comprei-lhe uma rica balalaika. Gosto muito! - disse o tio.
     Era costume de Mitka, depois de uma caada, pr-se a tocar no seu instrumento no cubculo dos caadores. O tio apreciava muito ouvi-lo,
     - Mas que bem! Francamente toca muito bem! - disse Nicolau um pouco desprendidamente, como que envergonhado de confessar que aquela msica lhe agradava.
     - Toca bem! - exclamou Natacha, ofendida com o tom do irmo - Mas  um encanto!
     Assim como os cogumelos, o mel e os licores do tio se lhe haviam afigurado os melhores do mundo, a cano que ouvia era para ela o supra-sumo da arte musical.
     - Continue, peo-lhe, continue - suplicou ela, da porta, quando o instrumento emudeceu. Mitka afinou a balalaika e atacou de novo as notas da Barnia (A Senhora.  uma antiga cano popular. (N, dos T.), com variaes e matizes. O tio escutava de cabea inclinada e um leve sorriso nos lbios. O tema da Barinia repetiu-se um ror de vezes. Por vrias vezes se puseram a afinar o instrumento e de novo voltava a mesma ria, sem cansar o auditrio, que continuava a pedi-la. Anssia Fiodorovna apareceu e apoiou-se pesadamente  ombreira da porta (Atitude habitual dos criados na presena dos senhores. (N, dos T.).
     - Est a ouvir? - perguntou a Natacha, com um sorriso dir-se-ia decalcado do do amo. - Ah, que bem que toca!
     - Esta passagem no a toca bem! - exclamou o tio, de sbito, fazendo um gesto enrgico.- Ali  preciso um trinado, sim, muito bem, vamos a isto!  preciso um trinado!...
     - Sabe tocar? - perguntou Natacha.
     O tio sorriu e no respondeu.
     - Vai. Anissiuska, vai ver se a minha guitarra tem cordas. H muito tempo que no toco, muito bem, vamos a isto! Tinha-a posto de lado.
     Anssia Fiodorovna deu-se pressa, com o seu passo ligeiro, em dar cumprimento  ordem do amo, e apareceu com a guitarra.
     O tio, sem cerimnias, soprou o p do instrumento, bateu com os dedos ossudos na caixa, afinou-o e instalou-se na poltrona. Num gesto algo teatral, com o cotovelo esquerdo afastado do corpo, agarrou na guitarra pelo alto do brao e, depois de ter piscado o olho a Anssia Fiodorovna, em vez de atacar as notas da Barinia, aps um acorde sonoro e puro, ps-se a trinar, tranquilo, lentamente e com mo segura, uma melodia muito serena, a conhecida cano Pela Estrada Empedrada. Nicolau e Natacha sentiram vibrar na sua alma em unssono e com alegria o tema daquela cano - a alegria que respirava todo o ser de Anssia Fiodorovna. A governanta ficou toda corada e, escondendo a cara no leno, abalou sem deixar de sorrir.
     O tio continuava a tocar com energia, preciso e firmeza, lanando um olhar inspirado para o lugar onde estivera Anssia Fiodorovna. Um vago sorriso lhe irradiava da cara e do bigode grisalho, acentuando-se  medida que a cano prosseguia, que acelerava o ritmo e se tornava mais emocionante em certos passos.
     -  maravilhoso,  maravilhoso, tio! Mais, mais! - exclamou Natacha, quando ele acabou. Saltando do div, lanou os braos  volta do pescoo do tio e beijou-o. - Nikolenka! Nikolenka! acrescentou, voltando-se para o irmo, como a dizer-lhe: Que tal?
     Nicolau tambm estava encantado. O tio atacou de novo a cano. O rosto sorridente de Anssia Fiodorovna apareceu outra vez  porta e atrs dela outras caras.
     
     Espera, espera, rapariga,
     grita ele quando ela  fonte vai.
     
     E uma nova variao lhe brotou dos dedos, rematando num acorde que ele acompanhou com um movimento de ombros.
     - Continue, continue, querido tio! - suplicou Natacha, to implorativamente que dir-se-ia a sua vida correr perigo.
     O tio levantou-se e ento foi como se houvesse nele dois homens: um, srio, que sorria ao alegre companheiro, e o outro, o folio, que se entregava a ingnuas momices antes de principiar a danar.
     - Anda, sobrinha! - gritou. E, com um movimento da mo, feriu um acorde.
     Natacha tirou o leno, colocou-se diante do tio, e com as mos na cinta,  espera, fez um movimento de ombros.
     Onde, quando e como  que aquela condessinha, educada por uma emigrada francesa, pudera, apenas em contacto com o ar russo que respirava, assimilar aquele -vontade, aquelas maneiras que o pas de chle de h muito deveria ter anulado? Mas a verdade  que Natacha fez precisamente os gestos e tomou as atitudes inimitveis, no aprendidas, lidimamente russas, que o tio esperava dela. Assim que ela se plantou diante do tio, com a sua expresso sorridente de confiana em si prpria e de malcia, o receio que se apossara de Nicolau e dos demais assistentes, que a, julgaram incapaz de chegar ao fim, desapareceu, e todos se puseram a admir-la. To bem se saiu que Anssia Fiodorovna, que lhe passara logo o xale indispensvel aos meneios, se ps a rir com as lgrimas nos olhos diante daquela menina delgada, graciosa, to diferente dela em tudo, criada no meio das sedas e dos veludos, e que to bem sabia exprimir a sua prpria alma, dela. Anssia Fiodorovna, e a do pai de Anssia e a de sua tia e a de sua me, e a de cada russo em particular.
     - Muito bem, condessinha, muito bem, vamos a isto! - exclamou o tio, rindo, assim que a dana acabou.- Bravo, minha sobrinha! Agora s precisas de arranjar um bom marido, muito bem, vamos a isto!
     - J o arranjou! - disse Nicolau, a sorrir.
     - Hem! - voltou o tio, surpreendido e interrogando-a com o olhar. Natacha, com um sorriso feliz, acenou afirmativamente com a cabea.
     - E que marido! - exclamou ela. Mas assim que acabara de pronunciar estas palavras, outras ideias e outros sentimentos tomaram conta dela. Que queria dizer o sorriso de Nicolau quando exclamara: J o arranjou! Gostar ou no deste casamento? Dir-se-ia querer dizer que o meu Bolkonski no aprovaria, no compreenderia a nossa alegria. Engana-se, compreenderia tudo. Onde estar ele neste momento? E, de sbito, uma grande tristeza se lhe pintou no rosto. Por pouco tempo, porm. No pensemos nisto! No tenho que pensar nisto!, disse de si para consigo, e, retomando o seu sorriso, veio sentar-se de novo ao lado do tio, para lhe pedir que tocasse mais alguma coisa.
     O tio tocou outra cano e uma valsa, e depois de um silncio tossicou e ps-se a entoar a sua cano de caa preferida:
     
     Como ela caa
     A neve pela noite...
     
     Cantava, como o povo costuma cantar, com a mesma inocente certeza de que todo o sentido da cano est nas palavras, que a melodia se lhe vem juntar por si, naturalmente, e que por si prpria no existe, apenas serve para reger a cadncia.  essa a razo por que aquele canto, to inconsciente, por assim dizer, como o de uma ave, era to belo na voz do tio. Natacha, fora de si, decidiu ali mesmo que no continuaria a estudar harpa e que queria aprender a tocar guitarra. Pediu ao tio que lhe emprestasse o instrumento e ps-se imediatamente a dedilhar uma cano.
     s dez da noite chegaram uma lineika, alguns drojkis (A linelka  um carro de dois lugares, cuja caixa abre de lado; droikis  o nome que tm geralmente os carros de passeio. (N, dos T.) e trs cavaleiros que vinham buscar Natacha e Ptia. O conde e a condessa, que no sabiam onde eles paravam, estavam inquietos, no dizer dos homens.
     Pegaram em Ptia, mesmo a dormir, e deitaram-no, como morto, na lineika. Natacha e Nicolau instalaram-se num dos drojkis. O tio enrolou a sobrinha em cobertores e despediu-se dela com grande ternura. Acompanhou-os a p at  ponte, que precisavam de contornar para passar a vau, e deu ordem aos monteiros que fossem adiante com lanternas.
     - Adeus, minha querida sobrinha - gritou-lhe, na obscuridade. E a sua voz no era a voz de todos os dias, mas a voz que tinha quando entoava a sua cano:
     
     Como ela caa
     A neve pela noite...
     
     Na aldeia, que atravessaram, havia muitas luzes vermelhas e cheirava ao bom aroma do fumo das lareiras.
     - Que tio encantador! - exclamou Natacha, quando principiaram a rolar na estrada real.
     -  verdade - replicou Nicolau. - No tens frio?
     - No, estou muito bem, muito bem. Sinto-me to bem! volveu ela, como que surpreendida com o bem-estar que sentia. Por muito tempo foram calados. A noite estava escura e hmida. No se viam os cavalos, ouvia-se-lhes apenas o tropear na lama invisvel.
     Que se passava naquela alma impressionvel de criana, pronta a reflectir e a assimilar to avidamente as impresses mais diversas? Como  que tudo isso se organizava dentro dela? Fosse como fosse, sentia-se muito feliz. Quando se aproximaram de casa, subitamente, ps-se a trautear a cano: Como ela caa... , a qual viera procurando de memria todo o percurso e que finalmente aprendera.
     - Apanhaste-la afinal! - disse-lhe Nicolau.
     - Em que estavas a pensar agora. Nikolenka? - perguntou Natacha.
     s vezes gostavam de fazer um ao outro esta pergunta imprevista.
     - Eu? - balbuciou Nicolau. - Pois seja! Primeiro pensei que o Rugai, o co ruo, se parece com o tio, e que, se ele fosse homem e o tio co, o teria sempre em casa, seno para caar, para seu regalo. Nunca o largaria. Que bom carcter aquele tio! No achas? E tu, em que estavas a pensar?
     - Eu? Espera a. Ah, sim, ia sei, primeiro pensei: ora aqui vamos ns de carro como se fssemos para casa, mas no vamos; s Deus sabe para onde, por este negrume, e de repente eis que chegamos, no a Otradnoie mas a um pas encantado. Depois pensei... No, em nada mais pensei...
     - Sei, tenho a certeza de que pensaste nele - acrescentou Nicolau, com um sorriso, que assim pelo menos se afigurava a Natacha graas  entoao da voz nas trevas.
     - No - replicou ela, embora, efectivamente, houvesse pensado no prncipe Andr ao perguntar-se a si prpria se o tio seria homem para lhe agradar a ele. - E todo o caminho tenho vindo a dizer: que boa aquela Anissiuska, como ela sabe... - E Nicolau adivinhava, na obscuridade, o riso sem razo de Natacha, sonoro e feliz. - Queres saber? - continuou ela, de sbito. Sinto que nunca mais hei-de voltar a ser to feliz, to tranquila, como neste momento.
     - Que tolice! - exclamou Nicolau, enquanto pensava: Que encantadora esta Natacha! Nunca tive nem nunca terei uma amiga como ela! Para que h-de ela casar? Poderamos andar sempre os dois juntos!
     Que encantador este Nicolau!, pensava Natacha, pelo seu lado.
     - Olha, ainda h luz no salo - disse ela, apontando para as janelas que brilhavam na obscuridade hmida e aveludada da noite.
     

     
     
     
     Captulo VIII
     
     O conde Ilia Andreitch renunciara s suas fun5es de marechal da nobreza porque isso lhe acarretava grossas despesas. No entanto, as suas finanas no davam mostras de melhorar. Por vezes. Natacha e Nicolau surpreendiam os pais em conversas secretas e inquietantes e acabaram por perceber tratar-se da venda do rico patrimnio senhorial dos Rostov em Moscovo e da propriedade nas imediaes da capital. Desde que se demitira do seu cargo, o conde j no precisava de oferecer grandes recepes e a vida de Otradnoie tomou-se mais sossegada do que rios anos anteriores. Nem por isso, contudo, a enorme casa e os pavilhes anexos tinham menos gente. A mesa juntavam-se todos os dias mais de vinte convivas: familiares, gente da casa, como que da famlia, ou ento pessoas que dir-se-ia no poderem deixar de l viver. Era o caso de Dimmler, o msico, e de sua mulher, o do mestre de dana Vogel e de toda a sua famlia, o da velha solteirona Bielovna e o de muitos outros ainda, como os preceptores de Ptia e uma antiga preceptora das meninas ou, ento, nada mais nada menos que os indivduos que achavam muito mais prtico viver em casa do conde que na sua prpria.  certo no haver to grandes reunies como outrora, mas o trem de vida mantinha-se o mesmo, e o conde e a condessa pareciam no saber viver de outra maneira. Conservavam sempre o mesmo pessoal das caadas, que Nicolau ainda aumentara, na cocheira l estavam sempre os mesmos cinquenta cavalos e os seus quinze cocheiros, e eram sempre os mesmos ricos presentes pelos aniversrios e os mesmos banquetes de gala em tais ocasies, com , presena de toda a gente das vizinhanas, e as mesmas partidas de whist ou de boston, em que o conde habitualmente mostrava as cartas a todos os parceiros, donde resultava os vizinhos de lugar o aliviarem regularmente de algumas centenas de rublos, considerando, por isso mesmo, fonte de receita muito vantajosa aquelas partidas de cartas do conde Ilia Andreitch.
     O conde caminhava s cegas pelo meio da imensa rede dos seus embaraos financeiros, procurando convencer-se de que no se enredava e comprometendo-se cada vez mais. No tinha nimo quer para romper com aquela rede, quer para tomar disposies sbias e pacientes prprias para acabar com ela. A condessa, no fundo do seu corao amantssimo, pressentia a runa dos seus filhos, dizendo de si para consigo que o conde no era culpado, que no podia ser de outra maneira, que ele prprio sofria, embora o escondesse, por causa daquela situao deplorvel, tanto para ela como para os seus, e l ia procurando uma soluo. Do seu ponto de vista de mulher, s uma se lhe oferecia: casar Nicolau com uma herdeira rica.
     Eis a sua ltima esperana, ciente de que se Nicolau recusasse o partido que ela lhe propunha seria necessrio renunciar para sempre a restabelecer a situao. Esse partido era nem mais nem menos que Jlia Karaguine, filha de excelentes e virtuosos pais, ntima de Rostov desde criana e presentemente rica herdeira  espera de noivo por virtude do falecimento de seu ltimo irmo.
     A condessa escreveu directamente, para Moscovo, a Madame Karaguine, falando-lhe deste projecto, e recebeu resposta favorvel. Madame Karaguine dizia-lhe que pela sua parte estava de acordo, mas que tudo dependia das inclinaes de sua filha. Convidava Nicolau a ir a Moscovo.
     Por vrias vezes a condessa, com lgrimas na voz, dissera ao filho que, neste momento, em que suas irms estavam arrumadas, o seu nico desejo seria v-lo casado. Garantira-lhe que morreria descansada se isso acontecesse. E acrescentara depois que j lanara as suas vistas sobre uma encantadora rapariga desejosa de saber o que Nicolau pensava do caso.
     Aproveitando certas ocasies fizera o elogio de Jlia e aconselhara Nicolau a que fosse a Moscovo, para se distrair, aquando das festas do Natal. Nicolau, que facilmente adivinhara a inteno da me, obrigou-a um dia a explicar-se com toda a franqueza. A me declarou-lhe que a nica esperana no restabelecimento da fortuna dos seus assentava agora no casamento dele com Mademoiselle Karaguine.
     - Com que ento, me, se eu gostasse de uma menina sem fortuna, eras capaz de me obrigar a sacrificar o meu amor e a minha palavra por causa do dinheiro? - disse ele  condessa, sem se dar conta da crueldade da pergunta e apenas na inteno de mostrar a sua nobreza de sentimentos.
     - Ainda me no compreendeste - volveu-lhe a me, que no sabia como justificar-se.- No me compreendeste. Nikolenka. O que desejo  a tua felicidade. - Falando assim ela sabia muitssimo bem que no dizia a verdade. E por isso, muito perturbada, rompeu a chorar.
     - Me, no chore, basta que me diga ser isso o que quer de mim, e fique certa de que estarei pronto a dar a minha vida, que estarei pronto a tudo para a ver satisfeita. Tudo sacrificarei por si, inclusivamente os meus sentimentos.
     Mas a condessa no o ouvia. No lhe pedia que se sacrificasse. Era ela quem teria querido sacrificar-se por ele.
     - No, no me compreendeste, no falemos mais nisso - disse ela enxugando as lgrimas.
     
     Si, posso gostar de uma rapariga pobre, dizia Nicolau para si mesmo, e ento ser preciso que eu sacrifique ao dinheiro os meus sentimentos e a minha palavra. Custa-me a crer que minha me me tenha proposto uma coisa destas. L porque Snia  pobre, j a no posso amar, no posso corresponder ao seu amor fiel e devotado? E por certo serei mais feliz com ela que com essa espcie de boneca que  a tal Jlia. Sacrificar os meus sentimentos, eis o que estou pronto a fazer por amor de meus pais, mas o que no posso  anul-los. Se amo Snia, este amor, para mim, est mais alto e  mais forte do que tudo o mais.
     Nicolau no partiu para Moscovo, a condessa nunca mais lhe falou no casamento, e contristada e, s vezes, inclusivamente encolerizada, observava a intimidade cada vez maior entre o filho e Snia, menina sem dote. Embora se censurasse a si prpria, no podia evitar certos azedumes para com Snia e certas quezlias com ela, interpelando-a sem motivo e tratando-a por senhora e minha querida. E o que mais irritava a boa condessa era o facto de esta pobre sobrinha sua, de olhos pretos, ser to meiga, to boa, to dedicada e to reconhecida para com os seus benfeitores e to fiel, to constante, to desinteressada no seu amor por Nicolau que em verdade era impossvel censurar-lhe fosse o que fosse.
     Nicolau estava a chegar ao termo da sua licena em casa dos pais. Recebera-se do prncipe Andr uma nova carta - a quarta -, esta de Roma, onde ele dizia que desde h muito devia estar de regresso, caso no tivesse acontecido, inopinadamente e em virtude do clima quente, ter-se-lhe aberto a ferida, o que forava a adiar a partida at ao princpio do ano prximo.
     Natacha ainda estava enamorada do noivo, a certeza de ser amada sossegava-lhe a imaginao e continuava a mostrar-se acessvel a todas as alegrias da vida. A verdade, porm,  que, aps o quarto ms de separao, era tomada por momentos de tristeza contra os quais no sabia lutar. Tinha pena de si prpria, lamentava todo aquele tempo perdido sem proveito para ningum, quando era certo sentir-se capaz de amar e de ser amada. Na casa dos Rostov a alegria acabara.
     

     
     
     
     Captulo IX
     
     Chegaram as festividades do Natal (Pelo Natal, na Rssia, havia o costume de bandos mascarados visitarem amigos e parentes. (N, dos T.), e,  excepo da missa solene, das felicitaes rituais e enfadonhas, dos vizinhos e dos criados, dos trajos novos que toda a gente estreara, nada de especial assinalou essa quadra. No entanto, com aquele frio de 2OO abaixo de zero, sem vento, aquele dia de um sol claro, resplandecente, e aquela noite de Inverno picada de estrelas, era impossvel no se sentir a necessidade de celebrar a data fosse como fosse.
     No terceiro dia das festas, depois do jantar, cada um retirou-se para os seus aposentos. Foi o momento mais enfadonho da jornada. Nicolau, que nessa manh andara em visita aos amigos da vizinhana, adormecera na sala do div. O velho conde descansava no seu gabinete. No salo, em tomo da mesa redonda. Snia copiava um desenho e a condessa fazia uma pacincia. Nastsia Ivanovna, o bufo, sentara-se, de cariz triste, ao p da janela, com duas velhinhas. Natacha entrou na sala, foi direita u Snia, deitou os olhos ao trabalho que ela tinha entre mos e acercou-se da me, junto do, qual se deixou ficar parada, sem abrir a boca.
     - Que andas tu para a a fazer como uma alma penada? - disse-lhe a me - De que precisas?
     - Preciso dele.., e j, preciso dele neste mesmo instante - replicou Natacha, os olhos brilhantes e uma expresso muito sria.
     A condessa abriu os olhos e fitou a filha atentamente.
     - No olhe para mim, me, no olhe para mim, ou ponho-me a chorar imediatamente.
     - Senta-te ao p de mim.
     - Me  dele que eu preciso. Que ando eu para aqui a fazer, me?
     Suspendeu-se-lhe a voz, os olhos encheram-se-lhe de lgrimas, e para escond-las deu-se pressa em voltar a cara e sair. Penetrou no seu quarto, hesitou um momento, reflectindo, e dirigiu-se para a dependncia, do pessoal. Uma criada idosa repreendia uma moa que acabava de entrar, tiritando de frio, vinda das dependncias dos criados.
     - Basta, de divertimentos - dizia a velha. - H tempo para tudo.
     - Deixa-a. Kondratievna - interveio Natacha. - Vai, anda, vai. Mavrucha.
     Depois de Mavrucha em liberdade. Natacha atravessou o salo e dirigiu-se ao vestbulo. Um velho e dois lacaios moos jogavam as cartas. Ao v-la chegar suspenderam a partida e puseram-se de p.
     Que lhes hei-de eu dar a fazer?, disse Natacha para consigo mesma.
     - Vamos. Nikita, fazes favor.
     Onde o hei-de mandar?, murmurou para si mesma.
     - Vai  dependncia dos criados e traz-me um galo, e tu. Micha, vai buscar-me aveia.
     - No muita aveia? - perguntou Micha, jovial e divertido.
     - Vai, vai, avia-te - interveio o velho.
     - E tu, Fiador, vai-me buscar greda.
     Ao passar pela copa, deu ordem para se preparar o samovar, embora ainda no fossem horas.
     O mordomo Foka era o homem mais desabrido de toda a casa. Natacha gostava de manifestar a autoridade que tinha sobre ele. Foka no queria acreditar nos seus ouvidos e foi informar-se se devia obedecer.
     - Oh! Estas meninas! - exclamou Foka, fingindo m cara a Natacha.
     Ningum em casa incomodava tanta gente nem dava tanto que fazer como Natacha. Quando via algum desocupado, logo tratava de lhe ordenar fosse o que fosse. Dir-se-ia procurar experimentar se as pessoas se no zangariam com ela, se no se enfadariam com as ordens que ela dava, mas a verdade  que todos se apressavam a execut-las com muito maior satisfao de que quando obedeciam s ordens de outros.
     Que hei-de eu fazer? Onde  que irei?, perguntava-se ela a si mesma pelo corredor fora.
     - Nastsia Ivanovna, que filhos deitarei eu ao mundo? perguntou ao bufo, que vinha ao encontro dela, metido na sua katsaveika (Camisola de mulher e trajo caracterstico cios bobos. (N, dos T.).
     - Pulgas, cigarras, grilos - replicou o bufo.
     Meu Deus, meu Deus, sempre a mesma coisa! Onde me hei-de ir meter? Que hei-de eu fazer? E batendo com os ps no cho, galgou a escada de Vogel, que vivia com a mulher no andar de cima.
     Ali estavam as duas preceptoras, na mesa havia pratinhos com uvas secas, alfarrobas e amndoas. As preceptoras falavam da carestia da vida, comparando os preos de Moscovo com os de Odessa. Natacha sentou-se, e esteve a ouvir a conversa, com ar srio e cismador, e depois levantou-se.
     - A ilha de Madagscar - exclamou. - Ma-da-gs-car - repetiu, destacando as slabas, e, sem responder a Madame Schoss, que lhe perguntava o que dizia ela, abalou.
     Ptia, o irmo, estava tambm no andar de cima, preparando, com o auxlio do seu velho preceptor, um fogo de artifcio que queria queimar nessa noite.
     - Ptia! Ptia! - gritou-lhe ela - leva-me s cavalitas at l baixo.
     Ptia veio a ela e ofereceu-lhe as costas. Natacha saltou-lhe para cima, passando-lhe os braos em volta do pescoo. Ptia, cambaleando deu alguns passos com a irm s cavaleiras.
     - Obrigada,  quanto basta.., ilha de Madagscar - articulou ela, e, pondo os ps no cho, voltou a descer a escada.
     Como se tivesse percorrido os seus estados, e, depois de fazer sentir bem a sua autoridade, se sentisse satisfeita com a obedincia dos sbditos, sem deixar de reconhecer o enfado de todos, regressou ao salo, pegou numa guitarra, sentou-se num recanto sombrio atrs de um armrio, e, pisando as cordas, procurou dedilhar um compasso de que se lembrava e que ouvira na pera em Petersburgo, na companhia do prncipe Andr. Para os outros o que ela estava a tocar nada lhes dizia, mas para ela aquelas notas acordavam-lhe muitas recordaes. Ela ali estava, atrs do armrio, os olhos fitos numa zona de luz que se projectava da porta da copa, escutando-se a si mesma e recordando-se. Toda ela se afundava na evocao do tempo passado.
     Snia, com um copo na mo, atravessou a sala na direco da copa. Natacha relanceou-lhe um olhar, em que perpassou, igualmente, a fenda da porta entreaberta, e teve a impresso de ter visto j aquela faixa de luz e Snia passando com um copo na mo. Sim, exactamente como agora, murmurou ela.
     - Snia, que  isto? - gritou-lhe Natacha, pisando o bordo da guitarra.
     - Ah! Ests a - disse Snia, estremecendo. Aproximou-se para a ouvir. - No sei. Talvez A Tempestade, no? - acrescentou timidamente, receando enganar-se.
     Pois bem! Sim, foi assim mesmo que ela estremeceu, foi assim mesmo que se aproximou e que timidamente sorriu da outra vez, quando tudo isto se passou, dizia Natacha. E ento tambm pensei, como agora, que lhe faltava qualquer coisa.
     - No, no,  o coro dos Aguadeiros, no ouves? - E ps-se a trautear, de ponta a ponta, todo o motivo, para que Snia se recordasse. - Aonde ias? - perguntou-lhe.
     - Mudar a gua do copo. Acabei o meu desenho.
     - Tu tens sempre que fazer, mas eu, como vs, para nada tenho jeito. E o Nicolau, onde est ele?
     - Est a dormir, creio.
     - Vai acord-lo. Snia - voltou Natacha. - Diz-lhe que venha cantar para aqui.
     Natacha continuou agachada no seu canto, perguntando-se a si mesma como podia ter aquilo acontecido, e, sem ser capaz de resolver esse problema, o que, de resto, lhe no dava grande cuidado, transportou-se de novo, em imaginao, ao tempo em que os dois estavam juntos e em que ele a fitava com os seus olhos apaixonados.
     Ali! Que venha o mais depressa possvel. Tenho tanto medo que ainda se demore muito! E depois tudo ser diferente, estou a envelhecer,  o que ! J no serei como agora. E quem sabe? Talvez ele chegue hoje, talvez chegue agora mesmo. Quem sabe se j chegou e j l est em baixo no salo! Quem sabe se j chegou ontem e foi isso que eu esqueci!
     Levantou-se, pousou a guitarra e entrou no salo.
     Toda a gente da casa, os preceptores, as preceptoras e os hspedes se sentavam j  mesa do ch. Os criados estavam de p em volta da mesa, mas em parte alguma o prncipe Andr, e tudo decorreu como de costume.
     - Ali!, a est ela! - disse Ilia Andreitch ao ver entrar Natacha - Muito bem, senta-te aqui a meu lado - Mas Natacha deteve-se junto da me, enquanto, com os olhos, parecia procurar fosse o que fosse.
     - Me - exclamou. - D-mo, d-mo o mais depressa possvel - E de novo lhe custou refrear as lgrimas.
     Sentou-se  mesa e ficou a ouvir a conversa das pessoas mais idosas e de Nicolau, que chegou depois dela. Meu Deus, meu Deus! Sempre as mesmas caras, sempre as mesmas frases, sempre o pai com a chvena na mo a soprar o ch, como todos os dias!, murmurou ela de si para consigo, sentindo-se tomada por uma profunda averso contra toda aquela gente, nada mais nada menos por todos eles serem iguais todos os dias.
     Depois do ch. Nicolau. Snia e Natacha dirigiram-se  sala do div, procurando refugiar-se no seu recanto favorito, onde conversavam sempre com a maior intimidade.
     

     
     
     
     Captulo X
     
     - No te acontece s vezes pensar - disse Natacha ao irmo, uma vez instalados -, no te acontece pensar que nada mais ters, absolutamente mais nada, que toda a felicidade que podias usufruir j te foi concedida? E isto no  to triste?
     - Naturalmente! - volveu ele - s vezes, quando me sinto feliz, quando toda a gente est alegre em volta de mim, de repente sinto uma espcie de desgosto de tudo e vem-me  ideia que todos temos de morrer. Uma vez, quando estava na tropa, no quis sair a passear, embora a msica estivesse a tocar no jardim... Fui tomado por um tdio tal...
     - Oh!, sei muito bem o que isso ! Como te compreendo! - acorreu Natacha. - Era ainda muito pequena quando isso aconteceu. Lembras-te? Tinham-me castigado por eu ter comido ameixas. Enquanto todos vocs danavam, eu fiquei fechada na sala da aula. E o que eu chorava! Nunca me esquecerei desse momento! E tinha pena de vocs tambm, por mim e por vocs, por todos. E o principal  que no tinha culpa. Lembras-te?
     - Sim, lembro-me - volveu Nicolau. - Lembro-me de que depois fui ter contigo e quis consolar-te, e, queres saber?, no sabia como. Muito patuscos ramos! Eu tinha nessa altura um boneco e quis oferecer-to. Lembras-te?
     - E tu lembras-te? - voltou Natacha com um sorriso sonhador. - Muito antes, muito antes, quando ns ainda ramos muito pequeninos e o tio nos chamou ao gabinete. Era ainda na velha casa e estava muito escuro. Entrmos, e que vemos ns?
     - Um preto - concluiu Nicolau, sorrindo alegremente. Pois ento no me havia de lembrar? E ainda hoje no tenho a certeza se era realmente um preto ou se ns o teramos visto apenas em sonhos ou se nos teriam contado uma histria assim.
     - Estava muito sujo, lembras-te? E tinha os dentes brancos, e estava ali de p e ns a olharmos para ele.
     - Lembras-te. Snia? - perguntou Nicolau.
     - Sim, sim, eu tambm me lembro vagamente - interveio Snia, hesitando.
     - Falei deste preto ao pai e  me - disse Natacha - e eles disseram-me que nunca tinha havido qualquer preto c em casa. Mas a verdade  que te lembras disso perfeitamente!
     - Claro, e lembro-me mesmo dos seus dentes, como se os tivesse diante de mim.
     - Que engraado, dir-se-ia que sonhmos. E  isso que  maravilhoso!
     - E lembras-te de uma vez, estvamos ns a fazer rebolar ovos no salo, quando de repente entram duas velhas e se pem a andar  roda em cima do tapete. Teria isto acontecido ou no? Lembras-te? Que engraado era!
     - Sim, e quando o pai, de pelia azul, deu um tiro na escada principal?
     Sorridentes, iam fazendo desfilar diante deles no recordaes tristes, mas esses quadros poticos da infncia, essas impresses do mais longnquo passado, em que os sonhos se confundem com a realidade. Snia, como sempre, mantinha-se  margem, se bem que as suas reminiscncias fossem comuns. De resto, as suas eram mais pobres, e as que porventura recordava no lhe despertavam na alma as mesmas impresses poticas. No entanto, j era muito para ela contentar-se com a alegria dos dois e poder vibrar ao mesmo diapaso.
     S interveio na conversa quando eles se puseram a recordar a chegada dela  casa paterna. Snia contou que Nicolau lhe causara medo ao v-lo com um bibe atado com cordes e que a ama lhe dissera que ela tambm seria amarrada assim.
     - Pois eu recordo-me de que me contaram que tu nasceras debaixo de uma couve - disse Natacha. - E ento no me atrevia a pensar que no fosse verdade, embora me custasse a acreditar.
     Nessa altura surgiu na frincha da porta traseira da sala do div a cabea de uma criada de quarto.
     - Menina, j a est o galo - disse ela em voz baixa.
     - J no  preciso. Polia, diz que o levem - replicou Natacha.
     A certa altura deste colquio. Dimmler entrou e foi sentar-se diante da harpa, que estava a um canto. Tirou-lhe a capa que a cobria e o instrumento soltou uma nota discordante.
     - Eduardo Karlich, toque, se faz favor, o meu nocturno favorito, de Field - exclamou a velha condessa, l de dentro do salo.
     Dimmler deu um acorde, e, voltando-se para os trs jovens, disse-lhes: - Que formal est a mocidade!
     - Sim, estamos a filosofar - volveu Natacha, relanceando-lhe um olhar e prosseguindo na conversa. Falavam agora de sonhos.
     Dimmler ps-se a tocar. Natacha, sem fazer rudo, na ponta dos ps, aproximou-se da mesa, pegou numa vela, trouxe-a consigo e retomou silenciosamente o seu lugar. Na sala, especialmente ao p do div onde eles estavam sentados, fazia escuro, mas atravs das altas janelas entrava a luz prateada da lua cheia, que vinha projectar-se no cho.
     - Sabes em que estou a pensar? - perguntou Natacha, em voz surda, aproximando-se de Nicolau e de Snia, quando Dimmler, acabada a execuo da sua pea, dedilhava ligeiramente as cordas da harpa, como a perguntar se devia erguer-se ou tocar outro trecho.- Que quando estamos a evocar as nossas recordaes acabamos por nos lembrar do que se passou antes de virmos a este mundo...
     - Isso  a metempsicose - disse Snia, que fora sempre muito estudiosa e tinha presente o que aprendera. - Os Egpcios acreditavam que as nossas almas viveram primitivamente nos corpos dos animais e para eles voltaro depois da nossa morte.
     - Pois eu no creio que tenhamos sido animais - replicou Natacha, sempre em voz baixa, embora os sons da harpa se houvessem suspendido. Do que eu tenho a certeza  que fomos anjos, l no sei onde, e aqui tambm, e  por isso que nos lembramos de tudo...
     - Posso ficar ao p dos meninos? - perguntou Dimmler, aproximando-se e sentando-se junto deles.
     - Se tivssemos sido anjos, como  que teramos vindo parar c to em baixo? - observou Nicolau. - No, isso no pode ser. - Porque no? Quem te disse que estamos mais em baixo?...
     Como  que eu hei-de saber o que fui anteriormente? - observou Natacha, convicta. - A alma  imortal.., e isso quer dizer que se eu tenho de viver para sempre  que j vivi na eternidade.
     -  certo, mas  muito difcil fazermos uma ideia dessa eternidade - interveio Dimmler, que principiara por se juntar ao grupo dos jovens com um sorriso afvel, embora um tudo-nada trocista, e agora tomava parte a srio na discusso.
     - Porque h-de ser assim to difcil fazer uma ideia da eternidade? - observou Natacha. - Depois de hoje ser amanh e sempre da mesma maneira por a adiante; ontem j passou, anteontem tambm l vai e  sempre assim...
     - Natacha, agora  a tua vez. Canta qualquer coisa para ns ouvirmos - disse a me na sala contgua. - Que esto vocs a fazer a dentro, como se fossem conspiradores?
     - Oh, me, no me apetece! - volveu-lhe Natacha, erguendo-se no entanto.
     Ningum, nem o prprio Dimmler, que j no era criana, desejava interromper aquela conversa e abandonar o recanto da sala do div, mas Natacha levantara-se e Nicolau fora sentar-se ao cravo. Como era seu costume, colocando-se no meio do salo, no lugar onde a acstica era melhor. Natacha ps-se a cantar a melodia de que a me mais gostava.
     Dissera no lhe apetecer cantar, e no entanto h muito o no fazia como naquela noite, e por muito tempo no voltaria a cantar to bem. O conde Ilia Andreitch, do seu gabinete, onde falava com Mitenka, ouvia-a e tal qual o estudante que morre por brincar finda a lio, ei-lo que se embrulha nas ordens que d, e por fim acaba por calar-se. Mitenka, de ouvido  escuta tambm, permanecia de p diante do conde, calado, sorrindo. Nicolau no tirava os olhos da irm e respirava quando ela respirava.
     Ouvindo-a. Snia pensava quo diferentes eram uma da outra, ela e a prima, e para si mesma dizia que nunca, nem de longe, seria capaz de exercer uma semelhante fascinao. A velha condessa, a sorrir, melanclica e feliz ao mesmo tempo, de lgrimas a bailar-lhe nos olhos, escutava, pensativa, abanando a cabea de tempos a tempos. Pensava em Natacha e na sua prpria mocidade, e ia dizendo para si mesma haver qualquer coisa de pouco natural e de inquietante naquele casamento da filha com o prncipe Andr.
     Dimmler, sentado perto da condessa, ouvia, de olhos fechados.
     - Realmente, condessa - acabou por dizer - est ali um talento europeu. J nada tem que aprender: aquela sonoridade, aquela doura, aquela fora...
     - Oh, faz-me tanto medo, tanto medo esta pequena! - exclamou a condessa, sem reparar com quem falava. O seu instinto maternal dizia-lhe haver em Natacha alguma coisa de excessivo que lhe no permitiria ser feliz. E ainda ela no tinha acabado de cantar apareceu Ptia, todo contente, anunciando que haviam chegado os mascarados,
     Natacha calou-se imediatamente.
     - Tonto! - gritou para o irmo, e precipitou-se para uma cadeira, onde se deixou cair, rompendo em soluos tais que muito tempo decorreu antes que serenasse.
     - No  nada, me, no  nada, juro-lhe, foi o Ptia quem me assustou - dizia ela, procurando sorrir, mas as lgrimas continuavam a correr e os soluos embargavam-lhe a voz.
     Os criados, disfarados de ursos, de turcos, de taberneiros, de senhoras, uns temveis, outros burlescos, entraram, joviais, trazendo consigo o frio l de fora. Comearam por aparece; timidamente na antecmara, depois, escondendo-se uns atrs dos outros, irromperam pelo salo; uma vez ali, primeiro acanhados, depois mais  vontade, comearam a cantar, a danar, a fazer rodas e outros entretenimentos prprios do Natal. A condessa reconhecia-os um por um, ria com os seus disfarces, e, por fim, retirou-se do salo. O conde Andeitch, todo ele sorrisos, ficou na sala, encorajando-os. A juventude desaparecera.
     Meia hora mais tarde apareceu, por entre os mascarados que j estavam no salo, uma senhora idosa, de anquinhas: era Nicolau. Ptia estava vestido de turco. Dimmler de palhao. Natacha de hssar e Snia de circassiano, com sobrancelhas e bigodes feitos a carvo.
     Quando os no mascarados acabaram de se mostrar simuladamente surpresos, fingindo no os reconhecer e tributando-lhes grandes louvores, os jovens, muito orgulhosos dos seus disfarces, que julgavam perfeitos, resolveram ir dali mostrar-se a outras pessoas conhecidas.
     Nicolau, que muito desejava dar um passeio na sua troika e levar consigo toda a gente, props apresentarem-se mascarados em casa do tio na companhia de uma dezena de criados.
     - Ento, que ideia  essa de irem maar o pobre velho? - disse a condessa. - E, alm disso, onde  que vocs tm l espao para se moverem? Se querem ir a qualquer parte vo a casa dos Meliukov.
     A Meliukova era uma viva, cuja moradia, cheia de filhos de todas as idades, de preceptoras e de preceptores, ficava a umas quatro verstas da propriedade dos Rostov.
     - Ora a est, minha querida, uma boa ideia - interveio o velho conde, todo folgazo. - Esperem, eu tambm me vou mascarar e saio com vocs. Vo ver como eu vou fazer rir a Pachette.
     A condessa, porm, no deixou que o conde fosse com eles: nos ltimos dias queixara-se muito da sua perna. Decidiu-se que ele no iria, mas sim as meninas, se Lusa Ivanovna, isto . Madame Schoss, as acompanhasse. Snia, embora sempre muito tmida e reservada, foi quem mais insistiu com Madame Schoss para anuir.
     O trajo de Snia era o mais feliz de todos. Os bigodes e as sobrancelhas ficavam-lhe a matar. Todos lhe diziam estar muito bonita e a verdade  que se encontrava numa disposio de esprito pouco vulgar nela, cheia de entusiasmo e de alegria. Uma voz interior dizia-lhe que aquela noite seria decisiva, ento ou nunca, e vestida de homem parecia outra pessoa. Lusa Ivanovna acabou por consentir e meia hora depois quatro troikas, com guizos e campainhas, estavam diante da porta de entrada, com os seus patins rangendo sobre a neve.
     Natacha foi a primeira a dar a nota de alegria naquela noite de Natal, e essa alegria, comunicando-se de uns aos outros, cresceu, cresceu cada vez mais, at que atingiu o auge quando todas as mscaras apareceram c fora, ao ar frio da noite, e, chalrando, chamando umas pelas outras, rindo e gritando, se instalaram nos trens.
     Duas das troikas eram trens de servio; a terceira era do velho conde e tinha um grande troto das coudelarias de Orlov atrelado ao meio; a quarta, que era de Nicolau, aos varais centrais tinha o seu pequeno murzelo, de plo emplumado. Era o prprio Nicolau, vestido de senhora idosa, com o capote de hssar por cima, quem estava de p no meio do tren, com as rdeas na mo.
     A noite estava to clara que ele via brilhar,  luz da Lua, as placas de cobre dos arreios e os olhos dos cavalos, que voltavam as cabeas, medrosos, para os viajantes, agitando-se ruidosamente sob o alpendre obscuro da entrada.
     No tren de Nicolau sentaram-se Natacha. Snia. Madame Schoss e duas criadas; no do velho conde. Dimmler, a mulher e Ptia; nos demais, os criados mascarados.
     - Vai tu  frente. Zakar! - gritou Nicolau ao cocheiro do pai, para assim ter oportunidade de o ultrapassar na estrada.
     A troika do velho conde, aquela que transportava Dimmler e o seu grupo, abalou, fazendo ranger os patins, que pareciam colados  neve, e tilintando com todas as suas campainhas.
     Os cavalos dos lados comprimiam-se contra os varais, enterrando as patas na neve slida e brilhante como acar. Nicolau abalou atrs da primeira troika, e a seguir  dele partiram as outras, no meio de alaridos e rangidos. De princpio meteram a passo pelo caminho estreito. Enquanto atravessavam o jardim, a sombra das rvores desnudas atravessava-se na estrada e interceptava a luz da Lua, mas, assim que transpuseram os muros, uma plancie nevada, reluzente como diamante, com reflexos azulados, descobriu-se, a perder de vista, imvel e banhada de luar. Primeiro um, depois outro, os trens da vanguarda foram sacudidos; aos que vinham atrs aconteceu-lhes o mesmo, e rompendo audazmente a profunda serenidade afastaram-se em fila.
     - Olha o rasto de uma lebre, outro, outro! - ressoou a voz de Natacha no ar gelado.
     - Que noite to clara. Nicolau! - exclamou Snia.
     Nicolau voltou-se para ela e teve de se debruar para lhe ver melhor o rosto. Uma carinha nova, encantadora, com uns bigodes e, umas sobrancelhas vincadas a preto, emergia da zibelina e fitava-o  luz do luar, muito prxima e muito distante ao mesmo tempo.
     Onde est a Snia de outrora?, disse de si para consigo, contemplando-a, sorridente.
     - Que tens. Nicolau?
     - Nada - replicou ele, voltando-se para os cavalos.
     Ao chegarem  estrada real, em que,  luz do luar, se viam os sulcos abertos pelos patins dos trens e os trilhos das parelhas, os prprios cavalos arrebataram as rdeas e aceleraram o andamento. O cavalo da esquerda, a cabea voltada para fora, dava saces no brido. O do meio balanava-se, eriando as orelhas, como se perguntasse se podia principiar ou se ainda seria cedo. Ao longe, j a uma certa distncia, num tropel de campainhas que se afastava, via-se nitidamente, sobre o fundo branco da neve, a troika negra de alar. Ouviam-se os gritos, as exclamaes e as gargalhadas dos mascarados.
     - Eh, meus amigos! - gritou Nicolau, segurando as rdeas com uma das mos e com a outra brandindo o chicote.
     E bastava o vento mais vivo que fustigava os rostos e a tenso dos cavalos das estremas, cada vez maior, para se avaliar da rapidez da troika. Nicolau olhou para trs. Os outros trens l vinham, entre gritos e rangidos, e ouviam-se as vozes e as chicotadas estimulando os cavalos. O animal do meio balanava, valentemente, sob o arco dos varais, sem pensar em desistir, e disposto, pelo contrrio, a ir cada vez mais depressa, desde que lhe pedissem.
     Nicolau alcanou a primeira troika. Desciam agora uma ladeira e meteram por um caminho espaoso, sulcado por trilhos de carruagens abertos num prado ao longo de um rio.
     Onde estamos ns?, perguntou Nicolau aos seus botes. Naturalmente  o prado Kossoi. No, no, so stios novos, que eu nunca vi. No  o prado Kossoi, no  a colina de Demiane. S Deus sabe o que ! So stios novos e mgicos! Enfim, tanto faz! E, gritando aos cavalos, props-se ultrapassar a primeira troika.
     Zakar, refreando por instantes os cavalos, voltou para o amo a cara cheia de gelo at s sobrancelhas.
     Nicolau lanou a troika a toda a brida; Zakar, de braos estendidos, fez estalar a lngua e picou os seus.
     - Cuidado, patro! - gritou-lhe.
     Ambas as troikas correram, lado-a-lado, e o galope dos cavalos tomou-se ainda mais largo. Nicolau ganhou terreno. Zakar, sempre com os braos estendidos, fez um gesto com a mo que segurava as rdeas.
     - Est enganado, patro! - gritou-lhe.
     Nicolau, com os seus cavalos sempre a galope, ultrapassou Zakar. Os animais salpicavam a cara dos viajantes com uma neve fina e seca, e na troika rival tudo eram gritos e desafios, sombras que passavam a toda a velocidade. S se ouviam rangidos de patins sobre a neve e vozes de mulher de timbre agudo.
     Nicolau refreou os cavalos e olhou em tomo de si. Em volta era sempre a mesma plancie ferica, banhada pelo luar e salpicada de estrelas de prata.
     Zakar grita-me que volte  esquerda, mas porque hei-de eu voltar  esquerda?, disse de si para consigo. Iremos ns, de facto, a casa dos Meliukov? Ser para ali Meliukova? S Deus sabe para onde vamos e s Deus sabe o que fazemos. Seja como for, tudo isto  estranho e maravilhoso! Voltou-se para dentro do tren.
     - Olha para estas sobrancelhas e estes bigodes todos brancos - disse um daqueles seres estranhos, gentilssimos e desconhecidos que se sentavam no tren, precisamente o das sobrancelhas e dos bigodes bem desenhados.
     Aquela parece a Natacha, dizia Nicolau para consigo. E aquela outra  Madame Schoss, e talvez no seja. E aquele circassiano de bigodes? Esse no sei quem seja, mas sei que gosto dele.
     - No tm frio? - perguntou-lhes.
     No responderam e puseram-se a rir. Dimmler, do tren da retaguarda, gritou fosse o que fosse, naturalmente muito engraado, mas no puderam compreender o que ele dizia.
     - Sim, sim - replicaram umas vozes risonhas.
     Entretanto, eis que surge uma floresta encantada, com grandes sombras movedias, cintilaes de diamante, degraus de mrmore, e depois os telhados de prata de um palcio mgico e os guinchos finos de uma fera. Se esta  a aldeia de Meliukova, ainda  mais estranho que, tendo ns andado  aventura, pudssemos chegar a porto seguro, murmurou para si mesmo Nicolau.
     Era, realmente. Meliukova, e j se viam criados e lacaios acudindo  entrada de risonhos semblantes e velas acesas.
     - Quem so? - perguntaram do alto da escada.
     - Mascarados do conde; j conheci os cavalos - responderam outras vozes.
     

     
     
     
     Captulo XI
     
     Pelagueia Danilovna Meliukova, uma robusta matrona, de lunetas e capa a flutuar, estava sentada no salo rodeada das filhas, a quem procurava distrair. Fundiam cera e observavam no escuro as figuras que se iam formando (Uma das adivinhas caractersticas do Natal russo. (N, dos T.) quando ressoaram no vestbulo os passos e as vozes dos recm-chegados.
     Os hssares, as senhoras, as bruxas, os palhaos, os ursos, tossindo e limpando os rostos cobertos de gelo, penetraram no salo, onde se acenderam as luzes apressadamente. Dimmler, de palhao, e Nicolau, de senhora idosa, abriram o baile. Os mascarados, acolhidos pelo alarido jovial das crianas, escondendo a cara e falando em falsete, cumprimentavam a dona da casa e iam encostar-se em fila contra as paredes.
     - Oh,  impossvel reconhec-los! Espera, esta  a Natacha! Olhem para o ar dela! A srio, lembra-me no sei quem. E que bem o Eduardo Karlich! No era capaz de o reconhecer. E como ele dana! Ob., meu Deus!, um circassiano! Que bem a Soniuchka! este quem ? Que divertido! Nikita. Vania, retirem as mesas! ns que estvamos para aqui to sossegados!
     - Ah!, ah!, ali! Um hssar! Parece um mido. E os ps dele!... No posso ver... - dizia algum.
     Natacha, a predilecta dos jovens Meliukov, desapareceu com eles nos aposentos das traseiras. Pediu que lhe arranjassem uma toalha e alguns roupes e fatos de homem, que uns braos nus recolheram, atravs da porta entreaberta, das mos dos lacaios.
     Dez minutos depois toda a gente nova da famlia Meliukov vinha juntar-se s outras mscaras.
     Pelagueia Danilovna, que dera ordem para se arranjar espao para as visitas e mandara preparar uma refeio, ia de um lado para o outro, as lunetas encavalitadas no nariz, com o seu sorriso, discreto, pelo meio de toda aquela gente mascarada, olhando um por um cara a cara e sem conseguir identificar fosse quem fosse. No s no reconhecia os Rostov e Dimmler, mas tambm as suas prprias filhas, mascaradas com roupes de homem e uniformes sortidos.
     - E aquela, quem  aquela? - perguntava  preceptora, apontando para a sua prpria filha, vestida de trtaro de Kazan. - Parece-me um dos Rostov. E o senhor hssar, a que regimento pertence? - perguntou a Natacha. - A turca dem-lhe geleia de fruta - dizia ao criado de mesa, a servir de roda. - A religio no lhe probe de comer...
     Por vezes, ao ver os passos estranhos e patuscos que os danarinos executavam, pois, uma vez persuadidos de que ningum os reconhecia assim mascarados, sentiam-se  vontade para fazer o que lhes apetecesse. Pelagueia Danilovna escondia a cara no leno de assoar, e toda a sua possante corpulncia estremecia, abalada por um irresistvel gargalhar de velha matrona.
     - Minha Sacha! Eh!, minha Sacha! - exclamava ela. Depois das danas e dos coros russos. Pelagueia Danilovna reuniu todos os criados e todos os amos numa grande roda. Trouxeram um anel, um fio e um rublo e principiaram a jogar.
     Ao fim de uma hora todos os trajos estavam amarrotados e desfeitos, as sobrancelhas e os bigodes pintados a rolha queimada haviam desaparecido das caras juvenis e animadas, reluzentes de suor. Pelagueia Danilovna pde finalmente reconhecer os que estavam mascarados, soltando grandes exclamaes perante a perfeio dos disfarces, principalmente os das meninas, e agradecendo a toda a gente a alegria que lhe tinham proporcionado. A ceia dos amos foi servida no salo e na sala comeram os criados.
     -  terrvel ouvir a sina na estufa! - exclamou uma velha criada no fim da refeio.
     - Porqu? - perguntou a filha mais velha dos Meliukov. - A menina no seria capaz,  preciso ter muita coragem... - Pois eu era - disse Snia.
     - Conte-nos o que aconteceu a essa menina - pediu a segunda filha dos Meliukov.
     - Um dia foi l uma menina - contou a velha criada. Tinha levado consigo um galo, dois talheres, tudo o que era preciso. Sentou-se. E assim esteve, por muito tempo,  espera. De repente, eis que chega uma carruagem.., era um tren, com as suas campainhas e os seus guizos a tilintar. A menina pe-se  escuta: uma pessoa chegava. Essa pessoa entrou, tinha a figura de um homem, dir-se-ia um oficial a valer. Chegou e sentou-se, diante da menina, em frente do segundo talher.
     - Oh! Oh! - exclamou Natacha, de olhos arregalados, cheia de medo.
     - E ento, falou?
     - Pois, como se fosse um homem qualquer, naturalmente. E ps-se a contar-lhe muita coisa. E ela, a menina, tinha de conversar com ele at ao cantar do galo. Mas teve tanto medo que escondeu a cara nas mos E ento ele agarrou-a. Felizmente, as criadas vieram acudir-lhe... (Outra adivinha do Natal. (N, dos T.)
     - Para que esto a assustar as meninas? - repreendeu Pelagueia Danilovna.
     - Me, mas tu prpria tiraste a sina - disse-lhe a filha.
     - E tambm se tira a sina no celeiro? - perguntou Snia.
     - Pois, agora mesmo, quem quiser pode ir ao celeiro e pr-se  espera. Escuta. Se ouvir umas marteladas, se baterem,  mau sinal, mas se ouvir o milho a cair.  bom, e tambm acontece.
     - Me, conta-nos o que uma vez te aconteceu no celeiro. 
     Pelagueia Danilovna sorriu.
     - Ah, de nada me lembro. - tornou ela. - Haver algum de vocs que l queira ir?
     - Eu, e,. Pelagueia Danilovna, deixe-me ir - disse Snia,
     - Pois sim, se no tens medo.
     - Lusa Ivanovna, d licena? - pediu Snia.
     Ou quando se jogava s prendas, ou quando se conversava como naquele momento. Nicolau no tirava os olhos de Snia, a quem olhava como pela primeira vez. Afigurava-se-lhe, ao v-la com aquele trajo e com aqueles bigodes pintados, nunca a ter visto antes. Efectivamente, naquela noite. Snia estava alegre, bonita e muito animada. Natacha tambm nunca a vira assim.
     E ali est como ela , eu no passo de um imbecil! , pensava ele observando-lhe os olhos brilhantes, o sorriso feliz e vitorioso - o sorriso que lhe desenhava nas faces duas covinhas por debaixo dos bigodes pintados -, coisas em que no reparara at a.
     - De nada tenho medo. - disse ela - J, se quiserem. - E levantou-se.
     Explicaram-lhe onde ficava o celeiro e disseram-lhe que ela tinha de ficar calada, a escutar, e deram-lhe a pelia. Embrulhou-se nela, passando-a pela cabea, ao mesmo tempo que relanceava os olhos a Nicolau.
     Que encantadora pequena!, dizia ele de si para consigo. Em que tenho estado a pensar at agora?
     Snia saiu para o corredor, na inteno de se dirigir ao celeiro. Nicolau deu-se pressa em desaparecer pela porta principal, alegando haver ali muito calor. Realmente l dentro sufocava-se, tanta era a gente ali acumulada.
     L fora continuava o mesmo frio e a mesma imobilidade, havia a mesma Lua, apenas um pouco mais brilhante ainda. To intensa era a claridade e tantas as chispas de luz que se desprendiam da neve que nem apetecia erguer os olhos para a abbada celeste, onde cintilavam as estrelas. O cu estava negro e triste, mas a terra, pelo contrrio, toda era alegria.
     Que pateta! Para que esperei eu at agora?, pensava Nicolau. Desceu a escada e contornou a casa pela alameda que conduzia  porta de servio. Sabia que Snia tinha de passar por ali. A meio do caminho havia uma pilha de toros de madeira, coberta de neve, que ensombrava a alameda. Do outro lado, sobre a neve e o caminho que conduzia ao celeiro, projectava-se a sombra das velhas tlias desnudadas. As paredes do celeiro e o telhado da construo, alvos de neve, que dir-se-ia talhados em pedras preciosas, chispavam  luz do luar. Uma rvore estalou na mata e tudo de novo recaiu no silncio. A Rostov afigurava-se-lhe no ser ar que os seus pulmes respiravam, mas os poderosos eflvios da eterna mocidade e da eterna alegria.
     Pela escada de servio descia algum e os passos soavam mais fortes no ltimo degrau, coberto de neve. Depois ouviu-se a voz da velha criada.
     - Sempre a direito, sempre a direito, por este caminho, menina. Mas no olhe para trs.
     - No tenho medo - entoou a voz de Snia, e no caminho, cada vez mais perto de Nicolau, rangeram os seus sapatinhos leves, aproximando-se.
     Caminhava toda embuada na pelia. S viu Nicolau a dois passos dele. E, ao v-lo, tambm o irmo de Natacha foi para Snia uma pessoa completamente diferente da que ela conhecia e a quem sempre temera um pouco. Vestido de mulher, tinha os cabelos desgrenhados e nos lbios um sorriso feliz como ela nunca lhe vira. Snia correu para ele.
     Parece outra e no entanto  a mesma, murmurou Nicolau de si para consigo ao fitar-lhe o rosto banhado na luz do luar. Tacteou-lhe a pelia que lhe cobria a cabea, apertou-a nos braos, estreitou-a contra si e beijou-lhe os lbios, que cheiravam a rolha queimada. Snia, por sua vez, beijou-o tambm na boca e, libertando as mos, pegou-lhe na cara com as palmas nas duas faces.
     - Snia!...
     - Nicolau!... - foi tudo quanto disseram. Correram ao celeiro e regressaram a casa entrando cada um pela porta por onde haviam sado.
     

     
     
     
     Captulo XII
     
     Quando abalaram de casa de Pelagueia Danilovna. Natacha, que sempre via e notava tudo, organizou as coisas de tal modo que tanto ela como Lusa 1vanovna ficaram no tren de Dimmler, indo Snia para o de Nicolau e das criadas.
     Este, sem pensar j em tomar a dianteira aos outros, manteve os seus cavalos num andamento moderado. A cada momento contemplava Snia  estranha luz do luar, como que procurando descobrir quela luz cambiante, por debaixo das sobrancelhas e dos bigodes mascarrados, a Snia de outrora e a de hoje, a Snia de quem estava firmemente resolvido a no mais se separar. Olhava-a fixamente, e, ao v-la sempre a mesma e sempre diferente, lembrava-se do cheiro a rolha queimada que ela tinha nos lbios, e respirava a plenos pulmes o ar gelado. Diante da paisagem que lhe fugia debaixo dos olhos e do cu cintilante sentia-se de novo num reino encantado.
     - Snia, ests bem? - perguntava-lhe de vez em quando.
     - Estou - replicava ela. - E tu?
     No meio do caminho. Nicolau passou as rdeas ao cocheiro, apeou-se do tren, correu para o de Natacha, e trepou para cima dos patins,
     - Natacha - segredou-lhe em francs.- Queres saber? Resolvi-me a respeito de Snia.
     - Disseste-lhe?! - exclamou Natacha, de sbito, radiante. - Oh, no sei o que pareces com esses bigodes postios! Natacha, ests contente?
     - Estou, estou contente, muito contente! Principiava a zangar-me contigo. Nada te dizia, mas achava que procedias mal para com ela. Tem to bom corao. Nicolau! Estou to contente! Eu sou m muitas vezes; confesso-te, no entanto, que chegava a ter vergonha de ser feliz sozinha, sem ela - continuou Natacha. - Agora estou contente. Anda, corre para o p dela.
     - No, espera... Ests to engraada! - voltou Nicolau, sem deixar de a fitar e descobrindo nela, nos seus traos, fosse o que fosse de novo, de inusitado, qualquer coisa de maravilhoso e de terno que nunca lhe vira antes. - No achas. Natacha, que tudo isto parece magia?
     - Parece - replicou ela -, mas procedeste muito bem.
     Se eu alguma vez a tivesse visto como hoje, dizia Nicolau de si para consigo, h muito me teria aconselhado com ela, e tudo teria corrido bem.
     - Ento, ests contente e achas que fiz bem?
     - Oh, sim, fizeste. Ainda h pouco tive uma discusso com a me por tua causa. A me dizia que ela andava atrs de ti. Como se pode dizer uma coisa dessas? Quase me zanguei com ela. Nunca consentirei que digam nem que pensem mal dela.  a bondade e o bom senso em pessoa.
     - Ento achas que fiz bem - repetiu Nicolau, observando mais uma vez a expresso da irm, como para ter a certeza de que ela estava a falar com sinceridade, e, fazendo ranger as botas, saltou do tren de Natacha para regressar ao seu. L estava o mesmo circassiano, feliz e risonho, com os seus grandes bigodes e os seus olhos brilhantes que o fitavam do fundo do capuz de zibelina. E aquele circassiano era nem mais nem menos que Snia e aquela Snia iria ser, com certeza, mais tarde ou mais cedo, a sua amantssima e felicssima mulher.
     Chegaram, e, depois de terem contado  condessa o que se passara em casa dos Meliukov, foram para a cama. Enquanto se despiam, ainda de bigodes, foram conversando das suas venturosas vidas. Falaram do seu futuro de mulheres casadas, da boa harmonia do casal, da felicidade que as aguardava. Na mesa de Natacha estavam ainda os espelhos que Duniacha ali pusera na vspera.
     - Quando chegar esse dia? Receio tanto que nunca chegue... Ah!, seria bom de mais! - exclamou Natacha, levantando-se e abeirando-se dos espelhos.
     - Senta-te. Natacha, talvez o vejas - disse Snia. Natacha acendeu as velas e sentou-se.
     - Estou a ver uma pessoa de bigodes - murmurou ela, que acabava de descobrir a sua prpria imagem.
     - No faa troa, menina - respondeu Duniacha.
     Com o auxlio de Snia e da criada de quarto. Natacha conseguiu a boa posio do espelho. Ficou muito sria e calada. E assim esteve por muito tempo sentada no mesmo lugar com os olhos na srie infinita das velas multiplicando-se pelos espelhos fora sempre  espera de ver reflectido no ltimo, onde tudo se misturava e confundia, como rezava a lenda, quer um caixo, quer ele, o prncipe Andr. Por muito que quisesse, contudo, descobrir numa sombrazinha a cara de um homem ou um caixo, o certo  que no viu coisa alguma. Comeou a pestanejar e acabou por afastar-se dos espelhos.
     - Porque ser que as outras pessoas vem e s eu no distingo coisa alguma? - disse ela. - Vem c. Snia, senta-te aqui no meu lugar. Hoje tem de ser, sem falta... Ao menos faz isso por mim... Tenho tanto medo hoje!
     Snia sentou-se diante do espelho, colocou-o segundo o preceito e ps-se a olhar.
     - Sofia Alexandrovna tem de ver, sem falta - murmurou Duniacha em surdina. - As meninas tambm esto sempre a rir-se...
     Snia ouviu estas palavras e a resposta ciciada de Natacha.
     - Sim, tenho a certeza de que ela o h-de ver. J no ano passado viu qualquer coisa.
     Durante dois ou trs minutos as meninas conservaram-se caladas.
     - Tem de ser! - acrescentou Natacha em voz surda, sem concluir o seu pensamento. De sbito. Snia repelira o espelho e escondia a cara nas mos.
     - Ai. Natacha! - exclamou ela.
     - Viste? Viste? Que viste? - acudiu Natacha, segurando o espelho, que ia cair.
     Snia nada vira. Ia levantar-se para descansar a vista no momento em que Natacha murmurava o seu Tem de ser!!!
     No queria ser uma decepo para as duas, mas estava cansada daquela postura.
     Nem ela prpria sabia ao certo como e porque gritara e tambm porque escondera a cara entre as mos.
     - Viste-o, a ele? - perguntou Natacha, pegando-lhe nas mos.
     - Sim, espera.., sim, foi ele quem vi - respondeu Snia, involuntariamente, sem saber a quem Natacha se referia, e se o ele de Natacha significava Nicolau ou Andr.
     E porque no hei-de dizer que vi? J muitas outras viram. Quem ser capaz de me provar que vi ou no vi?, pensava ela.
     - Sim, vi-o - disse Snia.
     - Como? Como? De p ou sentado?
     - Isto , eu vi-o... Primeiro nada se via, e depois, de repente, l estava ele estendido.
     - O Andr? Est doente? - perguntou Natacha, fitando Snia, de olhos assustados.
     - No, pelo contrrio, pelo contrrio, estava alegre, e voltou-se para mim. - E ao dizer isto afigurava-se-lhe ter visto realmente o que dizia.
     - E depois. Snia ...
     - No se via bem... Era qualquer coisa azul e vermelha...
     - Snia! Quando voltar ele? Quando o tornarei a ver? Meu Deus, tenho receio por ele e por mim! Tudo me mete medo... Sem responder s palavras com que Snia procurava consol-la, deitou-se e j as luzes estavam apagadas h muito e ainda ela continuava estendida na cama, imvel, os olhos muito abertos, fitando o frio luar atravs das vidraas cobertas de geada.
     

     
     
     
     Captulo XIII
     
     Pouco tempo depois do Natal. Nicolau falou  me no seu amor por Snia e na sua resoluo de casar com ela. A condessa, que de h muito observava os dois e j esperava aquela confidncia, ouviu-o calada at ao fim. Depois volveu-lhe que estava na sua mo casar-se com quem quisesse, mas que nem ela nem o pai jamais consentiriam naquele enlace. Foi a primeira vez na sua vida que Nicolau viu a me descontente com ele e disposta a no transigir por muito que lhe quisesse. Friamente, e sem olhar para ele, mandou chamar o marido. Quando este chegou, em poucas palavras, muito serena, na presena de Nicolau, tentou fazer-lhe compreender do que se tratava, mas acabou por no poder reprimir-se: despeitada, rompeu a chorar, saindo da sala. O velho conde ps-se a repreender Nicolau num tom hesitante, pedindo-lhe que renunciasse ao seu projecto. O filho replicou-lhe no poder retirar a palavra dada, e o pai, visivelmente comovido e suspirando, deu-se pressa em interromper a discusso abalando ao encontro da condessa. Sempre que se via diante do filho, o conde, lembrando-se da m situao da sua casa, sentia-se culpado para com ele. Efectivamente no tinha o direito de lhe querer mal por ele haver recusado casar com uma rica herdeira, preferindo Snia, menina sem dote. A verdade  que se ele no tivesse dilapidado a fortuna, que melhor esposa poderia desejar Nicolau? Se havia um culpado era ele, ele e o Mitenka, com os seus hbitos incorrigveis.
     Nem o pai nem a me voltaram a trocar palavra com o filho sobre o assunto. Alguns dias depois, porm, a condessa mandou chamar Snia e com uma crueldade que nem a prpria rapariga nem ela prpria, condessa, podiam prever, acusou a sobrinha de haver seduzido o filho e de ser uma ingrata. Snia, calada e de olhos baixos, ouviu as duras palavras da condessa sem compreender o que exigiam dela. Estava pronta a tudo sacrificar pelos seus benfeitores. A ideia do sacrifcio no lhe era estranha, mas no presente caso no sabia a quem queriam v-la sacrificada. Se lhe era impossvel deixar de amar a condessa e toda a famlia Rostov, tambm no podia esquecer Nicolau e ignorar que a felicidade dele dependia do seu amor. Ficou calada e triste, sem responder fosse o que fosse. Nicolau, no podendo suportar por mais tempo a situao, teve uma conversa com a me. Principiou por pedir-lhe que lhes perdoasse, a Snia e ele, e consentisse no casamento, ameaando-a em seguida de que casaria imediatamente com Snia em segredo caso a viessem a perseguir.
     A condessa, com uma frieza que o filho lhe no conhecia, respondeu-lhe que ele era maior e que se o prncipe Andr ia casar-se sem o consentimento do pai tambm ele o podia fazer; no entanto ela  que nunca reconheceria aquela intriguista,, por sua filha.
     Indignado pela palavra intriguista. Nicolau ergueu a voz, disse  me nunca ter pensado que ela fosse capaz de o obrigar a vender o corao, e que se essa era a sua vontade, seria aquela a ltima vez que lhe falava... No teve tempo, porm, de pronunciar a palavra decisiva, que a me aguardava com pavor, a julgar pela expresso do rosto, palavra essa que naturalmente teria ficado entre os dois como qualquer coisa inesquecvel. No pde concluir porque Natacha, plida e sria, aparecera no limiar da porta. Ouvira tudo.
     - Nikolenka, no digas tolices! Cala-te, cala-te! Peo que te cales!... - gritou quase, para abafar o rudo da voz do irmo. - Me, minha querida me, no  isso.., mezinha que- rida! - implorou da condessa, a qual,  beira de um rompimento definitivo com o filho, olhava para ele apavorada, embora sem querer nem poder ceder, obstinada que estava, merc da prpria luta.
     - Nikolenka, eu explico tudo, vai-te embora; e a me, oua, oua, querida mezinha.
     Estas palavras, sem qualquer sentido, deram o resultado desejado.
     A condessa, soluando, escondeu o rosto no colo da filha, enquanto Nicolau se levantava, de cabea entre as mos, e saa da sala.
     Natacha, prosseguindo na sua obra de reconciliao, conseguiu que a me prometesse a Nicolau deixar Snia em paz desde que ele se comprometesse a no tomar qualquer atitude sem o conhecimento dos pais.
     Na firme inteno de abandonar a vida militar uma vez tudo em ordem no seu regimento, para, de regresso a casa, desposar Snia. Nicolau, triste e apoquentado com a ideia do seu desacordo com, os pais, embora, segundo supunha, apaixonadssimo, abalou para a tropa no princpio de Janeiro.
     Depois da partida de Nicolau a casa de Rostov ficou mais triste do que nunca. A condessa, abalada por tantas comoes, caiu de cama.
     Se a ausncia de Nicolau era um motivo de sofrimento para Snia, tambm sofria, e muito mais, com os modos hostis que a condessa no podia esconder para com ela. Grande era o embarao do conde, preocupado com o mau aspecto da sua situao financeira, a pedir enrgicas medidas. Tornava-se inadivel vender a casa de Moscovo e a propriedade nas imediaes da capital. Para isso tinha de deslocar-se quela cidade, mas o estado de sade da condessa obrigava-o a adiar consecutivamente a viagem.
     Natacha, que principiara por aceitar sem dificuldade e at com alegria a separao do noivo, tornava-se agora de dia para dia mais nervosa e impaciente. A ideia de que o tempo ia passando desperdiado, quando ela o teria sabido aproveitar to bem com a sua mocidade, tornara-se-lhe um tormento de todos os instantes. A maior parte das vezes as cartas de Andr irritavam-na. Ofendia-a pensar que enquanto ela levava o tempo a lembrar-se dele, por seu lado, ele, numa vida perfeitamente normal, via novas terras e conhecia novas gentes que o interessavam. Quanto mais pormenorizadas e cativantes as suas cartas mais ela se sentia despeitada. Ao escrever-lhe, no o fazia com prazer, era como se cumprisse uma obrigao, obrigao que lhe soava a falso. No encontrava que dizer-lhe, pois era-lhe impossvel exprimir por palavras a milsima parte do que estava habituada a dizer de viva voz, com o sorriso, com o olhar. As cartas que lhe escrevia eram montonas, secas, cartas clssicas, a que ela prpria no atribua a mnima importncia, e cuja ortografia a me se encarregava de corrigir ainda no rascunho.
     A condessa continuava a gozar de pouca sade. A viagem a Moscovo ia sendo adiada. No entanto era preciso mandar fazer o enxoval e vender a casa, alm de que o prncipe Andr devia ir  capital, onde o prncipe Nicolau Andreivitch passava o Inverno. Natacha estava at convencida de que ele j estaria em Moscovo. Eis porque a condessa ficou na aldeia e o conde, acompanhado de Snia e Natacha, partiu para a cidade no fim de Janeiro.







QUINTA PARTE
     

     
     
     
     Captulo I
     
     Depois dos esponsais do prncipe Andr e de Natacha. Pedro, sem qualquer causa aparente, sentiu de sbito ser-lhe impossvel continuar a vida que levava. Apesar da sua firme convico nas verdades que lhe havia revelado o Benfeitor e da alegria que lhe provocava o trabalho de regenerao interior a que se entregara com tanto entusiasmo, depois do noivado do prncipe Andr, e sobretudo depois da morte de Osip Alexeievitch, de que tivera conhecimento quase na mesma altura, a vida para ele perdera por completo todo o seu encanto. Nada mais lhe ficou, por assim dizer, que o esqueleto da vida: a casa, a mulher, cada vez mais esplendorosa e gozando ento das boas graas de uma personagem muito importante, as suas relaes mundanas com todo Petersburgo e as funes que desempenhava, com o seu cortejo de indigestas formalidades. A vida que levava inspirou-lhe de sbito profundo horror. Deixou de escrever o dirio, evitou a companhia dos irmos maes, principiou a frequentar de novo o clube, voltou a beber, e muito, e passou a acamaradar outra vez com o grupo dos celibatrios. A vida a que se entregou era de tal ordem que a condessa Helena Vassilievna se sentiu na obrigao de o repreender severamente. Pedro achou que ela tinha razo e abalou para Moscovo, disposto a no comprometer mais a mulher.
     Quando entrou no seu imenso palcio, com as princesas, que mais pareciam mmias, e os seus numerosos criados, quando viu, ao atravessar a cidade, a capela da Virgem 1verskaia, com os seus inumerveis crios acesos diante de cones de molduras douradas, e ps os olhos na Praa do Kremlin, com a sua neve quase imaculada, quando tomou a ver os cocheiros e as vetustas casas de Sivtsev Vrajek (Uma rua de Moscovo. (N, dos T.), os velhos moscovitas, que nada desejavam e l iam acabando tranquilamente os seus dias, as senhoras, os bailes e o clube ingls, foi como se se sentisse em sua prpria casa, num verdadeiro porto de abrigo. Moscovo era para ele como um velho roupo, confortvel, quentinho, a que estivesse habituado, embora um tanto sujo.
     Toda a sociedade moscovita, a principiar nos velhos e a acabar nos mais novos, acolheu Pedro como um hspede de h muito esperado, cujo lugar estivera devoluto sempre preparado para o receber. O conde era para essa gente o mais encantador, o melhor, o mais inteligente, o mais alegre, o mais generoso dos originais, o tipo por excelncia do fidalgo russo  moda antiga, distrado e generoso. De to abertas para todos, andava sempre de algibeiras vazias. Estava sempre pronto a auxiliar espectculos de caridade, a adquirir quadros e esttuas sem mrito, a ajudar sociedades de beneficncia, ciganas, escolas, subscries para jantares, orgias, irmos manicos, colectas de igreja, publicaes de obras, e, se no fossem dois ou trs amigos que lhe pediam emprestadas grossas maquias e o haviam posto praticamente sob tutela, acabaria por distribuir tudo quanto tinha. No clube no havia jantar ou recepo a que ele no comparecesse. Assim que se afundava no seu lugar habitual no div, aps ter ingerido duas ou trs garrafas Chteau-Margaux, formava-se uma roda em tomo dele e principiavam as discusses, as pilhrias, as anedotas. Se algum se irritava. Pedro, com o seu bom sorriso e uma palavra cordata dita a tempo, restabelecia a boa disposio. As lojas manicas, se ele no estava, eram enfadonhas e tristes.
     Quando, depois de uma ceia de solteires, acedendo ao desejo dos convivas joviais. Pedro se levantava, com o seu bom e doce sorriso, disposto a acompanh-los, gritos de vitria e satisfao prorrompiam de entre os mais jovens. Nos bailes, se faltava um par, l estava ele para danar. Agradava s senhoras e s meninas, visto que, sem cortejar nenhuma, se mostrava indistintamente amvel com todas, sobretudo depois da ceia.  encantador, no tem sexo, diziam dele.
     Pedro fazia parte do nmero desses camaristas na inactividade, s centenas em Moscovo, que terminam os seus dias na maior tranquilidade.
     Grande indignao teria sido a sua, se sete anos antes, ao desembarcar, de regresso do estrangeiro, algum lhe houvesse dito que nada tinha nem a procurar nem a imaginar, pois o seu caminho de h muito estava traado para sempre e que fizesse ele o que fizesse viria a ser o que haviam sido todos os outros na mesma situao do que ele! Pois no desejara, de todo o seu corao, implantar a repblica na Rssia ou ser um Napoleo ou um filsofo, ou o estratego que venceria o imperador? No fora ele quem julgara possvel a regenerao do gnero humano e apaixonadamente a desejava, contando chegar ao mais alto grau de aperfeioamento moral? No fora ele quem fundara escolas e hospitais e dera liberdade aos seus servos?
     E em vez de tudo isso, que era ele afinal? O marido rico de uma mulher infiel, um camarista reformado, o bom copo e o bom garfo que,  vontade depois de um bom jantar, se pe comedidamente a criticar o governo. E ali estava o membro do clube ingls de Moscovo e ai-jesus da sociedade moscovita. Durante muito tempo custou-lhe a acreditar que era isso mesmo, o tipo do camarista moscovita na inactividade, essa personagem a quem to profundamente desprezava sete anos antes.
     Por vezes consolava-se dizendo ser apenas momentnea a vida que levava, mas logo o aterrorizava a ideia de que muitos como ele tambm se haviam dado momentaneamente a tal vida, quela existncia de clube ainda com todos os cabelos na cabea e todos os dentes na boca, tendo chegado ao fim carecas e desdentados.
     Nas suas horas de orgulho, quando se punha a reflectir no que era, dizia de si para consigo no se parecer em coisa alguma com esses tais camaristas a quem outrora desprezara, com essas criaturas vulgares e estpidas, contentes e satisfeitas consigo prprias. Eu, pelo contrrio, actualmente, no me sinto satisfeito com coisa alguma, continuo a desejar fazer seja o que for para bem da humanidade, pensava ento. Mas, quem sabe? Tambm eles, actualmente meus companheiros, se atormentaram assim, procurando como eu um novo caminho na vida e, tal como eu, vtimas da fora das circunstncias, do meio, do nascimento, escravos desta tirania dos elementos contra a qual o homem nada pode, todos eles se viram arrastados para a situao em que eu prprio estou, dizia de si para consigo nas horas de modstia. E ei-lo que depois de alguns meses de Moscovo, em vez de os desprezar, pusera-se a am-los, a estim-los e a lament-los, como se eles fossem ele prprio, esses seus pobres companheiros de infortnio.
     J o no assaltavam, como antigamente, momentos de desespero, desgosto e hipocondria. A doena, que antes se lhe manifestava por violentos acessos, fora recalcada para o seu ntimo, sem por isso deixar de o atormentar. Para qu? Porqu? Que drama se representa no mundo?, perguntava-se a si prprio, angustiado, muitas vezes ao dia, procurando, debalde, compreender o sentido dos fenmenos da vida. Sabendo, porm, que as suas interrogaes ficariam sem resposta, dava-se pressa em desviar delas o pensamento. Pegava num livro, ia at ao clube ou punha-se a tagarelar com Apolo Nikolaievitch sobre os escndalos da cidade.
     Helena Vassilievna, que nunca amou nada alm do seu belo corpo e  uma das mais estpidas mulheres  face da Terra, repetia Pedro com os seus botes, aos olhos do mundo  como que o supra-sumo do esprito e da inteligncia, e toda a gente se prosterna diante dela. Napoleo Bonaparte, enquanto foi um grande homem todos os desprezaram, e agora, que no passa de um desprezvel comediante, at o imperador Francisco lhe oferece a filha por concubina. Os Espanhis rendem graas a Deus, por intermdio do clero catlico, por lhes haver concedido derrotarem os Franceses no dia 14 de Junho e os Franceses fazem outro tanto, por intermdio do mesmo clero, por no mesmo dia 14 de Junho igualmente terem vencido os Espanhis (Aluso ao cerco do Convento de Santa Cruz, pelo marechal Ney, em Junho de 1810. (N, dos T.). Os meus irmos pedreiros-livres juram, pelo sangue das suas veias, estarem prontos a tudo sacrificar por amor do prximo, e no se dignam dar um rublo sequer no peditrio para os pobres. E intrigam, tomando o partido da Astreia contra o dos Buscadores do Man, prestando-se a todas as baixezas para conseguirem o verdadeiro tapete escocs e uma acta que ningum percebe, nem mesmo aquele que a redigiu, nada significando, nem tendo qualquer prstimo. Todos ns professamos a lei crist, que manda perdoar as injrias e amar o prximo, e em nome desta lei erigimos em Moscovo quarenta vezes quarenta igrejas (Antigo hbito eslavo de contar por quarenta. (N, dos T.), embora ainda ontem aoitssemos de morte um desgraado desertor a quem o ministro desta mesma lei de amor e perdo, o sacerdote, deu a cruz a beijar antes do suplcio. Assim meditava Pedro, e esta geral hipocrisia, aceita por todos, apesar do hbito que dela tinha, todos os dias o revoltava como se fosse um caso novo.
     Sinto-as, vejo-as por todo o lado, esta hipocrisia e esta cegueira, prosseguia ele ainda, mas onde arranjar palavras para explicar-lhes tudo quanto tenho a dizer-lhes? Sempre que o tentei, pude verificar que l no fundo eram todos da minha opinio, mas que se negavam a reconhecer o facto.  possvel que assim tenha de ser! Mas eu, que destino ser o meu?... Pedro gozava deste triste privilgio, frequente em muitos homens, mas especialmente nos Russos, graas ao qual, embora acreditem na verdade e no bem, com tanta clareza vem o mal e a mentira dos humanos que lhes faltam foras para os combater a fundo. A seus olhos, todos os domnios da actividade humana estavam imbudos do mal e da mentira. Fizesse o que fizesse, tentasse o que tentasse, sempre se sentia repelido por esta mentira perptua: todas as vias da actividade humana se lhe fechavam. E no entanto era preciso viver, algo tinha de fazer, apesar de tudo. Deixar-se esmagar sob o peso destes problemas insolveis, eis o que se lhe afigurava horrvel, e por isso mesmo, quanto mais no fosse para esquec-los, entregava-se ao que quer que houvesse a fazer. Frequentava todas as sociedades, bebia muito, coleccionava quadros, erigia castelos no ar e lia, lia principalmente.
     Lia, lia tudo o que lhe vinha  mo, e de tal maneira que at mesmo  noite, quando o criado o ajudava a despir, continuava a ler. Finda a leitura, vinha o sono, e, findo o sono, era a conversa dos sales e do clube, da conversa passando s orgias e s mulheres, e, das orgias, voltando outra vez  conversa,  leitura e ao vinho. Beber tornara-se para ele uma necessidade ao mesmo tempo fsica e moral. No obstante a opinio dos mdicos, que o advertiam de quanto o vinho lhe era prejudicial devido  sua corpulncia, continuava a beber furiosamente. No se sentia bem seno quando, quase inconsciente, depois de despejar uma boa dose de copos de vinho, sentia ento por todo o corpo uma agradvel sensao de calor, e todo ele era ternura para com o semelhante e tendncia para abordar todos os problemas sem ir ao fundo de nenhum.
     S depois de haver despejado uma ou duas garrafas percebia vagamente que aquele n to terrvel e complicado da existncia, n que o enchia de horror, era afinal menos medonho do que ele imaginava. Com a cabea a zumbir, falando, ouvindo as conversas alheias ou lendo aps as refeies, a seu lado l estava sempre aquele n que era preciso cortar. Apenas sob a aco do vinho, porm, dizia de si para consigo: No  nada. Hei-de desat-lo... Sim, tenho uma explicao ao meu alcance. Por agora falta-me tempo. Depois pensarei nisso. Este depois, contudo, nunca chegava.
     Pela manh, ainda em jejum, os mesmos problemas lhe apareciam to insolveis e terrveis como sempre, e ei-lo que se dava pressa, ento, de pegar num livro, e, se algum o vinha visitar, ficava encantado.
     s vezes lembrava-se de ter ouvido contar que os soldados na guerra, nas linhas avanadas, sob o fogo do inimigo, quando ociosos, procuravam uma ocupao qualquer para mais facilmente esquecerem o perigo. A seus olhos os homens sempre procediam como esses soldados, na esperana de se esquecerem da vida, e davam-se  ambio, ao jogo, elaboravam leis, entretinham-se com mulheres, divertiam-se, criavam cavalos, dedicavam-se  poltica, ou  caa, ou ao vinho, ou aos negcios pblicos. <Em concluso, nada h desprezvel, nada h importante, tudo  indiferente, pensava Pedro, desde que uma pessoa saiba subtrair-se a essa, realidade da vida, desde que uma pessoa se no veja frente a frente com a vida, esta terrvel vida!
     

     
     
     
     Captulo II
     
     No princpio do Inverno o prncipe Nicolau Andreievitch Bolkonski veio instalar-se com a filha em Moscovo. Graas ao seu passado,  sua inteligncia e  sua originalidade, merc sobretudo de um amortecimento, naquela altura, do entusiasmo que o reinado do imperador Alexandre provocou e tambm do renascimento dos sentimentos antifranceses e patriticos que ento reinava nos espritos, logo ele se tomou para os Moscovitas o objecto de um respeito muito particular e o fulcro da oposio ao Governo.
     O prncipe envelhecera muito naquele ano. J dava indiscutveis indcios de senilidade: ficava-se a dormir intempestivamente, esquecia acontecimentos recentssimos, recordando-se, em compensao, dos factos mais remotos e aceitava com uma infantil vaidade o papel de chefe da oposio moscovita. Apesar disto, quando, especialmente nas recepes, aparecia  hora do ch, de pelia curta e cabeleira empoada, e algum o provocava, dando-se a contar, entrecortadamente, como sempre, anedotas de antanho, e formulando sobre o tempo presente juzos incisivos, em geral o sentimento de respeito que ento provocava entre os seus convidados aquele velho palcio, com os seus grandes trems, o seu mobilirio anterior  Revoluo, os seus lacaios de cabeleira empoada e aquele velho do sculo passado, de modos bruscos mas inteligente, com uma filha tmida e uma francesa bonita, que o veneravam, representava para as visitas um espectculo cheio de encanto. O que todos ignoravam, porm,  que, para alm das duas ou trs horas em que viam os donos da casa, havia vinte e duas de uma vida ntima e secreta. Nos ltimos tempos, em Moscovo essa vida tornara-se extremamente penosa para a princesa Maria. Faltavam-lhe as suas maiores alegrias: as longas conversas com os Homens de Deus e a solido que em Lissia Gori a reconfortava de todos os seus desgostos. E em contrapartida no lhe era dado gozar de qualquer das vantagens e distraces da vida da capital. No frequentava a sociedade; toda a gente sabia que o pai a no deixava sair sozinha e que ele, em virtude da precria sade, a no podia acompanhar. Bis porque a no convidavam para jantares ou recepes. Perdera toda a esperana de casar. A frieza e o azedume com que o pai desde logo acolhia, para depois afastar, todos os rapazes em situao de a pedirem em casamento que porventura se atreviam a frequentar-lhe a casa eram do conhecimento pblico. To-pouco tinha amigas. Desde que chegara a Moscovo perdera todas as iluses sobre a conduta de duas pessoas a quem consagrara uma grande afeio. Mademoiselle Bourienne, com quem j no podia ser inteiramente franca, era-lhe agora abertamente desagradvel, e Maria tinha razes para a manter afastada. Jlia, que vivia em Moscovo, e com quem se carteara cinco anos, tornara-se-lhe uma estranha mal tivera oportunidade de privar directamente com ela. Esta sua amiga, que depois da morte dos irmos se convertera numa das mais ricas herdeiras de Moscovo, dera-se de corpo e alma ao turbilho dos prazeres mundanos. Andava sempre rodeada de uma chusma de rapazes que, assim ela pensava, de um momento para o outro se tinham posto a apreciar-lhe os mritos. Chegara quele perodo da vida das meninas de sociedade j maduras em que estas sentem ser o momento de aproveitar a ltima oportunidade, caso contrrio nunca mais encontraro marido. A princesa Maria, com um melanclico sorriso, todas as quintas-feiras se lembrava de que j a ningum tinha que escrever, visto Jlia, essa Jlia cuja presena lhe no dava j qualquer alegria, viver a dois passos e todas as semanas se encontrarem. Tal qual esse velho emigrado que no quisera casar com a senhora em casa de quem passara todos os seus seres durante anos, ei-la que lamentava agora estar Jlia to perto dela, privando-a assim de lhe escrever. Em Moscovo ningum mais tinha com quem falar e a quem confiar as suas tristezas, e agora muitas preocupaes novas a torturavam. A data do regresso do prncipe Andr aproximava-se e o seu casamento tambm, e o certo  que ela no s se no desempenhara da misso de que ele a encarregara junto do pai, preparando-o para isso, como essa misso se lhe afigurava intil: bastava ouvir o nome dos Rostov para o velho prncipe perder as estribeiras; alis estava sempre de m catadura. As demais preocupaes que a afligiam viera juntar-se nestes ltimos tempos as das lies que dava ao sobrinho, de seis anos. Verificara com terror no decurso destas lies dar mostras de uma irritabilidade muito semelhante  do seu velho pai. Por mais que a si prpria dissesse que no devia exasperar-se, sempre que pegava no alfabeto francs para dar lio ao sobrinho, to apressada se mostrava em inici-lo em tudo que ela prpria sabia que  mais pequena desateno da criana, de antemo receosa de encolerizar a tia, ficava nervosa, impacientava-se, exaltava-se, levantava a voz, chegando a dar-lhe belisces e a mand-la de castigo para o canto da casa. Depois de a castigar, chorava, acusando-se a si prpria de ser m, e Nikoluchka, choroso tambm, l vinha do seu canto, sem autorizao, e aproximando-se da tia, num gesto carinhoso, puxava-lhe as mos da cara hmida de lgrimas, consolando-a. O que mais a afligia no entanto era o carcter irascvel do pai, que a tomara de ponta e cada vez estava mais duro para com ela. Se ele se lembrasse de a mandar passar a noite de joelhos, se lhe batesse, se a obrigasse a acarretar lenha ou gua, nunca lhe teria passado pela cabea considerar isto qualquer coisa de penoso; mas aquele verdugo, cruel sobretudo por muito lhe querer, e essa era a razo por que a atormentava a ela e se atormentava a si prprio, de propsito, no s a ofendia e humilhava, mas a todo o momento lhe queria mostrar como em tudo e por tudo procedia mal. Nos ltimos tempos um facto novo surgira que ainda mais penalizara a princesa Maria: as atenes que ele tributava a Mademoiselle Bourienne. Desde que soubera da inclinao do filho, metera-se-lhe na cabea a tola mania de casar com Mademoiselle Bourienne caso Andr teimasse na sua ideia. Parecia sorrir-lhe esta perspectiva e naqueles ltimos tempos, apenas para a humilhar - assim pensava Maria - dava-se ao capricho de se mostrar particularmente atencioso para com a francesa e irritado para com a filha, como se estivesse enamorado daquela.
     Um dia, em Moscovo, diante de Maria, que bem vira t-lo ele feito de propsito, o velho prncipe beijou a mo de Mademoiselle Bourienne, e, puxando-a para si, abraou-a com certa intimidade. A princesa Maria, muito corada, saiu da sala. Da a pouco. Mademoiselle Bourienne veio ter com ela, muito sorridente, e ps-se a contar-lhe qualquer coisa alegre com voz insinuante. Maria enxugou as lgrimas que lhe humedeciam o rosto, aproximou-se dela em passo resoluto e sem se dar conta do que fazia, num acesso de clera, gritou-lhe:  feio,  baixo,  inumano tirar partido da fraqueza...  E sem concluir a frase: Saia, saia daqui, acrescentou, j em soluos.
     No dia seguinte o prncipe no lhe dirigiu a palavra, e ao jantar Maria notou que ele dera ordem ao criado para servir Mademoiselle Bourienne em primeiro lugar. No fim da refeio, quando o lacaio, conforme o costume, servia o caf principiando pela princesa, o prncipe, num sbito ataque de ira, atirou a bengala  cabea do criado e imediatamente lhe deu ordem para que se alistasse como soldado.
     - No ouviste?... Disse-o duas vezes... No ouviste?  a primeira pessoa da casa.  a minha melhor amiga! - vociferou ele - E tu - acrescentou, iracundo, dirigindo-se  filha pela primeira vez desde a vspera -, se te atreveres, se ousares outra vez, como ontem.., esqueceres-te diante dela, eu te ensinarei quem  aqui o dono da casa. Fora, que eu te no volte a ver. Pede-lhe perdo.
     A princesa Maria pediu perdo a Mademoiselle Bourienne e ao pai, em seu nome e no do lacaio Filipe, que lhe rogara intercedesse por ele.
     Em tais momentos Maria sentia na alma um sentimento a que poderia dar-se o nome de orgulho do sacrifcio. Logo em seguida, porm, aquele pai, a quem ela censurava, punha-se  procura das lunetas, s apalpadelas, sem ver, esquecendo coisas que acabavam de suceder, ou as dbeis pernas lhe faziam dar um passo em falso, e ele voltava a cabea para ver se algum dera por isso ou, coisa bem pior ainda, quando no havia convidados ficava-se a dormir sentado  mesa, o guardanapo cado, enquanto a cabea trmula lhe pendia para o prato... To velho e fraco e eu atrevo-me a censur-lo!, pensava a princesa, horrorizada consigo prpria.
     

     
     
     
     Captulo III
     
     Em 1810 vivia em Moscovo um mdico francs que gozava de grande voga. Era alto, elegante, amvel, como todos os franceses e, segundo se dizia em Moscovo, de extraordinrio talento. Chamava-se Mtivier. Na alta sociedade recebiam-no mais como amigo que propriamente como mdico.
     O prncipe Nicolau Andreievitch, que ria da medicina, aconselhado por Mademoiselle Bourienne, chamara-o nesses ltimos tempos e acostumara-se a ele. Mtivier visitava o prncipe duas vezes por semana.
     No dia de S. Nicolau, festa onomstica do velho, todo Moscovo se apresentou em sua casa, mas ele deu ordem para no, receberem ningum, salvo as pessoas ntimas, cuja lista confiara a Maria e a quem esta convidou para jantar.
     Mtivier, que viera pela manh apresentar as suas felicitaes, julgou conveniente, na sua qualidade de mdico, forar as ordens dadas, segundo disse  princesa Maria, e entrou para ver o prncipe. Aconteceu precisamente que nessa manh o velho prncipe se achava num dos seus dias de m disposio. Comeara o dia de um lado para o outro repreendendo toda a gente e fingindo no perceber o que lhe diziam e no ser compreendido pelos outros. Por de mais conhecia Maria este estado de esprito em que o pai se mostrava de uma irascibilidade concentrada e aparentemente serena, e que, geralmente, terminava num ataque de fria. Toda a manh se sentira por isso como diante do cano de uma espingarda carregada, sempre  espera do tiro inevitvel. Tudo correra bem at ao momento da chegada do mdico. Depois de o ter acompanhado, foi sentar-se, com um livro, no salo, junto da porta donde poderia ouvir o que se passava no gabinete.
     De princpio apenas lhe chegou aos ouvidos a voz de Mtivier, depois ouviu a voz do pai e por fim as de ambos, que falavam ao mesmo tempo. Subitamente a porta abriu-se de par em par, surgindo no limiar a alta estatura do mdico, com a sua carapinha preta e a cara espantada, e logo atrs o prncipe, de barrete de dormir e roupo, a mscara descomposta e os olhos fora das rbitas.
     - No compreendes? - gritava-lhe ele, - Mas eu compreendo perfeitamente! Espio francs, lacaio de Bonaparte, espio, fora daqui! Fora daqui, fora daqui!... - E fechou-lhe a porta nas costas. Mtivier, encolhendo os ombros, aproximou-se de Mademoiselle Bourienne, que acorrera, vinda da sala contgua, ao ouvir a gritaria.
     - O prncipe no est muito bem de sade. Est bilioso e delira. Mas sosseguem, ou volto amanh - disse, pondo um dedo nos lbios, a pedir silncio, saindo apressadamente.
     Por detrs da porta ouviram-se os chinelos de quarto do prncipe e exclamaes: Espies! Traidores! Traidores por toda a parte! J no 1)ode uma pessoa estar sossegada em sua casa!
     Depois da sada de Mtivier, o velho prncipe chamou a filha e sobre ela despejou toda a sua indignao. Era Maria quem tinha a culpa de aquele espio haver entrado em sua casa. Pois no fizera ele uma lista e no dera ordem para no deixarem entrar quem nela no figurasse? Porque tinham ento aberto a porta quele miservel? A culpa era dela. Por sua causa no podia ter um minuto de repouso, no podia morrer tranquilo - disse-lhe ele.
     - Sim, minha menina, temos de nos separar, temos de nos separar! Fica sabendo, sim, fica sabendo! J no posso mais - prosseguiu ele, dando um passo para a porta. E receoso, naturalmente, de que ela no tomasse a srio as suas palavras, voltou atrs e acrescentou, procurando manter a serenidade: - E no julgues que te digo isto num momento de exaltao. Estou sereno, tenho pensado muito e a minha ltima palavra  esta: separemo-nos. Arranje onde ficar!... - No se conteve todavia por muito tempo e numa exaltao, s possvel talvez no homem que muito ama, ergueu os punhos ameaadores para a filha, ele prprio presa de um grande sofrimento, gritando:
     - Ainda se houvesse um imbecil que casasse com ela! - Em seguida bateu com a porta, mandou chamar Mademoiselle Bourienne ao seu gabinete e sossegou.
     As duas horas chegaram as seis pessoas convidadas para jantar: o clebre conde Rostoptchirie, o prncipe Lopukhine, com o sobrinho, o general Tchatrov, velho camarada do prncipe, e, entre os jovens, Pedro e Bris Drubetskoi. Todos o aguardaram no salo.
     Bris, havia pouco chegado a Moscovo em gozo de licena, desejara ser apresentado ao prncipe Nicolau Andreievitch e to bem soubera conquistar-lhe as graas que este abrira uma excepo a seu favor, visto no receber jovens solteiros.
     O palcio do prncipe no estava classificado entre as casas consideradas da sociedade: frequentava-o uma pequena roda, de que pouco se falava; contudo ser nele admitido constitua uma honra. Eis o que Bris pudera perceber oito dias antes, quando, na sua presena, o conde Rostoptchine respondera ao general-governador, que o convidava para o jantar no dia de S. Nicolau, no poder aceitar o convite:
     - Nesse dia vou, sempre venerar as relquias do prncipe Nicolau Andreievitch.
     - Ah, sim,  verdade - respondera o general - E ele como vai?
     O pequeno grupo reunido antes do jantar no salo  moda antiga, com o seu velho mobilirio, dava a impresso de um conselho solene de juizes convocado para tomar uma deliberao. Mantinha-se calado, e quando algum falava era em voz baixa.
     O prncipe Nicolau Andreievitch estava grave e silencioso. A princesa Maria parecia mais tmida e doce do que nunca. Raramente os convidados lhe dirigiam a palavra, certos de que lhe no interessava o que estavam dizendo. Quem conduzia a conversa era o conde Rostoptchine, que falava dos ltimos acontecimentos polticos e das novidades da capital. Tanto Lopukhine como o velho general poucas vezes abriram a boca.
     O prncipe Nicolau Andreievitch ouvia, como um juiz supremo ouve a informao que lhe prestam, limitando-se a mostrar com o silncio ou algumas breves palavras tomar nota do que lhe diziam. Tal era o tom da conversa, que logo se percebia ningum aprovar o que estava acontecendo nos meios polticos.
     O que se dizia dos acontecimentos confirmava plenamente irem as coisas de mal a pior. No entanto, algo era de notar no que cada um dizia ou no que cada um opinava: que o narrador se interrompia ou se via interrompido sempre que se aproximava daquele ponto em que a personalidade do imperador poderia estar em causa.
     Durante o jantar falou-se das ltimas novidades polticas: da ocupao pelo imperador dos Franceses do gro-ducado de Oldemburgo e da nota russa, muito hostil  Frana, endereada a todas as cortes da Europa.
     - Bonaparte procede para com a Europa como um pirata na ponte de um navio conquistado - disse o conde Rostoptchine, repetindo uma frase que lhe andava na boca de h tempo quela parte. - O que me surpreende  a apatia ou a cegueira dos reis. Agora  o papa quem est em jogo, e Bonaparte, que perdeu a vergonha, parece disposto a derrubar o chefe supremo da Igreja, e toda a gente fica calada! S o nosso imperador protestou contra a ocupao do gro-ducado de Oldemburgo. E ainda isso... Rostoptchine calou-se, sentindo que chegara ao extremo limite onde todos os juzos eram suspensos.
     - Ofereceram-lhe outras possesses em troca do ducado de Oldemburgo - interveio o prncipe Nicolau Andreievitch. - Procede para com os duques como eu para com os meus mujiques quando transportei os meus camponeses de Lissia Gori para Bogutcharovo e os meus domnios de Riazan.
     - O duque de Oldemburgo enfrenta a desgraa com uma fora de nimo e uma resignao admirveis - disse Bris, tomando parte na conversa em tom respeitoso.
     Falava desta maneira porque no momento de deixar Petersburgo tivera a honra de ser apresentado ao duque. Nicolau Andreievitch fitou o mancebo como se fosse sua inteno responder-lhe, mudando de parecer por julg-lo, talvez, novo de mais.
     - Li o nosso protesto a propsito deste caso e fiquei surpreendido com a deplorvel redaco dessa nota - comentou Rostopchine, no tom indiferente de quem fala dum assunto muito do seu conhecimento.
     Pedro olhou para ele com uma surpresa ingnua, sem compreender porque o preocupava tanto aquela m redaco.
     - O estilo que importa, conde - observou ele -, desde que o fundo seja enrgico?
     - Parece-me, meu caro, que os nossos quinhentos mil homens nas fileiras deveriam inspirar-nos um bom estilo - disse Rostoptchine.
     Pedro compreendeu ento porque o inquietava, ao conde, a redaco da nota.
     - Parece-me que escribas no faltam agora - voltou o velho prncipe. - L em Petersburgo no fazem seno escrever, e no apenas notas, volumes inteiros cheios de novas leis. O meu Andriucha, s  sua parte, comps um livro de leis para a Rssia. Hoje em dia passa-se a vida a escrever! - acrescentou, com um sorriso forado.
     A conversa cessou por um momento. O velho general chamou a ateno, tossicando.
     - Ouviram falar do que aconteceu na parada de Petersburgo? Aquele comportamento do novo embaixador de Frana!
     - Ah, sim, contaram-me: deu uma resposta inconveniente a Sua Majestade.
     - Sua Majestade chamara-lhe a ateno para a diviso de granadeiros e o seu desfile em passo de parada - prosseguiu o general - e, ao que parece, o embaixador no s lhe no prestou a mnima ateno como se permitiu mesmo dizer-lhe que no seu pas, em Frana, ningum se preocupava com bagatelas daquela espcie. O imperador no se dignou responder e na parada seguinte, segundo se diz, nem uma s vez lhe dirigiu a palavra.
     Toda a gente se conservou calada. Como o facto se referia ao imperador, no era possvel fazer qualquer comentrio. 
     - Insolentes! - exclamou o prncipe. - Conhecem o Mtivier? Pu-lo na rua esta manh. Apareceu a, deixaram-no entrar, embora eu tivesse dado ordens para no permitirem a entrada fosse a quem fosse - acrescentou, lanando um olhar irritado  filha. E ps-se a contar o que se passara entre ele e o francs, e as razes que o levavam a acreditar tratar-se de um espio. Embora as suas razes fossem praticamente improcedentes e muito pouco claras, ningum fez qualquer objeco.
     Depois do assado foi servido o champanhe. Os convidados ergueram-se para felicitar o velho prncipe. Maria tambm se aproximou.
     O prncipe olhou-a com frialdade e dureza enquanto lhe oferecia a rugosa cara barbeada de fresco. Maria compreendeu que a conversa dessa manh no estava esquecida e que a resoluo do pai se mantinha inabalvel; s a presena dos convidados o retinha.
     Quando passaram ao salo para tomar o caf, os velhos sentaram-se todos juntos.
     O prncipe Nicolau Andreievitch animou-se um pouco mais e exps o que pensava a respeito da guerra futura.
     Disse que as guerras com Bonaparte no teriam xito enquanto os Russos se obstinassem em procurar aliar-se aos Alemes e interviessem nos assuntos europeus, e a isso se viam arrastados pela paz de Tilsitt. - Os Russos no deviam intervir nem contra a ustria nem a seu favor. A nossa poltica est toda no Oriente, e, no que diz respeito a Bonaparte, s temos uma coisa a fazer: armar a nossa fronteira e mostrarmo-nos firmes. Eis a maneira de ele nunca mais transpor a nossa fronteira, como aconteceu em 1807.
     - E como poderamos lutar contra os Franceses, prncipe? - interrogou ento o conde Rostoptchine - Poderemos acaso armar-nos contra nossos amos e deuses? Ponde os olhos na nossa juventude, olhai para as senhoras da nossa sociedade. Os nossos deuses so os Franceses, o nosso den  Paris - prosseguiu mais alto, naturalmente para que todos o ouvissem - Modas francesas, ideias francesas, sentimentos franceses, tudo  francs! Ps na rua o Mtivier, por ser francs e canalha, mas as nossas belas damas rojam-se-lhe aos ps. Ainda ontem estive numa recepo: das cinco senhoras presentes, trs eram catlicas e bordavam ao domingo, com autorizao especial do papa. Pois estavam quase nuas como se fossem tabuletas de um balnerio, com sua licena. Ah!, prncipe, quando ponho os olhos na nossa juventude, vm-me ganas de ir buscar o basto de Pedro, o Grande, ao museu e de lhe dar uma sova  russa. Talvez assim lhe passasse a maluqueira! - Fez-se silncio. O velho prncipe olhava Rostoptchine, aprovando com a cabea, o rosto iluminado por um sorriso.
     - Bom, adeus, excelncia. Muita sade! - acrescentou Rostoptchine, erguendo-se e estendendo a mo ao prncipe, com a brusquido que lhe era peculiar.
     - Adeus, meu caro. E o teu gussli (Espcie de saltrio. (N, dos T.)? Sempre gostei muito de o ouvir - disse o velho prncipe, retendo entre as suas as mos de Rostoptchine, enquanto lhe dava a cara a beijar. Seguindo o exemplo de Rostoptchine, os demais ergueram-se tambm.
     

     
     
     
     Captulo IV
     
     A princesa Maria, que assistira  cavaqueira dos velhos, nada compreendera do que eles disseram. S tinha uma preocupao: que os convidados no percebessem o seu desacordo com o pai. No reparara sequer nas atenes e amabilidades que Drubetskoi lhe testemunhara durante todo o jantar. Era a terceira visita que lhe fazia. Com um olhar interrogador e distrado, a princesa dirigiu-se a Pedro, que, de chapu na mo e muito sorridente, se aproximou dela depois de o prncipe sair, quando ficaram ss no salo.
     - Posso ficar mais um bocadinho? - disse ele, deixando cair o corpanzil numa poltrona, junto da princesa.
     - Com certeza - volveu ela. Notou alguma coisa? lia-se-lhe no olhar.
     Pedro estava muito bem disposto, como era seu costume aps os repastos. Sorria docemente, olhando, vago, em tomo de si.
     - H muito tempo que conhece este rapaz, princesa? - perguntou.
     - Que rapaz?
     - Drubetskoi.
     - No, h pouco...
     - E gosta dele?
     - Gosto,  um rapaz agradvel... Porque mo pergunta? disse ela, sempre preocupada com a conversa que tivera com o pai nessa manh.
     - Porque observei uma coisa: no  natural que um rapaz venha de Petersburgo a Moscovo noutra inteno que no seja a de arranjar um casamento rico.
     - Notou isso? - volveu ela.
     - Notei - prosseguiu ele, sorrindo - e esse rapaz costuma aparecer sempre onde h herdeiras ricas. Leio-lhe na alma como num livro aberto. A esta hora est ele a perguntar a si mesmo por qual das duas deve principiar o ataque: por si ou pela Jlia Karaguine, junto de quem  muito assduo.
     - Costuma l ir?
     - Sim, muitas vezes. E sabe como  moda agora fazer a corte s senhoras? - disse ele, com um sorriso jovial, naturalmente num desses momentos de indulgente ironia de que no poucas vezes se lamentava no dirio.
     - No - tornou Maria.
     - Agora, para agradar s meninas casadouras de Moscovo,  preciso ser melanclico. E mostra-se muito melanclico junto de Mademoiselle Karaguine - disse Pedro.
     - Ah, sim? - tornou ela, fitando o bondoso rosto do moo, sem esquecer o seu desgosto: Seria um alvio para mim poder confiar as minhas preocupaes a algum, pensava ela. E o Pedro  a pessoa a quem eu gostaria de contar tudo. Tem to bom corao! E to nobre! Que bem me faria! Podia dar-me um conselho!
     - Era capaz de casar com ele? - perguntou Pedro.
     - Oh!, meu Deus, conde! H momentos em que casaria fosse com quem fosse - exclamou Maria, quase inconscientemente, com um soluo na garganta. - Oh!,  to triste gostarmos de algum e sentirmos que somos um motivo de desgosto para esse algum, sobretudo quando sabemos que  sem remdio - acrescentou em voz trmula. - S h uma soluo: afastarmo-nos. Mas eu, para onde hei-de eu ir?
     - Que tem? Que  isso, princesa?
     A princesa Maria rompeu num choro convulso.
     - No sei o que tenho hoje. No ligue importncia, esquea que acabo de lhe dizer.
     A alegria de Pedro desapareceu. Ps-se a interrogar carinhosamente a princesa, pediu-lhe que lhe contasse tudo, que lhe confiasse o seu desgosto. Ela, porm, limitou-se a pedir-lhe que esquecesse o que lhe dissera, que ela j de nada se lembrava, que no havia na sua vida outros desgostos alm daqueles que ele muito bem conhecia, visto o casamento de Andr pr em perigo as relaes do pai com o filho.
     - Tem tido notcias dos Rostov? - perguntou ela para mudar de conversa. - Disseram-me que esto para chegar em breve. Tambm espero o Andr de um dia para o outro. Muito gostaria que se encontrassem aqui.
     - Como encara ele actualmente o casamento? - perguntou Pedro, referindo-se ao velho prncipe.
     Maria abanou a cabea.
     - Que havemos ns de fazer? Poucos meses faltam j para terminar o prazo de um ano. E no pode ser. Desejaria poupar a meu irmo as primeiras horas do seu regresso. Seria melhor que eles chegassem primeiro. Gostaria de ter uma conversa com ela. J que os conhece to bem e h tanto tempo, diga-me, com a mo no corao, o que pensa de tudo isto: que espcie de pessoa  ela e qual a sua opinio a seu respeito? Peo-lhe que me fale com toda a franqueza. Casando contra vontade do pai, o Andr arrisca-se tanto que eu gostaria de ter a certeza...
     Um instinto obscuro fez saber a Pedro que por detrs destas instncias e destes reiterados pedidos da princesa Maria para lhe falar com toda a franqueza se escondia, da parte dela, uma certa m vontade para com a futura cunhada, e que era seu desejo que ele no aprovasse a escolha de Andr. Pedro, contudo, disse mais o que sentia do que o que pensava.
     - No sei como hei-de responder  sua pergunta - balbuciou, corando sem saber porqu. - No lhe posso dizer de maneira alguma que espcie de menina ela . No me  possvel analisar-lhe o carcter.  uma pessoa encantadora, mas porqu? No sei. E nada mais lhe sei dizer.
     A princesa Maria suspirou e no seu rosto lia-se: Sim, era isto mesmo que eu esperava e que tambm receava.
     -  inteligente? - perguntou ela.
     Pedro ficou um momento calado a reflectir.
     - Talvez no e talvez sim - redarguiu. - Ser inteligente nada lhe diz a ela... Basta-lhe ser encantadora, e  tudo.
     A princesa Maria voltou a abanar a cabea com uma expresso de quem desaprova.
     - Oh!, queria tanto gostar dela! Diga-lhe isso mesmo, se por acaso a vir antes de mim.
     - Ouvi dizer que est para chegar por estes dias - replicou ele.
     Maria exps a Pedro o seu projecto de a visitar, assim que a famlia chegasse a Moscovo, e a inteno em que estava de fazer tudo para que o velho prncipe a recebesse.
     

     
     
     
     Captulo V
     
     Bris, que perdera um rico casamento em Petersburgo, viera a Moscovo arranjar outro. Hesitava entre os dois partidos mais ricos da capital: Jlia e a princesa Maria. Apesar da sua fraca beleza, a princesa parecia-lhe, evidentemente, mais sedutora do que Jlia, mas a verdade  que de certo modo experimentava uma espcie de embarao na corte que lhe fazia. A ltima vez que a vira, no dia do aniversrio do velho prncipe, sempre que tentara declarar-se-lhe, ela respondera-lhe distraidamente, sem perceber, com efeito, o que ele pretendia dela.
     Jlia, pelo contrrio, embora de uma forma muito especial, e bem sua, aceitara com agrado os seus galanteios.
     Tinha ento Jlia perto de vinte e sete anos. Com a morte dos seus dois irmos ficara riqussima. J no era bonita. No entanto, no s se tinha na conta de muito bela, como se julgava ainda mais sedutora do que antigamente. O que lhe alimentava este erro era antes de mais nada o facto de ter passado a ser um riqussimo partido, e em segundo lugar o pensar que quanto mais envelhecia menos perigosa se tornava para os homens, que se achavam no direito de ter mais liberdades para com ela e, sem assumirem qualquer responsabilidade, beneficiarem dos seus jantares, das suas recepes e da agradvel sociedade que se reunia em sua casa. Aquele que, dez anos antes, tivesse evitado frequentar assiduamente o lar onde havia uma menina de dezassete primaveras, com receio de a comprometer ou de se comprometer, agora pouco se lhe daria apresentar-se todos os dias nos seus sales e de a tratar no como donzela casadoura, mas como algum de agradvel convvio cujo sexo pouco importa.
     Naquele Inverno o salo das Karaguine era considerado entre os mais brilhantes e hospitaleiros de Moscovo. No contando com as recepes e os jantares especiais, todos os dias se reunia em casa das Karaguine numerosa sociedade, principalmente masculina. Ceava-se por volta da meia-noite, e ali se ficava at cerca das trs horas da madrugada. Jlia no faltava a um baile, a um passeio, a um espectculo. Vestia  ltima moda. No entanto, cultivava o gnero de quem est desencantada de tudo: dizia a toda a gente no acreditar nem na amizade, nem no amor, nem em qualquer das alegrias da vida e no esperar sossego seno no alm. Adoptava o tom da mulher que passou por uma grande decepo, como se tivesse perdido um ser adorado ou houvesse sido cruelmente enganada. Embora nada disso lhe tivesse acontecido na vida, todos fingiam acredit-la, e o certo  que ela prpria acabara por convencer-se de que efectivamente sofrera grandes desgostos. Esta disposio melanclica, que a no impedia de se divertir, to-pouco impedia os rapazes que frequentavam a sua casa de passarem muito bem o seu tempo. Todos os seus convidados principiavam por pagar tributo  melancolia da dona da casa, para depois se darem com o maior entusiasmo  conversa mundana.  dana, aos jogos de salo e s frases rimadas, ento em moda na sua roda. S alguns rapazes, entre os quais Bris, acompanhavam mais de perto a melancolia de Jlia, e ela gostava de ter com eles colquios prolongados e solitrios sobre a vaidade das coisas deste mundo, e mostrava-lhes os seus lbuns, cheios de desenhos, de pensamentos e de poesias repassados da mais pungente tristeza.
     Jlia mostrava-se particularmente carinhosa com Bris: lamentava o seu prematuro desencanto da vida e prodigalizava-lhe as consolaes da amizade nas suas possibilidades, dela, que tanto sofrera j, devassando-lhe o seu lbum. Nele desenhara Bris duas rvores com esta legenda: Arbustos bravios, vossos ramos sombrios derramam trevas e melancolia.
     Noutra pgina desenhara um tmulo e escrevera:
     
     A morte  misericordiosa e apaziguadora 
     No h outro refgio contra a dor.
     
     - H algo to delicioso no sorriso da melancolia - dizia-lhe ela, repetindo, palavra a palavra, a frase que lera num livro. -  um raio de luz no meio das trevas, cambiante entre a dor e o desespero, que aponta a possvel consolao.
     E a isto respondera Bris com os seguintes versos:
     
     Venenoso alimento de uma alma sensvel. 
     Tu, sem quem a felicidade seria impossvel. 
     Terna melancolia, ah! vem consolar-me,
     Vem, serena os tormentos deste sombrio refgio 
     E mistura uma secreta doura
     As lgrimas que sinto correr.
     
     Jlia tocava na sua harpa os mais plangentes nocturnos para Bris ouvir, e ele, que lhe lia em voz alta a Pobre Lisa estrangulado pela emoo, via-se por vezes obrigado a interromper a leitura. Quando se encontravam na sociedade, seus olhares diziam um ao outro serem eles os nicos a quem era indiferente o que se passava  sua volta e que s eles se compreendiam.
     Ana Mikailovna, que vinha muitas vezes visitar as Karaguine, organizava partidas de cartas para a me de Jlia e ia-se informando do dote da filha: dote esse que consistia nas suas propriedades de Penza e em florestas em Nijni-Novgorod. Plenamente submissa  vontade da Providncia e sempre muito humilde, encarava com simpatia a dor etrea que uma a rica Jlia a seu filho.
     - Sempre encantadora e melanclica, esta querida Jlia. - dizia-lhe ela. - Bris tem-me dito que s nesta casa a sua alma tem descanso. Tem tido tantas decepes e  to sensvel! - acrescentava, para a me. - Oh!, meu querido, nem sabes como me tenho dedicado a Jlia nestes ltimos tempos! - comunicava ao filho. - E realmente quem no h-de gostar dela!  um anjo do Cu! Oh. Bris. Bris! E a pena que eu tenho da me dela! - prosseguia, aps uma curta pausa. - Ainda hoje me esteve a mostrar as cartas e as contas que lhe mandam de Penza, onde tm uma propriedade imensa. Pobre senhora, v-se obrigada a fazer tudo sozinha, e esto sempre a engan-la!
     Bris sorria imperceptivelmente ao ouvir a me. Esta ingnua astcia despertava nele um sorriso afvel, mas ouvia-a com ateno e s vezes fazia-lhe perguntas sobre as propriedades de Penza e de Nijni.
     Jlia esperava havia muito que o seu melanclico adorador se declarasse, disposta, est claro, a no o repelir. Mas uma repulsa secreta, sobretudo perante o violento desejo em que ela estava de arranjar um marido, a sua pouca naturalidade, o terror de ter de renunciar para sempre a um amor sincero, ainda detinham Bris. Aproximava-se o termo da licena que gozava. Levava dias inteiros em casa das Karaguine, mas todos os dias, reflectindo, adiava para o dia seguinte a declarao. Diante de Jlia, perante aquele seu rosto e aquele seu queixo j sarabulhentos e cobertos de p-de-arroz, diante daqueles seus olhos hmidos, daquela sua expresso pronta a passar da melancolia ao entusiasmo exaltado se algum se lembrasse de a pedir em casamento. Bris sentia-se incapaz de pronunciar as palavras decisivas, embora de h muito, em imaginao, se visse possui- dor dos seus imensos domnios e a empregar  larga os seus rendimentos. Jlia notava a indeciso de Bris, pensando s vezes que lhe no agradava, se bem que a sua vaidade feminina logo lhe viesse oferecer consolaes e ela se pusesse a dizer para si mesma que era o amor afinal que o tornava to tmido. No entanto, a melancolia de Jlia ameaava tornar-se exaspero e eis como pouco tempo antes do dia marcado para a partida de Bris ps em prtica um enrgico plano de campanha. Na altura em que ia terminar, porm, a licena do seu pretendente, chegava a Moscovo, e, como  natural, logo apareceu no seu salo. Anatole Kuraguine, e Jlia, dizendo adeus  melancolia, imediatamente se mostrou alegrssima, testemunhando ao recm-chegado a mais acentuada preferncia.
     - Meu caro - disse Ana Mikailovna ao filho - sei de fonte segura que o prncipe Baslio mandou o filho a Moscovo para o fazer casar com Jlia. Gosto muito dela e tenho pena que isso acontea. Que pensas tu?
     A ideia de passar por tolo e de haver desbaratado inutilmente todo aquele ms de gal melanclico junto de Jlia, vendo cair nas mos de outro todos os rendimentos de Penza e congneres, aos quais, em imaginao, j dera bom destino, e principalmente o saber que esse outro era o imbecil do Anatole, f-lo perder a cabea. Acorreu a casa das Karaguine decidido a declarar-se. Jlia recebeu-o sorridente e com um ar distrado, contando-lhe, negligente, quanto se divertira no baile da vspera e depois perguntou-lhe quando tencionava partir. Bris, que viera disposto a falar-lhe do seu amor e resolvido a mostrar-se carinhoso, no pde deixar de lamentar, em tom acerbo, a inconstncia das mulheres e a facilidade com que elas trocam a dor pela alegria, acrescentando que o seu estado de esprito s depende afinal daqueles que as cortejam. Jlia, ofendida, replicou-lhe que efectivamente tinha razo, que as mulheres apreciam a variedade e que nada  mais enfadonho para elas que a monotonia.
     - Por isso mesmo aconselho-a... - principiou Bris, procurando ferir Jlia. Nesse momento, contudo, lembrou-se da humilhao que seria para ele deixar Moscovo sem atingir o seu objectivo e perdidos todos os seus passos, coisa que jamais lhe acontecera.
     Calou-se no meio da frase, baixando os olhos para no ver a expresso irritada e resoluta que se pintara no rosto dela e disse-lhe:
     - No foi para me zangar consigo que aqui vim. Pelo contrrio...
     Fitou-a, a ver se devia prosseguir. Toda a irritao lhe desaparecera do rosto e os seus olhos implorativos e inquietos pousavam-se nele numa febril ansiedade. Hei-de arranjar maneira de v-la o menos que puder, dizia Bris de si para consigo. J que as coisas chegaram at aqui,  bom que tenham um fim. Corou muito, ergueu os olhos para ela e murmurou:
     - Bem sabe o que sinto por si 
     No precisava de dizer mais. Jlia resplandecia de contentamento e triunfo. Mas obrigou Bris a pronunciar as palavras que se dizem habitualmente em tais circunstncias: que a amava e que nunca pensara noutra mulher com aquele entusiasmo... Jlia sentia, em nome dos seus domnios de Penza e das suas florestas de Nijni, que tinha o direito de o exigir, e obteve o que tanto desejava.
     Os noivos, sem tornarem a falar das rvores que os cobriam de trevas e melancolia, fizeram os seus projectos para se instalarem num luxuoso palcio em Petersburgo, visitaram as pessoas conhecidas e consagraram-se aos preparativos do brilhante enlace.
     

     
     
     
     Captulo VI
     
     O conde Ilia Andreitch, em fins de Janeiro, chegou a Moscovo na companhia de Snia e Natacha. A condessa, sempre doente, no estava em condies de viajar e era impossvel permanecer na aldeia at ao seu restabelecimento. O prncipe Andr era esperado de um dia para o outro; alm disso havia que tratar do enxoval, vender a propriedade dos arredores de Moscovo e aproveitar a estada do velho prncipe na capital para lhe apresentar a futura nora. A residncia dos Rostov no estava aquecida, a famlia demorava-se pouco e a condessa no o acompanhava - eis as razes que levaram Ilia Andreitch a instalar-se em casa de Dmitrievna Akrossimova, que tantas vezes lhe oferecera a sua hospitalidade.
     J pela noite adiante, as quatro carruagens que conduziam os Rostov penetraram no ptio de Maria Dmitrievna, na Rua das Velhas Cavalarias. Esta senhora vivia sozinha. Casara a filha e todos os seus filhos estavam no exrcito. Conservava-se to direita como noutro tempo. Falava sem papas na lngua, dizia o que pensava com toda a franqueza e em voz alta e parecia censurar aos outros com toda a sua pessoa as fraquezas e paixes que no admitia. Levantava-se muito cedo e apenas com um penteador pelos ombros consagrava-se aos trabalhos caseiros e depois da igreja s compras. Assistia todos os domingos  missa e ia visitar os crceres, onde a levavam assuntos que a ningum comunicava. Nos dias de semana, assim que se arranjava, recebia visitantes de condies diversas, que diariamente lhe acorriam a casa, e depois jantava. Das refeies, suculentas e abundantes, compartilhavam sempre trs ou quatro convidados. Em seguida vinha a partida de boston. Ao sero tinha quem lhe lesse os jornais em voz alta e os livros novos enquanto tricotava. Raramente fazia visitas, e se se permitia qualquer excepo era apenas para ir a casa das pessoas mais importantes da cidade.
     Ainda no estava deitada quando os Rostov chegaram. Ouviu ranger os gonzos da porta do vestbulo, que se abrira para deixar entrar os viajantes e a sua gente e o frio que vinha l de fora. De lunetas acavaladas no nariz, a cabea repuxada para trs, l estava, de p, no limiar da porta da sua grande saia, olhando com o seu ar severo e furioso. Dir-se-ia irritada por v-los chegar e pronta a correr com eles, mas a verdade  que dera logo ordens para instalarem os viajantes e as bagagens.
     - So do conde? Tr-las para aqui - dizia ela, apontando para as malas, sem cumprimentar ningum. - So das meninas? Para ali, pela direita. Que esto vocs para a a fazer com tantas contumlias? - gritou para as criadas. - Tratem de acender o samovar! Engordaste, ests mais bonita! - exclamou, agarrando Natacha, muito vermelha do frio, pela ponta do capuz. - Oh, ests gelada! Trata de te despir imediatamente. Est gelada, palavra! - repetiu, ao ver O conde, que se dispunha a beijar-lhe a mo. - Dem-lhe rum com o ch! Soniuchka, bom dia - disse, por fim, dirigindo-se a Snia, pondo na saudao um matiz de -vontade afectuoso, como era seu costume quando falava com ela.
     Depois de mudarem de fato e de se haverem recomposto da fadiga da jornada, foram tomar ch, e Maria Dmitrievna a todos beijou, um por um.
     -  com a maior alegria que vos vejo hspedes da minha casa - disse ela. - Ah! J no era sem tempo! - acrescentou, piscando o olho, significativamente, para Natacha. - O velho est em Moscovo e o filho  esperado de um momento para o outro. Sim,  preciso,  preciso que o conheas. Bom, temos tempo de falar nisso - prosseguiu ela, relanceando um olhar a Snia que significava no desejar abordar o assunto diante dela. - E agora ouve - continuou, voltando-se para o conde. - Que pensas fazer amanh? Quem vais mandar vir? Chinchine? - perguntou, contando pelos dedos. - A chorona de Ana Mikailvona? - E dobrou outro dedo. - Est a com o filho. J sabes? O filho vai casar! Quem mais? Bezukov? Tambm a est com a mulher. Tinha-a posto com dono, mas ela tratou de lhe deitar a mo. Jantou aqui na tera-feira. E quanto a elas - apontou para as meninas - vo amanh comigo a Iverskaia e depois a Madame Aubert-Chalm (Senhora francesa que vendia artigos de perfumaria e vesturio, em Moscovo. (N, dos T.). No  verdade que querem tudo novo? No me vo imitar a mim. Agora as mangas usam-se assim... No outro dia a princesa Irene Vassilievna, a nova, veio visitar-me: era de meter medo! Parecia que tinha dois barris em cada brao. De resto, a esta hora j a moda  outra. Muda todos os dias. E tu, pessoalmente, que te traz por c? - perguntou ela ao conde, reassumindo a sua expresso severa.
     - Tudo se juntou ao mesmo tempo - replicou o conde. -  preciso tratar dos trapos e arranjar um comprador para a minha propriedade e para a casa de Moscovo. Se no fosse muita maada, aproveitava para ir a Marinskoie e deixar-lhe-ia as minhas garotas.
     - Pois sim. Na minha casa estaro seguras. Iro comigo aonde for preciso. Saberei ralhar com elas, mas tambm lhes saberei dar mimos - disse Maria Dmitrievna, acariciando com a sua manpula as facezinhas da afilhada e menina preferida que era Natacha.
     Na manh do dia seguinte. Maria Dmitrievna levou as meninas a Iverskaia e  loja de Madame Aubert-Chalm. Esta tanto medo tinha dela que lhe cedia sempre os tecidos pelo preo mais baixo, na esperana de a ver pelas costas o mais depressa possvel. Maria Dmitrievna encomendou-lhe a maior parte do enxoval. De regresso a casa despediu toda a gente menos Natacha, a quem mandou sentar numa poltrona a seu lado.
     - Pois bem, agora vamos conversar um bocadinho. Dou-te os meus parabns pelo noivo que arranjaste. Apanhaste um dos bons! Estou muito contente por ti. Conheci-o ainda ele era deste tamanho... - Pusera a mo espalmada a um archina do soalho. Natacha corara de satisfao. - Gosto muito dele e de toda a sua famlia. E agora, ouve. Como sabes, o velho prncipe Nicolau no gosta l muito que o filho se case. Que velho casmurro! Est claro que o prncipe Andr no  uma criana e dispensar o consentimento do pai. No entanto, a verdade  esta: no  bom uma pessoa entrar numa famlia contra vontade do chefe.  bem melhor conseguir a paz, fazer com que gostem de ns. No s tola, espero que te saibas sair bem. Procede com tacto e inteligncia e tudo acabar pelo melhor.
     Natacha conservava-se calada, por timidez, supunha Maria Dmitrievna; mas na realidade no estava contente que viessem imiscuir-se nos seus problemas sentimentais com o prncipe Andr. Eram to diferentes de todos os demais problemas humanos, que ningum, em sua opinio, poderia compreend-los. S o amava e conhecia a ele; ele tambm lhe queria e ia chegar de um momento para o outro e casar com ela. Nada mais era preciso.
     - Sabes? Conheo-o h muitos anos, a ele e  Machenka, de quem gosto muito tambm. Cunhadas so unhadas,  verdade, mas esta no  capaz de fazer mal a uma mosca. Pediu-me que te levasse a sua casa. Iro l amanh, tu e teu pai; s carinhosa com ela. s mais nova. Quando ele chegar j tu a conhecers e ters visto o pai e assim todos estaro a gostar de ti. No  verdade? No achas muito melhor assim?
     - Claro - respondeu Natacha, contrariada.
     

     
     
     
     Captulo VII
     
     No dia seguinte, de acordo com o conselho de Maria Dmitrievna, o conde Ilia Andreitch dirigiu-se com Natacha a casa do prncipe Nicolau Andreievitch. O conde no morria de amores por aquela visita: no fundo tinha medo da entrevista. Lembrava-se da ltima vez que vira o velho, na altura da formao da milcia, quando em resposta ao convite para jantar que lhe endereara fora mimoseado com uma srie de improprios por no ter fornecido o nmero de homens suficiente. Natacha, com o seu mais lindo vestido, estava, pelo contrrio, muito bem disposta.  impossvel que me no achem simptica5>, dizia de si para consigo. Toda a gente gosta de mim. Estou disposta a fazer por eles tudo o que quiserem, a gostar do velho, que  seu pai, e dela, que  sua irm. No posso compreender porque no ho-de gostar de mim!
     Tinham chegado  velha e sombria casa de Voztlvijenka e entraram para o vestbulo.
     - Bom, que Deus nos abenoe! - exclamou o conde, meio srio meio a rir. Natacha notou a agitao do pai ao entrar e que fora em voz baixa e tom humilde que perguntara se o prncipe e a princesa estavam em casa.
     Quando se soube quem eram os visitantes, houve grande rebulio entre a criadagem. O lacaio que fora anunci-los viu-se detido no salo por um dos seus camaradas e ambos se puseram a segredar qualquer coisa. Tambm apareceu uma criada de quarto que lhes disse, muito  pressa, algumas palavras sobre a ama. Finalmente surgiu um velho lacaio, de ar severo, que declarou aos Rostov que o prncipe no podia receb-los, mas que a princesa Maria pedia o favor de entrarem para os seus aposentos.
     Mademoiselle Bourienne foi a primeira a receber as visitas. Acompanhou-as com extrema cortesia, conduzindo-as junto da princesa. Esta, com o rosto transtornado e em pnico, as faces cobertas de placas vermelhas, veio ao encontro deles no seu andar pesado, tentando debalde aparentar expresso despreocupada e alegre. Natacha no lhe agradou logo ao primeiro golpe de vista. Pareceu-lhe demasiado elegante e de uma alegria frvola e vaidosa de mais. No se dava conta de que antes de ter posto os olhos na sua futura cunhada j estava mal disposta para com ela graas  inveja involuntria que lhe despertavam a sua beleza, a sua mocidade, a sua felicidade e o amor que lhe tinha o irmo. Alm disso, ainda estava perturbadssima com o incidente que acabava de se dar. O pai, quando lhe anunciaram as visitas, pusera-se a gritar no estar disposto a receb-las, que Maria o fizesse, se assim queria, mas que era escusado pensarem em conduzi-las  sua presena. A princesa decidira receb-las, mas receava que, de um momento para o outro, o pai fizesse algum escndalo, to excitado parecia.
     - Pois bem, minha querida princesa, aqui lhe trago a minha cantora - disse o conde, numa mesura, enquanto olhava para a direita e para a esquerda, sempre  espera, cheio de medo, de ver surgir o velho prncipe. - Gosto tanto que se conheam... Que pena, que pena o prncipe continuar adoentado. - Em seguida, aps mais alguns lugares-comuns, levantou-se. - Se me d licena, princesa, enquanto vou aqui ao lado,  Praa dos Ces, a casa de Ana Semionovna, deixo consigo a minha Natacha.  questo de um quarto de hora. Venho j busc-la.
     Ilia Andreitch inventara aquele estratagema diplomtico, assim o confessou  filha depois, para que as futuras cunhadas falassem com toda a franqueza e tambm para evitar encontrar-se com o prncipe, a quem tanto receava. Isto no o disse ele a Natacha, mas esta percebeu o terror e a inquietao do pai e no pde deixar de se sentir melindrada. Corou de vergonha por ele, e o ter corado ainda mais a irritou. O seu olhar ousado e provocante, que dizia no ter medo de pessoa alguma, fixou-se na princesa. Esta entretanto respondera ao conde ter o maior prazer e que s uma coisa lhe pedia, o demorar-se quanto mais melhor. E Ilia Andreitch desapareceu.
     Mademoiselle Bourienne, apesar dos olhares impacientes com que Maria a dardejava, ansiosa por ficar s com Natacha, no saa da sala e continuava a falar das diverses e dos teatros de Moscovo. Natacha sentia-se magoada ao mesmo tempo pela confuso que presenciara no vestbulo, pela apreenso do pai e pelo tom forado da princesa, que dir-se-ia fazer um grande favor em receb-la. Tudo isto lhe era muito desagradvel. No gostou da princesa Maria. Pareceu-lhe muito feia, afectada e seca. Sentiu de sbito crispar-se-lhe a alma e assumiu sem querer um ar de indiferena que ainda mais contribuiu para afastar de si a interlocutora. Cinco minutos depois de terem encetado uma conversa forada e penosa ouviram-se os passos rpidos de um homem arrastando chinelos de quarto. A princesa Maria ficou lvida. A porta abriu-se e entrou o prncipe, de roupo e gorro branco.
     - Oh!, menina  exclamou -, a senhora condessa.., a condessa Rostov, se no estou em erro... Queira desculpar. Mil perdes... No sabia, menina. Juro por Deus que ignorava que nos tivesse dado a honra de visitar-nos. Era no quarto de minha filha que eu julgava entrar.., vestido desta maneira. Queira desculpar... Juro por Deus que no sabia - repetiu, num tom to pouco natural, acentuando a palavra Deus, e to desagradvel, que a princesa Maria permaneceu calada, de olhos baixos, sem ter coragem de olhar o pai nem Natacha.
     Natacha, que se levantara, e depois voltara a sentar-se, tambm no sabia que fazer. S Mademoiselle Bourienne continuava a sorrir.
     - Queira desculpar, queira desculpar. Juro por Deus, no sabia - roncou o velho, que, depois de mirar Natacha dos ps  cabea, abalou dali.
     Mademoiselle Bourienne foi a primeira a recompor-se aps esta apario, pondo-se a falar da pouca sade do prncipe. Natacha e Maria olhavam uma para a outra sem dizer palavra e  medida que este exame mtuo se prolongava, sem que qualquer delas quisesse exprimir o que sentia, dir-se-ia ir crescendo a antipatia que experimentavam uma pela outra.
     Quando o conde voltou. Natacha nada fez para esconder a alegria que sentiu e logo se deu pressa de partir. Naquele momento quase odiava aquela princesa seca e envelhecida que a obrigava quela situao desagradvel, tornando possvel passarem juntas meia hora sem dizer uma palavra acerca do prncipe Andr.
     No podia ser eu a primeira a falar dele, e ainda por cima na presena desta francesa, dizia para si prpria. A Maria atormentava-a o mesmo pensamento. Sabia o que devia ter dito a Natacha, mas no o pudera fazer, primeiro por sentir-se embaraada com a presena de Mademoiselle Bourienne, e depois, sem que soubesse porqu, por lhe ser penoso falar daquele casamento. No momento em que o conde saa. Maria aproximou-se de Natacha e, pegando-lhe resolutamente na mo, disse-lhe num profundo suspiro:
     - Espere, eu quereria...
     Sem saber porqu Natacha olhou para ela com ar trocista.
     - Querida Natlia - disse Maria -, no quero deixar de lhe manifestar a alegria que sinto por meu irmo ter encontrado a felicidade...
     Calou-se, sentindo no dizer a verdade. Natacha notou esta hesitao e adivinhou- lhe a causa.
     - Parece-me, princesa, que passou j o momento de falar no assunto - volveu Natacha com uma dignidade e uma frieza aparentes, sentindo a voz embargada pelos soluos.
     Que disse eu? Que disse eu?, pensou ao transpor a porta da sala.
     
     Naquele dia esperaram muito tempo Natacha para jantar. Fechada no seu quarto, soluava como urna criana, dolorosa- mente sentida. Snia, de p, junto dela, beijava-lhe os cabelos.
     - Natacha, porque choras? - dizia-lhe ela. - Para que hs-de preocupar-te com eles? Tudo passar. Natacha.
     - Ah, se tu soubesses o que custa...  como se eu...
     - No falemos mais nisso. Natacha. No tens culpa. Ento porque te preocupas? D c um beijo, anda - murmurou Snia.
     Natacha ergueu a cabea e beijou a amiga nos lbios, apertando contra o dela o seu rosto, banhado de lgrimas.
     - No sei, no sei. Ningum  culpado - balbuciou Natacha. - Sou eu a culpada. Como tudo isto  horrvel! Ai, porque no vem ele?...
     Quando desceu para jantar tinha os olhos vermelhos. Maria Dmitrievna, que sabia como o prncipe recebera Rostov, fingiu no reparar na mgoa de Natacha, levando o repasto a dizer graas ao conde e aos seus hspedes na sua voz grossa e potente.
     

     
     
     
     Captulo VIII
     
     Nessa noite, os Rostov foram  pera, para onde Maria Dmitrievna lhes arranjara um camarote.
     Natacha no queria ir, mas no pde recusar esta amabilidade de Maria Dmitrievna, que os convidara precisamente por sua causa. Quando, j vestida, penetrou no salo, para a aguardar o pai, depois de relancear a vista ao grande espelho e verificou estar bonita, e mesmo muito bonita, ainda mais triste se sentiu;  sua tristeza misturava-se uma espcie de amoroso desfalecimento.
     Meu Deus, se ele aqui estivesse, no seria como antigamente, no sentiria esta timidez estpida, abraar-me-ia a ele, apertar-me-ia contra ele, obrig-lo-ia a olhar para mim com aquele lampejo de curiosidade interrogadora que tantas vezes lhe vi nos olhos. Depois f-lo-ia rir como antigamente. Ah!, aqueles olhos, parece que os estou a ver!, murmurava Natacha para si mesma. F depois pensava: E a mim que me importam o pai e a irm?  dele de quem gosto, s dele, da sua cara, dos seus olhos, do seu sorriso ao mesmo tempo de homem e de criana... Ah!, o melhor  no pensar nisso, em nada pensar, esquecer, esquecer tudo, pelo menos por algum tempo. Esta ausncia mata-me, no posso reter as lgrimas. Afastou-se do espelho, num grande esforo para conter o pranto. Como pode Snia gostar de Nikolenka assim to serena, to tranquilamente, e esperar tanto tempo e com tanta pacincia?, pensava ainda ao ver entrar a amiga, j vestida tambm, com o leque na mo. Snia  muito diferente de mim. Eu no posso! 
     Naquele momento tamanha era a ternura refreada que Natacha sentia que lhe no bastava amar e saber-se amada: tomava-a um desejo imperioso de apertar nos seus braos, imediatamente, o homem amado e de lhe dizer e de colher de seus lbios as frases de amor que lhe transbordavam do peito. Durante o percurso, de carruagem, ao lado do pai, olhando, cismadora, perpassar pelos vidros embaciados das portinholas os relmpagos furtivos dos revrberos, a sua alma ainda estava mais triste e amorosa, e esquecia tudo  sua volta. Tomando lugar na fileira das carruagens, o carro dos Rostov, que arranhava suavemente o, neve, chegou  entrada do teatro. Natacha e Snia saltaram ligeiras para o cho, erguendo os vestidos. Depois apeou-se o conde, ajudado pelos lacaios, e de roldo com as senhoras e os cavalheiros que entravam e  mistura com os vendedores de programas dirigiram-se, todos trs, para o corredor dos camarotes. Atravs das portas fechadas j se ouviam os acordes da orquestra.
     - Natlia, os teus cabelos... - murmurou Snia.
     O empregado, com uma pressurosa cortesia, deslizou por diante das senhoras e abriu a porta do camarote. Ouviu-se mais distintamente a orquestra e do outro lado surgiu a fila dos camarotes iluminados, cheios de senhoras decotadas, e a plateia resplandecente de uniformes de gala. Uma dama que penetrava num camarote vizinho observou Natacha com um olhar cheio de inveja. O pano ainda no subira e tocavam a abertura. Depois de compor o vestido. Natacha entrou com Snia, sentou-se e ps-se a olhar a fila dos camarotes do outro lado. De repente apoderou-se dela uma sensao no experimentada h muito: aquelas centenas de olhos fitos nos seus braos e no seu colo nus eram uma coisa ao mesmo tempo agradvel e penosa, acordando nela enxames de recordaes, de desejos, de inquietaes. As duas raparigas, muito belas, acompanhadas do conde Ilia Andreitch, que h muito no era visto em Moscovo, chamaram imediatamente a ateno de toda a assistncia. Alm disso toda a gente ouvira falar do noivado de Natacha com o prncipe Andr, e tambm se sabia que desde ento os Rostov viviam no campo. Aquela que ia casar com um dos melhores partidos de toda a Rssia a examinada com a maior curiosidade.
     Natacha fizera-se mais bonita durante a temporada na aldeia. Essa a opinio de toda a gente, e nessa noite, precisamente, graas  emoo que experimentava, ainda estava mais linda. Impressionava a sua exuberncia de vida, a plenitude das suas formas e tambm a indiferena por tudo quanto a rodeava. Seus olhos pretos erravam pela multido sem procurar ningum e tinha o brao delicado, nu at um pouco acima do cotovelo, pousado no parapeito de veludo do camarote. Maquinalmente abria e fechava a pequenina mo, como a marear o compasso da abertura, enquanto ia vincando o programa.
     - Olha, as Alenina - dizia Snia. - A filha e a me, parece-me.
     - Santos Padres! Mikail Kirilitch! Est ainda mais gordo! - exclamava o velho conde.
     - Olhe para a touca da nossa Ana Mikailovna!
     - As Karaguine e o Bris. Esto noivos ele e a Jlia. V-se logo. J a teria pedido?
     - Pediu, sim, acabam de mo dizer - disse Chinchine, que entrava no camarote dos Rostov.
     Natacha olhou na direco que tomavam os olhos do conde e viu Jlia, sentada ao p da me, com um ar feliz; do seu grosso e vermelhusco pescoo, que ela sabia todo empoado, pendia um grosso colar de prolas. Atrs delas, todo sorridente e debruando-se para ouvir o que Jlia dizia. Bris mostrava a linda cabea muito penteada. Tendo olhado de relance para os Rostov, murmurou qualquer coisa ao ouvido da noiva.
     Esto a falar de ns, de mim!, dizia Natacha consigo mesma. Naturalmente est a dizer-lhe que escusa de ter cimes de mim. No vale a pena! Se soubessem como me so todos indiferentes!
     Ana Mikailovna, com a sua touca verde, sempre entregue a Deus e uma expresso de dias de festa, triunfante, sentara-se atrs deles. O camarote parecia banhado nessa atmosfera especial dos noivos que Natacha conhecera e lhe causava inveja. Virou-se e de repente veio-lhe  memria toda a humilhao por que passara durante a visita dessa manh.
     Que direito tem ele de me no querer aceitar na famlia? Oh,  melhor no pensar nisso, pelo menos enquanto o prncipe Andr no vier!, disse de si para consigo, e ps-se a percorrer, uma por uma, as caras conhecidas e desconhecidas da plateia. Na primeira fila, bem ao meio, de costas apoiadas  ribalta, estava Dolokov, com os seus espessos cabelos frisados penteados para diante. Vestia  persa. Pusera-se bem em evidncia, sabendo que todo o teatro olhava para ele, e to  vontade como se estivesse em sua prpria casa. Toda a juventude elegante de Moscovo fazia roda em tomo dele e via-se perfeitamente ser ele o chefe.
     O conde Ilia Andreitch acotovelou, rindo. Snia, muito corada, para lhe mostrar o seu antigo admirador.
     - Conheceste-o? - disse-lhe ele. - Donde veio ele? - perguntou o conde a Chinchine. - Desaparecera por completo.
     -  verdade - replicou Chinchine. - Esteve no Cucaso e desertou. Dizem que foi ministro de um prncipe persa  que matou o irmo do x. Ora a tem! Todas as mulheres de Moscovo esto doidas por ele. Dolochoff, o persa, e est tudo dito! No se fala noutra coisa. Juram invocando o nome dele. E fazem-se convites para o ver, como se se tratasse de comer um esturjo. - E acrescentou: - Dolokov e Anatole Kuraguine deram volta ao miolo de todas as mulheres.
     Nesse momento penetrou no camarote vizinho uma alta e bela mulher, exibindo uns ombros e um colo cheios e muito brancos, com um colar de duas voltas de grossas prolas. Levou tempo a instalar-se, exibindo ruidosamente o amplo vestido de seda.
     Natacha, involuntariamente, contemplou aquele colo, aqueles ombros, aquelas prolas, aquele penteado, admirando tanto a beleza da mulher como o fulgor das jias. Quando a observava pela segunda vez, ela voltou-se e, ao encontrar os olhos do conde Ilia Andreitch, fez-lhe um breve aceno de cabea, sorrindo-lhe. Era a condessa Bezukov, a mulher de Pedro. O conde, que conhecia toda a gente, debruou-se para ela e principiou a conversar.
     - J est aqui h muito tempo, condessa? - disse ele. - Irei sem falta fazer-lhe uma visita. Eu vim tratar de negcios e trouxe comigo as pequenas. Dizem que a Semionovna trabalha maravilhosamente. O conde Piotre Kirilovitch Bezukov no nos esqueceu, com certeza. Est a?
     - Sim, tinha inteno de vir - disse Helena, olhando atentamente Natacha.
     O conde retomou o seu lugar.
     -  bonita, no ? - perguntou em voz baixa  filha.
     - Maravilhosa! - replicou Natacha. - Compreendo que os homens gostem dela!
     Naquele momento ressoaram os ltimos acordes da abertura e ouviram-se as trs pancadas da batuta do maestro. Os cavalheiros retardatrios deram-se pressa em ocupar os seus lugares e o pano subiu.
     Fez-se ento na sala um profundo silncio. Tanto os velhos como os jovens, de fraque ou de uniforme, as senhoras decotadas e cobertas de jias, todos, curiosos, voltaram os olhos para a cena. Natacha seguiu-lhes o exemplo.
     

     
     
     
     Captulo IX
     
     O centro do cenrio era de tbuas uniformes; de cada um dos lados, cartes pintados fingindo rvores e no fundo um pano corrido. Raparigas de blusas vermelhas e saias brancas formavam um grupo ao meio do palco. Uma delas, corpulenta, de vestido de seda branca, estava sentada num banco muito baixo atrs do qual havia um carto verde colado. Cantavam em coro. Quando acabaram, a vestida de branco deu alguns passos na direco da caixa do ponto. Ento aproximou-se dela um homem de cales de seda, que lhe cingiam as grossas pernas, chapu emplumado e punhal  cinta, que se ps a cantar com muitos gestos.
     O homem dos cales justos cantou sozinho, depois cantou a rapariga de branco. Em seguida calaram-se ambos, ouviu-se a orquestra e o homem pegou na mo da companheira, como para lhe contar os dedos, aguardando o compasso para o dueto. Quando acabaram de cantar, o teatro em peso aplaudiu e os dois artistas que desempenhavam o papel de namorados sorriram, fazendo mesuras e agitando as mos para um lado e para o outro da plateia.
     Acabada de chegar da aldeia e na sua disposio de esprito no podia Natacha deixar de encarar o espectculo como uma coisa grotesca e inslita. Era-lhe impossvel acompanhar o desenvolvimento da aco, e nem sequer seguia a msica; apenas via panos pintados, homens e mulheres vestidos de estranha maneira, mexendo-se, falando e cantando rodeados de luz intensa. Evidentemente que compreendia a significao do que a cena representava, mas tudo lhe parecia, no seu conjunto, to convencional e falso, to pouco natural, que ora tinha vergonha pelos actores ora lhe dava vontade de rir. Olhava em volta de si, procurando descobrir na fisionomia dos espectadores o mesmo estado de esprito, mas verificava que toda a gente seguia com ateno o que estava a passar-se no palco e nos seus rostos havia um entusiasmo que a ela se lhe afigurava falso. Naturalmente, tem de ser assim, dizia de si para consigo. To depressa observava as filas das cabeas da plateia espelhantes de brilhantina como as senhoras decotadas dos camarotes, especialmente Helena, sua vizinha, que, seminua, olhava para o palco, com um sorriso doce e plcido, sem nunca desviar os olhos, toda ela exposta  luz violenta que se derramava na sala e  quente palpitao que emanava da plateia. Pouco a pouco Natacha sentiu-se tomada de uma espcie de embriaguez, disposio que h muito no sentia. J no sabia o que fazia, onde estava, o que se passava diante dos seus olhos. Olhava sem ver, enquanto os pensamentos mais estranhos e incoerentes lhe atravessavam o crebro. Ora lhe davam ganas de escalar o proscnio e de cantar a ria que a actriz garganteava, ora lhe vinham desejos de, com a ponta do leque, espevitar o velhinho sentado na plateia, no muito longe dela, ou ainda de se debruar para Helena e de lhe fazer ccegas nas costas.
     Numa dessas pausas da orquestra que antecedem os acordes de um novo andamento, a porta da plateia rangeu, l para os lados do camarote dos Rostov, e ouviram-se passos de algum que chegava atrasado. A est o Kuraguine!, segredou Chinchine. A condessa Bezukov voltou-se, sorrindo, para quem entrava. Natacha seguiu-lhe o olhar e viu um ajudante-de-campo, de uma beleza extraordinria, dirigindo-se para o seu camarote com um ar ao mesmo tempo seguro de si e cheio de cortesia. Era Anatole Kuraguine, a quem no esquecera desde que o vira no baile de Petersburgo. Vestia o uniforme de gala de ajudante-de-campo, com dragonas e agulhetas. Mantendo em atitude arrogante a perfumada cabea, avanava, num passo contido, que teria sido ridculo se no seu todo no exprimisse um contentamento to cordial e to boa disposio, e se ele prprio no fosse to belo homem. Embora o espectculo j tivesse principiado, no se dava pressa, caminhando ao longo da passadeira do corredor com as esporas e o sabre a tilintar ligeiramente. Depois de um olhar a Natacha, aproximou-se da irm, apoiou a mo, moldada na luva, no parapeito do camarote, acenou-lhe com a cabea e, debruando-se para ela, perguntou-lhe qualquer coisa enquanto designava a vizinha.
     - Mas  encantadora! - exclamou, falando evidentemente de Natacha, que o percebeu mais pelo movimento dos lbios que propriamente por ter ouvido o que diziam. Depois Kuraguine dirigiu-se para a primeira fila de poltronas e sentou-se ao lado de Dolokov, a quem acotovelou distrada e amistosamente, o Dolokov a quem todos os outros tratavam com tanta deferncia. Sorriu-lhe, piscando-lhe, jovialmente, o olho, enquanto punha o p sobre o varo metlico que os separava da ribalta.
     - Muito se parecem os dois irmos! - exclamou o conde. - E so ambos bem bonitos!
     Chinchine, a meia voz, contou-lhe a histria de uma aventura de Kuraguine em Moscovo, e Natacha ficou-se a ouvi-lo simplesmente porque ele dissera, referindo-se a ela, que a achava encantadora. O primeiro acto terminou. Toda a gente se levantou, uns saram, outros comearam a passear de um lado para o outro no vestbulo da plateia.
     Bris veio cumprimentar os Rostov ao seu camarote. Com a maior naturalidade aceitou as felicitaes que lhe dirigiam e, depois de assumir um ar preocupado, com um sorriso distrado, convidou Natacha e Snia, em nome da noiva, para o seu casamento. F saiu. Natacha felicitara aquele mesmo Bris de quem outrora estivera enamorada, com um sorriso em que havia jovialidade e uma certa coquetterie. No estado de embriaguez em que estava tudo lhe parecia simples e natural.
     Helena, seminua, sentada muito perto dela, dirigia a todos, indistintamente, o seu perptuo sorriso, e assim Natacha, do mesmo modo, sorrira para Bris.
     No tardou que o camarote de Helena estivesse cheio e ela rodeada de titulares e homens distintos, que pareciam querer mostrar a toda a gente serem das suas relaes.
     Kuraguine, durante o intervalo, ficou na plateia, ao lado de Dolokov, de olhos fitos no camarote dos Rostov.
     Natacha, sabendo que ele falava dela, sentia-se lisonjeada. Colocou-se mesmo de maneira que ele a pudesse ver de perfil, posio que a favorecia, segundo pensava. Antes de principiar o segundo acto apareceu Pedro na plateia. Os Rostov ainda o no tinham visto desde que estavam em Moscovo. Parecia triste e ainda engordara mais desde a ltima vez que Natacha o vira. Caminhou para as primeiras filas da plateia sem olhar para ningum. Anatole aproximou-se dele e disse-lhe qualquer coisa, enquanto lhe chamava a ateno para o camarote dos Rostov. Ao ver Natacha. Pedro animou-se e, passando apressadamente por entre as filas de cadeiras, aproximou-se do camarote do conde, que era rente  plateia. Apoiou os cotovelos no parapeito e ficou-se a conversar com ela. Enquanto o escutava. Natacha julgou ouvir uma voz de homem no camarote da condessa Bezukov e pensou que seria Kuraguine. Voltou-se e os seus olhos encontraram-se. Com um ligeiro sorriso, ele fitava-a, com um olhar ao mesmo tempo to caloroso e acariciador que lhe pareceu estranho ver-se to perto dele e olh-lo assim to segura de lhe ter agradado, embora o no conhecesse seno de vista.
     O cenrio do segundo acto representava uns monumentos funerrios e tinha um buraco no pano de fundo a fingir a Lua. Haviam retirado o quebra-luz das gambiarras, as trombetas e os contrabaixos tocavam em surdina e da direita e da esquerda surgia muita gente de manto negro. Brandiam qualquer coisa, talvez punhais. Em seguida apareceram outras pessoas que impeliam na sua frente a rapariga que no primeiro acto estava vestida de branco e agora se vestia de azul. No a levaram logo, mas cantaram muito tempo com ela antes de o fazerem, e ento, por trs vezes, ouviu-se nos bastidores um rudo metlico, e todos ajoelharam entoando uma orao. Tudo isto foi interrompido vrias vezes pelos gritos entusiastas dos espectadores.
     Durante o espectculo, sempre que Natacha olhava para a plateia, via Anatole Kuraguine, com o brao passado por trs da poltrona, todo voltado, a olhar para ela. Sentia-se encantada ao v-lo enamorado dela e no lhe passava pela cabea que nisso houvesse qualquer mal.
     Quando terminou o segundo acto, a condessa Bezukov levantou-se, voltando-se para o lado do camarote dos Rostov, que s ento puderam ver que ela tinha os seios descobertos. Depois, chamando, com um sinalzinho da sua mo enluvada, o velho conde, sem prestar a mais pequena ateno s pessoas que entravam no seu camarote, ps-se a conversar com ele, sorrindo graciosamente.
     - Apresente-me s suas encantadoras filhas - disse-lhe ela. - Toda a gente fala delas em Moscovo e s eu as no conheo. Natacha levantou-se e fez uma reverncia  esplndida condessa. Lisonjeada pelo galanteio daquela beleza clebre, sentiu-se corar.
     - Agora tambm quero tornar-me moscovita - prosseguiu Helena. - No se envergonha de ter prolas dessas escondidas na aldeia?
     Merecia, realmente, a fama de feiticeira de que gozava. Tinha o dom de dizer o que no pensava e especialmente de manejar a arma da lisonja com a maior naturalidade.
     - Querido conde, tem de consentir que eu me ocupe de suas filhas. Embora no v demorar-me aqui muito tempo, como, de resto, todos ns, quero que elas se divirtam. Ouvi falar muito de si em Petersburgo e h muito que desejava conhec-la - acrescentou, dirigindo-se a Natacha e dedicando-lhe o seu amvel sorriso. - Falaram-me muito de si, em primeiro lugar o meu pajem. Drubetskoi - sabe que vai casar? - e depois o grande amigo de meu marido, o prncipe Andr Bolkonski. - Frisou particularmente este nome, para dar a entender no ignorar as relaes que havia entre eles. Para melhor se relacionarem, pediu ao conde consentisse que uma das suas filhas viesse para o seu camarote. E Natacha passou para junto da condessa.
     No terceiro acto, a cena representava um salo todo iluminado, com as paredes cobertas de retratos de cavaleiros barbados. No centro do palco estavam duas personagens, naturalmente o rei e a rainha. Aquele fez um gesto com a mo direita e, visivelmente intimidado, cantou uma ria bastante mal, indo depois sentar-se num tronco cor de amaranto. A rapariga que aparecera primeiro vestida de branco, depois de azul, agora nada mais tinha em cima de si alm de uma camisa, e, de cabelos cados, estava ao lado do trono. Ps-se a cantar o seu desespero, dirigindo-se  rainha, mas o rei fez com a mo um gesto severo e, vindos dos lados, apareceram homens e mulheres, todos de fato de malha, que cantaram em coro. Em seguida os violinos tocaram uma ria ligeira e jovial. Uma das mulheres, com as suas planturosas coxas moldadas pela malha e uns braos magricelas, depois de se separar das companheiras, entrou nos bastidores, para arranjar o corpete, voltando para o meio do palco, onde desatou aos pulos enquanto batia com os ps um no outro, muito enrgica. Toda a plateia rompeu em aplausos, gritando: Bravo! Em seguida um homem foi colocar-se a um canto. Na orquestra os cmbalos e as trompetas ressoaram mais alto e, sozinho, um homem de fato de malha ps-se a dar saltos muito altos, batendo com os ps um no outro. Esse homem era Duport, o qual, s por fazer aqueles exerccios, ganhava sessenta mil rublos anuais. Todos os espectadores, tanto na plateia, como nos camarotes e no galinheiro, romperam em aplausos e a cham-lo com toda a fora dos pulmes, e o bailarino deteve-se e a sorrir veio agradecer, voltando-se para todos os lados do teatro. Outras pessoas vieram danar tambm, homens e mulheres, e o rei, acompanhado pela orquestra, gritou umas palavras e todos, como uma s voz, entoaram um coro. De sbito desencadeou-se uma tempestade, a orquestra executou escalas cromticas e acordes da stima menor; todos acorreram, arrastando consigo, de novo, para os bastidores um dos artistas, depois do que caiu o pano. Os espectadores principiaram ento a vociferar e todos gritavam com o maior entusiasmo: Duport! Duport! Duport!
     Natacha j nada achava estranho. Olhava para o que ia  sua volta com satisfao e sorrindo.
     - No acha o Duport admirvel? - perguntou-lhe Helena.
     - Acho, sim - replicou Natacha.
     

     
     
     
     Captulo X
     
     Durante o intervalo abriu-se a porta e uma corrente de ar frio filtrou-se no camarote de Helena. Anatole entrou, inclinando-se, para no tropear em ningum.
     - D licena que lhe apresente meu irmo? - disse Helena, mirando ora um ora outro, um pouco preocupada.
     Natacha voltou a sua linda cabea para aquele belo moo e sorriu-lhe por cima do ombro nu. Anatole, que era bonito rapaz tanto de perto como de longe, sentou-se a seu lado, dizendo-lhe que havia muito desejava ser-lhe apresentado, desde que tivera o prazer, inesquecvel para ele, de a ver no baile dos Narichkine. Kuraguine era muito mais simples e inteligente ao p das mulheres do que com os homens. Falava resolutamente e com simplicidade e foi com prazer que Natacha verificou nada encontrar de assustador naquele homem de quem se dizia tanta coisa, e em quem, antes pelo contrrio, via um sorriso simples, alegre e cordial.
     Perguntou-lhe Anatole se gostara do espectculo e contou-lhe que na representao antecedente Semionovna cara em cena.
     - Sabe, condessa - acrescentou, tratando-a, de chofre, como se ela fosse uma velha conhecida sua -, estamos a organizar um baile de mscaras. No pode faltar. Vai ser muito divertido. Reunimo-nos em casa das Karaguine. Peo-lhe, no deixe de aparecer.
     Enquanto falava no deixava de fitar, com os seus risonhos olhos, o rosto, o colo e os braos nus de Natacha. Agora ela tinha a certeza de que ele a admirava. E isto era-lhe agradvel, embora, sem que soubesse porqu, a presena dele, ao mesmo tempo que a perturbava, lhe fosse penosa. Quando apartava dele a vista sentia nos ombros o peso dos seus olhares e inconscientemente desejaria poder interceptar esses olhares, para que ele a fitasse antes no rosto. Porm, quando o olhava de frente percebia no existirem j entre os dois essas barreiras que o pudor, naturalmente, costumava levantar entre ela e os outros homens. Sem se dar conta, em menos de cinco minutos, sentiu-se extremamente prxima daquele homem. Quando voltava a cara, receava v-lo pegar-lhe na mo nua ou surpreend-lo a beijar-lhe os ombros. Falavam das coisas mais insignificantes, mas Natacha, de si para consigo, dizia serem ntimos e haver entre eles uma familiaridade como nunca existira entre ela e qualquer outro homem. Interrogava Helena e o pai com os olhos, como se quisesse perguntar-lhes a significao de tudo aquilo, mas a condessa estava entretida a conversar com um general e no lhe respondeu e o pai dizia-lhe o mesmo de sempre: Divertes-te? Ainda bem, gosto muito disso.
     Para romper um silncio embaraoso, em que Anatole a olhava, tranquila e obstinadamente, com os seus olhos  flor da pele. Natacha perguntou-lhe se gostava de Moscovo. Mal lhe fizera esta pergunta logo se sentiu corar: afigurava-se-lhe, a todo o momento, estar fazendo qualquer coisa de inconveniente quando falava com ele. Anatole sorriu como a encoraj-la.
     - De princpio Moscovo no me entusiasmou por a alm,
     O que faz uma cidade agradvel so as mulheres bonitas, no  verdade? Mas agora agrada-me muito - acrescentou, fitando-a de maneira significativa. - Vai ao baile, condessa? V - E avanando a mo para as flores que Natacha trazia consigo, e baixando a voz: - Ser a mais bonita. Prometa que vai, querida condessa, e para selar a promessa d-me esta flor.
     Natacha no pde compreender por completo o sentido oculto que ele punha naquelas palavras, mas nem por isso deixou de sentir que eram inconvenientes. Sem saber que responder, desviou a cara, fingindo no ter ouvido. Mas nesse mesmo, instante a ideia de que ele estava ali, atrs dela, e to perto, de novo a tomou.
     Que estar ele a fazer?, perguntava a si prpria. Ter ficado atrapalhado? Estar zangado comigo?  preciso arranjar as coisas! E no resistiu: voltou a cabea para trs. Os olhos dela foram pousar directamente nos dele e a sua presena to prxima, a sua confiana, a sua simptica cordialidade conquistaram-na. Sorriu com ele, olhando-o bem de frente. E de novo pensou, assustada, que entre eles no havia barreiras.
     O pano voltou a subir. Anatole saiu do camarote, feliz e sereno.
     Natacha voltou para junto do pai, completamente subjugada pelo novo mundo que acabava de entrever. Tudo o que passava  sua roda se lhe afigurava agora o que havia de mais natural e nem por um instante sequer lhe vieram  mente as suas antigas preocupaes com o noivo, com a princesa Maria, com a vida na aldeia: era como se tudo isso fizesse parte de um passado longnquo.
     No quarto acto apareceu no palco, gesticulando, uma espcie de demnio, que se ps a cantar at que um alapo se entreabriu e ele desapareceu pelo cho abaixo. Eis tudo quanto Natacha viu. Sentia-se inquieta e perturbada, e Kuraguine, a quem ela no deixava de seguir com os olhos, mesmo sem querer, era o responsvel daquela agitao.  sada aproximou-se, mandou avanar a sua prpria carruagem e instalou-os a todos l dentro.
     Ao ajudar Natacha a subir para o carro apertou-lhe o brao um ponto acima do cotovelo. Muito corada e confusa, ela ergueu para ele as pupilas. Anatole fitou-a com seus olhos brilhantes e sorriu-se.
     S ao chegar a casa Natacha pde medir com clareza o que se passara, e de sbito, ao lembrar-se do prncipe Andr, um grande medo a tomou, soltou um grito e saiu da sala onde todos tomavam ch, corada at s orelhas.
     Meu Deus! Estou perdida!, exclamou de si para consigo. Como pude eu permitir-lhe? Longo tempo assim ficou, o rosto, muito afogueado, escondido nas mos, tentando dar-se conta exacta do que se passara no teatro, embora sem conseguir perceber nem o que sentira nem o que estava experimentando. Tudo lhe parecia obscuro, indistinto e terrvel.
     L, naquela sala toda iluminada, onde, sobre o palco, acompanhado pela orquestra. Duport dava pulos, de fato de malha e coberto de lantejoulas, e em que raparigas, velhos. Helena, toda decotada, sorrindo sempre serena e orgulhosa, gritavam entusisticos bravos, ali,  sombra daquela Helena, tudo era claro e simples, mas agora, ao ver-se sozinha, entregue a si mesma, nada compreendia. Que quer isto dizer? Que significam o terror que senti diante dele e estes remorsos que me esmagam?, murmurava.
     S na cama,  noite,  velha condessa teria podido confiar aqueles pensamentos. Snia, por de mais o sabia, com os seus severos e rgidos princpios, ou nada teria percebido ou ter-se-ia sentido aterrada com tal confisso. Entregue a si prpria, sozinha. Natacha procurava descobrir a causa das suas angstias.
     Estarei ou no perdida para o amor de Andr?, perguntava-se a si prpria, e a si mesma respondia, trocista: Que parva sou com estas perguntas! Que aconteceu? Nada. Nada fiz, no tenho culpa alguma do que sucedeu. Ningum saber nada e eu no o voltarei a ver. E pensava ainda: Est claro que nada se passou, que no tenho que me arrepender seja do que for. O prncipe Andr pode continuar a gostar de mim como sou. Mas que serei eu, realmente? Ah! Meu Deus, meu Deus! Porque no o tenho aqui a meu lado?
     Natacha por instantes ficara sossegada, mas da a pouco um instinto secreto lhe dizia de novo que, embora tudo aquilo fosse verdade e nada tivesse acontecido, a antiga pureza do seu amor por Andr fora-se de uma vez para sempre. E em imaginao ia recordando a conversa com Kuraguine e tornava a ver o rosto, os gestos, o terno sorriso daquele homem audacioso e belo no momento em que lhe apertara o brao.
     

     
     
     
     Captulo XI
     
     Anatole Kuraguine vivia em Moscovo porque o pai o mandara sair de Petersburgo, onde gastava mais de vinte mil rublos por ano e contraa dvidas de igual importncia, que o prncipe se via obrigado a satisfazer.
     O pai fizera compreender ao filho ser a ltima vez que lhe pagava metade das dvidas, mas com a condio de ele ir para Moscovo como ajudante-de-campo do general-chefe, cargo que ele prprio lhe conseguira, e de casar, finalmente, com uma rica herdeira. A princesa Maria e Jlia Karaguine eram as visadas.
     Anatole acedeu e foi para Moscovo, hospedando-se em casa de Pedro. Este principiou por receb-lo de m vontade, mas acabou por se habituar  sua presena. s vezes participavam das mesmas orgias e a ttulo de emprstimo adiantava-lhe dinheiro.
     Anatole, como dizia acertadamente Chinchine, fizera perder a cabea a todas as mulheres desde que chegara a Moscovo, precisamente porque no lhes ligava importncia, desdenhando-as pelas belas ciganas e as francesas, especialmente por uma tal Mademoiselle Georges, com quem, segundo constava, mantinha relaes ntimas. No faltava a qualquer orgia em casa de Danilov e de outros bomios de Moscovo, bebia como uma esponja noites inteiras e assistia a todas as soires e a todos os bailes da alta sociedade. Contavam-se dele vrios escndalos com senhoras de Moscovo e nos bailes cortejava algumas delas. Mas com as raparigas nada queria, especialmente com as casadouras, as quais, pela maior parte, no tinham graa alguma, e pela excelente razo, que todos desconheciam, salvo os amigos ntimos, de estar casado havia j dois anos,
     Dois anos antes, efectivamente, durante o tempo em que estivera com o regimento na Polnia, um fidalgo polaco, no muito rico, obrigara-o a casar com uma filha. Anatole abandonou a mulher, e a troco de dinheiro, que prometera enviar ao sogro, comprara o direito de passar por celibatrio.
     Anatole estava sempre contente com a vida, consigo e com os outros. Instintivamente, parecia convencido de que no podia viver de outra maneira e de que nunca procedera mal. No era capaz de compreender que os seus actos podiam prejudicar as outras pessoas. Estava persuadido de que pela mesma razo que o pato fora feito para viver na gua ele fora criado por Deus para viver com trinta mil rublos de rendimento e para ocupar um lugar preponderante na sociedade. E to persuadido estava disso que os outros, ao v-lo, igualmente se convenciam de que ele tinha razo, no lhe recusando nem a posio preponderante na sociedade nem o dinheiro que ele pedia emprestado ao primeiro que lhe aparecia, evidentemente sem a mais leve inteno de pagar.
     No jogava, ou, pelo menos, no jogava para ganhar. No tinha amor-prprio. Era-lhe absolutamente indiferente o que os outros pensassem dele. To-pouco podia ser considerado ambicioso. Mais de uma vez fizera perder a cabea ao pai comprometendo a sua prpria carreira, e menosprezava todas as honrarias. No era avaro e nunca negava o que lhe pediam. Acima de tudo amava o prazer e as mulheres, e, como em sua opinio no havia nisso qualquer sentimento vil, no lhe passava pela cabea que pudesse prejudicar os outros a satisfao, que buscava, dos seus prazeres, considerando-se sinceramente irrepreensvel, desprezando com a mesma sinceridade os patifes e os covardes, erguendo bem alto a cabea, sinal de uma conscincia tranquila.
     Todos os estrinas, tanto os homens- Madalenas como as Madalenas - mulheres, vivem com a secreta e ingnua convico de serem perfeitamente inocentes, persuadidos de que toda a gente est disposta a perdoar-lhes. Muito lhe ser perdoado pelo muito que amou; muito lhe ser perdoado pelo muito que se divertiu.
     Dolokov, que reaparecera naquele ano em Moscovo depois do seu exlio e das suas aventuras na Prsia, e que vivia ali no luxo e na devassido, voltara a relacionar-se com Kuraguine, seu antigo camarada de Petersburgo, e dele se utilizava por interesse prprio.
     Anatole apreciava sinceramente a inteligncia e a coragem do amigo. Dolokov, que precisava do nome, da notoriedade e das relaes de Anatole Kuraguine para atrair e depenar ao jogo os rapazes ricos, tirava partido dele, sem lho dar a entender, e com isso se divertia. Alm dos seus clculos interesseiros, o simples facto de dirigir a seu talante a vontade de outrem era para ele um hbito e uma necessidade.
     Natacha impressionara vivamente Kuraguine. Durante a ceia, depois do espectculo, descreveu pormenorizadamente, perito, que era, na presena de Dolokov, a beleza dos braos, dos ombros, dos minsculos ps e dos cabelos da filha do conde Ilia Andreitch, confessando-se na disposio de lhe fazer uma corte sem trguas. Quanto ao que da podia resultar, pouco importava a Anatole, pela simples razo de que nunca o preocupavam as consequncias de qualquer dos seus actos.
     - Sim,  bonita, meu velho, mas no  para a nossa boca - volveu-lhe Dolokov.
     - Vou dizer a minha irm que a convide para jantar - tornou Anatole. - Que achas?
     -  melhor esperares que esteja casada...
     - Sabes? - declarou Anatole - Adoro as rapariguinhas: perdem logo a cabea.
     - J uma vez foste apanhado por uma dessas rapariguinhas... - comentou Dolokov, que sabia da histria do casamento. - Tem cuidado!
     - No se  apanhado duas vezes! Que achas? - replicou Anatole, numa gargalhada.
     

     
     
     
     Captulo XII
     
     No dia seguinte ao do espectculo ningum saiu em casa dos Rostov e nenhuma visita apareceu. Maria Dmitrievna, s escondidas de Natacha, teve uma conversa com o pai. Natacha percebeu que haviam falado do velho prncipe e que tinham combinado pr em prtica um projecto qualquer, o que a deixou inquieta e irritada. Aguardava de um momento para o outro o prncipe Andr e por duas vezes nesse dia mandou o porteiro a Vozdvijenka saber se ele teria realmente chegado. Mas o prncipe no viera. Sentia-se ainda mais acabrunhada do que nos primeiros dias aps a sua chegada. Agora,  impacincia e ao desgosto por ele ocasionados vinham acrescentar-se a penosa lembrana do seu encontro com a princesa Maria e o velho prncipe e um terror e uma inquietao cuja causa no sabia explicar. Afigurava-se-lhe que ele nunca mais viria ou que antes da sua chegada qualquer coisa fatal para ela aconteceria. Era-lhe impossvel agora pensar nele, como outrora, serena e amorosamente, a ss consigo mesma. Assim que se dava a pensar em Andr, vinha misturar-se aos seus pensamentos a lembrana do velho prncipe, da princesa Maria, da noite no teatro e de Kuraguine. E de novo surgia nela a pergunta que a si prpria fazia: no seria culpada? No teria atraioado a sua fidelidade ao prncipe Andr?, obrigando-se a recapitular, nos seus mnimos pormenores, cada palavra, cada gesto, cada expresso fisionmica daquele homem que soubera despertar nela um sentimento tanto mais para recear quanto era certo lhe ser incompreensvel. Aos olhos das pessoas de famlia. Natacha parecia mais animada do que de costume, mas a verdade  que estava longe de se encontrar to serena e feliz como antigamente.
     No domingo, pela manh. Maria Dmitrievna props aos seus hspedes ouvirem missa na parquia da Assuno de Moguilts.
     - No gosto das igrejas  moda - dissera, jactando-se da sua largueza de esprito. - Deus  o mesmo em toda a parte. Temos ali um pope muito bom, diz lindamente os ofcios e mesmo at com nobreza, e o dicono tambm. No consigo perceber como os concertos no coro tornam mais santos os templos. No gosto, so divertimentos como outros quaisquer. - Maria Dmitrievna apreciava muito os domingos e sabia festej-los. No sbado era a casa cuidadosamente lavada e espanejada; ao domingo tanto ela como o seu pessoal se abstinham de trabalhos manuais, vestiam-se com trajos festivos e iam todos  missa.
     O jantar dos amos era acrescentado com pratos suplementares e a criadagem tinha uma dose de vodka, pato assado ou leito. Mas em nenhum outro rosto, por toda a casa, se espelhava mais festivo ar que na larga e severa cara de Maria Dmitrievna, que por essa altura assumia a expresso imutvel dos dias solenes.
     Quando, depois da missa, tomado j o caf no salo, donde se haviam retirado as capas que cobriam os mveis, vieram anunciar a Maria Dmitrievna que a sua carruagem a esperava, ela, com o seu ar severo, embrulhada no seu xale de cerimnia, levantou-se e declarou que ia a casa do prncipe Nicolau Andreievitch Bolkonski, para com ele ter uma explicao a respeito de Natacha.
     Assim que ela saiu, chegou uma costureira da parte de Madame Chalmet, e Natacha, a quem esta diverso muito agradava, fechou a porta do quarto contguo ao salo e preparou-se para provar o seu novo fato. Vestia ela um corpinho apenas alinhavado e ainda sem mangas e de cabea descada para trs observava no espelho o seu cair nas costas quando ouviu no salo a voz animada do pai e de qualquer outra pessoa, o que a fez corar imediatamente. Era a voz de Helena. Ainda no tivera tempo de despir o corpinho que provara e j a porta se abria e a condessa Bezukov entrava, radiosa no seu bom e afectuoso sorriso, vestida de veludo lils-carregado e gola alta.
     - Ah, minha deliciosa pequena! - exclamou para Natacha, que corara muito. - No, isto  impossvel, meu querido conde - acrescentou, dirigindo-se a Ilia Andreitch, que a seguia. - Viver em Moscovo e no ir a parte alguma! Sim, j os no largo. Esta noite recebo em minha casa. Vamos ouvir Mademoiselle Georges recitar, haver apenas algumas pessoas ntimas. Se no me traz as suas lindas filhas, que valem bem mais do que ela, corto relaes convosco. O meu marido no est, foi para Tvier, caso contrrio pedir-lhe-ia que as viesse buscar. Venham, sem falta, sem falta, s nove horas.
     Saudou com um movimento de cabea a costureira sua conhecida, que lhe fez uma respeitosa reverncia, e sentou-se numa poltrona junto do toucador, ajeitando graciosamente as pregas do vestido de veludo. Num tom jovial e cheio de cordialidade, continuou a tagarelar, a cada momento extasiada perante a beleza de Natacha. Viu uma por urna as toilettes da jovem condessa, elogiou-as muito, pondo em relevo, igualmente, a sua prpria, novinha, de gaze metlica, acabada de chegar de Paris, aconselhando Natacha a que mandasse fazer uma igual.
     - De resto, a si, minha linda, tudo lhe fica bem - acrescentou.
     O rosto de Natacha resplandecia de satisfao. Sentia-se feliz, e toda ela era vida ouvindo os elogios daquela amvel condessa Bezukov, que de princpio se lhe afigurara to altiva e inabordvel e que a tratava agora com tanta simpatia. Contentssima, ei-la pronta a adorar aquela mulher to bela e to boa. Helena, por seu lado, era sincera na admirao que mostrava por Natacha e no desejo que tinha de a distrair. Anatole pedira-lhe que os aproximasse e por essa razo viera a casa dos Rostov. A ideia de aproximar o irmo daquela jovem antolhava-se-lhe divertida.
     Embora tivesse sentido outrora um certo despeito por Natacha lhe haver roubado. Bris, j se no lembrava disso e queria-lhe bem, do corao,  sua maneira. Antes de retirar-se, chamou de parte a sua protegida.
     - Ontem meu irmo jantou em minha casa, amos morrendo a rir... No come e passa a vida a suspirar por si, feiticeira! Est louco, mas louco de amor por si, minha querida.
     Ao ouvir isto. Natacha ficou toda corada.
     - Ai que corada, que corada, minha deliciosa pequena! Ento no falte. Se ama algum, minha deliciosa pequena, no  razo para fazer vida de monja. At mesmo se estiver prometida, tenho a certeza de que o seu prometido preferiria sab-la a fazer vida de sociedade do que a definhar de tdio.
     Ento, ela sabe que eu estou comprometida; naturalmente falaram disso, ela e o marido, com Pedro, esse homem que  a rectido em pessoa dizia de si para consigo Natacha. E riram-se desta aventura. Portanto,  coisa sem importncia...  E subitamente, sob a influncia de Helena, o que ainda h pouco lhe parecia horrvel afigurou-se-lhe tudo que havia de mais simples e natural. E ela, essa grande senhora, to gentil, e que com certeza gosta muito de mim! Realmente, porque me no hei-de distrair?, conclua, pousando em Helena os seus grandes olhos inocentes muito abertos.
     Maria Dmitrievna voltou para casa  hora do jantar. Pelo seu ar taciturno e pensativo via-se que sofrera uma decepo em casa do velho prncipe. Ainda estava demasiado impressionada para poder contar serenamente o que se passara. A pergunta do conde respondeu que tudo corria bem e que no dia seguinte falariam do caso. Ao saber da visita da condessa Bezukov e do seu convite, declarou:
     - No gosto da companhia de Madame Bezukov e no vos aconselho a que vo a sua casa, mas, se lhe prometeste, ento vai.  uma distraco para ti - acrescentou dirigindo-se a Natacha.
     

     
     
     
     Captulo XIII
     
     O conde Ilia Andreich levou as meninas a casa da condessa Bezukov. Havia muita gente nos sales, mas quase todos os convidados eram desconhecidos de Natacha. O pai verificou, pouco satisfeito, que a maior parte eram homens e senhoras conhecidas pela sua liberdade de costumes. Mademoiselle Georges, rodeada de uma corte de rapazes, estava num dos recantos do salo. Havia alguns franceses, entre os quais Mtivier, que se tornara ntimo da casa desde que Helena chegara. O conde Ilia Andreitch resolveu no jogar para no se afastar das filhas e retirar-se assim que a artista houvesse recitado.
     Anatole estava  porta procurando no perder a chegada de Natacha. Depois de cumprimentar o conde, aproximou-se dela e seguiu-a de perto. Esta mal o vira logo sentira, como no teatro, esse estranho sentimento misto de vaidade, por perceber que lhe agradava, e de temor, por verificar que os no separavam quaisquer barreiras morais.
     Helena acolheu alegremente Natacha e extasiou-se em voz alta elogiando-lhe a beleza e o vestido. Pouco depois. Mademoiselle Georges desaparecia do salo para mudar de toilette.
     Principiaram a dispor as poltronas e a mandar sentar os convidados. Anatole trouxe uma cadeira a Natacha e quis sentar-se a seu lado, mas o conde, que no perdia a filha de vista, ocupou o lugar e Anatole sentou-se atrs dela.
     Mademoiselle Georges, com os seus fortes braos desnudados, um xale encarnado atirado para o ombro, avanou pelo espao livre reservado entre as cadeiras e ficou imvel, numa atitude afectada. Pela sala perpassou um sussurro de admirao.
     Depois de percorrer a assistncia com um olhar profundo e sombrio. Mademoiselle Georges principiou a declamar uns versos franceses em que se falava da criminosa paixo de uma mulher pelo prprio filho. Em certos passos elevava a voz, noutros falava baixo, empertigando a cabea soberbamente, e noutros ainda calava-se, suspirando e rolando as pupilas.
     Adorvel, divino, delicioso!, ouvia-se dizer por todos os lados.
     Natacha, de olhos fitos na planturosa Georges, nada percebia, nada via, nada compreendia do que se passava  sua roda. De novo e definitivamente se sentia arrastada para esse mundo louco e estranho, to diferente daquele em que sempre vivera, um mundo onde se no podia distinguir o bem do mal, o razovel do insensato. Atrs dela estava Anatole e, sentindo-o to prximo de si, esperava, numa angstia.
     Findo que foi o monlogo todos se levantaram, rodeando Mademoiselle Georges, a quem manifestavam o seu entusiasmo.
     -  to bonita! - exclamou Natacha para o pai, que tambm se erguera e se dirigia para a actriz levado pela assistncia.
     - No acho quando olho para si - murmurou Anatole, que a seguia, aproveitando uma oportunidade em que s ela o poderia ouvir. -  encantadora... Desde o momento em que a vi nunca mais deixei...
     - Vamos, vamos. Natacha - disse o conde, voltando ao encontro da filha. - Que linda!
     Natacha, sem dizer palavra, aproximou-se do pai, interrogando-o, assustada, com os olhos.
     Depois de declamar ainda algumas cenas. Mademoiselle Georges retirou-se e a condessa Bezukov pediu aos seus convidados que passassem para a sala.
     O conde disps-se a partir, mas Helena implorou-lhe que no lhe estragasse o prazer que tinha naquele baile improvisado. E os Rostov ficaram. Anatole convidou Natacha para danar a valsa, e enquanto danava com ela, apertando-lhe a cintura e as mos, repetia-lhe que a achava encantadora e que a amava. Durante a escocesa, que tambm danaram juntos, no momento em que ficaram ss. Anatole limitou-se a olh-la sem lhe dirigir palavra. E Natacha perguntou-se ento a si mesma se no teria ,sonhado com o que ele lhe dissera enquanto danavam a valsa. No fim da primeira marca, de novo ele lhe apertou a mo. Natacha ergueu para ele uns olhos assustados, mas o olhar terno e o sorriso de Anatole tinham tanta segurana e doura que ela no pde deixar de lhe dizer o que entendia ser obrigao sua. Baixou as plpebras.
     - No me diga essas coisas - pronunciou, rapidamente.- Estou noiva e amo outra pessoa.- E ento olhou para ele. Anatole no parecia nem perturbado nem ofendido com o que ela dissera.
     - No me fale disso. Que me importa? J lhe disse que estou louco, apaixonado loucamente por si. Que culpa tenho eu de que seja encantadora? Somos ns que temos de principiar.
     Natacha, animada e inquieta, olhava sem ver com os olhos assustados, muito abertos, e parecia mais alegre do que de costume. No dava pelo que se passava  sua volta. Danaram a escocesa, e depois o grossvater (Espcie de cotilion. (N, dos T.). O pai quis lev-la, mas ela pediu-lhe que ficassem mais algum tempo. Onde quer que fosse, conversasse com quem conversasse, sentia sobre ela aquele olhar. Depois recordava-se de ter dito ao pai que ia ao toucador arranjar o vestido, e de que Helena a seguira, lhe falara, rindo, do amor do irmo e de que se encontrara com Anatole num pequeno gabinete e de que Helena desaparecera e de que os dois haviam ficado ss e de que Anatole, pegando-lhe nas mos, lhe dissera numa voz cheia de ternura:
     - No posso visit-la em sua casa, mas ser possvel que a no torne a ver? Amo-a loucamente. Ser possvel que nunca?... E, cortando-lhe o caminho, aproximou o seu do rosto dela.
     Dois grandes olhos faiscantes estavam to prximos dos dela que para Natacha tudo o mais deixou de existir.
     - Natlia! - murmurou a sua voz, e Natacha sentiu as suas mos muito apertadas. - Natlia!
     Nada sei, nada tenho que lhe dizer, parecia replicar o seu olhar atnito.
     Uns lbios ardentes premiram os seus e no mesmo instante sentiu-se subitamente livre. Ouviu uns passos e o ruge-ruge do vestido de Helena. Natacha voltou-se, depois olhou para Anatole com uns olhos onde havia angstia e pavor e encaminhou-se para a porta.
     - Uma palavra, uma palavra, por amor de Deus! - prosseguiu Anatole.
     Natacha parou. Precisava de que ele pronunciasse a palavra que lhe explicaria o que acontecera, e a que ela responderia.
     - Natlia, uma palavra, uma palavra apenas - repetia ele, no sabendo, evidentemente, o que havia de dizer, e no deixou de pronunciar estas palavras enquanto Helena se aproximava deles.
     Helena e Natacha regressaram ao salo. Os Rostov retiraram-se antes da ceia.
     De regresso a casa. Natacha no dormiu. No deixava de a atormentar um problema insolvel: a quem amava ela, a Anatole ou ao prncipe Andr? Amava Andr, com certeza, no esquecera quo viva se mantinha a sua afeio por ele. Mas tambm gostava de Anatole, era incontestvel. Se assim no fosse, como poderia ter acontecido o que aconteceu?, dizia ela. Se eu pude, depois, ao despedir-me, responder com um sorriso ao sorriso dele, se pude chegar at a, no querer isto dizer que desde o primeiro momento gostei dele? No querer dizer que ele  bom, nobre e excelente, e que era impossvel no o amar? E no achava resposta para estas angustiosas interrogaes.
     

     
     
     
     Captulo XIV
     
     Chegou a manh com as suas ocupaes e os seus quefazeres quotidianos. Todos se levantaram, se agitaram, tagarelaram. De novo apareceram as modistas. Depois Maria Dmitrievna e todos se reuniram para tomar ch. Natacha, cujos olhos a insnia ainda tornara maiores, como se quisesse impedir que a olhassem fundo nas pupilas, mirava toda a gente com inquietao, esforando-se por parecer igual  Natacha de todos os dias.
     Depois do almoo. Maria Dmitrievna - e era esse o seu grande momento - sentou-se na sua poltrona e chamou para junto de si Natacha e o velho conde.
     - Ora aqui tm, meus amigos: pensei muito em tudo isto, e o meu conselho  este - principiou ela. - Ontem, como sabeis, fui a casa do prncipe Nicolau. E falei com ele... Deu-lhe para gritar. E eu ainda gritei mais. Despejei ali todo o meu saco!
     - E ele, que disse? - inquiriu o conde.
     - Ele  doido.., nada quer ouvir. Para que serve tornar a falar no caso? J atormentmos bastante esta pobre pequena. A minha opinio  esta: trate o conde de resolver as suas coisas e voltem para casa, para Otradnoie.., e esperem ali...
     - No! No! - gritou Natacha.
     - Sim, sim,  preciso voltar para casa - insistiu Maria Dmitrievna - e esperar l. Se o noivo agora aqui aparecesse, era certa uma discusso; mas uma vez s com o velho, saber levar a gua ao seu moinho e depois l ir ter convosco. - Ilia Andreitch aprovou a proposta de Maria Dmitrievna, assimilando imediatamente a prudncia da medida. Se o velho se humanizasse, era sempre tempo de regressarem a Moscovo ou de o procurarem em Lissia Geri. Caso contrrio, no seria possvel casarem sem o seu consentimento seno em Otradnoie.
     - Tem toda a razo - corroborou ele. - Sinto ter ido a sua casa e ter levado comigo minha filha.
     - No tem que se arrepender. Estando em Moscovo, no podia deixar de lhe dar essa prova de cortesia. Mas se ele no quer, que se avenha! - acrescentou Maria Dmitrievna, enquanto procurava fosse o que fosse na algibeira. - E, visto que o enxoval est pronto, no tm que esperar mais tempo. O que faltar eu me encarrego de o expedir. Tenho pena de que se vo embora, mas acho melhor. Ide e fazei boa viagem.
     Tendo encontrado na algibeira o que procurava, entregou-o a Natacha. Era uma carta da princesa Maria.
     - Escreveu-te. Muito sofre ela, coitada! Tem medo de que possas pensar que no gosta de ti.
     - E  verdade, no gosta de mim - disse Natacha.
     - Tolice, no digas isso- exclamou Maria Dmitrievna.
     - Em nada acredito do que me digam; sei muito bem que ela no gosta de mim - insistiu Natacha com deciso, pegando na carta. No seu rosto pintava-se uma resoluo fria e maldosa, que levou Maria Dmitrievna a fit-la com ateno, franzindo o sobrolho.
     - No digas isso, minha santa - censurou ela. - O que te estou a dizer  a verdade. Deves responder-lhe.
     Natacha, sem dar rplica, retirou-se para o seu quarto, disposta a ler a carta.
     A princesa Maria dizia-lhe que o mal-entendido que se estabelecera a deixara num grande desespero. Fossem quais fossem os sentimentos do pai, pedia a Natacha que acreditasse no querer negar o seu afecto quela que fora escolhida por seu irmo, e que estava pronta a tudo sacrificar pela felicidade dela.
     De resto, prosseguia, no pense que meu pai tem qualquer m vontade para consigo.  um velho e um doente, a quem  preciso perdoar; mas no fundo  bom, magnnimo, e acabar por estimar aquela que fizer a felicidade do filho. Maria pedia-lhe depois que lhe marcasse um dia para a tornar a ver.
     Natacha, finda que foi a leitura da carta, sentou-se  mesa disposta a responder. Querida princesa, escreveu, rpida e maquinalmente. Em seguida deteve-se. Que havia ela de dizer depois do que se passara na vspera? Sim, sim, no  a mesma coisa, agora tudo  diferente, disse de si para consigo, diante da carta principiada.  preciso acabar com isto. Mas ser preciso?  horrvel!... E para fugir quelas medonhas ideias foi ter com Snia e ambas se puseram a ver riscos de bordados.
     Depois do jantar. Natacha retirou-se para o quarto e continuou a carta. Ser possvel que tudo tenha terminado j?, pensou. Como  que tudo sucedeu to depressa e to depressa fez esquecer o passado? Lembrou-se do seu amor pelo prncipe Andr ento em plena fora e percebeu ser Kuraguine a quem amava. Ps-se a imaginar-se casada com Andr e a imaginao pintou-lhe diante dos olhos o quadro, tantas vezes evocado, da felicidade que a aguardava junto dele, mas no mesmo instante sentiu que toda a sua alma se incendiava  lembrana do encontro a ss, na vspera, com Anatole.
     Porque no poderei eu amar os dois ao mesmo tempo?, interrogava-se, por vezes, numa perfeita obnubilao de esprito. S ento me sentiria completamente feliz; mas agora tenho de escolher, e privada de um deles nunca mais poderei ser feliz. Confessar a Andr o que se passou ou ocultar-lho  por igual impossvel. Afinal nada aconteceu de irremedivel. Serei eu obrigada a renunciar para sempre ao amor de Andr, esse amor que por tanto tempo foi toda a minha felicidade?
     - Menina - murmurou uma criada, em voz muito baixa e com um ar misterioso, entrando-lhe no quarto! - Olhe o que um homem me deu para lhe entregar. - E a moa passou-lhe uma carta para as mos.- Mas, por Deus... - prosseguiu a criada.
     Natacha, porm, sem lhe responder, arrancou maquinalmente o lacre e leu a carta. No percebeu uma s palavra. Apenas sabia que aquela carta era dele, do homem a quem amava. Sim, amava-o. Se o no amasse, poder-se-ia dar o que estava a suceder? Poderia ela ter entre as suas mos aquela carta apaixonada que ele lhe endereara?
     Nas suas mos trmulas tinha Natacha a carta inflamada de paixo que Dolokov redigira para Anatole e, lendo-a, era como se encontrasse nela ntimas correspondncias com os sentimentos que julgava transbordar-lhe do corao.
     Desde ontem  note que o meu destino est decidido: ou o seu amor ou a morte. No tenho outro caminho! Assim principiava a carta. Depois dizia saber que os pais dela nunca consentiriam em dar-lhe , sua mo, que para isso havia razes secretas que s a ela podia revelar, mas se em verdade ela o amava bastava dizer que sim e no havia foras humanas capazes de se oporem  sua felicidade. O amor vence todos os obstculos. Rapt-la-ia para a levar consigo para o fim do mundo.
     Sim, sim, amo-o!, exclamava Natacha para si mesma, lendo pela vigsima vez aquela carta e deixando-se trespassar por cada uma das suas palavras, como se nelas houvesse um sentido profundo.
     Nessa noite Maria Dmitrievna foi a casa dos Arkarov e props s meninas que a acompanhassem. Natacha, sob o pretexto de que lhe doa a cabea, ficou em casa.
     

     
     
     
     Captulo XV
     
     J tarde, ao regressar a casa. Snia entrou no quarto de Natacha e com grande surpresa sua foi encontr-la a dormir num canap, toda vestida. Na mesa, a seu lado, estava a carta aberta de Anatole. Snia pegou nela ps-se a ler. Enquanto a lia ia olhando para Natacha adormecida, como que a procurar no seu rosto a explicao do que lia e sem conseguir encontr-la. O rosto dela respirava serenidade, felicidade e doura. Levando as mos ao peito para no sufocar. Snia, plida e trmula de emoo e receio, deixou-se cair numa cadeira, rompendo em soluos.
     E eu no dei por coisa alguma. Como puderam as coisas chegar a este ponto? Teria ela deixado de gostar do prncipe Andr? E como pde consentir isto a Kuraguine? No h dvida de que  um impostor e um miservel. Que dir Nicolau, o nobre, o gentil Nicolau, quando vier a saber? Agora j compreendo o que queria dizer aquele rosto transtornado, decidido a tudo, nada natural, que ela tinha nestes ltimos dias, dizia Snia de si para consigo. Mas no, no o pode amar. Naturalmente abriu a carta sem saber de quem vinha.  impossvel que se no tivesse sentido ofendida. No pode fazer uma coisa destas!
     Snia enxugou as lgrimas e aproximou-se de Natacha, examinando-a mais uma vez.
     - Natacha - chamou muito baixo.
     Natacha acordou e viu Snia.
     - J voltaste?
     E, num destes acessos de ternura que se costumam ter ao acordar, lanou-se nos braos da amiga. Ao ver, porm, a emoo que se pintava no rosto de Snia. Natacha perturbou-se tambm e mostrou-se desconfiada.
     - Snia, tu leste a carta? - perguntou ela.
     - Li - murmurou Snia.
     Natacha sorriu vitoriosa.
     - Oh! Snia, no posso, no posso mais esconder-te... Sabes? Amamo-nos!... Snia querida, escreve-me... Snia... Snia, como se no percebesse o que ouvia, olhou para ela com os olhos muito abertos.
     - E Bolkonski? - interrogou.
     - Oh!. Snia, oh!, se tu pudesses saber como sou feliz! - exclamou Natacha. - Mas se tu no sabes o que  o amor...
     - Mas, ento, Natacha, tudo acabou com o outro?
     Natacha olhava para ela, com os olhos muito abertos, como se no compreendesse.
     - Ento rompeste com o prncipe Andr?
     - Oh!, nada percebes. No digas tolices. Ouve... - respondeu Natacha, com impacincia.
     - No, no posso acreditar - repetiu Snia. - Confesso que no compreendo. Quer dizer, tu, durante um ano inteiro, gostaste de um homem, e de repente... Um homem que tu mal viste por duas ou trs vezes. Natacha, no acredito, tu ests a brincar. Em trs dias esqueceres tudo e...
     - Trs dias... - exclamou Natacha. - Tenho a impresso de que o amo h cem anos. Parece-me que nunca amei algum antes dele. No podes compreender... Snia, vem c, senta-te ao p de mim. - E estreitou-a nos braos, depondo-lho um beijo na cara. - Tinha ouvido dizer que estas - coisas acontecem, e com certeza tambm ouviste dizer o mesmo, mas s agora me foi dado sentir um amor assim. Oh!,  muito diferente do outro. Assim que o vi, senti ser aquele o meu senhor e eu a sua escrava, senti que no podia deixar de o amar. Sim, sou a sua escrava! Pode mandar o que quiser, que estou pronta a obedecer. No podes compreender. Mas, diz-me, que posso eu fazer, que posso eu fazer. Snia? - acrescentou com uma expresso de felicidade a que se misturava qualquer coisa de receoso.
     - Pensa no que fazes - tornou Snia. - Eu no posso deixar as coisas assim. Estas cartas recebidas a ocultas... Como pudeste consentir? - continuou com um horror e uma repulsa impossveis de dissimular.
     - J te disse - replicou Natacha. - Deixei de ter vontade. Pois no compreendes? Amo-o!
     - No consentirei, vou contar tudo! - exclamou Snia, rompendo em soluos.
     - Oh, meu Deus!, que ests a dizer?... Se contares alguma coisa considero-te minha inimiga.  que me queres mal,  que queres que nos separem...
     Ao ver o pnico de que Natacha fora tomada. Snia chorou lgrimas de vergonha e compaixo pela amiga.
     - Que houve ento entre vocs? - perguntou. - Que te disse ele? Porque no vem ele a nossa casa?
     Natacha no respondeu  pergunta.
     - Por amor de Deus. Snia, nada digas a ningum, no me faas sofrer - implorou ela. - Lembra-te de que ningum se deve meter nestas coisas. Confessei-te...
     - Porqu todo esse mistrio? Porque no vem ele a nossa casa? Porque no pede ele directamente a tua mo? Realmente, e prncipe Andr deu-te plena liberdade para decidires, caso esta oportunidade surgisse. Mas numa coisa eu no posso acreditar. J pensaste. Natacha, no que podem ser essas razes secretas?
     Natacha fitou em Snia uns olhos assombrados. Era, evidentemente, a primeira vez que esta pergunta lhe vinha ao esprito, e na verdade no sabia responder-lhe.
     - No sei que razes sero essas. Mas devemos crer que as haja!
     Snia suspirou e abanou a cabea com desconfiana.
     - Se h razes... - principiou ela.
     Natacha, adivinhando as dvidas da amiga, interrompeu-a, assustada.
     - Snia, no devemos duvidar dele! No devemos, no devemos, compreendes? - exclamou.
     - Gosta de ti?
     - Se gosta de mim? - redarguiu Natacha com um sorriso de comiserao. - No leste a carta dele, no a leste?
     - E se ele no fosse um homem digno?
     - Ele? Um homem indigno? Se tu o conhecesses!
     - Se  um homem digno - voltou Snia com energia -, deve dizer quais as suas intenes ou ento deixar de te ver. E se tu no lho quiseres dizer, eu me encarregarei disso. Escrever-lhe-ei e contarei tudo ao pai.
     - No posso viver sem ele! - exclamou Natacha.
     - Natacha, no te compreendo. Que ests a dizer? Lembra-te de teu pai, do Nicolau.
     - De ningum preciso, no quero saber de mais ningum seno dele. Atreves-te a dizer que ele no  um homem digno? No sabes que o amo? Snia, vai-te embora! No me quero zangar contigo. Vai-te, vai-te, por amor de Deus! Vai-te! No vs que me fazes sofrer! - Natacha falava com ira e numa voz cheia de desespero. Snia, no podendo suster as lgrimas, retirou-se.
     Natacha sentou-se  sua mesa e sem um momento de reflexo escreveu  princesa Maria a carta que no fora capaz de redigir durante a manh inteira. Em poucas palavras dizia-lhe que o mal-entendido entre elas acabara, que o prncipe Andr, ao partir, lhe dera plena liberdade e que ela aproveitava a sua generosidade. Pedia-lhe esquecesse o que se passara e lhe perdoasse se em alguma coisa a magoara, declarando-lhe que no podia ser mulher de seu irmo. Naquele momento tudo lhe parecia fcil, simples e claro.
     
     Na sexta-feira deviam os Rostov regressar  aldeia, e na quarta-feira o conde dirigiu-se  sua propriedade nas imediaes de Moscovo na companhia de um comprador.
     No dia da partida do conde. Snia e Natacha estavam convidadas para um jantar em casa das Karaguine, e foi Maria Dmitrievna quem as acompanhou. Natacha voltou a encontrar-se com Anatole, e Snia pde ver que ela lhe falava de maneira a no ser ouvida por mais algum e que durante o jantar ainda lhe pareceu mais agitada do que antes. No regresso a casa. Natacha foi a primeira a dar a explicao que Snia esperava da amiga.
     - Vs. Snia, eu bem dizia que s tinhas dito tolices a respeito dele - principiou ela, nesse tom insinuante habitual nas crianas quando querem que as elogiem. - Tivemos uma explicao.
     - E ento? Que te disse ele? Ainda bem que no ests zangada comigo. Natacha. Conta-me toda a verdade. Que te disse? Natacha ficou um momento pensativa.
     - Oh. Snia, se tu o conhecesses como eu o conheo! Disse-me... Perguntou-me em que p estava o meu noivado com Bolkonski. Ficou to contente quando soube que de mim dependia acabar com tudo...
     Snia soltou um profundo suspiro.
     - Mas no acabaste com o Bolkonski - disse ela.
     - E se eu realmente tivesse acabado? Se, efectivamente, tudo tivesse acabado com ele? Porque pensas tu to mal de mim?
     - No penso mal de ti. Mas no percebo...
     - Espera. Snia, j vais compreender tudo. J vais ver como ele . No penses mal nem dele nem de mim.
     - No penso mal de ningum. Gosto de toda a gente e tenho piedade de todos. Mas que hei-de eu fazer?
     Snia no se deixava levar pelas meigas palavras de Natacha. Quanto mais mimados e insinuantes os modos a amiga, mais srio e grave era o seu rosto.
     - Natacha - disse ela -, pediste-me que te no falasse nisso, de nada te falei e s tu a primeira a referires-te ao caso. Natacha, eu no tenho confiana nele. Que significa este mistrio?
     - Outra vez! Outra vez!
     -  que tenho medo por ti. Natacha.
     - De que tens medo?
     - Tenho medo de que te percas - disse Snia, num tom enrgico, como se ela prpria se sentisse assustada com o que estava a dizer.
     O rosto de Natacha de novo assumiu uma expresso de ira.
     - Pois bem, perder-me-ei, perder-me-ei, e quanto antes! Nada tens com isso. O mal ser para mim e no para vs. Deixa-me. Deixa-me. Odeio-te!
     - Natacha! - exclamou Snia, assustada.
     - Odeio-te! Odeio-te! s minha inimiga para sempre!
     E Natacha saiu a correr do quarto.
     No voltou a falar mais com Snia e evitou tornar a encontr-la. Natacha vagueava pela casa com o seu ar perturbado e a sua expresso de pessoa culpada, ora fazendo isto, ora aquilo e sem acabar coisa alguma.
     Embora isso lhe fosse penoso. Snia no perdia de vista Natacha. Na vspera do dia em que o conde devia regressar notou que ela estivera toda a manh  janela do salo como se aguardasse fosse o que fosse e viu-a fazer sinais a um militar que passava pela rua e lhe pareceu Anatole.
     Ento ps-se a observ-la com mais ateno e reparou que durante o jantar e  noite Natacha tinha uma atitude estranha e pouco natural: respondia s perguntas a trouxe-mouxe, principiava frases que no acabava e ria a propsito de tudo.
     Depois do ch viu uma criada muito atrapalhada esperando  porta do quarto de Natacha. Aguardou que ela entrasse, e, escutando  porta, veio a saber que uma nova carta chegara.
     E de sbito Snia compreendeu que Natacha ocultava um projecto inconfessvel para aquela mesma noite. Bateu  porta, mas no a deixaram entrar.
     Vai fugir com ele, disse Snia para si mesma. Capaz disso  ela! Pareceu-me hoje especialmente triste, mas decidida. Ao despedir-se do pai chorou. Sim, estou convencida de que vai fugir com ele; que hei-de eu fazer?, interrogou-se a si prpria, recordando todos os pormenores que podiam revelar o terrvel projecto de Natacha. O conde no est. Que hei-de fazer? Escrever uma carta a Kuraguine a pedir-lhe uma explicao? Quem o obrigaria a responder-me? Escrever ao Pedro, como me recomendou o prncipe Andr se viesse a dar-se alguma desgraa...? Mas no acabou ela com Bolkonski? Efectivamente, foi ontem  noite que ela respondeu  princesa Maria. E o meu tio no est em casa...  Dirigir-se a Maria Dmitrievna, que tinha tanta confiana em Natacha, parecia-lhe horrvel. Seja como for, dizia ela, de si para consigo, no corredor sombrio, chegou agora o momento de mostrar que no esqueo o bem que eles me tm feito e que gosto de Nicolau. Ainda que tenha de passar trs noites sem dormir, deste corredor  que eu no arredo p, e hei-de evitar que ela saia daqui, nem que seja  fora. No consinto que tal vergonha cubra esta famlia!
     

     
     
     
     Captulo XVI
     
     Ultimamente Anatole fora viver para casa de Dolokov. O plano de rapto de Mademoiselle Rostov fora combinado e preparado por este havia vrios dias e devia ser posto em execuo na noite em que Snia, escutando atrs da porta de Natacha, decidira no a perder de vista. Natacha prometera ir ter com Kuraguine s dez horas da noite, saindo pela escada de servio. Anatole met-la-ia numa troika preparada de antemo e conduzi-la-ia a umas sessenta verstas de Moscovo, ao povoado de Kamenka, onde um pope interdito os devia consorciar. Em Kamenka estaria preparada uma muda, que os levaria para mais longe, pela estrada de Varsvia, donde, na mala-posta, seguiriam para o estrangeiro.
     Anatole arranjara um passaporte, um livre-trnsito, dez mil rublos, que a irm lhe havia emprestado, e mais outros dez mil, que conseguira por intermdio de Dolokov.
     As testemunhas. Kvostikov, um antigo amanuense que Dolokov utilizava nas suas operaes de jogador, e Makarine, hssar na reserva, homem franco e ingnuo, de uma ilimitada dedicao por Kuraguine, estavam sentadas na sala de espera tomando ch.
     No amplo gabinete de Dolokov, revestido de alto a baixo de tapetes persas, peles de urso e armas, o dono da casa, de bechem de viagem e botas altas, estava sentado diante da secretria aberta, onde havia contas e maos de notas. Anatole, com o uniforme desabotoado, andava de um lado para o outro, entre a sala onde estavam as testemunhas, atravessando o gabinete e um quarto das traseiras, onde o seu criado francs, ajudado por outros, preparava as bagagens. Dolokov contava o dinheiro e anotava as somas.
     - Bom, ento  preciso dar dois mil rublos ao Kvostikov.
     - Pois d-lhos - replicava Anatole.
     - Makarka - assim tratava Makarine - de nada precisa. Era capaz de se deitar a afogar por ti. Bom, as contas esto prontas - disse Dolokov, mostrando-lhe a nota. Est bem?
     - Com certeza - replicou Anatole, que evidentemente nada ouvira e olhava vago na sua frente, sempre com o mesmo sorriso.
     Dolokov fechou a secretria e dirigiu-se em tom zombeteiro a Anatole:
     - Sabes o que te digo? Ainda ests a tempo, deixa-te disso!
     - Imbecil! - exclamou Anatole. - No digas tolices. Se soubesses... S o Diabo sabe o que isto !
     - Falo srio; deixa-te disso - insistiu Dolokov. - Estou a falar-te a srio. Estars convencido de que se trata de uma brincadeira?
     - L ests tu outra vez. Vai para o diabo que te carregue! - exclamou Anatole, franzindo o sobrolho.- Palavra, no estou com disposio de te ouvir dizer tolices. - E fez meno de sair do gabinete.
     Dolokov sorriu, ao mesmo tempo formalizado e condescendente.
     - Escuta, peo-te pela ltima vez. Para que havia eu de estar a brincar contigo? Porventura te levantei algum obstculo? Quem preparou tudo, te arranjou um pope, te obteve um passaporte, te conseguiu dinheiro? Eu.
     - Pois bem, e estou-te agradecido. Julgas talvez que te no estou reconhecido? - E Anatole, suspirando, abraou Dolokov.
     - Ajudei-te, mas, no entanto, devo dizer-te a verdade: a aventura  perigosa, e, se nos pomos a pensar nela,  mesmo estpida. Bom, tu rapta-la, est bem. Mas julgas que vo deixar as coisas assim? Ho-de acabar por saber que s casado. Sers chamado aos tribunais...
     - Tolices, tolices - contraveio Anatole, contrariado. - Pois no te expliquei eu j, hem? - E Anatole, com a obstinao prpria das pessoas pouco inteligentes sempre que tomam uma resoluo, repetiu o raciocnio que lhe expusera j centos Ge vezes. - J te expliquei. Aqui tens o que eu resolvi. - E, contando pelos dedos: - primeiro, se este casamento no  vlido, no tenho qualquer responsabilidade; segundo, se  vlido, estou-me nas tintas: ningum saber disso no estrangeiro. No  assim? E nem mais uma palavra, nem mais uma palavra, nem mais uma palavra!
     - Ouve o que te digo: deixa-te disso! Vais enterrar-te...
     - Vai para o Diabo! - vociferou Anatole, e com as mos na cabea saiu do gabinete, para voltar em seguida a sentar-se, escarranchado numa poltrona, mesmo diante do amigo. - S o Diabo sabe o que isto ! Olha, repara como - ele bate - pegou-lhe na mo e pousou-a sobre o corao - Ah, que ps, meu caro, que olhar! Uma deusa!
     Dolokov, sorrindo friamente, olhava para ele com os seus belos olhos insolentes e brilhantes, divertido, evidentemente,  custa do amigo.
     - Acaba-se o dinheiro, e depois?
     - Depois? - repetiu Anatole, repentinamente embaraado diante de tal perspectiva. - Depois? Sei l! E depois, deixa-te de tolices. So horas! - acrescentou, consultando o relgio.
     Entrou no quarto das traseiras.
     - Ento, esta pronto? Que esto para a a fazer? - gritou para os criados.
     Dolokov guardou o dinheiro, chamou um dos criados, para que ele lhes trouxesse qualquer coisa para comer antes da abalada, e entrou na sala onde estavam Kvostikov e Malcarine.
     Anatole, estiraado no div do gabinete, sorria, pensativo, enquanto sua bela boca ia balbuciando palavras ternas.
     - Vem comer qualquer coisa! - gritou-lhe Dolokov da outra sala.
     - No tenho fome - replicou Anatole, sem deixar de sorrir.
     - Anda, j a est o Blaga.
     Anatole levantou-se do div e entrou na sala de jantar. Blaga era um afamado postilho de troika, que havia cinco ou seis anos servia os dois amigos; recorriam frequentes vezes aos seus servios. Mais de uma vez, quando o regimento de Anatole estava em Tvier, o trouxera de noite daquela cidade: chegava a Moscovo de madrugada e voltava a lev-lo na noite no dia seguinte. Por vrias vezes conseguira livrar Dolokov dos apuros que o perseguiam. Passeara os dois pela cidade na companhia de ciganos e senhoritas, como costumava dizer. E at, ao bater as ruas com eles, atropelara pessoas e sempre aqueles senhores, como ele dizia, o tinham livrado de complicaes. Que de cavalos ele rebentara j ao seu servio! Muitas vezes o tinham emborrachado, enfrascando-o de champanhe e madeira, o seu vinho predilecto, e a verdade era estar no segredo de aventuras que a outros, que no a eles, de h muito os teriam atirado para a Sibria. Convidavam frequentes vezes Blaga para as suas orgias, obrigavam-no a danar e a beber em casa dos ciganos e j lhe tinham passado pelas mos muitos milhares de rublos. Arriscava a vida e a pele mais de vinte vezes por ano para lhes ser agradvel e j rebentara cavalos que o dinheiro que eles lho haviam dado, a ganhar no pagava de modo algum. Mas gostava deles  sua maneira; morria por aquelas corridas loucas, a dezoito verstas  hora, adorava fazer os cocheiros de praa virarem os ps por cima da cabea e esmagar os pees nas ruas de Moscovo, lanando-se depois  desfilada. Gostava de ouvir vozes avinhadas gritar-lhe, frenticas: Mais depressa! Mais depressa!, quando j lhe no era possvel ir mais veloz. O que ele gostava de chicotear a nuca dos camponeses que, mais mortos do que vivos, se no voltavam a tempo! So uns senhores s direitas, dizia de si para consigo.
     Por seu lado, tanto Dolokov como Anatole tinham Blaga em alta conta, grande mo de rdea, que era, e em matria de gosto afinavam uns pelos outros. Quando se tratava de outras pessoas, fazia os seus preos, pedia vinte e cinco rublos por uma corrida de duas horas, sendo raro tambm ser ele a conduzir quando eram outros os fregueses, e nesse caso mandava um dos seus moos. Com aqueles senhores, porm, como costumava dizer, era ele quem aparecia em carne e osso e nunca pedia fosse o que fosse. Quando sabia pelos criados que eles tinham dinheiro, coisa que acontecia urna vez de dois em dois ou de trs em trs meses, aparecia pela manh, sem ter bebido, e pedia-lhes que o livrassem de apuros. Ento aqueles senhores mandavam-no sempre sentar.
     Acuda-me, meu paizinho Fiodor Ivanovitch, ou ento: Excelncias, estou sem cavalos. Tenho de ir  feira: emprestem-me o dinheiro que puderem.
     Anatole e Dolokov, quando abonados, davam-lhe sempre mil ou dois mil rublos.
     Blaga era um campons dos seus vinte e seis anos, louro, corado, de pescoo vermelho e cheio, membrudo, de nariz arregaado, olhos vivos e uma barbicha curta. Usava cafet azul com forro de seda por cima da pelia,
     Benzeu-se ao passar pelo recanto dos cones e aproximou-se de Dolokov, estendendo-lhe a mo negra.
     - Boas noites. Fiodor Ivanovitch! - disse, inclinando-se.
     - Boas noites, irmo! Ora aqui est ele!
     - Boas noites. Excelncia - repetiu, para Anatole, que acabava de entrar, estendendo-lhe igualmente a mo.
     - Ouve. Blaga - disse-lhe Anatole, batendo-lhe no ombro. s realmente meu amigo? Ento, presta-me um servio... Que cavalos tens tu? Hem?
     - Aqueles que me mandou trazer, os seus, os fogosos.
     - Ento, ouve. Blaga! Arrebenta a tua troika, mas quero que me ponhas l em trs horas, hem!
     - Se arrebento os cavalos, como havemos de l chegar? - observou Blaga, malicioso.
     - Deixa-te de graas ou apanhas dois estalos! - gritou Anatole, subitamente, com os olhos fora das rbitas.
     - Porque no hei-de brincar? - volveu o cocheiro, sorrindo. - J alguma vez disse que no a estes senhores? Enquanto os cavalos puderem, est visto.
     - Bom! - exclamou Anatole - Vamos, senta-te.
     - Senta-te, no ouves? - insistiu Dolokov.
     - Estou bem de p, Fiodor Ivanovitch.
     - Tolice! Senta-te e bebe - voltou Anatole, enchendo-lhe um copzio de madeira.
     Ao ver o vinho os olhos do cocheiro coriscaram. Primeiro recusou, por cortesia, e depois bebeu de um trago, limpando os beios com um tabaqueiro de seda vermelha que trazia no fundo do bon.
     - Ento quando abalamos, Excelncia?
     - Pois - imediatamente - disse Anatole, consultando o relgio. - E toma tento. Blaga, hem!  preciso chegar a horas.
     - Depende da partida. Se estivermos com sorte... E porque no havemos ns de chegar a horas? - tomou Blaga. - Pois no viemos uma vez de Tvier em sete horas? Lembras-te. Excelncia?
     - Sim,  verdade, uma vez, pelo Natal, viemos de Tvicr - disse Anatole sorrindo. Lembrava-se muito bem. E, voltando-se para Makarine, que o olhava cheio de devoo, de olhos muito abertos. - No calculas. Makarka, at nos cortava a respirao, to depressa vnhamos. A certa altura deparou-se-nos um comboio de carros: passmos por cima de duas galeras. Que te parece?
     - Tambm aquilo  que eram cavalos! - prosseguiu Blaga, e, dirigindo-se a Dolokov: - Tinha atrelado dois animais novos ao meu alazo claro. Acredita. Fiodor Ivanovitch, aqueles diabos fizeram de uma tirada sessenta verstas. No havia quem os segurasse. Tinha as mos dormentes. Gelava que era um louvar a Deus! Acabei por abandonar as rdeas. Pegue nelas. Excelncia. No podia mais e deixei-me cair no fundo do tren. No s no era preciso toc-los, como custava a ter mo neles. Aqueles diabos fizeram o percurso em trs horas! S o da esquerda se foi abaixo.
     

     
     
     
     Captulo XVII
     
     Anatole desapareceu, voltando da a pouco com uma pelia cingida  cintura por uma correia com fivela de prata, um gorro de zibelina posto gaiatamente  banda e que muito bem lhe ficava ao rosto. Depois de passar os olhos pelo espelho e na postura em que se mirara postou-se diante de Dolokov e bebeu de um trago um copo de vinho.
     - Bom. Fdia, adeus! Obrigado por tudo. Adeus! - exclamou. - Camaradas, amigos da minha mocidade, vamos - acrescentou, pensativo, dirigindo-se a Makarine e aos outros- Adeus!
     Embora todos o acompanhassem. Anatole queria dar um tom solene e comovido quela despedida. Falava alto e devagar, enchendo o peito e abanando uma perna.
     - Vamos beber todos, tu tambm. Blaga. Camaradas, amigos da minha mocidade, passmos juntos muitos anos e muita loucura fizemos. Quando nos tornaremos a ver? Vou para o estrangeiro. Adeus, rapazes! Levmo-la direita! A vossa sade! Bebeu de um trago e jogou o copo ao cho.
     - A sua sade! - disse Blaga, virando tambm o seu copo e limpando a boca com o tabaqueiro.
     Makarine, os olhos rasos de lgrimas, abraou-se a Anatole.
     - Oh, prncipe! Custa-me tanto separar de ti - murmurou.
     - Vamos! A caminho! - comandou Anatole.
     Blaga ia sair.
     - Espera! Um momento! - interrompeu Anatole. - Fecha a porta, sentemo-nos todos. Ali, assim.
     Fecharam a porta e toda a gente se sentou.
     - E agora, a caminho, rapazes! - exclamou Anatole, erguendo-se.
     Joseph, o criado, entregou-lhe uma maleta e o sabre e todos saram para o vestbulo.
     - Onde est a pelia? - perguntou Dolokov. - Eh! Ignatka! Vai num rufo pedir a pelia a Matriona Matvievna, uma rica zibelina. Sim, eu sei como estas coisas se fazem, os raptos - acrescentou, piscando o olho- A pequena vai sair de casa, mais morta do que viva, tal como est. Basta um pequeno atraso e l vm as lgrimas, o pap e a mam e ela toda a tremer de frio e a querer voltar para casa... Mas tu embrulha-la logo ali na pelia e mete-la no tren.
     Um lacaio veio com um casaco de mulher de pele de raposa.
     - Imbecil! Eu no te disse que era de zibelina? Eh. Matrioshka! A capa de zibelina! - gritou numa voz to forte que ressoou por toda a casa.
     Uma linda cigana, magra e plida, de olhos pretos, muito brilhantes, e caracis negros cheios de reflexos, como a asa de um corvo, um xale vermelho pelas costas, apareceu com a capa de zibelina.
     - Julgas que tenho pena dela? Toma-a, leva-a - disse, visivelmente intimidada diante do amo e cheia de pena pela perda da pelia.
     Dolokov, sem lhe responder, pegou na capa, assentou-a nas costas de Matrioshka, e embrulhou-a nela.
     - Assim, e depois assim - disse, levantando a gola de sorte que s lhe ficava de fora parte da cara. - E depois assim, vs? - E obrigou Anatole a espreitar pela abertura atravs da qual se via brilhar o sorriso da cigana.
     - Bom, adeus. Matrioshka - disse Anatole, beijando-a. Acabaram-se todas as minhas loucuras aqui! Diz adeus por mim a Stiochka. Vamos, adeus, adeus. Matrioshka. Deseja-me sorte!
     - Que Deus lhe d todas as venturas, prncipe! - murmurou Matrioshka, com o seu sotaque cigano.
     A porta estavam duas troikas com dois postilhes a postos. Blaga subiu para a primeira e, erguendo os cotovelos, apanhou as rdeas sem pressas. Anatole e Dolokov sentaram-se na sua troika. Makarine. Kvostikov e os criados tomaram lugar na outra.
     - Tudo pronto? - perguntou Blaga. - Avante! - gritou enrolando as rdeas em volta do brao, e o tren despediu a galope pela Avenida Nikitski.
     - Oh! Oh!... Avante!... Oh! Oh!... - gritavam Blaga e o rapaz sentado a seu lado.
     Na Praa Arbatskaia a troika abalroou outro carro. Ouviu-se um estampido, depois um grito e ela a vai direita ao seu destino. Depois de ter percorrido de ponta a ponta Podnovinski. Blaga refreou os cavalos e, voltando para trs, foi parar na encruzilhada da Rua Staraia Koniushina.
     O moo saltou do assento para pegar no brido dos cavalos. Anatole e Dolokov meteram pelo passeio. Ao chegar junto do porto. Dolokov assobiou. Respondeu-lhe outro assobio e  porta apareceu uma criada.
     - Entre para o ptio. Aqui podem v-lo. A menina j a vem - disse ela.
     Dolokov ficou junto do porto. Anatole seguiu a criada, contornou o recanto do ptio e galgou os degraus da escada. Gavrila, um homenzarro que tratava dos cavalos de Maria
     Dmitrievna, saiu ao encontro de Anatole.
     - A senhora quer falar consigo, faa favor - disse, numa voz de baixo, cortando-lhe o caminho.
     - Que senhora? Quem s tu? - perguntou Anatole, numa voz entrecortada.
     - Faa favor, tenho ordens para isso.
     - Kuraguine! Para trs! - gritou Dolokov. - Fomos trados! Raspa-te!
     Dolokov, que ficara no porto, lutava com o porteiro, que tentava fechar a porta para no deixar sair Anatole. Apelando para todas as suas foras, conseguiu empurrar o porteiro. Depois, agarrando um brao de Anatole, que aparecera, correndo, puxou-o para a rua e ambos deram s de vila-diogo em direco  troika que os esperava.
     

     
     
     
     Captulo XVIII
     
     Maria Dmitrievna encontrara Snia a chorar no corredor e obrigara-a a contar-lhe tudo. Depois de apanhar a carta de Natacha e de a ter lido, apresentou-se no quarto dela com o papel na mo.
     - Miservel! Desavergonhada! - gritou-lhe. - No quero ouvir nem uma palavra.
     Empurrando Natacha, que, assustada, olhava para ela com os olhos enxutos, fechou-a  chave, e depois de ter dado ordens ao porteiro para deixar entrar as pessoas que aparecessem naquela noite, no as deixando, porm, sair, disse ao criado que lhas trouxesse  sua presena e sentou-se no salo  espera dos raptores.
     Quando Gavrila lhe veio anunciar que eles tinham fugido, levantou-se; de sobrolho carregado e de mos atrs das costas ps-se a passear na sala, reflectindo sobre o que devia fazer.
      meia-noite, apalpando a chave na algibeira, apresentou-se no quarto de Natacha. Snia estava no corredor, a soluar.
     - Maria Dmitrievna, deixe-me entrar consigo, peo-lhe! - suplicou.
     Maria Dmitrievna abriu a porta sem lhe responder e entrou. Que vergonha!... Que porcaria!... Debaixo do meu tecto... Miservel! M filha!... S tenho pena do pai! , dizia de si para consigo, procurando refrear a clera que a tomava. Embora no seja fcil, farei com que todos se calem e o conde nada h-de saber. Entrou no quarto de Natacha num passo decidido.
     Esta, estiraada no div, com a cabea nas mos, sem se mexer, continuava na posio em que Maria Dmitrievna a deixara.
     - Muito bem, muito bonito! - exclamou ela. - Na minha casa, receber amantes na minha casa! Escusas de esconder! Ouve quando te falam! - Maria Dmitrievna tocou-lhe no brao. Ouve quando te falam. Portaste-te como uma desavergonhada! Eu bem sei o que devia fazer.., mas tenho pena de teu pai. Nada lhe direi.
     Natacha no se mexeu, mas todo o seu corpo estremeceu. Soluos secos e convulsivos a sufocavam. Maria Dmitrievna trocou um olhar com Snia e veio sentar-se ao lado dela.
     - Ele teve sorte em escapar. Mas hei-de apanh-lo - disse ela, na sua voz rude. - Ouves o que estou a dizer-te?
     Passou a grande mo pelo queixo de Natacha e obrigou-a a virar-se para ela. Maria Dmitrivena e Snia ficaram aterradas com a expresso que lhe viram. Seus olhos estavam brilhantes e sem uma lgrima, os seus lbios cerrados, as suas faces cavadas.
     - Deixem-me... Quero l saber... Vou morrer... - murmurou, libertando-se, com um saco, de Maria Dmitrievna e retomando a sua primeira postura.
     - Natlia!... - disse Maria Dmitrievna - S quero o teu bem. Deixa-te estar deitada, deixa-te estar assim, no te tocarei, mas ouve... No preciso de te dizer da culpabilidade que te cabe. Tu bem sabes. Mas o teu pai chega amanh. Que lhe hei-de dizer? Hem!
     De novo estremeceu, abalada pelos soluos.
     - H-de sab-lo, sim, e teu irmo, e teu noivo tambm!
     - J no tenho noivo, acabei - gritou Natacha bruscamente.
     - Tanto faz - prosseguiu Maria Dmitrievna.- Seja como for, ho-de saber tudo. Julgas que deixaro as coisas assim? E o teu pai, conheo-o muito bem... E se o desafiar para um duelo, vai ser bonito, hem?
     - Oh, deixe-me. Porque estragou tudo? Porqu? Quem lhe pediu? - gritou Natacha, soerguendo-se e olhando para Maria Dmitrievna com uns olhos irados.
     - E tu, que querias tu fazer? - exclamou a pobre senhora, exaltando-se. - Tnhamos-te fechada, porventura? Quem o impedia de vir a nossa casa? Porque havia ele de te raptar como se fosses uma bomia? E se te tivesse raptado, julgas que o no encontrariam? Ou o teu pai, ou o teu irmo, ou o teu noivo... Um desavergonhado, um valdevinos,  o que ele !
     - Vale mais que todos vs! - gritou Natacha, empertigando-se. - Se me no tivessem impedido... Oh, meu Deus! Porqu? Porqu? Snia, porqu? Deixem-me!
     E rompeu a chorar com tanto desespero como s choram aqueles que se sentem a causa das suas prprias infelicidades. Maria Dmitrievna quis ainda dizer qualquer coisa, mas Natacha ps-se a gritar: - Vo-se embora! Vo-se embora! Todos me odeiam, todos me detestam! - E voltou a deixar-se cair sobre o div.
     Maria Dmitrievna ainda esteve algum tempo a exort-la, dizendo-lhe ser preciso ocultar tudo do conde e que ningum saberia coisa alguma desde que Natacha prometesse esquecer e evitasse que qualquer coisa chegasse aos ouvidos fosse de quem fosse. Natacha no respondeu. Deixara de chorar, mas agora arrepios de febre a faziam estremecer. Maria Dmitrievna ps-lhe uma almofada debaixo da cabea, cobriu-a com dois cobertores e trouxe-lhe uma chvena de tlia. Natacha, porm, continuava calada.
     - Bom, deixemo-la dormir! - disse Maria Dmitrievna, retirando-se, persuadida de que Natacha adormecera.
     Natacha no dormia porm, e os seus olhos, muito abertos, no rosto plido, olhavam fixamente diante de si. Toda a noite esteve sem dormir, sem chorar, sem dizer nada a Snia, que vrias vezes se levantou para vigi-la.
     No dia seguinte,  hora do almoo, como prometera, chegou o conde Ilia Andreitch, de regresso das suas propriedades nas imediaes de Moscovo. Vinha muito contente. Tudo ficara resolvido com o comprador e j nada o retinha em Moscovo e longe da condessa, de quem se sentia muito saudoso.
     Maria Dmitrievna foi ao seu encontro e contou-lhe que a filha estivera muito doente na vspera, que mandara chamar o mdico, mas que estava agora muito melhor. Natacha nessa manh ficou no quarto. De lbios fechados e a tremer de frio, os olhos secos e fixos, permaneceu  janela, observando ansiosamente o vaivm dos transeuntes, e voltando-se, de sbito, sempre que algum entrava no seu quarto. Aguardava, evidentemente, notcias de Anatole, esperava que ele se apresentasse pessoalmente ou lhe escrevesse.
     Quando o conde entrou. Natacha estremeceu ao ouvir passos de homem, mas assim que o reconheceu a expresso tomou-se--lhe fria e teve mesmo um movimento de irritao. Nem sequer se levantou.
     - Que tens, meu anjo, ests doente? - perguntou-lhe o pai. 
     Natacha ficou calada.
     - Sim, estou doente - acabou por dizer.
     Inquieto, o conde quis saber porque estava ela to abatida e se acontecera alguma coisa entre ela e o noivo. Natacha garantira-lhe que nada acontecera, pedindo-lhe que se no atormentasse, e Maria Dmitrievna confirmou junto do conde as palavras de Natacha. Apesar de tudo, o conde, diante da doena simulada de Natacha e da expresso embaraada de Snia e Maria Dmitrievna, percebeu que alguma coisa de grave ocorrera durante a sua ausncia. A verdade, porm,  que a, ideia de que poderia ter acontecido alguma coisa capaz de afectar a dignidade da sua filha preferida o assustava de tal modo, e to amigo era da sua tranquilidade, que tratou de no fazer perguntas, persuadindo-se de que nada de anormal tinha ocorrido e limitando-se a lastimar que a doena de Natacha viesse retardar o seu regresso  aldeia.
     

     
     
     
     Captulo XIX
     
     Pedro, desde que a mulher chegara a Moscovo, passava a vida a arranjar pretextos para sair de casa, a fim de no se ver obrigado a encontrar-se com ela. A impresso que lhe fizera Natacha, aquando da sua viagem, ainda mais concorrera para acelerar a realizao dos seus propsitos. Dirigiu-se a Tvier, a casa da viva de Osip Alexeievitch, que h muito lhe prometera confiar-lhe os papis de seu defunto marido.
     De regresso a Moscovo, entregaram-lhe uma carta de Maria Dmitrievna, que lhe pedia viesse a sua casa por causa de um assunto muito importante que dizia respeito a Andr Bolkonski e  noiva. Pedro procurava no ver Natacha. Para si mesmo dizia que ela lhe inspirava um sentimento mais vivo do que aquele que seria razovel na sua qualidade de homem casado e amigo do noivo. No entanto, o destino parecia comprazer-se em reuni-los a cada passo.
     Que ter acontecido? E que tenho eu a ver com isso?, cogitava ele enquanto se preparava para dirigir-se a casa de Maria Dmitrievna. O que  preciso  que o Andr venha quanto mais depressa melhor e que eles tratem de se casar, pensou, j a caminho.
     Ao passar pela Avenida de Tvier, algum chamou-o.
     - Pedro, j chegaste h muito tempo? - gritou-lhe uma voz conhecida. Levantou a cabea. Num tren tirado por dois cavalos cinzentos que levantavam nuvens de neve passaram junto dele Anatole e o seu inseparvel camarada. Makarine. Anatole aprumava-se no assento, na clssica postura dos militares elegantes, o mento enterrado na gola de castor, a cabea ligeiramente inclinada. Tinha a pele rosada e fresca, e o chapu, com uma pluma branca, posto ao lado, deixava ver os cabelos frisados e cheios de brilhantina, salpicados de uma poeira de neve muito fina.
     Ora ali est um homem com juzo!, exclamou Pedro. No tem olhos para ver mais longe que o prazer do momento. Nada o preocupa e por isso passa a vida alegre, contente e tranquilo! E olhou-o com inveja. Que no daria eu para me parecer com ele?
     No vestbulo de Madame Akrosiuova, o criado, enquanto o ajudava a despir a pelia, disse-lhe que Maria Dmitrievna lhe pedia que subisse ao seu quarto.
     Ao abrir a porta do salo viu Natacha sentada , janela, de rosto afilado e plido, com uma expresso dura e m. Olhou para ele, franzindo as sobrancelhas, e desapareceu, afectando uma reserva fria.
     - Que aconteceu? - perguntou Pedro, ao entrar no quarto de Maria Dmitrievna.
     - Lindas coisas! - exclamou ela. - H cinquenta e oito anos que ando c por este mundo e nunca tive ocasio de presenciar uma vergonha assim.
     E depois de ter exigido de Pedro a sua palavra de honra de que no abriria a boca acerca do que ela lhe diria, contou-lhe que Natacha desfizera o casamento sem nada dizer  famlia e que a culpa era de Anatole Kuraguine, que a mulher de Pedro lhe apresentara e com quem Natacha pensava fugir, na ausncia do pai, para com ele casar secretamente.
     Pedro, de ombros encolhidos e a boca aberta, ouvia toda aquela histria sem poder acreditar nos seus ouvidos. Pois qu, a noiva bem-amada do prncipe Andr, a encantadora Natacha Rostov, preferia a Bolkonski o imbecil do Anatole, homem casado alis (Pedro estava a par do seu casamento secreto), e a tal ponto gostava dele que consentia que a raptasse? Eis o que Pedro no podia compreender nem admitir.
     No lhe era possvel consentir que no seu esprito se associasse a simptica e encantadora figura de Natacha, que ele conhecia desde pequena, a tanta baixeza, a tanta estupidez, a tanta crueldade. Lembrou-se da sua prpria mulher. So todas iguais, dizia de si para consigo, pensando que, no fim de contas, nem s a ele cabia o triste privilgio de estar ligado a uma mulher desprezvel. E no entanto vieram-lhe as lgrimas aos olhos ao lembrar-se do prncipe Andr, sofrendo pelo seu ferido orgulho. E quanto mais lastimava o amigo maior era o seu desprezo pela Natacha que havia momentos passara por ele afectando um ar de fria dignidade. Mal sabia ele que a alma de Natacha transbordava ento de desespero, de vergonha, de humilhao, no sendo culpada de trazer afivelada aquela mscara fria e severa.
     - Qu? Casar? - balbuciou Pedro. - Ele no pode casar-se, j  casado.
     - Era o que faltava - suspirou Maria Dmitrievna. -  fresco, o menino! Que canalha! E a est ela  espera, h dois dias que espera. Que ao menos deixe de esperar.  preciso que saiba.
     Depois de tomar conhecimento dos pormenores do casamento de Anatole. Maria Dmitrievna aliviou a sua clera, soltando violentas injrias, e explicou a Pedro porque mandara cham-lo. Receava que o conde ou mesmo Bolkonski, capaz de chegar de um momento para o outro, viessem a saber do caso, que ela, pela sua parte, estava disposta a esconder-lhes, e desafiassem Kuraguine para um duelo. Eis porque lhe rogava que pedisse em seu nome ao cunhado que sasse de Moscovo e que nunca mais ali aparecesse. Pedro prometeu-lhe que o faria, e s ento se apercebeu do perigo que ameaava ao mesmo tempo o velho conde. Nicolau e o prncipe Andr. Exps-lhe, pois, em poucas palavras e com clareza o que queria dele e acompanhou-o ao salo.
     - Cuidado, o conde de nada sabe. Finja nada saber - pediu-lhe ela. - Por mim, vou dizer a Natacha que escusa de esperar. E fica para jantar, se te apetece - acrescentou na sua grossa voz.
     Pedro dirigiu-se ao velho conde, que parecia profundamente perturbado. Nessa mesma manh Natacha dissera-lhe que desfizera o noivado com Bolkonski.
     - Que desgraa, que desgraa, meu caro! - exclamou ele -, quando lhes falta a me. No calcula a pena que tenho de ter feito esta viagem. Vou ser franco consigo. Pois no sabe? Despediu o noivo sem dizer coisa alguma a ningum. Realmente nunca me entusiasmou muito este casamento. Sim, bem sei,  um homem s direitas, mas, pois no  verdade?, uma pessoa no pode ser feliz quando age contra a vontade de seu pai, e a Natacha no faltam pretendentes. Mas o que  certo  que isto j durava h muito, e dar semelhante passo sem consultar nem o pai nem a me!... E para a est doente, s Deus sabe com qu! Ah, conde, tudo corre mal, tudo corre mal quando falta a me a uma filha...
     Pedro, ao ver o conde to comovido, procurou mudar de assunto, mas ele voltava sempre  sua preocupao.
     - Natacha no passa bem de sade. Est nos seus aposentos e queria falar consigo. Maria Dmitrievna est ao p dela e tambm lhe queria falar.  verdade, como  amigo de Bolkonski, naturalmente querer mandar-lhe algum recado - acrescentou o conde. - Meu Deus, meu Deus, e ia tudo to bem!
     E, levando as mos aos escassos cabelos que tinha ainda na cabea, saiu do salo.
     Maria Dmitrievna dissera a Natacha que Anatole j era casado. Esta no quisera acreditar em tal e pedira a Pedro que viesse junto dela confirmar o facto. Eis o que Snia explicou a Pedro enquanto o acompanhava ao quarto de Natacha.
     Natacha, plida e de severa expresso, ao lado de Maria Dmitrievna, assim que o viu surgir no limiar da porta pousou nele uns olhos interrogativos em que se sentia brilhar a febre. No teve um sorriso nem um movimento de cabea. Limitou-se a fita-lo obstinadamente e no seu olhar apenas se lia uma pergunta: estava diante de um amigo ou de um inimigo, como todos os outros, no que dizia respeito a Anatole? Era evidente que Pedro, em si prprio, naquele momento, no existia para ela.
     - Pedro sabe tudo - disse Maria Dmitrievna, apontando para ele. - Ele que diga se faltei  verdade.
     Natacha, tal um animal perseguido, e j ferido, que v aproximar ces e caadores, olhava com uns olhos vagos e errantes. 
     - Natlia Ilinitchna - principiou Pedro, baixando os, olhos, tomado de uma profunda piedade por ela e de um invencvel desgosto pelo que se via obrigado a dizer. - Verdade ou mentira, isso deve-lhe ser indiferente, porque...
     - Ento no  verdade que est casado?
     - Sim,  verdade.
     - Est casado, e h muito tempo? - insistiu ela. - Palavra de honra?
     Pedro deu-lhe a sua palavra de honra.
     - Ainda c est? - perguntou Natacha vivamente.
     - Est. Acabo de o encontrar.
     Natacha no teve foras para dizer mais e fez com a mo um gesto a suplicar que a deixassem.
     

     
     
     
     Captulo XX
     
     Pedro no ficou para jantar; depois disto saiu do aposento e abalou. Andou por toda a cidade  procura de Anatole Kuraguine. S pensar nele lhe fazia afluir o sangue ao corao e o deixava sem flego. No estava nas montanhas, nem com os ciganos, nem em casa de Coraneno. Dirigiu-se ao clube. Ali tudo na mesma: os scios que vinham jantar formavam vrios grupos. Cumprimentaram Pedro e puseram-se a falar dos casos do dia.
     Um criado, familiarizado com os hbitos de Bezukov, depois de lhe ter feito uma vnia, disse-lhe que a sua mesa estava reservada na salinha de jantar, que o prncipe Fulano se encontrava na biblioteca e que Sicrano ainda no chegara.
     Um dos seus conhecidos, entre outras coisas triviais, perguntou-lhe se ouvira dizer que Mademoiselle Rostov fora raptada por Kuraguine, caso de que muito se falava em Moscovo, e se era verdade. Pedro replicou-lhe, rindo, ser um absurdo, pois acabava de sair de casa dos Rostov. A toda a gente perguntou por Anatole. Algum disse-lhe que ele ainda no chegara, e houve tambm quem o informasse de que viria jantar com toda a certeza. Pedro observava com um estranho sentimento aquele agregado de pessoas tranquilas e indiferentes completamente alheias ao que se estava a passar na sua alma. Andou a vaguear pelos sales, aguardando que toda a gente chegasse, e, vendo que Anatole no aparecia, decidiu no jantar e voltar para casa.
     Anatole naquele dia jantara em casa de Dolokov e conferenciara com ele acerca da maneira de reparar o que falhara. Parecia-lhe indispensvel tornar a ver Mademoiselle Rostov. A noite dirigiu-se a casa da irm para lhe falar na maneira de conseguir um encontro com Natacha. Quando Pedro, depois de ter percorrido debalde toda a cidade, voltou para casa, soube pelo criado que o prncipe Anatole Vassilievitch se encontrava com a condessa. O salo de Helena estava cheio.
     Sem cumprimentar a mulher, a quem no via desde que voltara a Moscovo - mais do que nunca a odiava naquele momento -, Pedro penetrou no salo da condessa, viu Anatole e foi direito a ele.
     - Ah. Pedro!... - exclamou a condessa, aproximando-se. No imaginas o estado em que est Anatole...
     Calou-se ao ver na atitude do marido, na sua cabea baixa, nos seus olhos brilhantes, no seu passo enrgico, aqueles terrveis sinais de ira e violncia que ela to bem conhecia e cujos efeitos experimentara aquando do duelo com Dolokov.
     - Onde a senhora estiver s h depravao e maldade - pronunciou Pedro. - Anatole, venha c, preciso de lhe falar - acrescentou em francs.
     Anatole olhou a irm e levantou-se docilmente, disposto a seguir Pedro. Este, pegando-lhe por um brao, arrastou-o consigo para fora do salo.
     - Como se atreve, na minha sala... - ia a dizer Helena, em voz baixa, mas Pedro saiu da sala sem lhe responder.
     Anatole seguiu o cunhado com a sua arrogncia habitual, embora houvesse inquietao nos traos do seu rosto.
     Assim que entrou no gabinete. Pedro fechou a porta e dirigiu-se a Anatole sem olhar para ele.
     -  verdade que prometeu casar com a condessa Rostov e que a quis raptar?
     - Mon cher - replicou Anatole em francs (foi em francs, de resto, que se travou todo o dilogo) - no me julgo obrigado a responder a perguntas formuladas nesse tom.
     O rosto de Pedro, plido at ento, surgiu descomposto pelo furor. Agarrando Anatole, com as suas grossas mos, pela gola do uniforme, ps-se a sacudi-lo de um lado para o outro de tal maneira que um indizvel terror se pintou na cara do rapaz.
     - Se eu lhe disse que precisava de falar consigo... - repetia Pedro.
     - Que  isto? Est doido! - exclamou Anatole, apalpando a gola, em que o boto arrancado pendia juntamente com um pedao de pano.
     - O senhor  um canalha, um bandido, no sei porque lhe no rebento a cabea com isto - exclamou Pedro, exprimindo-se um pouco artificiosamente, pois falava em francs.
     Pegara num bojudo pesa-papis, erguera-o num gesto de ameaa e voltara a dep-lo sobre a mesa.
     - Prometeu casar com ela?
     - Eu, eu, acho que no. De resto, no lhe prometi coisa alguma, visto que...
     Pedro cortou-lhe a palavra:
     - Tem cartas dela? Tem cartas dela? - repetiu, aproximando-se dele.
     Anatole fitou-o, e imediatamente, metendo a mo ao bolso, tirou a carteira.
     Pedro pegou na carta que Anatole lhe estendia e, afastando a mesa, que o estorvava, deixou-se cair no div.
     - No serei violento, por isso no tem nada a recear - disse, em resposta a um gesto receoso de Anatole. - Primeiro as cartas... - continuou como se repetisse de cor uma lio. - Depois... - acrescentou, aps uma pausa, em seguida  qual se ergueu e se ps a andar de um lado para o outro. - Em segundo lugar amanh vai sair de Moscovo.
     - Mas como hei-de poder...
     - Em terceiro lugar - continuou Pedro sem lhe dar ouvidos -, a ningum deve dizer uma palavra acerca do que se passou entre o senhor e a condessa. Bem sei que no o posso proibir, mas se ainda lhe resta um vislumbre de conscincia...
     Pedro continuou, em silncio, a sua caminhada.
     Anatole estava sentado  mesa, de sobrancelhas carregadas e mordendo os lbios.
     -  impossvel que o senhor no compreenda que independentemente dos seus prazeres pessoais h a felicidade e a tranquilidade das outras pessoas;  impossvel que no compreenda que deita a perder uma vida inteira apenas porque lhe apetece divertir-se. Se isso lhe agrada, divirta-se com mulheres no gnero da minha, tem direito a isso: essas sabem perfeitamente o que o senhor pretende delas. Esto armadas contra o senhor pela mesma experincia da devassido. Mas prometer casamento a uma donzela.., engan-la.., rapt-la... Ser possvel que no compreenda que  vilania to grande como bater num velho ou numa criana?!
     Pedro calou-se e fitou Anatole, j no com ira, mas interrogativamente.
     - No sei - disse Anatole, ganhando audcia  medida que Pedro dominava a sua clera. - No sei nem quero saber - prosseguiu, olhando-o e com um nervoso movimento do queixo -, mas o senhor disse-me coisas.., o senhor pronunciou a palavra covarde e ainda outras, palavras que eu, como um homem de honra, a ningum posso admitir.
     Pedro olhou-o com espanto, sem perceber onde ele queria chegar.
     - Embora isto se tenha passado s entre ns - prosseguiu eu no posso...
     - Qu? Est a exigir de mim uma reparao? - murmurou Pedro, em tom sarcstico.
     - Pelo menos podia retirar as suas expresses! Se quer que cumpra as suas condies, hem?
     - Retiro-as, retiro-as - disse Pedro - e peo-lhe desculpa - acrescentou, lanando um olhar ao boto arrancado de Anatole. - E se tiver necessidade de dinheiro para a viagem...
     Anatole sorriu. Este sorriso tmido e covarde, que Pedro conhecia por t-lo visto na mulher, exasperou-o.
     - Oh, raa vil e sem corao! - exclamou, saindo do gabinete.
     No dia seguinte Anatole partia para Petersburgo.
     

     
     
     
     Captulo XXI
     
     Pedro dirigiu-se a casa de Maria Dmitrievna para lhe comunicar que o seu desejo fora satisfeito, que Kuraguine sara de Moscovo. Toda a gente l em casa estava consternada e abatida. Natacha adoecera gravemente e Maria Dmitrievna contou em segredo a Pedro que naquela noite, quando ela soubera que Anatole era casado, tomara arsnico, que conseguira arranjar s escondidas. Depois de ter ingerido uma pequena dose, to assustada ficou que foi acordar Snia, a quem revelou o que fizera. Como haviam empregado a tempo os meios mais enrgicos, estava livre de perigo, mas to fraca que era impossvel pensar em lev-la para a aldeia e que tinham mandado vir a condessa. Pedro foi encontrar o conde compungido e Snia desfeita em lgrimas, mas no pde ver Natacha. Nesse dia jantou no clube. Por toda a parte se falava na tentativa de rapto de Mademoiselle Rostov, empenhando-se ele opiniosamente em refutar essa atoarda, garantindo a toda a gente que nada mais houvera alm de um pedido de casamento da parte de seu cunhado, pedido que fora mal sucedido. Pedro pensava ser obrigao sua esconder a verdade, salvando, assim, a reputao de Natacha.
     Esperava aterrorizado o regresso do prncipe Andr e todos os dias ia saber dele a casa do velho prncipe.
     O prncipe Nicolau Andreievitch fora informado por Mademoiselle Bourienne do que se dizia na cidade e lera a carta que Natacha escrevera  princesa Maria considerando o noivo desobrigado da palavra dada. Parecia mais alegre do que habitualmente e aguardava, impaciente, a chegada do filho.
     Alguns dias depois da partida de Anatole. Pedro recebeu um bilhete do prncipe Andr comunicando-lhe que regressara a Moscovo e pedindo-lhe que passasse por sua casa.
     Assim que chegara fora o prncipe Andr informado pelo pai do teor da carta de Natacha  irm, carta esta furtada  princesa Maria por Mademoiselle Bourienne e por ela entregue ao prncipe. Alm disso o pai tivera o cuidado de lhe contar, consideravelmente ampliado, o que se dizia sobre o rapto de Natacha.
     Pedro foi a casa do prncipe Andr na manh seguinte ao dia da sua chegada. Julgando encontr-lo num estado semelhante ao de Natacha, grande foi o seu espanto ao ouvir, no momento em que entrava no salo, a bem timbrada voz de Andr, que no seu gabinete contava, animado, uma intriga recente de Petersburgo. O velho prncipe e uma pessoa desconhecida interrompiam-no de quando em quando. Ao encontro de Pedro veio a princesa Maria. Num suspiro, apontou-lhe com os olhos a porta do quarto do irmo, procurando deste modo mostrar quanto sentia o desgosto de Andr, mas Pedro viu claramente na sua expresso que ela estava satisfeita com o que acontecera e com a maneira como ele recebera a notcia da traio da noiva.
     - Disse que j contava com isso - observou ela. - Compreendo que o orgulho lhe no deixe exprimir o que sente, mas a verdade  que recebeu a notcia melhor do que eu esperava. Evidentemente que assim tinha de ser...
     - Ser possvel que tudo tenha acabado? - perguntou Pedro.
     A princesa Maria olhou-o surpreendida. Nem sequer compreendia que se pusesse o problema. Pedro penetrou no gabinete.
     O prncipe Andr,  paisana, muito mudado, e naturalmente com melhor aspecto, mas com uma nova ruga entre as sobrancelhas, estava de p diante do pai e do prncipe Mechtcherski e discutia acaloradamente, gesticulando com energia. Falava-se de Speianski, da notcia do seu repentino exlio e da sua pretensa traio, que acabava de se espalhar em Moscovo.
     - Agora, todos os que h um ms se entusiasmavam com ele esto prontos a acus-lo e a conden-lo - dizia o prncipe Andr -, gente incapaz de compreender o alcance das suas medidas.  muito fcil julgar um homem quando cai em desgraa e atribuir-lhe ento todos os erros alheios. Pois bem, na minha opinio, entendo que se alguma coisa de bom se fez no actual reinado a ele e s a ele se deve.
     Calou-se ao ver entrar Pedro. Um estremecimento nervoso lhe perpassou pelo rosto, denotando de sbito uma violenta irritao.
     - A posteridade se encarregar de lhe fazer justia - concluiu. E depois, voltando-se para Pedro: - Ah!, s tu? Continuas a engordar - disse com vivacidade, enquanto se lhe cavava mais funda a nova ruga da testa. - Sim, isto vai melhor! - replicou ele, sorrindo, em resposta a uma pergunta de Pedro acerca da sua sade.
     Este sorriso queria dizer, e assim o compreendeu Pedro: Sim, bem sei, mas ningum precisa de saber se estou bom de sade.
     Depois de ter trocado algumas palavras com Pedro sobre o medonho estado das estradas entre a fronteira da Polnia e Moscovo, de lhe ter falado de umas pessoas que encontrara na Sua, e que eram das relaes do amigo, e de ter aludido a Monsieur Dessalles, que consigo trouxera do estrangeiro para dirigir a educao do filho. Andr enfronhou-se de novo com entusiasmo na discusso sobre Speranski, que prosseguia entre os dois velhos.
     - Se houvesse traio e se existissem provas da sua conivncia secreta com Napoleo, j a esta hora seriam conhecidas - disse ele com uma apaixonada vivacidade - Pessoalmente no gosto de Speranski, mas sou pela equidade.
     Pedro via que o amigo sentia a necessidade - necessidade que to bem lhe conhecia - de entusiasmar-se e discutir qualquer assunto estranho para assim mais facilmente esquecer pensamentos ntimos demasiado penosos.
     Quando o prncipe Mechtcherski se retirou. Andr travou do brao de Pedro e conduziu-o ao quarto expressamente preparado para si. Estava ali uma cama armada e no cho havia malas e bas abertos.
     O prncipe Andr aproximou-se de um deles e pegou numa caixa. Dentro estava um pacote embrulhado em papel. Tudo isto ele fez muito depressa e sem dizer palavra. Depois soergueu-se, tossicando. A expresso era taciturna e tinha os lbios cerrados.
     - Desculpa se te incomodo...
     Pedro compreendeu que ele lhe queria falar de Natacha e no seu cheio rosto pintaram-se-lhe compaixo e simpatia. A irritao de Andr foi maior ainda. Prosseguiu, num tom cortante e resoluto, mas que soava a falso:
     - A condessa Rostov repudiou-me e ouvi falar de um pedido de casamento do teu cunhado ou de qualquer coisa no mesmo gnero.  verdade?
     -  verdade e no  - principiou Pedro, mas Andr interrompeu-o:
     - Aqui tens as cartas dela e o seu retrato - articulou.
     Pegou no mao de papis e entregou-o a Pedro.
     - Entrega isto  condessa.., quando a vires.
     - Est muito doente - disse Pedro.
     - Ah! Ainda est em Moscovo? E o prncipe Kuraguine? - perguntou, precipitadamente.
     - Abalou h dias. Ela esteve  morte...
     - Tenho muita pena - replicou, sorrindo com uma expresso fria, m, desagradvel, muito parecida com a do pai.
     - Pelo que veio, o Sr. Kuraguine no se dignou conceder a sua mo  condessa Rostov? - disse ele.
     Por vrias vezes pareceu fungar.
     - No podia casar com ela; j  casado - observou Pedro. 
     O prncipe Andr ps-se a rir, exactamente como o pai.
     - E onde est ele neste momento, o teu cunhado, pode saber-se?
     - Foi para Peters... Isto , no tenho a certeza.
     - Sim, pouco importa - comentou Andr. - Peo que digas, da minha parte,  condessa Rostov que ela sempre foi e continua a ser completamente livre e que lhe desejo muitas felicidades.
     Pedro pegou no mao das cartas. O prncipe Andr, como se a si prprio perguntasse se no estaria a esquecer-se ainda de qualquer coisa ou como se aguardasse que Pedro dissesse fosse o que fosse, interrogou-o com os olhos.
     - Escute; lembra-se da nossa discusso em Petersburgo? - murmurou Pedro. - Lembra-se...
     - Lembro-me - apressou-se Andr a responder - Dizia-te que era preciso perdoar  mulher que cai, mas eu no disse que lhe podia perdoar. Eu no posso.
     - Podem comparar-se as duas situaes? - observou Pedro.
     Andr interrompeu-o. Em tom sarcstico exclamou:
     - Sim, pedir de novo a sua mo, ser magnnimo e outras coisas do mesmo teor?... Sim,  muito nobre, mas no me sinto capaz de ficar reduzido a apanhar-lhe as migalhas. Se queres que eu continue a ser teu amigo nunca mais me fales no caso. Bom, ento adeus! Est combinado, tu entregas-lhe...
     Pedro foi dali aos aposentos do velho prncipe e da princesa Maria.
     O velho parecia mais animado do que de costume. Maria continuava a mesma, mas Pedro via claramente que na compaixo que ela mostrava pela infelicidade de Andr se traa a alegria que lhe causava o desmanchar daquele casamento. Observando-os, pde compreender o desdm e a inimizade que ambos nutriam pelos Rostov, e percebeu que no seria possvel sequer pronunciar na sua presena o nome daquela que fora capaz de trocar o prncipe Andr por um homem qualquer.
     A mesa falou-se da guerra, que parecia iminente. O prncipe Andr no parava de falar e de discutir, ora com o pai ora com Dessalles, o preceptor suo, e mais do que nunca dir-se-ia dominado por uma excitao cuja causa Pedro conhecia muitssimo bem.
     

     
     
     
     Captulo XXII
     
     Nessa mesma noite. Pedro foi ter com os Rostov a fim de dar cumprimento  sua misso. Natacha estava de cama, o conde fora para o clube e Pedro, depois de entregar as cartas a Snia, procurou Maria Dmitrievna, ansiosa por saber como o prncipe Andr acolhera o caso. Passados uns dez minutos. Snia apareceu tambm nos aposentos de Maria Dmitrievna.
     - Natacha quer ver sem falta o conde Pedro Kirillovitch - disse ela.
     - Como assim? H-de ir ao quarto dela, onde est tudo desarrumado? - disse Maria Dmitrievna.
     - Arranjou-se e espera por ele no salo - voltou Snia.
     Maria Dmitrievna limitou-se a encolher os ombros.
     - Quando chegar a condessa? J no posso mais. Tem cuidado no lhe digas tudo - recomendou a Pedro. - No h coragem para a censurar:  to infeliz, to infeliz!
     Natacha, magra, plida e com uma expresso severa, mas sem de modo nenhum denunciar a mais pequena humildade, como Pedro esperava, recebeu-o de p no meio do salo. Ao v-lo aparecer no limiar da porta teve um movimento de hesitao, como que indecisa, sem saber se devia aproximar-se ou aguardar que ele viesse para ela.
     Pedro apressou o passo. Julgou que ela lhe ia estender a mo como de costume, mas, ao aproximar-se viu-a imvel, a respirao opressa e os braos cados, numa atitude exactamente igual  que costumava tomar outrora quando cantava, embora fosse muito diferente a sua expresso.
     - Pedro Kirillovitch - principiou ela numa voz precipitada -, o prncipe Bolkonski era seu amigo;  seu amigo - rectificou. Dir-se-ia que para ela nada havia do que existira e que tudo era diferente agora. - Disse-me ento que me dirigisse a si...
     Pedro fitava calado, a respirao opressa. At quele momento no fizera outra coisa seno censur-la no fundo do seu corao, esforando-se por desprez-la. Naquele momento, porm, tamanha era a piedade que ela lhe inspirava que no lhe passava pela cabea dirigir-lhe qualquer censura.
     - Ele est c... Diga-lhe.., que me per.., que me perdoe. 
     Natacha calou-se, o peito a arfar, mas sem uma lgrima.
     - Sim.., dir-lhe-ei - replicou Pedro -, mas...
     No sabia que dizer.
     Natacha, assustada com a ideia que poderia ter acorrido a Pedro, disse-lhe vivamente:
     - No, sei muito bem que tudo acabou. Nunca mais poder recompor-se. A nica coisa que me atormenta  o mal que lhe causei. Mas diga-lhe que lhe peo me perdoe, me perdoe, me perdoe...
     Um estremecimento nervoso lhe percorreu todo o corpo. Sentou-se numa cadeira.
     Um sentimento de piedade como nunca experimentara at ento inundou a alma de Pedro.
     - Dir-lhe-ei, dir-lhe-ei tudo.., mas desejaria saber uma coisa...
     Saber o qu?, perguntavam os olhos de Natacha.
     - Desejaria saber se amou...- Pedro perguntou-se a si mesmo se devia pronunciar o nome de Anatole, e este pensamento f-lo corar... - se amou esse malvado?
     - No lhe chame malvado - disse Natacha. - No sei, j nada sei...
     Rompeu a chorar. Um sentimento de piedade, de ternura e de amor mais veemente ainda inundou a alma de Pedro. Sentia as lgrimas a escorrerem pelos vidros das lunetas e desejava que ela se no apercebesse disso.
     - No falemos mais nisso, minha amiga - disse ele.
     Esta voz doce, terna, em que vibrava uma nota profunda, surpreendeu Natacha.
     - Deixemos isso minha amiga, dir-lhe-ei tudo, mas s uma coisa lhe peo;  que de hoje para o futuro me considere seu amigo. Se precisar de auxlio, de conselho, se algum dia sentir a necessidade de abrir o seu corao a algum, agora no, quando puder olhar com clareza para dentro de si mesma, lembre-se de mim. - Pegou-lhe na mo e beijou-a. - Sentir-me-ei muito feliz, se for capaz...
     Pedro perturbou-se.
     - No me fale assim, eu no o mereo! - exclamou Natacha, fazendo meno de retirar-se. Pedro, contudo, reteve-a. Sabia haver ainda qualquer coisa para lhe dizer. Pronunciadas que foram porm as suas palavras, ele prprio se surpreendeu.
     - No, no, no diga isso: tem a vida toda diante de si murmurou ele.
     - Eu? No, para mim tudo acabou - replicou ela num sentimento em que havia vergonha e humildade.
     - Tudo acabou! - repetiu ele.- Se eu no fosse quem sou, se fosse o mais belo e o mais inteligente dos homens sobre a Terra, e se fosse livre, pedir-lhe-ia, neste mesmo momento, de joelhos, a sua mo e o seu amor.
     Natacha, pela primeira vez de h muito tempo para c, foi acometida de um ataque de choro, choro de reconhecimento e de emoo, abandonando a sala com um olhar de agradecimento.
     Pedro saiu logo atrs dela, refugiando-se, por assim dizer, no vestbulo, enquanto sufocava as lgrimas de felicidade que lhe haviam subido aos olhos. E, enfiando a pelia ao acaso, subiu para o tren que o aguardava.
     - Aonde vamos agora? - perguntou o cocheiro.
     Aonde vamos?, repetiu Pedro de si para consigo. Aonde poderemos ir agora? Ao clube ou fazer visitas? Tudo se lhe afigurava to miservel, to pobre, em comparao com os sentimentos de amor e doura que o tinham invadido com aquele olhar comovido e cheio de reconhecimento, velado de lgrimas, que Natacha pousara nele.
     - Para casa - gritou Pedro, que, apesar de dez graus abaixo de zero, abrira a pelia de urso e deixava dilatar de felicidade o seu largo peito.
     Nevava, mas o tempo estava muito claro. Ao alto das ruas sujas e quase em trevas, por cima dos telhados negros, alastrava um cu escuro salpicado de estrelas. S a contemplao dessas altas esferas permitia a Pedro evadir-se do aflitivo contraste entre a baixeza do que  humano e os nobres sentimentos que lhe enchiam a alma. Ao chegar  Praa de Arbate, viu, por cima da cabea, uma vasta toalha de cu estrelado. Quase no centro deste horizonte, ao alto da Avenida Pretchistenski, cercado de estrelas por todos os lados, mas avultando no meio de todas elas, muito mais prximo, com a sua branca luminosidade e a sua longa cabeleira arqueada na ponta, surgia o brilhante e enorme cometa de 1812, esse mesmo cometa, dizia-se, pressgio de grandes desgraas e do fim do mundo. A verdade, porm,  que esta luminosa estrela, com a sua longa cabeleira cintilante, no despertou o mais pequeno terror em Pedro. Muito pelo contrrio: olhava-a com os olhos cheios de lgrimas. Dir-se-ia que depois de haver percorrido, a uma velocidade incalculvel, espaos incomensurveis, seguindo uma curva parablica, se imobilizara, de sbito, como uma flecha que se crava na terra, no ponto que escolhera naquele negro cu e ali estava plantada, a cabeleira hirsuta, espelhando as cintilaes da sua branca claridade no meio de um sem-nmero de outras cintilantes estrelas. Pedro sentia que aquele astro vinha acordar na sua alma, toda aberta, uma vida nova, comovida e reconfortada.
     
     FIM DO VOLUME PRIMEIRO
     
